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Posts Tagged ‘A Fragilidade dos Corpos e o Aço’

Papa Bento XVI sobre São Gregório Magno:”(…)A esperança do cumprimento em Cristo de todas as coisas é um pensamento constante do grande pontífice e acaba por converter-se em motivo inspirador de todo seu pensamento e atividade. Daqui brotam seus incessantes chamados à vigilância e ao empenho nas boas obras.(…)” – Veritatis Splendor (03 de setembro-Memória)

Fonte: Apostolado Veritatis Splendor

Tradução: Élison Santos (Fonte: Zenit)

SÃO GREGÓRIO I DE ROMA

São Gregório Magno (São Gregório I de Roma)

São Gregório Magno

Por Papa Bento XVI

Queridos irmãos e irmãs!

Na quarta-feira passada, falei de um Padre da Igreja pouco conhecido no Ocidente, Romano o Meloda; hoje desejo apresentar a figura de um dos maiores Padres da história da Igreja, um dos quatro doutores do Ocidente, o Papa São Gregório, que foi bispo de Roma entre o ano 590 e 604, e que mereceu da parte da tradição o título Magnus/Grande. Gregório foi verdadeiramente um grande Papa e um grande Doutor da Igreja! Nasceu em Roma, em torno de 540, de uma rica família patrícia da gens Anicia, que se distinguia não só pela nobreza de sangue, mas também pelo apego à fé cristã e pelos serviços prestados à Sé Apostólica. Desta família procediam dois Papas: Félix III (483-492), tataravô de Gregório, e Agapito (535-536). A casa na qual Gregório cresceu se levantava na Clivus Scauri, rodeada de solenes edifícios que testemunhavam a grandeza da antiga Roma e a força espiritual do cristianismo. Para inspirar-lhe elevados sentimentos cristãos estiveram também os exemplos de seus pais Giordiano e Silvia, ambos venerados como santos, e os de suas tias paternas Emiliana e Tarsília, que viviam na própria casa como virgens consagradas em um caminho compartilhado de oração e ascese.

Gregório ingressou logo na carreira administrativa, que havia seguido também seu pai, e em 572 alcançou o cume, convertendo-se em prefeito da cidade. Este cargo, complicado pela tristeza daqueles tempos, permitiu-lhe aplicar-se em um amplo raio a todo tipo de problemas administrativos, obtendo deles luz para suas futuras tarefas. Em particular ficou nele um profundo sentido da ordem e da disciplina: já como Papa, sugerirá aos bispos que tomem como modelo na gestão dos assuntos eclesiásticos a diligência e o respeito das leis próprias dos funcionários civis. Aquela vida não lhe devia satisfazer, visto que, não muito depois, decidiu deixar todo cargo civil para retirar-se em sua casa e começar a vida de monge, transformando a casa de família no mosteiro de Santo André. Desse período de vida monástica, vida de diálogo permanente com o Senhor na escuta de sua palavra, ficou nele uma perene nostalgia que sempre de novo e cada vez mais aparece em suas homilias: em meio às preocupações pastorais, ele recordará várias vezes em seus escritos como um tempo feliz de recolhimento em Deus, de dedicação à oração, de serena imersão no estudo. Pôde assim adquirir esse profundo conhecimento da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, do qual se serviu depois em suas obras.

Mas o retiro claustral de Gregório não durou muito. A preciosa experiência amadurecida na administração civil em um período carregado de graves problemas, as relações que teve nesta tarefa com os bizantinos, a estima universal que havia ganhado, induziram o Papa Pelágio a nomeá-lo diácono e a enviá-lo a Constantinopla como seu «apocrisiario» – hoje se diria «Núncio Apostólico» – para favorecer a superação dos últimos restos de controversa monofisista e sobretudo para obter o apoio do imperador no esforço de conter a pressão longobarda. A permanência em Constantinopla, onde havia reiniciado a vida monástica com um grupo de monges, foi importantíssima para Gregório, pois lhe permitiu ganhar experiência direta no mundo bizantino, assim como se aproximar do problema dos Longobardos, que depois colocaria à prova sua habilidade e sua energia nos anos do Pontificado. Passados alguns anos, foi chamado de novo a Roma pelo Papa, que o nomeou seu secretário. Eram anos difíceis: as contínuas chuvas, o transbordamento dos rios e a carestia atingiam muitas áreas da Itália e da própria Roma. No final se desatou a peste, que causou numerosas vítimas, entre elas também o Papa Pelágio II. O clero, o povo e o senado foram unânimes em eleger como seu sucessor na Sede de Pedro precisamente ele, Gregório. Tentou resistir, inclusive buscando a fuga, mas tudo foi inútil: ao final teve de ceder. Era o ano de 590.

Reconhecendo que havia sucedido a vontade de Deus, o novo pontífice se pôs imediatamente ao trabalho com empenho. Desde o princípio revelou uma visão singularmente lúcida da realidade com a qual devia medir-se, uma extraordinária capacidade de trabalho ao enfrentar os assuntos tanto eclesiais como civis, um constante equilíbrio nas decisões, também valentes, que sua missão lhe impunha. Conserva-se de seu governo uma ampla documentação graças ao Registro de suas cartas (aproximadamente 800), nas quais se reflete o enfrentamento diário dos complexos interrogantes que chegavam à sua mesa. Eram questões que procediam dos bispos, dos abades, dos clérigos, e também das autoridades civis de toda ordem e grau. Entre os problemas que afligiam naquele tempo a Itália e Roma, havia um de particular relevância no âmbito tanto civil como eclesial: a questão longobarda. A ela o Papa dedicou toda a energia possível com vistas a uma solução verdadeiramente pacificadora. Ao contrário do Imperador bizantino, que partia do pressuposto de que os Longobardos eram só indivíduos depredadores a quem era preciso derrotar ou exterminar, São Gregório via estas pessoas com os olhos do bom pastor, preocupado por anunciar-lhes a palavra de salvação, estabelecendo com eles relações de fraternidade orientadas a uma futura paz fundada no respeito recíproco e na serena convivência entre italianos, imperiais e longobardos. Preocupou-se pela conversão dos jovens povos e da nova organização civil da Europa: os Visigodos da Espanha, os Francos, os Saxões, os imigrantes na Bretanha e os Lonbogardos foram os destinatários privilegiados de sua missão evangelizadora. Ontem celebramos a memória litúrgica de Santo Agostinho de Canterbury, guia de um grupo de monges aos que Gregório encomendou ir a Bretanha para evangelizar a Inglaterra.

Para obter uma paz efetiva em Roma e na Itália, o Papa se empenhou a fundo – era um verdadeiro pacificador – empreendendo uma estreita negociação com o rei longobardo Agilulfo. Tal conversa levou a um período de trégua que durou cerca de três anos (598-601), após os quais foi possível estipular em 603 um armistício mais estável. Este resultado positivo se conseguiu graças também aos contatos paralelos que, entretanto, o Papa mantinha com a rainha Teodolinda, que era uma princesa bávara e, ao contrário dos chefes dos outros povos germanos, era católica, profundamente católica. Conserva-se uma série de cartas do Papa Gregório a esta rainha, nas quais ele mostra sua estima e sua amizade para com ela. Teodolinda conseguiu, pouco a pouco, orientar o rei para o catolicismo, preparando assim o caminho para a paz. O Papa se preocupou também de enviar-lhe as relíquias para a basílica de São João Batista que ela levantou em Monza, e não deixou de felicitar e oferecer preciosos presentes para a mesma catedral de Monza por ocasião do nascimento e do batismo de seu filho Adoaloaldo. A vicissitude desta rainha constitui um belo testemunho sobre a importância das mulheres na história da Igreja. No fundo, os objetivos sobre os que Gregório apontou constantemente foram três: conter a expansão dos Longobardos na Itália, subtrair a rainha Teodolinda da influência dos cismáticos e reforçar a fé católica, assim como mediar entre Longobardos e Bizantinos com vistas a um acordo que garantisse a paz na península e consentisse desenvolver uma ação evangelizadora entre os próprios Longobardos. Portanto, foi dupla sua constante orientação na complexa situação: promover acordos no plano diplomático-político e difundir o anúncio da verdadeira fé entre as populações.

Junto à ação meramente espiritual e pastoral, o Papa Gregório foi ativo protagonista também de uma multiforme atividade social. Com as rendas do conspícuo patrimônio que a Sede romana possuía na Itália, especialmente na Sicília, comprou e distribuiu trigo, socorreu quem se encontrava em necessidade, ajudou sacerdotes, monges e monjas que viviam na indigência, pagou resgates de cidadãos que eram prisioneiros dos Longobardos, adquiriu armistícios e tréguas. Também desenvolveu tanto em Roma como em outras partes da Itália uma atenta obra de reordenação administrativa, ministrando instruções precisas para que os bens da Igreja, úteis à sua subsistência e à sua obra evangelizadora no mundo, se dirigissem com absoluta retidão e segundo as regras da justiça e da misericórdia. Exigia que os colonos fossem protegidos dos abusos dos concessionários das terras de propriedade da Igreja e, em caso de fraude, que foram ressarcidos com prontidão, para que o rosto da Esposa de Cristo não se contaminasse com benefícios desonestos.

Gregório levou a cabo esta intensa atividade apesar de sua incerta saúde, que o obrigava com freqüência a ficar de cama durante longos dias. Os jejuns que havia praticado nos anos da vida monástica lhe haviam ocasionado sérios transtornos digestivos. Também sua voz era muito frágil, de forma que com freqüência tinha de confiar ao diácono a leitura de suas homilias para que os fiéis das basílicas romanas pudessem ouvi-lo. Ele fazia o possível por celebrar nos dias de festa Missarum sollmnia, isto é, a Missa Solene, e então se encontrava pessoalmente com o povo de Deus, que o estimava muito porque via nele a referência autorizada para obter segurança: não por acaso lhe atribuíram logo o título de consul Dei. Apesar das dificílimas condições nas quais teve de atuar, conseguiu conquistar, graças à santidade de vida e à rica humanidade, a confiança dos fiéis, conseguindo para seu tempo e para o futuro resultados verdadeiramente grandiosos. Era um homem imerso em Deus: o desejo de Deus estava sempre vivo no fundo de sua alma e precisamente por isso estava sempre muito perto do próximo, das necessidades das pessoas de sua época. Em um tempo desastroso, mais ainda, desesperado, soube criar paz e esperança. Este homem de Deus nos mostra as verdadeiras fontes da paz, de onde vem a esperança, e se converte assim em uma guia também para nós hoje.

SERVO DOS SERVOS DE DEUS
Volto hoje, em nosso encontro das quartas-feiras, à extraordinária figura do Papa Gregório Magno, para recolher mais luzes de seu rico ensinamento. Apesar dos múltiplos compromissos vinculados à sua missão como bispo de Roma, ele nos deixou numerosas obras das quais a Igreja, nos séculos seguintes, nutriu-se abundantemente. Além de seu conspícuo epistolário – o Registro ao qual aludia na catequese passada contém mais de 800 cartas –, ele nos deixou sobretudo escritos de caráter exegeta, entre os quais se distinguem o Comentário moral a Jó –conhecido sob o título latino de Morallia in Iob –, as Homilias sobre Ezequiel, as Homilias sobre os Evangelhos. Desta forma, existe uma importante obra de caráter hagiográfico, os Diálogos, escrita por Gregório para a edificação de rainha longobarda Teodolinda. A principal e mais conhecida obra é sem dúvida a Regra pastoral, que o Papa redigiu no começo de seu pontificado com finalidade claramente programática.

Fazendo um rápido repasso por estas obras, observamos, antes de tudo, que em seus escritos Gregório jamais se mostra preocupado em traçar uma doutrina «sua», uma originalidade própria. Mas tenta fazer eco do ensinamento tradicional da Igreja, quer simplesmente ser a boca de Cristo e de sua Igreja no caminho que se deve percorrer para chegar a Deus. A respeito disso, são exemplares seus comentários exegéticos. Foi um apaixonado leitor da Bíblia, à qual se aproximou com pretensões não meramente especulativas: da Sagrada Escritura, pensava ele, o cristão deve tirar não tanto um conhecimento teórico, mas o alimento cotidiano para sua alma, para sua vida de homem neste mundo. Nas Homilias sobre Ezequiel, por exemplo, ele insiste fortemente nesta função do texto sagrado; aproximar-se da Escritura simplesmente para satisfazer o próprio desejo de conhecimento significa ceder à tentação do orgulho e expor-se assim ao risco de cair na heresia. A humildade intelectual é a regra primária para quem tenta penetrar nas realidades sobrenaturais partindo do Livro Sagrado. A humildade, obviamente, não exclui o estudo sério; mas para conseguir que este seja verdadeiramente proveitoso, consistindo entrar realmente na profundidade do texto, a humildade é indispensável. Só com esta atitude interior se escuta realmente e se percebe por fim a voz de Deus. Por outro lado, quando se trata da Palavra de Deus, compreender não é nada se a compreensão não conduz à ação. Nestas homilias sobre Ezequiel se encontra também essa bela expressão segundo a qual «o pregador deve molhar sua caneta no sangue de seu coração; poderá assim chegar também ao ouvido do próximo». Ao ler estas homilias suas se vê que realmente Gregório escreveu com o sangue de seu coração e por isso continua falando a nós.

Gregório desenvolve também este tema no Comentário moral a Jó. Seguindo a tradição patrística, examina o texto sacro nas três dimensões de seu sentido: a dimensão literal, a dimensão alegórica e a moral, que são dimensões do único sentido da Sagrada Escritura. Contudo, Gregório atribui uma clara preponderância ao sentido moral. Nesta perspectiva propõe seu pensamento através de alguns binômios significativos – saber-fazer, saber-viver, conhecer-atuar. Isso nos evoca os dois aspectos da vida humana que deverão ser complementares, mas que com freqüência acabam por ser antitéticos. O ideal moral – comenta – consiste sempre em levar a cabo uma harmoniosa integração entre palavra e ação, pensamento e compromisso, oração e dedicação aos deveres entre palavra e ação, pensamento e compromisso, oração e dedicação aos deveres do próprio estado: este é o caminho para realizar a síntese graças à qual o divino desce no homem e o homem se eleva até a identificação com Deus. O grande papa traça assim para o autêntico crente um projeto de vida completo; por isso, o Comentário moral a Jó constituirá no curso da Idade Média uma espécie de Summa da moral cristã.

São de notável relevância e beleza também as suas Homilias sobre os Evangelhos. A primeira delas foi pronunciada na basílica de São Pedro durante o tempo de Advento do ano 590, portanto, poucos meses depois de sua eleição ao pontificado; a última foi pronunciada na basílica de São Lourenço no segundo domingo depois do Pentecostes de 593. O Papa pregava ao povo nas igrejas onde se celebravam as «estações» – especiais cerimônias de oração nos tempos fortes do ano litúrgico – ou as festas dos mártires titulares. O princípio inspirador que une as diversas intervenções se sintetiza na palavra “praedicator”: não só o ministro de Deus, mas também todo cristão tem a tarefa de tornar-se «pregador» de tudo que experimentou em seu interior, a exemplo de Cristo, que se fez homem para levar a todos o anúncio da salvação. O horizonte deste compromisso é o escatológico: a esperança do cumprimento em Cristo de todas as coisas é um pensamento constante do grande pontífice e acaba por converter-se em motivo inspirador de todo seu pensamento e atividade. Daqui brotam seus incessantes chamados à vigilância e ao empenho nas boas obras.

Talvez o texto mais orgânico de Gregório Magno seja a Regra pastoral, escrita nos primeiros anos de pontificado. Nela, Gregório se propõe traçar a figura do bispo ideal, mestre e guia de seu rebanho. A tal fim ilustra a gravidade do ofício de pastor da Igreja e os deveres que isso comporta: portanto, aqueles que não foram chamados a tal tarefa, que não a busquem com superficialidade; aqueles, ao contrário, que a tenham assumido sem a devida reflexão, que sintam nascer na alma uma necessária turbação. Retomando um tema predileto, afirma que o bispo é antes de tudo o «pregador» por excelência; como tal, deve ser sobretudo exemplo para os demais, de forma que seu comportamento possa constituir um ponto de referência para todos. Uma ação pastoral eficaz requer também que ele conheça os destinatários e adapte suas intervenções à situação de cada um: Gregório se detém em ilustrar a valorização de quem viu nesta obra também um tratado de psicologia. Daqui se entende que ele conhecia realmente seu rebanho e falava de tudo com as pessoas de seu tempo e de sua cidade.

O grande pontífice, contudo, insiste no dever de que o pastor deve reconhecer cada dia a própria miséria, de maneira que o orgulho não torne vão, aos olhos do Juiz Supremo, o bem realizado. Por isso, o capítulo final da Regra está dedicado à humildade: «Quando se tem complacência em ter alcançado muitas virtudes, é bom refletir sobre as próprias insuficiências e humilhar-se; ao invés de considerar o bem realizado, é preciso considerar o que se descuidou». Todas estas indicações preciosas demonstram o altíssimo conceito que São Gregório tem do cuidado das almas, por ele definido «ars artium», a arte das artes. A Regra teve um êxito tão grande que, coisa mais bem rara, logo se traduziu em grego e em anglo-saxônico.

Significativa é igualmente outra obra, os Diálogos, nos quais o amigo e diácono Pedro, convencido de que os costumes estavam tão corrompidos que não permitiam que tivesse santos como em tempos passados, Gregório demonstra o contrário: a santidade sempre é possível, ainda em tempos difíceis. O prova narrando a vida de pessoas contemporâneas ou desaparecidas recentemente às que bem se poderia qualificar de santas, ainda que não estivessem canonizadas. A narração está acompanhada de reflexões teológicas e místicas que fazem do livro um texto hagiográfico singular, capaz de fascinar gerações inteiras de leitores. O material toca as tradições vivas do povo e tem o objetivo de edificar e formar, atraindo a atenção de quem lê sobre uma série de questões como o sentido do milagre, a interpretação da Escritura, a imortalidade da alma, a existência do inferno, a representação do mais além, temas todos que requeriam oportunos esclarecimentos. O livro II se dedica por inteiro à figura de Bento de Nursia e é o único testemunho antigo da vida do santo monge, cuja beleza espiritual aparece no texto com toda evidência.

Na linha teológica que Gregório desenvolve através de suas obras, passado, presente e futuro se relativizam. O que conta para ele, mais que nada, é todo o arco da história salvífica, que continua desenvolvendo-se entre os obscuros meandros do tempo. Nesta perspectiva, é significativo que ele introduza o anúncio da conversão dos Anglos no meio do Comentário moral a Jó: a seus olhos, o evento constituía um alento do Reino de Deus do qual trata a Escritura; portanto, podia mencionar-se no comentário um livro sacro. Em sua opinião, os guias das comunidades cristãs devem empenhar-se em reler os acontecimentos à luz da Palavra de Deus: neste sentido, o grande pontífice sente o dever de orientar pastores e fiéis no itinerário espiritual de uma lectio divina iluminada e concreta, situada no contexto da própria vida. (*)

Antes de concluir, é necessário falar das relações que o Papa Gregório cultivou com os patriarcas de Antioquia, de Alexandria e da própria Constantinopla. Preocupou-se sempre por reconhecer e respeitar os direitos, guardando-se de toda interferência que limitasse a legítima autonomia daqueles. Ainda que São Gregório, no contexto da situação histórica, se opôs ao título de «ecumênico» por parte do Patriarca de Constantinopla, não o fez por limitar ou negar esta legítima autoridade, mas porque estava preocupado pela unidade fraterna da Igreja universal. Ele o fez sobretudo por sua profunda convicção de que a humildade devia ser a virtude fundamental de todo bispo, mais ainda de um Patriarca. Gregório havia continuado sendo um simples monge em seu coração e por isso era decididamente contrário aos grandes títulos. Queria ser – é expressão sua – servus servorum Dei. Esta palavra que acunhou não era em seus lábios uma piedosa fórmula, mas a verdadeira manifestação de seu modo de viver e de atuar. Estava intimamente impressionado pela humildade de Deus, que em Cristo se fez nosso servo, nos lavou e nos lava os pés. Portanto, estava convencido de que, sobretudo um bispo, deveria imitar esta humildade de Deus e assim seguir Cristo. Seu desejo verdadeiramente foi o de viver como monge em permanente colóquio com a Palavra de Deus, mas por amor a Deus soube fazer-se servidor de todos em um tempo repleto de tribulações e de sofrimentos, soube fazer-se «servo dos servos». Precisamente porque o foi, é grande e mostra também a nós a medida de sua verdadeira grandeza.

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(*) Grifo meu.

Todos os artigos disponíveis neste sítio são de livre cópia e difusão deste que sempre sejam citados a fonte e o(s) autor(es).
Para citar este artigo:
PAPA, Bento XVI. Apostolado Veritatis Splendor: SÃO GREGÓRIO I DE ROMA. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5250. Desde 30/07/2008.

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Novena a São Rafael Arcanjo (Fraternidade Sacerdotal São Pio X)

 

 

Fonte: Fraternidade Sacerdotal São Pio X

São Rafael Arcanjo

NOVENA

A São Rafael Arcanjo

Médico de Deus, Guia dos viajantes, Consolador das famílias atribuladas, Mediador do matrimônio cristão, Modelo dos verdadeiros adoradores de Deus, Caridoso protetor das almas.

Festa: 24 de Outubro.

Explicação

Conhecemos o Arcanjo São Rafael pelo livro de Tobias. O seu papel de maravilhoso médico e de companheiro de viagem do jovem Tobias faz que seja invocado nas viagens e nos momentos difíceis da vida. A missa, ao mesmo tempo que canta a intervenção providencial dos anjos na nossa vida, convida-nos a ver igualmente neles perpétuos adoradores que vivem continuamente na presença da majestade de Deus.

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Novena
(ORAÇÃO PARA TODOS OS DIAS)

Oh! Glorioso Arcanjo São Rafael, que estais presente ante o trono do Altíssimo. Eu, vosso indigno devoto, me humilho em vossa presença. Conhecendo por uma parte minha indignidade, e por outra vossa ardente caridade, vos suplico do íntimo do coração, que digneis escutar os meus humildes rogos e apresente-os ante o Senhor para obter por vossa mediação os favores que solicito nesta novena. Mas se minha súplica não há de contribuir para maior glória de Deus e salvação da minha alma, rogo-vos, oh! Meu Celestial protetor, mostrai a graça que me há de conduzir com mais segurança à eterna salvação. Não olheis tanto para os meus desejos, quanto ao bem de minha alma. Cheio de inteira confiança em Vós; espero alcançar o que solicito pelos méritos de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

Pedir as graças que se desejam.

INVOCAÇÃO

Oh! Glorioso Arcanjo São Rafael, lembra-te de seus devotos, em todas as partes e sempre peça por nós, ao Filho de Deus.

(Rezar nove vezes Glória ao Pai, em honra dos nove coros angélicos).

ORAÇÃO FINAL

Glorioso Arcanjo São Rafael, celeste mensageiro destinado por Deus para nos servir de guia na peregrinação desta vida, para nos defender contra as ciladas do demônio e para curar as enfermidades da nossa alma e do nosso corpo. Nós invocamos vossa poderosa intercessão, seguros de que alcançareis por nós e nossas famílias aquelas graças singulares que dispensastes na santa casa de Tobias.

Bem sabeis piedoso Arcanjo, que nossa viagem do tempo à eternidade, está cercada de perigos, e que o demônio, como leão rugindo, nos persegue para causar profundas feridas em nossas almas, até apagar nelas, se for possível, a luz salvadora da fé. Vinde, pois, em nosso auxílio, e dignais ser nosso inseparável companheiro. Dirigi nossos passos ao caminho dos mandamentos divinos fazendo que nossos olhos estejam sempre abertos ao sol da verdade; procurando os remédios mais eficazes para curar e encher de fervor nosso espírito. Ensina-nos, oh! Poderoso arcanjo, a vencer a Satanás com as armas poderosas da oração, da vigilância e da mortificação dos nossos sentidos.

Consolide em nossas famílias o reinado da fé, a prática constante da piedade, o espírito de união e o exercício da santa caridade em favor dos pobres e dos nossos queridos mortos, a fim de que eles recebam do céu abundantes bênçãos que, por mediação vossa derramou Deus sobre o lar de Tobias.

Não nos abandoneis, pois, oh! Santo Arcanjo! Vigiai sempre ao nosso lado para que nossos passos sejam sustentados por vós, todas as vezes que sintamos desfalecidos na penosa e difícil jornada da vida. Nosso Senhor, Deus Todo-poderoso, que estais nos céus, e que é também o vosso, nos há confiado a vossa terna solicitude para que seja nosso guia neste desterro, nosso consultor nas dúvidas e nosso médico nas enfermidades. Coroais vossa obra de amigo fiel e condutor seguro, acompanhando nossas almas até as deixar nos braços de seu criador para amar-lhe e bendizer-lhe com vós eternamente. Assim seja.

Bendito e adorado seja o Santíssimo Sacramento do Altar e a Puríssima e Imaculada Conceição de Maria Santíssima, Senhora Nossa, concebida sem mancha de pecado original desde o primeiro instante de seu ser natural. Amém.

 

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Como devemos invocar a Deus no tempo da tribulação (in “Imitação de Cristo”, Capítulo XXIX – Livro III)

Cristo Rei Vitral

IMITAÇÃO DE CRISTO

LIVRO III – Capítulo XXIX

“Como devemos invocar a Deus no tempo da tribulação”

O DISCÍPULO

1. Seja vosso nome para sempre bendito, Senhor, pois quisestes provar-me com esta tribulação.

E porque não posso evitá-la que outra coisa farei senão acolher-me a Vós para que me auxilieis e a convertais em proveito meu?

Senhor, sinto-me atribulado; meu coração está desassossegado por causa desta paixão que o atormenta vivamente.

“Que vos direi agora”, ó Pai amantíssimo! Rodeado estou de angústias. Salvai-me nesta hora” (Jo 12, 27).

Vós permitistes que eu chegasse a este estado para que sejais glorificado quando eu estiver muito abatido e for por por vós livre.

Dignai-Vos, Senhor, socorrer-me: porque, pobre criatura, que posso eu fazer e onde irei sem Vós?

Dai-me paciência, Senhor, ainda desta vez. Estendei-me a vossa mão, Deus meu, e não temerei, por mais forte  que seja a tribulação.

2. Que posso dizer-vos neste estado? “Senhor, faça-se a vossa vontade”. Bem merecido tenho angústias e tribulações em que me vejo (Mt 6, 10).

Convém que as sofra; e oxalá seja com paciência, até que passe a tempestade e venha a bonança.

Poderosa é a vossa mão onipotente para afastar de mim esta tentação e moderar sua violência, para que não sucumba de todo; como tantas vezes tendes feito para comigo, Deus meu, misericórdia minha.

E quanto para mim é mais dificultosa esta mudança, tanto mais fácil é ela para Vós: “porque é obra da direita do Altíssimo” (Sl 76, 11)


Imitação de Cristo – Thomas de Kempis é tido como o autor do terceiro livro “Consolação Interior“. De acordo com o tradutor do texto latino, e autor das reflexões sobre a obra – Pe. J.I. Roquette, Kempis teria sido o “cônego regrante de Santo Agostinho” (que viveu no século V). No “Prólogo”, Pe. Roquette aventa (e a discussão sobre a autoria atravessa séculos…) que os dois primeiros livros e o quarto foram escritos pelos  abades – Gersen  e Gerson – para orientação de seus monges. É interessante observar que em certa parte há menção a São Francisco de Assis (séc. XIII).O consenso, conforme o tradutor do latim e comentador  é que tudo contibuiu para a riqueza espiritual que há nesta pequena, antiga, reconhecida e estimada obra chamada “Imitação de Cristo”. (Editora Ave-Maria, 18ª edição, 1991; Imprimatur 26.11.1928)

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Leão XIII declarou São Camilo de Lellis “Patrono dos Enfermos e Hospitais” (Memória – 14 de julho)

SÃO CAMILO DE LELLIS - Patrono dos Enfermos e Hospitais

SÃO CAMILO DE LELLIS - Patrono dos Enfermos e Hospitais

No Rio Grande do Sul, residimos por alguns anos em Sapucaia do Sul. Na cidade ao lado, o hospital que atendia o município foi construído por uma ordem camiliana. Passou por várias crises financeiras o Hospital São Camilo. Espero que sua situação atual seja diferente, em honra aos esforços de São Camilo de Lellis, que é lembrado neste dia – 14 de julho.

Casualmente, na cidade que residimos, em Santa Catarina, o hospital do município também se chama “São Camilo”. Também vem atravessando sucessivas crises. Peço a São Camilo de Lellis que interceda junto a Deus e Jesus Cristo para que as Irmãs Camilianas sejam fortalecidas, com a ajuda do Espírito Santo, e que encontrem medidas que sejam saneadoras, em definitivo, dos problemas que vêm enfrentando há muitos anos. Peço a Deus que tudo se dê à altura de seu Patrono. Amém.

Aproveito este momento para pedir que Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, Nossa Senhora e São Camilo de Lellis consolem os pais da criança vitimada pela gripe H1N1 em Sapucaia do Sul. Esta criança de nove anos foi internada em hospital de Porto Alegre. Não conhecemos sua família, e pelos meus cálculos era um bebê de colo quando saímos do RS (em 2000).

Meus pais perderam dois filhos, depois de meu nascimento e de meu irmão. Depois vieram minhas duas duas irmãs, ambas na faixa dos 40 anos.

Um deles não resistiu a um grave problema cardíaco e, no outro ano, outro irmãozinho se foi para junto de Deus Pai, em decorrência de pneumonia dupla.Eram bebês, mas receberam nome e batismo. Minha mãe sempre mencionava a ocorrência do aniversário de cada um deles, com muita tristeza. Nunca soube o que dizer, para consolá-la. Certa vez, já na faixa dos 40 anos, me veio à mente falar-lhe o seguinte (meu pai estava ao lado dela): “Mãe, eu creio que eles estão lá no Céu e recebem notícias de vocês pelos Anjos, e rezam, e pedem, sem descanso, que Deus cuide, em especial, de vocês,seus pais. De certo modo, eles são como que “anjos” (pela inocência, ainda que humanos)”. Fiz 49 anos e, já há algum tempo dei-me conta que ela deixou de falar destas duas perdas dolorosas. Certamente lembra do dia em que nasceram, mas tem o vislumbre de que estão junto d’Aquele que protege e ama, incondicionalmente, todas as Suas criaturas.

Por acreditar piamente que meus irmãozinhos estão lá no Céu, peço aos Anjos, neste momento de minha vida, em especial, que levem a eles a premente necessidade de que rezem por mim. Não por egoísmo, e sim, para que eu saiba ouvir a voz de Deus e a esta Voz consiga ser obediente, sem temor de espécie alguma. Os Anjos da Corte Celeste sabem o que precisa ser acrescentado a este pedido especial. Amém.

Como jornalista não me sinto à vontade para revelar o nome da cidade que resido com meu marido, por segurança. A internet, o mundo são lugares perigosos… Que São Bento de Núrcia e Santo Isidoro de Sevilla (Patrono da internet) nos proteja. Talvez seja um excesso de minha parte, mas jamais forneço minha localização exata; apenas a região. Peço a proteção de São Miguel Arcanjo, para que eu continue o caminho a que Deus me conduziu ainda muito jovem, e que proteja a todos de meu convívio. Amém.

Que São Camilo de Lellis continue cuidando lá do Alto dos hospitais, enfermos e enfermas, médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, bem como funcionários e funcionárias. Também há de pedir, em meio à pandemia de gripe H1N1 – que Deus Pai abençoe as consagradas e os consagrados de todas as ordens que administram hospitais. Que jamais desanimem, mesmo diante de todo o fardo. Que, enfim, os “cuidadores” nunca percam de vista sua missão especial, ou seja, cuidado e respeito “magnânimos” para com os doentes. E quanto a estes, em sua fragilidade, que São Camilo lhes conforte na situação de saúde em que se encontrem. Acredito que tudo se dá tal como Santa Teresa de Jesus intitulou em um de seus belos poemas: todos estamos “Nas Mãos de Deus”…

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Fonte: “Cada dia tem seu Santo” (A. de França Andrade) – Internet

Terça-feira, 14 de julho de 2009

São Camilo de Lellis, Confessor

(+ Roma, 1614)

Pertencia a uma nobre família mas, infelizmente, não se portou bem no início da vida. Foi militar e revelou mau caráter, sendo expulso da tropa. Viciado em jogo, perdeu todos os bens e decaiu até à condição de mendigo. Foi nesse ponto que a graça o tocou. Arrependeu-se profundamente de seus pecados e passou a servir, por espírito de caridade, aos doentes pobres em hospitais. Fundou a Companhia dos Servidores dos Enfermos, conhecidos como Camilianos. Foi declarado por Leão XIII –  “Patrono dos Enfermos e Hospitais”, juntamente com o português São João de Deus.

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Santa Isabel da Hungria: “Ela sabia unir, com rara felicidade, a vida ativa à contemplativa.” – Terceira franciscana – Roberto Alves Leite (in “O Catolicismo)

Fonte: O Catolicismo

Santa Isabel da Hungria: nobreza e resignação heróica no infortúnio

Nos faustos da corte, piedade. Sob a calúnia e a perseguição, magnanimidade. Na opulência, caridade extremada. E, com a morte, a glória dos altares e da felicidade eterna.

Por Roberto Alves Leite

A vida de um santo é uma cruzada épica, em que ele põe todas as suas forças físicas e espirituais em ação. Quer se tenha convertido na maturidade, quer tenha sido aquinhoado desde pequeno com grandes dons, a partir do momento em que decidiu aprimorar-se nas virtudes e combater seus defeitos para alcançar a santidade o aspecto heróico passará a ser uma característica predominante em sua vida. Tal aspecto pode manifestar-se, às vezes, de forma surpreendente.
Quando Santa Isabel da Hungria nasceu, em 1207, cessaram todas as guerras em seu país natal. Seu pai, o Rei André II, da dinastia dos Arpades, e sua mãe, Gertrudes de Meran, descendente direta de Carlos Magno, tinham motivos para se alegrar por esta feliz coincidência.

Quatro anos depois, o Duque Herman, da Turíngia, enviou magnífica embaixada à Hungria para solicitar ao Rei a mão de Isabel para seu filho Luís, de onze anos.

Isabel passou a viver então na corte da Turíngia, onde, à medida que crescia, ia manifestando sua profunda piedade, que caracterizava todos os seus atos. Quando atingiu a adolescência, foi alvo de críticas da parte de nobres da corte, que a acusaram de ser muito religiosa, reservada, sem os traços mundanos que eles julgavam necessários para uma duquesa. Também diziam que ela iria arruinar o reino com as esmolas que dava.

Aos 13 anos, casou-se com Luís. Este tinha todas as qualidades de um autêntico cruzado, um verdadeiro defensor da Igreja. Em 1227 partiu para a Terra Santa como cruzado, com a elite de sua cavalaria, viagem da qual não haveria de voltar, pois morreu na mesma.

Hospedada no lugar dos porcos…

Viúva aos 20 anos, Isabel viu então a perseguição abater-se sobre ela e seus quatro filhos, um dos quais recém-nascido. O Duque Henrique, seu cunhado, que jurara protegê-la, expulsou-a do palácio com seus filhos e duas damas de honra, que lhe permaneceram fiéis. E proibiu à população recebê-la em suas casas.

Assim, em pleno inverno, Isabel viu-se obrigada a andar pelas ruas e bater de porta em porta, na esperança de que alguma alma caridosa se dispusesse a recebê-la. Só conseguiu entrar numa estalagem, onde o dono lhe destinou o lugar onde estavam os porcos, que foram removidos para ali ficar com seus filhos uma duquesa e princesa real.

No dia seguinte vagueou desamparada pela mesma cidade onde tantas pessoas se tinham beneficiado das esmolas que distribuíra com a prodigalidade que lhe era peculiar. Finalmente um padre, pobre também, resolve acolhê-la e dar-lhe certa proteção. Para que os filhos não morressem de fome, é obrigada a aceitar o conselho de deixá-los em mãos de outras pessoas.

Aparições do Redentor, de Nossa senhora e de São João Batista

Em sua vida de miséria e desamparo, Isabel sofreu muitas humilhações, tantas vezes vindas daquelas mesmas pessoas a quem muito tinha ajudado quando estavam necessitadas. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo, que a ninguém esquece, aparecia para consolá-la em suas aflições. São João Batista vinha confessá-la, e Nossa Senhora muitas vezes a visitava para a instruir, esclarecer e fortificar. Foi nessa ocasião que decidiu viver apenas para Deus.

Tendo chegado aos ouvidos de seus parentes, na Hungria, as provações por que passava, recebeu ela de seu tio, o Bispo-Príncipe de Bamberg, um castelo à altura de sua posição.

Além disso, os vassalos de seu finado marido, o Príncipe Luís, ao voltarem da Cruzada, dirigiram palavras duras ao usurpador, acusando-o de ter ofendido a Deus e desonrado o Ducado da Turíngia.

Isabel foi então reconduzida aos seus domínios, onde passou a exercer a caridade como desejava; e para melhor fazê-lo, decidiu recolher-se como terceira franciscana.

Virtude heróica: exagero para alguns…

Nesta situação, entretinha-se fiando a lã para dá-la aos pobres. Sua paciência e caridade não tinham limites. Nada a irritava ou descontentava. No atendimento aos doentes, nunca se viu tão maravilhoso triunfo sobre as repugnâncias dos sentidos. Era de espantar ver como a filha de um rei e viúva de um duque tratava os indigentes mais miseráveis. Até pessoas piedosas julgavam que ela exagerava em seus cuidados.

Seu pai, ao saber como vivia, enviou-lhe mensageiros para tentar retirá-la desse “estado miserável”. Ela lhes respondeu que, vivendo assim, era mais feliz que seu pai em sua pompa real. E retomou serenamente seu trabalho de tecer a lã.

Ela sabia unir, com rara felicidade, a vida ativa à contemplativa. Apesar das fatigantes obras de misericórdia a que se dedicava, sempre encontrava tempo para passar longas horas na oração e na meditação.

Era incansável na distribuição de benefícios materiais e espirituais. A um surdo-mudo ordenou, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que dissesse de onde vinha; ao que ele imediatamente obedeceu, contando sua história. Do mesmo modo, cegos, possessos e estropiados eram curados.

Milagres atestam santidade antes e depois da morte

Tinha apenas 24 anos quando Nosso Senhor chamou-a a Si para premiá-la com a glória celestial. Na véspera da morte, sua fisionomia transformou-se. Seu olhar tornou-se resplandecente, manifestando uma alegria e felicidade que cresciam a cada instante. Quando exalou seu último suspiro, um delicioso perfume se espalhou pelo ar, ao mesmo tempo que um coro de vozes do Céu se fez ouvir em cânticos de júbilo. Era o dia 19 de Novembro de 1231.

A notícia de sua morte atraiu verdadeira multidão que desejava contemplá-la pela última vez antes de seu sepultamento. Eram pessoas de todas as condições sociais, que não se constrangiam em arrancar-lhe pedaços das vestes, mechas de cabelo, fragmentos de unhas, etc, guardando-os piedosamente como relíquias.

Para atender a todos foi necessário prolongar a exposição do corpo por quatro dias, durante os quais seu rosto se conservava como o de uma pessoa viva. Na noite que precedeu o enterro, o teto da Igreja se encheu de pássaros desconhecidos, que cantavam melodias inefáveis.

Após sua morte verificaram-se muitos milagres atribuídos à sua intercessão, como a cura de cegos, surdos, leprosos, coxos, paralíticos, etc. Isto suscitou um grande movimento popular pela sua canonização, o que muito contribuiu para que o Papa Gregório IX a elevasse sem demora à honra dos altares, fato ocorrido em tocante cerimônia no dia de Pentecostes, 26 de maio de 1235, decorridos apenas três anos e meio de seu falecimento.

Poucos dias depois, em 1º de junho do mesmo ano, o Papa publicou a bula de canonização, que foi logo enviada aos Príncipes e aos Bispos de toda a Igreja.
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Fonte de referência:
Conde de Montalembert, Histoire de Sainte Élisabeth de Hongrie, Duchesse de Thuringe, Pierre Téqui, Paris, 1930.

Fonte: O Catolicismo.

Postado em Dezembro 10, 2007 by Feri.

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Em outro post mencionei que oscilava entre a oração (precária, a meu ver) e a provação. Neste âmbito de minha espiritualidade – a oração – estou aprendendo a aprofundá-la com Santa Teresa de Jesus (de Ávila). Faço questão de revelar-lhes que não sou do tipo “murmurador”, ou seja, fico quieta diante de incômodos (não de injustiças; tenho que ser mais moderada…). Ou seja, se trata daquelas expressões que saem quando nos queixamos de algo, sem pensar muito: “que coisa…”, “não podia imaginar…”, entre outras que vão até o nível da baixaria, o que é, aliás, é um costume muito antigo ao longo da História da Humanidade… Acho que não devemos (eu tento me corrigir, sempre que me dou conta) dizer: “Meu Deus!”, ou “Jesus”, Nossa Senhora”. Este, não é um hábito corrente somente de nossa cultura. É impressionante ouvirmos nos filmes de Hollywood falas em que assassinos, ladrões, espertalhões, etc., se queixam, se espantam, enfim – murmuram tais expressões – com o diferencial, que são proferidas nos roteiros, com descarada naturalidade, só que em versão inglesa… Outros povos tem coleções dessas impropriedades. O Brasil não é diferente. A propósito, sem “murmurações” de nossa parte, nos envolvemos em um acidente com nosso automóvel. Eu e meu marido e os dois ocupantes do furgão saímos ilesos de tudo. Foi a primeira vez que passamos por isto em nossas vidas. Talvez o choque evite, em alguns, maiores arroubos, não sei…). Sei que andei rezando pela rua logo após estacionarmos nosso carro, que em nada no motor foi afetado. Não vínhamos em velocidade alta, mas a necessidade de passar, sem demora, para a pista paralela, que descia, em curva da rodovia,  foi fator decisivo para o que ocorreu. Sim, tudo aconteceu no dia de ontem, quinta-feira, e por esta razão, precisei caminhar (além da palidez natural e as pernas um tanto bambas, levei bem tudo que se seguiu). Havíamos escapado de um acidente que poderia ter sido fatal (pelos comentários) ou causar nos dois ferimentos… No entanto, Graças a Deus, como afirmei antes, estacionamos o carro na universidade, sem o vidro do motorista, a lataria com um traço sobre a pintura, que mostrou sua força ao arrancar o visor lateral dele, e o metal e borracha que envolve a janela. Deu para fechar a porta e ir até a reunião, ontem às 16h.

Estávamos adiantados, já que eram 14h e pouco. Eu desceria no centro da cidade, após viajarmos cerca de uma hora para a cidade vizinha, e meu esposo rumaria para a universidade que leciona. Danos materiais – foi somente isto que tivemos! Eu havia dito ao entrarmos na rodovia, em obras, com vários desvios: “que os Anjos de Deus nos protejam”, assim, literalmente… Em um primeiro momento, depois do acidente, meu marido queria voltar para a cidade que residimos e não ir à reunião, ainda que bastante importante, mas o convenci que o “pior” naquela situação já havia acontecido, afinal, sobrevivemos ilesos! Ele me ouviu. Estacionou no pátio da universidade, peguei minhas coisas (ele ainda perguntou se eu estava em condições de caminhar, e eu disse que sim). Nos abraçamos e beijamos, e seguimos adiante. Na rua, atravessei com o máximo cuidado, por me sentir com as pernas meio fracas. Sabia que era meu sistema nervoso abalado. Mas como nada sofremos, caminhei em frente, e fui recitando uma oração após outra, discretamente, já que pessoas cruzavam por mim, vez ou outra. Agradeci por todos nós, rezando, de início, o Creio, seguido do Pai-Nosso, da Ave-Maria, do Santo Anjo do Senhor, do Glória ao Pai; em alguns momentos observei a paisagem, meditei o acontecido, pensei em nossas famílias, em meu esposo, e repeti cada oração várias vezes até chegar ao destino que havia me proposto. Depois de tudo fui à Igreja Matriz e lá me ajoelhei (bastante cansada devido à escadaria), e agradeci novamente em oração e pedi que, afora o prejuízo e outras adversidades, nosso Criador, Seu Filho Jesus Cristo e Nossa Senhora nos fortalecessem nesta fase difícil. Saí de lá, após uma ligação de meu marido, pensando mentalmente no Salmo 23: “O Senhor é meu Pastor; nada me faltará. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, nenhum mal temerei porque Tu, Senhor, estás comigo (…)”. Amém.

Estamos bem, apesar do que aconteceu. Somos seres racionais, portanto tudo deve ser decidido no “nosso” tempo (sem atropelos) e segundo a vontade de Deus para nossas vidas, que acredito nos guiará a cada passo. É assim que penso. Perigos… Santa Teresa de Ávila quase foi “indicada” para os mentores da Inquisição. Um tempo de trevas, só que na atualidade a velocidade, a competição correm contra nós, contra o nosso espírito, quase o sufocam… De qualquer modo, imagino que Santa Teresa de Jesus rogou por nós naquele momento, pelo que me sinto honrada e agradecida. Acredito que os Santos e Santas que viveram antes de nós são nossos intercessores “privilegiados” junto à Corte Celestial, conforme meu avô materno certa vez fez referência. Ele falava somente o suficiente. Eu o admirava por isto, e o amava muito.

Não há tempo para acompanhar a seqüência; parece que tudo ocorre em um lapso, e nossa mente, nossa vida, nem sequer parecem estar em perigo. Foi assim que me senti, mesmo depois. Ele estava mais nervoso, mas aos poucos vai lembrando de por que tudo aconteceu. O que importou para nós dois e para a outra parte é ninguém saiu ferido. Disseram que tivemos sorte porque o furgão de tamanho médio portava uma carga pesada, e portanto estava bem abaixo de sua altura normal. Não vale a pena detalhar se não tivesse carga. Teve somente a ponta do pára-choque entortada e o farol traseiro quebrado. Por isto, sem murmurações (como é Sua vontade no Antigo Testamento), lhe damos Glória. De Deus Pai vem o sentido de nossas vidas e a fortaleza que devemos e queremos ter diante da vida. Amém.

Volto a lembrar: amanhã postarei o que Santa Teresa de Ávila (de Jesus) deixou-nos em seus escritos a respeito de “Provas”. Postarei um de seus poemas, que, por certo terá algo a ver com o que partilhei com vocês. Que Deus os proteja e cuide do que se passa em suas mentes e corações. Amém.

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