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Archive for the ‘Reflexão’ Category

Meu Encarceramento

Ainda lembro como se fosse hoje como tudo aconteceu. Era uma sexta-feira, já no finalzinho da tarde, quando já ansiava pelo fim de semana que se avizinhava. Eles entraram no meu local de trabalho, não bateram na porta, nem cumpriram os rituais de boa educação. Simplesmente, deram-me voz de prisão, sem que eu pudesse resistir. Não estavam munidos de cassetete, algemas ou arma de fogo. Não eram como os policiais normais: suas armas eram palavras, imagens, fatos e um alarmante índice de mortos. Minha sensação naquele momento foi de um cidadão comum. Senti-me perplexo, perdido e acuado. Sem que minhas angustias fossem escutadas, fui levado às pressas para o camburão. Não me foi permitido levar muitas coisas. Eles me levaram em um veículo escuro e hostil a minha dor. No entanto, percebi que não era o único que havia sido preso, milhares de pessoas também estavam ali, também elas haviam sido delatadas. A acusação que recaia sobre todos nós era que levávamos uma vida comum. Algo totalmente injusto para um trabalhador como eu, que paga os meus impostos e cumpre com os seus deveres com a Nação. Mas o mais chocante de tudo ainda estava para acontecer. O local do meu encarceramento se chamava casa. Casa? Sim, não qualquer casa, mas a minha casa. Era realmente maldade o que faziam comigo, estar preso em minha própria casa. Casa, para mim, colocava-me em contato com um “nós”. Confesso que sempre tive dificuldade em conjugar os verbos na terceira pessoa do plural, por isso, com o passar do tempo havia criado muitos espaços onde a conjugação na primeira pessoa do singular era permitida. Era ridículo que nessa altura da vida fosse obrigado a passar por essa situação tão constrangedora. Os meus algozes, como um gesto benéfico, deixaram-me usar o smartphone. Era um refrigério em meio ao caos! Mas o tempo da privação foi alongando-se e com ele foram aflorando os meus medos e preocupações. Como vou pagar as minhas dívidas? Como vou sustentar a minha família? Essas e outras perguntas eram frequentes… Mas as minhas dúvidas não eram ouvidas, tentei fazê-los entender a importância que eu tinha na empresa e que muitas coisas dependiam de mim. Eu, que me achava imprescindível no meu trabalho, agora estava privado de qualquer certeza ou garantia de um dia voltar para ele. Esses pensamentos e preocupações, somadas ao enfado de estar naquele lugar, que já não merecia o nome de casa, mas de cárcere, levou-me ao delírio… Como é difícil constatar que não temos as coisas em nossas mãos e que de uma hora para outra tudo se torna relativo! O delírio, que de início se manifestava como um intruso, já ocupava cada segundo do meu dia. Hoje, tendo passado alguns anos do meu encarceramento posso admitir que o cume de tudo foi aquele espelho. De fato ele sempre esteve lá, mas até então servia apenas para ajudar-me a fazer a barba. Aquele espelho colocou-me em contato com o meu “eu”. O “eu verdadeiro” que vive escondido dentro de cada um de nós. Temos vergonha dele, por isso, fazemos questão de negá-lo. Mas já não me era mais possível fugir, minha condição de encarcerado não me permitia. Até mesmo o smartphone, de início tão solidário a minha dor, havia se revelado como um verdadeiro inimigo que me roubava de mim mesmo e, consequentemente, dos outros. Que cena deprimente foi escutar a voz do meu “eu verdadeiro”. Tive que reconhecer que havia muitas coisas em mim sem resolver. É como se me deparasse com um aglomerado de entulhos sem saber o que fazer. Não consigo colocar no papel o que consiste encontrar-se consigo mesmo em meio ao caos. Medo, insegurança, frustração, dúvidas, ódio, desespero… São palavras apenas! O que está em mim é bem mais do que isso. Porém, foi exatamente nesse instante, entre o desespero e a lucidez que vi emergir em mim uma voz. Não seria ela projeção do meu desespero? Não seria um refúgio metal criado pela minha fraqueza? Não, não conseguiria produzir por mim mesmo aquela sensação de paz. Não vinha de mim, mas de um “outro” estranhamente presente em mim. Agora reconheço que ela não surgiu no desespero, ela sempre esteve ali. Aquela voz amena e cálida me indicava apenas duas atitudes infantis como âncora naquela tempestade: a confiança e o abandono. Confiança e abandono não são palavras mágicas. Estão repletas de significado existencial. Foi quando no auge de meu encarceramento, quando havia perdido todas as esperanças de sobreviver a esse caos, é que emergiu essa Presença afável e sutil. Não sei explicar como alguém passa da dor à alegria, da prisão à liberdade, do desespero à esperança… São coisas complexas que não conseguimos expressar com palavras. Mas foi assim, quando do cume do meu cárcere fui liberto de mim mesmo e me abri à Transcendência.

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“Castelo Interior ou Moradas” – Primeiras Moradas – capítulo 2 (Seculares Contemplativos)

CENTRO DE ESPIRITUALIDADE MONTE CARMELO

Primeiras Moradas, capítulo 2

 

 

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CENTRO DE ESPIRITUALIDADE MONTE CARMELO

Aula 02 – Primeiras Moradas, Capítulo I

Nesta segunda aula, estudaremos o primeiro capítulo, das primeiras moradas, do livro: Castelo Interior de Teresa de Jesus, Santa e Doutora da Igreja.

 

Publicado em Seculares Contemplativos (in Sou Carmelo – Oficial – YouTube).

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CRISTO VIVE! RESSUSCITOU! ALELUIA! – “…A adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas e dos povos.” (Presbíteros)

 

Homilia de Mons. José Maria Pereira – Domingo de Páscoa

Vencedor da morte

Cristo ressuscitou! A paz esteja convosco! Hoje se celebra o grande Mistério, fundamento da fé e da esperança cristã: Jesus de Nazaré, o Crucificado, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, conforme as Escrituras. O anúncio feito aos Anjos, naquela aurora do primeiro dia, depois do sábado, a Maria Madalena e às mulheres que foram ao sepulcro, o ouvimos, hoje, com renovada emoção: “Por que buscais entre os mortos o Vivente? Não está aqui. Ressuscitou!”   ( Lc 24, 5-6).

O Senhor ressuscitou verdadeiramente, aleluia!

A todos formulo cordiais votos de Páscoa com as palavras de Santo Agostinho: “A Ressurreição do Senhor é a nossa esperança”. Com esta afirmação, Santo Agostinho explicava aos   seus fiéis que Jesus ressuscitou para que nós, apesar de destinados à morte, não desesperássemos, pensando que a vida acaba totalmente com a morte; Cristo ressuscitou para nos dar a esperança. Graças à Morte e Ressurreição de Cristo, também nós hoje ressurgimos para uma vida nova e, unindo a nossa voz à d’Ele, proclamamos que queremos ficar para sempre com Deus, nosso Pai, infinitamente bom e misericordioso.

A Ressurreição gloriosa do Senhor é a chave para interpretarmos toda a sua vida e o fundamento da nossa fé. Sem essa vitória sobre a morte, diz S. Paulo, vazia seria a nossa pregação e vã a nossa fé (1 Cor 15,14).

A Ressurreição do Senhor é uma realidade central da nossa fé católica, e como tal foi pregada desde os começos do cristianismo. A importância deste milagre é tão grande que os Apóstolos são, antes de mais nada, testemunhas da Ressurreição de Jesus. Este é o núcleo de toda pregação, e isto é o que, depois de mais de vinte séculos nós anunciamos ao mundo: Cristo vive!  A Ressurreição é a prova suprema da divindade de Cristo. Jesus ressuscitou, não para que a sua memória permaneça viva no coração dos seus discípulos, mas para que Ele mesmo viva em nós, e, n’Ele, possamos já saborear a alegria da vida eterna. Na manhã de Páscoa, tudo se renovou. “Morte e vida defrontaram – se num prodigioso combate: O Senhor da vida estava morto; mas agora, vivo, triunfa” ( Sequência Pascal). Esta é a novidade! Uma novidade que muda a vida de quem a acolhe, como sucedeu com os santos. Assim aconteceu, por exemplo, com São Paulo.

Portanto, a Ressurreição não é uma teoria, mas uma realidade histórica revelada pelo Homem Jesus Cristo por meio da sua “Páscoa”, da sua “passagem”, que abriu um “caminho novo” entre a Terra e o Céu (Heb 10, 20). Não é um mito nem um sonho, não é uma visão nem uma utopia, não é uma fábula, mas um acontecimento único e irrepetível : Jesus de Nazaré, filho de Maria, que ao pôr do sol de Sexta – feira foi descido da Cruz e sepultado, deixou vitorioso o túmulo. De fato, ao alvorecer do primeiro dia, depois do Sábado, Pedro e João encontraram o túmulo vazio. Madalena e as outras mulheres encontraram Jesus ressuscitado; reconheceram – no também os dois discípulos de Emaús ao partir o pão; o Ressuscitado apareceu aos Apóstolos à noite, no Cenáculo e depois a muitos outros discípulos, na Galiléia.

A Liturgia Pascal lembra, na primeira leitura, um dos mais comoventes discursos de Pedro sobre a Ressurreição de Jesus: “Deus O ressuscitou no terceiro dia, concedendo-Lhe manifestar-se… às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos” (At 10,40-41). Surge nestas palavras a vibrante emoção do chefe dos Apóstolos pelos grandes acontecimentos de que foi testemunha, pela intimidade com Cristo ressuscitado, sentando-se à mesma mesa, comendo e bebendo com Ele.

A Ressurreição é a grande luz para todo o mundo: “Eu sou a luz” (Jo 8,10), dissera Jesus; luz para o mundo, para cada época da história, para cada sociedade, para cada homem.

No Evangelho (Jo 20,1-9) vemos que a Boa Nova da Ressurreição provocou, num primeiro momento, um temor e espanto tão fortes, que as mulheres “saíram e fugiram do túmulo… e não disseram nada a ninguém, porque tinham medo”. Entre elas, porém encontrava-se Maria Madalena que viu a pedra retirada do túmulo e correu a dar a notícia a Pedro e João: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde O colocaram” (Jo 20,2). “Os dois saem correndo para o sepulcro e, entrando no túmulo, observaram as faixas que estavam no chão e o lençol…” (Jo 20,6-7). “Ele viu e acreditou” (Jo 20,8).  É o primeiro ato de fé da igreja nascente em Cristo Ressuscitado, originado pela solicitude de uma mulher e pelos sinais do lençol, das faixas de linho, no sepulcro vazio. Se se tratasse de um roubo, quem se teria preocupado em despir o cadáver e colocar o lençol com tanto cuidado? Deus serve-se de coisas bem simples para iluminar os discípulos que “ainda não tinham entendido a Escritura, segunda a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20,9), nem compreendiam ainda o que o próprio Jesus tinha predito acerca da Sua ressurreição.

Ainda que sob outro aspecto, os “sinais” da Ressurreição veem-se ainda presentes no mundo: a fé heroica, a vida evangélica da tanta gente humilde e escondida; a vitalidade da igreja que as perseguições externas e as lutas internas não chegam a enfraquecer; a Eucaristia, presença viva de Jesus ressuscitado que continua a atrair a Si todos os homens. Pertence a cada um dos homens vislumbrar e aceitar estes sinais, acreditar como acreditam os Apóstolos e tornar cada vez mais firme a sua fé.

A Ressurreição do Senhor é um apelo muito forte: lembra-nos sempre que vivemos neste mundo como peregrinos e que estamos em viagem para a verdadeira pátria, a eterna. Cristo ressuscitou para levar consigo os homens, na Sua Ressurreição, para onde Ele vive eternamente, fazendo-os participantes da Sua glória.

O Senhor Ressuscitado faça – se presente em todo lugar com a sua força de vida, de paz e de liberdade. Hoje, a todos são dirigidas as palavras com as quais, na manhã da Páscoa, o Anjo tranquilizou os corações amedrontados das mulheres: “Não tenhais medo! Não está aqui; ressuscitou” (Mt 28, 5-6). Jesus ressuscitou e concede – nos a paz. Ele mesmo é a paz. Por isso, vigorosamente, a Igreja repete: “Cristo Ressuscitou”. Que a humanidade do Terceiro Milênio não tenha medo de abrir – Lhe o coração! O Seu Evangelho sacia plenamente a sede de paz e de felicidade que habita em todo o coração humano. Agora Cristo está vivo e caminha conosco. Um Mistério imenso de Amor! Aleluia!

Devemos constantemente renovar a nossa adesão a Cristo morto e ressuscitado por nós: a sua Páscoa é também a nossa Páscoa, porque em Cristo ressuscitado é-nos dada a certeza da nossa Ressurreição. A notícia da sua Ressurreição dos mortos não envelhece e Jesus está sempre vivo; e vivo é o seu Evangelho. “A fé dos cristãos, observa Santo Agostinho, é a Ressurreição de Jesus Cristo”. O enfraquecimento da fé na Ressurreição de Jesus, consequentemente torna débil o testemunho dos crentes. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas e dos povos. Não é porventura a certeza de que Cristo ressuscitou que dá coragem, audácia profética e perseverança aos mártires de todos os tempos? Não é o encontro com Jesus vivo que converte e fascina tantos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para O seguir e pôr a própria vida ao serviço do Evangelho? “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã nossa fé” (1Cor 15, 14).

Mas ressuscitou!

Maria, a Mãe de Jesus, que acompanhou o Filho nas mais terríveis e duras horas da paixão; junto da Cruz, emudecida de dor, não soubera o que dizer; agora, com a Ressurreição, emudecida de alegria, não consegue falar. Procuremos estar unidos a essa imensa alegria da nossa Mãe. Toda a esperança na Ressurreição de Jesus que restava sobre a terra tinha-se refugiado no seu coração. Com toda a igreja, neste tempo pascal, saudemos a Virgem Maria: “Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia! Por que Aquele que merecestes trazer em vosso seio ressuscitou como disse, aleluia!…”

Somos chamados a ser testemunhas da Morte e Ressurreição de Cristo; deixemo-nos conquistar pelo fascínio da sua Ressurreição. Não podemos conservar para nós a grande notícia! Devemos levá-la ao mundo inteiro: “Vimos o Senhor” (Jo 20, 25). Ajude-nos a Virgem Maria a sermos mensageiros da luz e da alegria da Páscoa para com tantos irmãos nossos; amparados pela força do Espírito Santo, nos tornemos capazes de a difundir por nossa vez onde quer que vivamos e trabalhemos.

Uma Feliz Páscoa para todos!

Mons. José Maria Pereira

Publicado em Presbíteros.

Imagem: Domingo de Páscoa (Presbíteros).

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Quaresma: o caminho para a Páscoa

(…)

Através da liturgia, a Igreja convida-nos a percorrer com garbo o caminho da Quaresma. A celebração frequente dos sacramentos, a meditação assídua da Palavra de Deus e as obras penitenciais, sem que falte essa alegria – Laetare Ierusalem! – que sublinha especialmente o quarto domingo[30], são práticas que afinam a nossa alma, e nos preparam para participar com intensidade na Semana Santa, onde reviveremos os momentos cume da existência de Jesus na terra. «Temos de fazer vida nossa a vida e a morte de Cristo. Morrer pela mortificação e a penitência, para que Cristo viva em nós pelo Amor. E seguir, então, as pisadas de Cristo, com ânsia de co-redimir todas as almas. Dar a vida pelos outros. Só assim se vive a vida de Jesus e nos fazemos uma só coisa com Ele»[31]. Contemplando o Senhor que dá a vida por nós, bem purificados dos nossos pecados, redescobriremos a alegria da salvação que Deus nos traz: «Redde mihi laetitiam salutaris tui, devolve-me a alegria da Tua salvação»[32].

Alfonso Berlanga

Fonte: opusdei.org (Leia o texto completo neste link).

Foto: Reprodução.

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Natal 2019: Jesus nasce em Belém (Rumo à Santidade)

Jesus nasce em Belém

Nascimento de Jesus em Belém

A Luz veio ao mundo

O nascimento de Jesus (cf. Lc 2, 1-20) é contemplado pela Liturgia da Igreja sob o símbolo da Luz: «Ó Deus, que fizestes resplandecer esta noite santa com a claridade da verdadeira luz!»; «O povo que caminhava na escuridão viu uma grande luz»; «Hoje surgiu a luz para o mundo: o Senhor nasceu para nós».

Todas essas expressões são um eco das palavras do prólogo do Evangelho de São João:

No princípio era o Verbo […] e o Verbo era Deus. […] Nele estava a Vida, e a vida era a Luz dos homens. […] Era a Luz verdadeira, que vindo ao mundo, ilumina todo homem […]. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (Jo 1, 1 seg.)

Neste capítulo, a nossa meditação quer ser mais contemplativa: ajudar-nos a voltar os olhos e o coração para Jesus Menino, que repousa sobre as palhas do Presépio, envolto nos paninhos que a Mãe lhe preparou, de modo a sentirmos o impulso de agradecer-lhe a sua entrega «por nós, homens e para a nossa salvação», e de adorá-lo: Meu Senhor e meu Deus!

O Menino que vemos deitado na manjedoura é Deus feito homem. É o Redentor que vem para nos salvar.

Tanto amou Deus o mundo – diz o Evangelho após a conversa de Jesus com Nicodemos – que lhe deu seu Filho único. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3, 16-17)

Este é o coração da nossa fé! O Menino nos dá a certeza de que Deus, que é amor, nos ama com loucura. Deus é amor! – escrevia são João. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado o seu Filho único, para que vivamos por Ele (1 Jo 4, 8-9).

Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou… O mistério da Encarnação extasiava esse Apóstolo e o levava a dizer na sua primeira Carta (1, 1): Nós o vimos com os nossos olhos, nós o contemplamos, nós o ouvimos, nós o tocamos com as mãos…! E, como que lamentando a tristeza dos que são incapazes de «ver», acrescentava: Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor (4, 8).

Sinais do Amor, tesouros do Amor

Jesus nos ama – a você, a mim, a cada um – com toda a força do seu Amor divino e humano. É um amor que tem dois sinais da autenticidade. Em primeiro lugar, é uma doação plena. Um amor que não se dá não é amor. Mas não é um dar-se qualquer, é uma doação que visa o nosso bem. E aí está o segundo sinal: todo verdadeiro amor quer bem, quer o bem, dá-se procurando o bem da pessoa amada.

Qual é o bem que Jesus nos traz? Todos os bens! A vida divina – Deus em nós – aqui na terra e a vida eterna. Desse tesouro, nós podemos extrair especialmente três riquezas:

• A riqueza da Verdade que Ele nos ensina.
• A riqueza do Caminho do Céu, que Ele nos mostra com o seu exemplo e a sua palavra.
• E a riqueza da Vida nova dos filhos de Deus – concedida pela graça do Espírito Santo -, que chega até nós a partir do seu Coração trespassado na Cruz.

Tudo isso resumiu-o Jesus, na Última Ceia, numa só frase: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Meditemos nessas palavras.

Eu sou a Verdade. Vem à memória a alegria do pai de São João Batista, Zacarias – marido de santa Isabel -, quando, no dia do nascimento de João, profetizou o próximo nascimento de Jesus como fruto da

ternura e misericórdia do nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz (Lc 1, 78-79)

Desde antes de nascer, Jesus já é anunciado como o Sol, como a luz, a luz da Verdade, que nos guiará para a paz.

Já percebeu que a Verdade que Ele nos traz não é uma verdade qualquer: é a verdade- verdadeira? É – como dizia são João Paulo II – «a Verdade sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo» (Cf. Carta Encíclica Redemptoris Missio, 07.12.1990, n. 3; e Carta Encíclica Redemptor Hominis, 04.03.1979, n. 12).

Mas essa Verdade – como Jesus explicava – é parecida com a «semente» na mão do semeador (cf. Mt 13, 1-23; Mc 4, 1-20; Lc 8, 1-15). Pode perder-se no caminho, cair sobre as pedras ou entre espinhos, e morrer; ou pode cair numa boa terra e dar fruto.

Se procurarmos acolher a Verdade – com maiúscula -, a nossa vida irá sendo reflexo da vida de Cristo Jesus, e nada deste mundo poderá abalar a nossa fé.

Aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha (Mt 7, 24-27).

Uma casa que nem a chuva, nem o vento, nem as tormentas conseguirão derrubar.

Eu sou o Caminho. Olhe para Jesus Menino. Descobrirá que toda a vida dele – desde que nasceu até que subiu ao Pai -, é uma irradiação de exemplo, é a sinalização luminosa do caminho que leva para Deus.

É lógico que Cristo nos diga: Segue-me!… Porque nos quer bem. Ele nos compara às ovelhas que Ele, o Bom Pastor, conduz com segurança entre brumas, penhascos e perigos, até o lugar do repouso. Ele é o Bom Pastor, que anda na frente, marcando o rumo com as suas pegadas.

Se nos acostumarmos a ler e meditar todos os dias o Evangelho, para conhecer cada vez mais a fundo a vida e o exemplo de Cristo, entenderemos (e praticaremos) o que dizia São Paulo:

Progredi no amor, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou como oferenda e sacrifício de suave odor (Ef 5, 2).

O Amor cristão não é fumaça nem perfumaria; não é uma teoria, não é uma paixão que arde e se evapora. Ou ele se manifesta por obras e de verdade – com frase são João (1 Jo 3, 18) – ou é uma miragem. Deve se concretizar na prática das virtudes: deve ser um amor generoso, compreensivo, dedicado, paciente, constante, forte na adversidade, caridoso, gentil, prestativo, e justo e discreto… Um amor que cada dia cresce na entrega a Deus e ao próximo.

Eu sou a Vida. Com o olhar e o coração fixos no Menino, pensemos na terceira coisa que Ele nos diz: Eu sou a Vida. Jesus é Deus que se faz homem, para que o homem, de uma maneira que não há palavras para expressar, se faça «Deus», se torne – como dizia São Pedro – participante da natureza divina (2 Pe 1, 11). É um pensamento que – desde os primeiros séculos do Cristianismo – deixava pasmados os santos, inebriados de alegria e de agradecimento.

Significa que Jesus nos traz a graça divina, a «graça do Espírito Santo», que nos une intimamente a Ele e nos faz participar da sua própria Vida:

Da sua plenitude – diz São João – todos nós recebemos, e graça sobre graça. Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (Jo 1, 17-18).

A graça do Espírito Santo, recebida pela primeira vez no Batismo, nos faz renascer para uma vida nova, transformando-nos em filhos de Deus. O Novo Testamento traz expressões belíssimas desse mistério. Por exemplo, São João afirma que a graça nos dá o poder de nos tornarmos filhos de Deus (Jo 1, 12). E São Paulo declara, com grande alegria, que, com a graça do Espírito Santo, recebemos o espírito de adoção como filhos, pelo qual clamamos: Abbá, Pai! Papai! (Rom 8, 15).

Jesus foi e será sempre a fonte de toda a graça, uma «fonte» que não para de jorrar. Aquele que tiver sede, venha a mim e beba (Jo 7, 37), diz-nos. E nos promete derramar em nós, sem medida, o Espírito Santo, amor de Deus que santifica.

As Sete Fontes

Jesus é como um manancial de onde brotam as sete fontes pelas quais nos vem principalmente a graça: os sete Sacramentos. Cada um deles nos une a Deus (e aos irmãos) de uma maneira própria.

O Batismo purifica-nos da culpa original e nos transforma – como víamos – em filhos de Deus; [Cristian: o Crisma é o óleo perfumado, e a Crisma é o Sacramento] Crisma dá-nos a força do Espírito Santo para sermos cristãos responsáveis, maduros e ativos no apostolado; a Reconciliação ou Confissão cura a alma doente e ressuscita a que está morta pelo pecado; a Eucaristia une-nos intimamente ao Sacrifício redentor de Jesus, que se faz Alimento, vida da alma, e oferece companhia de Amigo no Sacrário; o sacramento da Ordem faz com que os que recebem a ordenação sacerdotal (bispos e presbíteros) sejam instrumentos vivos de Cristo sacerdote, ajudados pelo ministério dos diáconos; o Matrimônio implanta a poderosa semente da graça sacramental e a caridade de Deus no amor dos esposos e dos pais; e a Unção dos Enfermos é a mão carinhosa de Jesus, que nos ergue da doença, ou – quando é o caso – nos encaminha definitivamente para o Céu.

E, assim, os sete Sacramentos, juntamente com as virtudes e com a força poderosa da oração – que é a respiração vital da alma do cristão – vão-nos identificando com Cristo, vão- nos transformando nEle, fazem com que pensemos como Cristo, sintamos como Cristo, amemos como Cristo, vivamos como Cristo. Isto é a vida cristã.

Depois de pensar nessas realidades, não acha que o Natal é o momento certo para nos perguntarmos, diante de Jesus Menino:

«Eu vivo como filho de Deus? A minha oração é uma oração de filho, cheia de entrega e de confiança? Posso dizer que o meu temor é filial, ou seja, que não temo que Deus me abandone ou me castigue, mas temo só magoá-lo, ofendê-lo? Cumpro os mandamentos com carinho de filho, ou com a má vontade do forçado? Tenho delicadezas de afeto filial para com Deus, para com Nossa Senhora? Enfim, eu poderia pôr o adjetivo filial em tudo o que penso, sinto e faço em relação a Deus?»

Com a ajuda do Menino-Deus e da sua Mãe santíssima, nós podemos viver assim. Pensemos, então nesta realidade: em cada Natal, Deus chega muito perto de nós; em cada Natal, Jesus – ultrapassando as barreiras do tempo – leva-nos para junto do Presépio; em cada Natal, Maria, a Mãe, oferece-nos o Menino, sob o olhar sorridente de José. E, em cada Natal, Jesus também sorri para nós e nos pergunta:

«Será agora? Será desta vez…? Confia» – diz-nos -, «eu nasci para te ajudar»

Publicado em Rumo à Santidade.

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