O humano vem sendo substituído pelo artifício, e nem mesmo os sentimentos, as emoções estão fora de seu alcance. O mundo virtual está mudando, em sentido geral, a noção do que é viver em uma perspectiva ampla… A Ciência tem se mostrado em muitos campos, um bem para a Humanidade. Mas sabemos que, em geral, oculta conteúdos nefastos ao longo de seu desenvolvimento. Este blog é uma tentativa, e ao mesmo tempo, uma proposta de autopreservação tanto emocional quanto espiritual. Quanto aos visitantes do blog "Castelo Interior", penso que o legado de Santa Teresa, bem como as contribuições da cristandade podem propiciar este "cuidado interior". Aliás, um cuidado vital que envolve nossas mentes, nossas almas. O título do blog é uma reverência à vida e à obra de Santa Teresa de Jesus (Ávila). Suas leituras me inspiraram, e mais que isto, continuam me ensinando a viver neste tempo caótico, a interpretá-lo à luz da Fé. A partir do que compreendi de seus escritos "Castelo Interior" e "Livro da Vida", e os mais breves (estou no início de "Caminho da Perfeição"), me lancei à proposta de uma "mescla" entre Jornalismo, Literatura (suas Obras, por excelência, através da análise de estudiosos carmelitanos descalços, principalmente), com abertura para textos clássicos católicos, e artigos universais e relevantes, segundo a ótica da doutrina católica. Por fim, acredito que a produção de Santa Teresa de Ávila evidenciará o quanto sua produção nos insere em uma inevitável espiral de espiritualidade. Seu tempo, como o nosso, estava impregnado de perigos extremos – tanto para o corpo, quanto para a alma. Entretanto, esta Doutora da Igreja deixou-nos, em seus três principais escritos, a essência de seu pensamento: "Nada te turbe, nada te espante. Tudo se pasa. Dios no se muda. La paciencia todo lo alcanza. Quien a Dios tiene nada le falta. Sólo Dios basta!" (Santa Teresa de Jesus). Este blog foi criado em 2007 e não tem fins comerciais.
A Mãe apresentada pelas Filhas – Nossa Senhora do Carmo
Diversos e diferentes títulos são ofertados Àquela que, em frações de segundos não hesitou em dizer o “Sim” mais importante da história da salvação e da humanidade. Com sua singeleza, pureza e entrega, Nossa Senhora trouxe ao mundo o Filho – o modelo acabado de perfeição e bondade. Após este momento fulgural toda uma teologia desenvolveu-se culminando com a morte e ressurreição de Jesus.
No Carmelo, a flor mimosa e bela, desde os remotos tempos do Profeta e Santo Elias, passando pela presença junto à São Simão Stock, tem sido sempre notada pela presença discreta e decisiva em importantes momentos da vida de diversos Santos e Santas.
Com a reforma Teresiana do Carmelo sempre ficou evidente o amor e carinho não somente da Madre como de São João da Cruz, mas também de suas filhas carmelitas à Virgem Maria. Então, como estas filhas se dirigiram a sua Mãe e Virgem do Carmo? Apenas para ilustrar esta relação de amor filial, de veneração e de carinho, podemos pelos frutos admirar ainda mais a frondosa árvore.
Durante seus poucos anos de vida no mundo, Teresa de Jesus dos Andes, nos apresenta uma Mãe generosa e uma guia espiritual. Nos diz: “Mãe minha, mostra que és minha Mãe. Ouve o grito de minha alma pecadora arrependida, que sofre e leva até o fim o cálice da dor. Mãe, consola-me, alenta-me, aconselha-me, acompanha-me e abençoa-me”. Ainda em outro momento de seus textos nos mostra algumas das virtudes da Virgem. Oh Mãe, celestial Madonna que nos guia. Tu deixaste cair de tuas mãos maternais raios de céu. Minha alma, extasiada a teus pés virginais, te escutava. Tua linguagem era terna, era de céu, quase divino”.
E como a Santa de Lisieux se dirigia a sua Mãezinha? Na poesia número 7, Canto de gratidão à Virgem do Carmo, ela nos ensina:
Desde o primeiro instante de minha vida
me tomaste em teus braços,
e desde aquele momento,
minha amada Mãe,
me proteges aqui na terra.
Para guardar intata minha inocência,
me escondeste em um suave e doce ninho,
guardaste minha infância
à bendita sombra
de um claustro retirado.
E mais tarde, ao chegar
minha juventude em seus primeiros dias,
escutei o chamado de Jesus.
Me mostraste o Carmelo
com inefável ternura.
“Venha imolar-te por teu Salvador
– me dizias, então com doçura –
perto de mim te sentiras feliz,
Venha imolar-te por teu Salvador”
Perto de ti, oh minha terna Mãe,
encontrei a paz do coração,
nesta terra nada mais desejo,
Só Jesus é toda minha ventura.
Se alguma vez me assaltam
a tristeza ou o medo,
em minha debilidade, tu me sustenta
e sempre, minha Mãe, me abençoa.
Alcançai-me a graça de manter-me fiel
a meu divino Esposo, Jesus
Para que um dia
eu escute sua voz doce
quando eu voar me convide a sentar-me
entre seus eleitos.
Então já não haverá
nem desterro, nem mais sofrimento.
Já no céu,
eu voltarei a cantar-te
meu amor e gratidão,
doce e amável Rainha do Carmelo.
Também podemos admirar e constatar a beleza da Mãe pelos dizeres da Beata Elisabete da SS. Trindade que tão bem expressou os seus sentimentos de amor a Virgem do Carmo, quando nos fala: “Quem mais terna, mais misericordiosa que Maria? Ela sofreu tanto por nós! Podia demonstrar-nos de modo melhor o seu amor? Vejo-a contemplando o seu Jesus morto que repousa em seus braços. Quanto sofre esse coração de Mãe! Seria eu capaz de recusar-lhe o meu consolo?”.
Assim, neste dia 16 pedimos a mimosa e admirável flor do Carmelo, Maria, que continue a abençoar com seu manto sagrado e com o Santo escapulário, a todas as suas filhas e filhos carmelitas e a todos que peregrinam rumo a morada celestial.
Professor Hercílio Martelli Júnior e Irmã Maria Teresa Margarida do Sagrado Coração de Jesus, OCD.
Publicado por Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares (OCDS).
“Enquanto na Beatíssima Virgem a Igreja já atingiu a perfeição, pela qual existe sem mácula e sem ruga (cf. Ef 5,27), os cristãos ainda se esforçam para crescer em santidade vencendo o pecado. Por isso elevam seus olhos a Maria que refulge para toda a comunidade dos eleitos como exemplo de virtudes. Piedosamente nela meditando e contemplando-a à luz do Verbo feito homem, a Igreja penetra com reverência mais profunda no sublime mistério da Encarnação, assemelhando-se mais e mais ao Esposo. Pois Maria, entrando intimamente na história da salvação, une em si de certo modo e reflete as supremas normas da fé.”
(Da Constituição Dogmática “Lumen Gentium”, cap. VIII, n. 65).
ORAÇÃO
Ó Deus, que distinguistes a Ordem do Carmelo com o título glorioso da Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de vosso Filho, concedei-nos propício que hoje, na sua presença, possamos, munidos de sua ajuda, chegar ao vértice da sagrada montanha que é Jesus Cristo, Vosso Filho, Nosso Senhor, na unidade do Espírito Santo. Amém.
Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós!
Rezar 1 Pai Nosso e 3 Ave Marias…
LADAINHA DE NOSSA SENHORA DO CARMO
Senhor, tende piedade de nós…
Jesus Cristo, tende piedade de nós…
Senhor, tende piedade de nós…
Jesus Cristo, ouvi-nos…
Jesus Cristo, atendei-nos…
Deus Pai dos Céus,
tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo,
tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo,
tende piedade de nós.
Santíssima Trindade que sois um só Deus,
tende piedade de nós.
Santa Maria… rogai por nós.
Mestra da vida interior…
Caminho seguro na noite escura…
Virgem da fé…
Virgem do Caminho de Perfeição…
Virgem fiel…
Virgem que sabe ouvir…
Mãe das Fundações…
Mãe do abandono perfeito…
Mãe da Pequena Via…
Mãe da caridade…
Mãe da humildade…
Senhora das Moradas eternas…
Senhora do “SIM”…
Senhora do Monte Carmelo…
Fiel esposa de José…
Esposa da Viva Chama de Amor…
Perfeita esposa do Cântico Espiritual…
Estrela do Carmelo…
Flor do Carmelo…
Formosura do Carmelo…
Nossa Senhora da Subida do Monte Carmelo…
Modelo de oração…
Modelo de vida interior…
Caminho que leva a Deus…
Alma enamorada de Deus…
Auxílio dos Carmelitas…
Serva do Senhor…
Sublime filha de Sião…
Esperança dos Carmelitas…
Rainha do silêncio…
Rainha do Castelo Interior…
Rainha do Carmelo…
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo,
perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo,
ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo,
tende piedade de nós.
V. Rogai por nós, Rainha e Formosura do Carmelo.
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
SÃO CAMILO DE LELLIS - Patrono dos Enfermos e Hospitais
No Rio Grande do Sul, residimos por alguns anos em Sapucaia do Sul. Na cidade ao lado, o hospital que atendia o município foi construído por uma ordem camiliana. Passou por várias crises financeiras o Hospital São Camilo. Espero que sua situação atual seja diferente, em honra aos esforços de São Camilo de Lellis, que é lembrado neste dia – 14 de julho.
Casualmente, na cidade que residimos, em Santa Catarina, o hospital do município também se chama “São Camilo”. Também vem atravessando sucessivas crises. Peço a São Camilo de Lellis que interceda junto a Deus e Jesus Cristo para que as Irmãs Camilianas sejam fortalecidas, com a ajuda do Espírito Santo, e que encontrem medidas que sejam saneadoras, em definitivo, dos problemas que vêm enfrentando há muitos anos. Peço a Deus que tudo se dê à altura de seu Patrono. Amém.
Aproveito este momento para pedir que Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Nossa Senhora e São Camilo de Lellis consolem os pais da criança vitimada pela gripe H1N1 em Sapucaia do Sul. Esta criança de nove anos foi internada em hospital de Porto Alegre. Não conhecemos sua família, e pelos meus cálculos era um bebê de colo quando saímos do RS (em 2000).
Meus pais perderam dois filhos, depois de meu nascimento e de meu irmão. Depois vieram minhas duas duas irmãs, ambas na faixa dos 40 anos.
Um deles não resistiu a um grave problema cardíaco e, no outro ano, outro irmãozinho se foi para junto de Deus Pai, em decorrência de pneumonia dupla.Eram bebês, mas receberam nome e batismo. Minha mãe sempre mencionava a ocorrência do aniversário de cada um deles, com muita tristeza. Nunca soube o que dizer, para consolá-la. Certa vez, já na faixa dos 40 anos, me veio à mente falar-lhe o seguinte (meu pai estava ao lado dela): “Mãe, eu creio que eles estão lá no Céu e recebem notícias de vocês pelos Anjos, e rezam, e pedem, sem descanso, que Deus cuide, em especial, de vocês,seus pais. De certo modo, eles são como que “anjos” (pela inocência, ainda que humanos)”. Fiz 49 anos e, já há algum tempo dei-me conta que ela deixou de falar destas duas perdas dolorosas. Certamente lembra do dia em que nasceram, mas tem o vislumbre de que estão junto d’Aquele que protege e ama, incondicionalmente, todas as Suas criaturas.
Por acreditar piamente que meus irmãozinhos estão lá no Céu, peço aos Anjos, neste momento de minha vida, em especial, que levem a eles a premente necessidade de que rezem por mim. Não por egoísmo, e sim, para que eu saiba ouvir a voz de Deus e a esta Voz consiga ser obediente, sem temor de espécie alguma. Os Anjos da Corte Celeste sabem o que precisa ser acrescentado a este pedido especial. Amém.
Como jornalista não me sinto à vontade para revelar o nome da cidade que resido com meu marido, por segurança. A internet, o mundo são lugares perigosos… Que São Bento de Núrcia e Santo Isidoro de Sevilla (Patrono da internet) nos proteja. Talvez seja um excesso de minha parte, mas jamais forneço minha localização exata; apenas a região. Peço a proteção de São Miguel Arcanjo, para que eu continue o caminho a que Deus me conduziu ainda muito jovem, e que proteja a todos de meu convívio. Amém.
Que São Camilo de Lellis continue cuidando lá do Alto dos hospitais, enfermos e enfermas, médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, bem como funcionários e funcionárias. Também há de pedir, em meio à pandemia de gripe H1N1 – que Deus Pai abençoe as consagradas e os consagrados de todas as ordens que administram hospitais. Que jamais desanimem, mesmo diante de todo o fardo. Que, enfim, os “cuidadores” nunca percam de vista sua missão especial, ou seja, cuidado e respeito “magnânimos” para com os doentes. E quanto a estes, em sua fragilidade, que São Camilo lhes conforte na situação de saúde em que se encontrem. Acredito que tudo se dá tal como Santa Teresa de Jesus intitulou em um de seus belos poemas: todos estamos “Nas Mãos de Deus”…
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Fonte: “Cada dia tem seu Santo” (A. de França Andrade) – Internet
Terça-feira, 14 de julho de 2009
São Camilo de Lellis, Confessor
(+ Roma, 1614)
Pertencia a uma nobre família mas, infelizmente, não se portou bem no início da vida. Foi militar e revelou mau caráter, sendo expulso da tropa. Viciado em jogo, perdeu todos os bens e decaiu até à condição de mendigo. Foi nesse ponto que a graça o tocou. Arrependeu-se profundamente de seus pecados e passou a servir, por espírito de caridade, aos doentes pobres em hospitais. Fundou a Companhia dos Servidores dos Enfermos, conhecidos como Camilianos. Foi declarado por Leão XIII – “Patrono dos Enfermos e Hospitais”, juntamente com o português São João de Deus.
Santa Isabel da Hungria: nobreza e resignação heróica no infortúnio
Nos faustos da corte, piedade. Sob a calúnia e a perseguição, magnanimidade. Na opulência, caridade extremada. E, com a morte, a glória dos altares e da felicidade eterna.
Por Roberto Alves Leite
A vida de um santo é uma cruzada épica, em que ele põe todas as suas forças físicas e espirituais em ação. Quer se tenha convertido na maturidade, quer tenha sido aquinhoado desde pequeno com grandes dons, a partir do momento em que decidiu aprimorar-se nas virtudes e combater seus defeitos para alcançar a santidade o aspecto heróico passará a ser uma característica predominante em sua vida. Tal aspecto pode manifestar-se, às vezes, de forma surpreendente. Quando Santa Isabel da Hungria nasceu, em 1207, cessaram todas as guerras em seu país natal. Seu pai, o Rei André II, da dinastia dos Arpades, e sua mãe, Gertrudes de Meran, descendente direta de Carlos Magno, tinham motivos para se alegrar por esta feliz coincidência.
Quatro anos depois, o Duque Herman, da Turíngia, enviou magnífica embaixada à Hungria para solicitar ao Rei a mão de Isabel para seu filho Luís, de onze anos.
Isabel passou a viver então na corte da Turíngia, onde, à medida que crescia, ia manifestando sua profunda piedade, que caracterizava todos os seus atos. Quando atingiu a adolescência, foi alvo de críticas da parte de nobres da corte, que a acusaram de ser muito religiosa, reservada, sem os traços mundanos que eles julgavam necessários para uma duquesa. Também diziam que ela iria arruinar o reino com as esmolas que dava.
Aos 13 anos, casou-se com Luís. Este tinha todas as qualidades de um autêntico cruzado, um verdadeiro defensor da Igreja. Em 1227 partiu para a Terra Santa como cruzado, com a elite de sua cavalaria, viagem da qual não haveria de voltar, pois morreu na mesma.
Hospedada no lugar dos porcos…
Viúva aos 20 anos, Isabel viu então a perseguição abater-se sobre ela e seus quatro filhos, um dos quais recém-nascido. O Duque Henrique, seu cunhado, que jurara protegê-la, expulsou-a do palácio com seus filhos e duas damas de honra, que lhe permaneceram fiéis. E proibiu à população recebê-la em suas casas.
Assim, em pleno inverno, Isabel viu-se obrigada a andar pelas ruas e bater de porta em porta, na esperança de que alguma alma caridosa se dispusesse a recebê-la. Só conseguiu entrar numa estalagem, onde o dono lhe destinou o lugar onde estavam os porcos, que foram removidos para ali ficar com seus filhos uma duquesa e princesa real.
No dia seguinte vagueou desamparada pela mesma cidade onde tantas pessoas se tinham beneficiado das esmolas que distribuíra com a prodigalidade que lhe era peculiar. Finalmente um padre, pobre também, resolve acolhê-la e dar-lhe certa proteção. Para que os filhos não morressem de fome, é obrigada a aceitar o conselho de deixá-los em mãos de outras pessoas.
Aparições do Redentor, de Nossa senhora e de São João Batista
Em sua vida de miséria e desamparo, Isabel sofreu muitas humilhações, tantas vezes vindas daquelas mesmas pessoas a quem muito tinha ajudado quando estavam necessitadas. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo, que a ninguém esquece, aparecia para consolá-la em suas aflições. São João Batista vinha confessá-la, e Nossa Senhora muitas vezes a visitava para a instruir, esclarecer e fortificar. Foi nessa ocasião que decidiu viver apenas para Deus.
Tendo chegado aos ouvidos de seus parentes, na Hungria, as provações por que passava, recebeu ela de seu tio, o Bispo-Príncipe de Bamberg, um castelo à altura de sua posição.
Além disso, os vassalos de seu finado marido, o Príncipe Luís, ao voltarem da Cruzada, dirigiram palavras duras ao usurpador, acusando-o de ter ofendido a Deus e desonrado o Ducado da Turíngia.
Isabel foi então reconduzida aos seus domínios, onde passou a exercer a caridade como desejava; e para melhor fazê-lo, decidiu recolher-se como terceira franciscana.
Virtude heróica: exagero para alguns…
Nesta situação, entretinha-se fiando a lã para dá-la aos pobres. Sua paciência e caridade não tinham limites. Nada a irritava ou descontentava. No atendimento aos doentes, nunca se viu tão maravilhoso triunfo sobre as repugnâncias dos sentidos. Era de espantar ver como a filha de um rei e viúva de um duque tratava os indigentes mais miseráveis. Até pessoas piedosas julgavam que ela exagerava em seus cuidados.
Seu pai, ao saber como vivia, enviou-lhe mensageiros para tentar retirá-la desse “estado miserável”. Ela lhes respondeu que, vivendo assim, era mais feliz que seu pai em sua pompa real. E retomou serenamente seu trabalho de tecer a lã.
Ela sabia unir, com rara felicidade, a vida ativa à contemplativa. Apesar das fatigantes obras de misericórdia a que se dedicava, sempre encontrava tempo para passar longas horas na oração e na meditação.
Era incansável na distribuição de benefícios materiais e espirituais. A um surdo-mudo ordenou, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que dissesse de onde vinha; ao que ele imediatamente obedeceu, contando sua história. Do mesmo modo, cegos, possessos e estropiados eram curados.
Milagres atestam santidade antes e depois da morte
Tinha apenas 24 anos quando Nosso Senhor chamou-a a Si para premiá-la com a glória celestial. Na véspera da morte, sua fisionomia transformou-se. Seu olhar tornou-se resplandecente, manifestando uma alegria e felicidade que cresciam a cada instante. Quando exalou seu último suspiro, um delicioso perfume se espalhou pelo ar, ao mesmo tempo que um coro de vozes do Céu se fez ouvir em cânticos de júbilo. Era o dia 19 de Novembro de 1231.
A notícia de sua morte atraiu verdadeira multidão que desejava contemplá-la pela última vez antes de seu sepultamento. Eram pessoas de todas as condições sociais, que não se constrangiam em arrancar-lhe pedaços das vestes, mechas de cabelo, fragmentos de unhas, etc, guardando-os piedosamente como relíquias.
Para atender a todos foi necessário prolongar a exposição do corpo por quatro dias, durante os quais seu rosto se conservava como o de uma pessoa viva. Na noite que precedeu o enterro, o teto da Igreja se encheu de pássaros desconhecidos, que cantavam melodias inefáveis.
Após sua morte verificaram-se muitos milagres atribuídos à sua intercessão, como a cura de cegos, surdos, leprosos, coxos, paralíticos, etc. Isto suscitou um grande movimento popular pela sua canonização, o que muito contribuiu para que o Papa Gregório IX a elevasse sem demora à honra dos altares, fato ocorrido em tocante cerimônia no dia de Pentecostes, 26 de maio de 1235, decorridos apenas três anos e meio de seu falecimento.
Poucos dias depois, em 1º de junho do mesmo ano, o Papa publicou a bula de canonização, que foi logo enviada aos Príncipes e aos Bispos de toda a Igreja. _______________________
Fonte de referência:
Conde de Montalembert, Histoire de Sainte Élisabeth de Hongrie, Duchesse de Thuringe, Pierre Téqui, Paris, 1930.
“Nada te perturbe, nada te espante, Pois tudo passa, só Deus não muda,
a paciência tudo alcança. Quem a Deus tenha, nada lhe falta,
pois só Deus basta” Santa Teresa de Jesus, Poesias IX.
Natural de Ávila, Espanha, Santa Teresa de Jesus (1515-1582) destacou-se como mística, reformadora, escritora e doutora da Igreja. O que a tornou tão especial, o que fez com que seu nome atravessasse os séculos e ainda hoje desperte apaixonado interesse?1
Santa Teresa escreve sobre sua busca e experiência de amizade com as pessoas e com Deus. Nada abalava sua fé, pois trazia consigo a força do amor apaixonado por Deus. Para Teresa a pessoa é como um castelo habitado pela Trindade (M.I,1-5) à espera do encontro com sua criatura. Nele há muitas moradas, que expressam os distintos níveis da relação que a pessoa tem consigo, com os outros, com Deus e com o mundo. O conhecimento próprio é essencial para essa viagem interior. “A porta para entrar nesse castelo é a oração e reflexão” (MI). Nesse processo, Teresa adverte para não ficar olhando para as misérias humanas, e sim para o Cristo, o grande amigo. É um dinamismo onde a pessoa reconhece sua identidade e o mistério da sua liberdade. Teresa adverte que, quando a pessoa se nega ao Amor, está se fechando em si mesma (M.I,6-8). E, para fazer frente a uma antropologia egocêntrica, Teresa propõe um dinamismo de êxodo – a pessoa deve entrar dentro de si, autoconhecer-se, aceitando a própria realidade como também a realidade alheia. A imagem do castelo interior expressa um dinamismo dialético de integração entre interioridade e exterioridade levando a pessoa a sair de si mesma, vivendo numa relação progressiva de entrega, partilhando seus dons, criando novas relações.
Outra imagem teresiana para expressar o processo de caminhada da pessoa em relação a Deus, é a do bicho-da-seda. Através do símbolo da transformação do bicho-da-seda numa formosa borboleta, Teresa quer expressar o chamado à transformação em Cristo (M.II,2). Supõe um caminho de morte-vida, ganhos e perdas, segundo a lógica do seguimento, trilhado com Cristo e em Cristo. É na vivência do amor que a pessoa integra todas as suas potencialidades. As crises e contradições podem converter-se em lugar de encontro. A pessoa, sabendo-se amada, responde amando. Sente-se convidada a conhecê-Lo, amá-Lo, torná-Lo conhecido e amado.
Na analogia teresiana, a pessoa que começa a tratar de amizade com Deus “deve fazer de conta que começa a plantar uma horta em terra muito infrutífera, que tem muitas más ervas, para que nele se deleite o Senhor. Sua Majestade arranca as más ervas e vai plantando as boas” (V11,6). A própria pessoa é a horta, exposta às intempéries. Ela mesma deve cultivar o terreno, preparar a terra para que esteja em condições de acolher a água da chuva. Essa água é dom de Deus, o Jardineiro. Teresa sabe que o seguimento de Cristo é uma opção pessoal, mas também é dom e graça. O símbolo do cultivo da horta é um convite para a escuta, o silêncio, a acolhida, a espera e o reconhecimento do dom gratuito de Deus.
A imagem teresiana da amizade talvez seja a que melhor expressa a experiência teresiana da oração como relação viva e interpessoal com Deus. Supõe amor, intimidade, reciprocidade, realismo e capacidade de relação com as pessoas. Sem esses elementos, é muito difícil que a pessoa possa integrar as suas diversas dimensões. Para falar com Deus não é necessário ir ao céu, nem falar em altos brados. Ele está tão perto que ouvirá, basta pôr-se em solidão e olhar para dentro de si” (C28,2).
Teresa também faz analogia com a imagem da pessoa apaixonada. A vida não é senão entrega e doação apaixonada e apaixonante. É importante observar que Teresa não se fecha num intimismo (CcXXV). A máxima interioridade é ao mesmo tempo compromisso com o mundo, solidariedade com a humanidade: “O Senhor quer obras” (M5). Na oração, “o importante não é pensar muito, mas amar muito. E, assim deveis fazer o que mais vos desperta o amor” (M.IV,7). “O amor de Deus consiste em servi-Lo com justiça, fortaleza e humildade”.
Teresa, mulher que soube enfrentar muitas dificuldades, nos estimula: “que os vossos pensamentos sejam sempre de muita coragem, pois disso depende que sejam as obras”.
Para esta mulher, que amou e experienciou a humanidade de Cristo, Deus é aquele que sempre nos espera. Não encontrar-se com Ele é “uma pena, muita pena” diz ela.
A imensa capacidade que Teresa de Ávila teve em apaixonar-se – por si mesma, pelas pessoas, em seguida por Deus, depois pela humanidade – e manter-se viva por meio da capacidade de doar-se de diversas maneiras fez com que seu nome e sua obra tenha significado na atualidade.
Irmã Rita Milan Romio
ritamromio@hotmail.com
Irmãs Teresianas – Bairro São Cristóvão –
Tel.: (42)30357079 – Guarapuava/PR
1.A popular Santa Teresinha (+1897), francesa, foi discípula de Teresa de Ávila.
O autor do texto abaixo é Everth Queiroz Oliveira, 14 anos. É estudante, e em seu blog “Ecclesia Una” se afirma como “Cristão Católico”. Admito que fiquei impressionada com o conteúdo geral do blog deste menino. Ele toca em um assunto que considero muito importante: “um católico/cristão” pode fazer parte da Maçonaria, ou integrar a Ordem Demolay?
É autor do post abaixo, em que fala da “Solenidade de São Pedro e São Paulo”. Em seu blog apresenta o bispo de sua Diocese – Ituiutaba (MG) – Dom Francisco Carlos. Ele, Everth – se descreve assim: “Uma mente medieval em meio ao mundo moderno“.
Peço a Deus-Pai que abençoe este menino extraordinário em seus caminhos, iluminando sempre seus passos. Que não perca a humildade (cheia de devoção) que transparece em seus escritos e em seu olhar. Que a oração seja o seu escudo no “bom combate”. Amém.
A Igreja Universal celebra no dia de hoje a Solenidade de São Pedro e São Paulo, as colunas da Santa Sé. Trata-se de uma das mais importantes festividades da Igreja, onde se lembra – liturgicamente falando – a fundação da Igreja Católica. “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). De fato, aqui tudo começou: o ministério apostólico, a missão evangelizadora dos cristãos, a pregação da doutrina. Com essas palavras de Jesus, a Igreja começava a se formar e é hoje que celebramos mais um aniversário da Igreja. Sim. São quase 2000 anos de história, de lutas, de conversões, de testemunhos, de santidade, de vida, de fé.
Quando passamos a observar a dimensão da Igreja Católica no mundo, observamos o quão grandes somos. Em particular, cada um de nós é um ser humilde, simples; no entanto, por meio da união, evidencia-se na Igreja cristã um Pai Nosso, de todos nós, que protege e guarda o Sumo Pontífice Bento XVI, os cardeais e bispos do mundo inteiro, além, é claro, dos sacerdotes e leigos responsáveis por combatero depósito da fé. De fato, não dá para pensar em Igreja Católica sem se lembrar da figura sempre atuante de Jesus Cristo. Com efeito, a própria Igreja é o Corpo de Cristo. Fundada por Ele, ela segue seu ministério com amor, empenho e dedicação. Não se aflige com os pecados dos seus ministros, pois sabe que esses pecados não interferem e nem mancham a santidade da Igreja, que é, segundo São Paulo, “sem mácula, sem ruga” (Ef 5,27).
Nós, que somos católicos, sentimos um imenso orgulho em participar da união católica, que é evidenciada e completada pelo banquete nupcial: a Eucaristia. E a Igreja é a única a conter esse mistério inefável. O Corpo e o Sangue de Jesus estão verdadeiramente na Santa Sé, na Igreja; e Ela é a única a manter em sua doutrina esse tão belo tesouro. Não existe, aliás, riqueza maior do que Jesus Eucarístico. A plenitude da fé, do amor, da caridade e da santidade só pode acontecer no Santo Sacrifício da Missa, onde celebramos a Eucaristia. Nesse sentido, celebramos a Missa de aniversário da Madre Fiel e pura.
E por que é tão importante celebrar, no contexto da fundação da Igreja, os apóstolos Pedro e Paulo? Eles, de fato, foram personagens de suma importância para a história da difusão da fé cristã no mundo. Primeiramente, Pedro, onde Jesus decidiu edificar a sua Igreja. Segundo a tradição católica, cremos que São Pedro foi o primeiro papa da Igreja. Da mesma forma, quando falamos disso, não podemos nos esquecer de São Paulo, que tem na Bíblia Sagrada cartas de uma riqueza espiritual incomensurável. São exortações ricas em ensinamentos e conselhos de um homem que experimentou a mais bela conversão da Sagrada Escritura. Aliás, foi a primeira conversão cristã da Bíblia depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Observa-se aqui a importância da festividade dos dois santos.
Ela é analisada não só quando pensamos nos fatores históricos, mas principalmente quando partimos para a liturgia que hoje nos propõe a madre Igreja. A primeira leitura mostra como o Espírito Santo estava com Pedro. Foi ele preso por pregar o Evangelho de Jesus. E aqui é importante pensar que todos os apóstolos – com exceção de São João – morreram martirizados. São Pedro inclusive foi crucificado, assim como Jesus. A missão apostólica naqueles tempos era muito difícil. Preso, São Pedro viria a ser morto. Mas Deus ainda precisava dele para a pregação do Evangelho. Por isso mandou-lhe um anjo para que o libertasse da prisão. Só depois, contudo, ele veio a reconhecer aquilo: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!” (At 12,11).
Ainda na primeira leitura, a Pedro o anjo exclama: Levanta-te depressa! Quantos de nós hoje não estamos presos, caídos pelas perseguições do mundo, pelo desânimo que nos impõe o demônio por meio do pecado, da tristeza e do desespero? Nesse momento, Jesus está incessantemente a nos chamar, assim como chamou a Pedro: “Levanta-te!” Não é hora de ficar parado. Deus nos escolheu para sermos vencedores, para batalharmos por Ele. E isso para que depois possamos dizer com Paulo: “Combati o bom combate, (…) guardei a fé” (2Tm 4,7). Depressa: agora é a hora. Precisamos nos converter, nos levantar, mudar de vida? Sim. Mas quando? Agora. E por que agora? Justamente porque não sabemos a hora que Jesus virá para julgar. Deus não quer chegar e nos ver caídos na lama do pecado e do desespero. É mister que estejamos de pé, firmes, para a hora da volta de Cristo.
* * *
Na segunda carta de São Paulo a Timóteo, o apóstolo dos gentios deixa aos leitores da Bíblia uma mensagem final. Se aproximava o momento de sua morte, de seu encontro com Deus. Era realmente momento de ir – e ele bem sabia -, de partir ao encontro do Pai: “eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida” (2Tm 4,6). Mas, de se queixar ele não tinha nada. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Essa frase de São Paulo ao final de sua vida mostra a nós que todo aquele que quer seguir Jesus e pregá-Lo precisa assumir o compromisso de travar um combate contra as trevas. Catolicamente falando, o missionário cristão deve estar com o “escudo da fé” (cf. Ef 6,16) para combater as heresias do mundo moderno e também as insídias armadas por Satanás para destruir a Santa Igreja de Deus.
Esse ato de combater o bom combate é de uma valentia que Jesus admira em seus combatentes. Somos, em meio a esse mundo, verdadeiros “cruzados cristãos”, pessoas que lutam para guardar a fé, para vencer o medo, vencer o mundo, vencer o demônio. Nesse sentido, lembro-me de ter lido uma radiomensagem do Papa Pio XII, no natal de 1942, sobre o assunto. Na ocasião, ele dizia:
29. O preceito da hora presente não é lamento, mas ação; não lamento sobre o que foi ou o que é, mas reconstrução do que surgirá e deve surgir para o bem da sociedade. Pertence aos membros melhores e mais escolhidos da cristandade, penetrados por um entusiasmo de cruzados, reunirem-se em espírito de verdade, de justiça e de amor, ao grito de “Deus o quer”, prontos a servir, a sacrificar-se, como os antigos cruzados. Se então se tratava da libertação da terra santificada pela vida do Verbo de Deus encarnado, hoje trata-se, se assim podemos falar, de uma nova travessia, superando o mar dos erros do dia e do tempo, para libertar a terra santa espiritual, destinada a ser a base e o fundamento das normas e leis imutáveis para as construções sociais de interna e sólida consistência.
Quando falamos de ser cruzados – que ninguém interprete isso mal – proclamamos a sua coragem, sua fé, sua vontade em combater o bom combate. A construção da Igreja de Deus precisa da vitória nos combates. Ah! E como precisamos de missionários cada vez mais compenetrados pelo amor de Cristo e empenhados em guardar a fé, se preciso for até morrendo pela Igreja!
É esse o exemplo que nos deixa São Paulo Apóstolo. De perseguidor dos cristãos a combatente da fé: esse homem deixa-nos uma lição de vida que deve ser seguida por todos. Com efeito, é só tendo uma vida como a de Paulo que poderemos dizer: “Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia” (2Tm 4,8). Sim, porque “a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa” será concebida a herança eterna, recompensa de nossas boas atitudes, da fidelidade ao combate de Cristo.
Enfim, chegamos ao Evangelho. E nele observamos a passagem em que Pedro proclama sua fé. Jesus pergunta quem pensam os apóstolos que Ele é. Pedro toma a palavra e responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!” (Mt 16,16). É essa confissão de fé que Pedro profere faz com que Jesus dê a ele as chaves do Reino de Deus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,18-19).
Aqui Jesus Cristo edifica sua Igreja. Pede a Pedro que guarde a fé de sua Igreja, por isso a ele confia as chaves do Reino. Esse ato de dar as chaves do Reino representa a infalibilidade papal, dogma proclamado oficialmente pela Igreja no Concílio Vaticano I. Veja, meu irmão, essa é a prova bíblica que comprova que quando um Papa trata sobre um assunto de fé e moral, ele não pode errar. Hipocrisia isso? Não. O Espírito Santo foi garantido por Jesus ao Sumo Pontífice, portanto, quando esse vai instruir os fiéis, não erra. E é por isso que as portas do inferno non praevalebunt. Não prevalecerão e nem prevaleceram. E olha que isso já faz 20 séculos! A Igreja, construída sobre a rocha está firme até hoje porque foi fundada por Jesus Cristo, que por sua vez declarou que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja de Deus. Ora, se ela persistiu de pé durante 2000 anos é porque Jesus o garantiu!
Sobre São Pedro, sobre São Paulo, cujas histórias de vida nos recusamos a contar de tão grande é esse belo testemunho, foi construída e edificada a Igreja de Deus. É por meio dela que alcançamos a salvação que Deus tanto quer que recebamos. Ouçamos a voz infalível do Magistério da Igreja, escutemos o que tem a nos falar Jesus Cristo por meio desse tão nobre sacramento de Salvação. Celebremos com a Madre Igreja essa festa tão bela e alegre! Que a Santíssima Virgem Maria continue a cobrir a Igreja com seu manto de amor. Amém.
Os dias correm, e apesar de acompanhar os tempos, não admito que minha vida seja vivida em “tempo real”… O dia dedicado à memória de Santo Eliseu transcorreu no dia de ontem, dia 14 de junho. Entretanto, a cultura que denomino de “correria” depõe contra tudo que há de melhor na vida… A informação em “tempo real” não é um mito dispensável quando está a serviço de buscas, resgates, ou jornadas de personalidades importantes para a melhoria de vida de todos os seres humanos. Ou seja, a cobertura “on line” dos passos de papas, presidentes, ou encaminhamento de conferências de paz ou de pactos de proteção ambiental, entre outras ações, são vitais para as nossas vidas, tanto no plano material, quanto no afetivo e espiritual. Afora isto, devíamos buscar a “desacelaração” – como já está sendo proposta em alguns países da Europa.
Estava intrigada com algumas pesquisas que apontavam o Profeta Eliseu como “o duplo espírito de Elias”. Encontrei a pesquisa abaixo, que resulta fascinante. Para mim, frei Wilmar Santin (O.Carm.), ao trazer tantas referências, traz algumas pistas para a recente evocação do “Ano Sacerdotal”, pelo papa Bento XVI.
Frei Santin apresenta uma encantadora descrição do sentido do Carmelo como um todo. Menciona o que Santa Teresa de Ávila pensava sobre a vida, a missão de Santo Eliseu. Também inclui a singela analogia, cheia de convicção que Santa Teresinha do Menino Jesus, faz em Lisieux, a partir de sua cela chamada Santo Eliseu (no dormitório Santo Elias), invocando a Deus o “dobro do seu espírito”…
Este frei carmelita nos traz também a riqueza da história carmelitana, através das sutis interpretações – ao longo da história cristã – da vida destas duas pessoas impregnadas pelo Espírito de Deus, e com absoluta entrega. Os dois profetas e santos são inseparáveis na essência ao amor a Deus-Pai, que criou tudo em espírito de Justiça e Misericórdia. Um deles, arrebatado aos céus no relato do Antigo Testamento – Santo Elias Profeta é visto por seu seguidor – Santo Eliseu Profeta, a quem deixa o manto e a continuidade da missão no Monte Carmelo…
O ciclo de Eliseu (2Rs 2-9.13,1-10) está ligado com o de Elias. A vocação de Eliseu está colocada após a teofania do Horeb (1Rs 19,16-21). Segundo a ordem divina, ele é aquele que deve suceder ao Tesbita. Por isso torna-se seu servidor e discípulo (2Rs 2,1-18). Pelo fato de acompanhar e ser testemunha do rapto de Elias, Eliseu herda o duplo espírito do Tesbita (2Rs 2,1-18). O carro e os cavalos que raptaram Elias constituem a escolta invisível de Eliseu (2Rs 6,17). Numerosos milagres e prodígios exaltam “o homem de Deus”, o taumaturgo a serviço dos pobres e que intervém na política. Morto, o seu cadáver ressuscita um morto (2Rs 13,20-21). No livro do Eclesiástico, o seu elogio segue o do seu mestre (Eclo 48,12-14) e recorda o dom do espírito de Elias que recebeu durante o rapto. Entre as suas obras maravilhosas é indicada a ressurreição de um morto após a sua morte. A cura de Naamã, o Sírio, é recordada no Evangelho (Lc 4,27), também depois de recordar Elias.
Por duas vezes a Bíblia menciona a estada de Eliseu no Monte Carmelo: para lá ele se retira após o episódio dos meninos devorados pelos ursos (2Rs 2,25) e ali a sunamita vai encontrá-lo para suplicar-lhe que devolva a vida ao seu filho (2Rs 4,25). Uma gruta com dois patamares era considerada como a “casa de Eliseu”, aquela onde ele recebeu a visita da sunamita. Ali foi construída uma laura (cenóbio) bizantina conhecida como Mosteiro de S. Eliseu.
Nascimento de Eliseu
O provincial carmelita da Catalunha, Felipe Ribot (+ 1392), recorda o prodígio que acompanhou o nascimento de Eliseu, assim como foi contado por Isidoro de Sevilha e Pedro Comestor: “ao nascimento de Eliseu um dos novilhos de ouro adorados pelos filhos de Israel mugiu atravessando o jardim de Eliseu. Um sacerdote do Senhor o escutou em Jerusalém e, inspirado por Deus, proclamou: ‘nasceu em Israel um profeta que destruirá todos os ídolos esculpidos e fundidos”. Só João de Hornby, carmelita inglês do século XIV, indica que Eliseu era descendente de Arão, como Elias, enquanto que a Vitae Prophetarum e Isidoro mencionam “a tribo de Rubem”.
Eliseu, figura de Cristo
Como Elias, Eliseu é apresentado pelos Padres da Igreja como figura de Cristo enquanto taumaturgo. Já Orígenes chamava Cristo “o Eliseu espiritual que purifica no mistério batismal os homens cobertos pela sujeira da lepra” (Hom. sobre Lucas 33,5). Eliseu estendendo-se sobre o menino anuncia a Encarnação de Cristo que se faz pequeno para salvar-nos. O vaso novo lançado com sal na água (episódio amplamente desenvolvido pelos Padres Latinos), o sal que purifica as águas, o machado recuperado, são figuras de Cristo. Multiplicando os pães de cevada para cem pessoas, iluminando os olhos do seu servo e cegando os de seus inimigos, curando Naamã com o banho no rio Jordão, Eliseu é ainda figura do Messias. A ressurreição de um morto ao contato com os seus ossos prefigura da descida de Cristo aos infernos para dar vida aos mortos. No sermão 128 de Cesário, a viúva libertada da sua indigência, graças ao milagre operado por Eliseu, prefigura a Igreja libertada do pecado à vinda do Salvador; a sunamita estéril, que concebe pela oração de Eliseu, é também figura da Igreja estéril antes da vinda de Cristo. Igualmente João Baconthorp (+ 1348) faz o paralelo entre os milagres de Elias e de Eliseu com os de Jesus (Speculum 2).
Eliseu, modelo do monge
Numerosos Padres da Igreja atestam a virgindade de Eliseu seguindo a de Elias. Para São Jerônimo “na Lei antiga, a fecundidade era objeto de bênção. Mas pouco a pouco entretanto, na medida em que a messe se torna mais abundante, foi enviado um ceifador: Elias que foi virgem. Eliseu também o foi, como do mesmo modo os filhos dos profetas” (Ep. 22). Os carmelitas medievais reproduziram estas linhas insistindo sobre o fato que Elias e Eliseu foram os primeiros a consagrarem-se a Deus na virgindade. Pe. Daniel da Virgem (+ 1678) explica que o celibato honra e imita por antecipação a Virgem Maria: “Eliseu conheceu antecipadamente e imitou a pureza da Virgem Mãe de Deus” (Vida de Santo Eliseu, pref.).
A oração tem um papel primordial na vida de Eliseu: é a fonte dos milagres que o Senhor faz através dele. No texto bíblico, isto é expresso explicitamente através da ressurreição do filho da sunamita, por isto o Senhor abre os olhos do seu servo para cegar os arameus. Os Padres da Igreja acentuam ainda mais o papel da oração: ele obtém um filho para a sunamita, faz submergir o machado caído na água do rio Jordão. Assim através de Eliseu os carmelitas fazem jorrar o seu apostolado pelo colóquio com Deus.
A renúncia inicial de Eliseu, que sacrifica os bois e o arado antes de seguir Elias, é um exemplo de exortação para se afastar das preocupações mundanas (Jerônimo, Ep. 71,3). A recusa dos presentes de Naamã fornece aos Padres um belo exemplo de afastamento dos bens. Para Cassiano, Eliseu é um dos fundadores do monaquismo e, de modo especial, um mestre da pobreza (Inst. 7, 14,2).
Amona (século IV), discípulo de Antonio o Grande, canta todos aqueles que obedeceram aos seus pais, cumprindo a sua vontade com a obediência perfeita em tudo. Eliseu é um dele (Ep. 18). Isaías de Scete (+ 491) exorta à obediência com o exemplo de Eliseu (Asceticon 7). A homilia bizantina mais freqüentemente indicada para a festa de Santo Elias é um comentário sobre o Profeta Elias, o Tesbita, atribuída a São João Damasceno, sem dúvida provém do ambiente monástico. A menção de Eliseu põe em relevo a sua ligação total a Elias: “Tendo deixado tudo, casa, campos, bois, ele o segue, servindo-lhe em tudo e totalmente ligado à sua pessoa. Elias, que viveu dali em diante com Eliseu a quem havia também consagrado profeta segundo um oráculo divino, estava dia após dias reunido com ele sob o mesmo teto, compartilhando o mesmo estilo de vida, absolutamente inseparáveis”.
Atanásio de Alexandria, na vida de Antão, mostra que Eliseu via Giezi distante e as forças que o protegiam porque o seu coração era puro, escopo de toda ascensão monástica. João Baconthorp considera em Eliseu o carmelita aplicado à contemplação que “vê” Deus, destinado a trazer no seu coração a chama ardente e irradiante e a palavra de vida, como Maria, e a imitação de Elias e de Eliseu que viveram a vida contemplativa no Carmelo (Laus 2,2). Pe. Daniel da Virgem na sua Vida do Santo Profeta Eliseu reassume os papéis respectivos de Elias e de Eliseu: “Inaugurando a vida religiosa, monástica e eremita, Elias a plantou, Eliseu depois a irriga e grandemente a divulga”.
Eliseu, discípulo de Elias
Nas Antiguidades Judaicas de Flávio Josefo e em numerosos escritos patrísticos seja do Oriente como do Ocidente, Eliseu está constantemente presente como discípulo de Elias, seu filho espiritual, seu herdeiro. Jacques de Saroug (449-521), autor de sete discursos em métrica que representam longamente a figura de Eliseu e a sua mensagem, utiliza diversos epítetos. Igualmente Máximo de Torino (+ 408/423), de quem duas homilias se referem a Eliseu: “Porque se admirar que os anjos, que levaram o mestre, levam o discípulo (…)? De fato ele mesmo é o filho espiritual de Elias, herdeiro da sua santidade” (Sermão 84). Os Diálogos do Papa Gregório Magno muitas fazem eco às façanhas de Eliseu. Se a “rubrica prima” das Constituições de 1289 se contenta de justapor Elias e Eliseu, João de Cheminot, depois João de Venette especificam que Eliseu é “discípulo” de Elias. Porém as Constituições de 1357 foram assim modificadas: “A partir do Profeta Elias e de Eliseu, seu discípulo”.
Eliseu, o discípulo por excelência
Eliseu não é discípulo de Elias somente. Seguindo a tradição hebraica que se encontra nas Vitae prophetarum, na introdução de São Jerônimo em seu Comentário ao livro de Jonas e algum outro escrito patrístico, Jonas seria o filho da viúva de Sarepta, ressuscitado pelo profeta e que se tornou discípulo de Elias: “Jonas, depois da sua morte, foi ressuscitado pelo profeta Elias: o seguiu, sofreu com ele e, por sua obediência ao profeta, mereceu receber do dom da profecia” (Sinassário árabe jacobita de 22 de setembro). João Baconthorp conhecia esta tradição que provém de São Jerônimo. João de Cheminot, seguindo Felipe Ribot, indica como primeiro discípulo o servo que Elias deixou em Bersabéia, quando fugia de Jesabel (1Rs 19, 3). Este servo é aquele que Elias enviou ao cume do Monte Carmelo para observar a chegada da chuva (1Rs 18, 43).
Segundo as Vitae prophetarum, Abdias, o intendente de Acab que escondeu os cem profetas em grupos de cinqüenta, enviado por Acazias, (1Rs 18, 3-4) tornou-se discípulo de Elias. Teodoro Bar-Koni, autor nestoriano do século VIII, especifica que ele recebeu o dom da profecia após ter seguido Elias. Os carmelitas medievais enumeram Abdias entre os grandes discípulos de Elias.
Felipe Ribot é o único carmelita do século XIV a mencionar o profeta Miquéias como discípulo de Elias.
Para Cheminot e Ribot, Eliseu ocupa o primeiro lugar no grupo dos discípulos do Profeta Elias.
O duplo espírito de Elias
Eliseu é o sucessor de Elias que recebeu o seu duplo espírito, quando viu seu rapto (2Rs 2, 9-13). De acordo com uma tradição hebraica, Eliseu realizou 16 milagres, enquanto que Elias havia feito 8. A partir do século XII, Ruperto de Deutz fez o mesmo cálculo (A Vitória do Verbo de Deus). Para São Jerônimo, o duplo espírito se manifesta com os milagres maiores. Para Felipe Ribot, o duplo espírito é o dom da profecia que consente prever o futuro e o dom dos milagres: «Eis porque lhe dá a direção do magistério espiritual de todos os religiosos que tinha instituído. Como sinal disto, ele deu a Eliseu o seu hábito como sinal distintivo do seu instituto, deixando-lhe o seu manto, quando foi levado ao céu» (nº 149). A partir do século XVI, outros – como Pedro da Mãe de Deus, carmelita descalço holandês – vêem no duplo espírito o espírito da contemplação e da ação: «Os discípulos do Carmelo (…) estão obrigados por vocação a pedir sempre a Deus o duplo espírito de Elias (…), isto é, o espírito de oração e de ação, o verdadeiro espírito do Carmelo» (As Flores do Carmelo).
Santa Teresa de Ávila evoca juntos Elias e Eliseu numa poesia: «Seguindo o Pai Elias, nós combatemos a nós mesmas, com a sua coragem e o seu zelo, ó Monjas do Carmelo. Após ter renunciado a nosso prazer, busquemos o forte Espírito de Eliseu, ó Monjas do Carmelo» (Caminho para o céu). Notemos que na sua correspondência ou nas Relações, Santa Teresa designa frequentemente com o nome de Eliseu o seu caro filho, Pe. Jerônimo Gracián.
Em Lisieux, Santa Teresa do Menino Jesus, que morava na cela Santo Eliseu do dormitório Santo Elias, muito naturalmente alude ao duplo do espírito: «Recordando-me da oração de Eliseu ao seu pai Elias, quando ele ousou pedir-lhe o dobro do seu espírito, me apresentei diante dos Anjos e dos santos, e lhe disse (…) ouso pedir-lhes que me concedam o dobro do vosso amor» (Ms B 4r).
Prior dos filhos dos profetas
O apologista São Justino se refere ao episódio do ferro do machado caído na água que Eliseu fez boiar com um pedaço de madeira (2Rs 6, 1-7). Onde o texto bíblico diz simplesmente que os filhos dos profetas queriam construir um lugar de moradia, Justino precisa que estes estavam cortando a madeira destinada pra construir «a casa para aqueles que queriam repetir e meditar a lei e os preceitos de Deus» (Diálogo com Trifão, 86). Esta paráfrase se tornará no século XIII o coração da Regra dos carmelitas que se consideram os sucessores dos filhos dos profetas para «meditar dia e noite na lei do Senhor».
Gerado à vida pelo Espírito de Elias, Eliseu pode por sua vez gerar filhos, chamados na Bíblia de «filhos dos profetas». Teodoreto de Ciro apresenta Eliseu à testa do «coro» dos profetas que o consideravam como «prior» deles (Quaest 4 Re 6, 19).
Felipe Ribot mostra como Eliseu é reconhecido «pai» dos filhos dos profetas: «Vendo Eliseu revestido do hábito de Elias, reconheciam que estava repleto do espírito de Elias e o receberam imediatamente como pai deles e mestre no lugar de Elias» (nº 149). Ele ensina aos filhos dos profetas, dá a eles ordens, organiza a comunidade religiosa instituída por Elias. Igualmente para João Soreth, após a ascensão de Elias, os filhos dos profetas «o veneraram, como superior deles, porque substituía Elias no governo dos eremitas».
Os caçoadores de Eliseu
Segundo a Haggadah, os caçoadores de Eliseu não são meninos, mas adultos que se comportam como meninos tolos. O número de pessoas devoradas pelos dois ursos corresponde então aos 42 sacrifícios ofertados por Balac (Nm 23). Os Padres Latinos não se referiram a esta tradição e dão uma interpretação anti-hebraica: Vespasiano e Tito – os dois ursos – aniquilaram Jerusalém 42 anos após a Paixão de Cristo, escarnecido pelos hebreus. Por outro lado o grito «sobe, careca» é um insulto a Elias para transformar em chacota o seu rapto. João Baconthorp pensa nos detratores da Ordem: Eliseu ensina o respeito devido à antiguidade da Ordem como para cada forma de velhice (Laus 2, 1).
A sepultura de Eliseu
Um tradição hebraica tardia, bem atestada na Patrística (Jerônimo, Egéria, Anônimo de Piacenza, Isidoro de Sevilha, Beda o Venerável), localiza a tumba de Eliseu em Sebaste na Samaria, com as tumbas de Abdias e de João Batista. Os carmelitas da Idade Média (João de Cheminot, Speculum 1; João de Hildesheim, Diálogo) conheciam esta tradição. A sepultura de Eliseu foi violada por Juliano o Apóstata no século IV. Parte dos ossos foi transferida para Alexandria e para Constantinopla, e dali para Ravenna em 718 e colocada na igreja de São Lourenço. No Capítulo Geral de 1369, autorizou-se a Ordem a fazer investimento econômico para obter as relíquias de Eliseu. A igreja foi destruída em 1603 e se ignora a sorte das relíquias, entretanto se mostra na igreja de Santo Apolinário a cabeça de Santo Eliseu.
Culto litúrgico
O primeiro decreto oficial aprovando a festa de Santo Eliseu para o dia 14 de junho, data na qual o profeta é festejado no rito bizantino, se encontra nas Constituições de 1369. Foi promulgada no Capítulo Geral de Florença de 1399. Em 1564 se adicionou uma oitava à celebração da festa. No calendário da Reforma Teresiana, em 1609, a memória de Eliseu recebe a categoria de festa de primeira classe, mas em 1617 foi reduzida à condição de segunda classe, com oitava, e depois abandonada em 1909. As Constituições O. Carm. de 1971 determinavam: “Com oportuna solenidade sejam celebradas as festas dos pais da Ordem Elias e Eliseu, do protetor S. José e dos nossos santos” (nº 72). Mas na reforma litúrgica de 1972, Eliseu foi excluído do calendário dos dois ramos do Carmelo. Por solicitação dos Carmelitas da Antiga Observância, a re-introdução da memória de Santo Eliseu foi aceita pela Sagrada Congregação do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos em 1992.
Conclusão
Elias e Eliseu são considerados o ponto de partida de uma sucessão ininterrupta de monges no Antigo Testamento e depois no Novo Testamento, antes de serem mais simplesmente os inspiradores dos Carmelitas dos quais estes querem ser seus imitadores e ainda mais seus filhos. A devoção ao profeta Eliseu conheceu um eclipse de uns 30 anos após o Concílio Vaticano II: a reforma litúrgica do Próprio do Carmelo não conservou a sua festa, as Constituições O. Carm. (1971) e as dos Carmelitas Descalços (1991) nomeiam o profeta Elias somente quando se referem à tradição bíblica da Ordem. Por sorte, diversos estudos o recolocaram no seu lugar (Carmel 1994/1). As Constituições O. Carm. de 1995 dizem: “O Carmelo celebra, com especial devoção, os seus Santos, colhendo neles a expressão mais viva e genuína do carisma e da espiritualidade da Ordem ao longo dos séculos. Com particular solenidade, sejam celebradas a festividade de Santo Elias Profeta, a memória de S. Eliseu Profeta e as festas dos protectores da Ordem, a saber, S. José, S. Joaquim e Santa Ana” (nº 88).
De fato o Carmelo reconhece como seus inspiradores, não só o Tesbita, mas juntos Elias e Eliseu, porque nesta mesma relação se manifesta o carisma do Carmelo.
E vendo [Jesus] as companhias, subiu a um monte; e assentando-se, chegaram-se a ele seus Discípulos.
E abrindo sua boca, ensinava-os, dizendo:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os tristes, porque eles serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.
Bem-aventurados os que hão fome e sede [da] Justiça, porque eles serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.
Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vosoutros, quando vos injuriarem, e perseguirem, e contra vós todo mal falarem, por minha causa, mentindo.
Gozai[-vos] e alegrai[-vos] que grande [é] vosso galardão em os céus.
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Apresento abaixo o relato da Agência Ecclesia sobre o que os palestrantes “pensaram” quanto ao uso da liberdade, após 34 anos do fim da ditadura militar em Portugal. A 5ª Jornada da Pastoral da Cultura aconteceu em Fátima, no dia 05 de junho de 2009, sob a coordenação do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC)-Portugal. Antes, procurei dar o contexto da 5ª Jornada da Pastoral da Cultura, que teve como foco “Elogio à Liberdade”, ou seja, se trata de um país – Portugal – que comemora mas reflete sobre a condição de “liberdade”, ou seja, como usufruem dela, após 48 anos de ditadura sob o regime de Salazar. Daí porque faço menção, logo abaixo, à Revolução dos Cravos.
Revolução dos Cravos é o nome dado ao golpe de estado militar que derrubou, num só dia, sem grande resistência das forças leais ao governo – que cederam perante a revolta das forças armadas – o regime político que vigorava em Portugal desde 1926.
ANTECEDENTES
Na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, foi implementado em Portugal um regime autoritário de inspiração fascista. Com a Constituição de 1933 o regime é remodelado, auto-denominando-se Estado Novo e Oliveira Salazar passou a controlar o país, não mais abandonando o poder até 1968, quando este lhe foi retirado por incapacidade, na sequência de uma queda em que sofreu lesões cerebrais. Foi substituído por Marcelo Caetano que dirigiu o país até ser deposto no 25 de Abril de 1974.
O levantamento, também conhecido pelos portugueses como 25 de Abril, foi conduzido em 1974 pelos oficiais intermédios da hierarquia militar (o MFA), na sua maior parte capitães que tinham participado na Guerra Colonial. Considera-se, em termos gerais, que esta revolução trouxe a liberdade ao povo português (denominando-se “Dia da Liberdade” o feriado instituído em Portugal para comemorar a revolução). Fonte: Wikipédia – Revolução dos Cravos.
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Quanto aos cravos, há o registro histórico de que um soldado recebera de uma florista, bem cedo, naquela manhã de 25 de abril um cravo vermelho, e este o colocara na ponta do fuzil. O gesto foi repetido por todo o pelotão. As fotos revelam a face inusitada e poética da libertação de um regime tirânico. Certamente deu o “tom” para a reação à esta ditadura quase cinquentenária, que foi deposta sem manifestações de violência. No entanto, o povo português foi mais longe naquele dia. A participação popular foi paradoxalmente ousada e pacífica neste levante. Após viverem 48 anos sob a égide ditatorial, colonialista e fascista de Salazar, na ânsia de respirar o ar da liberdade, a população tomou as ruas, e se juntou pacificamente aos pelotões. Não deram ouvidos às ordens militares para que ficassem em casa. Pelo registro das fotos da época, o povo português acompanhou os soldados em suas atividades mais corriqueiras naquele dia…
Assim, não importa, a meu ver, o que inspira uma ditadura – seja de direita ou de esquerda, religiosa ou liberal, e menos ainda, se for imperialista. Se muitos vão viver de modo diferente do que viviam, mas em troca outros serão oprimidos – não há legitimidade, em absoluto.
Tudo que importa afinal, é que nascemos livres, ou seja, nossa vocação é para a liberdade – de expressão, de ação, de ir e vir, dentro ou fora de nosso território. Desse modo, há somente uma única condição a ser considerada: o respeito à pessoa. Não há qualquer superioridade pré-adquirida de um povo sobre outro, e nem de grupos militares, operários, religiosos ou intelectuais sobre grupos de indivíduos, sobre cada pessoa dentro de uma Nação.
No Brasil vivemos uma ditadura militar, que incluiu a tortura, tal como se deu no período salazarista. Tivemos 20 anos de perda paulatina de nossa identidade cultural, e que em 20 anos e pouco mais de liberdade parecem não dar nem mesmo o vislumbre de que nos recomporemos das lacunas geradas em nossa personalidade enquanto povo, enquanto Nação. Sim, tivemos uma “Nova República”, mas ao que parece, e apesar dela, o caldo posterior, fruto do desmantelamento cultural (que influenciou nossa ação política) me traz a imagem de um barco à deriva…
Cada Nação deve se pensar (ao cansaço) para que as gerações futuras não naveguem docilmente sob qualquer vento. Muitos ventos levam milhares, milhões de criaturas ao abismo, tanto material quanto espiritual.
Eu, enquanto brasileira, jornalista, gostaria de dizer o quanto admiro esta iniciativa de nossos irmãos portugueses. O Brasil é um povo peculiar, mas, talvez por ser um “jovem” de 509 anos, ainda não se deu conta que outros povos, principalmente os antigos, acertam bastante porque não tem somente “saberes”, e sim porque, entre os inúmeros erros de avaliação, tentaram e continuam tentando exercitar a “sabedoria”. Não é uma época propícia, mas é inegável que os Evangelhos fornecem relatos maravilhosos para todos os povos da terra a respeito disso. No entanto, as nações ocidentais parecem acreditar que a negação até mesmo de valores universais vai lhes trazer paz e prosperidade…
Trinta e cinco anos depois do 25 de Abril de 1974, o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura reuniu-se em Fátima para o «Elogio à Liberdade», tema da 5.ª Jornada daquele Organismo que ocorreu, em Fátima, no dia 5 de Junho.
Durante a primeira parte do encontro, em que participaram cerca de cem pessoas, José Manuel Fernandes, director do «Público», enquadrou o estado da liberdade em diversas áreas da sociedade portuguesa.
Para o segundo momento da Jornada, a maestrina Joana Carneiro propôs uma nova abordagem ao conceito de liberdade: uma partitura, duas interpretações, ou a criatividade de Herbert von Karajan e de Leonard Bernstein diante da mesma obra de Beethoven.
«Que havemos de fazer com a liberdade?» foi a pergunta a que D. Manuel Clemente e Marcelo Rebelo de Sousa procuraram responder durante a tarde.
Uma das dificuldades no entendimento do conceito de liberdade consiste em a considerar apenas como um fenómeno externo, que é concedido em maior ou menor grau ao ser humano. Mas para D. Manuel Clemente, ela é um processo sempre inacabado, pelo qual o Espírito actua para atenuar e remover tudo o que obsta ao desenvolvimento pleno da personalidade. Por isso cada pessoa deverá interrogar-se não tanto sobre o que é que pode fazer com a liberdade, mas o que é que deixa que a liberdade faça da sua vida. Se este exercício for reduzido a uma pedagogia, corre-se o risco de amplificar o relativismo pós-moderno.
Para o Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, a vida de Jesus é o melhor exemplo do cumprimento da vontade do Pai, num ambiente marcado por condicionalismos externos como a violência, o isolamento e a incompreensão. Viver na tensão entre a realização dos desejos individuais e na concretização da vontade de Deus, visível por exemplo nas necessidades das pessoas, é, nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, “um equilíbrio difícil, em que todos tropeçamos“.
Olhando para o Portugal contemporâneo, o professor universitário considera que há diversos obstáculos ao exercício da liberdade. Desde logo porque muitas pessoas vivem em condições de exclusão, pobreza, dependência, ignorância e ausência de um percurso educativo adequado. Para esta parte da população, a liberdade garantida pela Constituição não pode ser aplicada.
Ser livre é, para D. Manuel Clemente, muito mais do que agir sem prejudicar ninguém; é sobretudo uma capacidade de acolher e estar disponível. Não estamos sós no mundo, pelo que esta pedagogia da exigência, que deve começar com as crianças, é essencial para conjugar a liberdade individual com a das pessoas que vivem em sociedade.
Pensa-se por vezes que a liberdade justifica todos os comportamentos; segundo Marcelo Rebelo de Sousa, este ponto de vista reflecte-se na disseminação da violência familiar e laboral, na dificuldade em viver no espaço público e na intolerância face às opiniões discordantes.
No que diz respeito à manifestação pública da opção crente, o comentador defende que se está a assistir ao “ressurgir de posições iluministas, não apenas anti-clericais”, que revelam dificuldades em entender o que é a liberdade religiosa.
D. Manuel Clemente defende a necessidade da Igreja, especialmente através do protagonismo laical, se envolver nos debates seculares em que a liberdade se analisa e perspectiva. Para Marcelo Rebelo de Sousa, os leigos precisam de converter em acção a sua convicção.
A Jornada foi também marcada pela entrega do «Prémio de Cultura Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes» ao Professor Adriano Moreira, que evocou as qualidades do presbítero jesuíta enquanto pastor e cidadão, numa época atravessada por mudanças aceleradas: “É com muita humildade que se deve receber uma distinção que é referida ao exemplo que ele deu”. Quando D. Manuel Clemente “me deu essa notícia [da atribuição do Prémio] eu disse uma coisa muito simples: ‘obrigado pela bênção'”.
Depois da leitura da Acta do Júri, o Presidente da Comissão Episcopal fez uma breve alocução, a que se seguiu a entrega da escultura e do cheque, no valor de € 2.500, oferecido pela Rádio Renascença. A cerimónia, que contou com a actuação do agrupamento «Sol Ensemble», concluiu-se com a intervenção de Adriano Moreira. (RM)
Encontrei um texto elucidativo sobre a orientação de Jesus para que fôssemos santos e santas, em imitação a Deus Pai… Se é difícil cumprirmos em nossa vida diária o ideal de santidade, mesmo em pequenas dificuldades, aflições ou provações, aumenta a nossa dificuldade quando nos vemos diante dos valores que atualmente estão imperando no mundo do trabalho, e até mesmo em nosso círculo familiar. Em todo caso, todos sabemos pelos Evangelhos que Deus considera a intenção de nosso coração, porque sabe o quanto somos vítimas de nossas próprias contradições e em relação ao livre-arbítrio humano. Para agravar, particularmente acredito que somos assediados por seres espirituais malignos (anjos da queda) – Legião, o Maligno – a quem Jesus Cristo se referia com frequência. Temos entretanto o consolo de que foi(foram) vencido(s) na Sua morte de Cruz e na Sua Gloriosa Ressurreição. Desde aquele momento, também temos o poder de resistir-lhe, tal como enfatiza Santa Teresa de Ávila. Aqui inicia o combate. Queremos o Bem acima de tudo?
O Círculo Gregório de Nissa nos apresenta o carmelita belga Wilfrid Stinissen, que traz boas indicações sobre o caminho do que, particularmente, considero “espinhosa efetivação” da santidade em nosso tempo. Entretanto, ela deve ser perfeitamente possível, já que este foi um caminho indicado por Jesus. Ele conhecia a “fibra mais íntima” de nossa natureza… Frei Wilfrid afirma o seguinte a respeito: “(…) É porque não nos consideramos santos que não conseguimos, também, agir como santos. ‘Agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz’ (Ef 5, 8). A santidade deveria ser o nosso ponto de partida e não nossa meta. Se nós prosseguíssemos na vida com esta convicção íntima: ‘Eu sou nascido de Deus’, nos comportaríamos de outra maneira.”
O blog abaixo traz também o seguinte conteúdo “Bento XVI enaltece a prática da Lectio Divina”, “Frutos das práticas contemplativas”, “Contemplação e Vida Contemplativa”, ” sobre São Gregório de Nissa”, entre as últimas publicações. Achei instigante o texto abaixo.
Como assinala o catecismo católico(1): “Na Igreja todos são convidados à santidade. O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja (Lumen Gentium), consagra um capítulo inteiro ao ‘convite universal à santidade’ (LG 39-42). O batismo implica essa vocação, comum a todos os membros do povo de Deus (LG 40), quer sejam leigos ou ministros ordenados, quer vivam no mundo ou em comunidade religiosa, quer sejam casados ou celibatários. Qualquer que seja sua condição física, cultural, intelectual ou social, quer seja homem ou mulher, criança ou idoso, todo batizado trabalha para fazer refulgir o reino de Deus pela santidade de sua vida.”
Em que consiste, porém, a santidade? As respostas podem diferir bastante, conforme sejam oferecidas por pessoas de diferentes religiões – e até de diferentes épocas. Cristãos, budistas, judeus, muçulmanos, hinduístas etc. inevitavelmente revelariam, se interrogados, visões diferentes sobre a matéria, embora provavelmente alguns aspectos comuns pudessem ser identificados em suas respostas. Mas mesmo entre os cristãos, e até mesmo entre aqueles pertencentes a uma mesma denominação, podem ser encontradas opiniões bem diversas. Neste texto apresentamos visões diferentes, embora complementares, de dois brilhantes escritores católicos contemporâneos.
O carmelita belga (radicado na Suécia) incluiu, em um de seus livros (2), a seguinte passagem a respeito da santidade, ressaltando a sua naturalidade:
“Infelizmente nós confinamos a santidade à esfera moral. A palavra ‘santidade’ é reservada aos homens que se distinguem por sua virtude heróica. Parece presunção aspirar à santidade. Mas a santidade é, antes de tudo, uma realidade ontológica, isto é, ligada ao ser em si. Lançaríamos, também, sobre os outros um olhar diferente, reconhecendo neles a vida divina. E mesmo as coisas nos apareceriam de modo novo, pois também elas dão testemunho dessa mesma vida. O mundo se tornaria um templo e a vida uma liturgia.”
A “naturalidade” a que nos referimos acima pode ser melhor identificada se exprimirmos do seguinte modo, de forma mais sintética, o ponto de vista apresentado pelo autor na primeira metade do parágrafo precedente: “A santidade – que não deve ser confundida com a perfeição moral – está ao alcance de todas as pessoas porque Deus, no próprio ato da criação, a comunica a todos os seres humanos.” Por outro lado, sendo um carmelita, o autor sabe que a modificação duradoura de nossos hábitos, do modo como nos relacionamos com Deus, conosco mesmos, com o próximo e com a criação muito dificilmente ocorrerá a partir de um simples ato de vontade, de uma simples constatação intelectual. Por isto, escreve no condicional e no imperfeito do subjuntivo todos os verbos empregados na segunda metade do mesmo parágrafo (deveria… se prosseguíssemos… lançaríamos…).
Com efeito, a tradição cristã ensina que, para que a beleza divina resplandeça em cada ser humano, faz-se necessário “remover a pátina que dissimula, em virtude do pecado, a marca de Deus em nós” (imagem usada por Gregório de Nissa em As Beatitudes). Este pode ser um longo processo. Em monografia publicada como capítulo de um tratado sobre espiritualidade (3) o teólogo italiano Carlo Molari enfatiza o valor de nossa adesão a um programa de práticas e exercícios espirituais (ascese):
“Em sentido teológico, a ascese é o conjunto dos exercícios que torna possível a transparência à ação de Deus, a ressonância de sua Palavra e a emergência das forças vitais do seu Espírito. No sentido do envolvimento do homem, a ascese é o conjunto dos exercícios que transformam a pessoa e a tornam capaz de permitir que o Bem se expresse nela como amor, que o Verdadeiro se expresse em palavras humanas, que o Justo se traduza em projetos concretos de fraternidade e de igualdade, que a Beleza se manifeste na harmonia das formas criadas, e que o Vivo se torne existência e dom. A ascese é, portanto, o caminho que o homem deve percorrer para chegar à união com Deus, que realiza sua identidade pessoal e sua perfeição.
(…) “Muitas vezes utilizamos um conceito pagão ou estóico de ascese como se ela tendesse à perfeição moral, ao bom comportamento ou à eliminação dos defeitos. A perfeição cristã, para a qual a ascese está orientada, não consiste na exemplaridade dos comportamentos humanos, e sim na revelação de Deus, realizada por meio de atos humanos. A santidade evangélica é sempre uma consagração. Portanto, tornar-se santo significa consentir em ser espaço reservado a Deus, lugar de sua epifania para a salvação de muitos. Tornar-se sagrado significa deixar-se transformar em lugar de presença de Deus, significa dar espaço à emergência de sua ação na história, significa fazer ressoar o eco de sua Palavra salvífica.
(…) “Nossos defeitos são um mal somente quando impedem a ação salvífica de Deus. (…) Portanto, a preocupação imediata do caminho ascético não deve ser a pura eliminação dos defeitos pessoais, e sim do obstáculo que eles podem constituir para a revelação de Deus na história humana. A finalidade da ascese, em ordem à pessoa, é, por conseguinte, colocar em movimento dinâmicas que impeçam aos defeitos de desarmonizar as relações com as pessoas e macular as comunidades, de modo a obstar a ação de Deus.”
(1) Conferência dos Bispos da França: Catéchisme des Évêques de France (título 310) – diversas editoras francesas, 1991.
(2) Wilfrid Stinissen: Méditation Chrétienne Profonde – Tradução para o francês do original em língua flamenga pelas Éditions du Cerf, Paris, 1989
(3) Carlo Molari: Meios para o Desenvolvimento Espiritual – Capítulo 4 do livro Curso de Espiritualidade, organizado por Bruno Secondin e Tullo Goffi – Edições Paulinas, 1994
30 Agosto 2006
Postado por Círculo Gregório de Nissa – Sérgio de Morais.
PAPA NO SANTO SEPULCRO: “CRISTO RESSUSCITOU! O AMOR VENCEU A MORTE”
Jerusalém, 15 mai (RV) – Bento XVI visitou, neste derradeiro dia de sua peregrinação apostólica na Terra Santa, a Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, local onde, segundo a tradição cristã, Jesus Cristo foi crucificado, sepultado e ressuscitou no Domingo de Páscoa.Era chamado Gólgota, que em aramaico, significa “lugar do crânio”: por sua forma arredondada que é semelhante a um crânio; e pela tradição que narra da sepultura, ali, do crânio de Adão.
“Diante deste Santo Sepulcro de onde o Senhor venceu a morte e abriu o caminho do Reino dos Céus, saúdo todos os fiéis, na alegria do tempo pascal” − ressaltou o papa.
O Santo Padre agradeceu ao patriarca latino de Jerusalém, Dom Fouad Twal, e ao custódio da Terra Santa, Fr. Pierbattista Pizzaballa, pelas boas-vindas. Agradeceu também o acolhimento da hierarquia da Igreja Greco-ortodoxa e da Igreja Apostólica Armênia, bem como dos membros de outras comunidades cristãs da Terra Santa.
O papa saudou o Grão-mestre da Ordem Eqüestre do Santo Sepulcro, Cardeal John Patrick Foley, e agradeceu a todos os membros da ordem ali presentes, pela incansável dedicação à missão da Igreja na Terra Santa.
“Depois de cerca de vinte séculos, o Sucessor de Pedro e Bispo de Roma está aqui, neste lugar, diante do sepulcro vazio, contemplando o mistério da ressurreição” − frisou o pontífice.
A partir daí, a história da humanidade mudou definitivamente. “O longo domínio do pecado e da morte foi destruído pelo triunfo da obediência e da vida. O julgamento de Deus foi proferido sobre este mundo e a graça do Espírito Santo desceu sobre toda a humanidade” − sublinhou o papa.
Em seu discurso, Bento XVI ressaltou que Cristo, o novo Adão, nos ensina que o mal nunca vencerá o bem, que o amor é mais forte que a morte, que o nosso futuro e de toda humanidade está nas mãos do Deus providente e fiel.
“O sepulcro vazio nos fala de esperança, daquela esperança que não nos engana, porque é dom do Espírito da vida. Possa essa esperança reinar sempre, pela graça de Deus, no coração de cada pessoa que vive nestas terras. Possa a esperança se arraigar em seus corações, permanecer nas famílias e comunidades, e inspirar em cada um de vocês, um testemunho sempre mais fiel ao Príncipe da Paz” – ressaltou o Santo Padre.
O pontífice disse ainda, que a Igreja na Terra Santa não deve cessar de anunciar a mensagem de esperança que o sepulcro vazio proclama, e “fez votos de que os amargos frutos de recriminação e de hostilidade possam ser superados, e que um futuro de justiça, paz, prosperidade e colaboração possa surgir para cada homem e mulher, e para toda a humanidade, sobretudo, para o povo que vive nesta terra, tão querida pelo Salvador”.
O papa convidou todos a olharem com os olhos da fé o rosto do Senhor crucificado e ressuscitado. Ele fez votos de que a Igreja na Terra Santa possa adquirir cada vez mais força na contemplação do Sepulcro vazio e fortificar seu compromisso de proclamar o triunfo do perdão de Cristo e a promessa de uma nova vida.
O pontífice concluiu com um encorajamento aos bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas que trabalham, servindo a Igreja na Terra Santa:
“Aqui, diante do sepulcro vazio, coração da Igreja, convido todos vocês a renovarem o entusiasmo da consagração a Cristo e o compromisso de amor a serviço da Igreja.” (MJ)
Observem, tal como eu, que o mundo do século XX e início deste, ao que parece, está dando as costas para seu Criador… Vivemos dentro de uma ótica tão materialista que estaremos caindo no abismo e não nos daremos conta enquanto não encontrarmos o chão… O papa Bento XVI está em Israel, e “peregrina” em meio ao conflito do Oriente Médio, e, com originalidade vai respondendo aos seus contendores. Ele também está clamando por paz entre os povos, exatamente como o papa Bento XV o fez, em 1917.
Entretanto, acredito que a tarefa do nosso atual papa é hercúlea, ou seja, é mais complexa que ao tempo da aparição de Nossa Senhora em Fátima. Seu clamor tem caído no vazio, dada ao que considero uma verdadeira “indiferença mundial pela paz”. Ele próprio indica a fonte do problema: o relativismo; o conceito está dentro do ideário “pós-moderno”. Estudiosos de Sociologia e Antropologia afirmam que estamos passando por uma fase de transição – do período “moderno” para o “pós-moderno”. Pessoalmente, ainda não consegui compreender em que se baseia este “determinismo”. É um fato histórico que passamos dos estudos “astrológicos” para os astronômicos – ou seja, da Idade Média para a Moderna. No entanto, o que sempre foi aceito como um valor universal, desde os gregos chegou incólume até a década de 80. Desde o final daquela década há algo em curso (isto me lembra a “mão invisível” do Adam Smith…), que vem se mostrando inexorável. Algo que quer se firmar como a “Terceira Onda”, de Alvin Tofler, ou “1984”, de George Orwell. Enfim, há uma atmosfera, a meu ver, à lá Kafka. A pós-industrialização, que gerou a globalização, que gerará a virtualização da vida humana… O papa Bento XVI traduz tudo quando critica a relativização de todos os valores até então válidos…
Verifico que o papa Ratzinger tem a seu favor, em termos de defesa do Cristianismo, do catolicismo – a inteligência brilhante e o domínio das Escrituras Sagradas, e quanto a este aspecto, é pós-doutor em Teologia. Além disso, isto é, é um homem de 82 anos, que acumulou uma vasta cultura e, para melhorar seu perfil de Sumo Pontífice, é conhecido como um homem muito simples – o que vem surpreendendo a todos. Sendo assim, é um homem que possui sabedoria, a mesma que é valorizada no Antigo Testamento. No entanto, pede que rezemos continuamente por ele… certamente para que não esmoreça. Ou seja, Bento XVI vem enfrentando “intelectualmente” o combate sistemático da imprensa mundial, que, diga-se de passagem, é a favor de tudo que não lhe contrarie interesses… Obviamente que há outros grupos que lhe fazem oposição.
A propósito, desde o final do dia de ontem e no dia de hoje, 13 de maio, teve de enfrentar a rejeição de alguns líderes religiosos israelitas quanto ao projeto de estabelecimento de uma sede na Terra Santa – algo em torno de um organismo estatal, o qual representaria o pensamento do Vaticano. A idéia é viabilizar meios que permitam a proteção dos cristãos de todas as nacionalidades, que residem nas áreas de conflito, bem como palestinos, cristãos ou muçulmanos. Esta notícia contrariou o mundo político de Israel, provavelmente porque agradou, por exemplo, reinados muçulmanos, como o da Jordânia. Esta tem como característica o acolhimento “democrático” de cristãos e muçulmanos, tanto no aspecto da prática religioso quanto da educação e cultura que os caracteriza.
Quanto a manifestações de alguns rabinos ultra-conservadores em Israel, não lhes foi permitido entrar com faixas e cartazes no ambiente em que o papa Bento XVI se dirigiria a uma ampla gama de autoridades religiosas e políticas, que compõem o estado de Israel. Pelas notícias, o papa falou de improviso e seu apelo à paz teve argumentação bíblica, que foi acolhida com surpresa pelos presentes…
Voltemos à aparição de Nossa Senhora em Fátima. Em 1917, o papa referido abaixo – Bento XV – clamava ao mundo católico que pedisse a intercessão de Nossa Senhora pela paz, em meio à primeira Guerra Mundial. O mundo não ouviu, tanto que veio uma segunda Grande Guerra, e com uso de uma bomba atômica… Constato que o papa Bento XVI nem ao menos pode apelar a sentimentos como – piedade, compaixão, amor, perdão. Pelo menos com a certeza de que, se não for atendido, será compreendido ou aceito… Podemos ter a certeza de que o papa Bento XV foi compreendido, ainda que não lhe tenham dado ouvidos…
Estamos negando nossa humanidade, cedendo-a, sim, aos apelos do mundo da Ciência e da Tecnologia. Estas, na minha ótica, duas “deusas” que, há cerca de três décadas foram “entronizadas” na vida que adotamos, sem crítica de espécie alguma…
Tenho que admitir a luta – que vai se mostrando inglória, ainda que perseverante, graças a Deus – em todas as áreas da vida humana. Está sendo travada por muitos de nós – ao tentarmos preservar uma “vida interior”. Ou seja, é empreendida, em nosso dia-a-dia, uma verdadeira “batalha” para vivermos com liberdade e autenticidade, em meio a este estado de coisas, nossos ideais de transcendência. O absurdo é que nada é mais humano que esta realidade, já que o instinto de sobrevivência é básico. Por que chegamos a este nível de negação de nós próprios? Acumulação? Prestígio? Nesse sentido, sinto-me “vítima”. O que me consola é que estou bem acompanhada, e por muitos… Assim, chega a parecer piada, dentro do que eu chamo “tirania desumanizante” – afirmarmos nossa religiosidade, nossos anseios espirituais… A “Matéria” em nosso tempo, sufoca, ao cansaço, o “Espírito”; este, no sentido filosófico. Será que a Humanidade ainda pensa que existe alma, e que esta deve aspirar à salvação? Nossa Senhora… ora pro nobis. Amém.
No dia 5 de maio de 1917, durante a primeira guerra mundial, o papa Bento XV convidou os católicos do mundo inteiro a se unirem em orações para a paz com a intercessão de Nossa Senhora. Oito dias depois a Santíssima Virgem dava a sua resposta, aparecendo a três pastorinhos portugueses. A 13 de Maio de 1917, três crianças apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, freguesia de Fátima, conselho de Vila Nova de Ourém, hoje diocese de Leiria-Fátima. Chamavam-se Lúcia de Jesus, de 10 anos, e Francisco e Jacinta Marto, seus primos, de 9 e 7 anos.
Por volta do meio dia, depois de rezarem o terço, como habitualmente faziam, entretinham-se a construir uma pequena casa de pedras soltas, no local onde hoje se encontra a Basílica. De repente, viram uma luz brilhante; julgando ser um relâmpago, decidiram ir-se embora, mas, logo abaixo, outro clarão iluminou o espaço, e viram em cima de uma pequena azinheira, onde agora se encontra a Capelinha das Aparições, uma “Senhora mais brilhante que o sol”, de cujas mãos pendia um terço branco.
A Senhora disse aos três pastorinhos que era necessário rezar muito e convidou-os a voltarem à Cova da Iria durante mais cinco meses consecutivos, no dia 13 e àquela hora. (…) Leia mais em http://ocdsprovinciasaojose.blogspot.com/.
Descobri hoje o site oficial do Santuário de Fátima, que traz a mensagem de Nossa Senhora, a partir de sua aparição em 13 de maio de 1917 a três crianças camponesas. A mensagem foi recebida na cidade de Fátima, em Portugal, e obteve o reconhecimento de sua veracidade pela Igreja Católica, após o exame dos documentos, logo após o evento. Um dado histórico extraordinário, já que há fotos e relatos da época, além dos testemunhos das crianças envolvidas – Lúcia dos Santos e seus primos Jacinta e Francisco Marto. Cada uma delas foi ouvida à parte, e tiveram que repetir por várias vezes o que viram e ouviram. Algum tempo depois, foi examinado o relato por escrito de uma delas – Irmã Lúcia, que se tornou religiosa carmelita descalça. Esta, foi beatificada, e seus primos estão na lista de candidatos à beatificação.
Mais detalhes vocês encontrão logo abaixo, que traz a mensagem de Nossa Senhora, apresentada pelo site do Santuário de Fátima – texto integral, com informações amplas sobre seu conteúdo. Há muita polêmica em torno dos “segredos” anunciados em Fátima. Esta é uma oportunidade para esclarecer dúvidas e, melhor, por intermédio de uma fonte segura – o site oficial do Santuário.
Confesso que estou curiosa para ler os seis arquivos (links), que trazem informações oficiais (as últimas) sobre este impressionante acontecimento religioso, de alcance mundial. Já se passaram 90 anos, mas o miraculoso evento continua intrigando o mundo atual, apesar da ênfase materialista vigente. Há o posicionamento, linkado ao site do Vaticano, a respeito da mensagem de Nossa Senhora.
Atualmente tenho informações disponibilizadas aqui e ali na internet, mas conheço desde a minha infância como tudo se passou em Fátima. Lia anuários católicos. Inclusive vi, lá pelos meus dez anos, um filme muito antigo sobre a aparição de Nossa Senhora, em Fátima(para mim, este filme foi marcante, tanto quanto o da aparição da Virgem Maria em Lourdes, que também assisti quando criança). Lembro ainda do “milagre do sol”, que se “movimentava”, o que me deixou muito impressionada. Se não foi filmado, as imagens dos anuários ficaram gravadas, obviamente em preto e branco, a ponto de, em minha mente pensar que vi o filme… Será coisa de criança… Em todo caso, já devia ter “mentalidade jornalística”, ou seja, via tudo “cinematograficamente”… Minha intenção ao relatar algo de minha infância é de tão somente comunicar o quanto uma criança está “antenada” a tudo que está ligado ao mundo espiritual. Infelizmente, se não bem orientada, inclusive aderirá à festa do “dia das bruxas” ou “Halloween”. No Brasil, este apelo comercial está se propagando… Sei que outros países também “copiam” o modelo cultural norte-americano. Lamentável. E, pior, pais e professoras não veem nada de ruim… Acho esta apologia à magia nefasta para a mente de uma criança. É fácil perceber que crianças católicas, pelo menos até o evento da televisão, eram, pelo menos pias… Eu era, mesmo com a televisão; depois fui perdendo esta qualidade já na juventude. Mas meu Anjo da Guarda não descansou (e continua não descansando) sequer um minuto para que eu mantenha, ainda que com ruídos em meio a esta Babel, a necessária e imprescindível sintonia com Deus, nosso Criador!
Não era regra a piedade entre as crianças antes e logo depois do advento da televisão (existe há mais de sessenta anos!). Mas, a evidência disto, é a plena entrega dos três pastorinhos ao que Nossa Senhora recomendava, passo-a-passo, além da recitação determinada do terço… Mesmo na época, eram crianças especiais, com toda certeza.
Voltemos ao impacto deste acontecimento na atualidade. Creio que devemos pensar com cuidado sobre o seu conteúdo, preparado especialmente pelo site oficial do Santuário de Fátima. Lembro a todos que ao final da mensagem, há a indicação do endereço eletrônico do Santuário, de onde foi retirado, na íntegra o conteúdo abaixo.
Confiram também o site do “Carmelo Santa Teresa – Coimbra”, que traz detalhes sobre a Irmã Lúcia e o processo de sua beatificação.
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Movimento da Mensagem de Fátima
Santuário de Fátima (Site Oficial)
MENSAGEM DE FÁTIMA
A Mensagem de Fátima é um convite e uma escola de salvação. Foi iniciada pelo Anjo da Paz (1916) e completada por Nossa Senhora (1917). Foi vivida de maneira histórica pelos Três Pastorinhos – Lúcia, Francisco e Jacinta.
A mensagem de Fátima sublinha os seguintes pontos:
– a conversão permanente;
– a oração e nomeadamente o rosário,
– o sentido da responsabilidade coletiva e a prática da reparação.
A aceitação desta mensagem traz consigo a Consagração ao Coração Imaculado de Maria, que é símbolo de um compromisso de fidelidade e de apostolado. As orações ensinadas em Fátima pelo Anjo e Nossa Senhora ajudam a viver a Mensagem, que, como disse João Paulo II, em Fátima em 1982, é a conversão e a vivência na graça de Deus.
Uma existência sem sentido… Por qual ou quais razões, exatamente, passou a ser natural a aceitação deste vazio? O quê está em jogo nesta questão é tudo que importa na vida, para qualquer um: a paz, e se possível, a felicidade, ainda que esporádica e descontínua. Nietzsche postulava uma felicidade contínua e permanente. Para tanto, propunha o abandono total da razão que escolhe o bem. Para ele, em contraposição à civilização judaico-cristã, somente seria possível a um ser humano atingir sua completude, ou seja, ser feliz, se este se entregasse ao domínio total dos sentidos. Simples: um animal a mais no mundo, movido de igual maneira pelos instintos de sobrevivência e de prazer.
Aqui, a meu ver, entra o tema do livre-arbítrio. Na esteira do que considero um legado nefasto à Humanidade, o discurso nietzschiano é inegavelmente panfletário, ainda que diante de sua reconhecida genialidade. Penso que escreveu sua obra delirante tal como um jornalista, já há seu tempo, da chamada imprensa marrom… É tido entretanto como filósofo, o que se afigura algo contrário ao esforço da Filosofia, que pesa, pondera, sem apologias. Filósofos podem falar a partir de sua crença, e a partir daí, de sua visão de mundo. Jornalistas fazem de modo semelhante seu trabalho. Ambos não admitem a destruição dos ideais da mente e do coração humanos. Já, Nietzsche busca solapar tais anseios, a tal ponto que escreve “O Anticristo”, em 1888. Seu intento não é modesto, nem de modo algum inócuo. Seus livros são ainda bastante estudados na atualidade, já que são republicados há mais de um século e meio. Para ele, somos tão somente máquinas estruturadas por ossos e revestidas de carne… A Ciência segue seus passos, com a mesma obsessiva decisão de difundir o potencial máximo de nossa “não-humanidade”. Vale perguntar: a força brutal da natureza (incluindo aqui a humana) tem algo a ver com a arte, a poesia, ou então, ideais universalmente humanos tais como os do bem, da justiça, do belo, enfim, aqueles que “tocam” o inefável?
Este é um tempo que nos fornece a experiência desagradável de ter um cubo de gelo sob a pele: a um só tempo frieza e liquidez. Algo que não demora o bastante para ser plenamente sentido, ainda que cause mal-estar. No entanto, há cerca de mais um milênio e meio de anos já nos alertava (ou alentava?) Santo Agostinho: “(…) É no interior; é lá que a Verdade mora”.