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Archive for the ‘Sagrada Família’ Category

Solenidade da Epifania do Senhor

Da cidade real, onde julgavam dever encontrar o rei, os Magos dirigem-se à pequena cidade de Belém. Entram no estábulo e encontram um recém-nascido envolto em panos. Não se aborrecem com o estábulo, nem se chocam com os panos: prostram-se, veneram-no como rei, adoram-no como Deus.
São Bernardo de Claraval

Domingo da Epifania, domingo dos Magos. Desde a nossa infância, no tempo do Natal, esses personagens foram se insinuando em nossa atenção e em nosso coração. Já estava lá o presépio na sala da casa. De repente, no dia 6 de janeiro, se tirava de uma caixa de papelão essas três figuras com coroas e presentes, montados em camelos e dando ao singelo presépio uma tonalidade um tanto grandiosa. Misteriosos personagens. Apenas Mateus faz alusão a essa visita inopinada e inesperada. O evangelista diz que eram Magos, nada mais. Depois pensadores e homens da mística nos disseram que eles, de alguma forma, representam a peregrinação dos buscadores de Deus rumo à casa do Altíssimo. Peregrinos de Deus. Que significado tem para nós esse episódio que vai fechando o ciclo do Natal?

É a nossa história, o relato de nossa aventura humana que aí estão retratados. Mateus nos fala que vieram de longe, guiados pela estrela, obstinados vencedores da imensidão dos desertos questionam as autoridades locais a respeito do nascimento do Menino. Vencem obstáculos e adoram o Deus grande na simplicidade das coisas mais simples: uma casa de pobres e uma frágil criança, um menino envolto em panos.

Buscadores sinceros de Deus! Que bom se esta afirmação fosse verdadeira para nós e nossos tempos. Muitos de nós nascemos no seio de famílias católicas e fomos sendo envolvidos em ritos e símbolos. Passamos a viver uma “religião”. Fomos batizados e recebemos os outros sacramentos. Alguns tiveram a chance de viver numa família esclarecida. Outros foram vivendo separando a vida da fé. A fé, tenha talvez passado alguma coisa pessoal, privada e nada mais. Tais pessoas foram perdendo o fogo do Evangelho. Deus não pode um ser mero acessório, um à coté, ao lado daquilo que chamamos de vida. O que conta não é a vida?

Há, aqueles que tiveram uma catequese por demais sumária e meramente nocional e que depois de um certo tempo deixaram tudo. No começo formularam perguntas. Foram achando Deus mudo demais. Alheio a tudo. Para alguns Deus morreu. Ou nunca tenha existido.

Há aqueles que, interpelados pelo maravilhoso, pelo inesperado ou pelo trágico da vida sentiram brilhar uma estrela, o frágil cintilar de uma estrela: o nascimento de um filho, a ameaça de fracasso do casamento, uma derrocada financeira, o inferno das drogas, a visita de uma pessoa que parecia um anjo a cair do céu.

Há os que encontram ou reencontram a fé frequentando as páginas dos evangelhos e tentando descobrir o Deus de Jesus Cristo nas parábolas, nos ditos do Mestre, na esperança que saía da boca e da figura de Jesus. São pessoas que, aos poucos, vão dando suas mãos a Levi e a Zaqueu. Vão se identificando com filho pródigo e sentem o abraço do Pai das misericórdias. Essas pessoas começam a abrir tesouros e presentes ao Deus que cativa.

Muitos chegam a descobrir a Deus na dedicação aos outros. Sentem-se felizes quando podem ser para e sendo para desconfiam que assim é Deus…Ser para… E lembram-se das aulas de catecismo onde haviam aprendido que quando dão um copo de água fria ao menor de seus irmãos é a Jesus que o ofertam.

Deus que vem nos visitar e chega na simplicidade de um nascimento e termina seus dias no alto de uma cruz completamente injustiçado e despojado, até de suas vestes. Um Deus que não mora nas alturas, mas chega perto de cada um de nós. O Menino deitado nas palhas, no despojamento total é a verdadeira luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo. Veio para todo o orbe. Fora dele não há claridade. Através dos tempos fomos vendo a procissão dos peregrinos iluminados pela estrela da fé. Jesus mesmo um dia haveria de afirmar que Deus se revela aos pequenos e humildes e se esconde dos satisfeitos. Os Magos representam os homens e as mulheres que carregam questionamentos e interrogações, que não estão satisfeitos com a vida pela metade, que buscam um sentido mais pleno dos dias que vivem. Pertencem ao irrequietos de coração de que fala Agostinho de Hipona.

Texto para a meditação e reflexão

Hoje, os Magos que procuravam o Senhor resplandecente nas estrelas, o encontram num berço. Hoje os Magos veem claramente envolvido em panos aquele que há muito tempo buscavam de modo obscuro nos astros. Hoje os Magos contemplam maravilhados, no presépio, o céu na terra, a terra no céu, o homem em Deus, Deus no homem e incluído no corpo pequenino de uma criança, aquele que o universo não pode conter. Vendo-o proclamam sua fé e não discutem oferecendo-lhe místicos presentes, incenso a Deus, ouro ao rei e mirra ao que havia de morrer (São Pedro Crisólogo).

Publicado em Paróquia Santo Antônio do Pari.

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Natal 2019: Jesus nasce em Belém (Rumo à Santidade)

Jesus nasce em Belém

Nascimento de Jesus em Belém

A Luz veio ao mundo

O nascimento de Jesus (cf. Lc 2, 1-20) é contemplado pela Liturgia da Igreja sob o símbolo da Luz: «Ó Deus, que fizestes resplandecer esta noite santa com a claridade da verdadeira luz!»; «O povo que caminhava na escuridão viu uma grande luz»; «Hoje surgiu a luz para o mundo: o Senhor nasceu para nós».

Todas essas expressões são um eco das palavras do prólogo do Evangelho de São João:

No princípio era o Verbo […] e o Verbo era Deus. […] Nele estava a Vida, e a vida era a Luz dos homens. […] Era a Luz verdadeira, que vindo ao mundo, ilumina todo homem […]. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (Jo 1, 1 seg.)

Neste capítulo, a nossa meditação quer ser mais contemplativa: ajudar-nos a voltar os olhos e o coração para Jesus Menino, que repousa sobre as palhas do Presépio, envolto nos paninhos que a Mãe lhe preparou, de modo a sentirmos o impulso de agradecer-lhe a sua entrega «por nós, homens e para a nossa salvação», e de adorá-lo: Meu Senhor e meu Deus!

O Menino que vemos deitado na manjedoura é Deus feito homem. É o Redentor que vem para nos salvar.

Tanto amou Deus o mundo – diz o Evangelho após a conversa de Jesus com Nicodemos – que lhe deu seu Filho único. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3, 16-17)

Este é o coração da nossa fé! O Menino nos dá a certeza de que Deus, que é amor, nos ama com loucura. Deus é amor! – escrevia são João. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado o seu Filho único, para que vivamos por Ele (1 Jo 4, 8-9).

Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou… O mistério da Encarnação extasiava esse Apóstolo e o levava a dizer na sua primeira Carta (1, 1): Nós o vimos com os nossos olhos, nós o contemplamos, nós o ouvimos, nós o tocamos com as mãos…! E, como que lamentando a tristeza dos que são incapazes de «ver», acrescentava: Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor (4, 8).

Sinais do Amor, tesouros do Amor

Jesus nos ama – a você, a mim, a cada um – com toda a força do seu Amor divino e humano. É um amor que tem dois sinais da autenticidade. Em primeiro lugar, é uma doação plena. Um amor que não se dá não é amor. Mas não é um dar-se qualquer, é uma doação que visa o nosso bem. E aí está o segundo sinal: todo verdadeiro amor quer bem, quer o bem, dá-se procurando o bem da pessoa amada.

Qual é o bem que Jesus nos traz? Todos os bens! A vida divina – Deus em nós – aqui na terra e a vida eterna. Desse tesouro, nós podemos extrair especialmente três riquezas:

• A riqueza da Verdade que Ele nos ensina.
• A riqueza do Caminho do Céu, que Ele nos mostra com o seu exemplo e a sua palavra.
• E a riqueza da Vida nova dos filhos de Deus – concedida pela graça do Espírito Santo -, que chega até nós a partir do seu Coração trespassado na Cruz.

Tudo isso resumiu-o Jesus, na Última Ceia, numa só frase: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Meditemos nessas palavras.

Eu sou a Verdade. Vem à memória a alegria do pai de São João Batista, Zacarias – marido de santa Isabel -, quando, no dia do nascimento de João, profetizou o próximo nascimento de Jesus como fruto da

ternura e misericórdia do nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz (Lc 1, 78-79)

Desde antes de nascer, Jesus já é anunciado como o Sol, como a luz, a luz da Verdade, que nos guiará para a paz.

Já percebeu que a Verdade que Ele nos traz não é uma verdade qualquer: é a verdade- verdadeira? É – como dizia são João Paulo II – «a Verdade sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo» (Cf. Carta Encíclica Redemptoris Missio, 07.12.1990, n. 3; e Carta Encíclica Redemptor Hominis, 04.03.1979, n. 12).

Mas essa Verdade – como Jesus explicava – é parecida com a «semente» na mão do semeador (cf. Mt 13, 1-23; Mc 4, 1-20; Lc 8, 1-15). Pode perder-se no caminho, cair sobre as pedras ou entre espinhos, e morrer; ou pode cair numa boa terra e dar fruto.

Se procurarmos acolher a Verdade – com maiúscula -, a nossa vida irá sendo reflexo da vida de Cristo Jesus, e nada deste mundo poderá abalar a nossa fé.

Aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha (Mt 7, 24-27).

Uma casa que nem a chuva, nem o vento, nem as tormentas conseguirão derrubar.

Eu sou o Caminho. Olhe para Jesus Menino. Descobrirá que toda a vida dele – desde que nasceu até que subiu ao Pai -, é uma irradiação de exemplo, é a sinalização luminosa do caminho que leva para Deus.

É lógico que Cristo nos diga: Segue-me!… Porque nos quer bem. Ele nos compara às ovelhas que Ele, o Bom Pastor, conduz com segurança entre brumas, penhascos e perigos, até o lugar do repouso. Ele é o Bom Pastor, que anda na frente, marcando o rumo com as suas pegadas.

Se nos acostumarmos a ler e meditar todos os dias o Evangelho, para conhecer cada vez mais a fundo a vida e o exemplo de Cristo, entenderemos (e praticaremos) o que dizia São Paulo:

Progredi no amor, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou como oferenda e sacrifício de suave odor (Ef 5, 2).

O Amor cristão não é fumaça nem perfumaria; não é uma teoria, não é uma paixão que arde e se evapora. Ou ele se manifesta por obras e de verdade – com frase são João (1 Jo 3, 18) – ou é uma miragem. Deve se concretizar na prática das virtudes: deve ser um amor generoso, compreensivo, dedicado, paciente, constante, forte na adversidade, caridoso, gentil, prestativo, e justo e discreto… Um amor que cada dia cresce na entrega a Deus e ao próximo.

Eu sou a Vida. Com o olhar e o coração fixos no Menino, pensemos na terceira coisa que Ele nos diz: Eu sou a Vida. Jesus é Deus que se faz homem, para que o homem, de uma maneira que não há palavras para expressar, se faça «Deus», se torne – como dizia São Pedro – participante da natureza divina (2 Pe 1, 11). É um pensamento que – desde os primeiros séculos do Cristianismo – deixava pasmados os santos, inebriados de alegria e de agradecimento.

Significa que Jesus nos traz a graça divina, a «graça do Espírito Santo», que nos une intimamente a Ele e nos faz participar da sua própria Vida:

Da sua plenitude – diz São João – todos nós recebemos, e graça sobre graça. Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (Jo 1, 17-18).

A graça do Espírito Santo, recebida pela primeira vez no Batismo, nos faz renascer para uma vida nova, transformando-nos em filhos de Deus. O Novo Testamento traz expressões belíssimas desse mistério. Por exemplo, São João afirma que a graça nos dá o poder de nos tornarmos filhos de Deus (Jo 1, 12). E São Paulo declara, com grande alegria, que, com a graça do Espírito Santo, recebemos o espírito de adoção como filhos, pelo qual clamamos: Abbá, Pai! Papai! (Rom 8, 15).

Jesus foi e será sempre a fonte de toda a graça, uma «fonte» que não para de jorrar. Aquele que tiver sede, venha a mim e beba (Jo 7, 37), diz-nos. E nos promete derramar em nós, sem medida, o Espírito Santo, amor de Deus que santifica.

As Sete Fontes

Jesus é como um manancial de onde brotam as sete fontes pelas quais nos vem principalmente a graça: os sete Sacramentos. Cada um deles nos une a Deus (e aos irmãos) de uma maneira própria.

O Batismo purifica-nos da culpa original e nos transforma – como víamos – em filhos de Deus; [Cristian: o Crisma é o óleo perfumado, e a Crisma é o Sacramento] Crisma dá-nos a força do Espírito Santo para sermos cristãos responsáveis, maduros e ativos no apostolado; a Reconciliação ou Confissão cura a alma doente e ressuscita a que está morta pelo pecado; a Eucaristia une-nos intimamente ao Sacrifício redentor de Jesus, que se faz Alimento, vida da alma, e oferece companhia de Amigo no Sacrário; o sacramento da Ordem faz com que os que recebem a ordenação sacerdotal (bispos e presbíteros) sejam instrumentos vivos de Cristo sacerdote, ajudados pelo ministério dos diáconos; o Matrimônio implanta a poderosa semente da graça sacramental e a caridade de Deus no amor dos esposos e dos pais; e a Unção dos Enfermos é a mão carinhosa de Jesus, que nos ergue da doença, ou – quando é o caso – nos encaminha definitivamente para o Céu.

E, assim, os sete Sacramentos, juntamente com as virtudes e com a força poderosa da oração – que é a respiração vital da alma do cristão – vão-nos identificando com Cristo, vão- nos transformando nEle, fazem com que pensemos como Cristo, sintamos como Cristo, amemos como Cristo, vivamos como Cristo. Isto é a vida cristã.

Depois de pensar nessas realidades, não acha que o Natal é o momento certo para nos perguntarmos, diante de Jesus Menino:

«Eu vivo como filho de Deus? A minha oração é uma oração de filho, cheia de entrega e de confiança? Posso dizer que o meu temor é filial, ou seja, que não temo que Deus me abandone ou me castigue, mas temo só magoá-lo, ofendê-lo? Cumpro os mandamentos com carinho de filho, ou com a má vontade do forçado? Tenho delicadezas de afeto filial para com Deus, para com Nossa Senhora? Enfim, eu poderia pôr o adjetivo filial em tudo o que penso, sinto e faço em relação a Deus?»

Com a ajuda do Menino-Deus e da sua Mãe santíssima, nós podemos viver assim. Pensemos, então nesta realidade: em cada Natal, Deus chega muito perto de nós; em cada Natal, Jesus – ultrapassando as barreiras do tempo – leva-nos para junto do Presépio; em cada Natal, Maria, a Mãe, oferece-nos o Menino, sob o olhar sorridente de José. E, em cada Natal, Jesus também sorri para nós e nos pergunta:

«Será agora? Será desta vez…? Confia» – diz-nos -, «eu nasci para te ajudar»

Publicado em Rumo à Santidade.

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Sobre o Natal do Senhor – São Leão Magno (Site Humanitatis)

Feliz e Abençoado Natal a todos leitores do Blog “Castelo Interior-Moradas!

….

“Que o Senhor Jesus continue a encontrar, com a Graça do Amor de Deus, um refúgio seguro em nossas mentes e corações nesse mundo tão avesso à Vontade do Pai.”

Sobre o Natal do Senhor – São Leão Magno

“Caríssimos, deixemo-nos transportar de alegria e demos livre curso ao júbilo espiritual, pois raiou para nós o dia de uma redenção nova, dia longamente preparado, dia de felicidade eterna.

O ciclo do ano nos traz de volta o mistério de nossa salvação, mistério prometido desde o começo dos tempos e concedido no fim, feito para durar sem fim. Nesse dia é digno que, elevando nossos corações, adoremos o mistério divino, a fim de que a Igreja celebre com grande júbilo aquilo que procede de um grande dom de Deus.

 

O Deus Todo-Poderoso e Clemente, cuja natureza é Bondade, cuja Vontade é Poder e cuja ação é Misericórdia, desde o instante em que a malícia do diabo, pelo veneno de seu ódio, nos trouxe a morte, determinou, na própria origem do mundo, os remédios que Sua Bondade usaria para dar novamente aos mortais seu primeiro estado; Ele anunciou, pois, à serpente a Descendência futura da mulher, Descendência que, com sua força, lhe esmagaria a cabeça altaneira e malfazeja, isto é, Cristo, que viria na carne, designando assim Aquele que, ao mesmo tempo Deus e homem, nascido de uma Virgem, condenaria, por seu nascimento sem mancha, o profanador da raça humana. Com efeito, o diabo se gloriava de que o homem, enganado por sua astúcia, tinha sido privado dos dons de Deus e, despojado do privilégio da imortalidade, estava sob uma impiedosa sentença de morte; para ele era uma espécie de consolo em seus males ter encontrado alguém que participasse de sua condição de prevaricador; o próprio Deus, segundo as exigências de uma justa severidade, tinha modificado Sua decisão primeira a respeito do homem, que ele tinha criado em tão alto grau de dignidade. Era necessário, portanto, caríssimos, que, segundo a economia do desígnio secreto, Deus, que não muda e cuja Vontade não pode ser separada de sua Bondade, executasse por um mistério mais oculto o primeiro plano de seu amor; e que o homem, arrastado para a falta pela astúcia do demônio, não viesse a perecer, contrariamente ao desígnio divino.

Caríssimos, tendo-se, pois, cumprido os tempos pré-ordenados para a redenção dos homens, Jesus Cristo, Filho de Deus, penetrou nessa parte inferior do mundo, descendo da morada celeste, sem deixar a Glória do Pai, vindo ao mundo de modo novo e por um novo nascimento. Modo novo, porque, invisível por natureza, tornou-se visível em nossa natureza; incompreensível, quis ser compreendido; Ele, anterior ao tempo, começou a estar no tempo; Senhor do universo, tomou a condição de servo, velando o brilho de sua majestade; Deus impassível, não negou ser homem passível; Imortal, aceitou submeter-se às leis da morte. Nascimento novo esse pelo qual Ele quis nascer, concebido por uma Virgem, nascido de uma Virgem, sem que um pai misturasse a isso seu desejo carnal, sem que fosse atingida a integridade de sua mãe. Com efeito, tal origem convinha Àquele que seria o Salvador dos homens, a fim de que Ele tivesse em si o que constitui a natureza do homem e estivesse isento daquilo que mancha a carne do homem. Porque o Pai desse Deus que nasce na carne é Deus, como atesta o arcanjo à bem-aventurada Virgem Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com sua sombra; por isso, o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus”.

Origem dessemelhante, natureza comum: que uma Virgem conceba, que uma Virgem dê à luz e permaneça Virgem é humanamente inabitual e insólito, mas depende do Poder Divino. Não pensemos aqui na condição daquela que dá à luz, mas na livre decisão Daquele que nasce, nascendo como queria e também como podia. Procurais a verdade de Sua natureza? Reconhecei que humana é sua substância. Quereis saber Sua origem? Confessai que Divino é seu Poder. Com efeito, o Senhor Jesus Cristo veio para eliminar nossa corrupção, não para ser sua vítima; para trazer remédio aos nossos vícios, não para ser sua presa. Ele veio curar toda enfermidade, consequência de nossa corrupção, e todas as úlceras que manchavam nossas almas; como ele trazia para nossos corpos humanos a Graça nova de uma pureza sem mancha, foi necessário que ele nascesse segundo um modo novo. Foi necessário, com efeito, que a integridade do Filho preservasse a virgindade sem exemplo de sua mãe, e que o Poder do Divino Espírito, derramado sobre ela, mantivesse intacto esse recinto sagrado da castidade e essa mansão da santidade, na qual ele se comprazia; porque Ele tinha decidido elevar o que era desprezado, restaurar o que estava quebrado e dotar o pudor de uma força múltipla, para dominar as seduções da carne, a fim de que a virgindade, incompatível,  nas outras, com a transmissão da vida, se tornasse para as outras Graça imitável ao renascerem.

Papa São Leão Magno. Segundo Sermão no Natal do Senhor, 1-2.

Publicado em Site Humanitatis.

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“Tal é o sentido de Natal. Quem o reconhece, há de agradecer profundamente ao Senhor recém-nascido e pedir-lhe as graças necessárias para viver à altura de tão nobre dignidade.” (Pe. Estêvão Bettencourt – in Escola Mater Ecclesiae)

“Natal” – Caravaggio

“Reconhece, ó cristão, a tua dignidade” (São Leão Magno)

Todo mês de dezembro faz reviver a celebração de Natal… Natal com seu presépio, sua árvore típica, seus presentes… Ao cristão não basta contemplar esses símbolos; sente-se ele chamado a procurar o significado profundo de todo esse aparato visível.

Na verdade, o que celebramos no Natal é muito mais do que folclore; é um evento fundamental da história da humanidade. Com efeito, diz-nos a Escritura que o homem, logo depois de criado, foi elevado à dignidade singular de filho de Deus; devia confirmar-se nesse estado dizendo Sim a Deus, que lhe apresentava um projeto de vida. Ora o homem optou pelo Não, movido por soberba. Consequentemente perdeu os dons originais… O Criador podia ter entregue o homem à sua sorte autossuficiente; em tal caso, Deus se teria deixado vencer pelo mal, em vez de vencer o mal com o bem (cf. Rm 12,21). – Podia também ter perdoado ao homem com uma palavra soberana, semelhante à de um juiz que resolve friamente declarar inocente o réu criminoso. Pois bem, nem uma coisa nem outra ocorreu. O Senhor Deus quis recriar o homem. Sim; assumiu a natureza humana ou tornou-se homem verdadeiro, filho de Adão, a fim de fazer da própria miséria física e da morte do homem o canal para a plenitude da vida; quis dar um sinal positivo àquilo que na vida do homem é fraqueza e dor. Recriou, assim, de maneira mais estupenda do que criou, pois o contato de Deus com o cotidiano da existência humana não podia deixar de consagrá-la comunicando-lhe uma dignidade maior do que aquela que os primeiros pais perderam.

Os antigos cristãos ilustravam o fato mediante imagens: quando o fogo penetra uma barra de ferro, torna-a ígnea (o ferro é feito incandescente como o fogo que nele está); quando um óleo aromático penetra num trapo, este se torna perfumado (o pano exala o perfume do óleo). Assim, quando Deus entrou no cotidiano da existência do homem, santificou-a de maneira inédita, fazendo-a comungar com a vida do próprio Deus. Em outros termos: …fazendo-se Filho do homem, o Filho de Deus quis chamar-nos a ser filhos de Deus no FILHO.

Todo esse processo se chama “recapitulação”: Deus quis que a mesma natureza humana, que se tornará instrumento do pecado, fosse também o instrumento de sua própria redenção; quis que o desamor que levou o primeiro Adão à morte, fosse resgatado pelo amor do Segundo Adão; esse também caminhou até a morte, a morte mais ignominiosa possível, para fazer da estrada da morte não mais uma via de condenados, mas a senda que leva à ressurreição e à glória.

Tal é o sentido de Natal. Quem o reconhece, há de agradecer profundamente ao Senhor recém-nascido e pedir-lhe as graças necessárias para viver à altura de tão nobre dignidade. É São Leão Magno (†461) quem nos diz: “O Senhor se tornou carne nossa, nascendo, para que nos tornássemos seu Corpo, renascendo… Apresentando-nos sua humildade e mansidão, o Senhor comunica-nos aquela mesma força com que nos remiu” (Sermão de Natal nº 23).

Pe. Estêvão Bettencourt
Texto publicado na Revista Pergunte e Responderemos nº 391, Dezembro/1994

Fonte: Escola Mater Ecclesiae.

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“A epifania é a manifestação de Jesus como Messias Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo…” (Catecismo da Igreja Católica)

Refletindo sobre a Epifania do Senhor

Como fizeram os Reis Magos, o que podemos oferecer ao Senhor?

A Igreja celebra a Epifania, a manifestação de Jesus aos povos pagãos, os que não eram judeus, no dia 6 e janeiro; mas no Brasil há autorização para celebrar no domingo após o da Sagrada Família, encerrando o ciclo litúrgico do Natal. Além do Evangelho de São Mateus, há documentos apócrifos no Vaticano, muito antigos e de grande valor, que relatam a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. Há um mosaico sobre eles em Ravenna, Itália, do século VI, com os nomes dos três: Baltazar, Melquior e Gaspar. Teriam vindo da Pérsia. Os reis magos eram reis (talvez apenas de uma pequena cidade, como era comum), mas que aguardavam a chegada do Messias, uma vez que a fé dos judeus se espalhou pelo Oriente.

Trata-se de uma Solenidade litúrgica da maior importância. Os Padres da Igreja viram nesta visita dos sábios Magos do Oriente a Jesus Menino, o símbolo e a manifestação do chamado de todos os povos pagãos à vida eterna. Os magos foram a declaração explícita de que o Evangelho era para ser pregado a todos os povos.

O nosso Catecismo diz que: “A epifania é a manifestação de Jesus como Messias Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo… Nesses “magos”, representantes das religiões pagãs circunvizinhas, o Evangelho vê as primícias das nações que acolhem a Boa Nova da salvação pela Encarnação. A vinda dos magos a Jerusalém para “adorar ao Rei dos Judeus” mostra que eles procuram em Israel, à luz messiânica da estrela de Davi, aquele que será o Rei das nações. Sua vinda significa que os pagãos só podem descobrir Jesus e adorá-lo como Filho de Deus e Salvador do mundo voltando-se para os judeus e recebendo deles sua promessa messiânica, tal como está contida no Antigo Testamento. A Epifania manifesta que “a plenitude dos pagãos entra na família dos patriarcas” e adquire a “dignidade israelítica”. (n.528)

Comentando a adoração dos reis Magos que vieram do Oriente, diz S. Agostinho: “Ó menino, a quem os astros se submetem! De quem é tamanha grandeza e glória de ter, perante seus próprios panos, Anjos que velam, reis que tremem e sábios que se ajoelham! Quem é este, que é tal e tanto? Admiro de olhar para panos e contemplar o céu; ardo de amor ao ver no presépio um mendigo que reina sobre os astros. Que a fé venha em nosso socorro, pois falha a razão natural.”

O doutor da Igreja São Gregório Nazianzeno (†379) chama a Epifania de “festa das luzes” e a contrapõe à festa pagã do sol invicto, deus dos romanos. Tanto no Oriente como no Ocidente, a Epifania tem o caráter de uma solenidade mística que transcende os episódios históricos particulares. Os Magos descobriram no céu os sinais de Deus. Tendo como ponto de partida a natureza os pagãos podem “cumprir as obras da lei” (cf.At 14,15-17), diz S. Paulo.

Depois de ter se manifestado a seu povo, Israel, através dos pastores de Belém, Cristo se manifesta ao mundo pagão na pessoa dos Magos que vieram do Oriente e o reconheceram como Deus. São Paulo expressou isso dizendo: “Este mistério Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” (Ef 3,5).

São Leão Magno (†460), Papa e doutor da Igreja, ensinou que: “Tendo a misericordiosa Providência de Deus decidido vir nos últimos tempos em socorro do mundo perdido, determinou salvar todos os povos em Cristo” (Sermão 3 do domingo da Epifania).

Leia também: Os Reis Magos

Epifania do Senhor – onde a estrela parou

Epifania: A manifestação do Senhor

As lições dos Reis Magos

A Epifania do Senhor

O salmista já cantava este mistério ainda envolto em véu:

“Os reis de Társis e das ilhas hão de vir e oferecer-lhe seus presentes e seus dons. E também os reis de Seba e de Sabá hão de trazer-lhe oferendas e tributos. Os reis de toda a terra hão de adorá-lo, e todas as nações hão de servi-lo. Seja bendito o seu Nome para sempre! E que dure como o sol Sua memória! Todos os povos serão Nele abençoados, todas as gentes cantarão o Seu louvor! (Sl 71,10-17). “Nações que não vos conheciam Vos invocarão e povos que Vos ignoravam acorrerão a Vós” (cf. Is 55, 5). “As nações que criastes virão adorar, Senhor, e louvar Vosso Nome (Sl 85, 9). “O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça” (Sl 97, 2).

O profeta Isaías já tinha anunciado esse mistério sete séculos antes de acontecer, mostrando que os povos viriam a Jerusalém adorar o Messias: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e Sua glória já se manifesta sobre ti. Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora. Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços… será uma inundação de camelos e dromedários de Madiã e Efa a te cobrir; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor” (Is 60,1-6).

Os Magos cumpriram esta profecia trazendo o ouro para o Rei, o incenso para o Menino Deus e a mirra para “o Cordeiro que tira os pecados do mundo” (João 1,29), e que seria sepultado com mirra.

São Leão Magno também nos diz que: “O serviço prestado por esta Estrela nos convida a imitar sua obediência, isto é, servir com todas as forças essa graça que nos chama todos para Cristo”.

Como podemos hoje levar, nós também, nossa adoração, ouro, incenso e mirra para o Menino Deus? De muitas maneiras. Podemos ofertar-lhe o ouro da nossa fé, o incenso do nosso louvor e a mirra dos nossos sofrimentos aceitos e as boas obras, oferecidos a Deus pela salvação do mundo. Adorar ao Menino Deus pode significar também, prostrar nosso orgulho, nossa soberba; deixar de lado nossos próprios interesses e submeter nossa vida à ação e à vontade de Deus.

Diz o grande S. Gregório Magno (†604), Papa e doutor: “As mãos significam as obras virtuosas, os dedos, a discrição. Portanto, as mãos destilam a mirra quando, pelas obras virtuosas, castiga-se a carne; mas os dedos são ditos cheios da mais preciosa mirra, pois é muito preciosa a mortificação que se faz com discrição.”

É impressionante notar que os Reis Magos chegaram a Jerusalém e ninguém sabia do nascimento do Messias; apenas os pobres pastores. Penso que eles ficaram em dúvida e até decepcionados. Como? Ninguém sabe? Será que nos enganamos? Nem os doutores da lei, nem fariseus e escribas sabiam. “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”.

Mas o inimigo de Deus notou. O fato foi tão marcante que São Mateus diz que: “Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém. E Herodes quis matar o Menino, pois pensava que fosse tomar o seu reino. Não sabia que o Reino do Messias “era do outro mundo”.

Assista também: Hoje celebramos a Epifania do Senhor. Mas, o que é isso?

Isto nos faz pensar. Também para nós Deus pode se manifestar e podemos ficar surdos e cegos à Sua chegada. E muitas vezes não faltam os inimigos que querem eliminá-lo em nossas vidas com receio de que possa tomar o seu poder de nós. Mas, apesar de todas as dificuldades, decepção pelo fato das pessoas não saberem de nada, os Magos continuaram sem desanimar, e a estrela os guiava: “E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande”.

Nós também não podemos deixar de caminhar em nossa busca do Senhor. Às vezes parece que Sua estrela some nas nuvens das tentações e dificuldades da vida, mas é preciso continuar a caminhada até a Manjedoura do Messias. Nós também vamos sentir uma grande alegria quando o encontrarmos. E vamos, como os Magos, vendo o Menino com José e Maria, sua mãe, ajoelhar diante dele, e o adorar, oferecendo os nossos presentes. E voltaremos para casa, como os Magos, por outro caminho, o da fé e da esperança, não o da descrença e da desesperança. E seremos felizes!

Prof. Felipe Aquino

Publicado em Editora Cléofas.

 

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O Natal NÃO é a festa de aniversário de Jesus

Por Dom Henrique Soares da Costa

Alguns pensam que celebrar o Natal é comemorar o aniversário de Jesus; alguns chegam até a cantar “parabéns pra você”! Coisa totalmente fora de propósito, contrária ao sentimento da Igreja e fora do sentido da celebração dos cristãos. Então, se não celebramos o aniversário de Jesus, o que fazemos no Natal?

Antes de tudo é necessário entender o que é a Liturgia, a Celebração da Igreja.

Vejamos. O nosso Deus, quando quis nos salvar, agiu na nossa história. Primeiramente agiu na história de toda a humanidade, guiando de modo secreto e sábio todos os seres humanos e sua história. Basta que pensemos nos santos pagãos do Antigo Testamento — santos que não pertenceram ao povo de Israel: Sto. Abel, Sto. Henoc, São Matusalém, São Noé, São Melquisedec, São Jó, São Balaão… Nenhum destes pertencia ao povo de Deus… e no entanto, Deus agia através deles… Depois, Deus agiu de modo forte, aberto, intenso na história do povo de Israel, com as palavras de fogo dos profetas, com a mão estendida e o braço potente nas obras maravilhosas em benefício do seu povo eleito.

Finalmente, Deus agiu de modo pleno e total, fazendo-se pessoalmente presente, em Jesus Cristo, que é o cume, o centro e a finalidade da revelação e da ação de Deus: em Jesus, tudo quanto Deus sonhou para nós se realizou de modo pleno, único, absoluto, completo e definitivo! Então, o nosso Deus não se revela principalmente com ensinamentos, com doutrinas e conselhos, mas com ações concretas e palavras concretas de amor! E tudo isso chegou à plenitude na vida, nos gestos, palavras e ações de Jesus Cristo!

Pois bem: são estas obras salvíficas de Deus, realizadas de modo pleno em Jesus, que nós tornamos presente na nossa vida quando celebramos a Santa Liturgia, sobretudo a Eucaristia! Na força do Espírito Santo de Jesus, através das palavras, dos gestos e dos símbolos litúrgicos, os acontecimentos do passado — todos resumidos em Cristo: na sua Encarnação, no seu Nascimento, Ministério, Morte e Ressurreição e no Dom do seu Espírito — tornam-se presentes na nossa vida.

Vejamos, agora, o caso do Natal. Quando a Igreja celebra as cinco festas do Natal, ela quer celebrar não o aniversarinho do menininho Jesus… O que ela quer fazer e faz é tornar presente para nós, na força do Espírito Santo, a graça da vinda do Cristo! Celebrando a liturgia do Natal, o acontecimento do passado (a Manifestação do Filho de Deus) torna-se presente no hoje da nossa vida! Na liturgia do Natal a Igreja não diz: “Há dois mil anos nasceu Jesus”! Nada disso! O que ela diz é: “Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz!” (Antífona de Entrada da Missa da Noite do Natal).

Em Jesus, tudo quanto Deus sonhou para nós se realizou de modo pleno, único, absoluto, completo e definitivo!

A liturgia tem essa característica: na força do Santo Espírito torna presente realmente, de verdade, aquele acontecimento ocorrido no passado. Não é uma repetição do acontecimento, nem uma recordação!É, ao invés, aquilo que a Bíblia chama de memorial, isto é, tornar presente os atos de salvação de Deus!

Agora vejamos: a Eucaristia é a celebração, o memorial da Páscoa do Senhor. Como é, então, que no Natal a gente celebra a Missa, que é a Páscoa? Como é que já no Natal a Igreja mete a celebração da Páscoa? É que a Eucaristia não é simplesmente a celebração da paixão, morte e ressurreição de Cristo! Essa seria uma ideia muito mesquinha, estreita! Em cada Missa é todo o mistério da nossa salvação que se faz presente, é tudo aquilo que Deus realizou por nós, desde a criação até agora… e tudo isso tem o seu centro em Jesus: na sua Encarnação, na sua vida e na sua pregação, e alcança seu cume na sua morte e ressurreição, na sua ascensão e no dom do Santo Espírito. Então, celebramos as cinco festas do Natal celebrando a Missa, porque aí o mistério, o acontecimento da nossa salvação se torna presente e atuante na nossa vida.

Através das palavras, dos gestos e dos símbolos litúrgicos, os acontecimentos do passado tornam-se presentes na nossa vida.

Voltando para casa após a Missa do Natal, podemos dizer: “Hoje eu vi, hoje eu ouvi, hoje eu experimentei, hoje eu testemunhei e hoje eu anuncio: nasceu para nós, nasceu para o mundo um Salvador! Ele veio, ele não nos deixou, ele se fez nosso companheiro de estrada!” Celebrando a Eucaristia do Natal, recebemos a graça do Natal, entramos em comunhão com o Cristo que veio no Natal, porque recebemos no Corpo e Sangue do Senhor o próprio Cristo que nasceu para nós, e, agora, Cristo ressuscitado, pleno do Santo Espírito! É incrível, mas a graça do Natal chega a nós mais do que chegou para Maria e José e os pastores e os magos. Porque eles viram um menininho no presépio, enquanto nós o recebemos dentro de nós, seu Corpo no nosso corpo, seu Sangue no nosso sangue, sua Alma na nossa alma, seu Espírito no nosso espírito… e não mais um menininho frágil, com esta nossa vidinha humana, mas o próprio Filho agora glorificado, com uma natureza humana imortal e gloriosa, que nos transformará para a vida eterna.

Então, que neste Natal ninguém cante parabéns para o Menino Jesus, nem fique com inveja dos pastores e dos magos… Também para nós hoje nasceu um Salvador: o Cristo ressuscitado, glorioso, que recebemos no seu Corpo e Sangue e cujo mistério celebramos nos gestos, palavras e símbolos da liturgia!

(Dom Henrique Soares da Costa, via Pe. Paulo Ricardo)

Publicado em Filhos de Deus.

Imagem: Pinterest.

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Natal: Início do Mistério da redenção do Universo

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Natal: Início do Mistério da redenção do Universo

O Natal de Jesus se lança como grande farol: começa a irradiar o esplendor de Deus nas trevas, fazendo que a Noite Santa do Natal e a Noite Santa da Vigília Pascal resplandeçam luminosas clareando todos os cantos da humanidade e do Universo, outrora cobertos pelas trevas do mal e da morte.

Com o Tempo do Advento e sua densidade toda especial, as celebrações nos prepararam e nos potencializam a receber a Boa Notícia proclamada pelos anjos e testemunhada por todos os povos: o nascimento do Salvador em nossa caminhada e história. Pede licença para em nós vir fazer Sua morada, e, em nossa casa, nossa família poder encontrar o aconchego.

A segunda maior festa da tradição cristã é o Natal que vem carregada de simbolismo Pascal e indica que Jesus Nazareno, o Cristo de Deus, o verdadeiro messias, há muito é aguardado por todo universo e por todo povo de Deus. Esse acontecimento foi desejado e planejado desde sempre por Deus nosso Pai: fazer que a Divindade habitasse nossa carne, nossa fragilidade e ambiguidades para melhor compreender nossa humanidade.

O Natal de Jesus se lança como grande farol: começa a irradiar o esplendor de Deus nas trevas, fazendo que a Noite Santa do Natal e a Noite Santa da Vigília Pascal resplandeçam luminosas clareando todos os cantos da humanidade e do Universo, outrora cobertos pelas trevas do mal e da morte.

Através da habitação de Jesus em nossa tenda mortal inicia-se o momento de maior presença da Divindade entre nós, fato que se atualiza pelos Mistérios celebrados na ação litúrgica, que em Sua atualização memorial, nos lança no acontecido como que “hoje” novamente para nós, permitindo assim que o tempo de Deus e a salvação possam nos alcançar integralmente.

A Liturgia da Igreja nos convida a ver no pequenino, a Divindade invisível que habita este novo ser humano, o novo Adão recriado pela força Santificadora do Espírito que plenificou o ventre de Maria, menina que se abriu à novidade, antiga e eterna, do cumprimento da promessa redentora de Deus feita sempre e renovada de geração em geração aos seus pais na fé.

Na liturgia da noite de Natal o anúncio dos anjos aos pastores, revela aos pequenos e pobres, que de noite, uma estrela luzente está a tremeluzir e começa a espantar toda treva e escuridão do universo e tem o seu ápice na revelação do anjo, durante a madrugada triste, a Maria Madalena de que Ele Ressuscitou. O novo sol, a Coluna Luminosa despontou dilacerando o poder da morte e do mal sobre a humanidade, um basta começa a ser implantado em nosso meio. Ao ser enfaixado e colocado na manjedoura prefigura-se de que Ele iria morrer e ser sepultado, pois na tradição judaica enfaixava-se o morto com tecidos de linho e sepulta-se o corpo do ente querido à espera do Dia do Senhor e da ressurreição dos corpos, para nós tudo já plenificado em Jesus.

Agora com a luz de Deus em Jesus, dia e noite, podemos caminhar seguros e trilhar os caminhos da alegria, da felicidade e nos reencontrar no jardim do Éden, como outrora, pois o Emanuel – Deus conosco está! Desta feita podemos entoar alegres e vibrantes de alegria e gozo o ‘Glória a Deus nas Alturas e paz na terra aos seus amados!’ que havia ficado silenciado no Advento e na presença do desejado e esperado suplicar pela paz e pela irmandade de todos os povos.

O presépio ganha a peça principal e pode receber a bênção do presidente da celebração para nos ser sacramental da vida do povo. As luzes do pisca e da árvore de Natal ganham vida abrilhantando e fazendo-nos perceber a festa da luz em Jesus. Os sinos repicam como que se fazendo de anjos à anunciar esta maravilha que Deus nos concede celebrar afinal é uma Festa!, Os presentes em casa são o de menos, pois o que o Pai quer é ver seus filhos bem encaminhados na luz de Jesus e se amando em família e na família maior que é a comunidade.

O dia de Natal, 25 de dezembro, é o dia em que o Sol brilha mais tempo no ano e neste acontecimento natural, a Igreja viu a importância de lhe acreditar como o dia do Natal do Senhor, que se permite ser luz incessante em nossas vidas e os confins do universo podem contemplar a Salvação que veio de Deus.

Podemos acorrer à Palavra e perceber que nesta liturgia temos o meio da bíblia, onde o primeiro e o novo testamento têm seu ponto de chegada e de partida, pois “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. A promessa Divina acontece e em Jesus a Divindade pode se fazer presente em nosso meio e nos alegrar, pois a consolação de Deus para nós, depois de tanto esperarmos, chegou naquele pequeno e frágil ser.

(…)

Mãe de Deus, Epifania do Senhor
Dia 01 de Ano é a festa da Teotokos, Mãe de Deus e nossa. A Igreja dedicou o primeiro dia do ano aos cuidados de Maria para que ela nos aponte o caminho da paz, pois seu filho o Príncipe da Paz está em seu colo e ela aponta para Ele como a nos indicar isso.

No dia 06 de Janeiro celebramos a Epifania do Senhor – Sua manifestação entre os homens, o apresentar-se à humanidade representada pelos magos, homens sábios que decifraram o caminho que a humanidade deve fazer até a luz da luz divina. Os presentes anunciam a qualidade de que o menino é portador e que fará de todo um povo o ser também: ouro, a realeza; incenso: a divindade; mirra: a paixão e sofrimentos que deveria lhe acontecer na Sua Páscoa entre nós e convida a todos a lhe prestar a devida atenção e reverência.

Batismo do Senhor
Na solenidade do Batismo do Senhor vemos o Cristo se permitir passar por um ritual humano, abençoando e santificando assim todas as águas tornando-as puras novamente. Pleno do Espírito de Deus, inicia Seu ministério entre os homens, pela unção divina que lhe confirma em Sua missão e essência de Filho muito amado do Altíssimo. Somos chamados a prestar atenção e escutar a Sua voz, ou seja, o cumprimento de Sua proposta amorosa com o universo e toda humanidade.

Neste período podemos usar o credo niceno-constantinopolitano, em substituição do símbolo apostólico, pois sua dinâmica interna reflete a preocupação dos pais da Igreja em preservar a humana-divindade de Jesus e a essência na trindade intacta na sua pessoa.

Que possamos irmãos e irmãs estar abertos a essa manifestação de Deus sempre presente em nossa história e nos deixar inspirar por tão grande luz que nos vem do Emanuel, Príncipe da Paz, Adonai, Sol do Oriente, Guia de Israel, Rebento de Jessé, de Jesus Cristo Nosso Senhor e Redentor Nosso! Amém!

José Fernandes Correia
Equipe de Liturgia e Canto Arq. de Maringá – PR.

Fonte: Maringá Missão – Revista da Arquidiocese de Maringá.

Imagem: Cléofas:”A Importância de celebrar o Nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro”(Prof. Felipe Aquino).

 

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Imaculada Conceição de Maria – Solenidade e Festa

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Festa da Imaculada Conceição de Maria

A doutrina da Imaculada Conceição, cuja memória litúrgica celebra-se neste segundo domingo do Advento, sempre foi uma realidade muito constante nos escritos dos santos. Desde os primeiros séculos, a cristandade já recordava a Virgem Maria como aquela que fora preservada de toda mancha do pecado – a Tota Pulchra, como canta a antífona própria desta festa. Ao contrário de Eva, a também virgem imaculada que respondeu à visita do anjo decaído com seu não a Deus, Maria é a virgem imaculada que, recebendo em sua casa a presença de São Gabriel, respondeu com o seu sim: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua Palavra”.
E foi nesta firme convicção, “depois de na humildade e no jejum, dirigirmos sem interrupção as Nossas preces particulares, e as públicas da Igreja, a Deus Pai”, que o Papa Pio IX, num dos atos mais solenes de seu pontificado, declarou “a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante da sua Conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente (…) foi preservada imune de toda mancha de pecado original”. Não por acaso, pouco tempo depois desta proclamação, em 1858, Nossa Senhora apareceria a uma jovem camponesa de Lourdes, na França, dizendo ser a “Imaculada Conceição”.
Antes da definição de Pio IX, no entanto, existiam algumas controvérsias teológicas quanto a esse ensinamento. Embora fosse de grande consenso a doutrina segundo a qual Maria nascera sem pecado algum – estando essa verdade presente não só na fé popular como também nos textos litúrgicos -, muitos teólogos viam com dificuldade a proposição, sobretudo porque não conseguiam entender de que modo isso poderia se relacionar com a redenção operada por Cristo no mistério da paixão. Afinal, sendo Maria imaculada, teria ela necessitado da salvação?
A dificuldade, infelizmente, acabou suscitando algumas heresias já na época de Santo Tomás de Aquino. Para certos teólogos, Maria não teria sido redimida por Cristo. O imbróglio, com efeito, fez com que o Doutor Angélico reagisse na Suma Teológica, negando a doutrina da imaculada conceição. Foi somente no final de sua vida, no seu comentário da saudação angélica (ou seja, da Ave-Maria), que Santo Tomás voltou atrás e aceitou essa verdade de fé.
A confusão teológica, contudo, ainda perdurou por algum tempo até que um frade franciscano, o bem-aventurado Duns Scoto, finalmente apresentasse uma explicação consistente. Scoto defendia que Maria havia sido salva já no ventre de Sant’Anna, tendo em vista o sangue de Cristo derramado na cruz. Uma vez que Deus não está preso ao tempo e ao espaço, Ele bem poderia utilizar os méritos da Paixão de Jesus antecipadamente, preservando Nossa Senhora das insídias diabólicas. Foi baseado nesta argumentação que o também bem-aventurado Papa Pio IX publicou a Bula Innefabillis Deus, pondo termo à controvérsia e definindo como dogma de fé a “Imaculada Conceição de Maria”.
Na Bula Innefabillis Deus, Pio IX usa duas passagens bíblicas para atestar a veracidade do dogma: Gênesis, capítulo 3 – o chamado Proto-Evangelho em que se narra a “inimizade” entre a serpente e a Mulher -, e Lucas, capítulo 1, no qual o evangelista relata a saudação angélica de São Gabriel: “Ave, Cheia de Graça, o Senhor é convosco”. Com esses dois textos, o Papa revela as evidências da santidade de Maria. Por ter sido agraciada desde o ventre de sua mãe, Maria é a inimiga por excelência do demônio; e sendo a “Cheia de Graça”, à qual “grandes coisas fez Aquele que é poderoso”, possui a mais perfeita amizade com Deus.
Nós, brasileiros, temos a grande graça de ter herdado de Portugal a devoção pela Imaculada Conceição de Maria. Embora muitas pessoas não saibam, é a Imaculada Conceição a Padroeira de Portugal. Isso porque foram naquelas terras que aconteceram as maiores batalhas em defesa da fé cristã e, sobretudo, em defesa da imaculada conceição. Numa época em que a península ibérica via-se ameaçada pelas investidas dos mouros, os cavaleiros cristãos fizeram um pacto de sangue, a fim de preservar a fé católica da região. E venceram com a ajuda e intercessão da Imaculada.
No Brasil, temos também como padroeira Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Ela, como “um exército em ordem de batalha”, convida-nos também a empreender um combate contra a serpente maligna que assalta nossa dignidade, nossos filhos e nossa fé.Rezemos a Ela, a Auxilium Christianorum, para que neste momento, em que duas leis perniciosas tramitam em nosso parlamento com o intuito de destruir a família brasileira, a cabeça da serpente seja esmagada e precipitada ao inferno junto com seus demônios.
Nossa Senhora da Conceição Aparecida, rogai por nós!

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Solenidade do Imaculado Coração de Maria e Consagração ao Imaculado Coração

Memória do Imaculado Coração de Maria

Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. Quando ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem.

Pensando que ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura. Três dias depois, o encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas.

Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas. Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”. Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.

Quis Deus, no mistério da sua Providência, associar aos gozos e padecimentos de Jesus Cristo, Verbo feito carne (cf. Jo 1, 14), a santíssima e sempre virgem Maria, de modo que toda a família cristã, após tributar ao Coração Sagrado do Salvador a adoração que por direito lhe é devida, é chamada a render também ao Coração de nossa Mãe do Céu, com uma proporcionada veneração, “os correspondentes obséquios de piedade, de amor, de agradecimento e de reparação” (Pio XII, Haurietis Aquas, 74).

Por isso, intimamente unida ao culto ao Sacratíssimo Coração de Jesus se encontra, como que por sua própria natureza, a devoção ao Imaculado Coração de Maria, índice natural do amor terníssimo que a Mãe do Redentor, cheia do Espírito Santo, teve ao seu querido e único Filho. Com efeito, a Virgem Maria amou a Deus não somente com aquele amor natural que todas as mãe têm por seus filhos, senão também com aquela caridade sobrenatural que, de tão abundante e fervorosa, faz dela, por privilégio divino, Mãe espiritual de toda a Igreja e Rainha de todo o universo.

Elevemos hoje o nosso pobre coração aos Céus e imploremos à Santíssima Mãe de Nosso Senhor a graça de O amarmos com mais generosidade e perfeição. Roguemos também ao nosso Pai celeste que se digne, por intercessão da mesma Virgem Imaculada, fazer crescer em toda terra a devoção a esse dulcíssimo Coração, fonte comprovada de alegria e consolações para todos quantos a ele recorrem e, em suas necessidades, nele se refugiam.

Fonte: padrepauloricardo.org

Ato de consagração ao Imaculado Coração de Maria

Porque Maria é o caminho mais eficaz para chegar a Jesus

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Esta memória ao Imaculado Coração de Maria não é nova na Igreja; tem as suas profundas raízes no Evangelho que repetidamente chama a nossa atenção para o Coração da Mãe de Deus. Por isto na Tradição Viva da Igreja encontramos confirmada pelos Santos Padres, Místicos da Idade Média, Santos, Teólogos e Papas como o nosso João Paulo II.

“Depois ele desceu com eles para Nazaré; era-lhes submisso; e a sua mãe guardava todos esses acontecimentos em seu coração”. Estes relato bíblico que se encontra no Evangelho segundo São Lucas, uni-se ao do canto de Louvor – Magnificat – a compaixão e intercessão diante do vinho que havia acabado e a presença de Maria de pé junto a Cruz, para assim nos revelar a sintonia do Imaculado Coração de Maria para com o Sagrado Coração de Jesus. Dentre os santos se destacou como apóstolo desta devoção São João Eudes, e dentre os Papas que propagaram esta devoção de se destaca Pio XII que em 1942 consagrou o mundo inteiro ao Coração Imaculado de Maria.

As aparições de Nossa Senhora em Fátima – Portugal- no ano de 1917, de tal forma espalharam a devoção ao Coração de Maria, que o Cardeal local disse: “Qual é precisamente a mensagem de Fátima ? Creio que poderá resumir-se nestes termos: a manifestação do Coração Imaculado de Maria ao mundo atual, para o salvar”. Desta forma pudemos conhecer do Céu que o Pai e Jesus querem estabelecer no mundo inteiro a devoção do Imaculado Coração que encontra fundamentada na Consagração e Reparação a este Coração que no final Triunfará.
(Fonte: Liturgia Diária)

CONSAGRAÇÃO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

Ó Rainha do Santíssimo Rosário, auxilio dos cristãos, refugio do gênero humano, vencedora de todas as batalhas de Deus!

Ante vosso Trono nos prostramos suplicantes, seguros de impetrar misericórdia e de alcançar graça e oportuno auxilio e defesa nas presentes calamidades, não por nossos méritos, mas sim unicamente pela imensa bondade de vosso maternal Coração.

Nesta hora trágica da história humana, a Vós, a vosso Imaculado Coração, nos entregamos e nos consagramos, não apenas em união com a Santa Igreja, corpo místico de vosso Filho Jesus, que sofre e sangra em tantas partes e de tantos modos atribulada, mas sim também com todo o mundo dilacerado por atrozes discórdias, abrasado em um incêndio de ódio, vítima de suas próprias iniqüidades.

Que vos comovam tantas ruínas materiais e morais, tantas dores, tantas angustias de pais e mães, de esposos, de irmãos, de crianças inocentes;

Tantas vidas cortadas em flor, tantos corpos despedaçados na horrenda carnificina, tantas almas torturadas e agonizantes, tantas em perigo de perderem-se eternamente.

Vós, Oh! Mãe de misericórdia, consegui-nos de Deus a paz; e, ante tudo, as graças que podem converter-se em um momento os humanos corações, as graças que reparam, conciliam e asseguram a paz.

Rainha da paz, rogai por nós e dai ao mundo em guerra a paz por quem suspiram os povos, a paz na verdade, na justiça, na caridade de Cristo.

Dai a paz das armas e a paz das almas, para que na tranqüilidade da ordem se dilate o reino de Deus.
Concedei vossa proteção aos infiéis e a quantos jazem ainda nas sombras da morte; concedeis a paz e fazei que brilhe para eles o sol da verdade e possam repetir com nós ante o único Salvador do mundo: glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.

Dai a paz aos povos separados pelo erro ou a discórdia, especialmente a aqueles que vos professam singular devoção e nos quais não havia casa onde não se achasse honrada vossa venerada imagem (hoje quiçá oculta e retirada para melhores tempos), e fazei que retornem ao único redil de Cristo sob o único verdadeiro Pastor.

Obtende paz e liberdade completa para a Igreja Santa de Deus; contei o dilúvio inundante do neopaganismo, fomentai nos fiéis o amor à pureza, a prática da vida cristã e do zelo apostólico, a fim de que aumente em méritos e em número o povo dos que servem a Deus.

Finalmente, assim como foram consagrados ao Coração de vosso Filho Jesus a Igreja e todo o gênero humano, para que, postas nele todas as esperanças, fosse para eles sinal e prenda de vitória e de salvação;

De igual maneira, Oh! Mãe nossa e Rainha do Mundo, também nos consagramos para sempre a Vós, a vosso Imaculado Coração, para que vosso amor e patrocínio acelerem o triunfo do Reino de Deus, e todas as gentes, pacificadas entre si e com Deus, Vos proclamem bem-aventurada e entoem convosco, de um extremo a outro da terra, o eterno Magníficat de glória , de amor, de reconhecimento ao Coração de Jesus, no qual apenas se podem achar a Verdade, a Vida e a Paz.

Amém.

Publicado em Aleteia.

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Sagrado Coração de Jesus – Devoção – Santo Afonso Maria de Ligório – Solenidade – 03 de junho de 2016

Fonte: Mulher Católica (www.mulhercatolica.org/)

Sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Por Santo Afonso Maria de Ligório
Ignem veni mittere in terram: et quid volo, nisi ut accendatur? ― «Eu vim trazer fogo à terra, e que quero senão que ele se acenda?» (Lc 12, 49)
Sumário. A devoção entre todas as devoções, a mais perfeita, é o amor a Jesus Cristo, com a recordação frequente do amor que nos dedicou e ainda sempre dedica. Exatamente para se fazer amar é que o Verbo Eterno quis que nestes últimos tempos se instituísse e propagasse a devoção ao seu Coração, com a promessa das graças mais assinaladas aos que a praticassem. Felizes se estivermos do número destes devotos. Podemos estar certos de que o divino Coração nos abençoará em tudo o que empreendermos, e em todas as ocorrências será o nosso seguro abrigo.
 
I. A devoção das devoções é o amor a Jesus Cristo, com a recordação frequente do amor que nos dedicou e ainda dedica o nosso amável Redentor. Com razão se queixa um devoto autor de que muitas pessoas praticam diversas devoções e se descuidam desta, ao passo que o amor de Jesus Cristo deve ser a principal, para não dizer a única, devoção do cristão. ― Este descuido é causa do pouco progresso que as almas fazem nas virtudes, da contínua languidez nos mesmos defeitos e das frequentes recaídas em culpas graves. Pouco se aplicam, e raras vezes são exortadas a adquirirem o amor a Jesus Cristo, sendo todavia o amor o laço que une e liga as almas a Deus.
Foi exatamente para se fazer amar que o Verbo Eterno quis que se instituísse e propagasse na Igreja a devoção a seu Sacratíssimo Coração. Lemos na vida de Santa Margarida Maria Alacoque, que, quando esta devota virgem estava um dia em oração diante do Santíssimo Sacramento, Jesus Cristo lhe mostrou o seu Coração num trono de chamas, cercado de espinhos e encimado por uma cruz. «Eis aqui», disse ele, «o Coração que tanto amou os homens, e nada poupou até se esgotar e consumir para lhes testemunhar o seu amor; e em reconhecimento, não recebe da maior parte senão ingratidões e irreverências neste Sacramento de amor. Mas, o que ainda mais sinto, é serem corações a mim consagrados que assim praticam».
Ordenou-lhe em seguida, que se empregasse em fazer celebrar, na primeira sexta-feira depois da oitava da festa do Corpo de Deus, uma festa particular em honra do seu divino Coração, e isto para três fins: O primeiro, para que os fiéis lhe deem ações de graças pelo grande dom que lhes fez na adorável Eucaristia. O segundo, para que as almas fervorosas reparem, pela sua afetuosa devoção, as irreverências e os desprezos que ele recebeu e recebe neste Sacramento da parte dos pecadores. O terceiro, enfim, para que lhe ofereçam compensação pela honra e culto que os homens deixam de lhe dar em muitas igrejas. Assim, a devoção ao Coração de Jesus não é senão um exercício de amor para com este amável Senhor.
II. Para compreendermos os bens imensos que nos provêm da devoção ao Coração de Jesus, basta que nos lembremos das promessas feitas por Jesus Cristo aos que a praticarem.
«Eu» ― assim disse o Senhor a Santa Margarida ― «darei aos devotos do meu Coração todas as graças necessárias para o cumprimento dos deveres do seu estado; farei reinar a paz nas suas famílias; eu os consolarei nas suas aflições e lhes serei um refúgio na vida e na morte; lançarei abundantes bênçãos sobre todas as suas empresas, e o que no passado não puderam realizar com as suas diligências repetidas e perseverantes, obtê-lo-ão por meio desta devoção salutar»[1].
Se nós também queremos ter parte nestas promessas, avivemos a devoção ao Sagrado Coração, especialmente neste mês que lhe é consagrado. Guardemo-nos, por amor dele, das faltas deliberadas; pratiquemos alguma mortificação interna e externa; visitemos a miúde o Santíssimo Sacramento e preparemo-nos para a festa do Sagrado Coração por meio de uma devota novena. Cada manhã unamos as nossas ações do dia com as do divino Coração de Jesus, e façamos o oferecimento delas, dizendo:
† «Meu Senhor Jesus Cristo, em união com a divina intenção coma qual destes, na terra, louvor a Deus por vosso Sacratíssimo Coração, e lh’o continuais a dar agora sem interrupção até a consumação dos séculos, por todo o universo, no sacramento da Eucaristia, eu também, durante todo este dia, sem excetuar a mínima parte dele, à imitação do santíssimo Coração da Bem-Aventurada Virgem Maria Imaculada, Vos ofereço com alegria todas as minhas intenções e pensamentos, todas as minhas afeições e desejos, todas as minhas obras e palavras. † Amado seja por toda a parte o Sagrado Coração de Jesus. † Louvado, adorado, amado e agradecido seja a todo o instante o Coração Eucarístico de Jesus em todos os tabernáculos do mundo, até à consumação dos séculos. Assim seja»[2]. (*II 409.)
[1] Acrescentaremos aqui mais algumas promessas de Jesus Cristo: «Eu abençoarei as casas onde se achar exposta e venerada a imagem do meu sagrado Coração; os pecadores acharão no meu Coração a fonte e o oceano infinito de misericórdia; as almas tíbias se tornarão fervorosas; os religiosos se elevarão a uma alta perfeição; darei aos sacerdotes o talento de tocar os corações mais empedernidos; as pessoas que propagarem esta devoção terão para sempre o seu nome inscrito no meu Coração».
[2] Cada uma destas orações tem 100 dias de indulgências.
Nota: Quem durante o mês de junho honrar, privada ou publicamente, o Sagrado Coração de Jesus, ganha cada dia uma indulgência de 7 anos, e uma plenária uma vez no dia da própria escolha, debaixo das condições da confissão, comunhão e oração segundo a intenção do Santo Padre.
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LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Segundo: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 338-341.
Publicado em Mulher Católica.

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Fonte: Mulher Católica (www.mulhercatolica.org/)

Festa do Sagrado Coração de Jesus

Sagrado Coração de Jesus,
tenho confiança em Vós.
(300 dias de indulgência)

Que é a festa do Sagrado Coração?

É uma solenidade instituída para honrar a um tempo o Coração de Jesus, que lhe animou a vida e deu o sangue salvador do mundo, e o amor infinito de Cristo para com os homens, amor cujo órgão e foco tem sido o Sagrado Coração.
A pessoa inteira de Nosso Senhor era digna de adoração; sua carne, seu sangue, e sobretudo, seu Coração, hipostaticamente unidos à sua natureza divina, mereciam as adorações: assim crê e ensina a Igreja. Ora, o coração, universalmente considerado entre os homens como órgão mais nobre, deve especialmente participar das nossas homenagens. Mas o coração, considerado como centro e foco de amor divino, merece respeito e amor agradecido: dali a devoção ao Sagrado Coração. Entretanto, a festa destinada a lembrar essas verdades foi instituída somente no século XVIII. Segundo a sua própria palavra, Nosso Senhor quis guardar essa devoção para nossos dias, afim de reanimar o fervor amortecido da sociedade.
Para os fins do século XVII, uma santa religiosa da Visitação, chamada Margarida Maria, foi o instrumento que Deus empregou para dar a conhecer o desejo que nutria Nosso Senhor de ver mais amado e melhor glorificado o seu Sagrado Coração.
Em 1765, o clero da França adotou essa devoção. Clemente XIII aprovou com a festa um Ofício do Sagrado Coração. A festa, segundo o pedido feito à santa Margarida Maria, celebra-se na sexta-feira imediata à oitava do santíssimo Sacramento.
Quais são os sentimentos do verdadeiro cristão ao festejar o Sagrado Coração?
Para o bom cristão, a festa do Sagrado Coração há de ser um dia de desagravo pelos ultrajes que Jesus recebe na Eucaristia.
De acordo com os desejos do próprio Nosso Senhor, a festa do Sagrado Coração deve ser festa de reparação. Queixou-se da ingratidão, do desprezo, da frieza, dos sacrilégios que muitas vezes sofre, na Eucaristia, por parte de pessoas que se julgam piedosas. Pediu comunhões fervorosas e reparadoras, atos de desagravo, e especialmente, uma festa de reparação.
Mais ainda do que a festa do Corpo de Deus, a festa do Sagrado Coração servirá, pois, a manifestar a Jesus Cristo o nosso amor e a nossa gratidão; nossa presença nos ofícios e na procissão que se faz também nesse dia, será um desagravo pelos ultrajes que recebe no sacramento do seu amor, por nossa frieza e irreverência para com a Eucaristia.
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Monsenhor CAULY. Curso de Instrução Religiosa: Tomo I – Catecismo explicado: Dogma, Moral, Sacramentos, Culto. São Paulo: Livraria Francisco Alves, 1924, p.576-578.

Publicado em Mulher Católica.

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CRISTO RESSUSCITOU!

Desejo a todos uma vida nova, cheia de esperança no Cristo Ressuscitado! Ele vive e está entre nós para trazer a Boa Nova da vitória do amor sobre a morte e o pecado. Com Ele, seguimos confiantes, fortalecidos no combate pelo Bem e pela Paz que Jesus Cristo nos legou em sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição. Sejamos fortes e estejamos seguros em nossa caminhada rumo à Eternidade, porque fomos libertos por meio de seu sacrifício redentor, que propiciou a a redenção de toda Humanidade do passado, do presente e do futuro. Amém.

Lúcia Barden Nunes.

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Fonte: Suma Teológica

Ressurreicao

Pascoa_Texto_Papa

Publicado em Suma Teológica.

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O verdadeiro sentido do Natal para os católicos (Catolicismo Romano)

Há muito anda esquecido o Menino Jesus no Natal. Ele não é convidado, apesar de ser a razão da festa. Isto deve nos levar a uma reflexão profunda sobre a nossa conversão à Palavra de redenção que Jesus Cristo veio trazer  ao mundo há mais de dois mil anos.

O texto abaixo não deixa de ser um tanto irreverente em alguns trechos, mas este é um tempo de contradições, e graves.

Assim, ao lê-lo até o final, percebemos que faz muito sentido nessa época de neo-paganismo, que exalta o consumo, seja na forma  de presentes, seja na corrida aos supermercados para a “ceia de Natal”. Na verdade, o que temos são festas de confraternização entre familiares e amigos, onde não haverá moderação na comida , nem de bebidas alcoólicas, infelizmente. O sentido do Natal fica perdido em meio aos excessos.

Uma reflexão já é um passo importante no resgate do verdadeiro sentido do Natal: Jesus Cristo.

Desejo a todos que acompanham este blog um santo e abençoado Natal.

Lúcia Barden Nunes.

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Natal_adoraçao

Fonte: Catolicismo Romano

O verdadeiro sentido do Natal para os católicos

O verdadeiro Natal nunca muda, pois não muda também a compreensão do que é o Natal na alma dos católicos de verdade.

Nessas almas, mais do que o consumismo estúpido, mais do que a vermelha figura do Papai Noel, em seu trenó deslizante no verão brasileiro, mais do que a maçante Gingle Bells, exaustivamente tocada nas lojas com descartáveis produtos coloridos, ressoa o hino cantado pelos anjos “Glória in excelsis Deo”.

Ressoam as puras notas do “Puer natus est nobis, et filium nobis est datum”. Porque, para nós que “habitávamos nas sombras da morte, para nós brilhou uma grande luz”.

Que se entende, hoje, que é um “Feliz natal, para você” ? No máximo da inocência, um regabofe em família, com presentinhos, beijinhos e indigestão.

E quando o Natal não é tão inocente…

Quando o Natal não é tão inocente se realiza o canto pagão e naturalista; “Adeus ano velho. Feliz ano novo. Muito dinheiro no bolso. Saúde para dar e vender”.

Eis a felicidade pagã: dinheiro, saúde, prazer.

Sem Deus. Sem Redenção. Sem alma. Que triste Natal esse!

Que infeliz e decrépito ano novo, tão igual aos velhos anos do paganismo!

Será que o povo que habitava nas sombras da morte já não vê a grande luz que brilhou para ele em Belém?

Até a luz do Natal está ofuscada. E quão poucos compreendem essa luz!

No presépio se conta tudo.

Tudo está lá bem resumido. Mas o povo olha as pequenas figuras e não compreende o que significa que um Menino nos foi dado, que um Filho nasceu para nós.

No presépio se vê um Menino numa manjedoura, entre um boi e um burro…

A Virgem Maria, Mãe de Deus adorando seu Filhinho que é o Verbo de Deus encarnado, envolto em panos. São José, contemplando o Deus Menino tiritante de frio, à luz de uma tosca lanterna.

Um anjo esvoaçante sobre a cabana rústica. Uma estrela. Pastores com suas ovelhas, cabras e bodes. Um galo que canta na noite. Os Reis que chegam olhando a estrela, seguindo a estrela, para encontrar o Menino com sua Mãe.

Tudo envolto no cântico celeste dos anjos;

“Glória a Deus nas alturas! E paz, na terra, aos homens que têm boa vontade” (Luc. II, 14)

Isso aconteceu nos dias de Herodes, quando César Augusto decretou um recenseamento.

E como não havia lugar para Maria e José na estalagem, em Bethleem, terra de Davi, eles tiveram que se refugiar numa cocheira, entre um boi e um burro.

Porque assim se realizaram as profecias:

* “E tu, Bethleem Efrata, tu és a mínima entre as milhares de Judá, mas de ti há de me sair Aquele que há de reinar em Israel, e cuja geração é desde o Princípio, desde os dias da eternidade”, como profetizou o Profeta Miquéias (Mi. V, 1).

** ”O Senhor vos dará este sinal: uma Virgem conceberá, e dará à luz um filho, e seu nome será Emanuel” (Is. VII,14)

*** “O Boi conhece o seu dono, e o burro conhece o presépio de seu senhor, mas Israel não me conheceu e o meu povo não teve inteligência” profetizou Isaías muitos séculos antes (Is. I,3).

E Cristo, nos dias de Herodes, nasceu em Bethleem que quer dizer casa do pão (Beth = casa. Lêem = pão).

Cristo devia nascer em Belém, casa do pão, porque Ele é o pão que desceu dos céus, para nos alimentar. Por isso foi posto numa manjedoura, para alimentar os homens.

Devia nascer num estábulo, porque recebemos a Cristo como pão do Céu na Igreja, representada pelo estábulo, visto que nas cocheiras, os animais deixam a sujeira no chão, e comem no cocho. E na Igreja os católicos deixam a sujeira de seus pecados no confessionário, e, depois, comem o Corpo e bebem o Sangue de Jesus Cristo presente na Hóstia consagrada, na mesa da comunhão.

Jesus devia nascer de uma mulher, Maria, para provar que era homem como nós. Mas devia nascer de uma Virgem — coisa impossível sem milagre — para provar que era Deus. Este era o sinal, isto é, o milagre que anunciaria a chegada do Redentor: uma Virgem seria Mãe. Nossa Senhora é Virgem Mãe. E para os protestantes, que não crêem na virgindade perpétua de Maria Santíssima, para eles Maria não foi dada por Mãe, no Calvário. Pois quem não tem a Maria por Mãe, não tem a Deus por Pai.

E por que profetizou Isaías sobre o boi e o burro no presépio?

Que significam o boi e o burro?

O boi era o animal usado então, para puxar o arado na lavoura da terra.

Terra é o homem. Adão foi feito de terra. Trabalhar a terra é símbolo de santificar o homem. Ora, os judeus tinham sido chamados por Deus para ser o sal da terra e a luz do mundo, isto é, para dar vida (sal) espiritual, santidade, aos homens, e ensinar-lhes a verdade (luz).

O boi era então símbolo do judeu.

O burro, animal que simboliza falta de sabedoria, era o símbolo do povo gentio, dos pagãos, homens sem sabedoria.

Mas Deus veio salvar objetivamente a todos os homens, judeus e pagãos. Por isso, no presépio de Cristo, deviam estar o boi (o judeu) e o burro (o pagão).

Foi também por isso que Jesus subiu ao Templo montado num burrico que jamais havia sido montado, isto é, um povo pagão que não fora sujeito ao domínio de Deus. E os judeus não gostaram que o burro fosse levado ao Templo, isto é, que Cristo pretendesse levar também os pagãos à casa de Deus, à religião verdadeira. Por isso foi escrito: “mas Israel não me conheceu e o meu povo não teve inteligência”.

Como também o povo católico, hoje, já não tem inteligência para compreender o Natal, pois “coisas espantosas e estranhas se tem feito nesta terra: os profetas profetizaram a mentira, e os sacerdotes do Senhor os aplaudiram com as suas mãos. E o meu povo amou essas coisas. Que castigo não virá, pois, sobre essa gente, no fim disso tudo?” (Jer. V, 30-31).

Pois se chegou a clamar: “Glória ao Homem, já rei da Terra e agora príncipe do céu”, só porque o homem fora até a Lua num foguete, única maneira do homem da modernidade subir ao céu.

No Natal de Cristo, tudo mostra como Ele era Deus e homem ao mesmo tempo.

Como já lembramos, Ele nasceu de uma mulher, para provar que era homem como nós. Nasceu de uma Virgem, para provar que era Deus.

Como um bebê, Ele era incapaz de andar e de se mover sozinho. Como Deus, Ele movia as estrelas.

Como criança recém nascida era incapaz de falar. Como Deus fazia os anjos cantarem.

Ele veio salvar objetivamente a todos, mas nem todos o aceitaram. E Herodes quis matá-lo.

Ele chamou para junto de si, no presépio, os pastores e os Reis, para condenar a Teologia da Libertação e os demagogos pauperistas que pregam que Cristo nasceu como que exclusivamente para os pobres. É falso!

Assim como o sol brilha para todos, Deus quis salvar a todos sem acepção de pessoa. Por isso chamou os humildes e os poderosos junto à manjedoura de Belém.

Mas, dirá um seguidor do bizarro frei Betto ou do ex frei Boff, que nada compreendem do Evangelho pois o lêem com os óculos heréticos e assassinos de Fidel e de Marx, sendo “cegos ao meio dia” (Deut. XXVIII, 29): Deus tratou melhor os pastores pobres, pois lhes mandou um anjo, do que os reis poderosos, exploradores do povo, aos quais chamou só por meio de uma estrela. É verdade!!!

Deus tratou melhor aos pastores. Mas não porque eram pastores, e sim porque eram judeus. Sendo judeus, por terem a Fé verdadeira, então, mandou-lhes um sinal espiritual. Aos reis magos, porque pertenciam a um povo sem a religião verdadeira, mandou-lhes um sinal material: a estrela.

No presépio havia ovelhas e bodes, porque Deus veio salvar os bons e os pecadores.

E a Virgem envolveu o menino em panos.

Fez isso, é claro, porque o pequeno tinha frio, e por pudor.

Mas simbolicamente porque aquele Menino —que era o Verbo de Deus feito homem—, que era a palavra de Deus humanada, tinha que ser envolta em panos, pois que a palavra de Deus, na Sagrada Escritura, aparece envolta em mistério, pois não convém que a palavra de Deus seja profanada. Daí estar escrito: “A glória de Deus consiste em encobrir a palavra; e a glória dos reis está em investigar o discurso” (Prov, XXV, 2).

E “Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado, e o império foi posto sobre os seus ombros, e seu nome será maravilhoso, Deus Poderoso, Conselheiro, o Deus eterno, o Príncipe da Paz” (Is. IX, 5).

Porque todos os homens, em Adão, haviam adquirido uma dívida infinita para com Deus, já que toda culpa gera dívida conforme a pessoa ofendida. E a ofensa de Adão a Deus produzira dívida infinita, que nenhum homem poderia pagar, pois todo mérito humano é finito. Só Deus tem mérito infinito. Portanto, desde Adão, nenhum homem poderia salvar-se. Todos nasceriam, viveriam e iriam para o inferno. E a humanidade jazia então nas sombras da morte.

Mas porque Deus misericordiosamente se fez homem, no seio de Maria, era um Homem que pagaria a dívida dos homens, porque esse Menino, sendo Deus, teria mérito infinito, podendo pagar a dívida do homem. Por isso, quando Ele morreu por nós, foi condenado por Pilatos, representando o maior poder humano — o Império — que O apresentou no tribunal dizendo: “Eis o Homem”. (Jo XIX, 5)

Ele era O Homem.

Era um homem que pagava os pecados dos homens assumindo a nossa natureza e nossas culpas, mas sem o pecado. Era Deus-Menino sofrendo frio e fome por nossos confortos ilícitos e nossa gula, na pobreza e no desprezo, por nossa ambição e nosso orgulho.

E os pastores e os Reis O encontraram com Maria sua Mãe, para mostrar que só encontra a Cristo quem O busca com sua Mãe.

E para demonstrar que diante de Jesus, ainda que Menino, todo poder deve dobrar o joelho.

E os pastores levaram ao Deus Menino suas melhores ovelhas, e seus melhores cabritos, enquanto os Reis Lhe levaram mirra, incenso e ouro. A mirra da penitência. O incenso da adoração. O ouro do poder.

Tudo é de Cristo.

Todos, levando esses dons, reconheciam que Ele era Deus, o Senhor de todas as coisas, Ele que dá todas as ovelhas e cabras aos pastores. Ele que dá aos Reis o poder e o ouro.

Deus é o Supremo Senhor de todas as coisas. Ele é o Soberano Absoluto a quem devemos tudo. E para reconhecer que Ele é a fonte de todos os bens que temos é que devemos levar-Lhe em oferta o melhor do que temos.

Publicado em Catolicismo Romano.

Imagem: WikiCommons.

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“Vivamos o grande retiro da Quaresma, tempo do deserto e do combate espiritual, com abertura para estes valores que nos aproximam de Deus pelo próximo.” – Artigo – Cardeal Orani João Tempesta Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ) – (CNBB)

Quaresma: Tempo de Luta Espiritual

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Exorto-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12, 1s).

 A Quaresma tem um sentido eminentemente pascal: é um tempo de caminho de conversão a Cristo, período de cristificação. “Morremos com o Cristo; trazemos em nosso corpo a morte de Cristo, para que também a vida de Cristo se manifeste em nós”. “Já não vivemos, portanto, nossa própria vida, mas a vida de Cristo, vida de inocência, vida de castidade, vida de sinceridade e de todas as virtudes”. “Ressuscitamos com o Cristo; vivamos, pois, com ele, subamos com ele, a fim de que a serpente não possa encontrar na terra nosso calcanhar”. (Santo Ambrósio, Tratado sobre a Fuga do Mundo).

Esta cristificação é ação do Espírito Santo: o homem não pode atingir tal escopo sem a graça do Santo Espírito, único que pode testemunhar Jesus em nós e conformar-nos a Cristo. Por isso mesmo, a busca da cristificação é um combate espiritual: combate porque é luta contra as tendências desencontradas do homem velho, que ainda persistem em nós; espiritual porque é combate na força do Espírito do Cristo: “Por ele, os corações são elevados ao alto, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem na virtude chegam à perfeição. Ele ilumina os que foram purificados de toda a mancha e torna-os espirituais pela comunhão consigo. Dele nos vem a alegria sem fim, a união constante e a semelhança com Deus; dele procede, enfim, o bem mais sublime que se pode desejar: o homem é divinizado” (São Basílio Magno, Tratado sobre o Espírito Santo).

A Quaresma é, pois, tempo do combate espiritual, tempo de uma ascese mais cuidadosa, ascese de caráter cristo-pneumatológico, tendo como fim a divinização (a vida de filhos do Pai). Sendo assim, esse tempo nada mais é que uma intensificação daquilo que é e deve ser toda a vida do cristão. São Bento, por exemplo, dizia a seus monges que a vida deles deveria ser uma contínua quaresma (ou seja, uma contínua preparação para a Páscoa).

Aproveitemos para viver esse combate espiritual com algumas atitudes de ascese.

Temos várias atitudes e comportamentos que podem nos ajudar, como por exemplo, o jejum: meio de tomar consciência da dependência de Deus; meio de domar nossas paixões, meio de atingir a educação de nossos instintos, modo de nos sensibilizarmos para a fome alheia.

Faz parte também a vida de oração: como modo de nos abrir para Deus e sua Presença; como meio de nos fazer sensíveis à sua Palavra; como modo de nos ajudar a compreender sua santa vontade; como meio de tudo avaliar com o coração de Deus; como modo privilegiado de fazer-se dócil à ação do Espírito Santo.

Uma atitude de desprendimento importante para hoje é a esmola, pois nos abre para os outros; é sinal da própria comunhão trinitária; é remédio contra nossas concupiscências; descentra-nos.

Outra prática não muito comum entre nós são as vigílias, que nos ajudam a vigiar pela vinda do Reino; no combate à preguiça espiritual; faz-nos intercessores pelo mundo que dorme e nos ajudam no autodomínio.

Vivamos o grande retiro da Quaresma, tempo do deserto e do combate espiritual, com abertura para estes valores que nos aproximam de Deus pelo próximo.

No Ano Arquidiocesano da Esperança sejamos portadores da boa notícia do Reino de Deus e aproveitemos do tempo favorável para vivermos a caminhada de conversão, sendo ajudados pela penitência física e silenciosa do jejum. Jejum não só de carne e de alimentos às sextas-feiras, mas jejum da maldade, jejum da perversidade, jejum dos maus atos e pensamentos, jejum da desagregação e jejum da intolerância religiosa.

Sejamos generosos com as obras de caridade da Igreja, doando o que deixamos de comer, como gesto concreto em favor dos mais pobres e das necessidades das obras caritativas da Igreja (de maneira especial no Domingo de Ramos, dia da Coleta da Solidariedade). A oração que é ouvida por Deus é aquela que é acompanhada destes gestos concretos.

Boa Quaresma e profunda conversão rumo à Páscoa!

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Segunda, 09 de Março de 2015.

Publicado em CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

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4ª-feira da 3ª Semana da Quaresma
Cor: Roxo 1ª Leitura – Dt 4,1.5-9 Cumpri e praticai as leis e decretos. Leitura do Livro do Deuteronômio (4,1.5-9):

Moisés falou ao povo, dizendo:
1 ‘Agora, Israel, ouve as leis e os decretos
que eu vos ensino a cumprir,
para que, fazendo-o, vivais
e entreis na posse da terra prometida
que o Senhor Deus de vossos pais vos vai dar.
5 Eis que vos ensinei leis e decretos
conforme o Senhor meu Deus me ordenou,
para que os pratiqueis na terra em que ides entrar
e da qual tomareis posse.
6 Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática,
porque neles está vossa sabedoria
e inteligência perante os povos,
para que, ouvindo todas estas leis, digam:
‘Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação!
7 Pois, qual é a grande nação
cujos deuses lhe são tão próximos
como o Senhor nosso Deus,
sempre que o invocamos?
8 E que nação haverá tão grande
que tenha leis e decretos tão justos,
como esta lei que hoje vos ponho diante dos olhos?
9 Mas toma cuidado!
Procura com grande zelo não te esqueceres
de tudo o que viste com os próprios olhos,
e nada deixes escapar do teu coração
por todos os dias de tua vida;
antes, ensina-o a teus filhos e netos.

Palavra do Senhor.

Salmo – Sl 147, 12-13. 15-16. 19-20 (R. 12a)

R. Glorifica o Senhor, Jerusalém!
12 Glorifica o Senhor, Jerusalém!*
Ó Sião, canta louvores ao teu Deus!
13 Pois reforçou com segurança as tuas portas,*
e os teus filhos em teu seio abençoou. R.15 Ele envia suas ordens para a terra,*
e a palavra que ele diz corre veloz.
16 ele faz cair a neve como a lã *
e espalha a geada como cinza. R.19 Anuncia a Jacó sua palavra,*
seus preceitos suas leis a Israel.
20 Nenhum povo recebeu tanto carinho,*
a nenhum outro revelou os seus preceitos.

Evangelho – Mt 5,17-19

Jesus fala aos discipulos.Aquele que praticar e ensinar os mandamentos,
este será considerado grande.+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus (5,17-19)Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
17 Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas.
Não vim para abolir,
mas para dar-lhes pleno cumprimento.
18 Em verdade, eu vos digo:
antes que o céu e a terra deixem de existir,
nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei,
sem que tudo se cumpra.
l9 Portanto, quem desobedecer
a um só destes mandamentos, por menor que seja,
e ensinar os outros a fazerem o mesmo,
será considerado o menor no Reino dos Céus.
Porém, quem os praticar e ensinar
será considerado grande no Reino dos Céus.Palavra da Salvação.

Reflexão – Mt 5, 17-29

Todos nós estamos de acordo que devemos obedecer a Deus, mas não estamos muito de acordo se perguntarmos por que devemos obedecer a Deus. Isto porque existem duas formas de obediência. A primeira é a obediência de quem reconhece o poder de quem manda e se submete a este poder por causa das vantagens da obediência ou das conseqüências da desobediência. É aquele que diz que manda quem pode e obedece quem tem juízo. A segunda é de quem reconhece os valores que motivam a autoridade e assume esses valores como próprios, vendo na obediência a grande forma de concretização desses valores. Jesus não veio mudar a lei, mas mostrar as suas motivações, os seus valores, a fim de que a sua observância não seja um jugo, mas uma forma de realização pessoal.
Fonte: Paróquia Nossa Senhora do Resgate (extraído de CNBB).

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“O Natal é, portanto, a nossa festa, onde aquele dia glorioso nos toca através da liturgia que realizamos. Sim, o Natal é para nós um dia glorioso. Andávamos nas trevas. Tendo sido criados à imagem e semelhança de Deus, desconhecíamos o modelo a partir do qual fomos criados. Para isso o Verbo se fez carne, para revelar ao homem o seu mistério, para nos dizer o que significa ser homem e mulher.” Homilia – Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

As comemorações natalinas que se dão em família ou dentro das relações de amizade, por mais que tenham se sofisticado, devido aos detalhes, na realidade, têm perdido quase totalmente  o seu  sentido original, aliás, um significado que  permaneceu vivo para a Cristandade por quase dois mil anos: o nascimento do Menino Jesus, em uma gruta de Belém. No entanto, desde a década de sessenta, ou talvez, um pouco antes, a partir da segunda metade do século XX, com o incremento de propagandas por meio do rádio, impressos e com o surgimento da televisão, o abandono do seu verdadeiro sentido foi pouco a pouco sendo firmado. O resultado disso foi a intensa exploração comercial da  figura do Papai Noel, que, paulatinamente, acabou  dessacralizando a data de 25 de dezembro nos meios de comunicação do mundo inteiro, e, por extensão, mesmo dentro das famílias cristãs.

Ainda que seja assim, sem qualquer sinal de uma reversão desta realidade, mais e mais distorcida, cada um de nós pode repensar o conteúdo que envolve o período de festas de fim de ano, e, assim, proporcionar a si próprio e aos semelhantes mais próximos, uma oportunidade de viver o sentido original da comemoração da vinda de Jesus Cristo à face da Terra.

Amor, perdão e redenção envolvem-nos a cada Natal. Nada deveria ser mais  importante. Assim, vivamos o Natal acompanhados da amizade de Jesus, relembrando sua pequenez na manjedoura, para que vivamos o ano todo envolvidos pela pureza de seu Amor, que em Sua Paixão e Ressurreição nos resgatou para a verdadeira vida!

Um abençoado Natal a  todos!

Lúcia Barden Nunes

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manjedoura_natal

Fonte: Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

Homilia: Natal do Senhor

24/12/2014

“Nosso Salvador, amados filhos, nasceu hoje; alegremo-nos. Não pode haver tristeza quando nasce a vida: dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nessa felicidade; a causa da alegria é comum a todos porque nosso Senhor, aquele que destrói o pecado e a morte, não tendo encontrado nenhum homem isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória. Rejubile o pecador, porque é convidado ao perdão. Reanime-se o gentio, porque é chamado à vida.”

O texto de São Leão Magno citado acima nos dá o sentido da festa que celebramos. Não celebramos o Natal como um fato passado. Não se trata de um aniversário, porque o aniversário de alguém ou de algum acontecimento nos representa um fato passado, que fica cada vez mais no passado e cujo acontecimento fundante nós não podemos tocar de novo. O Natal de Nosso Senhor, ao contrário, tendo acontecido uma vez por todas não pode se repetir, mas nós o experimentamos de forma misteriosa na sua celebração anual. As celebrações se repetem, não o mistério de Deus. Em cada ano, é sempre o mesmo e único mistério do Natal do Senhor que nos toca e renova a nossa vida. O mesmo São Leão nos recorda em outra passagem: “(…) o retorno do ano apresenta-nos de novo o sacramento de nossa salvação que, prometido desde o início dos tempos, foi dado no fim para perdurar sem fim.” É o Natal do Senhor, o Natal da cabeça, mas também o Natal o Corpo. O Natal é, portanto, a nossa festa, onde aquele dia glorioso nos toca através da liturgia que realizamos. Sim, o Natal é para nós um dia glorioso. Andávamos nas trevas. Tendo sido criados à imagem e semelhança de Deus, desconhecíamos o modelo a partir do qual fomos criados. Para isso o Verbo se fez carne, para revelar ao homem o seu mistério, para nos dizer o que significa ser homem e mulher (cf. GS 22). Aquele que nos criou de modo admirável, de modo ainda mais admirável restabeleceu a nossa dignidade, nos recorda a oração coleta dessa eucaristia.

Deus hoje nos presenteia com a abundância da sua palavra. Ao ouvirmos o profeta o nosso coração transborda numa grande confirmação, num grande Amém, porque de fato “os confins da terra viram a salvação do nosso Deus”. Em íntima unidade com a profecia, o salmista canta a beleza dessa manifestação gloriosa de Deus. Isaías pensa aqui no retorno do exílio, uma grande Páscoa para Israel. Todavia, o profeta tem também os seus olhos voltados para a expectativa do Messias, Aquele que salvará definitivamente Israel. Para nós, em Cristo, essa espera chegou ao fim e já temos em nosso meio Aquele que é a nossa Salvação.

Gostaria de me ater, sobretudo, ao Evangelho que ouvimos. Trata-se do prólogo do Evangelho de João. João nos apresenta a preexistência do Filho. Ele é a Palavra eterna do Pai. Seu lógos, gerado da própria substância do Pai. Igual ao Pai na sua divindade. E o Filho sempre esteve com Deus. Não houve um tempo em que o Pai não fosse Pai porque Ele sempre teve junto de si o Filho (Orígenes). Faz parte da própria essência de Deus ser Pai e do Filho, ser Filho. É a vida trinitária antes da criação. O Pai que ama seu Filho gerando-o e o Filho que ama o Pai submetendo-se totalmente à sua vontade. Essa circulação de amor entre os dois chama-se Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho como rezávamos ontem no Credo. Todavia, a Trindade quer se abrir à criação. E o Pai cria o mundo pelo poder da sua Palavra. No Filho, na Palavra, tudo foi criado. Ele é o mediador da criação e, quando o mundo caiu em trevas, Ele que é a luz dos homens, a “luz da luz” como também rezávamos ontem no Credo, veio ao mundo nos iluminar, nos devolver de novo a visão que havíamos perdido pelo pecado. Ele, que outrora se manifestava a Moisés na transitoriedade da tenda, armou definitivamente a sua tenda no meio dos homens (v. 14). Assumiu a nossa humanidade realmente. Fez da nossa humanidade uma habitação para si. Não que Ele tivesse apenas se revestido aparentemente de nossa humanidade, mas que assumiu verdadeiramente como morada para si a nossa humanidade. A sua divindade ungiu e divinizou a nossa humanidade. E nós, que tínhamos nos solidarizado com Adão e Eva no pecado em virtude da participação na sua mesma natureza, temos o Filho que se solidariza conosco, que se compadece de nós, e assume a nossa humanidade, para reerguer-nos das trevas onde havíamos caído. E nós que o recebemos, nos tornamos filhos de Deus. Eis a nossa dignidade devolvida.

Ele é o “esplendor da glória do Pai” como nos diz a carta aos Hebreus. Nós o olhamos na humildade do presépio, no sacrifício da cruz, na luz da ressurreição e dizemos: Ele é “o esplendor da glória do Pai”. A Deus, ou seja, ao Pai, ninguém jamais viu. O AT nos fala que ninguém pode ser a Deus e continuar vivo. De nosso lado, porque sendo pecadores não podemos contemplar o Santo. Do lado de Deus, Ele não se deixa ver para que não caíamos no erro de querer manipulá-lo como se fosse um objeto. Mas, Cristo nos revelou Àquele que não podíamos, por nossas próprias forças contemplar. Ele que está na intimidade do Pai, voltado para o seu coração, nos “contou”, nos “interpretou” o Pai, porque por força de nossa própria inteligência não podíamos chegar sozinhos ao “tudo” que Deus é.

Devemos conscientizar-nos, como nos ensina São Leão, da nossa dignidade. Procuremos não somente imitá-lo exteriormente, de fora para dentro. Mas, tomemos consciência do que aconteceu em nós pelo seu nascimento, de como fomos transformados no mais íntimo de nós mesmos. E assim, poderemos externar, manifestar, a glória do Senhor com a nossa vida.

NATAL DO SENHOR

1ª Leitura: Is 52,7-10
Sl 97
2ª Leitura: Hb 1,1-6
Evangelho: Jo 1,1-18

Padre Fábio Siqueira

Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida.

Publicado em Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Imagem: Menino Jesus na manjedoura –  Paróquia Santo Antônio do Pari.

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