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Posts Tagged ‘"Caminho de Perfeição" – Santa Teresa de Jesus’

Solenidade da Epifania do Senhor

Epifania significa a “manifestação de Deus”, ou seja, o dia em que Deus revelou o seu Filho para o mundo e se manifestou universalmente na figura de um menino.

Cardeal Orani João Tempesta, O. Cist. Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Celebramos neste domingo, dia 2 de janeiro, a Solenidade da Epifania do Senhor, transferida do dia 6 e agora celebrada no domingo entre 2 a 8 de janeiro. Esse ano é logo no dia 2, após a solenidade de Santa Maria Mãe de Deus, devido ao calendário civil. No outro domingo, dia 9 de janeiro, já celebraremos a Festa do Batismo do Senhor, encerrando o tempo do Natal.

Epifania significa a “manifestação de Deus”, ou seja, o dia em que Deus revelou o seu Filho para o mundo e se manifestou universalmente na figura de um menino. A Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós e, por meio do nascimento de um menino, a humanidade é chamada a viver o amor.

A Solenidade da Epifania remonta ao dia em que os três reis magos, guiados pela estrela, chegam a Belém e adoram o menino Deus. O nome dos três reis magos são Baltazar, Melchior e Gaspar. Hoje, cada um de nós é convidado a ir ao presépio e adorar o menino Deus e oferecer-Lhe os nossos presentes. O maior presente que poderemos oferecer ao menino Deus é o nosso coração.

Os magos oferecem ao Menino Jesus ouro, incenso e mirra. Eles ofereceram os seus próprios dons que traziam consigo, da mesma forma nós hoje somos convidados a oferecer os nossos dons ao Senhor. Os dons que ofereceremos ao Senhor nessa Eucaristia não são mais o ouro, o incenso e a mirra, mas o dom da fé diante do corpo e sangue do Senhor que nos é oferecido na Eucaristia.

A primeira leitura da missa de hoje é do livro do profeta Isaías (Is 60, 1 – 6). O profeta pede para o povo levantar-se e acender as luzes, pois a luz chegou. O profeta Isaías, anos antes do nascimento de Jesus, prevê o que aconteceria com o nascimento de Jesus, a luz iluminaria as trevas e aqueles que andavam sob a sombra do pecado, encontrariam a luz. O profeta prevê a manifestação de Deus sobre Israel e sobre o mundo. E, ainda, que tempos de paz surgiriam com o nascimento de Jesus. Nós hoje da mesma forma devemos nos alegrar com essa luz que vem do Senhor.

O salmo responsorial é o 71 (72). Deus se manifesta a todos os povos e todos os povos devem adora-Lo. Deus quis manifestar-se a todas as nações, Ele não quis revelar-se a apenas uma nação, por isso, todos os povos devem buscar N’Ele a salvação.

A segunda leitura é da Carta de São Paulo aos Efésios (Ef 3, 2-3a. 5-6). O apóstolo revela que a salvação de Deus é para todos e para todos aqueles que de coração sincero se abrissem ao arrependimento. Deus concede ao apóstolo a missão de levar adiante a mensagem do Evangelho da salvação e que a salvação não é somente para Israel, mas para todos os povos do mundo.

O Evangelho é de São Mateus (Mt 2, 1-12). Mateus relata como os três reis magos buscaram informações a respeito do nascimento de Jesus, a partir do momento em que viram brilhar a estrela no céu. Foram até Jerusalém ter com Herodes e perguntaram se ali que deveria nascer o “Rei dos Judeus”. Herodes fica nervoso, pois achava que somente ele deveria ser o Rei de Israel e, evidentemente, não entende que o reinado de Jesus não era de maneira alguma igual ao dele.

Herodes se reúne com os sumos sacerdotes e mestres da Lei e começam a pesquisar onde deveria nascer o “rei dos Judeus”. Eles chegam à conclusão que seria em Belém de Judá. Herodes procura saber dos Magos quando a estrela apareceu e os envia a Belém para que depois eles lhes trouxessem informações a respeito do nascimento do menino. Mas os magos foram avisados em sonho para não voltarem a Herodes, pois ele tinha a intenção de matar o menino Jesus, pois estava com raiva.

Os magos chegam ao local onde se encontrava o menino com Maria e José e se prostram diante dele e o adoram. Os magos lhe oferecem presentes: ouro, incenso e mirra. O ouro por causa da realeza do Menino Jesus, o incenso devido a sua divindade e a mirra devido a sua humanidade, pois além de Deus, ele era Humano. E a mirra seria o mesmo óleo que Jesus seria ungido após a sua morte. Os magos oferecem ao menino Jesus tudo aquilo que eles tinham de mais sagrado, de mais valioso.

Podemos nos perguntar: o que eu ofereço ao Senhor? Que presente eu trago para dar a ele? Com certeza não é mais ouro, incenso ou mirra, mas poderemos oferecer a ele o presente mais valioso que é a nossa vida. Dedicarmos tempo ao Senhor, colocá-lo em primeiro lugar e não em segundo plano. E viver uma vida longe do pecado.

Participemos com alegria da missa da Solenidade da Epifania do Senhor, dentro, ainda, do tempo do Natal. Olhemos para o presépio e adoremos o menino Deus que acabara de nascer. Que Ele se manifeste a cada um de nós e à humanidade inteira, revelando o plano de amor para todos os povos.

Que a Virgem Maria interceda por nós em nossa caminhada e ela nos ajude a conservarmos e guardar tudo em nosso coração.

Publicado em vaticannews.va.

Imagem: Gaudium PressEpifania: um convite a sermos gratos ao Senhor (02.01.2022)

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01.01.2022

Iniciamos o ano civil com a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus (Theotókos). Esta comemoração ocorre dentro das festividades de Natal , para relembrarmos o nascimento de Jesus, o Filho de Deus. De acordo com a tradição, é a primeira Festa Mariana da Igreja Ocidental e começou a ser celebrada em Roma no século VI. Desta forma, esta Festa Mariana encontra seu marco litúrgico no Natal e ao mesmo tempo em que todos os católicos começam o ano novo pedindo a proteção da Santíssima Virgem Maria.

O Verbo de Deus veio em auxílio da descendência de Abraão, como diz o Apóstolo. Por isso devia fazer-se em tudo semelhante aos irmãos (Hb 2,16-17) e assumir um corpo semelhante ao nosso. Eis por que Maria está verdadeiramente presente neste mistério; foi dela que o Verbo assumiu, como próprio, aquele corpo que havia de oferecer por nós. A Sagrada Escritura, recordando este nascimento, diz: Envolveu-o em panos (Lc 2,7); proclama felizes os seios que o amamentaram e fala também do sacrifício oferecido pelo nascimento deste Primogênito. O anjo Gabriel, com prudência e sabedoria, já o anunciara a Maria; não lhe disse simplesmente: aquele que nascer em ti, para não se julgar que se tratava de um corpo extrínseco nela introduzido; mas: de ti (cf. Lc 1,35 Vulg.), para se acreditar que o fruto desta concepção procedia realmente de Maria.

São Paulo em sua carta aos Gálatas 4, 4 diz de Jesus: “… mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a lei“, para indicar que, como um homem de Deus, necessariamente, tinha que ter uma mãe. É a grande demonstração de um Deus que nos amou e assumiu nossa humanidade, exceto o pecado. Aqui podemos observar que Maria aparece ligada ao mistério central da reconciliação. Esse relacionamento único é trazido com particular importância no momento da chegada de Deus na história humana, através da cooperação livre da Mulher, que é a Virgem Maria. Ela é o ponto de união entre o céu e a Terra. Dessa forma, Maria nos une a Deus e às pessoas, os homens e as mulheres de boa vontade.

Contudo, mesmo tendo o Verbo tomado um corpo no seio de Maria, a Trindade continua sendo a mesma Trindade, sem aumento nem diminuição. É sempre perfeita, e na Trindade reconhecemos uma só Divindade; assim, a Igreja proclama um único Deus no Pai e no Verbo.

Texto: com informações de Academia Marial de Aparecida

Publicado em Basílica Santuário de Nazaré – Padres Barnabitas.

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Queridos paroquianos,

Na mensagem de Natal deste ano quis unir e partilhar com vocês três breves pensamentos de autores diferentes: do doutor da Igreja São Leão Magno, do padre espanhol Fernández Carvajal e do teólogo suíço Hans Urs von Balthasar.

            Certamente os festejos natalinos deste ano serão  diferentes de todos os que a nossa geração já vivenciou até agora. Se ficarmos limitados aos acontecimentos sociais, culturais e da área da saúde, talvez  não encontremos motivos para nos alegrar e festejar. Praticamente desde o início deste ano, o medo e a preocupação causados pelo covid-19, vêm tomando conta da nossa forma de viver. Mas, espiritualmente somos convidados a encontrar em Jesus, no Menino-Deus, a alegria e a esperança para a nossa vida. Assim escreveu São Leão Magno: “Não pode haver tristeza quando nasce a Vida. Dissipando o temor na morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nessa felicidade”. Não pode existir tristeza no dia do nascimento da Alegria! Sim, Jesus é a nossa Alegria, motivo primeiro e ápice de toda a nossa existência. No dia em que Deus veio nos visitar, e morar entre nós, temos que acolher jubilosos em nosso coração o belíssimo anúncio do anjo, na ocasião para os pastores e hoje para todos nós: “Não temais, eis que vos anuncio uma Boa-Nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2, 10-11).

O texto bíblico relata que após o anuncia do anjo, os pastores foram à Belém procurar o Menino Jesus. Assim como eles, nós devemos procurá-lo e encontrá-lo, não apenas na noite de Natal, mas em todos os dias. O padre Fernández Carvajal, ao escrever uma homilia natalina, destacou: “Se Deus se fez homem e me ama, como não procura-lo? Como perder a esperança de encontrá-lo, se é Ele que me procura?” Foi Jesus, o Emanuel, que desceu do céu para vir ao nosso encontro. A iniciativa foi d’Ele! Isso é uma demonstração claríssima do seu amor benevolente por nós. Este encontro de Deus com a nossa fragilidade humana, nos enche de profunda esperança. Quando contemplamos o seu nascimento não temos dúvidas do quanto Ele nos ama. E ao contemplarmos este amor, só nos resta retribuí-lo com amor e com gratidão. Gratidão por mais um Natal que estamos celebrando, por mais um ano que estamos concluindo, mesmo que tenhamos passado por alguns contratempos. Não esqueçamos que a doce presença do Menino de Belém tem nos acompanhado até agora, e nos acompanhará por todo o sempre. Entendamos uma coisa, Ele veio nos procurar para que encontrados por Ele encontremos o único motivo que nos dá  sentido de viver para além das circunstâncias adversas que estamos passando. E que o nosso encontro com Ele seja feito, não somente na noite de Natal, mas em todos os dias deste Novo Ano.

Na dinâmica cotidiana do encontro de Jesus com cada um de nós, o teólogo Von Balthasar, ressalta que: “Com o nascimento de Jesus, se iniciou para nós uma história de amor onde Deus é o roteirista, o Espírito Santo é o diretor, Jesus é o ator principal e nós somos os coadjuvantes”. Ou seja, com o Natal passamos a participar de uma belíssima história de amor onde a Trindade e cada um de nós tem um papel importantíssimo a desempenhar. Deus é o roteirista, é Ele quem escreve a nossa história. O Espírito Santo é o diretor, é Ele quem dirige e guia nossa vida. Jesus é o protagonista, é o ator principal com quem contracenamos. Somos os coadjuvantes! Sendo assim, para que esta história tenha um desfecho feliz, precisamos aceitar o roteiro que Deus escreveu para nós, precisamos nos deixar guiar pelo o Espírito Santo em todos os momentos e precisamos contracenar com Jesus. Ele é o protagonista, Ele é o centro de tudo! Temos que estar com Ele o tempo todo, em todas as cenas da nossa vida, nos momentos de dor e de alegria, de enfermidade e de saúde, de perdas e ganhos.

Queridos paroquianos, o Natal é este momento onde Jesus, a nossa Alegria, o Protagonista da nossa vida, mais uma vez quis, por iniciativa própria, vir conviver conosco e nos salvar.  É Natal! Não estamos sozinhos! O Emanoel, o Deus-conosco, está entre nós.  Ele nasceu para dissipar as nossas dores, doenças, medos e morte. Celebremos este grande acontecimento ao lado da Virgem Maria e de São José. Que eles intercedam por nós. Por todos os nossos familiares e amigos que são os presentes mais preciosos que o Senhor nos concedeu.

Meu afetuoso abraço a todos vocês, queridos paroquianos e filhos espirituais. Contem sempre com as minhas orações e rezem por mim também.

Um feliz e santo Natal para todos!

Um ano novo preenchido da presença de Jesus!

Padre e amigo Antônio José (Pascom Sje).

Publicado em Paróquia São João Evangelista.

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O agente da Pastoral Familiar Gerardo Carvalho Frota, da paróquia de Nazaré, na arquidiocese de Fortaleza (CE), enviou para o Portal Vida e Família um cordel sobre o presépio, com o título Presépio: Sinal do Natal Cristão.

Também conhecido por Pardal, Gerardo é professor, jornalista e poeta cordelista. Sua composição foi feita após a última reunião da Pastoral Familiar, na qual o padre diretor espiritual fez uma explanação sobre os personagens do presépio.

Confira:

PRESÉPIO: SINAL DO NATAL CRISTÃO

Foi na cidade de Creccio (*)
Que Francisco viu uma gruta
O Santo achou parecida
Com a manjedoura impoluta
Que o menino-Deus nasceu.
Nesta hora apareceu
Uma ideia resoluta:

São Francisco quis fazer
Ao vivo o acontecimento
Do Natal ali na gruta
Pro nosso contentamento.
Conta pra João Velita
Que achou a ideia bonita
E ajudou no grande intento!

Veja o que Francisco fez
Como ele preparou
Naquela gruta o PRESÉPIO
Um burrinho e um boi e levou.
Encheu a concha de feno
Nela de um Jesus pequeno
Uma imagem colocou.
____________________
(*) Cidade italiana na região de Lazio

Camponeses e pastores
Dos vales das regiões
Se aproximaram da gruta
Cantando bela canções.
Vinham com fachos de luz
Era o Natal de Jesus
Alegrando os corações!

À meia noite uma missa
Na gruta então foi rezada.
Os frades vinham de longe
De região afastada
E ao redor do grande altar
Todos ali a coroar
Uma festa inusitada.

Logo depois do evangelho
O santo a todos pregava
Discorreu sobre o mistério
Que Deus nos proporcionava.
Era tão grande a alegria
Que até os lábios lambia
Quando de Jesus falava!

Ao pronunciar “Belém”
A sua voz parecia
Com a de um anjo de paz
Pois o que ali acontecia
Neste verso verbalizo:
“A noite no paraíso”
Por tão perfeita alegria!

Depois de contada a história
De como o Santo de Assis
Teve a ideia do presépio
Como uma força motriz.
Veja agora os personagens
Do PRESÉPIO e suas mensagens
Pra tornar um Natal Feliz.

O primeiro personagem
Foi o ANJO anunciador
O famoso GABRIEL
Vindo de Nosso Senhor
Para dizer à MARIA
A grande Graça e alegria
De gestar o SALVADOR!

Maria sem entender nada
Quando ouviu a saudação
Do anjo que lhe abordava
Estremeceu o coração.
Com a divina sapiência
Ela mostrou obediência
Disse SIM como opção…

Depois vemos São José
Que foi o pai adotivo
De Jesus Menino-Deus
Que num momento furtivo
Achou que tinha certeza
De abandonar sua princesa
E tentou criar um motivo.

Temos o mais importante
O Jesus Filho de Deus
O Menino que nasceu
Para a salvação dos seus.
Aquele já anunciado
Por profetas do passado
Desde os tempos dos hebreus.

Nasceu num ambiente pobre
Uma espécie de curral
Onde só tinha capim
Comida para animal.
Fizeram um berço e em Jesus
Se agasalhava uma luz
Pra dissipar todo o mal!

Temos o jumento e o boi
Que ali estão representando
O jumento são os pagãos
Que Jesus está chamando
Para uma conversão
À humildade do cristão
Que estava se inaugurando.

O boi então representa
A força também a bondade
Do povo de Deus o hebreu
O sacrifício e a humildade.
O jumento e o boi se encontram
Pra acabar o que lhes afrontam:
Desunião e má vontade…

Temos também os pastores
Homens marginalizados
Pessoas que a sociedade
Via cheios de pecados.
Enquanto o Menino-Deus
Tinha como filhos seus
Muito bem abençoados…

Tem as figuras dos anjos
Anunciando aos pastores
A chegada do Messias
Com suas vozes de cantores:
“Glória a Deus Pai de bondade
E aos homens de boa vontade
Que da paz são construtores”.

As ovelhas por sua vez
Tinham ali o seu ofício
Um símbolo que Jesus
Veio para o sacrifício
Por todos nós pecadores
Pra nos libertar das dores
Que trazem tanto suplício.

Um sinal no céu surgiu
Tipo uma estrela cadente
Os reis magos entenderam
Que o menino no oriente
Nasceu conforme o profeta
Traçaram logo uma meta
Para lhe entregar presente!

Melchior e Baltasar
E Gaspar ofereceram
Presentes: Incenso e Mirra
E o Ouro que enalteceram
O menino ora nascido
O esperado o prometido
Por vates que O antecederam.

Cada presente que deram
Tinha uma significação
O ouro era a realeza
A mirra era a paixão.
O incenso era divindade
De Jesus junto à Trindade
Desde a sua criação…

Depois de contar a história
Do presépio e suas figuras
Bom será nos perguntar:
Como estão nossas fissuras
Na mente e no coração
Na hora de ser cristão
Temos fortes estruturas?

Natal comercializado
É o que tem o papai noel
De lucro desenfreado
De venda feita a granel.
Enquanto o maior presente
Deve estar dentro da gente
Que é Jesus o Emanuel…

Nosso natal é o cristão
Pois queremos renascer
Numa conversão contínua
Para o amor sempre viver
Um eterno natal de luz
Em que o Menino Jesus
Alimente nosso ser!
FIM
Fortaleza, dezembro/2020

Autor: Gerardo Carvalho Frota (Pardal)

Publicado em Porta vida e Família.

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O primeiro presépio foi de São Francisco

O presépio é talvez a mais antiga forma de caracterização do Natal. Sabe-se que foi São Francisco de Assis, na cidade italiana de Greccio, em 1223, o primeiro a usar a manjedoura com figuras esculpidas formando um presépio, tal qual o conhecemos hoje. A idéia surgiu enquanto o santo lia, numa de suas longas noites dedicadas à oração, um trecho de São Lucas que lembrava o nascimento de Cristo. Resolveu então montá-lo em tamanho natural, em uma gruta de sua cidade. O que restou desse presépio encontra-se atualmente na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma.

Presépio significa em hebraico “a manjedoura dos animais”, mas a palavra é usada com freqüência para indicar o próprio estábulo. Jesus ao nascer foi reclinado em um presépio que provavelmente seria urna manjedoura, como as muitas que existiam nas grutas naturais da Palestina, utilizadas para recolher animais. Outra versão é que o presépio de Jesus era feito de barro, aproveitando-se uma saliência da rocha e adaptando-a para tal finalidade. Esta é, sem dúvida, a versão mais aceita.

O presépio de São Francisco incluía uma manjedoura, acima da qual foi improvisado um altar. Nesse cenário ocorreu a missa da meia-noite, na qual o próprio santo com a vestimenta de diácono cantou o Evangelho juntamente com o povo simples e pronunciou um sermão sobre o nascimento do Menino Jesus.

Conta-se que naquela noite especial, enquanto o santo proferia as palavras do Evangelho sobre o nascimento do Menino Jesus, todos os presentes puderam ver uma criança em seu colo, envolvida em um raio de luz. A cena foi narrada em 1229 por Tommaso da Celano, biógrafo de São Francisco de Assis. Desde então, os presépios foram se tornando cada vez mais populares e, além das figuras tradicionais do Menino Jesus deitado na manjedoura, Maria e José, acabaram incluindo uma enorme variedade de personagens como os pastores, os Reis Magos, a estrela e os animais.

No Brasil, em muitos estados do Nordeste, até hoje a montagem dos presépios é acompanhada de danças e festejos conhecidos como Pastorinhas, versões brasileiras dos autos de Natal, que eram encenações do nascimento de Jesus típicas de algumas regiões da Europa, como a Provença, na França.

Publicado em Paróquia N.Sra. Mãe da Divina Providência.

Imagem: Paróquia N.Sra. da Divina Providência.

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O verdadeiro Natal nunca muda, pois não muda também a compreensão do que é o Natal na alma dos católicos de verdade.

Nessas almas, mais do que o consumismo estúpido, mais do que a vermelha figura do Papai Noel, em seu trenó deslizante no verão brasileiro, mais do que a maçante Gingle Bells, exaustivamente tocada nas lojas com descartáveis produtos coloridos, ressoa o hino cantado pelos anjos “Glória in excelsis Deo”.

Ressoam as puras notas do “Puer natus est nobis, et filium nobis est datum”. Porque, para nós que “habitávamos nas sombras da morte, para nós brilhou uma grande luz”.

Que se entende, hoje, que é um “Feliz natal, para você” ? No máximo da inocência, um regabofe em família, com presentinhos, beijinhos e indigestão.

E quando o Natal não é tão inocente…

Quando o Natal não é tão inocente se realiza o canto pagão e naturalista; “Adeus ano velho. Feliz ano novo. Muito dinheiro no bolso. Saúde para dar e vender”.

Eis a felicidade pagã: dinheiro, saúde, prazer.

Sem Deus. Sem Redenção. Sem alma. Que triste Natal esse!

Que infeliz e decrépito ano novo, tão igual aos velhos anos do paganismo!

Será que o povo que habitava nas sombras da morte já não vê a grande luz que brilhou para ele em Belém?

Até a luz do Natal está ofuscada. E quão poucos compreendem essa luz!

No presépio se conta tudo.

Tudo está lá bem resumido. Mas o povo olha as pequenas figuras e não compreende o que significa que um Menino nos foi dado, que um Filho nasceu para nós.

No presépio se vê um Menino numa manjedoura, entre um boi e um burro…

A Virgem Maria, Mãe de Deus adorando seu Filhinho que é o Verbo de Deus encarnado, envolto em panos. São José, contemplando o Deus Menino tiritante de frio, à luz de uma tosca lanterna.

Um anjo esvoaçante sobre a cabana rústica. Uma estrela. Pastores com suas ovelhas, cabras e bodes. Um galo que canta na noite. Os Reis que chegam olhando a estrela, seguindo a estrela, para encontrar o Menino com sua Mãe.

Tudo envolto no cântico celeste dos anjos;

“Glória a Deus nas alturas! E paz, na terra, aos homens que têm boa vontade” (Luc. II, 14) 

Isso aconteceu nos dias de Herodes, quando César Augusto decretou um recenseamento.

E como não havia lugar para Maria e José na estalagem, em Bethleem, terra de Davi, eles tiveram que se refugiar numa cocheira, entre um boi e um burro.

Porque assim se realizaram as profecias:

* “E tu, Bethleem Efrata, tu és a mínima entre as milhares de Judá, mas de ti há de me sair Aquele que há de reinar em Israel, e cuja geração é desde o Princípio, desde os dias da eternidade”, como profetizou o Profeta Miquéias (Mi. V, 1).

** ”O Senhor vos dará este sinal: uma Virgem conceberá, e dará à luz um filho, e seu nome será Emanuel” (Is. VII,14)

*** “O Boi conhece o seu dono, e o burro conhece o presépio de seu senhor, mas Israel não me conheceu e o meu povo não teve inteligência” profetizou Isaías muitos séculos antes (Is. I,3).

E Cristo, nos dias de Herodes, nasceu em Bethleem que quer dizer casa do pão (Beth = casa. Lêem = pão).

Cristo devia nascer em Belém, casa do pão, porque Ele é o pão que desceu dos céus, para nos alimentar. Por isso foi posto numa manjedoura, para alimentar os homens.

Devia nascer num estábulo, porque recebemos a Cristo como pão do Céu na Igreja, representada pelo estábulo, visto que nas cocheiras, os animais deixam a sujeira no chão, e comem no cocho. E na Igreja os católicos deixam a sujeira de seus pecados no confessionário, e, depois, comem o Corpo e bebem o Sangue de Jesus Cristo presente na Hóstia consagrada, na mesa da comunhão.

Jesus devia nascer de uma mulher, Maria, para provar que era homem como nós. Mas devia nascer de uma Virgem — coisa impossível sem milagre — para provar que era Deus. Este era o sinal, isto é, o milagre que anunciaria a chegada do Redentor: uma Virgem seria Mãe. Nossa Senhora é Virgem Mãe. E para os protestantes, que não crêem na virgindade perpétua de Maria Santíssima, para eles Maria não foi dada por Mãe, no Calvário. Pois quem não tem a Maria por Mãe, não tem a Deus por Pai.

E por que profetizou Isaías sobre o boi e o burro no presépio?

Que significam o boi e o burro?

O boi era o animal usado então, para puxar o arado na lavoura da terra.

Terra é o homem. Adão foi feito de terra. Trabalhar a terra é símbolo de santificar o homem. Ora, os judeus tinham sido chamados por Deus para ser o sal da terra e a luz do mundo, isto é, para dar vida (sal) espiritual, santidade, aos homens, e ensinar-lhes a verdade (luz).

O boi era então símbolo do judeu.

O burro, animal que simboliza falta de sabedoria, era o símbolo do povo gentio, dos pagãos, homens sem sabedoria.

Mas Deus veio salvar objetivamente a todos os homens, judeus e pagãos. Por isso, no presépio de Cristo, deviam estar o boi (o judeu) e o burro (o pagão).

Foi também por isso que Jesus subiu ao Templo montado num burrico que jamais havia sido montado, isto é, um povo pagão que não fora sujeito ao domínio de Deus. E os judeus não gostaram que o burro fosse levado ao Templo, isto é, que Cristo pretendesse levar também os pagãos à casa de Deus, à religião verdadeira. Por isso foi escrito: “mas Israel não me conheceu e o meu povo não teve inteligência”.

Como também o povo católico, hoje, já não tem inteligência para compreender o Natal, pois “coisas espantosas e estranhas se tem feito nesta terra: os profetas profetizaram a mentira, e os sacerdotes do Senhor os aplaudiram com as suas mãos. E o meu povo amou essas coisas. Que castigo não virá, pois, sobre essa gente, no fim disso tudo?” (Jer. V, 30-31).

Pois se chegou a clamar: “Glória ao Homem, já rei da Terra e agora príncipe do céu”, só porque o homem fora até a Lua num foguete, única maneira do homem da modernidade subir ao céu.

No Natal de Cristo, tudo mostra como Ele era Deus e homem ao mesmo tempo.

Como já lembramos, Ele nasceu de uma mulher, para provar que era homem como nós. Nasceu de uma Virgem, para provar que era Deus.

Como um bebê, Ele era incapaz de andar e de se mover sozinho. Como Deus, Ele movia as estrelas.

Como criança recém nascida era incapaz de falar. Como Deus fazia os anjos cantarem.

Ele veio salvar objetivamente a todos, mas nem todos o aceitaram. E Herodes quis matá-lo.

Ele chamou para junto de si, no presépio, os pastores e os Reis, para condenar a Teologia da Libertação e os demagogos pauperistas que pregam que Cristo nasceu como que exclusivamente para os pobres. É falso!

Assim como o sol brilha para todos, Deus quis salvar a todos sem acepção de pessoa. Por isso chamou os humildes e os poderosos junto à manjedoura de Belém.

Mas, dirá um seguidor do bizarro frei Betto ou do ex frei Boff, que nada compreendem do Evangelho pois o lêem com os óculos heréticos e assassinos de Fidel e de Marx, sendo “cegos ao meio dia” (Deut. XXVIII, 29): Deus tratou melhor os pastores pobres, pois lhes mandou um anjo, do que os reis poderosos, exploradores do povo, aos quais chamou só por meio de uma estrela. É verdade!!!

Deus tratou melhor aos pastores. Mas não porque eram pastores, e sim porque eram judeus. Sendo judeus, por terem a Fé verdadeira, então, mandou-lhes um sinal espiritual. Aos reis magos, porque pertenciam a um povo sem a religião verdadeira, mandou-lhes um sinal material: a estrela.

No presépio havia ovelhas e bodes, porque Deus veio salvar os bons e os pecadores.

E a Virgem envolveu o menino em panos.

Fez isso, é claro, porque o pequeno tinha frio, e por pudor.

Mas simbolicamente porque aquele Menino —que era o Verbo de Deus feito homem—, que era a palavra de Deus humanada, tinha que ser envolta em panos, pois que a palavra de Deus, na Sagrada Escritura, aparece envolta em mistério, pois não convém que a palavra de Deus seja profanada. Daí estar escrito: “A glória de Deus consiste em encobrir a palavra; e a glória dos reis está em investigar o discurso” (Prov, XXV, 2).

E “Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado, e o império foi posto sobre os seus ombros, e seu nome será maravilhoso, Deus Poderoso, Conselheiro, o Deus eterno, o Príncipe da Paz” (Is. IX, 5).

Porque todos os homens, em Adão, haviam adquirido uma dívida infinita para com Deus, já que toda culpa gera dívida conforme a pessoa ofendida. E a ofensa de Adão a Deus produzira dívida infinita, que nenhum homem poderia pagar, pois todo mérito humano é finito. Só Deus tem mérito infinito. Portanto, desde Adão, nenhum homem poderia salvar-se. Todos nasceriam, viveriam e iriam para o inferno. E a humanidade jazia então nas sombras da morte.

Mas porque Deus misericordiosamente se fez homem, no seio de Maria, era um Homem que pagaria a dívida dos homens, porque esse Menino, sendo Deus, teria mérito infinito, podendo pagar a dívida do homem. Por isso, quando Ele morreu por nós, foi condenado por Pilatos, representando o maior poder humano — o Império — que O apresentou no tribunal dizendo: “Eis o Homem”.  (Jo XIX, 5)

Ele era O Homem.

Era um homem que pagava os pecados dos homens assumindo a nossa natureza e nossas culpas, mas sem o pecado. Era Deus-Menino sofrendo frio e fome por nossos confortos ilícitos e nossa gula, na pobreza e no desprezo, por nossa ambição e nosso orgulho.

E os pastores e os Reis O encontraram com Maria sua Mãe, para mostrar que só encontra a Cristo quem O busca com sua Mãe.

E para demonstrar que diante de Jesus, ainda que Menino, todo poder deve dobrar o joelho.

E os pastores levaram ao Deus Menino suas melhores ovelhas, e seus melhores cabritos, enquanto os Reis Lhe levaram mirra, incenso e ouro. A mirra da penitência. O incenso da adoração. O ouro do poder.

Tudo é de Cristo.

Todos, levando esses dons, reconheciam que Ele era Deus, o Senhor de todas as coisas, Ele que dá todas as ovelhas e cabras aos pastores. Ele que dá aos Reis o poder e o ouro.

Deus é o Supremo Senhor de todas as coisas. Ele é o Soberano Absoluto a quem devemos tudo. E para reconhecer que Ele é a fonte de todos os bens que temos é que devemos levar-Lhe em oferta o melhor do que temos. 

Publicado em Catolicismo Romano.

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Viva Cristo Rei!

Sabe-se que a Igreja encerra seu Ano Litúrgico com a Solenidade Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. No entanto, poucos se dão conta de que se trata de uma festa relativamente recente, pois só foi instituída em 1925, portanto há menos de cem anos.

Mas o que levou o papa Pio XI a dedicar a primeiríssima encíclica de seu pontificado à criação de uma festa de Cristo Rei? (cf. carta encíclica Quas primas, 11/12/1925).

No início do século XX, o mundo, que ainda estava se recuperando da Primeira Guerra Mundial, fora varrido por uma onda de secularismo e de ódio à Igreja, como nunca visto na história do Ocidente. O fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha, o comunismo na Rússia, a revolução maçônica no México, anti-clericalismos e governos ditatoriais grassavam por toda parte.

É neste contexto que, sem medo de ser literalmente “politicamente incorreto”, o papa Pio XI institui uma festa litúrgica para celebrar uma verdade de nossa fé: mesmo em meio a ditaduras e perseguições à Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo continua a reinar, soberano, sobre toda a história da humanidade.

Recordar que Jesus é Rei do Universo foi um gesto de coragem do Santo Padre. Com as revoluções que se seguiram ao fim do primeiro conflito mundial, em 1917, o título de Cristo Rei tornara-se um tanto impopular. Se o Papa tivesse exaltado Jesus como profeta, mestre, curador de enfermos, servo humilde, vá lá! Qualquer outro título teria sido mais aceitável. Mas Cristo Rei?!…

Mesmo assim, nadando contra a correnteza e se opondo ao secularismo ateu e anti-clerical, o Vigário de Cristo na terra instituiu esta solenidade para nos recordar que todas as coisas culminam na plenitude do Cristo Senhor: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim de todas as coisas” (Ap 1, 8). É necessário reavivar a fé na restauração e na reparação universal realizadas em Cristo Jesus, Senhor da vida e da história.

Com esta solenidade o Papa Pio XI esperava algumas mudanças no cenário mundial:

Que as nações reconhecessem que a Igreja dever estar livre do poder do Estado (Quas primas, 32).

Que os líderes das nações reconhecessem o devido respeito e obediência a Nosso Senhor Jesus Cristo (Quas primas, 31).

Que os fieis, com a celebração litúrgica e espiritual desta solenidade, retomassem coragem e força e renovassem sua submissão a Nosso Senhor, fazendo com que ele reine em seus corações, suas mentes, suas vontades e seus corpos (Quas primas, 33).

Encerrar o Ano Litúrgico com a Solenidade de Cristo Rei é consagrar a Nosso Senhor o mundo inteiro, toda a nossa história e toda nossa vida. É entregar à sua infinita misericórdia um mundo onde reina o pecado.

Pilatos pergunta a Jesus se ele é rei. Nosso Salvador responde que seu Reino não é deste mundo. Ou seja, não é deste mundo “inventado” pelo homem e pelo pecado: o mundo da injustiça, da escravidão, da violência, do ódio, da morte e da dor. Ele é rei do Reino de seu Pai e, como rei-pastor, desde o alto da cruz, guia a sua Igreja em meio às tribulações.

Sabemos que o Reinado de Cristo não se realizará por um triunfo histórico da Igreja. É isto que nos recorda o Catecismo da Igreja Católica em seu número 677. Mesmo assim, no final, haverá sem dúvida uma vitória de Deus sobre o mal. Só que esta vitória acontecerá como acontecem todas as vitórias de Deus: através da morte e da ressurreição. A Igreja só entrará na glória do Reino se passar por uma derradeira Páscoa. A Esposa deve seguir o caminho do Esposo.

É assim que, nesta festa, o manto vermelho de Cristo assinala a realeza de Nosso Senhor, mas também nos recorda o sangue de tantos mártires Cristãos de nossa história recente. Foram fieis católicos que, ouvindo os apelos do Sucessor de Pedro, não tiveram medo de entregar suas próprias vidas e de morrer aos brados de “viva Cristo Rei!”

Fonte: Padre Paulo Ricardo de Azevedo Jr.

Publicado em Diocese de Miracema do Tocantins.

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Honrar a Deus

A esperança é a virtude teologal (dom de Deus), que nos faz desejar como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo, apoiando-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo (cf. CIC §1817).

A Carta aos hebreus diz: “Continuemos a afirmar nossa esperança, porque é fiel quem fez a promessa” (Hb 10,23). São Tito disse que por Jesus Cristo, nosso Salvador, fomos justificados e nos tornamos “herdeiros da esperança da vida eterna” (Tt 3,6-7). “Nossa esperança não pode ser incerta, pois que ela se apoia nas promessas divinas” (S. Agostinho).

A virtude da esperança responde à aspiração de felicidade colocada por Deus no nosso coração e purifica-a, para ordená-las ao Reino dos Céus. Ela nos protege contra o desânimo; anima-nos diante de nossa fraqueza; faz o nosso coração desejar a bem-aventurança eterna.

Nada estará perdido enquanto estivermos em busca. Quanto maior a esperança, tanto maior a união com Deus, porque em relação a Deus, quanto mais se espera, tanto mais se alcança.

A força da Esperança também nos defende do egoísmo e nos leva a felicidade da caridade.

A esperança cristã é como a esperança do povo de Deus, a esperança de Abraão, Isaac e Jacó, fortalecida nas promessas de Deus, e purificada pelo sacrifício. “Abraão, contra toda a esperança, acreditou na esperança de tornar-se pai de muitos povos” (Rm 4,18).

A esperança cristã se manifesta no anúncio das bem-aventuranças; elevam nossa esperança ao céu, e traçam o caminho por meio das provações da vida. Mas, pelos méritos de Jesus Cristo e de sua Paixão, Deus nos guarda na “esperança que não decepciona” (Rm 5,5). A esperança é a âncora da alma, segura e firme, “penetrando… onde Jesus entrou por nós, como precursor” (Hb 6,19-20).

A esperança é também é uma arma que nos protege no combate da salvação: “Revestidos da couraça da fé e da caridade e do capacete da esperança da salvação” (1 Ts 5,8). Ela nos traz alegria mesmo na provação: “alegrando-vos na esperança, perseverando na tribulação” (Rm 12,12).

A esperança se exprime e se alimenta na oração, especialmente no Pai-Nosso resumo de tudo o que a esperança nos faz desejar.

Em qualquer circunstância, devemos esperar, com a graça de Deus, “perseverar até o fim” e alcançar a alegria do céu como recompensa eterna de Deus pelas boas obras praticadas com a graça de Cristo.

Santa Teresa de Jesus, disse:

“Espera, ó minha alma, espera. Ignoras o dia e a hora. Vigia cuidadosamente, tudo passa com rapidez, ainda que tua impaciência torne duvidoso o que é certo, e longo um tempo bem curto. Considera que, quanto mais pelejares, mais provarás o amor que tens a teu Deus e mais te alegrarás um dia com teu Bem-Amado numa felicidade e num êxtase que não poderão jamais terminar” (Exclamações da alma a Deus, 15,3).

Como Santo Agostinho digamos: “Ainda singramos o mar, mas já lançamos em terra a âncora da esperança”. “Quanto mais no curso desta vida gozamos de Deus, ainda que em espelho e mais ardentemente desejamos terminá-la (1 Cor 13,12), com mais tolerância suportamos essa nossa peregrinação em direção a Deus”.

Prof. Felipe Aquino

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Santificados pela Esperança

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Publicado em Editora Cléofas.

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Não adianta fugir ou mudar de assunto. Um dia, a morte chega para todos. Mas qual o sentido desse acontecimento? Como reagir diante de uma realidade tão dura e perturbadora?

A morte assusta a todos nós. Diante dela, tomamos consciência de nossa fragilidade e, sem fé, podemos facilmente ser acometidos por incertezas, dúvidas e mal estar.

Muitas vezes, para fugir desse tema, dizemos que ainda nos falta muito tempo para esse dia, que não nos devemos preocupar com isso e, quando alguém nos lembra de nosso destino comum e inevitável, sempre tentamos dar um jeito de mudar de assunto.

Na verdade, o que precisamos fazer é entender o verdadeiro sentido da morte. Para isso, seguem alguns conselhos, que nos darão uma visão cristã desse acontecimento e uma ajuda para viver o luto em paz e com sabedoria.

1. Recorrer aos Sacramentos da Igreja

Ao se aproximar o momento de nossa partida deste mundo, devemos nos preparar, procurando livrar a nossa alma do pecado e de outros fardos que impedem a nossa união com Deus. Por isso, é muito importante receber a Unção dos Enfermos e, se possível, os sacramentos da Confissão e da Comunhão. Assim, quando a morte chegar, mais do que uma despedida, será ela um encontro com Cristo, que, como Bom Pastor, acompanha as Suas ovelhas na passagem para a vida eterna.

Se um ente querido ou um vizinho se encontra em perigo de morte – ou por velhice ou por alguma doença –, será de grande ajuda procurar ou avisar um sacerdote próximo para que visite o enfermo e este possa partir na graça de Deus. Não se pode deixar de chamar o padre por receio de que a sua visita passe uma “impressão errada” ou “apresse”, por assim dizer, a morte da pessoa. A assistência espiritual do sacerdote é de grande conforto para todas as almas, seja qual for o seu destino. Na verdade, seria um grande mal que deixássemos de recorrer à Igreja nessas horas, pois estaríamos nos descuidando do bem mais valioso que possuimos: a nossa própria alma.

Por isso, lembremo-nos também de buscar viver sempre em comunhão com o Senhor. Cumpramos os Seus mandamentos e recebamos com frequência os sacramentos da Penitência e da Eucaristia, fazendo isso por amor a nosso Deus e considerando que a morte pode chegar quando menos esperamos.

2. Compreender que a morte nos liberta e nos faz entrar na vida eterna

“Intérprete autêntico das afirmações da Sagrada Escritura e da Tradição, o Magistério da Igreja ensina que a morte entrou no mundo por causa do pecado do homem. Embora o homem tivesse uma natureza mortal, Deus o destinava a não morrer. A morte foi, portanto, contrária aos desígnios de Deus Criador” [1]. Porém, quando Se fez homem para a nossa salvação, o Verbo de Deus experimentou em Sua própria carne a realidade dolorosa da morte, a fim de mudar em bênção o que era condenação..

A partir da Cruz e Ressurreição de Nosso Senhor, portanto, tudo muda de figura. A morte não é mais a triste descida do ser humano à mansão dos mortos, mas a entrada na vida eterna. Muitos protestantes, ao interpretar as Escrituras individualmente, terminam acreditando que as almas depois da morte ficam inconscientes e caem numa espécie de “sono” inconsciente. Esquecem-se que Jesus prometeu o Céu ao bom ladrão no mesmo dia em que este morreu (cf. Lc 23, 43), e que “está determinado que os homens morram uma só vez e depois vem o julgamento” (Hb 9, 27).

A Igreja, em conformidade com o testemunho das Escrituras e com o ensinamento dos primeiros cristãos [2], lembra que, na verdade, a nossa alma parte para o encontro com Deus imediatamente após a nossa morte corporal. Por isso, nós devemos vivê-la compreendendo que um ciclo terreno termina e se inicia o tempo da glória, ao lado de Deus e de Sua corte celestial. “Eu sou a ressurreição e a vida”, disse Jesus. “Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá” (Jo 11, 25-26).

3. Conservar com amor e alegria a lembrança daqueles que partiram

Ainda que não estejam mais fisicamente conosco, todas as lições e momentos compartilhados com os nossos entes queridos vivem em nossos corações. Honremos sempre sua memória como um inestimável tesouro que nos acompanhará em nossa vida.

Mesmo que nos doa que alguém amado tenha partido e sintamos um vazio por sua perda, deve-se evitar cair em tristezas prolongadas. Primeiro, porque somos confortados pela esperança cristã de que quem creu e viveu no Senhor tem a vida eterna com Ele. Segundo, porque sabemos que quem se foi não gostaria de ver-nos assim. Se nos é difícil levantar-nos do luto, busquemos a ajuda de um sacerdote ou diretor espiritual para superar a dor. Será muito útil.

Também pode ser uma boa obra de caridade doar algumas (se não todas) roupas ou objetos que a pessoa usou a um abrigo ou casa de beneficência. Além de ser um sadio exercício de desapego, que nos pode ajudar a superar o luto causado pela perda, colocamos em prática a terceira obra de misericórdia temporal, que é “vestir os nus”.

4. Auxiliar as famílias que perderam seus entes queridos

Quando perdem alguém, as pessoas geralmente se refugiam na solidão, no silêncio e no pranto, podendo experimentar falta de apetite e estresse ou mesmo entrar em depressão.

Como cristãos, o nosso dever é acompanhar, aconselhar e ajudar aqueles que perderam os seus entes queridos, fazendo com que se recordem deles com alegria e incentivando-os a ver na morte não um fim, mas uma permanência no amor de Deus, que tem preparado um lugar para cada um de nós.

“Consolar os aflitos” também é uma obra de misericórdia, recomendada pelas próprias Escrituras: “Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram” (Rm 12, 15). Além disso, a solidariedade com quem sofre é um grande remédio para aliviar também as nossas dores. Quando nos voltamos às necessidades dos outros, somos capazes de ver a mão de Deus que levanta o próximo por meio de nós. Quem, como o bom samaritano (cf. Lc 10, 30-37), cuida das misérias alheias, tem suas próprias misérias pensadas por Nosso Senhor, que é o Bom Samaritano por excelência.

5. Evitar brigas por causa de dinheiro ou herança

É possível que a pessoa falecida tenha deixado alguns bens que tocam aos filhos e parentes mais próximos. Tudo tem seu tempo apropriado e é lamentável ver famílias que, antes mesmo da morte da pessoa, brigam por causa de bens materiais; irmãos que, ao invés de se unirem, nem sequer conversam mais um com o outro, por conta de interesses.

Ante a tentação de acirrar os ânimos por causa de heranças terrenas, vale ter diante dos olhos a única herança imperecível, a qual – como ensina São Gregório Magno – “não diminui com o crescimento do número de herdeiros”. “Se ressuscitastes com Cristo – exorta São Paulo –, buscai as coisas do alto, onde Cristo está entronizado à direita de Deus; cuidai das coisas do alto, não do que é da terra” (Cl 3, 1-2).

6. Evitar cair em práticas espíritas ou supersticiosas para mitigar a dor

Algumas empresas, no afã de lucrar com a dor alheia, oferecem rituais funerários absolutamente incompatíveis com a fé cristã. São práticas como semear uma árvore com os restos mortais da pessoa, jogar as suas cinzas em um lago para perpetuar a sua memória, ou mesmo domesticar um animalzinho com o nome do parente falecido, relacionando-o com a crença na reencarnação.

O Catecismo da Igreja Católica é bem claro ao ensinar que não existe reencarnação:

“A morte é o fim da peregrinação terrena do homem, do tempo de graça e misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida terrena segundo o plano divino e para decidir o seu destino último. Quando acabar a nossa vida sobre a terra, que é só uma, não voltaremos a outras vidas terrenas. ‘Os homens morrem uma só vez’ (Hb 9, 27). Não existe ‘reencarnação’ depois da morte.” [3]

Por isso, não é nada aconselhável, a quem perdeu os seus entes queridos, que saia à procura de “comunicações do além” em casas espíritas ou ambientes parecidos. A dor não nos pode fazer desviar de nossa fé! Nossa confiança deve estar sempre colocada em Deus e em Suas promessas. É a Sua graça que nos ajudará a continuar, não as falsas mensagens de doutrinas abertamente contrárias à doutrina de Cristo.

7. Rezar pelo descanso eterno daqueles que partiram

A maior obra de amor que podemos realizar por nossos entes queridos é oferecer orações por eles. Como diz Santa Teresinha do Menino Jesus, “pensar em uma pessoa que se ama é rezar por ela” [4].

No Brasil, há o piedoso costume de se honrar as almas dos falecidos com a conhecida “Missa de sétimo dia”. O Catecismo ensina que, “desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos, oferecendo sufrágios em seu favor, particularmente o Sacrifício eucarístico para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus” [5]. Por isso, não importa o quanto tempo tenha passado, é sempre recomendado oferecer muitas Missas pelas almas dos fiéis falecidos, além de Terços, jejuns e toda espécie de orações.

Também não se pode esquecer o motivo de todas essas práticas. Os católicos rezam por seus mortos porque acreditam na verdade do purgatório. A Igreja não é composta apenas pelos cristãos que vivem neste mundo (Igreja militante), mas está unida aos santos, no Céu (Igreja triunfante), e às almas que se purificam de seus pecados, no purgatório (Igreja padecente). Por essa união mística – que a Igreja chama de “comunhão dos santos” –, as nossas preces e súplicas pelos falecidos têm valor diante de Deus e fazem entrar no Céu aqueles que amamos e que partiram desta vida.

Um dia, será a nossa vez de nos juntarmos à corte celeste e às almas de nossos entes queridos. Por isso, estejamos sempre preparados para a nossa morte e para nosso encontro definitivo com Deus. É verdade que ninguém pode ter certeza absoluta da própria salvação [6]. Se, porém, vivermos uma vida de virtudes e de oração, ao fim de nossas existências poderemos dizer, com São Paulo: “Chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Desde agora, está reservada para mim a coroa da justiça que o Senhor, o juiz justo, me dará naquele dia, não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua manifestação” (2 Tm 4, 6-8).

Fábio Acuña (Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere)

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 1008.
  2. Cf. Papa São Clemente, Primeira Carta aos Coríntios, 56 (PG 1, 321-324); Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Tralianos, 13 (PG 5, 799); São Policarpo de Esmirna, Carta aos Filipenses, 9 (PG 5, 1019).Moralia in Iob, V, 86 (PL 75, 729).
  3. Catecismo da Igreja Católica, 1013.
  4. Cartas, 225 (2 de maio de 1897).
  5. Catecismo da Igreja Católica, 1032.
  6. Cf. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 112, a. 5.

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SÃO FRANCISCO DE SALES – Filoteia ou a Introdução à Vida Devota

Parte IV
Capítulo XIII

Deus só conserva a existência deste grande mundo por uma contínua alternativa de dias e noites, de estações que se vão sucedendo umas às outras e de diferentes tempos de chuvas e de secas, dum ar tranquilo e sereno e de vendavais e tempestades, de modo que quase não há um dia igual ao outro: admirável variedade, que tanto contribui para a beleza do universo!

O mesmo se passa no homem, que, na expressão dos antigos, é um mundo abreviado. Nunca ele está no mesmo estado e sua vida passa sobre a terra como as águas de um rio, numa continua variação de momentos, que ora o levantam a grandes esperanças, ora o abatem ao temor, já o inclinam à direita com a consolação, já à esquerda com a tristeza, de sorte que nunca um de nossos dias, nem mesmo uma hora sequer é inteiramente igual à outra.

Cumpre-nos, pois, conservar, no meio de tamanha desigualdade de acontecimentos e acidentes, uma igualdade contínua e inalterável do coração e, de qualquer modo que as coisas variem e se movam ao redor de nós, nós permaneceremos sempre imóveis e fixos nesse único ponto de nossa felicidade, que é ter somente a Deus em vista, ir a Ele e aceitar só de Suas mãos todas as coisas.

O navio pode tomar qualquer rumo que se lhe der, pode navegar para o oriente ou para o ocidente, para o sul ou para o norte, com qualquer vento que seja, mas a bússola, que deve dirigir a sua rota, estará sempre apontando para a estrela polar.

Revolucione-se tudo em volta de nós mesmos, isto é, esteja nossa alma triste ou alegre, em amargura ou em consolação, em paz ou tribulações, em trevas ou em luzes, em tentações ou calma, nas delícias da devoção ou em securas espirituais; seja ela como uma terra ressecada pelo sol ou refrigerada pelo orvalho: ah! Sempre é necessário que nosso coração, espírito e vontade tendam invariável e continuamente para o amor a Deus, seu Criador, seu Salvador, seu único e soberano bem.

Ou vivamos ou morramos, somos de Deus; e quem nos separará de seu amor?

Não, nada nos poderá separar jamais: nem as tribulações, nem angústias, nem a morte, nem a vida, nem as dores presentes, nem o temor das futuras, nem as ciladas do espírito maligno, nem as mais altas consolações, nem a confusão das humilhações, nem a ternura da devoção, nem as securas do espírito, nada de tudo isso nos deve separar jamais da caridade santa, que é fundada em Jesus Cristo.

Essa resolução absoluta de nunca abandonar a Deus e a Seu amor serve de contrapeso para nossa alma, a fim de dar-lhe uma santa invariabilidade no meio de tanta variedade de acidentes anexos à nossa vida; assim como as abelhas agitadas pelo vento apanham pedrinhas para se poderem librar melhor nos ares e lhe resistir mais facilmente, a nossa alma, tendo-se consagrado a Deus por uma viva resolução de o amar, permanece sempre a mesma no meio das vicissitudes das consolações e tribulações espirituais e temporais, interiores e exteriores.

Mas, além desta instrução geral, é necessário dar algumas regras particulares:

1. A devoção não consiste nessa suavidade nem nas consolações sensíveis e nesse doce enternecimento do coração, que o excitam às lágrimas e aos suspiros e que tornam nossos exercícios espirituais uma ocupação agradável.

Não, Filotéia, a devoção e as doçuras não são a mesma coisa, porque muitas almas há que, sentindo essas doçuras, não renunciam a seus vícios e, portanto, não possuem um verdadeiro amor a Deus e muito menos uma verdadeira devoção.

Saul, perseguindo a David até ao deserto, para o matar, entrou sozinho numa caverna em que David estava escondido com os seus; facilmente poderia este desfazer-se de seu inimigo, mas não quis nem sequer lhe causar medo, contentando-se em o chamar depois que saíra da gruta, para fazer ver o que lhe poderia ter feito e para lhe dar ainda esta prova de sua inocência. Pois bem, o que não fez Saul para mostrar a David quanto seu coração estava enternecido! Chamou-o seu filho, chorou copiosamente, louvou a sua benignidade, rezou a Deus por ele, publicou altamente que ele reinaria depois de sua morte e lhe recomendou a sua família. Poderia ele manifestar maior doçura e ternura de coração? Contudo o seu coração não estava mudado e ele não deixou de perseguir cruelmente a David. Do mesmo modo, pessoas há que, considerando a bondade de Deus e a paixão de Nosso Senhor, sentem-se com o coração enternecido a ponto de verterem muitas lágrimas e soltarem suspiros nas orações e ações de graça muito sensíveis, dando a aparência duma grande devoção. Mas, se as pomos a provas, bem depressa se verá que são as chuvas de verão, que, passageiras, caem em torrente sobre a terra, mas não a penetram e só servem para produzir cogumelos; ver-se-á, digo, que essas lágrimas tão ternas caem num coração viciado e não o penetram, lhe são inteiramente inúteis, porque essas pessoas não largariam nem um ceitil de todos os bens injustos que possuem, não renunciariam à menor de suas más inclinações e não sofreriam o mais leve incômodo pelo serviço de Jesus Cristo, pelo qual tanto choravam; todos esses bons movimentos do coração não passaram de falsos sentimentos de devoção, semelhantes aos cogumelos, que são um produto falso da terra. Ora, o que é mais deplorável é que uma alma enganada por esses artifícios do inimigo se entretenha com essas consolações mesquinhas e viva por aí satisfeita sem aspirar a uma devoção sólida e verdadeira, que consiste numa vontade constante, pronta e ativa de fazer o que se sabe que agrada a Deus. Uma criança entra em choro desfeito, vendo tirar sangue de sua mãe; mas, se ao mesmo tempo a mãe lhe pede uma bagatela qualquer que tem nas mãos, não lha quer dar. Semelhantes são a maior parte de nossas ternas devoções, quando, vendo o Coração de Jesus crucificado e traspassado duma lança, vertemos muitas lágrimas. Ah! Filotéia, é bom chorar a morte e paixão dolorosas de nosso Pai e Salvador; mas por que então não lhe dar o nosso coração e amor, que esse querido Redentor está pedindo? Por que não lhe sacrificamos essas inclinações, satisfações e complacências, que Ele nos quer arrancar do coração e com as quais preferimos nos deliciar do que com a Sua graça divina? Ah! Não passam de amizades de crianças ternas, mas fracas, fantásticas e sem efeito, que procedem duma compleição débil e suscetível a movimentos que se quer ter, ou às vezes a impressões artificiosas do inimigo sobre a nossa imaginação.

2. Esses afetos ternos e doces são às vezes, todavia, muito úteis; dão à alma o gosto pela piedade, confortam o espírito e ajuntam à prontidão da devoção uma santa alegria, que torna nossas ações, mesmo exteriormente, mais belas e agradáveis; é o gosto que se tem pelas coisas divinas, do qual fala David:

Certamente a menor consolação que a devoção nos dá vale mais, em todos os sentidos, do que os prazeres mais raros do mundo. É o leite que nos lembra os favores do divino Esposo e que a Escritura prefere ao vinho mais excelente; quem a saboreou uma vez só acha fel e absinto em todas as consolações humanas.

Sim, como aqueles que trazem na boca um pouco ele erva cítica sentem tão grande doçura que não têm mais fome nem sede, do mesmo modo, aqueles a quem Deus tem dado o maná das consolações celestes e interiores já não podem desejar ou saborear as da terra e muito menos aí apegar e ocupar o seu coração.

São pequeninos antegostos dos gozos eternos que Deus faculta às almas que o procuram, como uma mãe que atrai o seu filho com doces ou como o médico que fortifica o coração de uma pessoa fraca por essas águas chamadas cordiais; e são também às vezes penhores da recompensa eterna do seu amor. Conta-se que Alexandre Magno, viajando por mar, pressentiu que já não estava longe da Arábia Feliz, pelo odor suavíssimo que penetrava nos ares, o que muito contribuiu para animar a sua frota; eis aí como as suavidades da graça, entre todas as tempestades desta vida mortal, nos fazem pressentir as delícias inefáveis da pátria celeste, às quais aspiramos.

3. Mas, poderás dizer, se há consolações sensíveis e boas, que vêm de Deus, e outras inúteis, perigosas e mesmo prejudiciais, que procedem de nossa compleição ou vêm do inimigo, como é que as poderemos distinguir?

É um princípio geral, Filotéia, que podemos conhecer as nossas paixões por seus efeitos, assim como se conhecem as árvores por seus frutos. O coração que tem boas inclinações é bom, e as inclinações são boas, se produzem boas obras. Conclui, pois, deste princípio que, se as consolações nos tornam mais humildes, pacientes e caritativos, mais sensíveis ao sofrimento do próximo, mais tratáveis, mais fervorosos em mortificar as nossas paixões, mais assíduos em nossos exercícios, mais dispostos à obediência, mais simples em todo o nosso procedimento; conclui, digo, Filotéia, que indubitavelmente elas vêm de Deus; mas, se essas ternuras só têm doçura para nós e nos tornam curiosos, rancorosos, excitados, impacientes, teimosos, vaidosos, presunçosos, severos para com o próximo, e se, já pensando que somos santos, não nos queremos sujeitar à direção e à correção de outrem, podes concluir que são, sem dúvida, consolações falsas e perniciosas. Uma árvore boa só produz bons frutos.

4. Sentindo essas suaves consolações, antes de tudo é necessário:

1. Que nos humilhemos muito diante de Deus. Livremo-nos de dizer por causa dessas doçuras: Oh! Que bom sou eu! Não, Filotéia, isso não nos torna melhores do que somos, porque, como disse, a devoção não consiste nisso. Digamos antes:

Oh! Como Deus é bom para os que esperam nEle, para a alma que O procura!

Quem tem açúcar na boca não pode dizer que sua boca seja doce; do mesmo modo, ainda que a consolação seja muito boa e que Deus, que a concede, seja a mesma bondade, daí não se deduz que quem a recebe seja bom também.

2. Reconheçamos que somos ainda criancinhas que precisam de leite, como diz São Pedro, porque, fracos e débeis, não podemos aguentar um alimento mais forte; e que são necessárias essas doçuras para nos atraírem ao amor de Deus.

3. Humilhando assim a nós mesmos, tenhamos em grande estima essas graças, não pelo que valem em si mesmas, mas porque vêm das mãos de Deus, que as opera em nosso coração; uma criança, se tivesse juízo, estimaria muito mais as carícias de sua mãe, que lhe põe balas na boca, do que essas balas. Assim, Filotéia, é muito ter essas boas consolações; mas muito maior ainda é que Deus queira aplicar Sua mão amorosa sobre o nosso coração, sobre o nosso espírito, e sobre a nossa alma, para as produzir.

4. Tendo-as recebido assim humildemente, empreguemo-las cuidadosamente segundo a intenção daquele que no-las dá. Pois essas doçuras não as dá Deus para nos fazer suaves com todos e mais amorosos para com Ele? A mãe dá uma bala ao filhinho para que ele a beije. Beijemos, pois,
este Salvador que nos dá tantas doçuras. E beijar o Salvador é obedecer-Lhe, observar os Seus Mandamentos, fazer a Sua vontade, seguir os Seus desejos, numa palavra, abraçá-Lo ternamente com obediência e fidelidade. Portanto quando recebermos alguma consolação espiritual, é preciso que nesse dia sejamos mais diligentes em praticar o bem e em nos humilharmos.

5. Além disso, é necessário renunciar de vez em quando a essas disposições doces e ternas, sobressaindo nosso coração ao prazer que daí procede e protestando que, embora as aceitemos com humildade e estimemos como dons de Deus e atrativos de Seu amor, não procuramos as consolações, mas o Consolador, não a doçura, mas o espírito suave de Deus, não as ternuras sensíveis, mas Aquele que faz as delícias do céu e da terra; que só procuramos, numa palavra, unicamente a Deus e a Seu santo amor, prontos a nos conservarmos no amor de Deus, mesmo que não tenhamos consolação alguma por toda a nossa vida; indiferentes a dizer assim no Tabor como no Calvário:

Bom é para mim, Senhor, estar conVosco em toda parte em que estiverdes, quer na cruz quer na Vossa glória.

6. Enfim, eu aconselho que, se essas consolações, sensibilidades e lágrimas de alegria forem muito abundantes e te acontecer alguma coisa de extraordinário nesse estado, o manifestes fielmente a teu diretor, para aprenderes como te deves servir delas c moderá-las; porque está escrito:

Achando o mel, come só o suficiente.

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(SALES, São Francisco de. Filoteia ou a Introdução à Vida Devota. Editora Vozes, 8ª ed., 1958, p. 321-329)

Publicado em RUMO À SANTIDADE.

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Perseverar na fé em Deus - Movimento dos Focolares

Imagem: focolare.org

A perseverança na fé em Deus não depende apenas de uma compreensão intelectual de que Deus existe. Ela decorre de uma escolha de vida coerente com a própria existência de Deus, com as suas leis e preceitos, que são todos baseados no amor.

Quando acolhemos Deus totalmente em nosso coração, a perseverança se torna algo inerente à nossa vida: é natural perseverar na fé em Deus diante dos obstáculos, diante das provações que poderiam colocar dúvidas ou hesitações em nosso coração.

Quando amamos sempre, a perseverança se torna também a parte prática da fé: é a nossa ação motivada pela fé em Deus.

Quem ama persevera. E a sua fé vai além dos limites da compreensão humana e dos mistérios de Deus.

Quem persevera na fé consegue sondar os mistérios da criação e os abismos da alma, sem perder o contato com o essencial de tudo, que é o amor onipresente de Deus, que nos envolve em mente, espírito e coração.

Em poucas palavras, perseverar na fé significa: amar sempre.

Apolonio Carvalho Nascimento

Publicado em Movimento Focolares.

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Todos os Santos que estão com Cristo na glória. Na mesma celebração festiva, a santa Igreja ainda peregrina sobre a terra venera a memória daqueles cuja companhia alegra os Céus, para que se estimule com o seu exemplo, se conforte com a sua proteção e com eles receba a coroa do triunfo na visão eterna da divina majestade.

Neste dia, a Igreja militante (que luta na Terra) honra a Igreja triunfante do Céu, “celebrando, numa única solenidade, todos os Santos” – como diz o sacerdote na oração da Missa –, para render homenagem àquela multidão de santos que povoam o Reino dos Céus, que São João viu no Apocalipse: “Ouvi, então, o número dos assinalados: 144 mil assinalados, de toda tribo dos filhos de Israel. Depois disso, vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua: conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de vestes brancas e palmas na mão”. “Esses são os sobreviventes da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro.” (Ap 7,4-14) Essa imensa multidão de 144 mil, que está diante do Cordeiro, compreende todos os servos de Deus, aos quais a Igreja canonizou por meio da decisão infalível de algum Papa, e todos aqueles, incontáveis, que conseguiram a salvação, e que desfrutam da visão beatífica de Deus. Lá, “eles intercedem por nós sem cessar”, diz uma de nossas orações eucarísticas. Por isso, a Igreja recomenda que os pais ponham nomes de santos em seus filhos. 

Esses 144 mil significam uma grande multidão (12 x 12 x 1000). O número doze e o número mil significavam para os judeus antigos plenitude, perfeição e abundância; não é um valor meramente aritmético, mas simbólico. A Igreja já canonizou mais de 20 mil santos, mas há muito mais que isso no Céu. A missa de Todos os Santos foi composta acidentalmente, mas é bela: O Introito de Santa Ágata, o Gradual de São Ciríaco, o Ofertório adaptado do de São Miguel, alia-se à Aleluia e à Comunhão tirada dos textos evangélicos. O Evangelho é o das Beatitudes.

Todos os Santos do Céu,  rogai por nós!

Oração – “Ó, Deus, onipotente e eterno, que pela força do Vosso Espírito Santo santificastes a vida de tantos fiéis que Vos serviram ao longo de todos os tempos e em todos os lugares, testemunhando a Vossa grandeza, amor e bondade, fazei que, pela intercessão deles, cheguemos, também, à felicidade eterna, na companhia de Vosso Santíssimo Filho Jesus Cristo, de Nossa Senhora e de todos os Santos. Amém.”

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5 Presentes que ganhamos lendo o Santo do Dia

Você sabe porque é muito importante ler a vida do Santo do dia?

Os verdadeiros seguidores e discípulos de Nosso Senhor Jesus Cristo colocaram em prática na sua vida a doutrina e os ensinamentos da Santa Igreja.

Jovens ou velhos, religiosos ou seculares, pais ou mães de família, meninos ou meninas, eles tiveram problemas, dificuldades e tentações. Lutaram e venceram. Ou, caíram no pecado, se arrependeram e e reergueram com a graça de Deus, como Santo Agostinho.

Como venceram a ira, a preguiça, a inveja, os maus desejos e todas as demais tentações? Que fizeram para se protegerem do mal? Para se fortalecer e progredir,  vencer e triunfar?

Lendo a vida dos Santos, encontraremos as respostas.

Santo Cura d’Ars lia todos os dias a vida do santo de cada dia e dizia:

“Leiamos sobretudo a vida de algum santo, donde veremos o que eles faziam para se santificar. Isto nos animará”.

1) Com os Santos, nunca estamos sozinhos

Como diz São Paulo na Carta aos Hebreus (12,1) “estamos rodeados por uma nuvem de testemunhas” A Igreja foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo não apenas como uma instituição, mas uma autêntica família. Os santos mártires, confessores, doutores, as virgens, os santos pastores e todos os demais santos são realmente nossos irmãos que nos precederam no caminho da Fé e já estão no Céu, para onde também iremos nós, pela graça de Deus.

2) Os Santos são exemplos, amigos e verdadeiras imagens de Cristo

Os Santos, e sobretudo a Rainha de todos os Santos, Maria Santíssima, constituem para a Igreja e para nós exemplos, intercessores, amigos, protetores e mestres. Neles o próprio Cristo se manifesta, como diz o mesmo Jesus: Quem vos escuta, a Mim escuta (Lc. 10,16). Mais de 2000 anos depois da vida terrena de Jesus, podemos contemplar sua Sagrada Face espelhada naqueles que são fiéis à ação do Espírito Santo em suas almas.

3) Lendo a vida do Santo do dia temos um incentivo constante para o Bem

A vida dos Santos desperta em nós o desejo de seguir a Cristo.

Que melhores coisas podemos desejar do que a contemplação de um São Bruno? Ou a sabedoria de um São Tomás de Aquino? A integridade e ortodoxia de um Santo Atanásio? O desapego dos bens de um São Francisco? A pureza de uma Santa Inês? O ardor apostólico de um São Francisco Xavier? O amor às Sagradas Escrituras de um São Jerônimo?

4) Os Santos são modelos de todas virtudes: confiança em Deus, resignação, desapego…. e muito mais!!!

Santa Mônica alcançou de Deus a graça da conversão de seu filho, Santo Agostinho, de seu marido  e de sua sogra! Por que não vou conseguir eu?

Se Santa Teresinha, que jamais deixou seu convento, se tornou padroeira das Missões, não posso eu também oferecer minhas limitações, dificuldades e sofrimentos pela salvação dos outros?

Se Santo Antão, deixou todos os seus bens para seguir a Cristo, eu vou deixar-me escravizar pelo desejo das coisas materiais?

5) Os Santos são faróis que nos indicam o verdadeiro porto

Ler a vida dos Santos. Venerar a recordação dos Santos. Contemplar seus exemplos. Pedir sua intercessão.

Os Santos são autênticos faróis que acendem e levantam diante de nossos olhos a luz de Cristo indicando-nos o único e verdadeiro porto da salvação para o qual devemos rumar: o Céu! Para lá chegarmos, suas vidas nos recordam a nossa grande vocação: sermos como eles, Santos!

Publicado em fatima.org.

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Neste pequeno texto, São Pedro de Alcântara, mestre da vida interior, ensina-nos como lidar com a falta de consolações espirituais na prática da oração.

Para aquele a quem faltarem as consolações espirituais, o remédio é que nem por isso deixe o exercício da oração acostumada, ainda que lhe pareça desenxabida e de pouco fruto, mas ponha-se na presença de Deus como réu e culpado, examine a sua consciência e olhe se porventura perdeu esta graça por sua culpa, suplique ao Senhor com inteira confiança lhe perdoe e alegue as riquezas inestimáveis da sua paciência e misericórdia em sofrer e perdoar a quem outra coisa não sabe senão ofendê-lo.

Desta maneira tirará proveito da sua secura, tomando ocasião para mais se humilhar, vendo o muito que peca, e para mais amar a Deus, vendo o muito que Ele lhe perdoa.

E conquanto não ache gosto nestes exercícios, não desista deles, porque não se requer que seja sempre saboroso o que há de ser proveitoso.

Ao menos isto se acha por experiência, a saber, que todas as vezes que o homem persevera na oração com um pouco de atenção e cuidado, fazendo calmamente o pouco que pode, ao cabo sai dali consolado e alegre, vendo que fez de sua parte algo do que estava em si. Muito faz, aos olhos de Deus, quem faz tudo o que pode, ainda quando pouco possa. Não olha Nosso Senhor tanto ao cabedal do homem quanto à sua possibilidade e vontade. Muito dá quem deseja dar muito, quem dá tudo o que tem, quem não deixa nada para si. Não é muita coisa o durar muito na oração, quando muita é a consolação. O muito é, quando a devoção é pouca, ser muita a oração e muito maior a humildade, a paciência e a perseverança no bem orar.

Também é necessário nestes tempos andar com maior solicitude e cuidado do que nos outros, velando sobre a guarda de si mesmo e examinando com muita atenção seus pensamentos, palavras e obras; porque, como então nos falte a alegria espiritual (que é o principal remo desta navegação), é mister suprir com cuidado e diligência o que falta de graça.

Quando assim te vires, hás de fazer de conta (como diz São Bernardo) que se te dormiram as sentinelas que te guardavam e que se te caíram os muros que te defendiam. E por isso toda a esperança de salvação está nas armas, pois já não te há de defender o muro, senão a espada e a destreza no pelejar. Oh! Quanta é a glória da alma que desta maneira batalha, que sem escudo se defende, que sem armas peleja, sem fortaleza é forte e achando-se sozinha na batalha toma o esforço e ânimo por companhia!

Não há maior glória no mundo do que imitar as virtudes do Salvador. E entre as suas virtudes conta-se por mui principal o haver Ele padecido o que padeceu, sem admitir em sua alma nenhum gênero de consolo. De maneira que quem assim padecer e pelejar, tanto maior imitador de Cristo será quanto mais carecer de todo gênero de consolo. E isto é beber o cálice da obediência, puro, sem mistura de outro licor. Este é o toque principal em que se prova a fineza dos amigos, se são verdadeiros ou não o são.

Referências

  • Trecho retirado do livro “Tratado da Oração e da Meditação”, 4.ª ed., Petrópolis: Vozes, 2013, pp. 120-122.

Publicado em Equipe Christo Nihil Praeponere (Padre Paulo Ricardo).

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A ‘determinada determinação’ de Santa Teresa de Ávila

Na ascese teresiana goza um papel importante a atitude decidida e [total] de entrega a Deus. Teresa a chama “determinada determinação”, com uma frase muito sua na qual quis realçar a fortaleza e a totalidade da entrega a Deus. “Determinar-se” é começar uma nova vida; “determinada determinação” é “encurtar as distâncias e fazer de tudo para não voltar atrás; é fazer uma “opção fundamental” por Cristo, como agora diremos. 

A palavra-chave aparece com força na experiência teresiana nos momentos cruciais de sua vida; e a aplica também em sua pedagogia. Momento de conversão que a santa identifica com a vontade de empreender o caminho da oração: “Falando agora dos começam a ser servos do amor (que não me parece outra coisa além de nos determinarmos a seguir por este caminho ao que tanto nos amou” (V 11,1); “Pois no princípio está a maior dificuldade dos que estão determinados a buscar este bem e a realizar este empreendimento”(ib. 5). A tensão aumenta em uma passagem polêmica do Caminho de Perfeição em que a santa defende o que constitui a essência de sua vida e de seu Carmelo, a oração: “Não vos espanteis, filhas, com as muitas coisas que é necessário considerar para iniciar esta viagem divina, que constitui a via régia para o céu… Voltando agora aos que desejam seguir por ele e não parar até o fim, que é chegar a beber dessa água de vida, como devem começar? Digo que importa muito, ter uma grande e muito decidida determinação de não parar enquanto não alcançar a meta, surja o que surgir, aconteça o que acontecer, sofra-se o que sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenham forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não suporte os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo…” (C 21, 1-2). 

Trata-se de uma atitude do momento da conversão porém que se manifesta em uma condição normal de vida espiritual até alcançar os mesmo cumes da santidade. Quanto mais aparecem as dificuldades, maior fortaleza se requer. Tem a beleza do risco assumido generosamente e do compromisso totalitário da entrega. Com essa atitude de base tem o espiritual garantida a vitória sobre o demônio e percorrida boa parte do caminho: “o demônio se afastará depressa se a vir com grande determinação de não voltar às primeiras moradas, preferindo a isso perder a vida, o descanso e tudo o que ele lhe oferece. Que seja viril… determine-se com firmeza: vai pelejar com todos os demônios e não melhores armas do que as da cruz” (1M 1, 6); “a alma que neste caminho da oração mental, começa a caminhar com determinação… tem andado boa parte do caminho” (V 11, 13). Contando desde o início da vida espiritual com a presença da cruz, a alma sabe o que escolhe nessa determinada determinação que terá de renovar constantemente: “… É fundamental que a alma… decida desde o início seguir com determinação, e sem querer consolações, o caminho da cruz. O Senhor revelou ser essa a trilha da perfeição ao dizer: “Toma a tua cruz e segue-me”. Ele é o nosso modelo…” (V 15, 13). 

Nos encontramos na encruzilhada de uma escolha [total] de Deus que não admite meias medidas, ele respeita nossa liberdade, porém, sua entrega está condicionada pelo radicalismo de nossa opção por ele: “Tudo reside em nos entregar a Ele com toda a determinação, deixando o palácio à sua Vontade, para que Ele ponha e tire coisas dele como se fosse propriedade sua. E Sua Majestade tem razão; não lhe neguemos o que nos pede. E como não pretende forçar a nossa vontade, Ele recebe o que lhe damos, mas não se entrega de todo enquanto não nos damos a Ele por inteiro” (C 28, 12). 

Fonte; Jesus CASTELLANO. Espiritualidade Teresiana, In: AA. VV. Introduccion a la lectura de Santa Teresa. EDE, Madrid 1978, p.181-182.

Publicado em Comunidade Católica Encontro.

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Deus nos abandonou?

Quando o sofrimento bate à nossa porta, por vezes nos sentimos abandonados por Deus, pensamos estar sozinhos neste mundo.

Será que Deus nos abandonou?

Neste mundo passamos por sofrimentos, angústias, tribulações, e nestes momentos podemos nos sentir abandonados por Deus. Jesus Cristo, o Filho de Deus, também teve momentos de angústia, sofrimento, tribulação, mas mesmo assim entregou-se inteiramente à vontade do Pai. Jesus disse aos judeus: “não procuro fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30b). Cristo veio ao mundo, não para fazer a Sua vontade, mas a vontade do Pai que Lhe enviou. Ele tinha uma missão a realizar neste mundo e dedicou-se inteiramente a essa missão, ainda que para isso tivesse que desagradar os homens e a si mesmo. Como cristãos, somos chamados a seguir o caminho de Cristo, que passou por sofrimentos e perseguições (cf. Jo 5, 18), para realizar a vontade do Pai em nossas vidas.

Esta missão que nos foi confiada se parece com a que foi confiada por Deus ao Povo de Israel através do profeta Isaías: “Eu atendo teus pedidos com favores e te ajudo na obra de salvação; preservei-te para seres elo de aliança entre os povos, para restaurar a terra, para distribuir a herança dispersa” (Is 49, 8). O Senhor nos ajuda nesta obra de salvação. Ele nos preservou para ser, como Jesus Cristo, um elo de aliança entre os povos. A vontade do Pai é que sejamos esse elo de ligação entre Ele e Israel, o Povo de Deus.

O Senhor nos chamou para libertar aqueles que estão presos pelas cadeias do pecado (cf. Is 61, 1), para iluminar a vida daqueles que vivem nas trevas dos vícios, do distanciamento de Deus. Jesus foi perseguido justamente porque fazia tudo isso até mesmo no dia de sábado, que era um dia de descanso para os judeus. Hoje, os motivos das perseguições contra os cristãos certamente não são os mesmos, mas é o próprio Cristo que é perseguido em nós.

Diante das perseguições, dos sofrimentos por causa de Jesus Cristo, podemos pensar como os israelitas: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!” (Is 49, 14). Em meio a estas tribulações, perseguições, sofrimentos, podemos achar que Deus nos abandonou. Porém, o Senhor nunca nos abandona. Ao contrário, nestes momentos é que Ele está ainda mais próximo de nós. Pois, através dos sofrimentos estamos ainda mais unidos à Cruz de Cristo.

Quando os sofrimentos e as perseguições baterem a nossa porta, podemos ser tentados a achar que Deus se esqueceu de nós. Porém, a Palavra de Deus nos garante que Ele jamais se esquece de nós: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti” (Is 49, 15). Não há maior amor humano do que o amor de uma mãe pelo seu filho. Esta jamais se esqueceria do seu filho. Mas, ainda que sejamos esquecidos pela nossa própria mãe, Deus não se esquece de nós.

Portanto, Deus Pai compara o Seu amor por nós com o amor de uma mãe. O Pai compara o seu amor por nós com o amor materno, de uma mãe para com o seu filho. Este amor de Deus por nós, paterno e materno, se manifestou a nós em Jesus Cristo e na Virgem Maria. Por isso, ainda que nos sintamos abandonados e esquecidos, acolhamos o amor do Pai, que se manifestou no seu Filho Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, e o amor materno de Maria, que são reflexo do infinito amor de Deus por nós. Quando acolhemos o amor infinito de Deus por nós, manifestado a nós em Jesus e em Maria, acolhemos a graça do Espírito Santo que, transforma o sofrimento em amor redentor (cf. Papa João Paulo II, Carta Encíclica Dominum et Vivificantem40). Desse modo, fortalecidos pelo amor, dom do Espírito Santo, seremos capazes de fazer a vontade do Pai.

Publicado em Todo de Maria.

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Em que consiste a infância espiritual de Santa Teresinha …

Teresa de Lisieux – Wikipédia, a enciclopédia livre
Wikipédia

A experiência de Santa Teresinha do Menino Jesus convida os cristãos a se tornarem como crianças, pois “o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham”.

O conceito de “infância espiritual” existe na Igreja desde o seu começo. Basta ir ao Evangelho e notar que a condição que Jesus estabelece para que seus discípulos entrem no Reino dos céus é que se transformem em criancinhas (cf. Mt 18, 3). Esta verdade foi desenvolvida por muitos teólogos medievais, mas só atingiu seu cume em uma jovem carmelita do século XIX, Teresa de Lisieux, também conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face.

A “infância espiritual”, este tesouro da espiritualidade católica, é vivenciada por todos aqueles que buscam a Deus e querem ser santos. A despeito das tendências jansenistas da França oitocentista, Santa Teresinha tinha consciência daquilo os padres do Concílio Vaticano II chamariam de “a vocação de todos à santidade na Igreja”. Nesta, diz a constituição Lumen Gentium, “todos (…), quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: ‘esta é a vontade de Deus, a vossa santificação’ (1 Ts 4, 3; cf. Ef 1, 4)”.

Deus chama à santidade não somente as grandes almas, mas também “une légion de petites âmes – uma legião de almas pequeninas”, escreve Santa Teresinha, no manuscrito B do livro “História de uma alma”. Neste clássico da espiritualidade cristã, ela traça os moldes de sua doutrina da “pequena via”, através de uma simples parábola:

Como pode uma alma tão imperfeita como a minha aspirar à plenitude do Amor?… Ó Jesus! meu primeiro, meu único Amigo, Tu que amo UNICAMENTE, dize-me que mistério é esse. Por que não reservas essas imensas aspirações para as grandes almas, para as águias que planam nas alturas?… Considero-me apenas um mero passarinho coberto de leve penugem, não sou uma águia, só tenho dela os olhos e o coração, pois apesar da minha extrema pequenez ouso fixar o Sol Divino, o Sol do Amor, e meu coração sente em si todas as aspirações da águia…

Santa Teresinha contempla os grandes santos – as águias – e vê a sua pequenez, comparando-se a “um mero passarinho coberto de leve penugem”. No entanto, ela percebe em si uma contradição: não é uma águia, mas “sente em si todas as aspirações” de uma águia; não é majestosa como ela, mas tem os seus olhos e o seu coração.

No dia 6 de agosto de 1897, em confidência à sua irmã Inês, Teresa explicou “o que ela entendia por ‘permanecer criancinha’ perante o bom Deus”:

É reconhecer o seu nada, é esperar tudo do bom Deus, assim como uma criança pequena espera tudo do pai; é não se preocupar com nada e, de modo algum, fazer fortuna. Mesmo entre os pobres, dá-se à criança o que lhe é necessário, mas assim que ela cresce o pai não quer mais alimentá-la, dizendo-lhe: ‘Agora vá trabalhar, você pode se sustentar’.”

“Foi para não escutar isso que eu não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar a vida, a vida eterna do Céu. Permaneci, então, sempre pequena, tendo uma só ocupação: colher flores, as flores do amor e do sacrifício, oferecendo-as ao bom Deus, para seu agrado.

No crescimento espiritual, há uma lei contrária à do crescimento físico. Naquele, deve prevalecer sempre o primado da graça, pelo qual a pessoa se torna cada vez mais dependente de Deus. O santo, quanto mais santo, mais depende d’Ele, mais reconhece sua dependência e sua pequenez.

Porém, sabendo que “é necessário entrarmos no Reino de Deus por meio de muitas tribulações” (At 14, 22), este processo não se dá sem sofrimento. Para se chegar à plena “infância espiritual”, é preciso passar pela noite escura da alma, pela purificação. Prossegue Santa Teresinha, no manuscrito B de seu livro:

O passarinho quer voar para esse Sol brilhante que encanta seus olhos, quer imitar as águias, suas irmãs, que vê chegar ao lar divino da Trindade Santíssima… ai! o que pode fazer é bater as asinhas, voar, porém, não está em seu pequeno alcance! O que será dele? Morrer de tristeza por se ver tão impotente?… Oh não! o passarinho nem vai ficar aflito. Com total abandono, quer ficar olhando seu divino Sol; nada poderá assustá-lo, nem o vento nem a chuva, e se nuvens escuras vierem esconder o Astro de Amor o passarinho não trocará de lugar. Sabe que, além das nuvens, seu Sol continua brilhando, que seu brilho não cessará. Às vezes, o coração do passarinho é vítima de tempestade, parece não acreditar que existem outras coisas além das nuvens que o envolvem. Esse é o momento da felicidade perfeita para o pobre serzinho frágil. Que felicidade ficar aí, assim mesmo; fixar a luz invisível que escapa à sua fé!!!…

Em certos momentos, o passarinho se aflige e é tentado pela incerteza, pela dúvida: será que existe o Sol, além das densas nuvens que pairam no ar? Será possível ver o amor de Deus nesta vida crucificada e cheia de sofrimentos? A alma, então, se lança totalmente nos braços de Deus, como uma criança inteiramente dependente de seus pais, e é-lhe dada a certeza da fé. Ela diz: meu Deus, eu não vos compreendo, mas eu vos amo.

A “infância espiritual” também consiste em não dar demasiada importância aos próprios pecados. Ainda em confidência à sua irmã, Teresinha revela:

Ser criança é ainda não atribuir a si própria as virtudes praticadas, acreditando-se capaz de alguma coisa; é reconhecer que o bom Deus coloca este tesouro na mão de sua criancinha para que ela se sirva dele quando precisar; mas é sempre o tesouro do bom Deus. Enfim, é nunca desanimar por causa de seus erros, pois as crianças caem com frequência, porém são pequenas demais para se machucar muito.

A experiência de Santa Teresinha do Menino Jesus convida os cristãos a se tornarem como crianças, pois “o Reino dos céus é para aqueles que se lhes assemelham” (Mt 19, 14).

Publicado em Resposta Católica (Pe. Paulo Ricardo).

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