TERÇA-FEIRA SANTA: COMO É A NOSSA FÉ?

Este é o segundo post da série de meditações de D. Javier Echevarría sobre a Semana Santa, originalmente transmitidas pela Rádio EWTN, de Miami.

O Evangelho da Missa termina com o anúncio de que os Apóstolos deixariam Cristo só durante a Paixão. A Simão Pedro que, cheio de presunção, afirmava: eu darei a minha vida por ti, o Senhor respondeu: tu darás a tua vida por mim? Eu te asseguro que não cantará o galo, antes de me teres negado três vezes.

Em poucos dias cumpriu-se a predição. Todavia, poucas horas antes, o Mestre tinha-lhes dado uma lição clara, preparando-os para os momentos de escuridão que se avizinhavam.

Ocorreu no dia seguinte ao da entrada triunfal em Jerusalém. Jesus e os Apóstolos tinham saído muito cedo de Betânia e, com a pressa, talvez não tivessem comido nada. O caso é que, como relata São Marcos, o Senhor sentiu fome. Vendo ao longe uma figueira com folhas, foi ver se nela encontraria alguma coisa; mas, ao chegar junto dela, não encontrou senão folhas, pois não era tempo de figos. Disse então: «Nunca mais ninguém coma fruto de ti.» E os discípulos ouviram isto.

Ao entardecer regressaram à aldeia. Devia ser já tarde avançada e não repararam na figueira amaldiçoada. Mas no dia seguinte, terça-feira, ao voltar de novo a Jerusalém, todos contemplaram aquela árvore, antes frondosa, que mostrava os ramos nus e secos. Pedro fê-lo notar a Jesus: “Olha, Mestre, a figueira que amaldiçoaste secou!” Jesus disse-lhes: “Tende fé em Deus. Em verdade vos digo, se alguém disser a este monte: «Sai daí e lança-te ao mar», e não vacilar em seu coração, mas acreditar que o que diz vai se realizar, assim acontecerá”.

Durante a sua vida pública, para realizar milagres, Jesus pedia uma só coisa: fé. Aos cegos que lhe suplicavam a cura, tinha-lhes perguntado: credes que posso fazer isso? – Sim, Senhor, responderam-lhe. Então tocou-lhes os olhos dizendo: que se faça em vós conforme a vossa fé. E abriram-se-lhes os olhos. E contam os Evangelhos que, em muitos lugares, não realizou prodígios, porque às pessoas lhes faltava fé.

Também nós temos de nos interrogar: como é a nossa fé? Confiamos plenamente na palavra de Deus? Pedimos na oração o que necessitamos, seguros de consegui-lo se é para nosso bem? Insistimos nas súplicas, o que seja preciso, sem desfalecer?

São Josemaria comentava esta cena do Evangelho. “Jesus – escreve – aproxima-se de ti e aproxima-se de mim. Jesus tem fome e sede de almas. Do alto da cruz clamou: sitio!, tenho sede. Sede de nós, do nosso amor, das nossas almas e de todas as almas que lhe devemos levar pelo caminho da Cruz, que é o caminho da imortalidade e da glória do Céu”.

Aproximou-se da figueira, não achando senão folhas (Mt 21, 19). É lamentável isto. É assim na nossa vida? Será que, tristemente, falta fé, vibração de humildade, será que não aparecem sacrifícios nem obras?

Os discípulos maravilharam-se com o milagre, mas de nada lhes serviu: poucos dias depois negariam o seu Mestre. A fé deve informar a vida inteira. “Jesus Cristo estabelece esta condição”, prossegue São Josemaria: “que vivamos da fé, porque depois seremos capazes de remover montanhas. E há tantas coisas para remover… no mundo e, antes de mais nada, no nosso coração. Tantos obstáculos à graça! Tenhamos, pois, fé. Fé com obras, fé com sacrifício, fé com humildade”.

Maria, com a sua fé, tornou possível a obra da Redenção. João Paulo II afirma que no centro deste mistério, no mais vivo desta admiração de fé está Maria, Santa Mãe do Redentor (Redemptoris Mater, 51). Ela acompanha constantemente todos os homens pelos caminhos que conduzem à vida eterna. “A Igreja, escreve o Papa, contempla Maria profundamente inserida na história da humanidade, na eterna vocação do homem segundo o desígnio providencial que Deus predispôs eternamente para ele; vê-a maternalmente presente e participante nos múltiplos e complexos problemas que acompanham hoje a vida dos indivíduos, das famílias e das nações; vê-a socorrendo o povo cristão na luta incessante entre o bem e o mal, para que «não caia» ou, se caiu, para que «se erga»”. (Redemptoris Mater, 52).

Maria, Mãe nossa: alcança-nos com a tua intercessão poderosa uma fé sincera, uma esperança segura, um amor ardente.

Fonte: http://opusdei.org/

Livros relacionados: A Cruz de Cristo e Falar com Deus – Tomo II, ambos de Francisco Fernández-Carvajal.

Publicado em A Quadrante Editora. É uma entidade sem fins lucrativos, que iniciou as atividades no ano de 1964, em São Paulo, com a publicação do livro Caminhode São Josemaria Escrivá.

Segunda-feira Santa

Na Segunda-feira Santa contemplamos a caminhada do Nosso Senhor dos Passos rumo ao calvário. Nosso Senhor dos Passos é uma invocação de Jesus Cristo e uma devoção especial na Igreja Católica. Essa procissão faz memória ao trajeto percorrido por Jesus Cristo desde sua condenação à morte no pretório até o seu sepultamento, após ter sido crucificado no Calvário.

Significado do nome Nosso Senhor dos Passos

A palavra Senhor quer dizer dono, aquele que tem o domínio e o poder sobre tal coisa. A palavra Passos, neste contexto, vem do latim e quer dizer Paixão, no passivo, no sentido de Sofrimento. Portanto, esta invocação quer dizer: Senhor, dono, dominador do Sofrimento. Ele se entregou livremente ao sofrimento por nossa causa.

Alguns textos bíblicos referentes ao Nosso Senhor dos Passos

Porque aprouve a Deus fazer habitar nEle toda a plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus. (Colossenses 1, 19)

Ele carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro para que, mortos aos nossos pecados, vivamos para a justiça. Por fim, por suas chagas fomos curados. (1 Pedro 2, 24)

A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina. (1 Coríntios 1, 18)

Oração a Nosso Senhor dos Passos

Ó Jesus, relembro tua Paixão, teu Calvário, tuas dores. Olhando as imagens do Senhor carregando a Cruz. Imagem com a qual te invocamos sob o título de Nosso Senhor dos Passos e veneramos como símbolos de teu sacrifício e representação de teu ato de amor salvífico, que foi teu sacrifício na cruz, te pedimos como teu discípulo Pedro: Senhor, salva-nos. Salva-nos por tua Cruz, Salva-nos por teu sangue; salva-nos por tua misericórdia; salva-nos por teu amor e cura-nos de nossas feridas tanto físicas quanto espirituais, emocionais e psíquicas. Amém.

Publicado em Fundação Terra dos Servos de Deus.

Semana Santa

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Semana Santa

A Semana Santa é uma tradição religiosa católica que celebra a Paixão, a Morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Ela se inicia no Domingo de Ramos, que relembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e termina com a ressurreição de Jesus, que ocorre no domingo de Páscoa.

Os dias da Semana Santa

Domingo de Ramos

O Domingo de Ramos abre solenemente a Semana Santa, com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Jesus é recebido em Jerusalém como um rei, mas os mesmos que o receberam com festa o condenaram à morte. Jesus é recebido com ramos de palmeiras. Nesse dia, são comuns procissões em que os fiéis levam consigo ramos de oliveira ou palmeira, o que originou o nome da celebração. Segundo os evangelhos, Jesus foi para Jerusalém para celebrar a Páscoa Judaica com os discípulos e entrou na cidade como um rei, mas sentado num jumentinho – o símbolo da humildade – e foi aclamado pela população como o Messias, o rei de Israel. A multidão o aclamava: “Hosana ao Filho de Davi!” Isto aconteceu alguns dias antes da sua Paixão, Morte e Ressurreição. A Páscoa Cristã celebra então a Ressurreição de Jesus Cristo.

Segunda-Feira Santa

É o segundo dia que vem depois de Domingo de Ramos onde se recorda a prisão de Jesus Cristo. Estando na casa de seu amigo Lázaro (a quem Ele havia ressuscitado), e de Marta e Maria Madalena. (Jo 12, 1-11). Faltavam seis dias para a Páscoa. E, enquanto estavam a jantar, Maria tomou um vaso de nardo (um perfume autêntico e muito caro), e ungiu Jesus nos pés, e depois enxugou-os com seus cabelos.
Tal gesto foi de imediato criticado por Judas Iscariotes. Jesus ignorou a crítica e, saindo em defesa de Maria, justificou o ato: “Antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura. Asseguro-vos que em qualquer parte do mundo onde se proclame o evangelho, se recordará o que ela fez”.

Terça-Feira Santa

O terceiro dia da Semana Santa, onde são celebradas as Sete dores de Nossa Senhora Virgem Maria. E muito comum também por ser o dia de penitência no qual os cristãos cumprem promessas de vários tipos ou o dia da memória do encontro de Jesus e Maria no caminho do Calvário.
É o dia, em que com grande tristeza, Jesus anuncia a sua morte, causando grande sofrimento aos seus discípulos. Anuncia também a traição, e indica o traidor. Com isto Jesus, manifesta em pleno o Seu amor por todos nós, e consciente aceita o destino que O aguarda, como forma de mostrar ao mundo a glória de Deus, e assim, para que a Sua salvação chegue até aos últimos confins da terra.

Quarta-Feira Santa

É o quarto dia da Semana Santa. Em algumas igrejas celebra-se neste dia a piedosa procissão do encontro de Nosso Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores. Ainda há igrejas que neste dia celebram o Ofício das Trevas, lembrando que o mundo já está em trevas devido à proximidade da morte de Jesus.
No evangelho deste dia, é-nos apresentada a traição de Judas, descrevendo-nos como este foi ter com os chefes dos sacerdotes, a quem se ofereceu para trair o Jesus. Aceita assim, trinta moedas de prata como recompensa da sua traição.

Quinta-Feira da Ceia

O quinto dia da Semana Santa e, na manhã deste dia, nas catedrais das dioceses, o bispo se reúne com o seu clero para celebrar a Celebração do Crisma, na qual são abençoados os óleos que serão usados na administração dos sacramentos do Batismo, Crisma e Unção dos Enfermos. Com essa celebração se encerra a Quaresma. Neste mesmo dia, à noite, são relembrados os três gestos de Jesus durante a Última Ceia: a Instituição da Eucaristia, o exemplo do Lava-pés, com a instituição de um novo mandamento (ou “ordenança”) segundo algumas denominações cristãs, e a instituição do sacerdócio. É neste momento que Judas Iscariotes sai para entregar Jesus por trinta moedas de prata. E é nesta noite em que Jesus é preso, interrogado e, no amanhecer da sexta-feira, açoitado e condenado. A igreja fica em vigília ao Santíssimo, relembrando os sofrimentos de Jesus, que tiveram início nesta noite. A igreja já se reveste de luto e tristeza, desnudando os altares (quando são retirados todos os enfeites, toalhas, flores e velas), tudo para simbolizar que Jesus já está preso e consciente do que vai acontecer. Também cobrem-se todas as imagens existentes no templo, com panos de cor roxa.

Sexta-Feira Santa

Também chamada de Sexta-Feira da Paixão, é quando a Igreja recorda a morte de Jesus. É celebrada a Solene Ação Litúrgica, Paixão e a Adoração da Cruz. A recordação da morte de Jesus consiste em quatro momentos: A Liturgia da Palavra, Oração Universal, Adoração da Cruz e Rito da Comunhão. Presidida por presbítero ou bispo, os paramentos para a celebração são de cor vermelha.
Neste dia, é praticado o jejum, e a abstinência da carne em sinal de penitência e respeito pela morte de Jesus Cristo. È recitada a Via Sacra no seu ponto mais alto.

Sábado Santo

Também era chamado de Sábado de Aleluia, é o dia da espera. Os cristãos junto ao sepulcro de Jesus aguardam sua ressurreição. No final deste dia é celebrada a Solene Vigília Pascal, a mãe de todas as vigílias, como disse Santo Agostinho, que se inicia com a Bênção do Fogo Novo e também do Círio Pascal; proclama-se a Páscoa através do canto do Exultet e faz-se a leitura de 8 passagens da Bíblia (4 leituras e 4salmos) percorrendo-se toda história da salvação, desde Adão até o relato dos primeiros cristãos. Entoa-se o Glória e o Aleluia, que foram omitidos durante todo o período quaresmal. Há também o batismo daqueles adultos que se prepararam durante toda a quaresma. A celebração se encerra com a Liturgia Eucarística, o ápice de todas as missas.

Domingo de Páscoa

É o dia mais importante para a fé cristã, pois é o dia da ressurreição, onde Jesus se levanta de sua sepultura, e vence a morte. É o dia do grande milagre! O dia em que Cristo volta à vida através da Sua Ressurreição de entre os mortos. É o dia em que se celebra a vida, o amor e a misericórdia de Deus. Após morrer na cruz, o corpo de Cristo é colocado em um sepulcro, onde permaneceu por três dias, até o Domingo de Páscoa, altura em que Ele Ressuscita.
“Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito!” Esse dia é estendido por mais cinqüenta dias até o Domingo de Pentecostes.

Publicado em Prefeitura de Maricá.

DOAR-NOS AOS OUTROS POR AMOR A DEUS É A RECEITA PARA SERMOS FELIZES TAMBÉM NA TERRA

*QUARESMA

Doar-nos aos outros por amor a Deus é a receita para sermos felizes também na terra.

Chegamos ao limiar da Semana Santa. Daqui a poucos dias, ao assistirmos às cerimônias litúrgicas do solene Tríduo Pascal, participaremos das últimas horas da vida terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando se ofereceu ao Pai Eterno como Sacerdote e Vítima da Nova Aliança, selando com o seu Sangue a reconciliação de todos os homens com Deus. Apesar da sua carga dramática, à qual não podemos nem devemos nos acostumar – o Inocente carregado com as culpas dos pecadores, o Justo que morre no lugar dos injustos! –, a tragédia da Semana Santa é fonte da mais pura alegria para os cristãos: Feliz culpa, que mereceu tal Redentor! (1), canta a Igreja no Pregão pascal a propósito do pecado dos nossos primeiros pais e – dizemo-lo nós – dos nossos erros pessoais diários, na medida em que servem para que retifiquemos, cheios de dor de amor, e para que cresçamos em espírito de compunção.

Minhas filhas e meus filhos, nestes dias que se avizinham, aconselho-os a que procurem fomentar nas suas almas muitos atos de reparação e de dor – dor de amor –, pedindo ao Senhor perdão pelas faltas de vocês e pelas da humanidade inteira. Ponham-se junto de Cristo com o pensamento e com o desejo naquelas provas amargas da Paixão, e procurem consolá-lo com as suas palavras cheias de carinho, com as suas obras fiéis, com a sua mortificação e com a sua penitência generosa, sobretudo no cumprimento fiel dos deveres de cada momento. Se assim o fizerem, podem ter a certeza de que ajudarão Jesus a levar a Cruz – essa Cruz que pesa e que pesará sobre o Corpo místico de Cristo até o final dos séculos –, sendo corredentores com Ele. Participarão da glória da sua Ressurreição, porque padeceram com Ele (2), e ficarão repletos de alegria, de uma alegria que nada nem ninguém poderá tirar-lhes (3).

Filhas e filhos da minha alma, nunca esqueçamos que o gaudium cum pace, a alegria e a paz que o Senhor nos prometeu se somos fiéis, não depende do nosso bem-estar material nem de que as coisas corram na medida dos nossos desejos. Não se fundamenta em motivos de saúde nem no êxito humano. Em todo caso, essa seria uma felicidade efêmera, perecedoura, ao passo que nós aspiramos a uma bem-aventurança eterna. A alegria profunda que preenche completamente a alma tem a sua origem na união com Nosso Senhor. Lembrem-se daquelas palavras que o nosso amadíssimo Fundador do Opus Dei, São Josemaria Escrivá, repetiu numa das suas últimas tertúlias: «Se queres ser feliz, sê santo; se queres ser mais feliz, sê mais santo; se queres ser muito feliz – já na terra! –, sê muito santo» (4).

Minha filha, meu filho: a receita está muito experimentada, porque o nosso santo Fundador, que tanto sofreu pelo Senhor, foi felicíssimo na terra. Melhor dito: precisamente por ter-se unido intimamente a Jesus Cristo na Santa Cruz – nisto consiste a santidade, em identificarmo-nos com Cristo crucificado –, recebeu o prêmio da alegria e da paz.

Escutai o que nos confiava em 1960, pregando uma meditação na Sexta-feira Santa. Na sua oração pessoal, rememorava essa forja de sofrimentos que foi a sua vida e animava-nos a não termos «medo da dor, nem da desonra, sem pontos de soberba. O Senhor, quando chama uma criatura para que seja dEle, faz que ela sinta o peso da Cruz. Sem pôr-me como exemplo, posso dizer-vos que, ao longo da minha vida, sofri dor, amargura. Mas, em meio a tudo isso, encontrei-me sempre feliz, Senhor, porque Tu foste o meu Cireneu.

«Rejeita o medo da Cruz, meu filho! Tu vês Cristo pregado nela e, apesar disso, procuras apenas aquilo que é prazeroso? Isso não está certo! Não te lembras de que o discípulo não é mais do que o Mestre? (cf. Mt 10, 24).

«Senhor, mais uma vez renovamos a aceitação de tudo aquilo que, na ascética, se chama tribulação, embora eu não goste desta palavra. Eu não tinha nada: nem idade, nem experiência, nem dinheiro; sentia-me humilhado, não era… nada, nada! E, dessa dor, chegavam respingos aos que estavam ao meu lado. Foram anos tremendos, mas jamais me senti desgraçado. Senhor, que os meus filhos aprendam da minha pobre experiência. Sendo miserável, nunca estive amargurado. Caminhei sempre feliz! Feliz, chorando; feliz, com penas. Obrigado, Jesus! E perdoa-me por não ter sabido aproveitar melhor a lição» (5).

Ao meditarmos nestas palavras do São Josemaria, a conclusão que temos de tirar é clara: nunca, em nenhuma circunstância, devemos perder a alegria sobrenatural que emana da nossa condição de filhos de Deus. Se alguma vez ela vier a faltar-nos, recorreremos imediatamente à oração e à direção espiritual, ao exame de consciência bem feito, a fim de descobrirmos a causa e aplicarmos o remédio oportuno.

É verdade que, por vezes, essa ausência de alegria pode nascer da doença ou do cansaço; então, é obrigação grave dos diretores facilitar a esses seus irmãos o descanso e os cuidados oportunos, estando atentos para que ninguém – por causa de uma sobrecarga excessiva de trabalho, por falta de sono, por esgotamento ou por qualquer outra razão – chegue a uma situação que ocasione um dano à sua resposta interior.

Em outros momentos, como o São Josemaria nos assinalava, a perda da alegria esconde raízes ascéticas. Sabeis qual é a mais frequente? A preocupação excessiva pela própria pessoa, o dar voltas e mais voltas em torno de si mesmo. Se cada um de nós é tão pouca coisa, como pode passar pela sua cabeça, meu filho, minha filha, girar em torno do próprio eu? «Se amamos a nós mesmos de um modo desordenado», escreve o São Josemaria, «há motivo para estarmos tristes. Quanto fracasso, quanta pequenez! A posse dessa nossa miséria tem de causar-nos tristeza, desalento. Mas se amamos a Deus sobre todas as coisas e os outros e nós mesmos em Deus e por Deus, quantos motivos de alegria!» (6).

Esse foi o exemplo do Mestre, que entregou a sua vida por nós. Correspondamos ao que Deus nos pede da mesma maneira, por Ele e pelos outros. Afastemos qualquer preocupação pessoal do nosso horizonte cotidiano; e se alguma nos assaltar, abandoná-la-emos com plena confiança no Sagrado Coração de Jesus e no Coração Dulcíssimo de Maria, nossa Mãe, e ficaremos tranquilos. Minhas filhas e meus filhos, temos de preocupar-nos – melhor dito, temos de ocupar-nos – somente das coisas de Deus, que são as coisas da Igreja, da Obra, das almas. Não percebeis que, até humanamente, saímos ganhando? E, além disso, somente assim estaremos sempre cheios do gaudium cum pace, da alegria e da paz, e atrairemos muitas outras pessoas ao nosso caminho.

Permiti-me que insista nisto com outras considerações do São Josemaria, tomadas da tertúlia a que me referia anteriormente. «Ser santo», repisava, «é ser feliz, também aqui na terra. Padre, e o senhor foi sempre feliz? Eu, sem mentir, dizia há poucos dias […] que nunca tive uma alegria completa; quando chega uma alegria, dessas que satisfazem o coração, o Senhor fez-me sentir sempre a amargura de estar na terra; como uma faísca do Amor… E, contudo, nunca fui infeliz, não recordo ter sido infeliz nunca. Percebo que sou um grande pecador, um pecador que ama Jesus Cristo com toda a sua alma» (7).

Você e eu, minha filha, meu filho, nós, sim, somos pecadores. Mas amamos o Senhor com toda a nossa alma? Esforçamo-nos para retificar uma vez e outra – felix culpa! –, tirando motivos de mais amor, de maior compunção, dos nossos tropeços?

Notas:

  1. Missal Romano, Vigília Pascal (Pregão pascal)
  1. Cf. Rm 8, 18.
  1. Cf. Jo 16, 22.
  1. São Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 7/06/1975 (AGP, biblioteca, P01, VII-1975, pág. 219).
  1. São Josemaria, Notas de uma meditação, 15/04/1960.
  1. São Josemaria, Carta, 24/03/1931, n. 25.
  2. São Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 07/06/1975 (AGP, biblioteca, P01, VII-1975, pág. 219).

Fonte: Álvaro del Portillo, Caminhar com Jesus ao longo do tempo litúrgico. Quadrante, 2016.

Publicado em Quadrante Editora (Entidade sem fins lucrativos, que iniciou as atividades no ano de 1964, em São Paulo, com a publicação do livro Caminho, de São Josemaria Escrivá).

  • Grifo meu.

Solenidade da Anunciação do Senhor

“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!”

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 1, 26-38)

Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”

Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”.

Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível”. Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.

Celebramos com grande alegria a solenidade da Anunciação do Senhor. No dia de hoje — 25 de março —, a nove meses do Natal, nós podemos dizer: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”. A entrada de Deus neste mundo, a Encarnação do Filho de Deus, aconteceu num evento quase que secreto, numa pequena casa em Nazaré, e a Tradição cristã de séculos, muitos padres da Igreja veem que aqui existe uma coincidência. Sim, no mesmo dia, 25 de março, em que o Filho de Deus entrou neste mundo, também, 33 anos depois, no mesmo dia, 25 de março, Ele morreu no Calvário.

Assim, então, o evento da Encarnação e o evento da Redenção coincidiriam na mesma data: é isto que dizem Padres da Igreja como Santo Agostinho, como São Beda, o Venerável; ou seja, existe aqui uma conjunção da história, de tal forma que a entrada do Filho de Deus neste mundo coincide com a sua saída num círculo perfeito. Mas e por que 25 de março? Bom, lá na terra de Jesus, 25 de março é o início da primavera, ou seja, ali o nascimento — a vinda no mundo, mais do que o nascimento — a vinda no mundo do Filho de Deus e a saída deste mundo do Filho de Deus, é como que um evento que faz coincidir o calendário dos astros como se a Criação estivesse toda esperando aquele momento. É a Criação que obedece ao seu Criador.

Jesus vem e vem na primavera do mundo, Jesus morre na Cruz e é uma primavera também, porque é a primavera de nossa salvação. Se nós olharmos essa longa tradição de que o dia da Anunciação, em que o Anjo fala com Nossa Senhora e Ela responde: “Eis aqui a serva do Senhor”, é o mesmo dia em que Jesus, 33 anos depois, no Calvário, diz: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”, se nós vermos a coincidência destas duas datas, então, celebrar a solenidade da Anunciação do Senhor no meio da Quaresma não é quebrar o ritmo quaresmal, mas é exatamente o contrário, é iluminar a Quaresma com a luz da Encarnação.

Jesus veio a este mundo para morrer. Jesus veio a este mundo e a finalidade de sua vinda é oferecer o sacrifício redentor do Calvário, de tal forma que o seu primeiro instante de existência dentro do ventre de Maria coincide com o seu último instante de existência nesta forma de servo aqui na existência miserável de nossas dores; e Ele ofereceu durante estes 33 anos um único sacrifício de amor.

Sim, porque basta um segundo de existência de Deus neste mundo para nos salvar: a humilhação de Jesus que toma a nossa natureza humana e começa, já no ventre de Maria, a viver as debilidades, as misérias, a pequenez de nossa humanidade, este sacrifício de Deus que se encarna já seria suficiente para nos salvar, mas Deus não quis que parasse por aí, Ele quis que esse sacrifício redentor que, como que escondido em Nazaré, aconteceu longe dos olhos humanos, fosse levado para o topo de uma montanha, no Calvário, para que no extremo da dor, do sacrifício e da injustiça, fosse visto o amor de Deus por nós.

“Tendo amado os seus, amou-os até o fim”. Ele veio e veio para nos amar: “Eis que eu venho, Senhor, fazer a vossa vontade. Fizeste para mim um corpo.” E ao fazer, ao dar ao seu Filho um corpo, esse Filho diz: “Eu vim fazer a vontade”, e a vontade de Deus é essa morte de amor, a Encarnação e a Redenção na Cruz, intimamente ligados.

Que a Virgem Santíssima, também ela protagonista de toda esta história de amor — aquela que estava em Nazaré dizendo sim ao Anjo e estava aos pés da Cruz, no Calvário, dizendo o seu sim extremo à vontade divina —, nos ajude também a fazer com que as nossas vidas sejam alinhadas com a vontade de Deus.

Como no dia de hoje os astros se alinham, o nascimento se alinha com a morte de Cristo no Calvário — a primavera da sua vinda ao mundo coincide com a primavera de sua morte redentora —, também nós possamos alinhar o nosso coração desajustado e dizer, com Jesus, servo obediente, e com Maria, humilde serva do Senhor: “Faça-se a vossa vontade”.

Publicado em Padre Paulo Ricardo – Homilia Diária.

Imagem: Aleteia.

A guerra que não podemos perder de vista

ESPIRITUALIDADE

A guerra que não podemos perder de vista

Se é a paz do céu o que queremos, não nos esqueçamos: para a nossa condição decaída, o que Jesus primeiro veio trazer foi a espada. Da guerra contra nós mesmos depende tudo. Se perdermos essa luta, toda esta nossa vida não terá servido de nada.

Se procurarmos na literatura cristã motivos para rezar e fazer jejum, não nos faltarão explicações, e uma melhor do que a outra. Mas a simplicidade com que Santo Tomás de Aquino trata do tema é incomparável.

Comentando o nono mandamento, o Aquinate ensina alguns meios de combater a concupiscência, contra a qual ele adverte ser importante “trabalhar muito”, já que estamos falando de um “inimigo familiar, que está dentro de nós”. E um desses meios é justamente a perseverança na oração. Ele explica:

Há que rezar com insistência, porque “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem” (Sl 126, 1); “Consciente de não poder possuir a sabedoria [continência], a não ser por dom de Deus” (Sb 8, 21); “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Ora, se dois inimigos estivessem em batalha e tu quisesses ajudar um deles, a um terias de prestar auxílio e a outro não. Pois bem, há entre o espírito e carne uma luta constante (praelium continuum). Por isso, é necessário, se desejas que o espírito saia vencedor, que lhe prestes auxílio, e isto se faz pela oração; à carne, porém, o tens de negar, e isto se faz pelo jejum, pois é pelo jejum que se enfraquece a carne.

Estão aqui resumidos todos os tratados de teologia ascética e mística. Há dentro de nós uma batalha sendo travada, e é preciso jejuar (trabalho negativo) e rezar (trabalho positivo) para enfraquecer a carne e fortalecer o espírito, respectivamente.

“Vigiai e orai para não cairdes em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca.”

Agora, atenção, porque o espírito de que fala Santo Tomás não é simplesmente a alma humana, mas, sim, o lugar onde Deus habita em nosso coração. Trata-se mais propriamente da graça, da vida divina e sobrenatural em nós. O que está em jogo nessa “luta constante” de que fala o Doutor Angélico, portanto, é nada menos do que o nosso estado de graça e a nossa salvação eterna, que se encontram o tempo todo ameaçados pelo drama do pecado e do afastamento de Deus. Não estamos falando de uma batalha qualquer, mas de um duelo de vida e morte (mors et vita duello), graça e desgraça, céu e inferno. 

Mas a pergunta que precisa ser feita é: ainda cremos nisso? Ainda temos fé nessas coisas que foram cridas pelos católicos de outros tempos e lugares, a ponto de muitos deles derramarem o próprio sangue só para não as negarem?

A questão é importante porque há uma doutrina errônea sendo propagada, infelizmente já absorvida por muitos católicos, segundo a qual uma bondade meramente teórica e natural basta para nos salvarmos. Essa ideia está “no ar”: é visível no desleixo com que tratamos os sacramentos, em especial a Eucaristia; na indiferença com que falamos da nossa religião, como se fossem todas iguais; e no modo laxo com que tantos, dentro da Igreja, falam de pecado e salvação. 

É como se a batalha de que falam o Doutor Angélico, todos os santos e o próprio Santo dos santos (cf. Mt 26, 41: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca”) fosse apenas uma metáfora, um “pano de fundo” geral para entendermos que é preciso ser bom e honesto, mas em linhas gerais, e não em todas as particularidades do que exigem os Mandamentos. (Para as nossas faltas, poderíamos contar com uma abstrata “misericórdia” superna, que tudo aceita, que tudo tolera, que tudo desculpa. Mesmo se não estivermos arrependidos dos nossos pecados. Mesmo se houvermos feito deles um projeto de vida. O céu não tem “alfândega” nem “controle de imigração” e o inferno… ah! “o inferno está vazio”.)

Nessa matéria, o correto seria dar ouvido àquilo que a Igreja sempre ensinou, porque é isso o que Jesus deixou a ela em última instância, de modo que apartar-se da doutrina católica de sempre nada mais é do que afastar-se da verdade de Cristo, que liberta e salva. O correto, portanto, seria: 

  • voltarmos a falar de inferno, porque o Evangelho fala dele (cf. Mt 18, 9: “É melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena”; Mt 23, 33: “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?”; Mt 25, 46: “E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna”); e
  • lembrarmos que há pecados bem comuns que privam da vida eterna (cf. 1Cor 6, 9: “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus”); 
  • que as pessoas precisam se arrepender verdadeiramente dos seus pecados para ganhar de volta a graça perdida; 
  • que precisam se confessar a um sacerdote para receber o perdão de Deus; e 
  • que, se não quiserem fazer isso, não devem se aproximar da mesa da Comunhão (cf. 1Cor 11, 28: “Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice”).  

Se olharmos para as Escrituras, para a história da Igreja, para a sua prática ao longo dos séculos, para o que ensinaram o Concílio de Trento e, reiterando essa doutrina, também o Papa São João Paulo II, especialmente na encíclica Veritatis Splendor e na exortação Reconciliatio et Poenitentia, seremos capazes de observar um crescimento orgânico da doutrina cristã, um desenvolvimento que ao longo dos séculos foi deixando mais claro o que no Evangelho estava enunciado em algumas poucas sentenças. É a semente humilde que se transformou em árvore frondosa.

Mas hoje… onde se fala de pecado, de Confissão, de estado de graça e de inferno? Em muitos lugares, a bela árvore da verdadeira doutrina católica foi substituída por um espantalho. Daí os relativismos e as concessões, os “panos quentes” e até mesmo a promoção e exaltação do mal. Por essas e outras a “nova igreja” que colocaram no lugar da santa Igreja Católica não fala mais nem de oração nem de jejum. A sua batalha não é mais a batalha espiritual de que falam Santo Tomás e Nosso Senhor; o inimigo da vez não é o diabo, o mundo e a carne, mas a opressão do “sistema”, as queimadas e desmatamentos e o que quer que interesse às causas do momento.

Contra esses ares de mudança que sufocam a Igreja, o que está ao nosso alcance fazer é, em primeiro lugar, crer. E crer não em qualquer coisa, mas somente naquilo que sabemos ser a doutrina sólida e segura deixada por Cristo Nosso Senhor aos Apóstolos e seus sucessores. Entre essas coisas nas quais devemos crer está o praelium continuum, a luta incessante que travam nesta vida a nossa carne corrompida e o Espírito Santo de Deus em nós. Não nos deixemos seduzir por um discurso que declara guerra aos quatro cantos do mundo, mas que deixa intacto nosso egoísmo, e talvez até o afague um pouco, com uma mentirinha religiosa bem elaborada aqui e acolá. 

Não, o que Cristo ensinou há dois mil anos continua valendo para nós hoje. Continua sendo necessário, para a nossa salvação, entrar pela porta estreita, mortificar os nossos sentidos, resistir às tentações e rezar com afinco pela nossa fidelidade. Se é a paz do céu o que queremos, não nos esqueçamos: para a nossa condição decaída, o que Jesus primeiro veio trazer foi a espada (cf. Mt 10, 34). Da guerra contra nós mesmos depende tudo. Se perdermos essa luta, perdendo a graça de Deus, toda esta nossa vida não terá servido de nada.

Publicado em Equipe Christo Nihil Praeponere (Padre Paulo Ricardo)

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus!

01.01.2022

Iniciamos o ano civil com a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus (Theotókos). Esta comemoração ocorre dentro das festividades de Natal , para relembrarmos o nascimento de Jesus, o Filho de Deus. De acordo com a tradição, é a primeira Festa Mariana da Igreja Ocidental e começou a ser celebrada em Roma no século VI. Desta forma, esta Festa Mariana encontra seu marco litúrgico no Natal e ao mesmo tempo em que todos os católicos começam o ano novo pedindo a proteção da Santíssima Virgem Maria.

O Verbo de Deus veio em auxílio da descendência de Abraão, como diz o Apóstolo. Por isso devia fazer-se em tudo semelhante aos irmãos (Hb 2,16-17) e assumir um corpo semelhante ao nosso. Eis por que Maria está verdadeiramente presente neste mistério; foi dela que o Verbo assumiu, como próprio, aquele corpo que havia de oferecer por nós. A Sagrada Escritura, recordando este nascimento, diz: Envolveu-o em panos (Lc 2,7); proclama felizes os seios que o amamentaram e fala também do sacrifício oferecido pelo nascimento deste Primogênito. O anjo Gabriel, com prudência e sabedoria, já o anunciara a Maria; não lhe disse simplesmente: aquele que nascer em ti, para não se julgar que se tratava de um corpo extrínseco nela introduzido; mas: de ti (cf. Lc 1,35 Vulg.), para se acreditar que o fruto desta concepção procedia realmente de Maria.

São Paulo em sua carta aos Gálatas 4, 4 diz de Jesus: “… mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a lei“, para indicar que, como um homem de Deus, necessariamente, tinha que ter uma mãe. É a grande demonstração de um Deus que nos amou e assumiu nossa humanidade, exceto o pecado. Aqui podemos observar que Maria aparece ligada ao mistério central da reconciliação. Esse relacionamento único é trazido com particular importância no momento da chegada de Deus na história humana, através da cooperação livre da Mulher, que é a Virgem Maria. Ela é o ponto de união entre o céu e a Terra. Dessa forma, Maria nos une a Deus e às pessoas, os homens e as mulheres de boa vontade.

Contudo, mesmo tendo o Verbo tomado um corpo no seio de Maria, a Trindade continua sendo a mesma Trindade, sem aumento nem diminuição. É sempre perfeita, e na Trindade reconhecemos uma só Divindade; assim, a Igreja proclama um único Deus no Pai e no Verbo.

Texto: com informações de Academia Marial de Aparecida

Publicado em Basílica Santuário de Nazaré – Padres Barnabitas.

O nascimento de Jesus é o grande motivo da nossa alegria!

Queridos paroquianos,

Na mensagem de Natal deste ano quis unir e partilhar com vocês três breves pensamentos de autores diferentes: do doutor da Igreja São Leão Magno, do padre espanhol Fernández Carvajal e do teólogo suíço Hans Urs von Balthasar.

            Certamente os festejos natalinos deste ano serão  diferentes de todos os que a nossa geração já vivenciou até agora. Se ficarmos limitados aos acontecimentos sociais, culturais e da área da saúde, talvez  não encontremos motivos para nos alegrar e festejar. Praticamente desde o início deste ano, o medo e a preocupação causados pelo covid-19, vêm tomando conta da nossa forma de viver. Mas, espiritualmente somos convidados a encontrar em Jesus, no Menino-Deus, a alegria e a esperança para a nossa vida. Assim escreveu São Leão Magno: “Não pode haver tristeza quando nasce a Vida. Dissipando o temor na morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nessa felicidade”. Não pode existir tristeza no dia do nascimento da Alegria! Sim, Jesus é a nossa Alegria, motivo primeiro e ápice de toda a nossa existência. No dia em que Deus veio nos visitar, e morar entre nós, temos que acolher jubilosos em nosso coração o belíssimo anúncio do anjo, na ocasião para os pastores e hoje para todos nós: “Não temais, eis que vos anuncio uma Boa-Nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2, 10-11).

O texto bíblico relata que após o anuncia do anjo, os pastores foram à Belém procurar o Menino Jesus. Assim como eles, nós devemos procurá-lo e encontrá-lo, não apenas na noite de Natal, mas em todos os dias. O padre Fernández Carvajal, ao escrever uma homilia natalina, destacou: “Se Deus se fez homem e me ama, como não procura-lo? Como perder a esperança de encontrá-lo, se é Ele que me procura?” Foi Jesus, o Emanuel, que desceu do céu para vir ao nosso encontro. A iniciativa foi d’Ele! Isso é uma demonstração claríssima do seu amor benevolente por nós. Este encontro de Deus com a nossa fragilidade humana, nos enche de profunda esperança. Quando contemplamos o seu nascimento não temos dúvidas do quanto Ele nos ama. E ao contemplarmos este amor, só nos resta retribuí-lo com amor e com gratidão. Gratidão por mais um Natal que estamos celebrando, por mais um ano que estamos concluindo, mesmo que tenhamos passado por alguns contratempos. Não esqueçamos que a doce presença do Menino de Belém tem nos acompanhado até agora, e nos acompanhará por todo o sempre. Entendamos uma coisa, Ele veio nos procurar para que encontrados por Ele encontremos o único motivo que nos dá  sentido de viver para além das circunstâncias adversas que estamos passando. E que o nosso encontro com Ele seja feito, não somente na noite de Natal, mas em todos os dias deste Novo Ano.

Na dinâmica cotidiana do encontro de Jesus com cada um de nós, o teólogo Von Balthasar, ressalta que: “Com o nascimento de Jesus, se iniciou para nós uma história de amor onde Deus é o roteirista, o Espírito Santo é o diretor, Jesus é o ator principal e nós somos os coadjuvantes”. Ou seja, com o Natal passamos a participar de uma belíssima história de amor onde a Trindade e cada um de nós tem um papel importantíssimo a desempenhar. Deus é o roteirista, é Ele quem escreve a nossa história. O Espírito Santo é o diretor, é Ele quem dirige e guia nossa vida. Jesus é o protagonista, é o ator principal com quem contracenamos. Somos os coadjuvantes! Sendo assim, para que esta história tenha um desfecho feliz, precisamos aceitar o roteiro que Deus escreveu para nós, precisamos nos deixar guiar pelo o Espírito Santo em todos os momentos e precisamos contracenar com Jesus. Ele é o protagonista, Ele é o centro de tudo! Temos que estar com Ele o tempo todo, em todas as cenas da nossa vida, nos momentos de dor e de alegria, de enfermidade e de saúde, de perdas e ganhos.

Queridos paroquianos, o Natal é este momento onde Jesus, a nossa Alegria, o Protagonista da nossa vida, mais uma vez quis, por iniciativa própria, vir conviver conosco e nos salvar.  É Natal! Não estamos sozinhos! O Emanoel, o Deus-conosco, está entre nós.  Ele nasceu para dissipar as nossas dores, doenças, medos e morte. Celebremos este grande acontecimento ao lado da Virgem Maria e de São José. Que eles intercedam por nós. Por todos os nossos familiares e amigos que são os presentes mais preciosos que o Senhor nos concedeu.

Meu afetuoso abraço a todos vocês, queridos paroquianos e filhos espirituais. Contem sempre com as minhas orações e rezem por mim também.

Um feliz e santo Natal para todos!

Um ano novo preenchido da presença de Jesus!

Padre e amigo Antônio José (Pascom Sje).

Publicado em Paróquia São João Evangelista.

Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora (8 de dezembro)

08 Imaculada Conceição de Nossa Senhora

O pecado original é realidade misteriosa e pouco evidente para nós enquanto comporta prolongamento da culpa dos progenitores a todos nós. Neste dia nós o consideramos na sua conspícua exceção, ou melhor, no seu singular privilégio concedido a Maria, que foi dele preservada desde o primeiro instante de sua concepção, de sua existência humana. O valor doutrinal desta festividade é manifesto na prece da celebração litúrgica, que sublinha o privilégio concedido à futura Mãe de Deus: “Ó Deus, que pela Imaculada Conceição da Virgem preparaste ao teu Filho uma morada digna dele…”, e a própria natureza deste privilégio, enquanto não subtrai Maria à Redenção universal efetuada por Cristo: “Tu que a preservaste de toda a mancha na previsão da morte do teu Filho…”. Antes que Pio IX com a bula Ineffabilis Deus de 1854 definisse solenemente o dogma da Imaculada Conceição, não obstante as hesitações de alguns teólogos, que podiam apelar ao próprio santo Tomás de Aquino, tinha-se chegado a desenvolvimento não só da devoção popular para com a Imaculada mas também nas intervenções dos papas a favor desta celebração. Antes que o calendário romano incluísse a festa em 1476, esta já aparecera no Oriente no século VII, e, contemporaneamente, na Itália meridional dominada pelos bizantinos. Em 1570, Pio V publicou o novo Ofício e finalmente em 1708 Clemente XI estendeu a festa, tornando-a obrigatória, a toda a cristandade. Mas desde a origem do cristianismo Maria foi venerada pelos fiéis como a TODA SANTA. No primeiro esboço da festa litúrgica da Conceição, anterior ao século VII, nota-se, se não a profissão explícita da isenção da culpa original, pelo menos persuasão teologicamente equivalente. “Potuit, decuit, ergo fecit”, argumentara um brilhante teólogo medieval: “Deus podia fazê-lo, convinha que o fizesse, portanto o fez”. Do infinito amor de Cristo para com a Mãe, que a pré-redimiu e acumulou do Espírito Santo desde o primeiro instante da sua existência, derivou este singular privilégio, que a Igreja hoje celebra para nos estimular a meditar não só sobre a inefável beleza da alma de Maria, mas também sobre a beleza de toda alma santificada pela graça redentora de Cristo. Quatro anos após a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, a Virgem apareceu a santa Bernadete Soubirous. Para a menina que, timidamente perguntava: “Senhora, quer ter a bondade de me dizer o seu nome?”, Maria respondeu: “ Eu sou a Imaculada Conceição”.

Extraído do livro:

Um santo para cada dia, de Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini.

Publicado em Padres e Irmãos Paulinos (paulinos.org.br) – Capela Virtual.

As Consolações Espirituais e Sensíveis e Como nos Devemos Portar Nelas

SÃO FRANCISCO DE SALES – Filoteia ou a Introdução à Vida Devota

Parte IV
Capítulo XIII

Deus só conserva a existência deste grande mundo por uma contínua alternativa de dias e noites, de estações que se vão sucedendo umas às outras e de diferentes tempos de chuvas e de secas, dum ar tranquilo e sereno e de vendavais e tempestades, de modo que quase não há um dia igual ao outro: admirável variedade, que tanto contribui para a beleza do universo!

O mesmo se passa no homem, que, na expressão dos antigos, é um mundo abreviado. Nunca ele está no mesmo estado e sua vida passa sobre a terra como as águas de um rio, numa continua variação de momentos, que ora o levantam a grandes esperanças, ora o abatem ao temor, já o inclinam à direita com a consolação, já à esquerda com a tristeza, de sorte que nunca um de nossos dias, nem mesmo uma hora sequer é inteiramente igual à outra.

Cumpre-nos, pois, conservar, no meio de tamanha desigualdade de acontecimentos e acidentes, uma igualdade contínua e inalterável do coração e, de qualquer modo que as coisas variem e se movam ao redor de nós, nós permaneceremos sempre imóveis e fixos nesse único ponto de nossa felicidade, que é ter somente a Deus em vista, ir a Ele e aceitar só de Suas mãos todas as coisas.

O navio pode tomar qualquer rumo que se lhe der, pode navegar para o oriente ou para o ocidente, para o sul ou para o norte, com qualquer vento que seja, mas a bússola, que deve dirigir a sua rota, estará sempre apontando para a estrela polar.

Revolucione-se tudo em volta de nós mesmos, isto é, esteja nossa alma triste ou alegre, em amargura ou em consolação, em paz ou tribulações, em trevas ou em luzes, em tentações ou calma, nas delícias da devoção ou em securas espirituais; seja ela como uma terra ressecada pelo sol ou refrigerada pelo orvalho: ah! Sempre é necessário que nosso coração, espírito e vontade tendam invariável e continuamente para o amor a Deus, seu Criador, seu Salvador, seu único e soberano bem.

Ou vivamos ou morramos, somos de Deus; e quem nos separará de seu amor?

Não, nada nos poderá separar jamais: nem as tribulações, nem angústias, nem a morte, nem a vida, nem as dores presentes, nem o temor das futuras, nem as ciladas do espírito maligno, nem as mais altas consolações, nem a confusão das humilhações, nem a ternura da devoção, nem as securas do espírito, nada de tudo isso nos deve separar jamais da caridade santa, que é fundada em Jesus Cristo.

Essa resolução absoluta de nunca abandonar a Deus e a Seu amor serve de contrapeso para nossa alma, a fim de dar-lhe uma santa invariabilidade no meio de tanta variedade de acidentes anexos à nossa vida; assim como as abelhas agitadas pelo vento apanham pedrinhas para se poderem librar melhor nos ares e lhe resistir mais facilmente, a nossa alma, tendo-se consagrado a Deus por uma viva resolução de o amar, permanece sempre a mesma no meio das vicissitudes das consolações e tribulações espirituais e temporais, interiores e exteriores.

Mas, além desta instrução geral, é necessário dar algumas regras particulares:

1. A devoção não consiste nessa suavidade nem nas consolações sensíveis e nesse doce enternecimento do coração, que o excitam às lágrimas e aos suspiros e que tornam nossos exercícios espirituais uma ocupação agradável.

Não, Filotéia, a devoção e as doçuras não são a mesma coisa, porque muitas almas há que, sentindo essas doçuras, não renunciam a seus vícios e, portanto, não possuem um verdadeiro amor a Deus e muito menos uma verdadeira devoção.

Saul, perseguindo a David até ao deserto, para o matar, entrou sozinho numa caverna em que David estava escondido com os seus; facilmente poderia este desfazer-se de seu inimigo, mas não quis nem sequer lhe causar medo, contentando-se em o chamar depois que saíra da gruta, para fazer ver o que lhe poderia ter feito e para lhe dar ainda esta prova de sua inocência. Pois bem, o que não fez Saul para mostrar a David quanto seu coração estava enternecido! Chamou-o seu filho, chorou copiosamente, louvou a sua benignidade, rezou a Deus por ele, publicou altamente que ele reinaria depois de sua morte e lhe recomendou a sua família. Poderia ele manifestar maior doçura e ternura de coração? Contudo o seu coração não estava mudado e ele não deixou de perseguir cruelmente a David. Do mesmo modo, pessoas há que, considerando a bondade de Deus e a paixão de Nosso Senhor, sentem-se com o coração enternecido a ponto de verterem muitas lágrimas e soltarem suspiros nas orações e ações de graça muito sensíveis, dando a aparência duma grande devoção. Mas, se as pomos a provas, bem depressa se verá que são as chuvas de verão, que, passageiras, caem em torrente sobre a terra, mas não a penetram e só servem para produzir cogumelos; ver-se-á, digo, que essas lágrimas tão ternas caem num coração viciado e não o penetram, lhe são inteiramente inúteis, porque essas pessoas não largariam nem um ceitil de todos os bens injustos que possuem, não renunciariam à menor de suas más inclinações e não sofreriam o mais leve incômodo pelo serviço de Jesus Cristo, pelo qual tanto choravam; todos esses bons movimentos do coração não passaram de falsos sentimentos de devoção, semelhantes aos cogumelos, que são um produto falso da terra. Ora, o que é mais deplorável é que uma alma enganada por esses artifícios do inimigo se entretenha com essas consolações mesquinhas e viva por aí satisfeita sem aspirar a uma devoção sólida e verdadeira, que consiste numa vontade constante, pronta e ativa de fazer o que se sabe que agrada a Deus. Uma criança entra em choro desfeito, vendo tirar sangue de sua mãe; mas, se ao mesmo tempo a mãe lhe pede uma bagatela qualquer que tem nas mãos, não lha quer dar. Semelhantes são a maior parte de nossas ternas devoções, quando, vendo o Coração de Jesus crucificado e traspassado duma lança, vertemos muitas lágrimas. Ah! Filotéia, é bom chorar a morte e paixão dolorosas de nosso Pai e Salvador; mas por que então não lhe dar o nosso coração e amor, que esse querido Redentor está pedindo? Por que não lhe sacrificamos essas inclinações, satisfações e complacências, que Ele nos quer arrancar do coração e com as quais preferimos nos deliciar do que com a Sua graça divina? Ah! Não passam de amizades de crianças ternas, mas fracas, fantásticas e sem efeito, que procedem duma compleição débil e suscetível a movimentos que se quer ter, ou às vezes a impressões artificiosas do inimigo sobre a nossa imaginação.

2. Esses afetos ternos e doces são às vezes, todavia, muito úteis; dão à alma o gosto pela piedade, confortam o espírito e ajuntam à prontidão da devoção uma santa alegria, que torna nossas ações, mesmo exteriormente, mais belas e agradáveis; é o gosto que se tem pelas coisas divinas, do qual fala David:

Certamente a menor consolação que a devoção nos dá vale mais, em todos os sentidos, do que os prazeres mais raros do mundo. É o leite que nos lembra os favores do divino Esposo e que a Escritura prefere ao vinho mais excelente; quem a saboreou uma vez só acha fel e absinto em todas as consolações humanas.

Sim, como aqueles que trazem na boca um pouco ele erva cítica sentem tão grande doçura que não têm mais fome nem sede, do mesmo modo, aqueles a quem Deus tem dado o maná das consolações celestes e interiores já não podem desejar ou saborear as da terra e muito menos aí apegar e ocupar o seu coração.

São pequeninos antegostos dos gozos eternos que Deus faculta às almas que o procuram, como uma mãe que atrai o seu filho com doces ou como o médico que fortifica o coração de uma pessoa fraca por essas águas chamadas cordiais; e são também às vezes penhores da recompensa eterna do seu amor. Conta-se que Alexandre Magno, viajando por mar, pressentiu que já não estava longe da Arábia Feliz, pelo odor suavíssimo que penetrava nos ares, o que muito contribuiu para animar a sua frota; eis aí como as suavidades da graça, entre todas as tempestades desta vida mortal, nos fazem pressentir as delícias inefáveis da pátria celeste, às quais aspiramos.

3. Mas, poderás dizer, se há consolações sensíveis e boas, que vêm de Deus, e outras inúteis, perigosas e mesmo prejudiciais, que procedem de nossa compleição ou vêm do inimigo, como é que as poderemos distinguir?

É um princípio geral, Filotéia, que podemos conhecer as nossas paixões por seus efeitos, assim como se conhecem as árvores por seus frutos. O coração que tem boas inclinações é bom, e as inclinações são boas, se produzem boas obras. Conclui, pois, deste princípio que, se as consolações nos tornam mais humildes, pacientes e caritativos, mais sensíveis ao sofrimento do próximo, mais tratáveis, mais fervorosos em mortificar as nossas paixões, mais assíduos em nossos exercícios, mais dispostos à obediência, mais simples em todo o nosso procedimento; conclui, digo, Filotéia, que indubitavelmente elas vêm de Deus; mas, se essas ternuras só têm doçura para nós e nos tornam curiosos, rancorosos, excitados, impacientes, teimosos, vaidosos, presunçosos, severos para com o próximo, e se, já pensando que somos santos, não nos queremos sujeitar à direção e à correção de outrem, podes concluir que são, sem dúvida, consolações falsas e perniciosas. Uma árvore boa só produz bons frutos.

4. Sentindo essas suaves consolações, antes de tudo é necessário:

1. Que nos humilhemos muito diante de Deus. Livremo-nos de dizer por causa dessas doçuras: Oh! Que bom sou eu! Não, Filotéia, isso não nos torna melhores do que somos, porque, como disse, a devoção não consiste nisso. Digamos antes:

Oh! Como Deus é bom para os que esperam nEle, para a alma que O procura!

Quem tem açúcar na boca não pode dizer que sua boca seja doce; do mesmo modo, ainda que a consolação seja muito boa e que Deus, que a concede, seja a mesma bondade, daí não se deduz que quem a recebe seja bom também.

2. Reconheçamos que somos ainda criancinhas que precisam de leite, como diz São Pedro, porque, fracos e débeis, não podemos aguentar um alimento mais forte; e que são necessárias essas doçuras para nos atraírem ao amor de Deus.

3. Humilhando assim a nós mesmos, tenhamos em grande estima essas graças, não pelo que valem em si mesmas, mas porque vêm das mãos de Deus, que as opera em nosso coração; uma criança, se tivesse juízo, estimaria muito mais as carícias de sua mãe, que lhe põe balas na boca, do que essas balas. Assim, Filotéia, é muito ter essas boas consolações; mas muito maior ainda é que Deus queira aplicar Sua mão amorosa sobre o nosso coração, sobre o nosso espírito, e sobre a nossa alma, para as produzir.

4. Tendo-as recebido assim humildemente, empreguemo-las cuidadosamente segundo a intenção daquele que no-las dá. Pois essas doçuras não as dá Deus para nos fazer suaves com todos e mais amorosos para com Ele? A mãe dá uma bala ao filhinho para que ele a beije. Beijemos, pois,
este Salvador que nos dá tantas doçuras. E beijar o Salvador é obedecer-Lhe, observar os Seus Mandamentos, fazer a Sua vontade, seguir os Seus desejos, numa palavra, abraçá-Lo ternamente com obediência e fidelidade. Portanto quando recebermos alguma consolação espiritual, é preciso que nesse dia sejamos mais diligentes em praticar o bem e em nos humilharmos.

5. Além disso, é necessário renunciar de vez em quando a essas disposições doces e ternas, sobressaindo nosso coração ao prazer que daí procede e protestando que, embora as aceitemos com humildade e estimemos como dons de Deus e atrativos de Seu amor, não procuramos as consolações, mas o Consolador, não a doçura, mas o espírito suave de Deus, não as ternuras sensíveis, mas Aquele que faz as delícias do céu e da terra; que só procuramos, numa palavra, unicamente a Deus e a Seu santo amor, prontos a nos conservarmos no amor de Deus, mesmo que não tenhamos consolação alguma por toda a nossa vida; indiferentes a dizer assim no Tabor como no Calvário:

Bom é para mim, Senhor, estar conVosco em toda parte em que estiverdes, quer na cruz quer na Vossa glória.

6. Enfim, eu aconselho que, se essas consolações, sensibilidades e lágrimas de alegria forem muito abundantes e te acontecer alguma coisa de extraordinário nesse estado, o manifestes fielmente a teu diretor, para aprenderes como te deves servir delas c moderá-las; porque está escrito:

Achando o mel, come só o suficiente.

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(SALES, São Francisco de. Filoteia ou a Introdução à Vida Devota. Editora Vozes, 8ª ed., 1958, p. 321-329)

Publicado em RUMO À SANTIDADE.

Securas e Esterilidades Espirituais

SÃO FRANCISCO DE SALES – Filoteia ou a Introdução à Vida Devota

Parte IV
Capítulo XIV

Esse tempo tão belo e agradável não durará muito, Filotéia; perderás tanto, às vezes, o gosto e o sentimento da devoção, que tua alma se parecerá com uma terra deserta e estéril, onde não verás nem um caminho, nem uma vereda para ir a Deus e onde as águas salutares da graça não correrão mais para a regar no tempo da seca, o que a tornará árida e desolará completamente. Ah! Bem digna de compaixão é a alma neste estado, sobretudo se o mal é violento; porque então ela se nutre de lágrimas, como David, dia e noite, enquanto o inimigo lhe diz por escárnio, para a levar ao desespero:

Ah! Miserável, onde está teu Deus? Por que caminho o poderás achar? Quem te poderá dar jamais as alegrias da graça?

Que farás, nesse tempo, Filotéia? Vai à fonte do mal. Muitas vezes essas esterilidades e securas se originam de nós mesmos.

1 . Como uma mãe tira o açúcar a seu filho atacado de vermes, também Deus nos priva das consolações de Sua graça logo que começam a dar origem a uma complacência vã e suntuosa, que é o verme da alma. É bom para mim, meu Deus, que me humilhaste; porque, antes de me humilhares, eu te ofendi, dizia o profeta-rei.

2. Quando omitimos, por negligência, de fazer algum bem ou não usamos prontamente das suavidades e delícias do amor de Deus, Ele se retira e nossa negligência é castigada, como os israelitas preguiçosos que, não indo recolher o maná logo cedo, já o achavam derretido aos primeiros raios de sol.

3. A Esposa dos Cantares, deitada indolentemente em seu leito, não quis se incomodar para ir abrir a porta a seu Esposo e perdeu a doçura de sua presença; eis aí o que nos acontece também. Tontos que estamos com as consolações sensuais e passageiras, não queremos nos privar delas para nos dar aos exercícios espirituais. Jesus Cristo, que pede entrada em nosso coração por suas inspirações, retira-Se e nos deixa continuar a dormir, e depois, quando o formos procurar, muito trabalho temos em O achar; trabalho este que é um justo castigo do desprezo infiel que temos dado a Seu amor, para seguir os atrativos do amor mundano. Ah! Pobre alma, tens feito provisão da farinha do Egito, não recebes o maná do céu. As abelhas odeiam todo o perfume artificial e as suavidades do Espírito Santo são incompatíveis com as delícias artificiais do mundo.

4. A dobrez e fingimentos nas confissões e conferências espirituais com o diretor provocam as securas e esterilidades, porque é justo que, tendo mentido ao Espírito Santo, se seja privado de Suas consolações. Não queres ir a teu Pai celeste com a sinceridade e simplicidade dum filho e não poderás receber as doçuras paternas.

5. Teu coração está cheio e sacia do dos prazeres do mundo; que admira, pois, que não sintas gosto para as alegrias espirituais? Não diz o antigo provérbio que as pombas saciadas acham as cerejas amargas? Deus encheu de bens os que tinham fome — dizia a Santíssima Virgem — e aos ricos despediu vazios, porque os que se regozijam de prazeres mundanos não são capazes de saborear os espirituais.

6. Tens conservado o fruto das primeiras consolações? Se assim for, receberás ainda mais, porque se dará àquele que já tem alguma coisa; e a respeito daquele que não tem o que lhe foi dado, porque perdeu, ser-lhe-á tirado mesmo o que não possui, isto é, será privado mesmo das graças que estavam preparadas para si. É muito verdade que a chuva vivifica as plantas ainda viridentes, mas consome e destrói inteiramente as que já o não são.

Por estas e outras razões semelhantes perdemos as consolações do serviço de Deus e caímos num estado de aridez e esterilidade de espírito e muito nos devemos examinar sobre estas faltas, mas sem inquietação e curiosidade. Se, depois de um bom exame, achamos em nós mesmos alguma fonte deste mal, devemos agradecer a Deus, tanto mais que o mal já está curado parcialmente, se lhe descobrimos a causa. Se, ao contrário, não te parece teres dado ensejo algum a essa secura, não te esforces mais em procurar a sua causa e observa com toda a simplicidade o que te vou dizer aqui.

1. Humilha-te profundamente na presença de Deus, reconhecendo o teu próprio nada e as tuas misérias e dizendo:

Ah! Que sou eu quando sigo a mim mesma? Nada mais, Senhor, do que uma terra seca e escampada, que tanto necessita de chuvas e que o vento reduz a areia.

2. Invoca o santo nome de Deus e pede-Lhe a suavidade da graça:

Dai-me, Senhor, a alegria salutar de Vosso espírito. Meu Pai, se é possível, afastai de mim este cálice, Vós, ó Jesus, que tendes imposto silêncio aos ventos e aos mares, contende este vento infrutuoso, que resseca minha alma, e mandai-lhe a aprazível e vivificante brisa do meio-dia, que pede vossa esposa para espalhar por toda parte os perfumes das plantas aromáticas do seu jardim.

3. Vai ter com o teu confessor; expande-lhe teu coração, faze-lhe ver todas as dobras de tua alma e segue seus conselhos com humilde simplicidade; porque Deus, que ama infinitamente a obediência, abençoa muitas vezes os conselhos que recebemos do próximo e, sobretudo, daqueles a quem confiou a direção das almas, mesmo sem esperança dum êxito feliz. Foi isso o que aconteceu a Naaman, que ficou limpo da lepra em se banhando no Jordão, como o profeta Eliseu lhe tinha mandado, sem nenhuma razão natural que parecesse aceitável.

4. Mas, depois de tudo, nada é tão útil do que não desejar com inquietação e sofreguidão o fim desse sofrimento e abandonar-se inteiramente à Providência divina, para suportar enquanto for esta a vontade de Deus. Digamos, pois, no meio dos desejos lícitos de sermos libertados e no meio dos espinhos que sentimos: Ó meu Pai, se é possível, fazei passar este cálice; mas ajuntemos animosamente: Entretanto, faça-se a Vossa vontade e não a minha; e aquietemo-nos com toda a tranquilidade possível. Deus, vendo-nos nesta santa indiferença, nos consolará pelas graças mais necessárias, do mesmo modo que, vendo Abraão disposto a sacrificar seu filho, contentou-se com esta resignação à sua vontade e o consolou pela alegre visão e com a bênção que lhe deu para toda a sua posteridade. Devemos, pois, em qualquer aflição corporal ou espiritual, nas distrações e privações da devoção sensível, dizer de todo o coração e com profunda submissão:

O Senhor me deu esta consolação, o Senhor ma tirou; bendito seja o Seu santo nome.

E, perseverando nós nesta humilde disposição, Ele nos prodigalizará Suas graças preciosas; foi o que aconteceu com Job, que assim falava em todas as suas desolações.

5. Não percamos a coragem, Filotéia, neste lastimoso estado; esperemos com paciência a volta das consolações, sigamos direito o nosso caminho, não omitamos nenhum dos exercícios de devoção, multipliquemos até as nossas boas obras. Ofereçamos a Nosso Senhor o nosso coração, por mais árido que esteja; ser-lhe-á tão agradável como se estivesse desfazendo-se em suavidade, uma vez que tenha seriamente determinado amar a Deus.

Diz-se que, quando a primavera é bela, as abelhas trabalham muito para fazer o mel e se multiplicam pouco; e que, quando ela é triste e sombria, se multiplicam mais e fazem menos mel.

Assim acontece muitas vezes, Filotéia, que a alma, vendo-se na bela primavera das consolações celestes, tanto se ocupa em as saborear que, na abundância das delícias celestiais, faz muito menor número de boas obras; ao contrário, vendo-se ela priva da das doces disposições da devoção sensível, multiplica suas obras, enriquece-se mais e mais em suas verdadeiras virtudes, como
a paciência, humildade, abjeção de si mesma, resignação, abnegação de seu amor-próprio.

Grande é, pois, o erro de muitas pessoas, principalmente mulheres, que creem que o serviço prestado a Deus sem gosto, sem ternura de coração, seja menos agradável a Sua divina majestade; pois que, como as rosas que, estando mais frescas, parecem mais belas, mas têm menos perfume e força do que quando estão secas, assim também a ternura torna as nossas ações mais agradáveis a nós mesmos, julgando-se pela deleitação que produzem; têm, entretanto, muito mais suave odor para o céu e são de muito maior merecimento diante de Deus, feitas num estado de secura espiritual.

Sim, Filotéia, nossa vontade entrega-se então ao serviço de Deus, apesar de todas as repugnâncias e, por conseguinte, é necessário que empregue mais força e constância do que no tempo duma devoção sensível.

Não merece grande louvor servir a um príncipe nas delícias da paz e da corte: mas servi-lo em tempos tumultuosos e de guerra é um sinal de fidelidade e constância. A bem-aventurada Ângela de Foligno diz que a oração mais agradável a Deus é aquela que se reza contrafeito, isto é, aquela que fazemos não por gosto e por inclinação, mas reagindo para vencer a repugnância que aí achamos devido à nossa secura espiritual.

O mesmo penso também de todas as boas obras; porque, quanto maiores empecilhos, sejam interiores, sejam exteriores, encontramos, tanto mais merecem diante de Deus. Quanto menor é o nosso interesse particular na prática das virtudes, tanto mais resplandece a pureza do amor divino.

A criança beija facilmente a sua mãe, quando esta lhe dá açúcar; mas isto seria um sinal de uma grande afeição, se o fizesse depois que ela lhe tivesse dado absinto ou sumo amargo de aloés.

(…)

(SALES, São Francisco de. Filoteia ou a Introdução à Vida Devota. Editora Vozes, 8ª ed., 1958, p. 330-336)

Publicado em Rumo à Santidade.

Afinal, qual a importância da Santa Missa?

Domingo, dia do Senhor! Vamos à Santa Missa?

A Santa Missa é o pilar central da fé católica, por ela, recebemos Jesus vivo na Eucaristia, corpo e sangue, que nos sustentam na luta pela santidade. Não há como buscar o Céu sem buscar a Cristo no altar da Santa Missa, veja o que diz o Catecismo da Igreja Católica:

2180 — O mandamento da Igreja determina e especifica a lei do Senhor: “Nos domingos e nos outros dias de festa de preceito aos fiéis têm a obrigação de participar da missa”. “Satisfaz ao preceito de participar da missa quem assiste à missa celebrada segundo o rito católico no próprio dia de festa ou à tarde do dia anterior”.

2181 — A eucaristia do domingo fundamenta e sanciona toda a prática cristã. Por isso os fiéis são obrigados a participar da Eucaristia nos dias de preceito, a não ser por motivos muito sérios (por exemplo, uma doença, cuidado com bebês) ou dispensados pelo próprio pastor.

Aqueles que deliberadamente faltam a esta obrigação cometem pecado grave [também chamado pecado mortal, e devem procurar a confissão].

A Santa Missa é a presentificação do Sacrifício de Jesus no Calvário. Não é repetição e nem multiplicação desse acontecimento; é a sua renovação, atualização. As ações de Cristo são “teândricas”, isto é, humanas e divinas ao mesmo tempo, por isso, não se esgotam no tempo como as nossas ações. Deus está acima do tempo, que é sua criatura.

A Missa é oferecida com várias finalidades: homenagem de adoração suprema ao Pai Eterno por Seu Filho encarnado, feito homem, unindo as nossas com as Dele e as de toda a Igreja. É um ato de oferecimento de cada fiel ao Senhor para o amar e servir.

É um culto de ação de graças ao Pai para agradecer-lhe os dons que recebemos: a glória da Virgem Maria, seus méritos e os dos santos e todos os benefícios que recebemos pelos méritos de Cristo. É também um ato de reparação pelos nossos pecados e os da humanidade. Diz São Pedro Julião que “Deus Pai nada nos pode recusar visto que nos deu Seu Filho, que se mantém na Sua presença nesse estado de Sacrifício e de vítima pelos nossos pecados e os de todos os homens”. É o momento de apresentar a Deus nossas necessidades pessoais; e, sobretudo, a graça necessária para vencer os piores pecados que nos escravizam.

Além disso, no oferecimento eucarístico do pão e do vinho, são também apresentadas a Deus toda a riqueza e pobreza da humanidade inteira. Assim rezamos pelas necessidades de todos os homens espalhados pelo mundo inteiro, em particular pelos mais necessitados. Quando participamos da Santa Missa ajudamos concreta e eficazmente os outros. De fato, a Santa Missa é fonte privilegiada de justiça, de partilha, de paz, de reconciliação e de perdão entre todos os povos. A Eucaristia sempre é celebrada sobre o altar do mundo. Une o céu e terra (cf. Ecclesia de Eucharistia, 8).

Na celebração da santa Missa, tudo lembra o Sacrifício de Jesus por nós. O altar de pedra contém relíquias de santos, às vezes até ossos, pois eles participam da glória de Cristo e “intercedem por nós sem cessar”; as velas que queimam no altar e se consomem, e os círios, simbolizam a fé, a esperança e a caridade. As toalhas brancas que cobrem o altar representam os lençóis com que foi envolvido o Corpo de Jesus Cristo; o crucifixo representa-O morrendo por nós. Tudo lembra o Calvário.

Fonte: Professor Felipe Aquino.

Publicado em Missão Eterno Céu.

Sete de Outubro: Memória de Nossa Senhora do Rosário

Nossa Senhora do Rosário, uma festa de glória! Ela que ajudou os cristãos a vencerem a Batalha de Lepanto, nos conceda a graça da vinda do Reino d’Ela, que será também o Reino do Rosário.

Redação (07/10/2021 08:5, Gaudium Press)  – Na última aparição de Nossa Senhora, em Fátima, em outubro de 1917, a Virgem Maria disse por fim o seu nome: “Sou a Senhora do Rosário”; e voltou a lembrar a recomendação já feita antes: “Continuem a rezar o terço todos os dias”.

Foi durante aquela aparição que Nossa Senhora disse às três crianças: ” … Continuem a recitar o Rosário todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz no mundo e o fim da guerra…”

Fátima e o Rosário, as crianças de Fátima e Nossa Senhora são palavras profunda e inseparavelmente unidas entre si… Hoje, talvez mais do que nunca, Maria derrama graças sobre aqueles que rezam o terço … Conheça mais sobre a devoção e as graças que recebem aqueles que praticam a reza do terço, bem como a história da última aparição de Nossa Senhora em Fátima. Por especial desígnio da infinita misericórdia de Deus, Maria Santíssima revelou ao grande São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Dominicanos, um meio fácil e seguro de salvação: o santo Rosário.

Sempre que os homens o utilizam, tudo floresce na Igreja, na terra passa a reinar a paz, as famílias vivem em concórdia e os corações são abrasados de amor a Deus e ao próximo. Quando dele se esquecem, as desgraças se multiplicam, implanta-se a discórdia nos lares, o caos se estabelece no mundo…

A Ave-Maria, base do Novo Testamento

São Domingos viveu numa época de grandes tribulações para a Igreja.

A terrível heresia dos albigenses se espalhara no sul da França e ameaçava toda a Europa. A profunda corrupção moral dela decorrente abalava os fundamentos da própria sociedade temporal.

Por meio de ardorosas pregações, durante anos tentou ele reconduzir ao seio da Igreja aqueles infelizes que se tinham desviado da verdade. Mas suas eloqüentes e inflamadas palavras não conseguiam penetrar aqueles corações empedernidos e entregues aos vícios.

O Santo intensificou suas orações…

Aumentou suas penitências… Fundou um instituto religioso para acolher os convertidos… De pouco ou nada adiantaram seus esforços. As conversões eram poucas e de efêmera duração.

O que fazer? Certo dia, decidido a arrancar de Deus graças superabundantes para mover à conversão aquelas almas, Frei Domingos entrou numa floresta perto de Toulouse e entregou-se à oração e à penitência, disposto a não sair dali sem obter do Céu uma resposta favorável.

Após três dias e três noites de incessantes súplicas, quando as forças físicas já quase o abandonavam, apareceu- lhe a Virgem Maria, dizendo com inefável suavidade: – Meu querido Domingos, sabes de que meio se serviu a Santíssima Trindade para reformar o mundo? – Senhora, sabeis melhor do que eu, porque, depois de vosso Filho Jesus Cristo, fostes Vós o principal instrumento de nossa salvação.

– Eu te digo, então, que o instrumento mais importante foi a Saudação Angélica, a Ave-Maria, que é o fundamento do Novo Testamento. E, portanto, se queres ganhar para Deus esses corações endurecidos, reza meu Rosário.

Raios e trovões para reforçar a pregação

Com novo ânimo, o zeloso Dominicano dirigiu-se imediatamente à Catedral de Toulouse, para fazer uma pregação. Mal ele transpôs a porta do templo, os sinos começaram a repicar, por obra dos anjos, para reunir os habitantes da cidade.

Assim que ele começou a falar, nuvens espessas cobriram o céu e desabou uma terrível tempestade, com raios e trovões, agravada por um apavorante tremor de terra.

O pavor dos assistentes aumentou quando uma imagem de Nossa Senhora, situada em local bem visível, levantou os braços três vezes para pedir a Deus vingança contra eles, se não se convertessem e pedissem a proteção de sua Santíssima Mãe.

O santo Pregador implorou a misericórdia de Deus, e a tempestade cessou, permitindo-lhe falar com toda calma sobre as maravilhas do Rosário.

Os habitantes de Toulouse arrependeram- se de seus pecados, abandonaram o erro, e começaram a rezar o Rosário. Em conseqüência, grande foi a mudança dos costumes nessa cidade.

A partir de então, São Domingos, em seus sermões, passou a pregar a devoção ao Rosário, convidando seus ouvintes a rezá-lo com fervor todos os dias. Assim, obteve que a misericórdia de Nossa Senhora envolvesse as almas e as transformasse profundamente.

Maria foi a verdadeira vencedora dos erros dos albigenses.

Um sermão escrito pela Santíssima Virgem

Relata o Beato Alano uma aparição de São Domingos, na qual este lhe narrou o seguinte episódio: Rezando o Rosário, estava ele preparandose para fazer na Catedral de Notre Dame de Paris um sermão sobre São João Evangelista. Apareceu-lhe então Nossa Senhora e lhe entregou um pergaminho, dizendo: “Domingos, por melhor que seja o sermão que decidiste pregar, trago aqui outro melhor”.Muito contente, leu o pergaminho, agradeceu de todo coração a Maria e se dirigiu ao púlpito para começar a pregação. Diante dele estavam os professores e alunos da Universidade de Paris, além de grande número de pessoas de importância.

Sobre o Apóstolo São João, apenas afirmou o quanto este merecera ter sido escolhido para guardião da Rainha do Céu. Em seguida, acrescentou: “Senhores e mestres ilustres, estais acostumados a ouvir sermões elegantes e sábios, porém, eu não quero dirigir-vos as doutas palavras da sabedoria humana, mas mostrar-vos o Espírito de Deus e sua virtude”.

E então São Domingos passou a explicar a Ave-Maria, como lhe tinha ensinado Nossa Senhora, comovendo assim, profundamente, aquele auditório de homens cultos.

O Beato Alano de la Roche

As próprias graças e milagres concedidos por Deus através da recitação do Rosário encarregaram-se de propagá- lo por toda parte, tornando-se esta a devoção mais querida dos fiéis cristãos. Enquanto ela foi praticada, a piedade florescia nas Ordens religiosas e no mundo católico.

Mas, cem anos depois de ter sido divulgada por São Domingos, já ela havia caído quase no esquecimento. Como conseqüência, multiplicaram-se os males sobre a Cristandade: a peste negra devastou a Europa, dizimando um terço da população, surgiram novas heresias, a Guerra dos Cem Anos espalhou desordens por toda parte, e o Grande Cisma do Ocidente dividiu a Igreja durante longo período.

Para atalhar o mal e, sobretudo, preparar a Igreja para enfrentar os embates futuros, suscitou Deus o Beato Alano de la Roche, da Ordem Dominicana, com a missão de restaurar o antigo fervor pelo Rosário.

Um dia em que ele celebrava Missa, em 1460, perguntou-lhe Nosso Senhor: “Por que me crucificas tu de novo? E me crucificas, não só por teus pecados, mas ainda porque sabes quanto é necessário pregar o Rosário e assim desviar muitas almas do pecado. Se não o fazes, és culpado dos pecados que elas cometem”.

A partir de então, o Beato Alano tornou-se um incansável divulgador desta devoção, e assim converteu grande número de almas.

Fator decisivo de grandes vitórias

Foi, sobretudo, nos momentos de grandes perigos e provações para a Igreja, que o Rosário teve um papel decisivo, propiciou a perseverança dos católicos na Fé e levantou uma barreira contra o mal.

Ao ver a Europa ameaçada pelos exércitos do império otomano, que avançavam por mar e por terra, devastando tudo e perseguindo os cristãos, o Papa São Pio V mandou rezar o Rosário em toda a Cristandade, implorando a proteção de Nossa Senhora. Ao mesmo tempo, com o auxílio da Espanha e de Veneza, reuniu uma esquadra no Mar Mediterrâneo para defender os países católicos.

A sete de outubro de 1571, a frota católica encontrou a poderosa esquadra otomana no golfo de Lepanto. E apesar da superioridade numérica do adversário, os cristãos saíram triunfantes, afastando definitivamente o risco de uma invasão. Antes de travar-se o combate, todos os soldados e marinheiros católicos rezaram o Rosário com grande devoção.

A vitória, que parecia quase impossível, deveu-se à proteção da Virgem Santíssima, a qual – segundo testemunho dado pelos próprios muçulmanos – apareceu durante a batalha, infundindo- lhes grande terror.

No século XVIII, para comemorar a vitória do Príncipe Eugênio de Saboya sobre o exército otomano, devida também à eficácia do Rosário, o Papa Clemente XI ordenou que a festa de Nossa Senhora do Rosário fosse celebrada universalmente.

São Luís Grignion de Montfort

A Igreja seria ainda sacudida por muitas tempestades. Visando fortalecer seus filhos e prepará- los para suportar as grandes provações futuras, suscitou Deus uma alma de fogo com a missão de reacender a chama da devoção ao Rosário, o qual mais uma vez tinha caído no esquecimento. São Luís Maria Grignion de Montfort, o grande doutor da devoção à Mãe de Deus, exerceu sua missão profética um século antes da Revolução Francesa. As regiões nas quais se deram ouvidos à sua pregação foram as que melhor resistiram aos erros de sua época e conservaram íntegra a Fé.

Fátima, 1917: “Sou a Senhora do Rosário”

Já no século XX, quando a Primeira Guerra Mundial estava em seu auge, Nossa Senhora veio, Ela mesma, em pessoa, lembrar aos homens que a solução para seus males estava ao alcance das mãos, nas contas do Rosário: “Rezai o Terço todos os dias para alcançar a paz e o fim da guerra”, repetiu Ela maternalmente aos três pastorzinhos, em Fátima. Na última aparição, em outubro de 1917, a Virgem Maria disse quem era: “Sou a Senhora do Rosário”. E para atestar a autenticidade das aparições e a importância do Rosário, operou um milagre de grandeza nunca vista, presenciado pela multidão de 70.000 pessoas que estavam no local: o sol girou no céu, ao meio-dia, parecendo precipitar- se sobre a terra, retomando depois sua posição habitual no firmamento.

Milagres dessa magnitude, só no Antigo Testamento encontramos. Mas nem assim o mundo deu ouvidos à Mãe de Deus. E nunca se abateram sobre a Terra tantas desgraças, nunca houve tantas guerras, nunca a desagregação moral chegou tão baixo.

Entretanto, o meio de obter a paz para o mundo, para as famílias, para os corações, continua ao alcance de nossas mãos, nas contas benditas do Rosário, que Maria Santíssima trazia suspenso de seu braço quando apareceu em Fátima.

Salvou-se porque levava o Terço à cintura

Não é possível expressar quanto a Santíssima Virgem estima o Rosário sobre todas as demais devoções, e como é generosa em recompensar os que trabalham para divulgá-lo.

Conta São Luís de Montfort o caso de Afonso IX, Rei de León, a quem Nossa Senhora protegeu particularmente, pelo simples fato de portar o Rosário à cintura.

Desejando que os seus súditos honrassem a Santíssima Virgem, e para animá-los com seu exemplo, ocorreu a esse monarca portar ostensivamente um grande Rosário, ainda que não o rezasse. Isto bastou para incentivar os seus cortesãos a rezá-lo devotamente.

Algum tempo depois, o rei ficou às portas da morte, acometido por uma grave enfermidade. Foi então transportado em espírito ao tribunal de Deus, onde os demônios o acusaram de todos os seus crimes. E quando ia ser condenado às penas eternas, apresentou- se em sua defesa a Santíssima Virgem diante de Jesus.

Num prato da balança, foram colocados os pecados do Rei. No outro, a Virgem Maria colocou o grande Rosário que ele portara em honra d’Ela, juntamente com os Rosários que, devido ao seu exemplo, haviam rezado outras pessoas, e estes pesavam mais que todos os pecados por ele cometidos.

Depois, Maria Santíssima, olhando com misericórdia para o Rei, disse: “Consegui de meu Filho, como recompensa pelo pequeno serviço que Me fizeste, levando à cintura o Rosário, o prolongamento de tua vida por mais uns anos. Emprega-os bem, e faz penitência”.

Voltando a si, o rei exclamou: “Oh! Bendito Rosário da Santíssima Virgem, por ele é que fui livre da condenação eterna!” E, recuperando a saúde, passou a rezar o Rosário todos os dias até o fim da vida.

A palavra do Papa, porta-voz de Jesus

O Rosário transporta-nos misticamente para junto de Maria (…) para que Ela nos eduque e nos plasme até que Cristo esteja formado em nós plenamente” – ensina o Papa João Paulo II. E acrescenta: “Nunca, como no Rosário, o caminho de Cristo e o de Maria aparecem unidos tão profundamente. Maria só vive em Cristo e em função de Cristo”.

Recordemos suas inspiradas palavras na Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariæ”:

O Rosário acompanhou-me nos momentos de alegria e nas provações. A ele confiei tantas preocupações; nele encontrei sempre conforto. O Rosário é minha oração predileta. Oração maravilhosa! “Ó Rosário bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus, vínculo de amor que nos une aos Anjos, torre de salvação contra os assaltos do inferno, porto seguro no naufrágio geral! “Não te deixaremos nunca mais! “Serás o nosso conforto na hora da agonia. Seja para ti o último ósculo da vida que se apaga. E a última palavra dos nossos lábios há de ser o vosso nome suave, ó Rainha do Rosário, ó nossa Mãe querida, ó Refúgio dos pecadores, ó soberana consoladora dos tristes. Sede bendita em toda parte, hoje e sempre, na terra e no Céu. Amém.”

Nunca deixe de rezá-lo!

Sim, acatando fielmente essa exortação do Papa, nunca deixe de rezar o Rosário, sob pretexto de ter muitas distrações involuntárias, falta de gosto em rezá-lo, muito cansaço, insuficiência de tempo, ou qualquer outro. Para rezar bem o Rosário, não é necessário sentir gosto, ter consolações, nem conseguir uma aplicação contínua da imaginação. Bastam a fé pura e a boa intenção.

E veja quantos benefícios nos proporciona a recitação do Rosário!

• Eleva-nos ao conhecimento perfeito de Jesus Cristo.
• Purifica nossas almas do pecado.
• Faz-nos vitoriosos contra todos os nossos inimigos.
• Torna-nos fácil a prática das virtudes.
• Abrasa-nos no amor de Jesus Cristo.
• Enriquece-nos de graças e méritos.
• Fornece-nos os meios de pagar todas as nossas dívidas com Deus e com os homens.

A tudo isso, acrescenta São Luís Maria Grignion de Montfort: – “Ainda que te encontres à beira do abismo ou já com um pé no inferno ainda que estejas endurecido e obstinado como um demônio, cedo ou tarde te converterás e salvarás, contanto que rezes devotamente todos os dias o santo Rosário, para conhecer a verdade e obter a contrição e o perdão de teus pecados”.

Por Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

(In “Revista Arautos do Evangelho”, Out/2004, n. 34, p. 34 a 38)

Publicado em Gaudium Press.

Conversando sobre as Terceiras Moradas [LIVE]

CENTRO DE ESPIRITUALIDADE MONTE CARMELO – Sou Carmelo – Oficial

O Castelo Interior nos coloca diante de nossa realidade mais pessoal em níveis sempre novos de profundidade. Primeira Morada: “Nós no mundo”. Nos situa criticamente diante das realidades nas quais estamos imersos no nosso dia a dia. Segunda Morada: “O mundo em nós”. Nos desafia a ver e enfrentar as estruturas que a convivência com ele deixou em nós, como a dependência, vaidades e ambições… Nas Terceiras Moradas olharemos a nossa realidade mais pessoal: “Nós diante de nós mesmos”. Precisamos enfrentar nossas verdades mais ocultas. Colocar-nos diante de nossas fraquezas e medos, frente a frente, só nós e Deus. Precisamos aprender a não fugir nem ocultar a verdade. Deus nos guia e capacita nesta lição.

Publicado em Sou Carmelo – Oficial.

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora – 15/08/2021

1ª Leitura: Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab

Sl 44

2ª Leitura: 1Cor 15,20-27a

Evangelho: Lc 1,39-56
 

“Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu.” (Lc 1,45)

A liturgia de hoje nos convida a estarmos “atentos às coisas do alto, a fim de participamos da Sua glória”[1], da glória do Senhor Onipotente. O Domingo é o dia no qual “as coisas do alto” vêm ao nosso encontro e nós, ao nos dirigirmos para a Igreja a fim de celebrarmos o culto divino, vamos ao encontro das “coisas do alto”. Por isso, o domingo é o Dia do Senhor e o Senhor dos Dias, como tão bem afirmou São João Paulo II na Dies Domini, o dia que nos ensina a viver na amizade com Deus. Sendo o dia da escuta da Palavra por excelência, o dia da assembleia de culto, o dia do nosso louvor e ação de graças pelo Cristo que se dá a nós nessa mesa que antecipa gloriosamente o banquete celeste, ele, o domingo, nos ensina a sermos atentos às coisas do alto.

Neste dia especial de culto ao Senhor celebramos a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Esta Solenidade nos faz recordar que Maria, a primeira redimida pelo Cristo em vista da sua divina missão, foi também a primeira glorificada em corpo e alma nos céus. O dogma da Assunção de Nossa Senhora, proclamado pelo Papa Pio XII em 1950, não se preocupa em dar detalhes como se, por exemplo, Maria morreu ou não. Todavia, esta antiquíssima solenidade, celebrada desde os primórdios, sobretudo pelos cristãos orientais que a chamavam de “Dormitio Virginis Mariae”, ou seja, “Dormição da Virgem Maria”, não exclui a possibilidade da morte da Virgem Maria, uma vez que para nós cristãos, a partir de Cristo e sua Páscoa, a morte ganhou um novo sentido, passou a ser a nossa Páscoa pessoal.

O dogma da Assunção de Nossa Senhora afirma que Maria não experimentou a corrupção da morte, ou seja, morrendo, foi imediatamente glorificada pelo seu Filho, sendo elevada em corpo e alma ao céu. Maria experimentou antecipadamente aquilo que é o destino de todo cristão. Nós sabemos que também morreremos, porém, diferentemente da Virgem Imaculada, experimentaremos a corrupção do sepulcro, e só na Parusia a nossa alma será novamente unida ao corpo glorioso que Cristo vai nos restituir. É o que nos afirma a segunda leitura de hoje: “Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo por ocasião da sua vinda” (1Cor 15,22-23). O que nós experimentaremos por ocasião da Parusia do Senhor, Maria já experimentou e, por isso, já está unida em corpo e alma a Cristo nas alturas. É isto o que nos afirma o dogma da Assunção de Nossa Senhora.

Celebrar a Solenidade de Maria Santíssima é contemplar na vida da Virgem aquilo o que a Igreja espera ser. Maria é modelo da Igreja, uma imagem na qual os fiéis devem se espelhar. A primeira leitura que acabamos de ouvir, este trecho do livro do Apocalipse, é interpretado tanto em referência à Igreja quanto em referência à Maria Santíssima. Maria é a mulher vestida de sol, que gera o fruto bendito, o Cristo Senhor, que “veio para governar todas as nações com cetro de ferro” e que foi elevado para junto do Pai, onde sempre esteve antes da sua Encarnação. A Igreja também é esta mulher que gera no mundo o Cristo, através da pregação da Palavra, do testemunho dos cristãos e dos sacramentos. A Igreja é esta que está fugitiva no deserto do mundo, mas sempre protegida por Deus.

Voltando-nos para o relato evangélico nos vemos diante do encontro de Maria e Isabel. Mal acaba de receber da boca do anjo o anúncio de que será a Mãe do Salvador, Maria sai ao encontro de Isabel, que se encontra no sexto mês de gravidez, a fim de prestar-lhe auxílio. Quando Maria encontra Isabel a criança pula de alegria no ventre da anciã e Isabel fica cheia do Espírito Santo. Maria é a portadora do Espírito e um Pentecostes acontece na vida de Isabel e João Batista, como já havia acontecido na vida da Virgem que trazia em seu seio o Salvador do Mundo. Isabel, então, movida pelo Espírito Santo, exulta de alegria, alegria que em Lucas significa a chegada do Messias, e proclama verdades magníficas: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! (…) Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu.”

Maria é a mulher bendita, no seio da qual é gerado o Salvador. Maria é a mulher bendita, nova Arca da Aliança, que guarda em si a Palavra de Deus! Maria é bem-aventurada porque acreditou; e, porque acreditou, será realizado nela conforme a Palavra do Senhor. A Palavra do Senhor é eficaz, conforme nos diz o Salmo 33,9: “Porque ele diz e a coisa acontece, ele ordena e ela se firma”. Unindo-se ao louvor de Isabel, Maria canta o magnificat, este canto permeado de passagens do Antigo Testamento, onde Maria canta a glória do Senhor que realizou “grandes coisas” em seu favor.

Contemplando a vida da Virgem, desejemos imitá-la. Sejamos também bem-aventurados, porque acreditamos no que o Senhor prometeu. Sejamos, como Maria, homens e mulheres de fé. Guardemos em nós a Palavra, a fim de que em nós também o Cristo seja gerado. Proclamemos com nossa voz que o Senhor “fez em nós grandes coisas, maravilhas”! Exultemos de alegria no Senhor que elevou aos céus em corpo e alma a Virgem Santíssima e que um dia também nos glorificará, dando-nos um corpo glorioso no Reino que Ele prepara para nós. Olhemos a Virgem e contemplemos aquilo o que a Igreja espera ser. Olhemos a vida da Virgem e a imitemos, a fim de sermos discípulos “bem-aventurados” porque guardamos em nós as promessas do Senhor.

 
 
[1] Cf. Coleta da Missa do Dia da Assunção de Nossa Senhora.

Autor: Padre Fabio

Publicado em MATER ECCLESIAE.