
O humano vem sendo substituído pelo artifício, e nem mesmo os sentimentos, as emoções estão fora de seu alcance. O mundo virtual está mudando, em sentido geral, a noção do que é viver em uma perspectiva ampla… A Ciência tem se mostrado em muitos campos, um bem para a Humanidade. Mas sabemos que, em geral, oculta conteúdos nefastos ao longo de seu desenvolvimento. Este blog é uma tentativa, e ao mesmo tempo, uma proposta de autopreservação tanto emocional quanto espiritual. Quanto aos visitantes do blog "Castelo Interior", penso que o legado de Santa Teresa, bem como as contribuições da cristandade podem propiciar este "cuidado interior". Aliás, um cuidado vital que envolve nossas mentes, nossas almas. O título do blog é uma reverência à vida e à obra de Santa Teresa de Jesus (Ávila). Suas leituras me inspiraram, e mais que isto, continuam me ensinando a viver neste tempo caótico, a interpretá-lo à luz da Fé. A partir do que compreendi de seus escritos "Castelo Interior" e "Livro da Vida", e os mais breves (estou no início de "Caminho da Perfeição"), me lancei à proposta de uma "mescla" entre Jornalismo, Literatura (suas Obras, por excelência, através da análise de estudiosos carmelitanos descalços, principalmente), com abertura para textos clássicos católicos, e artigos universais e relevantes, segundo a ótica da doutrina católica. Por fim, acredito que a produção de Santa Teresa de Ávila evidenciará o quanto sua produção nos insere em uma inevitável espiral de espiritualidade. Seu tempo, como o nosso, estava impregnado de perigos extremos – tanto para o corpo, quanto para a alma. Entretanto, esta Doutora da Igreja deixou-nos, em seus três principais escritos, a essência de seu pensamento: "Nada te turbe, nada te espante. Tudo se pasa. Dios no se muda. La paciencia todo lo alcanza. Quien a Dios tiene nada le falta. Sólo Dios basta!" (Santa Teresa de Jesus). Este blog foi criado em 2007 e não tem fins comerciais.

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC) – Portugal
Espiritualidade
Saltar no escuro… e não olhar para trás
Depois, Jesus obrigou os discípulos a embarcar e a ir adiante para a outra margem, enquanto Ele despedia as multidões. Logo que as despediu, subiu a um monte para orar na solidão. E, chegada a noite, estava ali só. O barco encontrava-se já a várias centenas de metros da terra, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. De madrugada, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. Ao verem-no caminhar sobre o mar, os discípulos assustaram-se e disseram: «É um fantasma!» E gritaram com medo. No mesmo instante, Jesus falou-lhes, dizendo: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!» Pedro respondeu-lhe: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas.» «Vem» – disse-lhe Jesus. E Pedro, descendo do barco, caminhou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo a violência do vento, teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou: «Salva-me, Senhor!» Imediatamente Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?» E, quando entraram no barco, o vento amainou. (Mateus 14, 22-32)
Às primeiras horas da madrugada, o som de um alarme de incêndio interrompeu o silêncio e, no momento exato, despertou uma família para o choque de ver a sua casa envolvida pelas chamas. Sem tempo para salvar o que quer que fosse a não ser as suas próprias vidas, desceram as escadas a correr e escaparam para a escuridão. Ainda a recuperar o fôlego, o Pai contava os filhos: «João, Ana, Maria, Miguel… – onde está o Miguel?»
“Nós somos aquela criança, todos nós, todos os dias: apanhados no escuro, precisando e querendo saltar, mas incapazes de ver onde vamos cair, sentindo-nos sós e assustados. Somos também Pedro, querendo andar sobre a água em direção a Jesus, mas hesitamos e deixamo-nos submergir”
Era demasiado tarde para voltar a entrar – a casa estava um inferno – pelo que o Pai respondeu: «Salta, Miguel, que eu seguro-te».
Entre soluços, a criança chorava: «Mas eu não consigo ver-te, papá!»
O pai respondeu-lhe calmamente: «Eu sei que não me consegues ver, filho, mas eu vejo-te. Salta!»
Durante alguns instantes não houve nada a não ser o silêncio. Então o rapaz saltou para a escuridão e encontrou a segurança nos braços do pai.
***
Nós somos aquela criança, todos nós, todos os dias: apanhados no escuro, precisando e querendo saltar, mas incapazes de ver onde vamos cair, sentindo-nos sós e assustados. Somos também Pedro, querendo andar sobre a água em direção a Jesus, mas hesitamos e deixamo-nos submergir.
“O medo é inútil», disse muitas vezes Jesus. “O que é preciso é fé”. Está certo, mas a fé de que Ele fala não é o que muitos de nós pensamos. Não se tratam de abstrações teológicas. Trata-se de nos confiarmos às mãos de Deus porque sabemos que Ele nos ama mais do que nós nos amamos a nós mesmos.
Mas ainda que esta ideia esteja clara, podemos ainda ficar desorientados por pensarmos que, ao confiar em Deus, Ele nos protege do fracasso e da dor. A promessa não é essa. A promessa de Deus para aqueles que nEle confiam é esta: Ele dar-nos-á a força para enfrentar todos os problemas que surgirem, e nunca deixará que sejamos destruídos por eles, ainda que morramos.
Pedro perdeu a fé nos dons que Deus lhe havia dado e esperou que Deus resolvesse o problema. Resultado: afundou-se! Confiar em Deus significa também confiar nos seus dons. E confiar nos seus dons significa usá-los.
Mas a fé tem ainda outro lado: os talentos e dons que Deus nos deu porque Ele teve fé em nós. Pedro perdeu a fé nos dons que Deus lhe havia dado e esperou que Deus resolvesse o problema. Resultado: afundou-se! Confiar em Deus significa também confiar nos seus dons. E confiar nos seus dons significa usá-los.
Há uma antiga expressão que diz: Trabalha como se tudo dependesse de ti, e reza como se tudo dependesse de Deus. É precisamente o que é necessário, mas não é fácil aplicá-lo porque não conseguimos ver Deus, e demasiadas vezes não conseguimos ver os nossos dons. Pode ajudar recordar as palavras escritas há mais de 50 anos na parede do gueto de Varsóvia:
Acredito no sol, ainda que não brilhe.
Acredito no amor, ainda que não o sinta.
Acredito em Deus, ainda que não O veja.
Confie em Deus e confie nos dons que Ele lhe deu. Ou seja, use os seus dons. E então salte! E nunca olhe para trás!
Mons. Dennis Clark
In Catholic Exchange
Trad. / adapt.: rm
© SNPC (trad.)
Publicado em SNPC – Portugal.
As comunidades que não disponham de internet ou que não possam aceder a ela frequentemente, podem solicitar aos Superiores Maiores que lhes enviem ditas fichas, ou então pôr-se em contacto com a Comissão do Centenário através da página Web, para que lhas enviemos a uma direcção de correio electrónico (não nos é possível fazê-lo por correio postal).
Empreendamos, pois, juntos, esta viagem apaixonante rumo ao castelo de diamante ou mui claro cristal…
Comissão preparatória OCD do Vº Centenário do Nascimento de Santa Teresa
O CASTELO INTERIOR ou AS MORADAS de SANTA TERESA.
Mandato de escrever
O livro d’As Moradas ou Castelo Interior de Santa Teresa é habitualmente considerado como a sua melhor obra. Mais do que história, este livro contém biografia, ou melhor, autobiografia. Em diálogo com Graciano, falando do livro da Vida, disse-lhe ele: “Faça memória do que se lembrar e de outras coisas, e escreva outro livro, e diga a doutrina em geral, sem nomear a quem aconteceu tudo aquilo que nele disser”.
Este “outro livro” foi o Castelo Interior. A própria autora, contente com a sua obra, dá a preferência a este – as Moradas, sobre o outro – a Vida. E, usando termos de ourivesaria, embora para ela o livro da Vida seja uma jóia, o Castelo Interior é mais precioso e com mais delicados esmaltes e lavores, ou dito de outra maneira por ela própria: “ A meu parecer, avantaja-se-lhe o que escrevi depois, embora frei Domingos Báñez diz que não está bom; pelo menos tinha mais experiência do que quando o escrevi”.
O mandato de escrever As Moradas veio-lhe de três lados: do padre Graciano, do doutor Velázquez e do “vidreiro” Maior: Cristo Jesus que, por outra parte, era o seu “livro vivo”.
As condições de saúde que a Madre atravessava eram muito penosas, “com ruído e fraqueza tão grande de (cabeça) que mesmo os negócios forçosos escrevo com pena”. A situação da Ordem era de grande risco e a própria Teresa encontrava-se confinada em Toledo, a modo de cárcere. Mas a fortaleza desta mulher dá-lhe o equilíbrio necessário para poder escrever amplamente. E a que levou acabo tantas fundações sem saúde e no meio de tantas contradições, vai agora construir este seu castelo com a mesma força de vontade.
Tempo de escritura, autógrafo, destinatárias
A hora da primeira pedra e da última é ela própria quem no-la revela: “E assim começo a cumpri-la hoje, dia da Santíssima Trindade, ano de 1577, neste mosteiro de S. José do Carmo em Toledo, onde estou presentemente” Isto no prólogo. E, na conclusão do livro: “Acabou-se isto de escrever no mosteiro de São José de Ávila, no ano de 1577, véspera de Santo André, para glória de Deus, que vive e reina para sempre sem fim, amen” (7M, conclusão 5).
Um total de seis meses menos dois dias, desde que começou a escrever até que lhe pôs ponto final. Fala-nos, pelo menos duas vezes, da interrupção da escrita, “porque os negócios e a saúde me fazem deixá-lo na melhor altura” (4M 2,1). E noutro lugar dirá: “já passaram quase cinco meses desde que comecei até agora; e, como a cabeça não está para o tornar a ler, tudo deve ir desconcertado, e talvez diga algumas coisas duas vezes” (5M 4,1). Volta ao mesmo manuscrito e termina a obra a 29 de Novembro.
E, concluído o livro, dá “por bem empregado o trabalho, embora confesso que foi bem pouco”. O autógrafo das moradas encontra-se no mosteiro das carmelitas descalças de Sevilha desde Outubro de 1618. Em 1622, foi levado em procissão pelas ruas de Sevilha por ocasião dos festejos pela canonização da autora. E a última e mais prolongada saída do manuscrito até Roma teve lugar em 1961, onde foi devidamente restaurado pelo “Istituto Ristauro Scientifico del libro” do Vaticano e o “Istituto di Patologia del libro” de Itália. Voltou a Sevilha em 1962 e ali se conserva no convento das Descalças, num indescritível estojo relicário: as muralhas de Ávila convertidas em castelo para abrigar e custodiar o autógrafo do Castelo Interior. Esta obra deve-se à ideia e solicitude do então Geral da Ordem, Padre Anastácio Ballestrero.
As primeiras destinatárias são as suas monjas, como diz nesta espécie de dedicatória: “JHS. Este tratado, chamado Castelo Interior, escreveu Teresa de Jesus, monja de nossa Senhora do Carmo, para as suas irmãs e filhas, as monjas carmelitas descalças”.
Destinatário da obra é também todo o fiel cristão, candidato à santidade desde o seu baptismo e por ele.
Visita ao Castelo.
É a própria autora a que nos vai guiando a partir de uma das suas primeiras confissões. Está com a pena na mão pensando como poderá começar a escrever, e “ofereceu-se-me o que agora direi para começar com algum fundamento. É considerar a nossa alma como um castelo todo ele de um diamante ou mui claro cristal, onde há muitos aposentos, assim como no Céu há muitas moradas (Jo 14,2). Que, se bem o considerarmos, irmãs, não é outra coisa a alma do justo, senão um paraíso onde Ele disse ter Suas delícias” (Prov 8, 31) ” (1M 1,1).
Já, desde aqui, sem nenhuma complicação, compreendemos qual, ou melhor, quem é para ela o castelo interior: a pessoa humana, e vemos como se vai deixando iluminar, por esse par de textos bíblicos, de João e Provérbios.
Para organizar a leitura ou estudo de obra tão importante como esta, para assaltar este Castelo (passe a expressão), publicaram-se já há alguns anos, “um grande trabalho em que se analisam com lupa os núcleos básicos do simbolismo teresiano, os eixos temáticos de cada uma das moradas, o itinerário léxico da interiorização, o caminho para a construção simbólica da própria interiorização” (Monserrat Izquierdo Sorli).
Este tipo de estudo e de leitura não resulta fácil à maioria dos leitores em cujas mãos cai o livro d’ As Moradas. Mais ao alcance da mão estão uns esquemas muito simples, mas muito compreensíveis. Nesta elaboração entram elementos doutrinais básicos, em que se interrelacionam necessariamente os dois protagonistas: Deus e o homem. Deus que vive e actua e Se comunica dentro. O homem (a alma) como cenário e protagonista da aventura espiritual. E a oração, que é a ponte de comunicação entre Deus e a alma. Daqui brota a ideia, o conceito de “moradas”.
Teresa divide a obra do Castelo em sete moradas, mas adverte: “não considerem poucos aposentos, senão um milhão deles” (2M 2,12), e mais claramente: “Embora não se trate senão de sete moradas, em cada uma destas há muitas: por baixo, por cima. Dos lados” (7M conclusão 3).
Prescindindo da compreensão do Castelo em que se encontram e se veem e se podem visitar e percorrer os diferentes aposentos, estâncias, salas, moradas, devemos ter sempre presente que a alma é a que tem em si mesma as diversas ou diferentes moradas, as leva consigo e é considerada como repartida em sete moradas, sem prejuízo de que essas sete se convertam em setenta vezes sete, quer dizer, em inumeráveis.
Em Fundações 14, 5, encontra-se uma frase que ilumina bem este facto: “Quanto menos tivermos na terra, mais gozaremos naquela eternidade onde as moradas são conforme ao amor com que imitámos a vida do nosso bom Jesus”. Esse mais além tem-no ela bem presente no momento em que começa a escrever: “Onde há muitos aposentos, assim como no Céu há muitas moradas” (1M 1,1). Ouve-se, aqui, o eco da passagem evangélica, embora sem mencioná-la: “Na Casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2)
O percurso do Castelo torna-se mais fácil e prazenteiro da mão da autora. Lido devagar o prólogo, o leitor deixe-se levar pelos títulos dos 27 capítulos que compõem o livro. A Santa tem uma habilidade especial para sintetizar nesses epígrafes o que quer dizer. Além disso, como parece certo que os títulos estão escritos depois de redigido o texto, resulta dupla a habilidade sintetizadora e esclarecedora da autora.
Terminada a leitura dos 27 títulos, leia-se com atenção a Conclusão, particularmente os nn. 2 e 3, onde a Madre lança, uma vez mais, critérios de vida e de leitura, que foi semeando ao longo do livro.
Outro método bastante simples para ir fixando na mente a doutrina do Castelo interior consiste em atender à substância bíblica incluída em textos, tipos, personagens, motivos bíblicos.
Como exemplo, pode ver-se, nas Segundas Moradas, onde se encontram: 1. Textos: “Quem anda no perigo, nele perece” (Si 3,26); “ não sabemos o que pedimos” (Mt 20,22); “sem a sua ajuda nada podemos fazer” (Jo 15,5); “a paz esteja convosco” (Jo 2,19.21). 2. Tipos bíblicos: O filho pródigo, perdido e comendo manjar de porcos (Lc 15,16); e os soldados de Gedeão quando iam para a batalha (Jz 7, 5-7. 16,22). 3. Textos e também motivos: “Ninguém subirá ao Pai senão por Mm” (Jo 14, 6); “quem Me vê a Mim, vê Meu Pai” (Jo 14,19).
O fio condutor é bem fácil de seguir e muito útil ao longo de todas as moradas. Não podemos esquecer tampouco uma coisa tão frequente na Santa escritora: o mundo dos símiles, exemplos ou comparações, que, na sua pedagogia, a assemelham tanto ao divino Mestre. Um dos exemplos generalizados é a comparação do castelo: 1M 1,3. Este símile não é exclusivo (nem no seu espírito nem na sua pena) d’As Moradas: também o usou no Caminho (CV 28,9-12; CE 48, 1-4); no Caminho, não usa a palavra ”castelo”, mas “palácio”; no entanto, a substância é a mesma. Outro exemplo de comparação- e acaso a melhor – é a do bicho-da-seda: 5M 2, 1-10.
O tema, ou melhor, a realidade da oração, está presente em todo o Castelo como fio condutor. A presença da oração já a deixa bem claramente proposta em 1M 1,7: “Tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo é a oração e reflexão, não digo mais mental que vocal; logo que seja oração, há-de ser com consideração; porque naquela em que não se adverte com Quem se fala e o que se pede e quem é pede e a Quem, não lhe chamo eu oração, embora muito meneie os lábios”.
Não podemos perder de vista esta afirmação, contando com a evolução que se vai seguindo: oração rudimentar, como primeiros ensaios; meditação, um simples olhar, estar na presença de Deus; recolhimento infuso, quietude, gostos; oração de união. Deus no fundo da alma; formas extáticas, visões, locuções, êxtases, ferida de amor; ânsias de eternidade; contemplação perfeita. Da conjunção de todos estes elementos que vamos assinalando, bem saboreados, irá surgindo no leitor, além do gosto mental, a compreensão da doutrina teresiana.
Alguém, desde a França, escreveu há tempos, embora não a propósito da doutrina teresiana: “A oração é o primeiro de tudo. Não é o essencial: o essencial é a caridade, que resume em si mesma a perfeição, Deus mesmo. Mas a oração é o primeiro”. Por isso, escreveu José Vicente Rodríguez com toda a razão: “Partindo da realidade da graça e do amor, que fazem que a alma seja agradável a Deus, que seja o paraíso onde Ele Se deleita (1M 1,1), as moradas vão-se convertendo na base do amor, virão a ser os diferentes graus de amor da alma, visto que ”o aproveitamento da alma não está em pensar muito, mas em amar muito” (F 5,2), e também “para subir às moradas que desejamos, não está a coisa em pensar muito, mas em amar muito” (4M 1,7). Este amor não é exclusivo mas inclusivo de outras actividades, outros exercícios, e assim resulta que a alma estabelecida em amor empregar-se-á, por exemplo, no conhecimento próprio e no exercício da humildade: as primeiras moradas (1M 2, 8-9). Dar-se-á também diversificação segundo as diferentes mercês recebidas de Deus (1M 1,3). Isto vê-se bem claro na leitura seguida da obra teresiana, sendo a oração de quietude algo típico e fundante, por exemplo, das Moradas Quartas; das Moradas Quintas a oração de união; das Sextas o desposório espiritual e das Sétimas o matrimónio espiritual”.
Para compreendermos plenamente como leva a Santa toda a sua carga doutrinal, aconselhamos a ler com toda a atenção o último capítulo de todo o livro: (7M c. 4). Aqui, dá a impressão de que a Madre quer aterrar nos fundamentos mais sólidos da vida cristã: o amor fraterno e a configuração com Cristo. O Castelo interior é, sem dúvida, um esplêndido manual de santidade.
Como ajudas e pontos de referência no percurso do Castelo, também resulta útil imprimir na memória alguns pontos nos quais a Madre condensa a doutrina que vai estendendo os seus tentáculos ao longo de todo o livro. Bastarão alguns exemplos: Grandeza, dignidade, capacidade, formosura da alma humana: 1M 1, Presença total, natural e sobrenatural de Deus na alma: 5M 1,10. Consciência teresiana da diversidade de almas:1M 1,3; 5M 3,4. Fabricar cada um a sua morada em Deus: 5M 2, título e corpo do capítulo. Ser deveras espirituais: 7M 4,8. Não ficarem anões: 7M 4,9. Ser plenamente realistas: 7M 4, 14. Não pôr medida às obras de Deus: 6M 4,12.
E, como capítulo imprescindível sobre Cristo Jesus, deve ler-se 6M 7, cujo título reza assim: “Diz quão grande erro é não se exercitar, por espiritual que seja, em trazer presente a humanidade de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e sua sacratíssima Paixão e vida, e a Sua gloriosa Mãe e os santos. É de muito proveito”. Trata-se de um capítulo paralelo a Vida 22.
Concluindo
Em 6M 10,3, a Santa surpreende-nos com a identidade e, ao mesmo tempo, com a diversidade que assinala nesta passagem: “Façamos agora de conta que Deus é como uma morada ou palácio muito grande e formoso, e que este palácio, como digo, é o mesmo Deus”. Partindo destas palavras, chega-se imediatamente àquilo de “sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito” (Mt 5,48). Aqui, diríamos: sede castelos formosos como o vosso Pai Celestial o é.
O famoso Catecismo holandês apresenta assim aos crentes de hoje esta obra teresiana: “Santa Teresa escreveu um livro em que a alma está representada por um Castelo com sete moradas. Morada após morada, chega-se à sétima onde habita Deus, quer dizer, Cristo. A sua presença percebe-se em todo o Castelo, mas ao chegar a alma ao centro, imersa na própria realidade, sente-se toda invadida pelo sereno sentimento de que Deus está nela. A alma vive dentro da realidade terrena, que se apresenta magnífica aos seus olhos, pois compreende que Deus é o coração inefável de toda a realidade”.
Na Positio para o Doutoramento da Santa, encontra-se, como peça principal, o Relatório do advogado da causa. Para defender a altura da eminente doutrina da santa doutoranda, oferece da seguinte maneira uma espécie de resumo d’As Moradas. Esta “é a principal obra teresiana e mesmo – segundo alguns – de toda a mística cristã […]. O livro divide-se em sete partes ou moradas, das quais cada uma tem vários capítulos, exceto as segundas moradas, que tem um único capítulo.
As Primeiras Moradas (2 capítulos) são as almas que têm desejos de perfeição, mas ainda estão metidas nas preocupações do mundo, das quais devem fugir e procurar a solidão.
As Segundas Moradas (1 capítulo) são as almas com grande determinação de viver em graça e que se entregam, portanto, à oração e a alguma mortificação, embora com muitas tentações por não deixarem de todo o mundo.
Esta espécie de resumo autorizado é como uma apresentação do Castelo no seu conjunto; e vem a ser, ao mesmo tempo, como um convite a ir verificando toda essa estrutura, não de maneira mental ou intelectual, mas vivencialmente, isto é, desde a práxis e experiência cristã, e tudo isso pela mão de Teresa de Jesus, a Doutora da Igreja Universal.
“Pilatos mandou então flagelar Jesus. Os soldados teceram de espinhos uma coroa, puseram-na sobre a sua cabeça e o cobriram com um manto de púrpura. Aproximavam-se dele e diziam: Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas. Pilatos saiu outra vez e disse-lhes: Eis que vo-lo trago fora, para que saibais que não acho nele nenhum motivo de acusação. Apareceu então Jesus, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse: Ecce homo! Eis o homem!” (Jo 19,1-5).
Entre as muitas pinturas que retratam o Ecce Homo, há uma que sempre me impressionou. É de Jan Mostaert, pintor flamengo do século XVI, e está na National Gallery de Londres. Tentarei descrevê-la. Ela nos ajudará a imprimir melhor na mente o episódio, já que o pintor transcreve fielmente, em cores, os dados do relato evangélico, especialmente do relato de Marcos (Mc 15,16-20).
Jesus tem na cabeça uma coroa de espinhos. Um feixe de arbustos espinhosos que estava no pátio, talvez para fazer fogo, deu aos soldados a ideia dessa cruel zombaria da sua realeza. Da cabeça de Jesus descem gotas de sangue. Sua boca está semiaberta, como que lutando para respirar. Sobre os ombros, sulcados pelos golpes recentes da flagelação, um manto pesado e desgastado, mais próximo da lata que da estopa. Ele tem os pulsos amarrados por uma corda grosseira; em uma das mãos, eles colocaram um pedaço de pau a fazer as vezes de cetro e, na outra, um feixe de varetas, símbolos que ridicularizavam a sua majestade. Jesus não pode mover sequer um dedo; é o homem reduzido à total impotência, o protótipo de todos os algemados da história.
Meditando sobre a Paixão, o filósofo Blaise Pascal escreveu certa vez estas palavras: “Cristo está em agonia até o fim do mundo: não podemos dormir durante este tempo”. Há um sentido em que estas palavras se aplicam à pessoa de Jesus mesmo, ou seja, à cabeça do corpo místico e não apenas aos membros. Não apesar de Ele ter ressuscitado e estar vivo, mas justamente porque Ele ressuscitou e está vivo. Deixemos de lado, no entanto, este significado misterioso demais para nós e falemos do sentido mais claro daquelas palavras. Jesus está em agonia até o fim do mundo em cada homem ou mulher submetidos aos mesmos tormentos. “Vós o fizestes a mim” (Mt 25, 40): Ele não disse esta frase apenas sobre quem acredita nele; ele a disse sobre cada homem e cada mulher famintos, nus, maltratados, presos.
Ao menos por uma vez, não pensemos nos males sociais, coletivos: a fome, a pobreza, a injustiça, a exploração dos fracos. Desses males já se fala muitas vezes, embora nunca o suficiente, e há o risco de se tornarem abstrações. Categorias, não pessoas. Pensemos agora no sofrimento dos indivíduos, das pessoas com nome e identidade concreta; nas torturas decididas a sangue frio e infligidas voluntariamente, neste exato momento, por seres humanos contra outros seres humanos, inclusive crianças.
Quantos “Ecce homo” no mundo! Meu Deus, quantos “Ecce homo”! Quantos prisioneiros na mesma condição de Jesus no pretório de Pilatos: sozinhos, algemados, torturados, à mercê de soldados ásperos e cheios de ódio, que se entregam a todo tipo de crueldade física e psicológica, divertindo-se em ver sofrer. “Não podemos dormir, não podemos deixá-los sós!”.
A exclamação “Ecce homo!” não se aplica somente às vítimas, mas também aos carnífices. Ela quer dizer: eis aqui do que o homem é capaz! Com temor e tremor, digamos ainda: eis do que somos capazes nós, homens! Muito distante da marcha inexorável do Homo sapiens sapiens, o homem que, segundo alguns, nasceria da morte de Deus e tomaria o seu lugar.
Os cristãos não são, certamente, as únicas vítimas da violência homicida que há no mundo, mas não se pode ignorar que, em muitos países, eles são as vítimas marcadas e mais frequentes. Jesus disse um dia aos seus discípulos: “Chegará uma hora em que aqueles que vos matarem julgarão estar honrando a Deus” (Jo 16, 2). Talvez estas palavras nunca tenham achado na história um cumprimento tão pontual quanto hoje.
Um bispo do século III, Dionísio de Alexandria, nos deixou o testemunho de uma Páscoa celebrada pelos cristãos durante a feroz perseguição do imperador romano Décio: “Eles nos exilaram e, sozinhos entre todos, fomos perseguidos e lançados à morte. Mas, ainda assim, celebramos a Páscoa. Todo lugar em que se sofria tornou-se para nós um lugar de celebração da festa: fosse um acampamento, um deserto, um navio, uma pousada, uma prisão. Os mártires perfeitos celebraram a mais esplêndida das festas pascais ao ser admitidos no banquete celeste”. Será assim para muitos cristãos também na Páscoa deste ano, 2015 depois de Cristo.
Houve alguém que teve a coragem de denunciar, como leigo, a indiferença perturbadora das instituições mundiais e da opinião pública em face de tudo isto, lembrando a quais consequências essa indiferença já levou no passado. Corremos todos o risco, tanto instituições quanto pessoas do mundo ocidental, de ser Pilatos que lavam as mãos.
A nós, no entanto, não é permitido fazer qualquer denúncia neste dia. Trairíamos o mistério que estamos celebrando. Jesus morreu gritando: “Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Esta oração não é simplesmente murmurada; é gritada para ser bem ouvida. Na verdade, não é sequer uma oração, mas uma exigência imperativa, feita com a autoridade de quem é Filho: “Pai, perdoa-os!”. E como Ele mesmo disse que o Pai escuta todas as suas orações (Jo 11,42), devemos acreditar que Ele ouviu também esta última feita na cruz, e que, portanto, aqueles que crucificaram o Cristo foram perdoados por Deus (é claro que não sem antes se arrependerem de alguma forma) e estão com Ele no paraíso, testemunhando para toda a eternidade o ponto até o qual pode chegar o amor de Deus.
Essa ignorância, como tal, estava só nos soldados. Mas a oração de Jesus não se limita a eles. A grandeza divina do seu perdão consiste no fato de que o perdão também é oferecido aos seus inimigos mais ferozes. É para eles que Jesus alega a desculpa da ignorância. Mesmo que eles tenham agido com astúcia e malícia, eles realmente não sabiam o que faziam, não pensavam que estavam crucificando um homem que era de fato o Messias e Filho de Deus! Em vez de acusar os seus adversários, ou de os perdoar confiando ao Pai Celestial o cuidado de vingá-lo, Ele os defende.
Seu exemplo sugere aos discípulos uma generosidade infinita. Perdoar com a sua mesma grandeza de alma não pode envolver simplesmente uma atitude negativa, de renunciar a querer o mal para quem faz o mal; deve traduzir-se, em vez disso, em uma vontade positiva de lhes fazer o bem, mesmo que apenas com uma oração dirigida a Deus em seu favor. “Orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5, 44). Esse perdão não deve procurar compensação nem sequer na esperança de um castigo divino. Deve ser inspirado por uma caridade que desculpa o próximo, mesmo sem fechar os olhos para a verdade, e que tenta parar os maus para que eles não façam mais mal aos outros nem a si mesmos.
Quereríamos dizer: “Senhor, o que nos pedes é impossível!”, mas Ele nos responderia: “Eu sei. E morri para vos dar o que vos peço. Não vos dei apenas o mandado de perdoar, nem apenas um exemplo heroico de perdão; com a minha morte, eu vos dei a graça que vos torna capazes de perdoar. Eu não deixei ao mundo apenas um ensinamento sobre a misericórdia, como tantos outros também deixaram. Eu sou Deus e, para vós, fiz brotarem da minha morte rios de misericórdia. Deles podeis beber a mãos cheias no Ano Jubilar da Misericórdia que tendes pela frente”.
Então, indagará alguém, seguir a Cristo é sempre um resignar-se passivamente à derrota e à morte? Pelo contrário! “Tende coragem”, disse Ele aos apóstolos antes da Paixão: “Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Cristo venceu o mundo vencendo o mal do mundo. A vitória definitiva do bem sobre o mal, que se manifestará no fim dos tempos, já aconteceu, de fato e de direito, na cruz de Cristo. “Esta é hora do juízo deste mundo” (Jo 12, 31). Desde aquele dia, o mal é o perdedor: tanto mais perdedor quanto mais parece triunfar. O mundo já foi julgado e condenado em última instância, com sentença inapelável.
Jesus derrotou a violência sem opor a ela uma violência maior ainda, e sim sofrendo-a e revelando toda a sua injustiça e inutilidade. Ele inaugurou um novo tipo de vitória, que Santo Agostinho resumiu em três palavras: “Victor quia victima” – “vencedor porque vítima”. Foi ao “vê-lo morrer assim” que o centurião romano exclamou: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!” (Mc 15, 39). Os outros se perguntavam o que significava o alto brado que Jesus tinha dado ao morrer (Mc 15, 37). O centurião, que era experiente em lutas e lutadores, reconheceu de imediato que aquele era um grito de vitória.
O problema da violência nos persegue, nos choca, inventando formas novas e espantosas de crueldade e de barbárie. Nós, cristãos, reagimos horrorizados à ideia de que se possa matar em nome de Deus. Alguém poderia objetar: mas a Bíblia também não está cheia de histórias de violência? Deus mesmo não é chamado de “Senhor dos Exércitos”? Não é atribuída a Ele a ordem de exterminar cidades inteiras? Não é Ele quem decreta, na Lei mosaica, numerosos casos de pena de morte?
Se tivessem dirigido a Jesus, durante a sua vida, esta mesma objeção, Ele certamente teria respondido o que respondeu sobre o divórcio: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim” (Mt 19,8). Também sobre a violência, “no princípio não foi assim”. O primeiro capítulo do Gênesis mostra um mundo onde a violência não é sequer pensável, nem dos seres humanos entre si, nem entre homens e animais. Nem sequer para vingar a morte de Abel, e assim punir um assassino, é lícito matar (cf. Gn 4, 15).
Publicado em Vatican Radio.

O centenário do nascimento de S. Teresa de Jesus deveria reconduzir-nos a nós próprios, ao nosso interior, onde reside a nossa verdade e a verdade das relações com os outros. Quanto mais densa vida interior na oração, mais real será a entrega às causas humanas. A experiência do Espírito remete sempre para o amor concreto. E a espiritualização autêntica redunda sempre em humanização.
A Ordem dos Padres e Madres Carmelitas Descalços, do Carmelo Secular e da vasta família teresiana está, desde o dia 15 de outubro de 2014 até ao 15 de outubro de 2015, a celebrar o 5.º centenário do nascimento da sua fundadora, S. Teresa de Jesus, nascida em Ávila a 28 de março de 1515.
É uma oportunidade única para ela falar aos nossos contemporâneos com o poder da sua experiência de Deus e com a paixão do seu amor à Igreja. Teresa não tinha elevada formação intelectual. A sua especialidade é o vivido. O que será a narrativa fundadora de um novo estilo de vida espiritual e religiosa está constituído pela «história da sua alma» no autobiográfico “Livro da Vida”, pelas lições de vida fraterna no “Caminho de Perfeição” e pela comunicação da sua experiência de Deus no livro “Moradas” ou “Castelo Interior”. É esta a grande trilogia da sua obra escrita. Dessa narrativa emergem, depois de resistências, a rendição ao amor de Deus, a descoberta n’Ele da própria verdade de mulher e de filha da Igreja.
A sua não é uma espiritualidade de virtudes heroicas, de integridade moral, de empolgantes ações sociais. Ela é mestra na experiência de Deus, partilhada com os leitores, convidados a darem sentido à vida. Foi providencial que os confessores e teólogos a quem ela se abria a tivessem mandado escrever sob obediência. De não ter sido assim, teríamos perdido uma das mais estimulantes propostas de relações humanas e de relação com a transcendência.
Num mundo cada vez mais focado em ambições de poder e em omnipotências de ter e de prazer – que, ao fim e ao cabo, nos deixam talvez de coração vazio mas certamente reduzidos às imprevisíveis irrupções e aos inevitáveis embates da radical fragilidade humana –, o alerta de Teresa soa assim: não estamos ocos; somos habitados por Aquele que quer dar sentido último à nossa existência.
O ser humano de hoje tem dificuldade em encontrar Deus, talvez porque tem dificuldade em encontrar-se a si mesmo. Anda perdido ou distraído com o barulho mediático e informático à sua volta. Um pouco por isso, Deus tornou-se «um estranho em nossa casa» – como diz o monge beneditino Lluís Duch. Ora, S. Teresa propõe que entremos na zona mais nobre da nossa intimidade para aí reconhecermos o Deus que está à nossa espera. Enquanto Ele for «um estranho na nossa morada» ou nela for considerado uma presença irrelevante, estamos a ignorar algo determinante na vida: desperdiçamos a intimidade da morada de Deus em nós. Para S. Teresa, o ser humano é no seu interior “outro céu, onde só Sua Majestade mora” (“7Moradas” 1,3). É um ser «capaz de Deus», capaz de amar como Deus o ama: quando orienta a sua vida para Deus, seguindo o Jesus do evangelho, é mais fiel à sua verdade de humano, precisamente porque Teresa vê Jesus como o rosto de Deus e «a Verdade» dos humanos.
Na sua mensagem a toda a Ordem, o Padre Geral dos Carmelitas Descalços proclama que a atualidade deste 5º centenário é recordar à Igreja e à sociedade que o centro do ser humano é Deus e que o centro de Deus é o ser humano. Costuma-se ver S. Teresa como a grande «mística». E é, se entendermos a “mística” em sentido forte. Ela abriu-se totalmente a Deus, deixando que Deus fosse tudo nela e vivendo em contínua comunhão com o mistério. Mas a sua mística não era para poucos eleitos. Simplesmente repropõe aos leitores a alegria, a frescura e o poder humanizante do evangelho.
Como o P. Geral da Ordem continua a meditar, Teresa partilhou com os perdidos num mundo distraído o que ela, tão atenta, encontrou: um caminho e uma morada, precisamente os títulos de seus dois grandes livros. São as duas perspetivas fundamentais que qualquer vida precisa de ter para singrar orientada e com um objetivo que lhe dê felicidade autêntica. Ela percebeu que o que orienta e ilumina o “caminho” é o ardente desejo de habitar a rica e esplêndida “morada” definitiva. Percebeu o evangelho. Viu-se a si própria como morada do amor de Deus: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o “amará” e viremos a ele e estabeleceremos “morada” nele». Mas também viu Deus como morada para ela: Na casa de meu Pai há muitas moradas» (João 14,2.23).
O facto de a Faculdade de Teologia da Universidade Católica promover várias atividades, entre as quais um curso “e-learning” sobre S. Teresa de Ávila, está a indicar que a mais preciosa herança e o melhor presente do seu 500.º aniversário são os seus escritos, para encontrarmos na “Vida” de hoje o nosso “Caminho de Perfeição” e a “Morada” do nosso “Castelo Interior”, que é o reino do amor: amor de Deus para connosco, fonte de amor para com os outros.
O centenário do nascimento de S. Teresa de Jesus deveria reconduzir-nos a nós próprios, ao nosso interior, onde reside a nossa verdade e a verdade das relações com os outros. Quanto mais densa vida interior na oração, mais real será a entrega às causas humanas. A experiência do Espírito remete sempre para o amor concreto. E a espiritualização autêntica redunda sempre em humanização. “E quando as obras ativas saem desta raiz que é o interior, são admiráveis e muito cheirosas flores. Procedem desta árvore do amor de Deus; e só por ele, sem nenhum interesse próprio, espalha-se o odor destas flores para proveito de muitos; e é perfume que dura” (Teresa de Jesus, “Conceitos do amor de Deus”, 7,3).
Armindo dos Santos Vaz
Sacerdote carmelita teresiano (Ordem dos Padres Descalços) e doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, é professor associado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa).
Publicado em PARA VÓS NASCI – V Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus (Ordem dos Padres Carmelitas Descalços em Portugal). Extraído originalmente de SNPC – Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, Portugal.
“Exorto-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12, 1s).
A Quaresma tem um sentido eminentemente pascal: é um tempo de caminho de conversão a Cristo, período de cristificação. “Morremos com o Cristo; trazemos em nosso corpo a morte de Cristo, para que também a vida de Cristo se manifeste em nós”. “Já não vivemos, portanto, nossa própria vida, mas a vida de Cristo, vida de inocência, vida de castidade, vida de sinceridade e de todas as virtudes”. “Ressuscitamos com o Cristo; vivamos, pois, com ele, subamos com ele, a fim de que a serpente não possa encontrar na terra nosso calcanhar”. (Santo Ambrósio, Tratado sobre a Fuga do Mundo).
Esta cristificação é ação do Espírito Santo: o homem não pode atingir tal escopo sem a graça do Santo Espírito, único que pode testemunhar Jesus em nós e conformar-nos a Cristo. Por isso mesmo, a busca da cristificação é um combate espiritual: combate porque é luta contra as tendências desencontradas do homem velho, que ainda persistem em nós; espiritual porque é combate na força do Espírito do Cristo: “Por ele, os corações são elevados ao alto, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem na virtude chegam à perfeição. Ele ilumina os que foram purificados de toda a mancha e torna-os espirituais pela comunhão consigo. Dele nos vem a alegria sem fim, a união constante e a semelhança com Deus; dele procede, enfim, o bem mais sublime que se pode desejar: o homem é divinizado” (São Basílio Magno, Tratado sobre o Espírito Santo).
A Quaresma é, pois, tempo do combate espiritual, tempo de uma ascese mais cuidadosa, ascese de caráter cristo-pneumatológico, tendo como fim a divinização (a vida de filhos do Pai). Sendo assim, esse tempo nada mais é que uma intensificação daquilo que é e deve ser toda a vida do cristão. São Bento, por exemplo, dizia a seus monges que a vida deles deveria ser uma contínua quaresma (ou seja, uma contínua preparação para a Páscoa).
Aproveitemos para viver esse combate espiritual com algumas atitudes de ascese.
Temos várias atitudes e comportamentos que podem nos ajudar, como por exemplo, o jejum: meio de tomar consciência da dependência de Deus; meio de domar nossas paixões, meio de atingir a educação de nossos instintos, modo de nos sensibilizarmos para a fome alheia.
Faz parte também a vida de oração: como modo de nos abrir para Deus e sua Presença; como meio de nos fazer sensíveis à sua Palavra; como modo de nos ajudar a compreender sua santa vontade; como meio de tudo avaliar com o coração de Deus; como modo privilegiado de fazer-se dócil à ação do Espírito Santo.
Uma atitude de desprendimento importante para hoje é a esmola, pois nos abre para os outros; é sinal da própria comunhão trinitária; é remédio contra nossas concupiscências; descentra-nos.
Outra prática não muito comum entre nós são as vigílias, que nos ajudam a vigiar pela vinda do Reino; no combate à preguiça espiritual; faz-nos intercessores pelo mundo que dorme e nos ajudam no autodomínio.
Vivamos o grande retiro da Quaresma, tempo do deserto e do combate espiritual, com abertura para estes valores que nos aproximam de Deus pelo próximo.
No Ano Arquidiocesano da Esperança sejamos portadores da boa notícia do Reino de Deus e aproveitemos do tempo favorável para vivermos a caminhada de conversão, sendo ajudados pela penitência física e silenciosa do jejum. Jejum não só de carne e de alimentos às sextas-feiras, mas jejum da maldade, jejum da perversidade, jejum dos maus atos e pensamentos, jejum da desagregação e jejum da intolerância religiosa.
Sejamos generosos com as obras de caridade da Igreja, doando o que deixamos de comer, como gesto concreto em favor dos mais pobres e das necessidades das obras caritativas da Igreja (de maneira especial no Domingo de Ramos, dia da Coleta da Solidariedade). A oração que é ouvida por Deus é aquela que é acompanhada destes gestos concretos.
Boa Quaresma e profunda conversão rumo à Páscoa!
Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
Segunda, 09 de Março de 2015.
Publicado em CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
_________________________________________________________________________________
Moisés falou ao povo, dizendo:
1 ‘Agora, Israel, ouve as leis e os decretos
que eu vos ensino a cumprir,
para que, fazendo-o, vivais
e entreis na posse da terra prometida
que o Senhor Deus de vossos pais vos vai dar.
5 Eis que vos ensinei leis e decretos
conforme o Senhor meu Deus me ordenou,
para que os pratiqueis na terra em que ides entrar
e da qual tomareis posse.
6 Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática,
porque neles está vossa sabedoria
e inteligência perante os povos,
para que, ouvindo todas estas leis, digam:
‘Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação!
7 Pois, qual é a grande nação
cujos deuses lhe são tão próximos
como o Senhor nosso Deus,
sempre que o invocamos?
8 E que nação haverá tão grande
que tenha leis e decretos tão justos,
como esta lei que hoje vos ponho diante dos olhos?
9 Mas toma cuidado!
Procura com grande zelo não te esqueceres
de tudo o que viste com os próprios olhos,
e nada deixes escapar do teu coração
por todos os dias de tua vida;
antes, ensina-o a teus filhos e netos.
Palavra do Senhor.
Aquele que praticar e ensinar os mandamentos,
Artigo e imagem publicados em Caritatis – Portal Católico
Jesus posto à prova (Mateus 4, 1-11)
1Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. 2Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome. 3O tentador aproximou-se dele e lhe disse: Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães. 4Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8,3). 5O demônio transportou-o à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: 6Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra (Sl 90,11s). 7Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16). 8O demônio transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe: 9Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares. 10Respondeu-lhe Jesus: Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás (Dt 6,13). 11Em seguida, o demônio o deixou, e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo.
____
Comentando:
A pedagogia de Jesus quer nos mostrar que antes de qualquer iniciativa, devemos nos recolher, e no silêncio, orar, experimentar Deus em nossa vida, conversar e escutar o que Ele nos fala. Assim, será este tempo da Quaresma, propício a este recolhimento. O caminho é longo e precisamos, neste momento, fazer um balanço de nossa vida. É tempo de conversão.
Jesus se deixa conduzir pelo Espírito do Pai, mesmo sabendo que será tentado pelo demônio em três momentos. Ele vai, exorta confiança, se defronta com dificuldades, mas confia para onde está sendo levado. Jesus quer nos ensinar como devemos lutar e vencer as nossas tentações: com confiança em Deus, com a oração, com a graça divina e com a fortaleza. Rezamos, diariamente, na oração do Pai Nosso, pedindo a Deus que nos ajude com a Sua graça. “Não nos deixeis cair em tentação”.
Jesus manifesta a sua natureza humana, fazendo jejum, tendo fome, para mostrar que somos capazes de uma parada em nossa vida para a reflexão, contemplação. Jesus quer mostrar que antes de começar a sua obra messiânica, será necessário uma preparação, com oração e jejum no deserto. Da mesma forma, Moisés, o fez antes de promulgar, em nome de Deus, a Antiga lei do Sinai (cf. Ex 34,28), e também Elias, que caminhou quarenta dias no deserto para levar avante a sua missão: fazer renovar o cumprimento da Lei (1Rs 19,5-8).
A Igreja estabelece anualmente o tempo de jejum quaresmal (neste domingo contemplamos o retiro de Jesus no deserto), tempo este, que devemos nos preparar, com a oração e penitência, que será fundamental a nossa vida. Inclusive uma boa reflexão, no silêncio, sempre deverá acontecer antes de empreendermos alguma atividade ou tomarmos alguma decisão importante.
Recordo que no ano de 2010, tive a graça de participar da Quaresma, de forma diferenciada, pois estava sendo acompanhado pelo Pe. Paulo Pedreira, sj, nos Exercícios Espirituais. Então, foi uma Quaresma e Semana Santa intensas, onde pude perceber o amor que Jesus tem por cada um de nós. A nossa vida dá um salto de qualidade. Sentimos o ardor do coração de Cristo sofredor e crucificado e pedimos a graça de estar com Ele. Foi a melhor Quaresma, por isto estou aqui, continuando, convidando outros a esta experiência dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio.
Ser cristão hoje é ser um “super herói”, onde necessitamos nos livrar das armadilhas do inimigo a cada instante, principalmente pessoas como nós, que vivem em uma grande cidade, como o Rio de Janeiro. Este Primeiro Domingo da Quaresma se faz necessário, para contemplarmos Jesus, em sua fome, por ter ficado um tempo, sem alimento e observarmos o diálogo entre Jesus e o acusador.
Num primeiro momento, a fome de Jesus é intensa, o diabo aproveita para tentá-Lo, mas o Senhor o rejeita com uma frase do Dt 8,3. Jesus, não se assusta, apenas responde com Palavras da Sagrada Escritura, para mostrar, que como Ele podemos ser fortes, se tivermos a vivência da Palavra de Deus, que nos conforta e poderá ser nosso verdadeiro alimento, o Pão da Palavra da mesma forma como Yahweh alimentou os filhos de Israel com o maná no deserto e hoje, somos alimentados com o maná como imagem da Eucaristia. Com efeito, “o homem não vive só de pão, mas também de toda a palavra que sai da boca de Deus”.
Num segundo momento, Jesus é levado ao pináculo do Templo, e o acusador pede que Ele se jogue, pois os anjos o protegerão. Nesta passagem, Jesus quer mostrar aos cristãos que se deve estar alerta, quanto as falsas interpretações da Sagrada Escritura, como a citação proposta pelo diabo. Jesus chama a atenção para o erro da heresia, que consiste em fixar o olhar em um determinado trecho da Escritura, com exclusão de outros, com interpretação ao bel prazer, o que nos faz perder de vista a unidade da Escritura e a totalidade da fé.
Num terceiro momento, Jesus é levado para um monte muito alto e o demônio oferece a Jesus, todos os reinos, se o adorar. Jesus, responde de forma enérgica “para trás satanás”. Tiramos deste momento o ensinamento de Jesus, que devemos estar firme na missão salvífica em nossos ambientes e não podemos se deixar seduzir por ofertas, que muitas vezes, nos encantam. Vemos o grave problema da corrupção em nosso país, onde cada vez mais se agrava. As pessoas dormindo pelas ruas, pedindo esmolas nos sinais, se prostituindo. Tudo é lamentável, tudo é fruto da corrupção. Mas, aprendemos de Jesus: a sua atitude, a sua oposição as coisas do mundo.
O demônio deixa Jesus, é a vitória, consequência da constância na luta. Os anjos vêm e servem a Jesus. Este trecho do Evangelho mostra a alegria interior que teremos, quando, pela nossa confiança em Deus, nos opormos às tentações às coisas do mundo. Contra as tentações, Deus nos dá poderosos defensores, que quando precisarmos devemos invocar: os anjos da guarda.
Publicado em Caritatis – Portal Católico.
Fonte: Rádio Vaticano.

A partir de março deste ano, em Ávila, na Espanha, tem início as comemorações em torno dos 500 anos de nascimento de Santa Teresa de Jesus (ou de Ávila).
O evento envolve inclusive uma possível participação de Papa Francisco na agenda das comemorações, que vão de março a outubro deste ano, e foi organizado de modo a ter alcance mundial.
No link indicado abaixo, disponibilizo a matéria que traz informações detalhadas sobre este grande evento.

Imagem: Êxtase de Santa Teresa, Rádio Rainha da Paz.
“A oração vocal deve ser acompanhada de reflexão. Uma oração em que a pessoa não é consciente de com quem está falando, do que está pedindo, ou de quem pede e a quem, não pode ser considerada uma oração – por muito que mova os lábios.” (1, 7) – Santa Teresa de Ávila, “Castelo Interior”
A frase mais conhecida de Santa Teresa na oração provém de seu livro “O Caminho de Perfeição”. Nele, ela explica que “A oração é um intercâmbio pessoal entre amigos.” Mas, o que ela quer dizer com “intercâmbio pessoal”? Uma ampla resposta se pode encontrar em outra frase sua sobre a oração: “A oração vocal deve ser acompanhada pela reflexão”, a partir de seu livro: Castelo Interior”. Neste, ela explica em detalhes o que ela entende com “intercâmbio pessoal.”
Em um nível básico, ela explica como a oração está ligada à reflexão e vice-versa. Apesar de sabermos que a amizade é passar algum “tempo de qualidade” com os amigos ou a família, também sabemos que a amizade vai além disso. Nesse sentido, ter um “tempo de qualidade” implica ouvir e entender o que está acontecendo ao nosso redor. Quando partilhamos algum “tempo de qualidade” com nossos amigos ou familiares, por vezes, se faz necessário parar para pensar a respeito do que estão dizendo e sobre como estão falando, ou seja, precisamos nos deter para refletir, pois é neste momento que saberemos mais deles e eles podem vir a saber de nós. A nossa amizade com Deus funciona da mesma maneira. Sem a reflexão, não há amizade. É a isto que Santa Teresa se referia quando afirmava “não pode ser considerado oração – por muito que mova os lábios.”
Em um nível mais profundo, isso nos leva a reconhecer a importância do autoconhecimento na oração. Na verdade, esta grande ênfase no autoconhecimento é o selo distintivo da espiritualidade Carmelita. Naturalmente, o autoconhecimento é um elemento que está presente em qualquer tipo de espiritualidade, mas na espiritualidade Carmelita esta ênfase é particularmente forte. Santa Teresa foi mais longe, ao afirmar que “O caminho do autoconhecimento nunca deve ser abandonado.” A pessoa que não é capaz de refletir é quase como um manequim, que somente é capaz de mostrar o seu exterior, porque seu interior é vazio. Quanto mais nos conhecemos, menos nos parecemos manequins (que vivem para o desfile), e seremos mais autênticos (vivendo os valores mais profundos da honestidade, fidelidade, bondade e da verdade).
Por último, e talvez mais importante, a frase de Santa Teresa a respeito da oração coloca ênfase especial no fato de que esta deve ser dirigida a um destinatário. Se amizade significa partilha e reflexão, uma profunda amizade implica uma partilha e reflexão mais profundas, e assim por diante. Muitas vezes temos escutado de casais de esposos há muito tempo casados dizer: “hoje nos amamos muito mais do que quando nos casamos há 50 anos” (e isto vale para 60 ou mesmo 75). Assim, parece não haver limite para expressar nosso amor, tal como não há para o amor de Deus. O único obstáculo que podemos enfrentar é o medo, mas quanto mais conhecemos a nós mesmos, menor será o impacto que este terá sobre as nossas vidas. Então, até onde nos conduz tudo isto a respeito da oração? Se fizermos a oração como Santa Teresa nos recomenda, receberemos o amor infinito de Deus e, o mais surpreendente é que poderemos obter a capacidade de amar a nós mesmos. Sim, a oração é surpreendente.
“La Oración – Teresa de Ávila”, tradução e adaptação de Lúcia Barden Nunes, extraído de http://www.carmelitas.org/la-oracion/carmelite-saints-on-prayer/teresa-of-avila/
As comemorações natalinas que se dão em família ou dentro das relações de amizade, por mais que tenham se sofisticado, devido aos detalhes, na realidade, têm perdido quase totalmente o seu sentido original, aliás, um significado que permaneceu vivo para a Cristandade por quase dois mil anos: o nascimento do Menino Jesus, em uma gruta de Belém. No entanto, desde a década de sessenta, ou talvez, um pouco antes, a partir da segunda metade do século XX, com o incremento de propagandas por meio do rádio, impressos e com o surgimento da televisão, o abandono do seu verdadeiro sentido foi pouco a pouco sendo firmado. O resultado disso foi a intensa exploração comercial da figura do Papai Noel, que, paulatinamente, acabou dessacralizando a data de 25 de dezembro nos meios de comunicação do mundo inteiro, e, por extensão, mesmo dentro das famílias cristãs.
Ainda que seja assim, sem qualquer sinal de uma reversão desta realidade, mais e mais distorcida, cada um de nós pode repensar o conteúdo que envolve o período de festas de fim de ano, e, assim, proporcionar a si próprio e aos semelhantes mais próximos, uma oportunidade de viver o sentido original da comemoração da vinda de Jesus Cristo à face da Terra.
Amor, perdão e redenção envolvem-nos a cada Natal. Nada deveria ser mais importante. Assim, vivamos o Natal acompanhados da amizade de Jesus, relembrando sua pequenez na manjedoura, para que vivamos o ano todo envolvidos pela pureza de seu Amor, que em Sua Paixão e Ressurreição nos resgatou para a verdadeira vida!
Um abençoado Natal a todos!
Lúcia Barden Nunes
………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

Fonte: Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
24/12/2014
“Nosso Salvador, amados filhos, nasceu hoje; alegremo-nos. Não pode haver tristeza quando nasce a vida: dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade. Ninguém está excluído da participação nessa felicidade; a causa da alegria é comum a todos porque nosso Senhor, aquele que destrói o pecado e a morte, não tendo encontrado nenhum homem isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória. Rejubile o pecador, porque é convidado ao perdão. Reanime-se o gentio, porque é chamado à vida.”
O texto de São Leão Magno citado acima nos dá o sentido da festa que celebramos. Não celebramos o Natal como um fato passado. Não se trata de um aniversário, porque o aniversário de alguém ou de algum acontecimento nos representa um fato passado, que fica cada vez mais no passado e cujo acontecimento fundante nós não podemos tocar de novo. O Natal de Nosso Senhor, ao contrário, tendo acontecido uma vez por todas não pode se repetir, mas nós o experimentamos de forma misteriosa na sua celebração anual. As celebrações se repetem, não o mistério de Deus. Em cada ano, é sempre o mesmo e único mistério do Natal do Senhor que nos toca e renova a nossa vida. O mesmo São Leão nos recorda em outra passagem: “(…) o retorno do ano apresenta-nos de novo o sacramento de nossa salvação que, prometido desde o início dos tempos, foi dado no fim para perdurar sem fim.” É o Natal do Senhor, o Natal da cabeça, mas também o Natal o Corpo. O Natal é, portanto, a nossa festa, onde aquele dia glorioso nos toca através da liturgia que realizamos. Sim, o Natal é para nós um dia glorioso. Andávamos nas trevas. Tendo sido criados à imagem e semelhança de Deus, desconhecíamos o modelo a partir do qual fomos criados. Para isso o Verbo se fez carne, para revelar ao homem o seu mistério, para nos dizer o que significa ser homem e mulher (cf. GS 22). Aquele que nos criou de modo admirável, de modo ainda mais admirável restabeleceu a nossa dignidade, nos recorda a oração coleta dessa eucaristia.
Deus hoje nos presenteia com a abundância da sua palavra. Ao ouvirmos o profeta o nosso coração transborda numa grande confirmação, num grande Amém, porque de fato “os confins da terra viram a salvação do nosso Deus”. Em íntima unidade com a profecia, o salmista canta a beleza dessa manifestação gloriosa de Deus. Isaías pensa aqui no retorno do exílio, uma grande Páscoa para Israel. Todavia, o profeta tem também os seus olhos voltados para a expectativa do Messias, Aquele que salvará definitivamente Israel. Para nós, em Cristo, essa espera chegou ao fim e já temos em nosso meio Aquele que é a nossa Salvação.
Gostaria de me ater, sobretudo, ao Evangelho que ouvimos. Trata-se do prólogo do Evangelho de João. João nos apresenta a preexistência do Filho. Ele é a Palavra eterna do Pai. Seu lógos, gerado da própria substância do Pai. Igual ao Pai na sua divindade. E o Filho sempre esteve com Deus. Não houve um tempo em que o Pai não fosse Pai porque Ele sempre teve junto de si o Filho (Orígenes). Faz parte da própria essência de Deus ser Pai e do Filho, ser Filho. É a vida trinitária antes da criação. O Pai que ama seu Filho gerando-o e o Filho que ama o Pai submetendo-se totalmente à sua vontade. Essa circulação de amor entre os dois chama-se Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho como rezávamos ontem no Credo. Todavia, a Trindade quer se abrir à criação. E o Pai cria o mundo pelo poder da sua Palavra. No Filho, na Palavra, tudo foi criado. Ele é o mediador da criação e, quando o mundo caiu em trevas, Ele que é a luz dos homens, a “luz da luz” como também rezávamos ontem no Credo, veio ao mundo nos iluminar, nos devolver de novo a visão que havíamos perdido pelo pecado. Ele, que outrora se manifestava a Moisés na transitoriedade da tenda, armou definitivamente a sua tenda no meio dos homens (v. 14). Assumiu a nossa humanidade realmente. Fez da nossa humanidade uma habitação para si. Não que Ele tivesse apenas se revestido aparentemente de nossa humanidade, mas que assumiu verdadeiramente como morada para si a nossa humanidade. A sua divindade ungiu e divinizou a nossa humanidade. E nós, que tínhamos nos solidarizado com Adão e Eva no pecado em virtude da participação na sua mesma natureza, temos o Filho que se solidariza conosco, que se compadece de nós, e assume a nossa humanidade, para reerguer-nos das trevas onde havíamos caído. E nós que o recebemos, nos tornamos filhos de Deus. Eis a nossa dignidade devolvida.
Ele é o “esplendor da glória do Pai” como nos diz a carta aos Hebreus. Nós o olhamos na humildade do presépio, no sacrifício da cruz, na luz da ressurreição e dizemos: Ele é “o esplendor da glória do Pai”. A Deus, ou seja, ao Pai, ninguém jamais viu. O AT nos fala que ninguém pode ser a Deus e continuar vivo. De nosso lado, porque sendo pecadores não podemos contemplar o Santo. Do lado de Deus, Ele não se deixa ver para que não caíamos no erro de querer manipulá-lo como se fosse um objeto. Mas, Cristo nos revelou Àquele que não podíamos, por nossas próprias forças contemplar. Ele que está na intimidade do Pai, voltado para o seu coração, nos “contou”, nos “interpretou” o Pai, porque por força de nossa própria inteligência não podíamos chegar sozinhos ao “tudo” que Deus é.
Devemos conscientizar-nos, como nos ensina São Leão, da nossa dignidade. Procuremos não somente imitá-lo exteriormente, de fora para dentro. Mas, tomemos consciência do que aconteceu em nós pelo seu nascimento, de como fomos transformados no mais íntimo de nós mesmos. E assim, poderemos externar, manifestar, a glória do Senhor com a nossa vida.
NATAL DO SENHOR
1ª Leitura: Is 52,7-10
Sl 97
2ª Leitura: Hb 1,1-6
Evangelho: Jo 1,1-18
No Quarto Domingo do Advento entra em cena Maria. Seu Filho é o Deus conosco e já se faz presente, ainda de modo velado, mas real, no seio da Virgem, que concebeu por obra do Espírito Santo (cf. Mt 1, 18 – 24).
Mons. José Maria Pereira
Publicado em PRESBÍTEROS.
Imagem: Canção Nova (Artigo: O caminho com Jesus, Maria e José, com link para a homilia do Padre Paulo Ricardo sobre a “Visitação de Nossa Senhora – 4º Domingo do Advento“)

Vitaliano Mattioli
Jesus com as famosas palavras: “Devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (MT 22, 21) pôs fim a um sistema de relação entre o Estado e a Religião (Cesaropapismo) ou entre a religião e o Estado (Teocracia).
Entre estas duas tendências, Jesus escolheu o sistema de separação, que não é de oposição, mas de respeito mútuo pelas relativas responsabilidades.
A palavra ‘política’ desde a cultura da Grécia antiga, tem sido entendida como “realização do bem comum da cidadania”. De acordo com esta interpretação, pode-se legitimamente afirmar que a política não desfruta de uma autonomia absoluta, mas sendo uma atividade humana, deve estar dentro dos parâmetros da ética. É neste sentido que existe uma visão cristã da política.
Pio XII, em discurso à União Latina de Alta Moda (08 de novembro de 1957), fez referência também à moral política: “É bem verdade que a moda, como a arte, a ciência, a política e atividades semelhantes, chamadas profanas, tem suas próprias normas para atingir os objetivos imediatos para os quais se destinam; No entanto, o seu sujeito é inevitavelmente o homem, que não pode prescindir de realizar aquelas atividades tendo em vista o último e supremo fim ao qual ele mesmo está essencialmente e totalmente ordenado. Existe, portanto, o problema moral da moda”; por consequência existe o problema moral da política.
A Igreja, perita em humanidade, como costumava expressar Paulo VI, formulou a sua Doutrina Social, na qual também lida com a moralidade da política.
Agora, entre os princípios permanentes da doutrina social da Igreja, que constituem os verdadeiros e próprios gonzos do ensinamento social católico prevalece o princípio da dignidade da pessoa humana no qual todos os demais princípios ou conteúdos da doutrina social da Igreja têm fundamento, do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade.
Estes princípios têm um caráter geral e fundamental, pois que se referem à realidade social no seu conjunto e porque remetem aos fundamentos últimos e ordenadores da vida social. Pela sua permanência no tempo e universalidade de significado, a Igreja os indica como primeiro e fundamental parâmetro de referência para a interpretação e o exame dos fenômenos sociais, necessários porque deles se podem apreender os critérios de discernimento e de orientação do agir social, em todos os âmbitos.
Da dignidade, unidade e igualdade de todas as pessoas deriva, antes de tudo, o princípio do bem comum, a que se deve relacionar cada aspecto da vida social para encontrar pleno sentido. Segundo uma primeira e vasta acepção, por bem comum se entende: “o conjunto de condições da vida social que permitem, tanto aos grupos, como a cada um dos seus membros, atingir mais plena e facilmente a própria perfeição” (Gaudium et Spes, n. 26).
Uma sociedade que, em todos os níveis, quer intencionalmente estar ao serviço do ser humano é a que se propõe como meta prioritária o bem comum. A pessoa não pode encontrar plena realização somente em si mesma, prescindindo do seu ser “com” e “pelos” outros.
As exigências do bem comum derivam das condições sociais de cada época e estão estreitamente conexas com o respeito e com a promoção integral da pessoa e dos seus direitos fundamentais. Entre estes direitos fundamentais estão os direitos à vida, a viver uma vida digna dum ser humano, o trabalho, a liberdade religiosa.
Se o bem comum empenha todos os membros da sociedade, ainda mais se identifica com o programa do homem político. Não é possível ser ‘homem político’ sem ter como aspiração a realização do bem comum. Por isso o bem comum é exatamente o contrario do bem próprio e do egoísmo. É neste sentido que a Igreja apresenta a atividade política como diaconia, isto é: serviço.
A responsabilidade de perseguir o bem comum compete, não só às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, pois que o bem comum é a razão de ser da autoridade política. Na verdade, o Estado deve garantir coesão, unidade e organização à sociedade civil. O fim da vida social é o bem comum historicamente realizável.
Estes princípios gerais são expressados em forma clara especialmente em dois documentos básicos: a constituição conciliar Gaudium et Spes (7 dezembro 1965) e a “Nota Doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política” da Congregação para a Doutrina da Fé (24 novembro 2002).
A Gaudium et Spes no n. 76 fala sobre ‘A comunidade política e a Igreja’.
Neste n. 76 são enunciados alguns princípios básicos de grande importância.
Primeiro: “A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana”.
Segundo: “No domínio próprio de cada uma, comunidade política e Igreja são independentes e autônomas. Mas, embora por títulos diversos, ambas servem a vocação pessoal e social dos mesmos homens”.
Terceiro: “O homem não se limita à ordem temporal somente”.
Quarto: ‘É certo que as coisas terrenas e as que, na condição humana, transcendem este mundo, se encontram intimamente ligadas; a própria Igreja usa das coisas temporais, na medida em que a sua missão o exige. […] Ela não coloca a sua esperança nos privilégios que lhe oferece a autoridade civil”.
Quinto: “Sempre lhe deve ser permitido pregar com verdadeira liberdade a fé; ensinar a sua doutrina acerca da sociedade; exercer sem entraves a própria missão entre os homens; e pronunciar o seu juízo moral mesmo acerca das realidades políticas”.
Com estes princípios a Igreja reivindica a sua autonomia do Estado, a trascendência do ser humano, reafirma a moralidade da atividade política.
Em seguida a Igreja escreveu uma Nota em forma ainda mais explícita. Nesta reafirma o primado da pessoa humana, a sua dignidade e declara que o fim da atividade política deve ser a busca do bem comum.
Além disso, evidencia as características do político católico. Ele deve saber que a sua pertença a um partido não pode ser superior à sua pertença à Igreja e que cada expressão legislativa não pode ser a última referência normativa. Se assim não fosse, pode-se chegar a um absurdo: isto é, que alguns homens, com as leis, possam atribuir a si o direito de estabelecer os confins entre o bem e o mal.
Defende também a verdadeira laicidade do Estado, pressuposto fundamental para que o político crente possa expressar a si mesmo em conformidade à sua consciência, e se opõe quando a laicidade se transforma em ideologia.
Agora prefiro citar algumas expressões mais significativas.
“Os fiéis leigos desempenham também a função que lhes é própria de animar
cristãmente a ordem temporal (n. 1).
“A liberdade política não é nem pode ser fundada sobre a ideia relativista, segundo a qual, todas as concepções do bem do homem têm a mesma verdade e o mesmo valor, mas sobre o fato de que as atividades políticas visam, vez por vez, a realização extremamente concreta do verdadeiro bem humano e social, num contexto histórico, geográfico, econômico, tecnológico e cultural bem preciso. […] Se o cristão é obrigado a admitir a legítima multiplicidade e diversidade das opções temporais, é igualmente chamado a discordar de uma concepção do pluralismo em chave de relativismo moral, nociva à própria vida democrática, que tem necessidade de bases verdadeiras e sólidas, ou seja, de princípios éticos que, por sua natureza e função de fundamento da vida social, não são “negociáveis. […] A estrutura democrática, sobre que pretende construir-se um Estado moderno, seria um tanto frágil, se não tiver como seu fundamento a centralidade da pessoa (n. 3).
“Não é consentido a nenhum fiel apelar para o princípio do pluralismo e da autonomia dos leigos em política, para favorecer soluções que comprometam ou atenuem a salvaguarda das exigências éticas fundamentais ao bem comum da sociedade. Por si, não se trata de ‘valores confessionais’, uma vez que tais exigências éticas radicam-se no ser humano e pertencem à lei moral natural” (n. 5).
Esta é a visão política da Igreja que emerge analisando os seus documentos. Ela não pede privilégios para si mesma. A única preocupação é de trabalhar para o bem comum da humanidade e de defender o valor absoluto e primário da pessoa humana. Por isso a Igreja evidencia a submissão da política à ética. Quando isso não acontece, a política se transforma em ditadura e totalitarismo. A atividade política não está mais a serviço do homem, mas se transforma num grande seu inimigo, como infelizmente a história do século passado pode testemunhar.
Crato, 25 de Setembro de 2014.
Publicado em Zenit.org.
Os preparativos para a comemoração dos 500 anos de nascimento de Santa Teresa de Ávila (1515-1582) transcorrem com entusiasmo na cidade de Ávila, na Espanha. Seu legado ainda hoje repercute nas almas que vivem em um mundo conturbado, pouco afeito a escutar o próprio coração, de tão bombardeado que está por informações, em geral, desconexas, desencontradas. Mas, àqueles que resistem e se empenham nesta jornada interior rumo à plena comunhão com Deus, tal como propunha Santa Teresa, é fornecido através de seus escritos, um itinerário de caminhada na oração, de modo que nenhuma perturbação tenha o poder de nos dominar, nenhum obstáculo possa nos afastar deste caminho, que uma vez empreendido se torna presença constante em nossos corações. Santa Teresa de Jesus guiai-nos nesta trajetória de amor à perfeição, que somente as almas dos filhos de Deus podem querer e almejar! Amém!
Lúcia Barden Nunes
Fonte: Portal Paulinas.

Teresa de Cepeda y Ahumada, nascida em Ávila, na Castela Velha, de nobre família, começou cedo a dar prova de temperamento vivaz, fugindo de casa aos sete anos para buscar o martírio entre os mouros da África, por amor de Cristo. Mas aos 16 anos começou a se embelezar por amor de um simples mortal. E o pai, por um compreensível ciúme, para protegê-la, confiou-a a um convento de freiras.
Aos 20 anos, contrariando os programas paternos, decidiu ser freira. Houve poucos anos de vida regular, pois ela também cedeu a certa moda. As vozes interiores não lhe deram tréguas e ela sentiu um desejo sempre mais insistente de retornar ao primitivo rigor dos carmelitas, sendo objeto de extraordinárias experiências místicas, traduzidas depois, por obediência, em vários tratados de oração mental, citados entre os clássicos da literatura espanhola.
Aos 40 anos ocorre a primeira grande virada na vida desta imprevisível santa de idéias generosas. Depois das aflições interiores, dos escrúpulos e daquilo que na mística é chamado de “noite dos sentidos” — quer dizer, trevas interiores, a prova mais dura de uma alma superar —, dá-se o encontro iluminador com dois santos, Francisco de Borja e Pedro de Alcântara. Estes a repõem no bom caminho, na via da total confiança em Deus.
Em 1562, ela funda em Ávila o convento reformado sob o patrocínio de São José. Cinco anos depois, um outro decisivo encontro: João da Cruz, o príncipe da teologia mística. Os dois foram feitos para se entenderem. Inicia assim aquele singular conúbio, em meio a ardentíssimos arrebatamentos místicos e ocupações práticas do dia-a-dia, que dela fazem a santa do bom senso, uma contemplativa imersa na realidade.
Ela possui a chave para entrar no Castelo interior da alma, “cuja porta de ingresso é a oração”, mas ao mesmo tempo sabe tratar egregiamente de matérias econômicas. “Teresa”, diz ela argutamente, “sem a graça de Deus é uma pobre mulher; com a graça de Deus, uma força; com a graça de Deus e muito dinheiro, uma potência”. Viaja pela Espanha de alto a baixo (era chamada a “freira viajante”) para erigir novos conventos reformados e revela-se uma hábil organizadora.
Escreve a história da própria vida, um livro de confissões extraordinariamente sinceras: “Como me mandaram escrever o meu modo de fazer oração e as graças que o Senhor me fez, eu queria que me tivessem concedido o poder de contar minuciosamente e com clareza os meus grandes pecados”. Morre pronunciando as palavras: “Sou filha da Igreja”. Em 1970, Paulo VI proclamou-a doutora da Igreja.
Publicado em Portal Paulinas.
Leia também: Canção Nova Formação – Frases de Santa Teresa de Ávila.
19 de setembro – Dia de Nossa Senhora de La Salette
Uma mensagem que veio em forma de profecias, confirmada pelos santos Papas Pio IX (que a aprovou em 1852), Leão XIII e São João Paulo II. Fala do materialismo e das infidelidades no seguimento de Jesus Cristo pelos sacerdotes, prelados, consagrados e consagradas (em grande número se tornariam apóstatas), bem como uma série de advertências aos governantes, que deixariam de lado o senso de justiça, dominados que estariam pelo espírito materialista, por abandonarem o espírito religioso.
Nossa Senhora em La Salette (França) chora pelos males que recairiam sobre o mundo se não houvesse arrependimento de toda a Humanidade e volta à piedade e devoção.Fala sempre em tom de advertência!
Nossa Senhora de La Salette, fortalecei-nos no combate da Fé!
Lúcia Barden Nunes
………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………
Fonte: Blog Canção Nova
Em sua aparição em La Salette, Nossa Senhora deixou uma mensagem que diz muito da realidade que vivemos em nosso tempo.

Nossa Senhora confiou uma mensagem aos videntes Maximino Giraud e Mélanie Calvat, em sua aparição em La Salette, na França, em 19 de Setembro de 1846. No início da aparição, ambos viram a Santíssima Virgem sentada sobre uma enorme pedra. Ela tinha o rosto entre as mãos e chorava amargamente. As duas crianças foram até a Bela Senhora, que não parava de chorar. A Virgem Maria explicou a Maximino e a Mélanie que chorava pelos pecados da humanidade e que deveríamos rezar para que o braço de seu Filho Jesus não pesasse sobre a Terra. Além, da mensagem, confiada aos dois videntes, pedindo oração e penitência pela humanidade, a Mãe de Deus confiou a Mélanie um segredo, que deveria ser revelado somente em 1858. Em 1852, o Papa Pio IX aprovou a aparição e reconheceu a origem celeste da mensagem. O Papa Leão XIII também reconheceu e apoiou a mensagem de La Salette e o Papa João Paulo II considerou-a como “o coração das profecias de Maria”.
Num primeiro momento, Nossa Senhora fala da infidelidade de muitas almas consagradas a Deus: “Os sacerdotes, ministros de meu Filho, pela sua má vida, sua irreverência e impiedade na celebração dos santos mistérios, pelo amor do dinheiro, das honrarias e dos prazeres, tornaram-se cloacas de impureza. Sim, os sacerdotes atraem a vingança e a vingança paira sobre suas cabeças. Ai dos sacerdotes e das pessoas consagradas a Deus, que pela sua infidelidade e má vida crucificam de novo meu Filho! Os pecados das pessoas consagradas a Deus bradam ao Céu e clamam por vingança. E eis que a vingança está às suas portas, pois não se encontra mais uma pessoa a implorar misericórdia e perdão para o povo. Não há mais almas generosas, não há mais ninguém digno de oferecer a vítima imaculada ao [Pai] Eterno em favor do mundo”1.
Depois, a Virgem Maria profetiza sobre a família e a sociedade e quais os males que se seguirão. Destas profecias, apresentamos aquelas que são mais significativas e que dizem respeito também ao nosso tempo: “Os chefes, os condutores do povo de Deus negligenciaram a oração e a penitência. E o demônio obscureceu suas inteligências. Transformaram-se nessas estrelas errantes, que o velho diabo arrastará com sua cauda para fazê-las perecer. […] Os maus livros abundarão sobre a Terra, e os espíritos das trevas espalharão por toda parte um relaxamento universal em tudo o que se refere ao serviço de Deus. […] Deus vai golpear de modo inaudito. Ai dos habitantes da Terra. Deus vai esgotar sua cólera, e ninguém poderá fugir a tantos males acumulados. […] Toda ordem e toda justiça serão calcados aos pés. Não se verá outra coisa senão homicídios, ódio, inveja, mentira e discórdia, sem amor pela pátria e sem amor pela família. […] Os governantes civis terão todos um mesmo objetivo, que consistirá em abolir e fazer desaparecer todo princípio religioso para dar lugar ao materialismo, ao ateísmo, ao espiritismo e a toda espécie de vícios. […] Os maus estenderão toda sua malícia. Até nas casas as pessoas matar-se-ão e massacrar-se-ão mutuamente. […] Os justos sofrerão muito. Suas orações, sua penitência e suas lágrimas subirão até o céu e todo o povo de Deus pedirá perdão e misericórdia. E pedirá minha ajuda e intercessão”2.
Assista programa do Padre Paulo Ricardo sobre “O alerta de Maria para o Brasil“ (também em áudio):
O apelo àqueles que a Mãe de Deus chama de “Apóstolos dos Últimos Tempos” pode ser o que São João Paulo II chama de “o coração das profecias de Maria”. Este apelo é dirigido aos verdadeiros devotos da Virgem Maria: “Eu dirijo um premente apelo à Terra. Apelo aos verdadeiros discípulos do Deus vivo que reina nos Céus. Apelo aos verdadeiros imitadores de Jesus Cristo feito homem, o único e verdadeiro Salvador dos homens. Apelo aos meus filhos, meus verdadeiros devotos, aqueles que se deram a mim para que eu os conduza a meu divino Filho, aqueles que levo por assim dizer nos meus braços, que vivem de meu espírito. Enfim, apelo aos Apóstolos dos Últimos Tempos, aos fiéis discípulos de Jesus Cristo que viveram no desprezo do mundo e de si próprios, na pobreza e na humildade, no desprezo e no silêncio, na oração e na mortificação, na castidade e na união com Deus, no sofrimento e desconhecidos do mundo. É chegado o tempo para que eles saiam e venham iluminar a Terra. Ide e mostrai-vos como meus filhos amados. Estou convosco e em vós, contanto que vossa fé seja a luz que vos ilumina nestes dias de desgraças. Que vosso zelo vos faça como que famintos da glória e honra de Jesus Cristo. Combatei, filhos da luz, pequeno número que isto vedes, pois aí está o tempo dos tempos, o fim dos fins”3.
A mensagem de Nossa Senhora de La Salette certamente não se dirigia somente às pessoas daquele tempo, pois muitas das suas profecias estão acontecendo em nossos dias. Por isso, sejamos obedientes a Santíssima Virgem, façamos orações, jejuns e penitências na intenção dos sacerdotes, religiosos e religiosas, de todas as almas consagradas a Deus. Façamos o mesmo também pelos nossos governantes, pela nossa sociedade e pelas famílias. O apelo da Virgem Maria é especialmente para aqueles que São Luís Maria Grignion de Montfort chamou de “verdadeiros Apóstolos dos Últimos Tempos, a quem o Senhor das virtudes dará a palavra e a força para operar maravilhas e arrebatar gloriosos despojos ao inimigo”4. É impossível negar que o Segredo de La Salette tem uma particular ligação com o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria. Segundo o Autor, estes Apóstolos “serão os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, que seguirão as pegadas da sua pobreza, humildade, desprezo do mundo e caridade. Ensinarão o estreito caminho de Deus na pura verdade, segundo o Santo Evangelho e não segundo as máximas do mundo. […] Terão nos lábios a espada de dois gumes, que é a Palavra de Deus; trarão aos ombros o estandarte sangrento da Cruz, o crucifixo na mão direita, o Rosário na esquerda, os sagrados nomes de Jesus e Maria no coração, e a modéstia e a mortificação de Jesus Cristo em toda a sua conduta”5. Quando e como surgirão estes Apóstolos dos Últimos Tempos? São Luís Maria responde: “Só Deus o sabe. Quanto a nós, apenas nos compete calar, rezar, suspirar e esperar”6: “Esperei ansiosamente o Senhor”7. Nossa Senhora de La Salette, rogai por nós!
Referências:
2 Idem, ibidem.
3 Idem, ibidem.
4 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria. Anápolis: Fraternidade Arca de Maria, 2002, 58.
5 Idem, 59.
6 Idem, ibidem.
7 Sl 39, 2.