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Rainha dos Céus - Teresa d'Ávila

15/10 – Santa Teresa d’Ávila (Doutora da Igreja)

Teresa, nascida no dia 28 de março de 1515, seus pais, Alonso Sanchez de Cepeda e Beatriz d’Ávila y Ahumada, a educaram, junto com os irmãos, dentro do exemplo e dos princípios cristãos. Aos sete anos, tentou fugir de casa e peregrinar ao Oriente para ser martirizada pelos mouros, mas foi impedida. A leitura da vida dos santos mártires tinha sobre ela uma força inexplicável e, se não fossem os parentes terem-na encontrado por acaso, teria fugido, levando consigo o irmão Roderico.

Órfã de mãe aos doze anos, Teresa assumiu Nossa Senhora como sua mãe adotiva. Mas o despertar da adolescência a levou a ter experiências excessivas ao lado dos primos e primas, tornando-se uma grande preocupação para seu pai. Aos dezesseis anos, sua atração pelas vaidades humanas era muito acentuada. Por isso, ele a colocou para estudar no colégio das agostinianas em Ávila. Após dezoito meses, uma doença grave a fez voltar para receber tratamento na casa de seu pai, o qual se culpou pelo acontecido.
Nesse período, pela primeira vez, Teresa passou por experiências espirituais místicas, de visões e conversas com Deus. Todavia as tentações mundanas não a abandonavam. Assim atormentada, desejando seguir com segurança o caminho de Cristo, em 1535, já com vinte anos, decidiu tornar-se religiosa, mas foi impedida pelo pai. Como na infância, resolveu fugir, desta vez com sucesso. Foi para o Convento carmelita da Encarnação de Ávila.

Entretanto a paz não era sua companheira mais presente. Durante o noviciado, novas tentações e mais o relaxamento da fé não pararam de atormentá-la. Um ano depois, contraiu outra doença grave, quase fatal, e novamente teve visões e conversas com o Pai. Teresa, então, concluiu que devia converter-se de verdade e empregou todas as forças do coração em sua definitiva vivência da religião, no Carmelo, tomando o nome de Teresa de Jesus.
Aos trinta e nove anos, ocorreu sua “conversão”. Teve a visão do lugar que a esperaria no inferno se não tivesse abandonado suas vaidades. Foi grande amiga do seu conselheiro espiritual São João da Cruz, também Doutor da Igreja, místico e reformador da parte masculina da Ordem Carmelita. Por meio de contatos místicos e com a orientação desse grande amigo, iniciou então, o seu grande trabalho de reformista. Pequena e sempre adoentada, ninguém entendia como conseguia subir e descer montanhas, deslocar-se pelos caminhos mais ermos e inacessíveis, de convento em convento, por toda a Espanha. Em 1560, teve a inspiração de um novo Carmelo, onde se vivesse sob as Regras originais.

Dois anos depois, fundou o primeiro Convento das Carmelitas Descalças da Regra Primitiva de São José em Ávila, onde foi morar. Daí partiu para todas as direções da Espanha, criando novos Carmelos e reformando os antigos. Provocou com isso muitos ressentimentos por parte daqueles que não aceitavam a vida austera que propunha para o Carmelo reformado. Chegou a ter temporariamente revogada a licença para reformar outros conventos ou fundar novas casas. Mas obteve o apoio do rei Felipe II e conseguiu dar seqüência ao seu trabalho. Em 1580, o Papa Gregório XIII declarou autônoma a província carmelitana descalça.

Apesar de toda essa atividade, ainda encontrava espaço para transmitir ao mundo suas reflexões e experiências místicas. Santa Teresa deixou-nos várias obras grandiosas e profundas, principalmente escritas para as suas filhas do Carmelo : “O Caminho da Perfeição”, “Pensamentos sobre o Amor de Deus”, “Castelo Interior”, “A Vida” entre outros.
Neles, ela própria narra como um anjo transpassou seu coração com uma seta de fogo, (transverberação). E ela só seguiu numa rota segura porque foi devidamente orientada pelos que agora eram os santos Francisco Bórgia e Pedro de Alcântara, que perceberam os sinais da ação de Deus.

Morreu em Alba de Tormes na noite de 15 de outubro de 1582 aos 67 anos, e em 1622 foi proclamada santa. O seu segredo foi o amor. Conseguiu fundar mais de trinta e dois mosteiros, além de recuperar o fervor primitivo de muitas carmelitas, juntamente com São João da Cruz. Teve sofrimentos físicos e morais antes de morrer, até que em 1582 disse uma das últimas palavras: “Senhor, sou filha de vossa Igreja. Como filha da Igreja Católica quero morrer”.

No dia 27 de setembro de 1970 o Papa Paulo VI reconheceu-lhe o título de Doutora da Igreja. Sua festa litúrgica é no dia 15 de outubro. Santa Teresa de Ávila é considerada um dos maiores gênios que a humanidade já produziu.

Rainha dos Céus

Santa Teresa de Ávila, rogai por nós!

texto/adaptação: Caminhada com Cristo
vídeo: Canção Nova

Publicado em Rainha dos Céus.

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“O Rosário é minha oração preferida. Oração maravilhosa em sua simplicidade e em sua profundidade. Nesta oração repetimos muitas vezes as palavras que a Virgem Maria escutou da boca do anjo e de sua prima Isabel. A estas palavras toda a Igreja se associa”. Estas são as palavras de São João Paulo II que remetem à data celebrada neste dia 7 de outubro, Festa de Nossa Senhora do Rosário.

Foi a própria mãe de Deus quem pediu que essa oração fosse difundida para a obtenção de graças abundantes. Em 1208, a Virgem Maria apareceu a São Domingos de Gusmão para ensinar-lhe a rezar o Rosário e pediu que ele difundisse a devoção desta arma poderosa para vencer os inimigos da fé. Foi por causa deste anúncio do santo que as tropas cristãs, antes da Batalha de Lepanto (7 de outubro de 1571), rezaram o Santo Rosário e venceram os turcos otomanos.

Em agradecimento a Nossa Senhora, o Papa São Pio V instituiu esta data como a Festa de Nossa Senhora das Vitórias e acrescentou o título de “Auxílio dos Cristãos” às ladainhas da Mãe de Deus. Mais tarde, o Papa Gregório III mudou o nome para Festa de Nossa Senhora do Rosário.

Rosário significa “coroa de rosas”. Foi definido por São Pio V como “um modo muito piedoso de oração, ao alcance de todos, que consiste em ir repetindo a saudação que o anjo fez a Maria; intercalando um ‘Pai Nosso’ entre cada dez ‘Ave Marias’ e tratando de ir meditando enquanto isso na vida de Nosso Senhor”.

São João Paulo II, que acrescentou os mistérios luminosos à oração do Santo Rosário, escreveu em sua Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae” que esta oração “na sua simplicidade e profundidade, permanece, mesmo no terceiro milênio recém iniciado, uma oração de grande significado e destinada a produzir frutos de santidade”.

Ao visitar o Santuário de Pompeia, na Itália, em março de 2015, o Papa Francisco se deteve em oração durante alguns minutos em frente à imagem de Nossa Senhora do Rosário e recitou a “Pequena Súplica”, extraída da histórica oração, composta pelo Beato Bartolo Longo, que, em 1875, levou a imagem ao Santuário de Pompeia. Esta é a oração:

“Virgem do Santo Rosário, Mãe do Redentor, mulher da nossa terra elevada aos céus, humilde serva do Senhor, proclamada Rainha do mundo, do profundo das nossas misérias recorremos a Ti. Com confiança de filhos, contemplamos o teu rosto dulcíssimo.

Coroada por doze estrelas, tu nos conduzes ao mistério do Pai, tu resplandeces de Espírito Santo, tu nos dais o teu Menino divino, Jesus, nossa esperança, única salvação do mundo. Mostrando-nos o teu Rosário, nos convidas a fixar o seu rosto. Tu nos abres o seu coração, abismo de alegria e de dor, de luz e de glória, mistério do Filho de Deus, que se fez homem por nós. Aos teus pés, nas pegadas dos Santos, sentimo-nos família de Deus.

Mãe e modelo da Igreja, tu és nossa guia e sustento seguro. Tu nos tornas um só coração e uma só alma, povo forte a caminho para a pátria do céu. Nós te apresentamos as nossas misérias, os tantos caminhos do ódio e do sangue, as antigas e novas pobrezas, sobretudo os nossos pecados. A ti confiamos, Mãe de Misericórdia! Obtém-nos o perdão de Deus! Ajuda-nos a construir um mundo, segundo o teu coração.

Ó Rosário bendito de Maria, doce corrente que nos liga a Deus; corrente de amor, que nos faz irmãos, não te deixaremos jamais. Nas nossas mãos serás a arma da paz e do perdão, estrela do nosso caminho. O nosso beijo a ti, com o último respiro, nos imergirá em um mar de luz, na visão da amada Mãe e do seu Filho divino, anseio e alegria do nosso coração, com o Pai e o Espírito Santo. Amém”.

Publicado em ACI Digital (07.10.2020).

Confira também: “As razões de Irmã Lúcia para não deixar de rezar o Terço diariamente” – ACI Digital.

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Nossa Senhora do Carmo

Solenidade a 16 de Julho

Os Carmelitas contemplam aquela que é o ideal de vida carmelita, a Virgem Maria, a quem invocamos com o doce título de Senhora do Carmo; recordando o Monte do Carmo, sítio privilegiado onde a nossa família nasceu.

Quando em 1191 Ricardo I reconquista a Terra Santa, um sem número de cristãos, esquecendo a Europa fixam-se nos Lugares Santos, sobretudo em locais de tradição bíblica. O Monte Carmelo com o seu silêncio, as suas águas vivas, o encanto da vegetação, a vista deliciosa sobre o mar, a solidão que apelava para Deus atraíram muitos desses homens para a beleza deste Monte.

Recordavam-se daquela frase do profeta Jeremias que dizia: «Levar-vos-ei ao Carmo onde saboreareis os seus deliciosos frutos». Recordavam-se do profeta Elias e da nuvenzinha pequenina e frágil que ele vira subir do mar, como símbolo de Maria. E resolveram construir uma capela em honra de Nossa Senhora que passou a ser conhecida, desde o início, como a Senhora do Carmo.

Carmo quer dizer «jardim de Deus», «vinha de Deus». Os carmelitas eram as flores do jardim cuidado e protegido por Maria, eram vinha preciosa que Maria diligente trabalhava para dar frutos apetecíveis.
No ano de 1251, já na Europa, a família do Carmo, é alvo de perseguições de várias proveniências, de dentro e fora da Igreja. S. Simão Stock, VI Geral da Ordem, reza com todos os carmelitas a Maria para que ela lhes acuda.

No dia 16 de Julho, enquanto o Geral reza a oração do Flos Carmeli, vê a Virgem que o anima e lhe promete ajuda, enquanto lhe entrega o Escapulário do Carmo, convidando todos a usá-lo para terem a sua protecção. A partir desta data a devoção à Mãe e Irmã dos carmelitas aumentou dentro e fora da Ordem.

Em Lourdes, Bernardete viu Nossa Senhora várias vezes; a última aparição foi no dia de Nossa Senhora do Carmo, 16 de Julho de 1858. Bernardete declara ter visto nesse dia a Virgem «tão bela e gloriosa como nunca».
Em Fátima, a última aparição, no dia 13 de Outubro de 1917, foi de Nossa Senhora do Carmo. A Ir. Lúcia diz que «por fim lhes apareceu Nossa Senhora do Carmo a abençoar o mundo» e imediatamente se deu o início do milagre do sol.

Muitos santos, depois da aparição de Nossa Senhora do Carmo se quiseram revestir do escapulário ou da medalha para melhor manifestarem o seu amor a Maria e assim serem por Ela protegidos: S. Cláudio de la Colombière, Santo Afonso Maria de Ligório, Santo António Maria Claret, o Santo Cura d’Ars, Santa Bernardete, S. João Bosco, S. Domingos Sávio, S. Gabriel das Dores e um inumerável número de santos. Para já não falar de todos os santos e santas carmelitas, sobretudo Santa Teresa de Jesus e S. João da Cruz que sentiam a maior glória em usar o hábito carmelita da Ordem de Nossa Senhora do Carmo.

Também os papas manifestaram o seu amor ao Escapulário do Carmo. João XXII, no séc. XIV promoveu esta devoção. Nos nossos dias, Leão XIII, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II têm manifestado entusiasticamente o seu amor pelo Escapulário e pela devoção a Nossa Senhora do Carmo.

Também os nossos reis, sobretudo os da IV Dinastia, de quem há documentação, usaram o Escapulário e amavam Nossa Senhora do Carmo, a quem tinham muita devoção.

(…)

Desde muito cedo a devoção a Virgem Maria passa a ser, como outros aspectos da vida da Santa, uma experiência dos seus mistérios, quando Deus faz entrar Santa Teresa em contacto com o mistério de Cristo de tudo o que a Ele pertence.

Na experiência mística teresiana do mistério da Virgem há como uma progressiva contemplação e experiência dos momentos mais importantes da vida da Virgem, segundo a narração evangélica.
Vamos agora escutar o que nos diz a Santa Teresa de Jesus nos Conceitos do Amor de Deus (Cap. 6, 7), sobre a Virgem Maria.

SANTA TERESA DE JESUS FALA-NOS DE MARIA.

Oh segredos de Deus! Aqui não há senão render entendimentos e pensar que para entender as grandezas de Deus, não valem nada.
Aqui vem a propósito ajoelharmo-nos como fez a Virgem Nossa Senhora com toda a sabedoria que Deus lhe deu, que perguntou ao anjo quando A saudou: “Como se fará isto?” Em dizendo-lhe: “O Espírito Santo sobrevirá em ti, e a virtude do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra”, não tratou de mais disputas.
Como quem tinha grande fé e sabedoria, entendeu logo que, intervindo estas duas coisas, não havia mais que saber nem que duvidar.

(Conceitos do Amor de Deus, Cap. 6,7).

(…)

Oração Final:
Deus todo-poderoso, que, segundo o que anunciaste pelo anjo, quisestes que o teu Filho se encarnara no seio da Virgem Maria, escuta as nossas súplicas e faz que sintamos a proteção da Virgem Maria os que a proclamamos com firmeza Mãe de Deus. Amém.

Publicado em Ordem dos Carmelitas Descalços em Portugal.

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Solenidade do Imaculado Coração de Maria

O Pai e Jesus querem estabelecer no mundo inteiro a devoção do Imaculado Coração.

Neste sábado, dia em que a Igreja celebra a memória Litúrgica do Imaculado Coração de Maria, queremos pedir a materna intercessão da Santíssima Virgem Mãe de Deus, concebida sem pecado.

Esta memória ao Imaculado Coração de Maria não é nova na Igreja; tem as suas profundas raízes no Evangelho que repetidamente chama a nossa atenção para o Coração da Mãe de Deus. Por isto na Tradição Viva da Igreja encontramos confirmada pelos Santos Padres, Místicos da Idade Média, Santos, Teólogos e Papas como o nosso João Paulo II.

“Depois ele desceu com eles para Nazaré; era-lhes submisso; e a sua mãe guardava todos esses acontecimentos em seu coração”. Este relato bíblico que se encontra no Evangelho segundo São Lucas, uni-se ao do canto de Louvor – Magnificat – a compaixão e intercessão diante do vinho que havia acabado e a presença de Maria de pé junto a Cruz, para assim nos revelar a sintonia do Imaculado Coração de Maria para com o Sagrado Coração de Jesus.

Dentre os santos se destacou como apóstolo desta devoção São João Eudes, e dentre os Papas que propagaram esta devoção de se destaca Pio XII que em 1942 consagrou o mundo inteiro ao Coração Imaculado de Maria.

As aparições de Nossa Senhora em Fátima, Portugal, no ano de 1917, de tal forma espalhou a devoção ao Coração de Maria que o Cardeal local disse: “Qual é precisamente a mensagem de Fátima? Creio que poderá resumir-se nestes termos: a manifestação do Coração Imaculado de Maria ao mundo atual, para o salvar”. Desta forma pudemos conhecer do Céu que o Pai e Jesus querem estabelecer no mundo inteiro a devoção do Imaculado Coração que encontra fundamentada na Consagração e Reparação a este Coração que no final Triunfará.

Imaculado Coração de Maria, sede a nossa salvação!

Publicado em Convento da Penha.

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Meu Encarceramento

Ainda lembro como se fosse hoje como tudo aconteceu. Era uma sexta-feira, já no finalzinho da tarde, quando já ansiava pelo fim de semana que se avizinhava. Eles entraram no meu local de trabalho, não bateram na porta, nem cumpriram os rituais de boa educação. Simplesmente, deram-me voz de prisão, sem que eu pudesse resistir. Não estavam munidos de cassetete, algemas ou arma de fogo. Não eram como os policiais normais: suas armas eram palavras, imagens, fatos e um alarmante índice de mortos. Minha sensação naquele momento foi de um cidadão comum. Senti-me perplexo, perdido e acuado. Sem que minhas angustias fossem escutadas, fui levado às pressas para o camburão. Não me foi permitido levar muitas coisas. Eles me levaram em um veículo escuro e hostil a minha dor. No entanto, percebi que não era o único que havia sido preso, milhares de pessoas também estavam ali, também elas haviam sido delatadas. A acusação que recaia sobre todos nós era que levávamos uma vida comum. Algo totalmente injusto para um trabalhador como eu, que paga os meus impostos e cumpre com os seus deveres com a Nação. Mas o mais chocante de tudo ainda estava para acontecer. O local do meu encarceramento se chamava casa. Casa? Sim, não qualquer casa, mas a minha casa. Era realmente maldade o que faziam comigo, estar preso em minha própria casa. Casa, para mim, colocava-me em contato com um “nós”. Confesso que sempre tive dificuldade em conjugar os verbos na terceira pessoa do plural, por isso, com o passar do tempo havia criado muitos espaços onde a conjugação na primeira pessoa do singular era permitida. Era ridículo que nessa altura da vida fosse obrigado a passar por essa situação tão constrangedora. Os meus algozes, como um gesto benéfico, deixaram-me usar o smartphone. Era um refrigério em meio ao caos! Mas o tempo da privação foi alongando-se e com ele foram aflorando os meus medos e preocupações. Como vou pagar as minhas dívidas? Como vou sustentar a minha família? Essas e outras perguntas eram frequentes… Mas as minhas dúvidas não eram ouvidas, tentei fazê-los entender a importância que eu tinha na empresa e que muitas coisas dependiam de mim. Eu, que me achava imprescindível no meu trabalho, agora estava privado de qualquer certeza ou garantia de um dia voltar para ele. Esses pensamentos e preocupações, somadas ao enfado de estar naquele lugar, que já não merecia o nome de casa, mas de cárcere, levou-me ao delírio… Como é difícil constatar que não temos as coisas em nossas mãos e que de uma hora para outra tudo se torna relativo! O delírio, que de início se manifestava como um intruso, já ocupava cada segundo do meu dia. Hoje, tendo passado alguns anos do meu encarceramento posso admitir que o cume de tudo foi aquele espelho. De fato ele sempre esteve lá, mas até então servia apenas para ajudar-me a fazer a barba. Aquele espelho colocou-me em contato com o meu “eu”. O “eu verdadeiro” que vive escondido dentro de cada um de nós. Temos vergonha dele, por isso, fazemos questão de negá-lo. Mas já não me era mais possível fugir, minha condição de encarcerado não me permitia. Até mesmo o smartphone, de início tão solidário a minha dor, havia se revelado como um verdadeiro inimigo que me roubava de mim mesmo e, consequentemente, dos outros. Que cena deprimente foi escutar a voz do meu “eu verdadeiro”. Tive que reconhecer que havia muitas coisas em mim sem resolver. É como se me deparasse com um aglomerado de entulhos sem saber o que fazer. Não consigo colocar no papel o que consiste encontrar-se consigo mesmo em meio ao caos. Medo, insegurança, frustração, dúvidas, ódio, desespero… São palavras apenas! O que está em mim é bem mais do que isso. Porém, foi exatamente nesse instante, entre o desespero e a lucidez que vi emergir em mim uma voz. Não seria ela projeção do meu desespero? Não seria um refúgio metal criado pela minha fraqueza? Não, não conseguiria produzir por mim mesmo aquela sensação de paz. Não vinha de mim, mas de um “outro” estranhamente presente em mim. Agora reconheço que ela não surgiu no desespero, ela sempre esteve ali. Aquela voz amena e cálida me indicava apenas duas atitudes infantis como âncora naquela tempestade: a confiança e o abandono. Confiança e abandono não são palavras mágicas. Estão repletas de significado existencial. Foi quando no auge de meu encarceramento, quando havia perdido todas as esperanças de sobreviver a esse caos, é que emergiu essa Presença afável e sutil. Não sei explicar como alguém passa da dor à alegria, da prisão à liberdade, do desespero à esperança… São coisas complexas que não conseguimos expressar com palavras. Mas foi assim, quando do cume do meu cárcere fui liberto de mim mesmo e me abri à Transcendência.

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“Castelo Interior ou Moradas” – Primeiras Moradas – capítulo 2 (Seculares Contemplativos)

CENTRO DE ESPIRITUALIDADE MONTE CARMELO

Primeiras Moradas, capítulo 2

 

 

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CENTRO DE ESPIRITUALIDADE MONTE CARMELO

Aula 02 – Primeiras Moradas, Capítulo I

Nesta segunda aula, estudaremos o primeiro capítulo, das primeiras moradas, do livro: Castelo Interior de Teresa de Jesus, Santa e Doutora da Igreja.

 

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Introdução ao Livro Castelo Interior ou Moradas

 

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CRISTO VIVE! RESSUSCITOU! ALELUIA! – “…A adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas e dos povos.” (Presbíteros)

 

Homilia de Mons. José Maria Pereira – Domingo de Páscoa

Vencedor da morte

Cristo ressuscitou! A paz esteja convosco! Hoje se celebra o grande Mistério, fundamento da fé e da esperança cristã: Jesus de Nazaré, o Crucificado, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, conforme as Escrituras. O anúncio feito aos Anjos, naquela aurora do primeiro dia, depois do sábado, a Maria Madalena e às mulheres que foram ao sepulcro, o ouvimos, hoje, com renovada emoção: “Por que buscais entre os mortos o Vivente? Não está aqui. Ressuscitou!”   ( Lc 24, 5-6).

O Senhor ressuscitou verdadeiramente, aleluia!

A todos formulo cordiais votos de Páscoa com as palavras de Santo Agostinho: “A Ressurreição do Senhor é a nossa esperança”. Com esta afirmação, Santo Agostinho explicava aos   seus fiéis que Jesus ressuscitou para que nós, apesar de destinados à morte, não desesperássemos, pensando que a vida acaba totalmente com a morte; Cristo ressuscitou para nos dar a esperança. Graças à Morte e Ressurreição de Cristo, também nós hoje ressurgimos para uma vida nova e, unindo a nossa voz à d’Ele, proclamamos que queremos ficar para sempre com Deus, nosso Pai, infinitamente bom e misericordioso.

A Ressurreição gloriosa do Senhor é a chave para interpretarmos toda a sua vida e o fundamento da nossa fé. Sem essa vitória sobre a morte, diz S. Paulo, vazia seria a nossa pregação e vã a nossa fé (1 Cor 15,14).

A Ressurreição do Senhor é uma realidade central da nossa fé católica, e como tal foi pregada desde os começos do cristianismo. A importância deste milagre é tão grande que os Apóstolos são, antes de mais nada, testemunhas da Ressurreição de Jesus. Este é o núcleo de toda pregação, e isto é o que, depois de mais de vinte séculos nós anunciamos ao mundo: Cristo vive!  A Ressurreição é a prova suprema da divindade de Cristo. Jesus ressuscitou, não para que a sua memória permaneça viva no coração dos seus discípulos, mas para que Ele mesmo viva em nós, e, n’Ele, possamos já saborear a alegria da vida eterna. Na manhã de Páscoa, tudo se renovou. “Morte e vida defrontaram – se num prodigioso combate: O Senhor da vida estava morto; mas agora, vivo, triunfa” ( Sequência Pascal). Esta é a novidade! Uma novidade que muda a vida de quem a acolhe, como sucedeu com os santos. Assim aconteceu, por exemplo, com São Paulo.

Portanto, a Ressurreição não é uma teoria, mas uma realidade histórica revelada pelo Homem Jesus Cristo por meio da sua “Páscoa”, da sua “passagem”, que abriu um “caminho novo” entre a Terra e o Céu (Heb 10, 20). Não é um mito nem um sonho, não é uma visão nem uma utopia, não é uma fábula, mas um acontecimento único e irrepetível : Jesus de Nazaré, filho de Maria, que ao pôr do sol de Sexta – feira foi descido da Cruz e sepultado, deixou vitorioso o túmulo. De fato, ao alvorecer do primeiro dia, depois do Sábado, Pedro e João encontraram o túmulo vazio. Madalena e as outras mulheres encontraram Jesus ressuscitado; reconheceram – no também os dois discípulos de Emaús ao partir o pão; o Ressuscitado apareceu aos Apóstolos à noite, no Cenáculo e depois a muitos outros discípulos, na Galiléia.

A Liturgia Pascal lembra, na primeira leitura, um dos mais comoventes discursos de Pedro sobre a Ressurreição de Jesus: “Deus O ressuscitou no terceiro dia, concedendo-Lhe manifestar-se… às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos” (At 10,40-41). Surge nestas palavras a vibrante emoção do chefe dos Apóstolos pelos grandes acontecimentos de que foi testemunha, pela intimidade com Cristo ressuscitado, sentando-se à mesma mesa, comendo e bebendo com Ele.

A Ressurreição é a grande luz para todo o mundo: “Eu sou a luz” (Jo 8,10), dissera Jesus; luz para o mundo, para cada época da história, para cada sociedade, para cada homem.

No Evangelho (Jo 20,1-9) vemos que a Boa Nova da Ressurreição provocou, num primeiro momento, um temor e espanto tão fortes, que as mulheres “saíram e fugiram do túmulo… e não disseram nada a ninguém, porque tinham medo”. Entre elas, porém encontrava-se Maria Madalena que viu a pedra retirada do túmulo e correu a dar a notícia a Pedro e João: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde O colocaram” (Jo 20,2). “Os dois saem correndo para o sepulcro e, entrando no túmulo, observaram as faixas que estavam no chão e o lençol…” (Jo 20,6-7). “Ele viu e acreditou” (Jo 20,8).  É o primeiro ato de fé da igreja nascente em Cristo Ressuscitado, originado pela solicitude de uma mulher e pelos sinais do lençol, das faixas de linho, no sepulcro vazio. Se se tratasse de um roubo, quem se teria preocupado em despir o cadáver e colocar o lençol com tanto cuidado? Deus serve-se de coisas bem simples para iluminar os discípulos que “ainda não tinham entendido a Escritura, segunda a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20,9), nem compreendiam ainda o que o próprio Jesus tinha predito acerca da Sua ressurreição.

Ainda que sob outro aspecto, os “sinais” da Ressurreição veem-se ainda presentes no mundo: a fé heroica, a vida evangélica da tanta gente humilde e escondida; a vitalidade da igreja que as perseguições externas e as lutas internas não chegam a enfraquecer; a Eucaristia, presença viva de Jesus ressuscitado que continua a atrair a Si todos os homens. Pertence a cada um dos homens vislumbrar e aceitar estes sinais, acreditar como acreditam os Apóstolos e tornar cada vez mais firme a sua fé.

A Ressurreição do Senhor é um apelo muito forte: lembra-nos sempre que vivemos neste mundo como peregrinos e que estamos em viagem para a verdadeira pátria, a eterna. Cristo ressuscitou para levar consigo os homens, na Sua Ressurreição, para onde Ele vive eternamente, fazendo-os participantes da Sua glória.

O Senhor Ressuscitado faça – se presente em todo lugar com a sua força de vida, de paz e de liberdade. Hoje, a todos são dirigidas as palavras com as quais, na manhã da Páscoa, o Anjo tranquilizou os corações amedrontados das mulheres: “Não tenhais medo! Não está aqui; ressuscitou” (Mt 28, 5-6). Jesus ressuscitou e concede – nos a paz. Ele mesmo é a paz. Por isso, vigorosamente, a Igreja repete: “Cristo Ressuscitou”. Que a humanidade do Terceiro Milênio não tenha medo de abrir – Lhe o coração! O Seu Evangelho sacia plenamente a sede de paz e de felicidade que habita em todo o coração humano. Agora Cristo está vivo e caminha conosco. Um Mistério imenso de Amor! Aleluia!

Devemos constantemente renovar a nossa adesão a Cristo morto e ressuscitado por nós: a sua Páscoa é também a nossa Páscoa, porque em Cristo ressuscitado é-nos dada a certeza da nossa Ressurreição. A notícia da sua Ressurreição dos mortos não envelhece e Jesus está sempre vivo; e vivo é o seu Evangelho. “A fé dos cristãos, observa Santo Agostinho, é a Ressurreição de Jesus Cristo”. O enfraquecimento da fé na Ressurreição de Jesus, consequentemente torna débil o testemunho dos crentes. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas e dos povos. Não é porventura a certeza de que Cristo ressuscitou que dá coragem, audácia profética e perseverança aos mártires de todos os tempos? Não é o encontro com Jesus vivo que converte e fascina tantos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para O seguir e pôr a própria vida ao serviço do Evangelho? “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã nossa fé” (1Cor 15, 14).

Mas ressuscitou!

Maria, a Mãe de Jesus, que acompanhou o Filho nas mais terríveis e duras horas da paixão; junto da Cruz, emudecida de dor, não soubera o que dizer; agora, com a Ressurreição, emudecida de alegria, não consegue falar. Procuremos estar unidos a essa imensa alegria da nossa Mãe. Toda a esperança na Ressurreição de Jesus que restava sobre a terra tinha-se refugiado no seu coração. Com toda a igreja, neste tempo pascal, saudemos a Virgem Maria: “Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia! Por que Aquele que merecestes trazer em vosso seio ressuscitou como disse, aleluia!…”

Somos chamados a ser testemunhas da Morte e Ressurreição de Cristo; deixemo-nos conquistar pelo fascínio da sua Ressurreição. Não podemos conservar para nós a grande notícia! Devemos levá-la ao mundo inteiro: “Vimos o Senhor” (Jo 20, 25). Ajude-nos a Virgem Maria a sermos mensageiros da luz e da alegria da Páscoa para com tantos irmãos nossos; amparados pela força do Espírito Santo, nos tornemos capazes de a difundir por nossa vez onde quer que vivamos e trabalhemos.

Uma Feliz Páscoa para todos!

Mons. José Maria Pereira

Publicado em Presbíteros.

Imagem: Domingo de Páscoa (Presbíteros).

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Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

Liturgia

Quarta-feira de Cinzas: liturgia de morte

A celebração com a qual se dá início à Quaresma pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois assim como Cristo passou pela Cruz, “também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna”.

A liturgia da Quarta-feira de Cinzas nos chama à verdadeira conversão: “Rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Jl 2, 13).

A conversão do coração é a dimensão fundamental deste tempo singular de graça que nos preparamos para viver na Quaresma. Além disso, as palavras do profeta Joel sugerem-nos a motivação profunda que nos torna capazes de voltar a percorrer o caminho rumo a Deus, que é “a consciência de que o Senhor é misericordioso e que cada homem é seu filho muito amado, chamado à conversão” [1]. Pela Palavra, somos motivados a uma verdadeira transformação de vida, a morrer para o pecado e a viver para Deus por meio de Jesus Cristo (cf. Rm 6, 11).

Na antiga praxe da Igreja Católica, o sacramento da Penitência era público e o rito de imposição das cinzas dava início ao caminho penitencial dos fiéis que seriam absolvidos de seus pecados na celebração da manhã da Quinta-feira Santa. Por volta do século IX, o gesto da imposição das cinzas — obtidas com a queima dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior — associado ao sacramento da Penitência caiu em desuso. Porém, a imposição das cinzas estendeu-se a todos os fiéis e foi inserida na celebração da Santa Missa da Quarta-feira de Cinzas, depois da homilia. A fórmula que acompanhava a imposição foi alterada com o tempo. No início, usava-se somente a fórmula: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19). Mais tarde, acrescentou-se a fórmula opcional: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).

Perceba-se portanto como, desde o Antigo Testamento, as cinzas já simbolizavam a brevidade da vida (cf. Gn 18, 27; 30, 19; Sb 2, 2s), a penitência e a conversão (cf. Est 4,1.3; Jr 6, 26; Jn 3, 6). No centro da celebração litúrgica da Quarta-feira de Cinzas, há justamente esse gesto simbólico, oportunamente explicado pelas palavras das Escrituras que o acompanham. A imposição das cinzas — cujo significado, fortemente evocativo da condição humana, é salientado pela primeira fórmula contemplada pelo rito penitencial: “Recorda-te que tu és pó, e ao pó voltarás” (Gn 3, 19) — lembra a caducidade da nossa existência e convida-nos a considerar a vaidade de nossos projetos, quando não fundamentamos a nossa esperança no Senhor.

A segunda fórmula prevista pelo rito: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15), ressalta, por sua vez, quais são as condições indispensáveis para percorrermos o caminho da vida em Cristo: “São necessárias uma concreta transformação interior e adesão à palavra de Cristo” [2].

Segundo o Papa S. João Paulo II, a liturgia da Quarta-feira de Cinzas pode ser considerada, de certa forma, como uma “liturgia de morte”, pois remete para as funções da Sexta-Feira da Paixão. Nesta celebração, o rito litúrgico da Quarta-feira de Cinzas encontra o seu pleno cumprimento. “Com efeito, é naquele que ‘se humilhou a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz’ (Fl 2, 8), que também nós devemos morrer para nós mesmos, a fim de renascermos para a vida eterna” [3].

Desde os seus primórdios, a Igreja indica alguns meios úteis para seguir este caminho de morte, de renúncia de nós mesmos. Em primeiro lugar, neste caminho, é necessária a adesão humilde e dócil à vontade de Deus, acompanhada pela oração incessante (cf. 2Ts 5, 17). Também são muito apropriadas as formas penitenciais típicas da tradição cristã, como a abstinência, o jejum, a mortificação e a renúncia mesmo aos bens que nos são legítimos. De modo particular, são importantíssimos os gestos concretos de solidariedade e de ajuda ao próximo, que o Evangelho segundo Mateus nos recorda com a palavra “esmola” (6, 2ss).

Tudo isto, que deveria fazer parte da vida de todo cristão, “é reproposto com maior intensidade durante o período quaresmal, que representa, a este propósito, um ‘tempo forte’ de treinamento espiritual e de generoso serviço aos irmãos” [4].

Seguindo, pois, o caminho tradicional da Igreja, comecemos o tempo da Quaresma com verdadeiros propósitos de penitência e de ascese, para que, mortos para este mundo, vivamos uma vida nova e ressuscitemos com Nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna (cf. Rm 6, 4s). Que Nossa Senhora das Dores, imagem da compaixão divina pela humanidade, nos ajude a viver bem esse tempo de morte para nós mesmos.

Publicado em padrepauloricardo.org.

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Quaresma: o caminho para a Páscoa

(…)

Através da liturgia, a Igreja convida-nos a percorrer com garbo o caminho da Quaresma. A celebração frequente dos sacramentos, a meditação assídua da Palavra de Deus e as obras penitenciais, sem que falte essa alegria – Laetare Ierusalem! – que sublinha especialmente o quarto domingo[30], são práticas que afinam a nossa alma, e nos preparam para participar com intensidade na Semana Santa, onde reviveremos os momentos cume da existência de Jesus na terra. «Temos de fazer vida nossa a vida e a morte de Cristo. Morrer pela mortificação e a penitência, para que Cristo viva em nós pelo Amor. E seguir, então, as pisadas de Cristo, com ânsia de co-redimir todas as almas. Dar a vida pelos outros. Só assim se vive a vida de Jesus e nos fazemos uma só coisa com Ele»[31]. Contemplando o Senhor que dá a vida por nós, bem purificados dos nossos pecados, redescobriremos a alegria da salvação que Deus nos traz: «Redde mihi laetitiam salutaris tui, devolve-me a alegria da Tua salvação»[32].

Alfonso Berlanga

Fonte: opusdei.org (Leia o texto completo neste link).

Foto: Reprodução.

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Solenidade da Epifania do Senhor

Da cidade real, onde julgavam dever encontrar o rei, os Magos dirigem-se à pequena cidade de Belém. Entram no estábulo e encontram um recém-nascido envolto em panos. Não se aborrecem com o estábulo, nem se chocam com os panos: prostram-se, veneram-no como rei, adoram-no como Deus.
São Bernardo de Claraval

Domingo da Epifania, domingo dos Magos. Desde a nossa infância, no tempo do Natal, esses personagens foram se insinuando em nossa atenção e em nosso coração. Já estava lá o presépio na sala da casa. De repente, no dia 6 de janeiro, se tirava de uma caixa de papelão essas três figuras com coroas e presentes, montados em camelos e dando ao singelo presépio uma tonalidade um tanto grandiosa. Misteriosos personagens. Apenas Mateus faz alusão a essa visita inopinada e inesperada. O evangelista diz que eram Magos, nada mais. Depois pensadores e homens da mística nos disseram que eles, de alguma forma, representam a peregrinação dos buscadores de Deus rumo à casa do Altíssimo. Peregrinos de Deus. Que significado tem para nós esse episódio que vai fechando o ciclo do Natal?

É a nossa história, o relato de nossa aventura humana que aí estão retratados. Mateus nos fala que vieram de longe, guiados pela estrela, obstinados vencedores da imensidão dos desertos questionam as autoridades locais a respeito do nascimento do Menino. Vencem obstáculos e adoram o Deus grande na simplicidade das coisas mais simples: uma casa de pobres e uma frágil criança, um menino envolto em panos.

Buscadores sinceros de Deus! Que bom se esta afirmação fosse verdadeira para nós e nossos tempos. Muitos de nós nascemos no seio de famílias católicas e fomos sendo envolvidos em ritos e símbolos. Passamos a viver uma “religião”. Fomos batizados e recebemos os outros sacramentos. Alguns tiveram a chance de viver numa família esclarecida. Outros foram vivendo separando a vida da fé. A fé, tenha talvez passado alguma coisa pessoal, privada e nada mais. Tais pessoas foram perdendo o fogo do Evangelho. Deus não pode um ser mero acessório, um à coté, ao lado daquilo que chamamos de vida. O que conta não é a vida?

Há, aqueles que tiveram uma catequese por demais sumária e meramente nocional e que depois de um certo tempo deixaram tudo. No começo formularam perguntas. Foram achando Deus mudo demais. Alheio a tudo. Para alguns Deus morreu. Ou nunca tenha existido.

Há aqueles que, interpelados pelo maravilhoso, pelo inesperado ou pelo trágico da vida sentiram brilhar uma estrela, o frágil cintilar de uma estrela: o nascimento de um filho, a ameaça de fracasso do casamento, uma derrocada financeira, o inferno das drogas, a visita de uma pessoa que parecia um anjo a cair do céu.

Há os que encontram ou reencontram a fé frequentando as páginas dos evangelhos e tentando descobrir o Deus de Jesus Cristo nas parábolas, nos ditos do Mestre, na esperança que saía da boca e da figura de Jesus. São pessoas que, aos poucos, vão dando suas mãos a Levi e a Zaqueu. Vão se identificando com filho pródigo e sentem o abraço do Pai das misericórdias. Essas pessoas começam a abrir tesouros e presentes ao Deus que cativa.

Muitos chegam a descobrir a Deus na dedicação aos outros. Sentem-se felizes quando podem ser para e sendo para desconfiam que assim é Deus…Ser para… E lembram-se das aulas de catecismo onde haviam aprendido que quando dão um copo de água fria ao menor de seus irmãos é a Jesus que o ofertam.

Deus que vem nos visitar e chega na simplicidade de um nascimento e termina seus dias no alto de uma cruz completamente injustiçado e despojado, até de suas vestes. Um Deus que não mora nas alturas, mas chega perto de cada um de nós. O Menino deitado nas palhas, no despojamento total é a verdadeira luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo. Veio para todo o orbe. Fora dele não há claridade. Através dos tempos fomos vendo a procissão dos peregrinos iluminados pela estrela da fé. Jesus mesmo um dia haveria de afirmar que Deus se revela aos pequenos e humildes e se esconde dos satisfeitos. Os Magos representam os homens e as mulheres que carregam questionamentos e interrogações, que não estão satisfeitos com a vida pela metade, que buscam um sentido mais pleno dos dias que vivem. Pertencem ao irrequietos de coração de que fala Agostinho de Hipona.

Texto para a meditação e reflexão

Hoje, os Magos que procuravam o Senhor resplandecente nas estrelas, o encontram num berço. Hoje os Magos veem claramente envolvido em panos aquele que há muito tempo buscavam de modo obscuro nos astros. Hoje os Magos contemplam maravilhados, no presépio, o céu na terra, a terra no céu, o homem em Deus, Deus no homem e incluído no corpo pequenino de uma criança, aquele que o universo não pode conter. Vendo-o proclamam sua fé e não discutem oferecendo-lhe místicos presentes, incenso a Deus, ouro ao rei e mirra ao que havia de morrer (São Pedro Crisólogo).

Publicado em Paróquia Santo Antônio do Pari.

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Natal 2019: Jesus nasce em Belém (Rumo à Santidade)

Jesus nasce em Belém

Nascimento de Jesus em Belém

A Luz veio ao mundo

O nascimento de Jesus (cf. Lc 2, 1-20) é contemplado pela Liturgia da Igreja sob o símbolo da Luz: «Ó Deus, que fizestes resplandecer esta noite santa com a claridade da verdadeira luz!»; «O povo que caminhava na escuridão viu uma grande luz»; «Hoje surgiu a luz para o mundo: o Senhor nasceu para nós».

Todas essas expressões são um eco das palavras do prólogo do Evangelho de São João:

No princípio era o Verbo […] e o Verbo era Deus. […] Nele estava a Vida, e a vida era a Luz dos homens. […] Era a Luz verdadeira, que vindo ao mundo, ilumina todo homem […]. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (Jo 1, 1 seg.)

Neste capítulo, a nossa meditação quer ser mais contemplativa: ajudar-nos a voltar os olhos e o coração para Jesus Menino, que repousa sobre as palhas do Presépio, envolto nos paninhos que a Mãe lhe preparou, de modo a sentirmos o impulso de agradecer-lhe a sua entrega «por nós, homens e para a nossa salvação», e de adorá-lo: Meu Senhor e meu Deus!

O Menino que vemos deitado na manjedoura é Deus feito homem. É o Redentor que vem para nos salvar.

Tanto amou Deus o mundo – diz o Evangelho após a conversa de Jesus com Nicodemos – que lhe deu seu Filho único. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3, 16-17)

Este é o coração da nossa fé! O Menino nos dá a certeza de que Deus, que é amor, nos ama com loucura. Deus é amor! – escrevia são João. Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em nos ter enviado o seu Filho único, para que vivamos por Ele (1 Jo 4, 8-9).

Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou… O mistério da Encarnação extasiava esse Apóstolo e o levava a dizer na sua primeira Carta (1, 1): Nós o vimos com os nossos olhos, nós o contemplamos, nós o ouvimos, nós o tocamos com as mãos…! E, como que lamentando a tristeza dos que são incapazes de «ver», acrescentava: Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor (4, 8).

Sinais do Amor, tesouros do Amor

Jesus nos ama – a você, a mim, a cada um – com toda a força do seu Amor divino e humano. É um amor que tem dois sinais da autenticidade. Em primeiro lugar, é uma doação plena. Um amor que não se dá não é amor. Mas não é um dar-se qualquer, é uma doação que visa o nosso bem. E aí está o segundo sinal: todo verdadeiro amor quer bem, quer o bem, dá-se procurando o bem da pessoa amada.

Qual é o bem que Jesus nos traz? Todos os bens! A vida divina – Deus em nós – aqui na terra e a vida eterna. Desse tesouro, nós podemos extrair especialmente três riquezas:

• A riqueza da Verdade que Ele nos ensina.
• A riqueza do Caminho do Céu, que Ele nos mostra com o seu exemplo e a sua palavra.
• E a riqueza da Vida nova dos filhos de Deus – concedida pela graça do Espírito Santo -, que chega até nós a partir do seu Coração trespassado na Cruz.

Tudo isso resumiu-o Jesus, na Última Ceia, numa só frase: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Meditemos nessas palavras.

Eu sou a Verdade. Vem à memória a alegria do pai de São João Batista, Zacarias – marido de santa Isabel -, quando, no dia do nascimento de João, profetizou o próximo nascimento de Jesus como fruto da

ternura e misericórdia do nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz (Lc 1, 78-79)

Desde antes de nascer, Jesus já é anunciado como o Sol, como a luz, a luz da Verdade, que nos guiará para a paz.

Já percebeu que a Verdade que Ele nos traz não é uma verdade qualquer: é a verdade- verdadeira? É – como dizia são João Paulo II – «a Verdade sobre Deus, sobre o homem e sobre o mundo» (Cf. Carta Encíclica Redemptoris Missio, 07.12.1990, n. 3; e Carta Encíclica Redemptor Hominis, 04.03.1979, n. 12).

Mas essa Verdade – como Jesus explicava – é parecida com a «semente» na mão do semeador (cf. Mt 13, 1-23; Mc 4, 1-20; Lc 8, 1-15). Pode perder-se no caminho, cair sobre as pedras ou entre espinhos, e morrer; ou pode cair numa boa terra e dar fruto.

Se procurarmos acolher a Verdade – com maiúscula -, a nossa vida irá sendo reflexo da vida de Cristo Jesus, e nada deste mundo poderá abalar a nossa fé.

Aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha (Mt 7, 24-27).

Uma casa que nem a chuva, nem o vento, nem as tormentas conseguirão derrubar.

Eu sou o Caminho. Olhe para Jesus Menino. Descobrirá que toda a vida dele – desde que nasceu até que subiu ao Pai -, é uma irradiação de exemplo, é a sinalização luminosa do caminho que leva para Deus.

É lógico que Cristo nos diga: Segue-me!… Porque nos quer bem. Ele nos compara às ovelhas que Ele, o Bom Pastor, conduz com segurança entre brumas, penhascos e perigos, até o lugar do repouso. Ele é o Bom Pastor, que anda na frente, marcando o rumo com as suas pegadas.

Se nos acostumarmos a ler e meditar todos os dias o Evangelho, para conhecer cada vez mais a fundo a vida e o exemplo de Cristo, entenderemos (e praticaremos) o que dizia São Paulo:

Progredi no amor, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou como oferenda e sacrifício de suave odor (Ef 5, 2).

O Amor cristão não é fumaça nem perfumaria; não é uma teoria, não é uma paixão que arde e se evapora. Ou ele se manifesta por obras e de verdade – com frase são João (1 Jo 3, 18) – ou é uma miragem. Deve se concretizar na prática das virtudes: deve ser um amor generoso, compreensivo, dedicado, paciente, constante, forte na adversidade, caridoso, gentil, prestativo, e justo e discreto… Um amor que cada dia cresce na entrega a Deus e ao próximo.

Eu sou a Vida. Com o olhar e o coração fixos no Menino, pensemos na terceira coisa que Ele nos diz: Eu sou a Vida. Jesus é Deus que se faz homem, para que o homem, de uma maneira que não há palavras para expressar, se faça «Deus», se torne – como dizia São Pedro – participante da natureza divina (2 Pe 1, 11). É um pensamento que – desde os primeiros séculos do Cristianismo – deixava pasmados os santos, inebriados de alegria e de agradecimento.

Significa que Jesus nos traz a graça divina, a «graça do Espírito Santo», que nos une intimamente a Ele e nos faz participar da sua própria Vida:

Da sua plenitude – diz São João – todos nós recebemos, e graça sobre graça. Pois a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (Jo 1, 17-18).

A graça do Espírito Santo, recebida pela primeira vez no Batismo, nos faz renascer para uma vida nova, transformando-nos em filhos de Deus. O Novo Testamento traz expressões belíssimas desse mistério. Por exemplo, São João afirma que a graça nos dá o poder de nos tornarmos filhos de Deus (Jo 1, 12). E São Paulo declara, com grande alegria, que, com a graça do Espírito Santo, recebemos o espírito de adoção como filhos, pelo qual clamamos: Abbá, Pai! Papai! (Rom 8, 15).

Jesus foi e será sempre a fonte de toda a graça, uma «fonte» que não para de jorrar. Aquele que tiver sede, venha a mim e beba (Jo 7, 37), diz-nos. E nos promete derramar em nós, sem medida, o Espírito Santo, amor de Deus que santifica.

As Sete Fontes

Jesus é como um manancial de onde brotam as sete fontes pelas quais nos vem principalmente a graça: os sete Sacramentos. Cada um deles nos une a Deus (e aos irmãos) de uma maneira própria.

O Batismo purifica-nos da culpa original e nos transforma – como víamos – em filhos de Deus; [Cristian: o Crisma é o óleo perfumado, e a Crisma é o Sacramento] Crisma dá-nos a força do Espírito Santo para sermos cristãos responsáveis, maduros e ativos no apostolado; a Reconciliação ou Confissão cura a alma doente e ressuscita a que está morta pelo pecado; a Eucaristia une-nos intimamente ao Sacrifício redentor de Jesus, que se faz Alimento, vida da alma, e oferece companhia de Amigo no Sacrário; o sacramento da Ordem faz com que os que recebem a ordenação sacerdotal (bispos e presbíteros) sejam instrumentos vivos de Cristo sacerdote, ajudados pelo ministério dos diáconos; o Matrimônio implanta a poderosa semente da graça sacramental e a caridade de Deus no amor dos esposos e dos pais; e a Unção dos Enfermos é a mão carinhosa de Jesus, que nos ergue da doença, ou – quando é o caso – nos encaminha definitivamente para o Céu.

E, assim, os sete Sacramentos, juntamente com as virtudes e com a força poderosa da oração – que é a respiração vital da alma do cristão – vão-nos identificando com Cristo, vão- nos transformando nEle, fazem com que pensemos como Cristo, sintamos como Cristo, amemos como Cristo, vivamos como Cristo. Isto é a vida cristã.

Depois de pensar nessas realidades, não acha que o Natal é o momento certo para nos perguntarmos, diante de Jesus Menino:

«Eu vivo como filho de Deus? A minha oração é uma oração de filho, cheia de entrega e de confiança? Posso dizer que o meu temor é filial, ou seja, que não temo que Deus me abandone ou me castigue, mas temo só magoá-lo, ofendê-lo? Cumpro os mandamentos com carinho de filho, ou com a má vontade do forçado? Tenho delicadezas de afeto filial para com Deus, para com Nossa Senhora? Enfim, eu poderia pôr o adjetivo filial em tudo o que penso, sinto e faço em relação a Deus?»

Com a ajuda do Menino-Deus e da sua Mãe santíssima, nós podemos viver assim. Pensemos, então nesta realidade: em cada Natal, Deus chega muito perto de nós; em cada Natal, Jesus – ultrapassando as barreiras do tempo – leva-nos para junto do Presépio; em cada Natal, Maria, a Mãe, oferece-nos o Menino, sob o olhar sorridente de José. E, em cada Natal, Jesus também sorri para nós e nos pergunta:

«Será agora? Será desta vez…? Confia» – diz-nos -, «eu nasci para te ajudar»

Publicado em Rumo à Santidade.

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São João da Cruz: doutor do “Tudo e Nada” – Memória – 14 de dezembro (Província Carmelitana Santo Elias)

São João da Cruz: doutor do “Tudo e Nada”

Hoje (14/12) celebramos São João da Cruz

Carmelita [Descalço] e doutor da Igreja

Ingressou na Ordem do Carmo aos 21 anos, em 1563, quando recebe o nome de Frei João de São Matias, em Medina del Campo. Entre 1564 e 1568 faz sua profissão religiosa e estuda em Salamanca. Tendo concluído com êxito seus estudos teológicos, em 1567 ordena-se sacerdote e celebra sua Primeira Missa.

Obteve a permissão de observar os regulamentos com toda a exatidão possível sem procurar exceções em nada. Ao ser ordenado sacerdote pediu a Deus como especial presente que o conservasse sempre em graça e sem pecado e que pudesse sofrer com todo valor e com muita paciência toda classe de dores, penas e enfermidades.

Durante toda a sua vida, João da Cruz pediu a Deus três coisas: que não deixasse passar um só dia de sua vida sem enviar-lhe sofrimentos, que não o deixasse morrer ocupando o cargo de superior e que lhe permitisse morrer humilhado e desprezado.

Deus lhe concedeu uma qualidade especial: a de saber ensinar o método para chegar à santidade. E aquilo que ensinava de palavra às pessoas que dirigia, foi escrevendo e resultaram em livros tão importantes de mística e espiritualidade que a Igreja o declarou Doutor da Igreja. Alguns de seus livros mais famosos são “A ascensão do Monte Carmelo”, e “A noite escura da alma”.

Como poeta foi admirado por séculos por causa da musicalidade de suas poesias e da beleza de seus versos. É muito popular seu “Cântico Espiritual”.

Depois de três meses de sofrimentos muito agudos, o santo morreu em 14 de dezembro do ano 1591, aos 49 anos. Faleceu no Convento de Ubeda.

A primeira edição de suas obras deu-se em Alcalá, em 1618. Em 1952 foi proclamado “Patrono dos Poetas Espanhóis”.

Doutor da Igreja

São João da Cruz foi beatificado por Clemente X no dia 25 de janeiro de 1675. Foi canonizado em dezembro de 1726 por Bento XIII e declarado Doutor da Igreja em 1926 por Pio XI.

Doutor do “Tudo e Nada”, São João da Cruz é plenamente fiel à antiga tradição. Ele ensina que Deus é a plenitude do ser: Ele Se basta a Si mesmo e de nada precisa que esteja fora de Si para ser o que é. Por isso, podemos dizer com maior propriedade que Ele é o próprio Ser subsistente (ipsum esse subsistens), cuja essência consiste em ser por Si mesmo, ao passo que as criaturas só existem porque Deus, comunicando-lhes tudo o que têm, são e podem ser, constantemente por Ele sustentadas e não podem ter em si mesmas a razão de sua existência.

É sobre essa premissa metafísica que São João da Cruz irá construir toda a sua síntese espiritual. O conjunto da obra joanina, porém, se apresenta não tanto como esforço especulativo por compreender os mistérios divinos quanto como guia prático para se chegar à união com Deus, corolário que acaba por decorrer, como exigência vital, dos pressupostos filosóficos subjacentes à sua doutrina.

Com efeito, sendo Deus tudo e as criaturas, por assim dizer, um nada, a percepção de que dependemos inteiramente de nosso Pai celeste, do Qual recebemos tudo quanto somos, dará à mística do nosso Santo as feições que a caracterizam e a tornam reconhecível: o auto-esvaziamento, o desprendimento total e, por fim, a conformidade da vontade humana à divina.

A perfeição no Amor

Em seus escritos o santo carmelita também destaca que o objetivo do homem na terra é alcançar “Perfeição da Caridade e elevar-se à dignidade de filho de Deus pelo amor”; a contemplação não é um fim em si mesma, mas deve conduzir ao amor e à união com Deus pelo amor e, por último, deve levar à experiência dessa união à qual tudo se ordena”.

Para ele, o amor leva às alturas da contemplação, mas como o amor é produto da fé, que é a única ponte que pode salvar o abismo que separa a nossa inteligência do infinito de Deus, a fé ardente e vívida é o princípio da experiência mística.

“Não há trabalho melhor nem mais necessário que o amor”, disse o Santo. “Fomos feitos para o amor”. “O único instrumento do qual Deus se serve é o amor”. “Assim como o Pai e o Filho estão unidos pelo amor, assim o amor é o laço da união da alma com Deus”.

Seguem algumas de suas frases famosas

“Não se contentar com o que diz o confessor é orgulho e falta de fé.”

“A mosca que pousa no mel não pode voar; a alma que fica presa ao sabor do prazer sente-se impedida em sua liberdade e contemplação.”

“O mais leve movimento de uma alma animada de puro amor é mais proveitoso à Igreja do que todas as demais obras reunidas.”

“Por causa de prazeres passageiros, sofrem-se grandes tormentos eternos.”

“Meus são os Céus e minha é a Terra, meus são os homens, e os justos são meus; e meus os pecadores. Os Anjos são meus, e a Mãe de Deus, todas as coisas são minhas. O próprio Deus é meu e para mim, pois Cristo é meu e tudo para mim.” (Sobre a Eucaristia)

Ser a presença de Cristo

“Não faça coisa nenhuma nem diga palavra que Cristo não faria ou não diria se encontrasse as mesmas circunstâncias.”

“Renuncie aos desejos e encontrará o que seu coração deseja.”

“Que felicidade o homem poder libertar-se de sua sensualidade! Isso não pode ser bem compreendido, a meu ver, senão por quem o experimentou. Só então se verá claramente como era miserável a escravidão em que estava.”

“Quem se queixa ou murmura não é cristão perfeito, nem mesmo um bom cristão.”

“Senhor, quero padecer e ser desprezado por amor de Vós.”

“A pessoa que está presa por afeto a alguma coisa, mesmo pequena, não alcançará a união com Deus, mesmo que tenha muitas virtudes. Pouco importa se o passarinho está com um fio grosso ou fino, ele ficará sempre preso e não poderá voar.”

“Para possuir Deus plenamente é preciso nada ter, porque, se o coração pertence a Ele, não pode se voltar para outro.”

“O demônio teme a alma unida a Deus como ao próprio Deus.”

“O afeto e o apego da alma à criatura torna-a semelhante a essa mesma criatura. Quanto maior a afeição, maior a identidade e semelhança, porque é próprio do amor tornar aquele que ama semelhante ao amado.”

“Dar tudo pelo tudo”

“A pessoa que caminha para Deus e não afasta de si as preocupações, nem domina suas paixões, caminha como quem empurra um carro encosta a cima.”

“A constância de ânimo, com paz e tranquilidade, não só enriquece a pessoa como a ajuda muito a julgar melhor as adversidades, dando-lhes a solução conveniente.”

“O amor não consiste em sentir grandes coisas, mas em se despojar e sofrer pelo amado.”

“O progresso da pessoa é maior quando ela caminha às escuras e sem saber.”

“Deus quer mais de ti um mínimo de obediência e docilidade, do que todas as ações que realizas por ele.”

“Mesmo carregado de grandes e molestas tentações, o homem pode ir a Deus, desde que sua razão e vontade não consintam nelas.”

“Queira torna-te, no padecer, algo semelhante a este nosso grande Deus, humilhado e crucificado, pois que esta vida só tem razão de ser se for para imitá-lo.”

“Quando a alma se acha livre e purificada de tudo, em união com Deus, nenhuma coisa poderá aborrecê-la. Daqui se origina para ela, neste estado, o gozo de uma contínua vida e tranquilidade, que ela nunca perde nem jamais lhe falta.”

“Tal é a alma que está enamorada de Deus. Não pretende vantagem ou prêmio nenhum, a não ser perder tudo e a si mesma, voluntariamente, por Deus, e nisso encontra todo seu lucro.”

“Não fujas dos sofrimentos, porque neles está a tua saúde.”

Fonte: Canção Nova Notícias, Comunidade Shalom e site do Padre Paulo Ricardo.

Publicado em Província Carmelitana Santo Elias.

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A Solenidade de Cristo Rei surgiu num contexto perturbadoramente semelhante ao nosso (Aleteia)

A Solenidade de Cristo Rei surgiu num contexto perturbadoramente semelhante ao nosso

Instituída pelo Papa Pio XI em 1925, a Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, [encerra hoje] o ano litúrgico ao celebrar Jesus como o Rei de tudo e de todos e nos recordar que somos parte do Seu Reino – um Reino que não é deste mundo, mas que podemos alcançar desde agora mediante as graças que Deus nos concede para nos santificar e para ajudarmos os nossos irmãos a se transformarem pelo amor.É esta, aliás, a missão da Igreja, conforme nos explicou em 2012 o Papa Bento XVI, ao presidir esta mesma solenidade:

“Com o Seu sacrifício, Jesus nos abriu a estrada para uma relação profunda com Deus: n’Ele nos tornamos verdadeiros filhos adotivos, participando assim da Sua realeza sobre o mundo. Ser discípulos de Jesus significa, portanto, não nos deixarmos fascinar pela lógica mundana do poder, mas levar ao mundo a luz da verdade e do amor de Deus”.

Afinal, o próprio Jesus afirmou:

“Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo” (Jo 18,37).

O atual Papa Emérito também relacionou o Rei Cristo Jesus com a oração do Pai-Nosso, observando que o pedido “Venha a nós o Vosso Reino” equivale a dizer a Jesus:

A festa de Cristo Rei foi instituída pelo Papa Pio XI num contexto que guarda chamativas semelhanças com o nosso tempo – se não nas formas, que agora parecem mais “sutis” por priorizarem a guerra cultural sobre a força física, certamente no fundo, que prega um mundo materialista e abertamente limitador da fé.

Governos enfaticamente opressores da fé

Em 1925, o comunismo era imposto à Rússia e a territórios vizinhos mediante uma violência avassaladora. A visão comunista do mundo e do ser humano é essencialmente materialista: afirma que só existe esta vida, restringe liberdades fundamentais que derivam da nossa natureza espiritual, impede a transcendência e, por consequência, impõe o ateísmo teórico e prático – e literalmente o impõe, proibindo as pessoas de viverem a própria fé e as obrigando a servirem a um novo deus: o Estado, capitaneado por um grupo de “camaradas” que se digladiam para permanecer no poder esmagando qualquer inimigo sem chance de diálogo.

Diante de governos que procuravam por todos os meios e com toda a virulência implantar a própria visão materialista de mundo, restringindo abertamente a prática da fé em Deus, o Papa Pio XI escreveu:

“Se todo o poder foi dado ao Senhor Jesus, no céu e na terra; se os homens, resgatados pelo Seu sangue preciosíssimo, se tornam, com novo título, súditos do Seu império; se, finalmente, este poder abraça a natureza humana em seu conjunto, é claro que nenhuma das nossas faculdades pode subtrair-se a essa realeza. É preciso, pois, que Ele reine em nossas inteligências: com plena submissão, com adesão firme e constante, devemos crer nas verdades reveladas e nos ensinamentos de Cristo. É preciso que Ele reine em nossas vontades: devemos observar as leis e os mandamentos de Deus. É preciso que Ele reine em nossos corações: devemos mortificar os nossos afetos naturais e amar a Deus sobre todas as coisas” (Encíclica Quas Primas, 34).

Em 1969, [São] Paulo VI deu à solenidade o seu atual título completo: Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Também foi ele quem estabeleceu como data desta grande festa o último domingo do ano litúrgico.

Uma vez encerrado o ano litúrgico na Solenidade de Cristo Rei, a Igreja se prepara agora para entrar no Advento, o tempo da espera pelo Nascimento do Salvador.

Como ao longo de toda a história, não faltarão Herodes para tentar matá-lo. E, como ao longo de toda a história, cada um deles fracassará.

Viva Cristo Rei!

Publicado em Aleteia.

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