Semana Santa

semana_santa

Semana Santa

A Semana Santa é uma tradição religiosa católica que celebra a Paixão, a Morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Ela se inicia no Domingo de Ramos, que relembra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e termina com a ressurreição de Jesus, que ocorre no domingo de Páscoa.

Os dias da Semana Santa

Domingo de Ramos

O Domingo de Ramos abre solenemente a Semana Santa, com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Jesus é recebido em Jerusalém como um rei, mas os mesmos que o receberam com festa o condenaram à morte. Jesus é recebido com ramos de palmeiras. Nesse dia, são comuns procissões em que os fiéis levam consigo ramos de oliveira ou palmeira, o que originou o nome da celebração. Segundo os evangelhos, Jesus foi para Jerusalém para celebrar a Páscoa Judaica com os discípulos e entrou na cidade como um rei, mas sentado num jumentinho – o símbolo da humildade – e foi aclamado pela população como o Messias, o rei de Israel. A multidão o aclamava: “Hosana ao Filho de Davi!” Isto aconteceu alguns dias antes da sua Paixão, Morte e Ressurreição. A Páscoa Cristã celebra então a Ressurreição de Jesus Cristo.

Segunda-Feira Santa

É o segundo dia que vem depois de Domingo de Ramos onde se recorda a prisão de Jesus Cristo. Estando na casa de seu amigo Lázaro (a quem Ele havia ressuscitado), e de Marta e Maria Madalena. (Jo 12, 1-11). Faltavam seis dias para a Páscoa. E, enquanto estavam a jantar, Maria tomou um vaso de nardo (um perfume autêntico e muito caro), e ungiu Jesus nos pés, e depois enxugou-os com seus cabelos.
Tal gesto foi de imediato criticado por Judas Iscariotes. Jesus ignorou a crítica e, saindo em defesa de Maria, justificou o ato: “Antecipou-se a ungir o meu corpo para a sepultura. Asseguro-vos que em qualquer parte do mundo onde se proclame o evangelho, se recordará o que ela fez”.

Terça-Feira Santa

O terceiro dia da Semana Santa, onde são celebradas as Sete dores de Nossa Senhora Virgem Maria. E muito comum também por ser o dia de penitência no qual os cristãos cumprem promessas de vários tipos ou o dia da memória do encontro de Jesus e Maria no caminho do Calvário.
É o dia, em que com grande tristeza, Jesus anuncia a sua morte, causando grande sofrimento aos seus discípulos. Anuncia também a traição, e indica o traidor. Com isto Jesus, manifesta em pleno o Seu amor por todos nós, e consciente aceita o destino que O aguarda, como forma de mostrar ao mundo a glória de Deus, e assim, para que a Sua salvação chegue até aos últimos confins da terra.

Quarta-Feira Santa

É o quarto dia da Semana Santa. Em algumas igrejas celebra-se neste dia a piedosa procissão do encontro de Nosso Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores. Ainda há igrejas que neste dia celebram o Ofício das Trevas, lembrando que o mundo já está em trevas devido à proximidade da morte de Jesus.
No evangelho deste dia, é-nos apresentada a traição de Judas, descrevendo-nos como este foi ter com os chefes dos sacerdotes, a quem se ofereceu para trair o Jesus. Aceita assim, trinta moedas de prata como recompensa da sua traição.

Quinta-Feira da Ceia

O quinto dia da Semana Santa e, na manhã deste dia, nas catedrais das dioceses, o bispo se reúne com o seu clero para celebrar a Celebração do Crisma, na qual são abençoados os óleos que serão usados na administração dos sacramentos do Batismo, Crisma e Unção dos Enfermos. Com essa celebração se encerra a Quaresma. Neste mesmo dia, à noite, são relembrados os três gestos de Jesus durante a Última Ceia: a Instituição da Eucaristia, o exemplo do Lava-pés, com a instituição de um novo mandamento (ou “ordenança”) segundo algumas denominações cristãs, e a instituição do sacerdócio. É neste momento que Judas Iscariotes sai para entregar Jesus por trinta moedas de prata. E é nesta noite em que Jesus é preso, interrogado e, no amanhecer da sexta-feira, açoitado e condenado. A igreja fica em vigília ao Santíssimo, relembrando os sofrimentos de Jesus, que tiveram início nesta noite. A igreja já se reveste de luto e tristeza, desnudando os altares (quando são retirados todos os enfeites, toalhas, flores e velas), tudo para simbolizar que Jesus já está preso e consciente do que vai acontecer. Também cobrem-se todas as imagens existentes no templo, com panos de cor roxa.

Sexta-Feira Santa

Também chamada de Sexta-Feira da Paixão, é quando a Igreja recorda a morte de Jesus. É celebrada a Solene Ação Litúrgica, Paixão e a Adoração da Cruz. A recordação da morte de Jesus consiste em quatro momentos: A Liturgia da Palavra, Oração Universal, Adoração da Cruz e Rito da Comunhão. Presidida por presbítero ou bispo, os paramentos para a celebração são de cor vermelha.
Neste dia, é praticado o jejum, e a abstinência da carne em sinal de penitência e respeito pela morte de Jesus Cristo. È recitada a Via Sacra no seu ponto mais alto.

Sábado Santo

Também era chamado de Sábado de Aleluia, é o dia da espera. Os cristãos junto ao sepulcro de Jesus aguardam sua ressurreição. No final deste dia é celebrada a Solene Vigília Pascal, a mãe de todas as vigílias, como disse Santo Agostinho, que se inicia com a Bênção do Fogo Novo e também do Círio Pascal; proclama-se a Páscoa através do canto do Exultet e faz-se a leitura de 8 passagens da Bíblia (4 leituras e 4salmos) percorrendo-se toda história da salvação, desde Adão até o relato dos primeiros cristãos. Entoa-se o Glória e o Aleluia, que foram omitidos durante todo o período quaresmal. Há também o batismo daqueles adultos que se prepararam durante toda a quaresma. A celebração se encerra com a Liturgia Eucarística, o ápice de todas as missas.

Domingo de Páscoa

É o dia mais importante para a fé cristã, pois é o dia da ressurreição, onde Jesus se levanta de sua sepultura, e vence a morte. É o dia do grande milagre! O dia em que Cristo volta à vida através da Sua Ressurreição de entre os mortos. É o dia em que se celebra a vida, o amor e a misericórdia de Deus. Após morrer na cruz, o corpo de Cristo é colocado em um sepulcro, onde permaneceu por três dias, até o Domingo de Páscoa, altura em que Ele Ressuscita.
“Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito!” Esse dia é estendido por mais cinqüenta dias até o Domingo de Pentecostes.

Publicado em Prefeitura de Maricá.

DOAR-NOS AOS OUTROS POR AMOR A DEUS É A RECEITA PARA SERMOS FELIZES TAMBÉM NA TERRA

*QUARESMA

Doar-nos aos outros por amor a Deus é a receita para sermos felizes também na terra.

Chegamos ao limiar da Semana Santa. Daqui a poucos dias, ao assistirmos às cerimônias litúrgicas do solene Tríduo Pascal, participaremos das últimas horas da vida terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando se ofereceu ao Pai Eterno como Sacerdote e Vítima da Nova Aliança, selando com o seu Sangue a reconciliação de todos os homens com Deus. Apesar da sua carga dramática, à qual não podemos nem devemos nos acostumar – o Inocente carregado com as culpas dos pecadores, o Justo que morre no lugar dos injustos! –, a tragédia da Semana Santa é fonte da mais pura alegria para os cristãos: Feliz culpa, que mereceu tal Redentor! (1), canta a Igreja no Pregão pascal a propósito do pecado dos nossos primeiros pais e – dizemo-lo nós – dos nossos erros pessoais diários, na medida em que servem para que retifiquemos, cheios de dor de amor, e para que cresçamos em espírito de compunção.

Minhas filhas e meus filhos, nestes dias que se avizinham, aconselho-os a que procurem fomentar nas suas almas muitos atos de reparação e de dor – dor de amor –, pedindo ao Senhor perdão pelas faltas de vocês e pelas da humanidade inteira. Ponham-se junto de Cristo com o pensamento e com o desejo naquelas provas amargas da Paixão, e procurem consolá-lo com as suas palavras cheias de carinho, com as suas obras fiéis, com a sua mortificação e com a sua penitência generosa, sobretudo no cumprimento fiel dos deveres de cada momento. Se assim o fizerem, podem ter a certeza de que ajudarão Jesus a levar a Cruz – essa Cruz que pesa e que pesará sobre o Corpo místico de Cristo até o final dos séculos –, sendo corredentores com Ele. Participarão da glória da sua Ressurreição, porque padeceram com Ele (2), e ficarão repletos de alegria, de uma alegria que nada nem ninguém poderá tirar-lhes (3).

Filhas e filhos da minha alma, nunca esqueçamos que o gaudium cum pace, a alegria e a paz que o Senhor nos prometeu se somos fiéis, não depende do nosso bem-estar material nem de que as coisas corram na medida dos nossos desejos. Não se fundamenta em motivos de saúde nem no êxito humano. Em todo caso, essa seria uma felicidade efêmera, perecedoura, ao passo que nós aspiramos a uma bem-aventurança eterna. A alegria profunda que preenche completamente a alma tem a sua origem na união com Nosso Senhor. Lembrem-se daquelas palavras que o nosso amadíssimo Fundador do Opus Dei, São Josemaria Escrivá, repetiu numa das suas últimas tertúlias: «Se queres ser feliz, sê santo; se queres ser mais feliz, sê mais santo; se queres ser muito feliz – já na terra! –, sê muito santo» (4).

Minha filha, meu filho: a receita está muito experimentada, porque o nosso santo Fundador, que tanto sofreu pelo Senhor, foi felicíssimo na terra. Melhor dito: precisamente por ter-se unido intimamente a Jesus Cristo na Santa Cruz – nisto consiste a santidade, em identificarmo-nos com Cristo crucificado –, recebeu o prêmio da alegria e da paz.

Escutai o que nos confiava em 1960, pregando uma meditação na Sexta-feira Santa. Na sua oração pessoal, rememorava essa forja de sofrimentos que foi a sua vida e animava-nos a não termos «medo da dor, nem da desonra, sem pontos de soberba. O Senhor, quando chama uma criatura para que seja dEle, faz que ela sinta o peso da Cruz. Sem pôr-me como exemplo, posso dizer-vos que, ao longo da minha vida, sofri dor, amargura. Mas, em meio a tudo isso, encontrei-me sempre feliz, Senhor, porque Tu foste o meu Cireneu.

«Rejeita o medo da Cruz, meu filho! Tu vês Cristo pregado nela e, apesar disso, procuras apenas aquilo que é prazeroso? Isso não está certo! Não te lembras de que o discípulo não é mais do que o Mestre? (cf. Mt 10, 24).

«Senhor, mais uma vez renovamos a aceitação de tudo aquilo que, na ascética, se chama tribulação, embora eu não goste desta palavra. Eu não tinha nada: nem idade, nem experiência, nem dinheiro; sentia-me humilhado, não era… nada, nada! E, dessa dor, chegavam respingos aos que estavam ao meu lado. Foram anos tremendos, mas jamais me senti desgraçado. Senhor, que os meus filhos aprendam da minha pobre experiência. Sendo miserável, nunca estive amargurado. Caminhei sempre feliz! Feliz, chorando; feliz, com penas. Obrigado, Jesus! E perdoa-me por não ter sabido aproveitar melhor a lição» (5).

Ao meditarmos nestas palavras do São Josemaria, a conclusão que temos de tirar é clara: nunca, em nenhuma circunstância, devemos perder a alegria sobrenatural que emana da nossa condição de filhos de Deus. Se alguma vez ela vier a faltar-nos, recorreremos imediatamente à oração e à direção espiritual, ao exame de consciência bem feito, a fim de descobrirmos a causa e aplicarmos o remédio oportuno.

É verdade que, por vezes, essa ausência de alegria pode nascer da doença ou do cansaço; então, é obrigação grave dos diretores facilitar a esses seus irmãos o descanso e os cuidados oportunos, estando atentos para que ninguém – por causa de uma sobrecarga excessiva de trabalho, por falta de sono, por esgotamento ou por qualquer outra razão – chegue a uma situação que ocasione um dano à sua resposta interior.

Em outros momentos, como o São Josemaria nos assinalava, a perda da alegria esconde raízes ascéticas. Sabeis qual é a mais frequente? A preocupação excessiva pela própria pessoa, o dar voltas e mais voltas em torno de si mesmo. Se cada um de nós é tão pouca coisa, como pode passar pela sua cabeça, meu filho, minha filha, girar em torno do próprio eu? «Se amamos a nós mesmos de um modo desordenado», escreve o São Josemaria, «há motivo para estarmos tristes. Quanto fracasso, quanta pequenez! A posse dessa nossa miséria tem de causar-nos tristeza, desalento. Mas se amamos a Deus sobre todas as coisas e os outros e nós mesmos em Deus e por Deus, quantos motivos de alegria!» (6).

Esse foi o exemplo do Mestre, que entregou a sua vida por nós. Correspondamos ao que Deus nos pede da mesma maneira, por Ele e pelos outros. Afastemos qualquer preocupação pessoal do nosso horizonte cotidiano; e se alguma nos assaltar, abandoná-la-emos com plena confiança no Sagrado Coração de Jesus e no Coração Dulcíssimo de Maria, nossa Mãe, e ficaremos tranquilos. Minhas filhas e meus filhos, temos de preocupar-nos – melhor dito, temos de ocupar-nos – somente das coisas de Deus, que são as coisas da Igreja, da Obra, das almas. Não percebeis que, até humanamente, saímos ganhando? E, além disso, somente assim estaremos sempre cheios do gaudium cum pace, da alegria e da paz, e atrairemos muitas outras pessoas ao nosso caminho.

Permiti-me que insista nisto com outras considerações do São Josemaria, tomadas da tertúlia a que me referia anteriormente. «Ser santo», repisava, «é ser feliz, também aqui na terra. Padre, e o senhor foi sempre feliz? Eu, sem mentir, dizia há poucos dias […] que nunca tive uma alegria completa; quando chega uma alegria, dessas que satisfazem o coração, o Senhor fez-me sentir sempre a amargura de estar na terra; como uma faísca do Amor… E, contudo, nunca fui infeliz, não recordo ter sido infeliz nunca. Percebo que sou um grande pecador, um pecador que ama Jesus Cristo com toda a sua alma» (7).

Você e eu, minha filha, meu filho, nós, sim, somos pecadores. Mas amamos o Senhor com toda a nossa alma? Esforçamo-nos para retificar uma vez e outra – felix culpa! –, tirando motivos de mais amor, de maior compunção, dos nossos tropeços?

Notas:

  1. Missal Romano, Vigília Pascal (Pregão pascal)
  1. Cf. Rm 8, 18.
  1. Cf. Jo 16, 22.
  1. São Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 7/06/1975 (AGP, biblioteca, P01, VII-1975, pág. 219).
  1. São Josemaria, Notas de uma meditação, 15/04/1960.
  1. São Josemaria, Carta, 24/03/1931, n. 25.
  2. São Josemaria, Notas de uma reunião familiar, 07/06/1975 (AGP, biblioteca, P01, VII-1975, pág. 219).

Fonte: Álvaro del Portillo, Caminhar com Jesus ao longo do tempo litúrgico. Quadrante, 2016.

Publicado em Quadrante Editora (Entidade sem fins lucrativos, que iniciou as atividades no ano de 1964, em São Paulo, com a publicação do livro Caminho, de São Josemaria Escrivá).

  • Grifo meu.

Precisamos acreditar em “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”?

DOUTRINA

A pergunta pode parecer uma obviedade para os mais próximos e banal para os mais arredios, mas é a linha que divide os verdadeiros dos falsos católicos.

Precisamos acreditar em “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”?

A pergunta pode parecer uma obviedade para os mais próximos e banal para os mais arredios, mas é a linha que divide os verdadeiros dos falsos católicos.

Antigamente, quando as crianças recebiam as primeiras instruções na fé católica, elas aprendiam a rezar uma fórmula denominada “ato de fé”. As versões da oração variam um pouco, mas um delas, facilmente encontrada na internet, diz o seguinte:

Eu creio firmemente que há um só Deus, em três pessoas realmente distintas, Pai, Filho e Espírito Santo. Creio que o Filho de Deus se fez homem, padeceu e morreu na cruz para nos salvar e ao terceiro dia ressuscitou. Creio em tudo o mais que crê e ensina a Santa Igreja Católica, porque Deus, Verdade infalível, o revelou. Nesta crença quero viver e morrer.

Trata-se de uma oração simples e em plena conformidade com o que professamos no “Creio”, mas, tragicamente, muitos de nossos católicos não seriam mais capazes de fazê-la, pelo menos não de coração sincero e acreditando realmente em tudo o que ela diz.

Afinal de contas, muitos de nós aprendemos no colégio que uma coisa é Jesus Cristo, que veio ao mundo e, como adoram dizer, “não fundou religião nenhuma”; e outra coisa é a Igreja Católica, que apareceu muito tempo depois e que está “cheia de erros”, “de pecados” e de não se sabe mais o quê.

Para boa parcela de nossos católicos hoje, crer em “tudo o mais que crê e ensina a Santa Igreja Católica”, assim, sem mais nem menos, sem saber detalhadamente do que se está falando, soará como “fé cega”, obscurantismo medieval ou até coisa pior.

Mas não tem nada a ver com isso. O problema da “pulga atrás da orelha” de muitos católicos deve-se a um fator chamado ignorância. Infelizmente, nossas catequeses não têm sido muito eficazes em ensinar, tanto a crianças e jovens quanto a adultos, o que seja realmente a realidade da fé.

Por isso, vamos explicar, primeiro, com um exemplo do nosso mundo. Suponhamos que você não tenha ido jamais à Dinamarca. Um grande amigo seu já foi e dá testemunho: ela existe. O seu atlas geográfico, produzido por gente bem mais entendida que seu amigo, também retrata a Dinamarca no mapa da Europa: ela existe. Há por que duvidar? Certamente não. Ainda que nunca tenha posto os pés em território dinamarquês, você é capaz de admitir sem muita dificuldade: “Sim, eu creio, a Dinamarca existe”.

Com a fé católica acontece algo semelhante. Quando dizemos todos os domingos na Missa: “Creio”, o que estamos dizendo é que acreditamos nas verdades reveladas por uma pessoa muito mais confiável que seu melhor amigo e muito mais sábia que o mais competente cientista: Deus.

A comparação com a Dinamarca, como se pode ver, tem seus limites. A fé que prestamos a Deus é de natureza totalmente diferente da que temos na Dinamarca:

  1. Primeiro, porque, como visto, quem nos revela a existência da Dinamarca são seres humanos, falíveis e capazes de enganar (imagine, por exemplo, que todos os geógrafos estivessem “conspirando” em relação à Dinamarca); na fé católica, porém, quem nos revela as coisas é a própria Verdade, Deus, “o qual não pode enganar-se nem enganar” a ninguém [1].
  2. Segundo, porque a Dinamarca é uma realidade humana; as verdades que dizem respeito a Deus, no entanto, todas superam a própria natureza criada, são sobrenaturais.
  3. Como consequência desta segunda diferença, temos de admitir a dificuldade que existe, de nossa parte, em crer nas verdades sobrenaturais, que transcendem a nossa capacidade racional. Por essa razão, mais do que um simples esforço humano, todo ato de fé que o homem realiza só pode acontecer por ação da graça divina. Todo católico que diz com sinceridade: “Creio”, é tocado invisivelmente pela mão de Deus, que ajuda a sua inteligência e fortalece a sua vontade a dar um “sim” a tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica.

Mas a expressão “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica” ainda permanece difícil e insiste em incomodar. É necessário aceitar tudo mesmo, sem restrições? E a Igreja mesma, como entra nessa “equação” da fé?

“Cristo entregando as chaves do Céu a São Pedro”, por Pedro Paulo Rubens.

Para responder a essa questão, é preciso recordar o modo escolhido por Deus para nos revelar as suas verdades. O princípio da Carta aos Hebreus diz que, “muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora a nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho” (1, 1-2). Depois de todas as revelações que vemos contidas no Antigo Testamento, então, Deus “selou” seu contato com a humanidade, por assim dizer, enviando-nos seu Filho, Jesus Cristo.

Ora, já que com isso Ele quis salvar todos os homens, e não só os de dois mil anos atrás, era necessário que fosse instituído um meio, visível e do qual as pessoas pudessem facilmente se servir, para sua mensagem permanecer preservada ao longo das gerações. Esse instrumento, como ficará claro a quem estudar as Escrituras e investigar a transmissão dos ensinamentos dos primeiros cristãos, é nada mais nada menos do que a Igreja.

A Igreja:

  • presente na pessoa dos Apóstolos, a quem foi dito: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu” (Mt 18, 18), e ainda: “Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos rejeita, a mim rejeita, e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou” (Lc 10, 16); e
  • presente especialmente na pessoa do Papa, o único a quem foi dito: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu” (Mt 16, 18-19), e ainda: “Confirma teus irmãos” (Lc 22, 32), e enfim: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21, 16).

Ao instituir a Igreja, Nosso Senhor quis dar aos homens a segurança de que aquilo que Ele tinha ensinado a seus discípulos seria propagado fielmente. Para isso, Ele mesmo cuidou de dar aos Apóstolos a assistência do Espírito Santo (cf. Jo 16, 7-15) e de garantir-lhes sua presença até a consumação dos séculos (cf. Mt 28, 20).

De fato, até o presente, o único grupo de cristãos que crê nas mesmas coisas e rejeita as mesmas coisas, como acontecia na Igreja primitiva, é a Igreja Católica. O protestantismo, desde que nasceu, dividiu-se em um sem-número de filiais sem uniformidade alguma de fé nem de culto.

São Pedro, Príncipe dos Apóstolos, rogai por nós!

O problema da Igreja, como se vê, não é muito difícil de confrontar. Quem quer que se dedique a um estudo sério e desapaixonado de sua história e de sua doutrina, verá que não é possível haver verdadeiro cristianismo fora da religião católica. Nas breves palavras de um filósofo citado certa feita pelo Pe. Leonel Franca: “Se o Messias já veio, devemos ser católicos; se não veio, judeus; em nenhuma hipótese, protestantes”.

Vejamos agora, então, o porquê do “tudo”. Por que só é realmente católico quem aceita “tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica”?

Nada que Santo Tomás de Aquino não resolva [2]. Sim, é preciso aceitar tudo. E a razão é muito simples. Se o que Deus quis revelar à humanidade para a sua salvação está confiado de uma vez por todas à Igreja Católica, com segurança inabalável, garantida pelo próprio Senhor, alguém ainda duvida que devemos crer em “tudo o que ela crê e ensina”?

É evidente que não se trata de defender todo e qualquer ato ou declaração feito por um Apóstolo, por um bispo ou mesmo por um Papa. Pedro, por exemplo, “negou” Jesus três vezes. Quem ousaria dizer que essa sua atitude seria um modelo a se seguir ou, pior ainda, uma parte do Magistério infalível da Igreja?

Quando nos referimos às coisas que se devem crer, estamos falando daquilo que ficou definido, desde os tempos apostólicos, no Credo; das verdades de fé que foram solenemente proclamadas pelos Pontífices Romanos ao longo da história [3]; e das realidades que foram incontestavelmente definidas por Nosso Senhor nos próprios Evangelhos.

Quem quer que se dedique a um estudo sério e desapaixonado do assunto, verá que não é possível haver verdadeiro cristianismo fora da religião católica.

Porque, se Deus nos revelou tudo o que é necessário à nossa salvação e confiou este “depósito da fé” à Igreja, não nos é lícito pegar uma ou duas verdades e dizer: “Aceito todo o resto, mas com isto eu não posso concordar”.

Não, o nome disso é heresia. É o pecado de quem quer “escolher”, das verdades que foram reveladas por Deus, aquela que lhe desagrada ou que não lhe cai bem. Ou acreditamos tanto na virgindade perpétua da Virgem Maria quanto na indissolubilidade do Matrimônio ou, então, somos católicos à nossa própria medida, e não à medida de Cristo.

Referências

  1. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática “Dei Filius” (24 abr. 1870), c. 3: DH 3008.
  2. “É claro que quem adere à doutrina da Igreja como à regra infalível, dá seu assentimento a tudo o que a Igreja ensina. Ao contrário, se do que ela ensina, aceitasse como lhe apraz, umas coisas e não outras, já não aderiria à doutrina da Igreja como regra infalível, mas à própria vontade.” (S. Th. II-II, q. 5, a. 3, co.)
  3. “O Papa se pronuncia ex cathedra, ou infalivelmente, quando ele fala: (1) como Doutor Universal; (2) em nome e com a autoridade dos Apóstolos; (3) em um ponto de fé e moral; (4) com o propósito de obrigar cada membro da Igreja a aceitar e acreditar em sua decisão.” (Cardeal John Henry Newman, The True Notion of Papal Infallibility)

Publicado em Equipe Christo Nihil Praeponere (Equipe Padre Paulo Ricardo).

Solenidade da Anunciação do Senhor

“Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!”

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 1, 26-38)

Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”

Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”.

Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível”. Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.

Celebramos com grande alegria a solenidade da Anunciação do Senhor. No dia de hoje — 25 de março —, a nove meses do Natal, nós podemos dizer: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”. A entrada de Deus neste mundo, a Encarnação do Filho de Deus, aconteceu num evento quase que secreto, numa pequena casa em Nazaré, e a Tradição cristã de séculos, muitos padres da Igreja veem que aqui existe uma coincidência. Sim, no mesmo dia, 25 de março, em que o Filho de Deus entrou neste mundo, também, 33 anos depois, no mesmo dia, 25 de março, Ele morreu no Calvário.

Assim, então, o evento da Encarnação e o evento da Redenção coincidiriam na mesma data: é isto que dizem Padres da Igreja como Santo Agostinho, como São Beda, o Venerável; ou seja, existe aqui uma conjunção da história, de tal forma que a entrada do Filho de Deus neste mundo coincide com a sua saída num círculo perfeito. Mas e por que 25 de março? Bom, lá na terra de Jesus, 25 de março é o início da primavera, ou seja, ali o nascimento — a vinda no mundo, mais do que o nascimento — a vinda no mundo do Filho de Deus e a saída deste mundo do Filho de Deus, é como que um evento que faz coincidir o calendário dos astros como se a Criação estivesse toda esperando aquele momento. É a Criação que obedece ao seu Criador.

Jesus vem e vem na primavera do mundo, Jesus morre na Cruz e é uma primavera também, porque é a primavera de nossa salvação. Se nós olharmos essa longa tradição de que o dia da Anunciação, em que o Anjo fala com Nossa Senhora e Ela responde: “Eis aqui a serva do Senhor”, é o mesmo dia em que Jesus, 33 anos depois, no Calvário, diz: “Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito”, se nós vermos a coincidência destas duas datas, então, celebrar a solenidade da Anunciação do Senhor no meio da Quaresma não é quebrar o ritmo quaresmal, mas é exatamente o contrário, é iluminar a Quaresma com a luz da Encarnação.

Jesus veio a este mundo para morrer. Jesus veio a este mundo e a finalidade de sua vinda é oferecer o sacrifício redentor do Calvário, de tal forma que o seu primeiro instante de existência dentro do ventre de Maria coincide com o seu último instante de existência nesta forma de servo aqui na existência miserável de nossas dores; e Ele ofereceu durante estes 33 anos um único sacrifício de amor.

Sim, porque basta um segundo de existência de Deus neste mundo para nos salvar: a humilhação de Jesus que toma a nossa natureza humana e começa, já no ventre de Maria, a viver as debilidades, as misérias, a pequenez de nossa humanidade, este sacrifício de Deus que se encarna já seria suficiente para nos salvar, mas Deus não quis que parasse por aí, Ele quis que esse sacrifício redentor que, como que escondido em Nazaré, aconteceu longe dos olhos humanos, fosse levado para o topo de uma montanha, no Calvário, para que no extremo da dor, do sacrifício e da injustiça, fosse visto o amor de Deus por nós.

“Tendo amado os seus, amou-os até o fim”. Ele veio e veio para nos amar: “Eis que eu venho, Senhor, fazer a vossa vontade. Fizeste para mim um corpo.” E ao fazer, ao dar ao seu Filho um corpo, esse Filho diz: “Eu vim fazer a vontade”, e a vontade de Deus é essa morte de amor, a Encarnação e a Redenção na Cruz, intimamente ligados.

Que a Virgem Santíssima, também ela protagonista de toda esta história de amor — aquela que estava em Nazaré dizendo sim ao Anjo e estava aos pés da Cruz, no Calvário, dizendo o seu sim extremo à vontade divina —, nos ajude também a fazer com que as nossas vidas sejam alinhadas com a vontade de Deus.

Como no dia de hoje os astros se alinham, o nascimento se alinha com a morte de Cristo no Calvário — a primavera da sua vinda ao mundo coincide com a primavera de sua morte redentora —, também nós possamos alinhar o nosso coração desajustado e dizer, com Jesus, servo obediente, e com Maria, humilde serva do Senhor: “Faça-se a vossa vontade”.

Publicado em Padre Paulo Ricardo – Homilia Diária.

Imagem: Aleteia.

A guerra que não podemos perder de vista

ESPIRITUALIDADE

A guerra que não podemos perder de vista

Se é a paz do céu o que queremos, não nos esqueçamos: para a nossa condição decaída, o que Jesus primeiro veio trazer foi a espada. Da guerra contra nós mesmos depende tudo. Se perdermos essa luta, toda esta nossa vida não terá servido de nada.

Se procurarmos na literatura cristã motivos para rezar e fazer jejum, não nos faltarão explicações, e uma melhor do que a outra. Mas a simplicidade com que Santo Tomás de Aquino trata do tema é incomparável.

Comentando o nono mandamento, o Aquinate ensina alguns meios de combater a concupiscência, contra a qual ele adverte ser importante “trabalhar muito”, já que estamos falando de um “inimigo familiar, que está dentro de nós”. E um desses meios é justamente a perseverança na oração. Ele explica:

Há que rezar com insistência, porque “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem” (Sl 126, 1); “Consciente de não poder possuir a sabedoria [continência], a não ser por dom de Deus” (Sb 8, 21); “Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21). Ora, se dois inimigos estivessem em batalha e tu quisesses ajudar um deles, a um terias de prestar auxílio e a outro não. Pois bem, há entre o espírito e carne uma luta constante (praelium continuum). Por isso, é necessário, se desejas que o espírito saia vencedor, que lhe prestes auxílio, e isto se faz pela oração; à carne, porém, o tens de negar, e isto se faz pelo jejum, pois é pelo jejum que se enfraquece a carne.

Estão aqui resumidos todos os tratados de teologia ascética e mística. Há dentro de nós uma batalha sendo travada, e é preciso jejuar (trabalho negativo) e rezar (trabalho positivo) para enfraquecer a carne e fortalecer o espírito, respectivamente.

“Vigiai e orai para não cairdes em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca.”

Agora, atenção, porque o espírito de que fala Santo Tomás não é simplesmente a alma humana, mas, sim, o lugar onde Deus habita em nosso coração. Trata-se mais propriamente da graça, da vida divina e sobrenatural em nós. O que está em jogo nessa “luta constante” de que fala o Doutor Angélico, portanto, é nada menos do que o nosso estado de graça e a nossa salvação eterna, que se encontram o tempo todo ameaçados pelo drama do pecado e do afastamento de Deus. Não estamos falando de uma batalha qualquer, mas de um duelo de vida e morte (mors et vita duello), graça e desgraça, céu e inferno. 

Mas a pergunta que precisa ser feita é: ainda cremos nisso? Ainda temos fé nessas coisas que foram cridas pelos católicos de outros tempos e lugares, a ponto de muitos deles derramarem o próprio sangue só para não as negarem?

A questão é importante porque há uma doutrina errônea sendo propagada, infelizmente já absorvida por muitos católicos, segundo a qual uma bondade meramente teórica e natural basta para nos salvarmos. Essa ideia está “no ar”: é visível no desleixo com que tratamos os sacramentos, em especial a Eucaristia; na indiferença com que falamos da nossa religião, como se fossem todas iguais; e no modo laxo com que tantos, dentro da Igreja, falam de pecado e salvação. 

É como se a batalha de que falam o Doutor Angélico, todos os santos e o próprio Santo dos santos (cf. Mt 26, 41: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca”) fosse apenas uma metáfora, um “pano de fundo” geral para entendermos que é preciso ser bom e honesto, mas em linhas gerais, e não em todas as particularidades do que exigem os Mandamentos. (Para as nossas faltas, poderíamos contar com uma abstrata “misericórdia” superna, que tudo aceita, que tudo tolera, que tudo desculpa. Mesmo se não estivermos arrependidos dos nossos pecados. Mesmo se houvermos feito deles um projeto de vida. O céu não tem “alfândega” nem “controle de imigração” e o inferno… ah! “o inferno está vazio”.)

Nessa matéria, o correto seria dar ouvido àquilo que a Igreja sempre ensinou, porque é isso o que Jesus deixou a ela em última instância, de modo que apartar-se da doutrina católica de sempre nada mais é do que afastar-se da verdade de Cristo, que liberta e salva. O correto, portanto, seria: 

  • voltarmos a falar de inferno, porque o Evangelho fala dele (cf. Mt 18, 9: “É melhor para ti entrares na vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena”; Mt 23, 33: “Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?”; Mt 25, 46: “E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna”); e
  • lembrarmos que há pecados bem comuns que privam da vida eterna (cf. 1Cor 6, 9: “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes hão de possuir o Reino de Deus”); 
  • que as pessoas precisam se arrepender verdadeiramente dos seus pecados para ganhar de volta a graça perdida; 
  • que precisam se confessar a um sacerdote para receber o perdão de Deus; e 
  • que, se não quiserem fazer isso, não devem se aproximar da mesa da Comunhão (cf. 1Cor 11, 28: “Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice”).  

Se olharmos para as Escrituras, para a história da Igreja, para a sua prática ao longo dos séculos, para o que ensinaram o Concílio de Trento e, reiterando essa doutrina, também o Papa São João Paulo II, especialmente na encíclica Veritatis Splendor e na exortação Reconciliatio et Poenitentia, seremos capazes de observar um crescimento orgânico da doutrina cristã, um desenvolvimento que ao longo dos séculos foi deixando mais claro o que no Evangelho estava enunciado em algumas poucas sentenças. É a semente humilde que se transformou em árvore frondosa.

Mas hoje… onde se fala de pecado, de Confissão, de estado de graça e de inferno? Em muitos lugares, a bela árvore da verdadeira doutrina católica foi substituída por um espantalho. Daí os relativismos e as concessões, os “panos quentes” e até mesmo a promoção e exaltação do mal. Por essas e outras a “nova igreja” que colocaram no lugar da santa Igreja Católica não fala mais nem de oração nem de jejum. A sua batalha não é mais a batalha espiritual de que falam Santo Tomás e Nosso Senhor; o inimigo da vez não é o diabo, o mundo e a carne, mas a opressão do “sistema”, as queimadas e desmatamentos e o que quer que interesse às causas do momento.

Contra esses ares de mudança que sufocam a Igreja, o que está ao nosso alcance fazer é, em primeiro lugar, crer. E crer não em qualquer coisa, mas somente naquilo que sabemos ser a doutrina sólida e segura deixada por Cristo Nosso Senhor aos Apóstolos e seus sucessores. Entre essas coisas nas quais devemos crer está o praelium continuum, a luta incessante que travam nesta vida a nossa carne corrompida e o Espírito Santo de Deus em nós. Não nos deixemos seduzir por um discurso que declara guerra aos quatro cantos do mundo, mas que deixa intacto nosso egoísmo, e talvez até o afague um pouco, com uma mentirinha religiosa bem elaborada aqui e acolá. 

Não, o que Cristo ensinou há dois mil anos continua valendo para nós hoje. Continua sendo necessário, para a nossa salvação, entrar pela porta estreita, mortificar os nossos sentidos, resistir às tentações e rezar com afinco pela nossa fidelidade. Se é a paz do céu o que queremos, não nos esqueçamos: para a nossa condição decaída, o que Jesus primeiro veio trazer foi a espada (cf. Mt 10, 34). Da guerra contra nós mesmos depende tudo. Se perdermos essa luta, perdendo a graça de Deus, toda esta nossa vida não terá servido de nada.

Publicado em Equipe Christo Nihil Praeponere (Padre Paulo Ricardo)

O que fazer quando as consolações não vêm?

Neste pequeno texto, São Pedro de Alcântara, mestre da vida interior, ensina-nos como lidar com a falta de consolações espirituais na prática da oração.

Para aquele a quem faltarem as consolações espirituais, o remédio é que nem por isso deixe o exercício da oração acostumada, ainda que lhe pareça desenxabida e de pouco fruto, mas ponha-se na presença de Deus como réu e culpado, examine a sua consciência e olhe se porventura perdeu esta graça por sua culpa, suplique ao Senhor com inteira confiança lhe perdoe e alegue as riquezas inestimáveis da sua paciência e misericórdia em sofrer e perdoar a quem outra coisa não sabe senão ofendê-lo.

Desta maneira tirará proveito da sua secura, tomando ocasião para mais se humilhar, vendo o muito que peca, e para mais amar a Deus, vendo o muito que Ele lhe perdoa.

E conquanto não ache gosto nestes exercícios, não desista deles, porque não se requer que seja sempre saboroso o que há de ser proveitoso.

Ao menos isto se acha por experiência, a saber, que todas as vezes que o homem persevera na oração com um pouco de atenção e cuidado, fazendo calmamente o pouco que pode, ao cabo sai dali consolado e alegre, vendo que fez de sua parte algo do que estava em si. Muito faz, aos olhos de Deus, quem faz tudo o que pode, ainda quando pouco possa. Não olha Nosso Senhor tanto ao cabedal do homem quanto à sua possibilidade e vontade. Muito dá quem deseja dar muito, quem dá tudo o que tem, quem não deixa nada para si. Não é muita coisa o durar muito na oração, quando muita é a consolação. O muito é, quando a devoção é pouca, ser muita a oração e muito maior a humildade, a paciência e a perseverança no bem orar.

Também é necessário nestes tempos andar com maior solicitude e cuidado do que nos outros, velando sobre a guarda de si mesmo e examinando com muita atenção seus pensamentos, palavras e obras; porque, como então nos falte a alegria espiritual (que é o principal remo desta navegação), é mister suprir com cuidado e diligência o que falta de graça.

Quando assim te vires, hás de fazer de conta (como diz São Bernardo) que se te dormiram as sentinelas que te guardavam e que se te caíram os muros que te defendiam. E por isso toda a esperança de salvação está nas armas, pois já não te há de defender o muro, senão a espada e a destreza no pelejar. Oh! Quanta é a glória da alma que desta maneira batalha, que sem escudo se defende, que sem armas peleja, sem fortaleza é forte e achando-se sozinha na batalha toma o esforço e ânimo por companhia!

Não há maior glória no mundo do que imitar as virtudes do Salvador. E entre as suas virtudes conta-se por mui principal o haver Ele padecido o que padeceu, sem admitir em sua alma nenhum gênero de consolo. De maneira que quem assim padecer e pelejar, tanto maior imitador de Cristo será quanto mais carecer de todo gênero de consolo. E isto é beber o cálice da obediência, puro, sem mistura de outro licor. Este é o toque principal em que se prova a fineza dos amigos, se são verdadeiros ou não o são.

Referências

  • Trecho retirado do livro “Tratado da Oração e da Meditação”, 4.ª ed., Petrópolis: Vozes, 2013, pp. 120-122.

Publicado em Equipe Christo Nihil Praeponere (Padre Paulo Ricardo).

A ‘determinada determinação’ de Santa Teresa de Ávila

Na ascese teresiana goza um papel importante a atitude decidida e [total] de entrega a Deus. Teresa a chama “determinada determinação”, com uma frase muito sua na qual quis realçar a fortaleza e a totalidade da entrega a Deus. “Determinar-se” é começar uma nova vida; “determinada determinação” é “encurtar as distâncias e fazer de tudo para não voltar atrás; é fazer uma “opção fundamental” por Cristo, como agora diremos. 

A palavra-chave aparece com força na experiência teresiana nos momentos cruciais de sua vida; e a aplica também em sua pedagogia. Momento de conversão que a santa identifica com a vontade de empreender o caminho da oração: “Falando agora dos começam a ser servos do amor (que não me parece outra coisa além de nos determinarmos a seguir por este caminho ao que tanto nos amou” (V 11,1); “Pois no princípio está a maior dificuldade dos que estão determinados a buscar este bem e a realizar este empreendimento”(ib. 5). A tensão aumenta em uma passagem polêmica do Caminho de Perfeição em que a santa defende o que constitui a essência de sua vida e de seu Carmelo, a oração: “Não vos espanteis, filhas, com as muitas coisas que é necessário considerar para iniciar esta viagem divina, que constitui a via régia para o céu… Voltando agora aos que desejam seguir por ele e não parar até o fim, que é chegar a beber dessa água de vida, como devem começar? Digo que importa muito, ter uma grande e muito decidida determinação de não parar enquanto não alcançar a meta, surja o que surgir, aconteça o que acontecer, sofra-se o que sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenham forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não suporte os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo…” (C 21, 1-2). 

Trata-se de uma atitude do momento da conversão porém que se manifesta em uma condição normal de vida espiritual até alcançar os mesmo cumes da santidade. Quanto mais aparecem as dificuldades, maior fortaleza se requer. Tem a beleza do risco assumido generosamente e do compromisso totalitário da entrega. Com essa atitude de base tem o espiritual garantida a vitória sobre o demônio e percorrida boa parte do caminho: “o demônio se afastará depressa se a vir com grande determinação de não voltar às primeiras moradas, preferindo a isso perder a vida, o descanso e tudo o que ele lhe oferece. Que seja viril… determine-se com firmeza: vai pelejar com todos os demônios e não melhores armas do que as da cruz” (1M 1, 6); “a alma que neste caminho da oração mental, começa a caminhar com determinação… tem andado boa parte do caminho” (V 11, 13). Contando desde o início da vida espiritual com a presença da cruz, a alma sabe o que escolhe nessa determinada determinação que terá de renovar constantemente: “… É fundamental que a alma… decida desde o início seguir com determinação, e sem querer consolações, o caminho da cruz. O Senhor revelou ser essa a trilha da perfeição ao dizer: “Toma a tua cruz e segue-me”. Ele é o nosso modelo…” (V 15, 13). 

Nos encontramos na encruzilhada de uma escolha [total] de Deus que não admite meias medidas, ele respeita nossa liberdade, porém, sua entrega está condicionada pelo radicalismo de nossa opção por ele: “Tudo reside em nos entregar a Ele com toda a determinação, deixando o palácio à sua Vontade, para que Ele ponha e tire coisas dele como se fosse propriedade sua. E Sua Majestade tem razão; não lhe neguemos o que nos pede. E como não pretende forçar a nossa vontade, Ele recebe o que lhe damos, mas não se entrega de todo enquanto não nos damos a Ele por inteiro” (C 28, 12). 

Fonte; Jesus CASTELLANO. Espiritualidade Teresiana, In: AA. VV. Introduccion a la lectura de Santa Teresa. EDE, Madrid 1978, p.181-182.

Publicado em Comunidade Católica Encontro.

Afinal, qual a importância da Santa Missa?

Domingo, dia do Senhor! Vamos à Santa Missa?

A Santa Missa é o pilar central da fé católica, por ela, recebemos Jesus vivo na Eucaristia, corpo e sangue, que nos sustentam na luta pela santidade. Não há como buscar o Céu sem buscar a Cristo no altar da Santa Missa, veja o que diz o Catecismo da Igreja Católica:

2180 — O mandamento da Igreja determina e especifica a lei do Senhor: “Nos domingos e nos outros dias de festa de preceito aos fiéis têm a obrigação de participar da missa”. “Satisfaz ao preceito de participar da missa quem assiste à missa celebrada segundo o rito católico no próprio dia de festa ou à tarde do dia anterior”.

2181 — A eucaristia do domingo fundamenta e sanciona toda a prática cristã. Por isso os fiéis são obrigados a participar da Eucaristia nos dias de preceito, a não ser por motivos muito sérios (por exemplo, uma doença, cuidado com bebês) ou dispensados pelo próprio pastor.

Aqueles que deliberadamente faltam a esta obrigação cometem pecado grave [também chamado pecado mortal, e devem procurar a confissão].

A Santa Missa é a presentificação do Sacrifício de Jesus no Calvário. Não é repetição e nem multiplicação desse acontecimento; é a sua renovação, atualização. As ações de Cristo são “teândricas”, isto é, humanas e divinas ao mesmo tempo, por isso, não se esgotam no tempo como as nossas ações. Deus está acima do tempo, que é sua criatura.

A Missa é oferecida com várias finalidades: homenagem de adoração suprema ao Pai Eterno por Seu Filho encarnado, feito homem, unindo as nossas com as Dele e as de toda a Igreja. É um ato de oferecimento de cada fiel ao Senhor para o amar e servir.

É um culto de ação de graças ao Pai para agradecer-lhe os dons que recebemos: a glória da Virgem Maria, seus méritos e os dos santos e todos os benefícios que recebemos pelos méritos de Cristo. É também um ato de reparação pelos nossos pecados e os da humanidade. Diz São Pedro Julião que “Deus Pai nada nos pode recusar visto que nos deu Seu Filho, que se mantém na Sua presença nesse estado de Sacrifício e de vítima pelos nossos pecados e os de todos os homens”. É o momento de apresentar a Deus nossas necessidades pessoais; e, sobretudo, a graça necessária para vencer os piores pecados que nos escravizam.

Além disso, no oferecimento eucarístico do pão e do vinho, são também apresentadas a Deus toda a riqueza e pobreza da humanidade inteira. Assim rezamos pelas necessidades de todos os homens espalhados pelo mundo inteiro, em particular pelos mais necessitados. Quando participamos da Santa Missa ajudamos concreta e eficazmente os outros. De fato, a Santa Missa é fonte privilegiada de justiça, de partilha, de paz, de reconciliação e de perdão entre todos os povos. A Eucaristia sempre é celebrada sobre o altar do mundo. Une o céu e terra (cf. Ecclesia de Eucharistia, 8).

Na celebração da santa Missa, tudo lembra o Sacrifício de Jesus por nós. O altar de pedra contém relíquias de santos, às vezes até ossos, pois eles participam da glória de Cristo e “intercedem por nós sem cessar”; as velas que queimam no altar e se consomem, e os círios, simbolizam a fé, a esperança e a caridade. As toalhas brancas que cobrem o altar representam os lençóis com que foi envolvido o Corpo de Jesus Cristo; o crucifixo representa-O morrendo por nós. Tudo lembra o Calvário.

Fonte: Professor Felipe Aquino.

Publicado em Missão Eterno Céu.

Memória: Santa Teresa de Jesus, Virgem e Doutora da Igreja – 15 de outubro

Hoje a Igreja celebra a memória litúrgica de Santa Tereza de Jesus, Virgem e Doutora. Teresa de Ahumada nasceu em Ávila a 28 de março de 1515. O seu pai, Alonso de Cepeda, após ficar viúvo com dois filhos, contraiu matrimônio com Beatriz de Ahumada. 

Teresa foi a terceira dos dez filhos deste matrimónio. Cresceu num ambiente muito religioso, no qual desenvolveu uma sensibilidade pelo transcendente desde uma tenra idade. Numa sociedade analfabeta, os seus pais induziram nela desde cedo o gosto pela leitura.

Aos treze anos perdeu a sua mãe. Este golpe e as crises próprias da adolescência agravaram um problema afetivo que arrastaria dolorosamente até à sua conversão definitiva. Fisicamente agraciada e com grandes habilidades sociais, desde cedo triunfou “na vaidade do mundo”. O seu pai colocou-a como aluna interna no colégio de Santa Maria da Graça e aí decidiu ser religiosa, após um forte combate interior. Pareceu-lhe ser um estado melhor e mais seguro para salvar-se. Além disso via com desagrado as condições em que viviam as mulheres casadas à sua volta. Era mais o temor que a motivava do que o amor.

O seu pai quis impedir a sua entrada no Carmelo da Encarnação. Os seus irmãos também deixavam o lar para a América procurando fortuna. Tinha 20 anos e queria ser livre para conquistar o seu próprio destino.

Em 1537 professou e, passado apenas um ano, surge uma estranha doença. A gravidade alarma a família, que a põe em mãos de uma famosa curandeira. O tratamento debilitou o seu estado até chegar a dá-la como morta. Ela conta que se curou graças à intercessão de São José, apesar de ficar com sequelas que padeceria durante toda a sua vida. Tinha 27 anos. Daí em diante a doença converteu-se numa fiel companheira.

Durante a sua doença conheceu o misticismo franciscano através da leitura do Terceiro Abecedário de Osuna. Este fato foi muito importante na sua evolução espiritual, porque a introduziu na oração de recolhimento. Ao voltar ao mosteiro, a sede interior de solidão e de oração não foi satisfeita durante vários anos. O ambiente não era propício. Viviam no mosteiro quase 200 mulheres. A extraordinária personalidade de Teresa destacava, atraía as visitas de pessoas que deixavam boas esmolas para o convento. Por isso a sua presença no locutório era obrigatória. Esta intensa vida social que a afastava da oração não lhe desagradava porque compensava a sua grande afetividade.

Cada vez mais insatisfeita, tocada pelas chamadas do Amigo que a reclamava toda para Si, começa a confrontar as suas experiências interiores procurando luz. Muitos foram os confessores letrados a quem confiou a sua alma ao longo da sua vida, sempre peregrina da verdade. Sendo mulher, de descendência de judeus conversos e mística, tal não é um bom começo para obter algum crédito.

Em 1554, diante de uma imagem de Cristo “muito chagado” começa a sua transformação. Já não será o temor a impulsioná-la. Será antes um profundo amor Àquele que a amou primeiro. Dois anos mais tarde produziu-se a conversão definitiva. O Espírito Santo irrompe na sua alma, cura-a e liberta-a dos seus problemas afetivos. O fruto da sua conversão foi uma fecunda atividade como fundadora e escritora que se prolongou até à sua morte.

Santa Teresa de Jesus morreu a 4 de outubro de 1582 em Alba de Tormes. Foi beatificada por Paulo V em 1614, canonizada por Gregório XV em 1622 e proclamada doutora da Igreja por Pablo VI em 1970. Foi a primeira mulher a receber este título.

As obras

«Se não tinha livro novo, não me parecia ter contentamento». Assim confessa Teresa de Jesus a sua paixão pela leitura desde a infância. Não tinha estudos reconhecidos, vedados naquela época às mulheres. De fato, saber ler e escrever fazia dela uma mulher privilegiada e, ao mesmo tempo digna de suspeita. Das suas leituras e conversas com os teólogos mais célebres da sua época adquiriu uma sólida cultura teológica e espiritual, que enriqueceu com a sua própria experiência.

O Índice de livros proibidos que a Inquisição publicou em 1559 teve um grande impacto para Teresa. Privada das leituras que tanto a tinham iluminado no seu processo espiritual, Deus saiu ao seu encontro: «Não tenhas pena, que Eu te darei livro vivo». Jesus Cristo se converteria em seu maestro interior. Experiência feita sabedoria. Teresa desejava comunicá-la, «adoçar as almas de um bem tão alto». E a empedernida leitora se transformou numa apaixonada escritora.

A futura doutora da Igreja escrevia sabendo que a sua obra teria de ser revista e aprovada por um censor eclesiástico. Era consciente de que uma mulher escritora seria mal vista, mais ainda se pretendia ensinar. E ao tratar-se de uns escritos de conteúdo espiritual, a Inquisição podia condená-la como herege. Eram «tempos duros» que condicionariam a sua obra e a obrigariam a agudizar o seu engenho. Para ganhar a benevolência do censor, não poupou palavras para dar-lhe a entender que ela era a primeira contrariada, que escrevia por obediência e que se reconhecia inculta, pecadora e inapta.

Apesar de que escreveu bastantes poesias, Teresa é hoje uma figura eminente da literatura principalmente pela sua prosa. Toda a sua obra tem carácter autobiográfico, ainda que seja possível encontrar nela outros géneros literários, como o didático, o tratado espiritual ou a crónica. Escreveu a partir da sua experiência concreta, sem dogmatismos nem temas abstratos. Este exercício de escrita lhe permitiu reviver as suas próprias experiências e reflexioná-las. Nesta árdua luta interna para expressar-se, se esclarecia a si própria. As palavras sobre o papel confirmavam a realidade do vivido. Rica retro-alimentação entre a escritora e a sua pena.

A dificuldade para expressar a sua mística com uma linguagem sempre limitado foi uma autêntica dor de cabeça para Teresa. A sua mestria e a novidade das soluções que trouxe à expressão escrita valeram-lhe o título de “criadora” da língua. Teve a genialidade de conceber um sistema e apresentá-lo com um estilo encantadoramente simples. De facto, as suas páginas transpiram espontaneidade e frescura.

Muito se escreveu sobre Teresa. O melhor é sempre lê-la a ela [ler suas obras].

Obras:

Livro da Vida

Caminho de Perfeição

As Fundações

As Moradas

Contas de consciência

Meditações sobre os cânticos dos cânticos

Cartas

Exclamações

Constituições

Visita de descalças

Desafio espiritual

Vexame

Poesias

Escritos soltos e memoriais

Espiritualidade

Teresa de Jesus reconheceu na sua vida uma Presença que a envolvia amorosamente procurando a sua amizade. Após muitos anos a tentar sem êxito «concertar estes dois contrários» -Deus e o mundo-, abandonou-se confiadamente nos braços de Cristo. E, a partir desse momento, Deus tomaria o leme da sua vida e a levaria numa travessia fascinante em direção às «sétimas moradas». Desta experiência brota a espiritualidade teresiana.

Com a sua vida e escritos, Teresa quis transmitir como Deus tinha saído ao seu encontro para dar-Se sem medida. Comprovou que Deus não deseja outra coisa senão dar-Se a quem O queira receber. Deus convida a pessoa para que entre no seu interior, onde Ele habita. Esta é «a grande formusura e dignidade da alma», criada à imagem e semelhança de Deus e capaz de estabelecer amizade com Ele. Deus oferece-Se totalmente, não porque o ser humano tenha acumulado méritos, mas porque Ele se quer revelar e suscitar uma resposta de doação. Diz Teresa que este Deus «doura as culpas» e tira o máximo partido ao bom que há em cada um.

Teresa experimentou que a pessoa pode viver arrastada pelas suas forças instintivas e ignorante da sua própria identidade e destino. Desde este ponto de partida, o processo espiritual é para ela uma libertação de tudo o que dispersa a pessoa interiormente e a separa da sua meta: a união transformante com Cristo, o matrimónio espiritual.

A oração é a porta para entrar nesta dinâmica, cujo único requisito é uma «determinada determinação». Fruto deste encontro em amizade, cresce a humildade pela iluminação de verdades na alma: quem é Deus, quem é a pessoa, o pouco que esta pode fazer com o seu esforço e o muito que recebe. A chave para avançar por este caminho é acolher como pobre o que Deus oferece e responder à sua graça com uma generosa entrega de si mesmo.

Quando o amor divino acaricia uma alma, já não pode medir a sua vida segundo o cumprimento de uns preceitos e ritos, mas segundo o amor com que responde a tanto dom recebido. Por isso, esta experiência põe em marcha uma transformação do ser na sua raiz, para acomodá-lo a uma amizade cada vez mais profunda com Deus e com os seus irmãos.

Teresa experimentou grandes ansias de plenitude e liberdade. Notou que o ser humano possui no seu interior um vazio que nada nem ninguém pode preencher a não ser Deus. No entanto, obstina-se em enchê-lo com o que o deixa mais faminto. Não são as coisas nem as pessoas, mas a atitude que se toma diante delas o que enjaula a vida numa espiral de escravidões. A pessoa necessita deslindar a mentira do mundo que leva por dentro, que «tudo é nada» e que «só Deus basta». Quando a alma viu as grandezas de Deus, não lhe custa o desprendimento que lhe ajude a soltar peso para voar até Ele. «Andar em verdade» e desnudez para poder ser livre.

Cristo é o centro da espiritualidade teresiana. A Sua Humanidade curou a afetividade de Teresa e introduziu-a no mistério do Deus trinitário, comunhão de amor. Da opção radical por Ele brotará o desejo de querer agradar-Lhe em tudo. E, já que o amor a Deus e ao próximo é o mesmo, o serviço aos demais autentica o seguimento a Aquele que «nunca voltou a si». Teresa propõe um caminho de fé vivido em comunidade. Um grupo de amigos de Jesus onde cada um seja para os demais outro Cristo, convertendo-se em «escravo de Deus e de todos» por amor. Isto é, esquecer-se de si e pensar no bem do outro. Amor que preenche as pequenas coisas de cada dia, pois Deus não olha a grandeza das obras mas o amor com que se fazem.

Lugares

Teresa de Jesus fez a experiência de que a misericórdia de Deus tinha transformado a sua vida. No entanto, não se refugiou num intimismo egocêntrico e estéril. Pelo contrário, a sua sensibilidade agudizou-se diante dos sofrimentos de um mundo que «está em chamas». Por isso, tinha o desejo de partilhar o que tinha recebido de Deus. O fruto da sua conversão foi uma fecunda atividade como fundadora e escritora que se prolongou até à sua morte.

Teresa sonhava com uma pequena comunidade que vivesse com autenticidade o Evangelho. Um sinal no meio de uma sociedade de valores efémeros e uma Igreja em crise. Um lugar de oração e trabalho, silêncio e fraternidade, onde «fazer esse pouquito que estava ao meu alcance» para melhorar a realidade. Em 1562, entre numerosas dificuldades, este sonho fez-se realidade com a primeira fundação de descalças: o convento de São José em Ávila.

Transcorriam gozosamente os dias de Teresa, quando o testemunho de um missionário vindo da recém descoberta América lhe sacudiu o coração. Diante do sofrimento de tantas criaturas, maltratadas pela ambição colonial e a falta de evangelizadores, sentiu a urgência de estender a sua obra. Tinha 52 anos. A partir de então, a sua vida foi tão intensa em viagens e novos conventos, que a imagem que ficou dela para a história é a da “santa andarilha”.

Fundadora de monjas, e também de frades, percorreu mais de seis mil quilómetros por aqueles difíceis caminhos espanhóis do século XVI. Os seus conventos foram levantados a um ritmo prodigioso: Medina do Campo (1567), Duruelo (1568), Malagón (1568), Valladolid (1568), Toledo (1569), Pastrana (1569), Salamanca (1570), Alba de Tormes (1571), Segóvia (1574), Beas de Segura (1575), Sevilla (1575), Caravaca (1576), Villanueva de la Jara (1580), Sória (1581), Palência (1581) e Burgos (1582).

Teresa desenvolveu as suas extraordinárias qualidades pessoais para vencer todo o tipo de obstáculos. Insuficientes recursos econômicos, problemas para conseguir as autorizações, a dificuldade própria das viagens, a procura e aprovisionamento das casas, a sua saúde débil… Suspeita por ser de descendência de judeus convertidos, mulher e mística, foi denunciada em várias ocasiões à Inquisição que, em 1575, abriu um processo contra ela e as suas irmãs em Sevilha. Foram absolvidas. Teresa questionou os valores pelos quais se regia aquela sociedade.

Mulher sempre envolvida em mil conflitos e necessidades, a sua astuta diplomacia e célebre perícia no mundo dos negócios foram decisivas para o seu êxito. Mas o autêntico motor da sua façanha foi o seu desejo de servir o Amigo, a quem permanecia intimamente unida. De uma inquebrantável fé e um amor apaixonado brotaram a coragem e a fortaleza para vencer todas as adversidades.

Para Teresa, cada fundação era uma autêntica epifania. Deus ia estendendo o seu reino à medida que se inauguravam as novas comunidades. E fazia-o valendo-se da insignificância social de uma mulher. O espírito do mal opunha-se, semeando o caminho com tantas e tantas contrariedades. Mas o poder de Deus é sempre mais forte. A sua luz e a sua bondade triunfavam cada vez que um novo Carmelo nascia.

Teresa gastou a saúde e a vida ao serviço de Deus e da Igreja. Estava convencida da importante missão eclesial que se levava a cabo nas suas casas de oração. Entendia que a oração, desde a transformação da própria pessoa, como onda expansiva alcança todos os cantos da terra.

Fonte: www.carmelitaniscalzi.com

Publicado em Diocese de São José dos Pinhais.

Sete de Outubro: Memória de Nossa Senhora do Rosário

Nossa Senhora do Rosário, uma festa de glória! Ela que ajudou os cristãos a vencerem a Batalha de Lepanto, nos conceda a graça da vinda do Reino d’Ela, que será também o Reino do Rosário.

Redação (07/10/2021 08:5, Gaudium Press)  – Na última aparição de Nossa Senhora, em Fátima, em outubro de 1917, a Virgem Maria disse por fim o seu nome: “Sou a Senhora do Rosário”; e voltou a lembrar a recomendação já feita antes: “Continuem a rezar o terço todos os dias”.

Foi durante aquela aparição que Nossa Senhora disse às três crianças: ” … Continuem a recitar o Rosário todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz no mundo e o fim da guerra…”

Fátima e o Rosário, as crianças de Fátima e Nossa Senhora são palavras profunda e inseparavelmente unidas entre si… Hoje, talvez mais do que nunca, Maria derrama graças sobre aqueles que rezam o terço … Conheça mais sobre a devoção e as graças que recebem aqueles que praticam a reza do terço, bem como a história da última aparição de Nossa Senhora em Fátima. Por especial desígnio da infinita misericórdia de Deus, Maria Santíssima revelou ao grande São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Dominicanos, um meio fácil e seguro de salvação: o santo Rosário.

Sempre que os homens o utilizam, tudo floresce na Igreja, na terra passa a reinar a paz, as famílias vivem em concórdia e os corações são abrasados de amor a Deus e ao próximo. Quando dele se esquecem, as desgraças se multiplicam, implanta-se a discórdia nos lares, o caos se estabelece no mundo…

A Ave-Maria, base do Novo Testamento

São Domingos viveu numa época de grandes tribulações para a Igreja.

A terrível heresia dos albigenses se espalhara no sul da França e ameaçava toda a Europa. A profunda corrupção moral dela decorrente abalava os fundamentos da própria sociedade temporal.

Por meio de ardorosas pregações, durante anos tentou ele reconduzir ao seio da Igreja aqueles infelizes que se tinham desviado da verdade. Mas suas eloqüentes e inflamadas palavras não conseguiam penetrar aqueles corações empedernidos e entregues aos vícios.

O Santo intensificou suas orações…

Aumentou suas penitências… Fundou um instituto religioso para acolher os convertidos… De pouco ou nada adiantaram seus esforços. As conversões eram poucas e de efêmera duração.

O que fazer? Certo dia, decidido a arrancar de Deus graças superabundantes para mover à conversão aquelas almas, Frei Domingos entrou numa floresta perto de Toulouse e entregou-se à oração e à penitência, disposto a não sair dali sem obter do Céu uma resposta favorável.

Após três dias e três noites de incessantes súplicas, quando as forças físicas já quase o abandonavam, apareceu- lhe a Virgem Maria, dizendo com inefável suavidade: – Meu querido Domingos, sabes de que meio se serviu a Santíssima Trindade para reformar o mundo? – Senhora, sabeis melhor do que eu, porque, depois de vosso Filho Jesus Cristo, fostes Vós o principal instrumento de nossa salvação.

– Eu te digo, então, que o instrumento mais importante foi a Saudação Angélica, a Ave-Maria, que é o fundamento do Novo Testamento. E, portanto, se queres ganhar para Deus esses corações endurecidos, reza meu Rosário.

Raios e trovões para reforçar a pregação

Com novo ânimo, o zeloso Dominicano dirigiu-se imediatamente à Catedral de Toulouse, para fazer uma pregação. Mal ele transpôs a porta do templo, os sinos começaram a repicar, por obra dos anjos, para reunir os habitantes da cidade.

Assim que ele começou a falar, nuvens espessas cobriram o céu e desabou uma terrível tempestade, com raios e trovões, agravada por um apavorante tremor de terra.

O pavor dos assistentes aumentou quando uma imagem de Nossa Senhora, situada em local bem visível, levantou os braços três vezes para pedir a Deus vingança contra eles, se não se convertessem e pedissem a proteção de sua Santíssima Mãe.

O santo Pregador implorou a misericórdia de Deus, e a tempestade cessou, permitindo-lhe falar com toda calma sobre as maravilhas do Rosário.

Os habitantes de Toulouse arrependeram- se de seus pecados, abandonaram o erro, e começaram a rezar o Rosário. Em conseqüência, grande foi a mudança dos costumes nessa cidade.

A partir de então, São Domingos, em seus sermões, passou a pregar a devoção ao Rosário, convidando seus ouvintes a rezá-lo com fervor todos os dias. Assim, obteve que a misericórdia de Nossa Senhora envolvesse as almas e as transformasse profundamente.

Maria foi a verdadeira vencedora dos erros dos albigenses.

Um sermão escrito pela Santíssima Virgem

Relata o Beato Alano uma aparição de São Domingos, na qual este lhe narrou o seguinte episódio: Rezando o Rosário, estava ele preparandose para fazer na Catedral de Notre Dame de Paris um sermão sobre São João Evangelista. Apareceu-lhe então Nossa Senhora e lhe entregou um pergaminho, dizendo: “Domingos, por melhor que seja o sermão que decidiste pregar, trago aqui outro melhor”.Muito contente, leu o pergaminho, agradeceu de todo coração a Maria e se dirigiu ao púlpito para começar a pregação. Diante dele estavam os professores e alunos da Universidade de Paris, além de grande número de pessoas de importância.

Sobre o Apóstolo São João, apenas afirmou o quanto este merecera ter sido escolhido para guardião da Rainha do Céu. Em seguida, acrescentou: “Senhores e mestres ilustres, estais acostumados a ouvir sermões elegantes e sábios, porém, eu não quero dirigir-vos as doutas palavras da sabedoria humana, mas mostrar-vos o Espírito de Deus e sua virtude”.

E então São Domingos passou a explicar a Ave-Maria, como lhe tinha ensinado Nossa Senhora, comovendo assim, profundamente, aquele auditório de homens cultos.

O Beato Alano de la Roche

As próprias graças e milagres concedidos por Deus através da recitação do Rosário encarregaram-se de propagá- lo por toda parte, tornando-se esta a devoção mais querida dos fiéis cristãos. Enquanto ela foi praticada, a piedade florescia nas Ordens religiosas e no mundo católico.

Mas, cem anos depois de ter sido divulgada por São Domingos, já ela havia caído quase no esquecimento. Como conseqüência, multiplicaram-se os males sobre a Cristandade: a peste negra devastou a Europa, dizimando um terço da população, surgiram novas heresias, a Guerra dos Cem Anos espalhou desordens por toda parte, e o Grande Cisma do Ocidente dividiu a Igreja durante longo período.

Para atalhar o mal e, sobretudo, preparar a Igreja para enfrentar os embates futuros, suscitou Deus o Beato Alano de la Roche, da Ordem Dominicana, com a missão de restaurar o antigo fervor pelo Rosário.

Um dia em que ele celebrava Missa, em 1460, perguntou-lhe Nosso Senhor: “Por que me crucificas tu de novo? E me crucificas, não só por teus pecados, mas ainda porque sabes quanto é necessário pregar o Rosário e assim desviar muitas almas do pecado. Se não o fazes, és culpado dos pecados que elas cometem”.

A partir de então, o Beato Alano tornou-se um incansável divulgador desta devoção, e assim converteu grande número de almas.

Fator decisivo de grandes vitórias

Foi, sobretudo, nos momentos de grandes perigos e provações para a Igreja, que o Rosário teve um papel decisivo, propiciou a perseverança dos católicos na Fé e levantou uma barreira contra o mal.

Ao ver a Europa ameaçada pelos exércitos do império otomano, que avançavam por mar e por terra, devastando tudo e perseguindo os cristãos, o Papa São Pio V mandou rezar o Rosário em toda a Cristandade, implorando a proteção de Nossa Senhora. Ao mesmo tempo, com o auxílio da Espanha e de Veneza, reuniu uma esquadra no Mar Mediterrâneo para defender os países católicos.

A sete de outubro de 1571, a frota católica encontrou a poderosa esquadra otomana no golfo de Lepanto. E apesar da superioridade numérica do adversário, os cristãos saíram triunfantes, afastando definitivamente o risco de uma invasão. Antes de travar-se o combate, todos os soldados e marinheiros católicos rezaram o Rosário com grande devoção.

A vitória, que parecia quase impossível, deveu-se à proteção da Virgem Santíssima, a qual – segundo testemunho dado pelos próprios muçulmanos – apareceu durante a batalha, infundindo- lhes grande terror.

No século XVIII, para comemorar a vitória do Príncipe Eugênio de Saboya sobre o exército otomano, devida também à eficácia do Rosário, o Papa Clemente XI ordenou que a festa de Nossa Senhora do Rosário fosse celebrada universalmente.

São Luís Grignion de Montfort

A Igreja seria ainda sacudida por muitas tempestades. Visando fortalecer seus filhos e prepará- los para suportar as grandes provações futuras, suscitou Deus uma alma de fogo com a missão de reacender a chama da devoção ao Rosário, o qual mais uma vez tinha caído no esquecimento. São Luís Maria Grignion de Montfort, o grande doutor da devoção à Mãe de Deus, exerceu sua missão profética um século antes da Revolução Francesa. As regiões nas quais se deram ouvidos à sua pregação foram as que melhor resistiram aos erros de sua época e conservaram íntegra a Fé.

Fátima, 1917: “Sou a Senhora do Rosário”

Já no século XX, quando a Primeira Guerra Mundial estava em seu auge, Nossa Senhora veio, Ela mesma, em pessoa, lembrar aos homens que a solução para seus males estava ao alcance das mãos, nas contas do Rosário: “Rezai o Terço todos os dias para alcançar a paz e o fim da guerra”, repetiu Ela maternalmente aos três pastorzinhos, em Fátima. Na última aparição, em outubro de 1917, a Virgem Maria disse quem era: “Sou a Senhora do Rosário”. E para atestar a autenticidade das aparições e a importância do Rosário, operou um milagre de grandeza nunca vista, presenciado pela multidão de 70.000 pessoas que estavam no local: o sol girou no céu, ao meio-dia, parecendo precipitar- se sobre a terra, retomando depois sua posição habitual no firmamento.

Milagres dessa magnitude, só no Antigo Testamento encontramos. Mas nem assim o mundo deu ouvidos à Mãe de Deus. E nunca se abateram sobre a Terra tantas desgraças, nunca houve tantas guerras, nunca a desagregação moral chegou tão baixo.

Entretanto, o meio de obter a paz para o mundo, para as famílias, para os corações, continua ao alcance de nossas mãos, nas contas benditas do Rosário, que Maria Santíssima trazia suspenso de seu braço quando apareceu em Fátima.

Salvou-se porque levava o Terço à cintura

Não é possível expressar quanto a Santíssima Virgem estima o Rosário sobre todas as demais devoções, e como é generosa em recompensar os que trabalham para divulgá-lo.

Conta São Luís de Montfort o caso de Afonso IX, Rei de León, a quem Nossa Senhora protegeu particularmente, pelo simples fato de portar o Rosário à cintura.

Desejando que os seus súditos honrassem a Santíssima Virgem, e para animá-los com seu exemplo, ocorreu a esse monarca portar ostensivamente um grande Rosário, ainda que não o rezasse. Isto bastou para incentivar os seus cortesãos a rezá-lo devotamente.

Algum tempo depois, o rei ficou às portas da morte, acometido por uma grave enfermidade. Foi então transportado em espírito ao tribunal de Deus, onde os demônios o acusaram de todos os seus crimes. E quando ia ser condenado às penas eternas, apresentou- se em sua defesa a Santíssima Virgem diante de Jesus.

Num prato da balança, foram colocados os pecados do Rei. No outro, a Virgem Maria colocou o grande Rosário que ele portara em honra d’Ela, juntamente com os Rosários que, devido ao seu exemplo, haviam rezado outras pessoas, e estes pesavam mais que todos os pecados por ele cometidos.

Depois, Maria Santíssima, olhando com misericórdia para o Rei, disse: “Consegui de meu Filho, como recompensa pelo pequeno serviço que Me fizeste, levando à cintura o Rosário, o prolongamento de tua vida por mais uns anos. Emprega-os bem, e faz penitência”.

Voltando a si, o rei exclamou: “Oh! Bendito Rosário da Santíssima Virgem, por ele é que fui livre da condenação eterna!” E, recuperando a saúde, passou a rezar o Rosário todos os dias até o fim da vida.

A palavra do Papa, porta-voz de Jesus

O Rosário transporta-nos misticamente para junto de Maria (…) para que Ela nos eduque e nos plasme até que Cristo esteja formado em nós plenamente” – ensina o Papa João Paulo II. E acrescenta: “Nunca, como no Rosário, o caminho de Cristo e o de Maria aparecem unidos tão profundamente. Maria só vive em Cristo e em função de Cristo”.

Recordemos suas inspiradas palavras na Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariæ”:

O Rosário acompanhou-me nos momentos de alegria e nas provações. A ele confiei tantas preocupações; nele encontrei sempre conforto. O Rosário é minha oração predileta. Oração maravilhosa! “Ó Rosário bendito de Maria, doce cadeia que nos prende a Deus, vínculo de amor que nos une aos Anjos, torre de salvação contra os assaltos do inferno, porto seguro no naufrágio geral! “Não te deixaremos nunca mais! “Serás o nosso conforto na hora da agonia. Seja para ti o último ósculo da vida que se apaga. E a última palavra dos nossos lábios há de ser o vosso nome suave, ó Rainha do Rosário, ó nossa Mãe querida, ó Refúgio dos pecadores, ó soberana consoladora dos tristes. Sede bendita em toda parte, hoje e sempre, na terra e no Céu. Amém.”

Nunca deixe de rezá-lo!

Sim, acatando fielmente essa exortação do Papa, nunca deixe de rezar o Rosário, sob pretexto de ter muitas distrações involuntárias, falta de gosto em rezá-lo, muito cansaço, insuficiência de tempo, ou qualquer outro. Para rezar bem o Rosário, não é necessário sentir gosto, ter consolações, nem conseguir uma aplicação contínua da imaginação. Bastam a fé pura e a boa intenção.

E veja quantos benefícios nos proporciona a recitação do Rosário!

• Eleva-nos ao conhecimento perfeito de Jesus Cristo.
• Purifica nossas almas do pecado.
• Faz-nos vitoriosos contra todos os nossos inimigos.
• Torna-nos fácil a prática das virtudes.
• Abrasa-nos no amor de Jesus Cristo.
• Enriquece-nos de graças e méritos.
• Fornece-nos os meios de pagar todas as nossas dívidas com Deus e com os homens.

A tudo isso, acrescenta São Luís Maria Grignion de Montfort: – “Ainda que te encontres à beira do abismo ou já com um pé no inferno ainda que estejas endurecido e obstinado como um demônio, cedo ou tarde te converterás e salvarás, contanto que rezes devotamente todos os dias o santo Rosário, para conhecer a verdade e obter a contrição e o perdão de teus pecados”.

Por Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias

(In “Revista Arautos do Evangelho”, Out/2004, n. 34, p. 34 a 38)

Publicado em Gaudium Press.

Memória de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face

Santa Teresa do Menino Jesus: Viver e morrer de amor

Imagem

Cuidar da alma, alimentando sempre a nossa dimensão interior, é uma tarefa essencial que a modernidade muitas vezes esqueceu. A ajudar-nos neste caminho de redescoberta da transcendência que habita em nós estão os mestres da espiritualidade, como Santa Teresa de Lisieux, que a Igreja católica evoca a 1 de outubro.

Nesta jovem carmelita cruzam-se todas as tensões típicas do ser humano contemporâneo com as raízes de fé evangélica.

Nascida numa família animada por uma vida cristã cultivada no dia a dia (os pais serão canonizados no próximo dia 18 de outubro), Teresa sentiu-se chamada à vida consagrada, e por isso entrou no Carmelo de Lisieux.

Nesta comunidade religiosa empreendeu um percurso místico pessoal – marcado também pela escuridão do abandono – que é retratado na sua autobiografia espiritual, “História de uma alma”, verdadeiro manual de santidade.

Recordamos excertos da catequese sobre Teresa de Lisieux que o papa emérito Bento XVI pronunciou a 6 de abril de 2011.

«Gostaria de vos falar hoje de Santa Teresa de Lisieux. Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, que viveu neste mundo só 24 anos, no final do século XIX, levando uma vida muito simples e no escondimento, mas que, depois da morte e da publicação dos seus escritos, se tornou uma das santas mais conhecidas e amadas.

A “pequena Teresa” nunca deixou de ajudar as almas mais simples, os pequeninos, os pobres e os sofredores que lhe rezam, mas iluminou também toda a Igreja com a sua profunda doutrina espiritual, a ponto que o Venerável [Santo] papa João Paulo II, em 1997, quis atribuir-lhe o título de Doutora da Igreja, além do de Padroeira das Missões, que já lhe tinha sido atribuído por Pio XI em 1927.

O meu amado predecessor definiu-a “perita da scientia amoris”. Esta ciência, que vê resplandecer no amor toda a verdade da fé, Teresa expressa-a principalmente na narração da sua vida, publicada um ano depois da sua morte com o título de “História de uma alma”. Trata-se de um livro que teve imediatamente um grande sucesso, foi traduzido em muitas línguas e difundido em todo o mundo. Gostaria de vos convidar a redescobrir este pequeno-grande tesouro, este comentário luminoso ao Evangelho plenamente vivido!

A carmelita tem a consciência de viver esta grande prova para a salvação de todos os ateus do mundo moderno, por ela chamados «irmãos». Vive então ainda mais intensamente o amor fraterno: para com as irmãs da sua comunidade, para com os seus dois irmãos espirituais missionários, para com os sacerdotes e todos os homens, sobretudo os mais distantes

De facto, a “História de uma alma” é uma história maravilhosa de amor, narrada com tanta autenticidade, simplicidade e vigor, que o leitor não pode deixar de se admirar! Mas qual é este amor que encheu toda a vida de Teresa, desde a infância até à morte? Queridos amigos, este amor tem um rosto, tem um nome, é Jesus! A santa fala continuamente de Jesus. Repercorramos então as grandes etapas da sua vida, para entrar no coração da sua doutrina.

Teresa nasceu a 2 de janeiro de 1873 em Alençon, uma cidade da Normandia, na França. É a última filha de Luís e Zélia Martin, esposos e pais exemplares, beatificados juntamente a 19 de outubro de 2008. Tiveram nove filhos; quatro morreram em tenra idade. Permaneceram as cinco filhas, que se tornaram todas religiosas. Teresa, com 4 anos, ficou profundamente abalada com a morte da mãe. Então, o pai transferiu-se com as filhas para a cidade de Lisieux, onde se desenvolverá toda a vida da santa. Mais tarde Teresa, atingida por uma grave doença nervosa, sarou por graça divina, que ela própria define o “sorriso de Nossa Senhora”. Recebeu depois a Primeira Comunhão, intensamente vivida, e pôs Jesus Eucaristia no centro da sua existência.

A “Graça do Natal” de 1886 assinala a grande mudança, por ela chamada a sua “total conversão”. De facto, ficou totalmente curada da sua hipersensibilidade infantil e começou uma “corrida de gigante”. Aos 14 anos Teresa aproxima-se cada vez mais, com grande fé, de Jesus crucificado, e começa a ocupar-se de um criminoso, aparentemente desesperado, condenado à morte e impenitente. “Quis impedir-lhe de todas as formas de cair no inferno”, escreve a santa, com a certeza de que a sua oração o teria posto em contacto com o Sangue redentor de Jesus. É a sua primeira experiência fundamental de maternidade espiritual: “Eu tinha tanta confiança na misericórdia infinita de Jesus”, escreve. Com Maria Santíssima, a jovem Teresa ama, crê e espera com “um coração de mãe”.

Teresa faleceu na noite de 30 de setembro de 1897, pronunciando as simples palavras «Meu Deus, amo-te!», olhando para o crucifixo que estreitava nas suas mãos. Estas últimas palavras da santa são a chave de toda a sua doutrina, da sua interpretação do Evangelho

Em novembro de 1887, Teresa vai em peregrinação a Roma juntamente com o pai e a irmã Celina. Para ela, o momento culminante é a audiência do Papa Leão XIII, ao qual pede a autorização para entrar, apenas com 15 anos, no Carmelo de Lisieux. Um ano depois, o seu desejo realiza-se: torna-se carmelita, “para salvar as almas e rezar pelos sacerdotes”.

Contemporaneamente, começa também a dolorosa e humilhante doença mental do seu pai. É um grande sofrimento que leva Teresa à contemplação da Face de Jesus na sua Paixão. Assim, o seu nome de religiosa – irmã Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face – expressa o programa de toda a sua vida, em comunhão com os mistérios centrais da encarnação e da redenção.

A sua profissão religiosa, na festa da Natividade de Maria, a 8 de setembro de 1890, é para ela um verdadeiro matrimónio espiritual na “pequenez” evangélica, caracterizada pelo símbolo da flor (…). No mesmo dia, a santa escreve uma oração que indica toda a orientação da sua vida: pede a Jesus o dom do seu amor infinito, para ser a mais pequena, e sobretudo pede a salvação de todos os homens: “Que nenhuma alma seja danada hoje”. De grande importância é a sua Oferta ao Amor Misericordioso, feita na festa da Santíssima Trindade de 1895: uma oferenda que Teresa partilha imediatamente com as suas irmãs de hábito, sendo já vice-mestra das noviças.

Dez anos depois da “Graça de Natal”, em 1896, vem a “Graça de Páscoa” que abre a última fase da vida de Teresa com o início da sua paixão em profunda união com a paixão de Jesus; trata-se da paixão do corpo, com a doença que a levará à morte através de grandes sofrimentos, mas sobretudo trata-se da paixão da alma, com uma dolorosíssima prova da fé. Com Maria ao lado da cruz de Jesus, Teresa vive então a fé mais heroica, como luz nas trevas que lhe invadem a alma.

«Confiança e amor» são, portanto, o ponto final da narração da sua vida, duas palavras que como faróis iluminaram todo o seu caminho de santidade, para poder guiar os outros pela sua mesma «pequena via de confiança e de amor» da infância espiritual

A carmelita tem a consciência de viver esta grande prova para a salvação de todos os ateus do mundo moderno, por ela chamados “irmãos”. Vive então ainda mais intensamente o amor fraterno: para com as irmãs da sua comunidade, para com os seus dois irmãos espirituais missionários, para com os sacerdotes e todos os homens, sobretudo os mais distantes. Torna-se deveras uma “irmã universal”! A sua caridade amável e sorridente é a expressão da alegria profunda da qual nos revela o segredo: “Jesus, a minha alegria é amar-te”. Neste contexto de sofrimento, vivendo o maior amor nas mais pequenas coisas da vida quotidiana, a santa realiza a sua vocação de ser o amor no coração da Igreja.

Teresa faleceu na noite de 30 de setembro de 1897, pronunciando as simples palavras “Meu Deus, amo-te!”, olhando para o crucifixo que estreitava nas suas mãos. Estas últimas palavras da santa são a chave de toda a sua doutrina, da sua interpretação do Evangelho. O ato de amor, expresso no seu último suspiro, era como que o contínuo respiro da sua alma, como o pulsar do seu coração. As simples palavras “Jesus, amo-te” estão no centro de todos os seus escritos. (…)

Queridos amigos, também nós com Santa Teresa do Menino Jesus deveríamos poder repetir todos os dias ao Senhor que queremos viver de amor a Ele e aos outros, aprender na escola dos santos a amar de modo autêntico e total. Teresa é um dos “pequeninos” do Evangelho que se deixam conduzir por Deus às profundezas do seu mistério. Uma guia para todos, sobretudo para aqueles que, no Povo de Deus, desempenham o ministério de teólogos.

«Confiança e amor» são, portanto, o ponto final da narração da sua vida, duas palavras que como faróis iluminaram todo o seu caminho de santidade, para poder guiar os outros pela sua mesma «pequena via de confiança e de amor» da infância espiritual

Com a humildade e a caridade, a fé e a esperança, Teresa entra continuamente no coração da Sagrada Escritura que encerra o mistério de Cristo. E esta leitura da Bíblia, alimentada pela ciência do amor, não se opõe à ciência académica. De facto, a ciência dos santos, da qual ela mesma fala na última página da “História de uma alma”, é a ciência mais nobre (…).

Inseparável do Evangelho, a Eucaristia é para Teresa o sacramento do amor divino que se abaixa ao extremo para se elevar até Ele. Na sua última “Carta”, sobre uma imagem que representa o Menino Jesus na Hóstia consagrada, a santa escreve estas palavras simples: “Não posso temer um Deus que para mim se fez tão pequenino! (…) Eu amo-o! De facto, Ele mais não é do que amor e misericórdia!”.

No Evangelho, Teresa descobre sobretudo a misericórdia de Jesus (…). Assim se expressa também nas últimas linhas da “História de uma alma”: ‘Um só olhar ao Santo Evangelho, imediatamente respiro os perfumes da vida de Jesus e sei para onde correr… Não é para o primeiro lugar, mas para o último que me oriento… Sim, sinto-o, mesmo se tivesse na consciência todos os pecados que se podem cometer, iria, com o coração despedaçado pelo arrependimento, lançar-me entre os braços de Jesus, porque sei quanto ama o filho pródigo que volta a Ele’.

“Confiança e amor” são, portanto, o ponto final da narração da sua vida, duas palavras que como faróis iluminaram todo o seu caminho de santidade, para poder guiar os outros pela sua mesma “pequena via de confiança e de amor” da infância espiritual. Confiança como a do menino que se abandona nas mãos de Deus, inseparável do compromisso forte e radical do verdadeiro amor, que é dom total de si, para sempre, como diz a santa contemplando Maria: “Amar é dar tudo, e dar-se a si mesmo”.

Matteo Liut (Avvenire), Rui Jorge Martins (SNPC).

Publicado em Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC).

São Jerônimo – Memória – 30 de setembro

São Jerônimo

Neste último dia do mês da Bíblia, celebramos a memória do grande “tradutor e exegeta das Sagradas Escrituras”: São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja. Ele nasceu na Dalmácia em 340, e ficou conhecido como escritor, filósofo, teólogo, retórico, gramático, dialético, historiador, exegeta e doutor da Igreja. É de São Jerônimo a célebre frase: “Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”.

Com posse da herança dos pais, foi realizar sua vocação de ardoroso estudioso em Roma. Estando na “Cidade Eterna”, Jerônimo aproveitou para visitar as Catacumbas, onde contemplava as capelas e se esforçava para decifrar os escritos nos túmulos dos mártires. Nessa cidade, ele teve um sonho que foi determinante para sua conversão: neste sonho, ele se apresentava como cristão e era repreendido pelo próprio Cristo por estar faltando com a verdade (pois ainda não havia abraçado as Sagradas Escrituras, mas somente escritos pagãos). No fim da permanência em Roma, ele foi batizado.

Após isso, iniciou os estudos teológicos e decidiu lançar-se numa peregrinação à Terra Santa, mas uma prolongada doença obrigou-o a permanecer em Antioquia. Enfastiado do mundo e desejoso de quietude e penitência, retirou-se para o deserto de Cálcida, com o propósito de seguir na vida eremítica. Ordenado sacerdote em 379, retirou-se para estudar, a fim de responder com a ajuda da literatura às necessidades da época. Tendo estudado as línguas originais para melhor compreender as Escrituras, Jerônimo pôde, a pedido do Papa Dâmaso, traduzir com precisão a Bíblia para o latim (língua oficial da Igreja na época). Esta tradução recebeu o nome de Vulgata. Assim, com alegria, dedicação sem igual e prazer se empenhou para enriquecer a Igreja universal.

Saiu de Roma e foi viver definitivamente em Belém no ano de 386, onde permaneceu como monge penitente e estudioso, continuando as traduções bíblicas, até falecer em 420, aos 30 de setembro com, praticamente, 80 anos de idade. A Igreja declarou-o padroeiro de todos os que se dedicam ao estudo da Bíblia e fixou o “Dia da Bíblia” no mês do seu aniversário de morte, ou ainda, dia da posse da grande promessa bíblica: a Vida Eterna.

São Jerônimo, rogai por nós!

(Fonte Canção Nova)

Publicado em Universidade Católica Dom Bosco.

SANTOS ARCANJOS MIGUEL, GABRIEL E RAFAEL – Memória – 29 de setembro

Precisamente hoje, dia 29 de setembro, a Liturgia da Igreja celebra a Festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, que aparecem nas Sagradas Escrituras com missões importantes que foram determinadas por Deus. Esses três arcanjos representam a alta hierarquia dos anjos chefes, o seleto grupo dos sete espíritos puros que atendem ao trono de Deus e são os mensageiros dos decretos divinos aqui na terra, “os espíritos servidores, enviados a serviço daqueles que vão receber a salvação como herança”. (Hb 1,14).

A Igreja, guiada pelo Espírito Santo, herdou do Antigo Testamento a devoção a esses três arcanjos, que são os protetores e os intercessores que vêm do Céu em nosso socorro, pois, como nos ensina São Paulo, vivemos num constante bom combate. A palavra Arcanjo significa Anjo principal e, por isso, durante as atribulações do nosso cotidiano, nas tempestades e nos vendavais na vida, eles costumam aconselhar-nos e auxiliar-nos, além, é claro, de levar as nossas orações a Deus, trazendo-nos as mensagens da Providência Divina.

Os três arcanjos, Miguel, Gabriel e Rafael “estão diante de Deus, são os nossos companheiros porque têm a mesma vocação no mistério da salvação: levar em frente o mistério da salvação. Adoram a Deus, glorificam a Deus, servem a Deus”. (Papa Francisco, Homilia em 29 de setembro de 2017). Os três nomes dos arcanjos terminam com a palavra “EL” que significa “Deus”, ou seja, Deus está inscrito nos seus nomes e em suas naturezas. Desse modo, eles trazem Deus a nós, abrem o céu para nós, abrindo, ao mesmo tempo, a terra. Por estarem juntos do Deus Altíssimo, eles podem estar também muito próximos de nós, os seres humanos, incentivando-nos a permanecer na presença do Senhor, adorando-O em espírito e verdade.

Miguel significa “ninguém é como Deus”, ou “semelhança de Deus”. Ele é considerado o príncipe guardião, o guerreiro, o defensor do trono celeste, o fiel  escudeiro do Pai Eterno, o chefe supremo do exército celeste e dos anjos fiéis a Deus.

Miguel é o arcanjo da justiça e do arrependimento, o padroeiro da Igreja Católica e o protetor dos fiéis cristãos. A invocação de seu nome costuma ser de grande ajuda no combate contra as forças maléficas. Ele é citado três vezes na Sagrada Escritura e o seu culto é um dos mais antigos da Igreja. Miguel é chamado pelo profeta Daniel, no Antigo Testamento, de príncipe protetor dos judeus. No Novo Testamento, ele é citado na carta de São Judas e no Livro do Apocalipse.

Gabriel significa “Deus é meu protetor” ou “homem de Deus”. Ele é o arcanjo anunciador, por excelência, das revelações de Deus e é, talvez, aquele que esteve perto de Jesus na agonia entre as oliveiras. Segundo o profeta Daniel (9, 21), foi Gabriel quem anunciou o tempo da vinda do Messias.

No desenvolvimento dessa missão, ele apareceu a Zacarias “estando de pé à direita do altar do incenso (Lc 1, 10-19), para lhe dar a conhecer o futuro nascimento de João Batista, o profeta precursor do Cristo que une o Antigo e o Novo testamentos.

Finalmente, ele foi o embaixador que Deus enviou à Virgem Maria, em Nazaré, para proclamar o mistério da encarnação do Verbo. No episódio da anunciação, Gabriel foi o portador de um trecho de uma das orações mais populares e queridas do povo de Deus, a Ave Maria.

Gabriel é o padroeiro da diplomacia e dos trabalhadores dos correios, comumente associado a uma trombeta, indicando que é aquele que transmite a voz de Deus, o portador das boas notícias, o comunicador da plenitude dos tempos.

Rafael, cujo significado é “Deus te cura” ou “cura de Deus”, exerceu a missão de acompanhar o jovem Tobias, em sua viagem, como seu segurança e guia. Ele é considerado o chefe da ordem das virtudes e o guardião da saúde e da cura física e espiritual. É o padroeiro dos cegos, dos médicos, dos sacerdotes e, também, dos viajantes, dos soldados e dos escoteiros.

No Livro de Tobias são narrados a ajuda e o socorro que Rafael lhe prestou. Para cumprir sua missão, Rafael tomou a forma humana, fez-se chamar Azarias e acompanhou-o em sua viagem, ajudando-a em suas necessidades, guiando-o por todo o caminho e auxiliando-o a encontrar uma esposa, a jovem Sara.

Aproveitamos a celebração da Festa dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael para refletirmos sobre o ministério angélico na vida da Igreja e em nossas vidas.

Celebrar os três arcanjos que as Escrituras nos dão a conhecer é, na verdade, celebrar esta comunhão que Deus deseja para os seres humanos e o mundo espiritual. É também uma oportunidade de darmos graças a Deus pelo inestimável auxílio que os santos anjos nos prestam no cotidiano da fé.

Peçamos a São Miguel que nos ajude no bom combate em prol da fé e na luta contra o nosso defeito dominante, o mal, o egoísmo e o pecado. Peçamos a São Gabriel que nos traga sempre mais boas notícias, boas novas de salvação, infundindo em nossos corações a plena certeza de que Cristo está conosco nos caminhos da História, a fim de que não permaneçamos parados ou acomodados. Que ele também nos ajude a desempenhar as nossas atividades diárias com serenidade e proveito espiritual. Peçamos a São Rafael que nos conduza pela mão e nos auxilie no caminho da alegria do Evangelho para que não erremos a estrada e saibamos colaborar nos serviços da comunidade da Igreja.

São Miguel, Gabriel e Rafael são os poderosos ministros de Deus que têm a missão de nos defender na luta contra o mal e de nos ajudar na perseverança na fé e na santidade. Peçamos, hoje, amanhã e sempre, que estes ministros de Deus nos obtenham a graça de corresponder sempre mais, com generosidade e zelo, à vontade do Senhor em
nossas vidas.

Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, rogai por nós!

Publicado em Arquidiocese de Brasília (Autor: Aloísio Parreiras – escritor e membro do Movimento de Emaús).

****

Leia mais:

Oração aos Santos Arcanjos

Santos Arcanjos, socorrei-nos!

Ajudai-nos, ó grandes santos irmãos nossos, que sois servos, como nós, diante de Deus.
Defendei-nos de nós mesmos, da nossa covardia e tibieza, de nosso egoísmo e de nossa ambição, de nossa inveja e desconfiança, de nossa avidez em procurar a saciedade, a boa vida e a estima.

Desatai as algemas do pecado e do apego a tudo o que passa. Desvenda os nossos olhos que nós mesmos fechamos, para não precisarmos ver as necessidades de nosso próximo, e poder assim ocupar-nos de nós mesmos numa tranquila auto complacência.

Colocai em nosso coração o espinho da santa ansiedade de Deus, para que não deixemos de procurá-lo com ardor, contrição e amor.

Contemplai em nós o Sangue do Senhor, que Ele derramou por nossa causa.

Contemplai em nós as lágrimas de Vossa Rainha, que ela derramou sobre nós.

Contemplai em nós, a pobre, desbotada, arruinada imagem de Deus, comparando-a com a imagem íntegra que deveríamos ser por Sua vontade e Seu amor.

Ajudai-nos a conhecer a Deus, a adorá-Lo, a amá-Lo e a servi-Lo. Ajudai-nos no combate contra os poderes das trevas que traiçoeiramente nos envolvem e nos afligem.

Ajudai-nos para que nenhum de nós se perca e para que um dia estejamos todos jubilosamente reunidos na eterna bem-aventurança. Amém.

São Miguel, assisti-nos com vossos Santos Anjos, ajudai-nos e rogai por nós.
São Rafael, assisti-nos com vossos Santos Anjos, ajudai-nos e rogai por nós.
São Gabriel, assisti-nos com vossos Santos Anjos, ajudai-nos e rogai por nós.

Fonte: Aleteia.

‘O Castelo Interior’ de Santa Teresa de Jesus

Nova tradução em linguagem simples e
atualizada, sem perda do sentido original

“É desatino pensar que havemos de entrar no Céu sem primeiro entrar em nós mesmos. (…) Se não tivermos e não procurarmos a paz em nossa casa, não a encontraremos nas alheias.” (Santa Teresa de Jesus)


Com esta postagem, queremos indicar aos nossos leitores um lançamento de imenso valor para todos os fiéis católicos. Àqueles que nos pedem dicas de leitura, esta é uma daquelas obras que figura quase que obrigatoriamente em nossa lista de indicadas. Esgotado nas livrarias, acaba de ser relançado, em versão bem cuidada e com aprovação eclesiástica (Imprimatur por Dom José Antônio Peruzzo, arcebispo metropolitano de Curitiba), “O Castelo Interior” da grande Doutora mística da Igreja Santa Teresa de Jesus (ou d’Ávila), com tradução em linguagem simples e atualizada. (…)

Neste grande clássico da cristandade do século XVI, Santa Teresa de Jesus compara a alma humana a um grande, misterioso e maravilhoso castelo, dividido em diversas “moradas”, as quais precisam ser superadas para que a alma encontre, ao final, a bem-aventurança que não tem fim no seio do Criador amoroso. Assim, convida suas irmãs carmelitas a adentrarem nos castelos de suas almas, convite maravilhoso e empolgante, que pela vocação do Batismo se estende a cada um de nós.
O Castelo interior é bem diferente, mais esplêndido e desafiador que os castelos comuns, por mais encantadores que sejam. Para visitar algum destes últimos, é preciso muito dinheiro, atravessar longas distâncias indo até outros continentes (em nosso caso), além de dispender longo tempo para atravessar oceanos e terras. Já para adentrar o castelo de nossas almas, basta uma forte disposição. 
“Pelo que entendo, a porta para entrar neste castelo é a oração”, diz a santa em um trecho. Porém, ainda que seja simples entrar neste castelo, não é coisa simples ao ser humano abrir as suas portas e entrar em si mesmo. Com esta comparação, Santa Teresa descreveu de modo profundíssimo os sucessivos estágios que a alma percorre em sua jornada para Deus. Este livro transmite de modo extraordinário, a doutrina espiritual da [reformadora] do Carmelo, ao mesmo tempo em que reflete sua experiência pessoal. As sete moradas da vida interior, nas quais a obra se divide, são análogas às etapas de santidade que a alma humana precisa alcançar e superar sucessivamente, até chegar à perfeição. Uma obra atemporal, que foi sempre e continua sendo, por séculos a fio, até os nossos dias, uma inspiração para a perseverança na vida de fé, na busca da entrega a Deus e na santidade, a qual somos chamados. 
Arrisque-se na maior das aventuras da vida humana! Crie coragem e entre em seu Castelo interior!

Publicado em O Fiel Católico.

15 DE SETEMBRO: NOSSA SENHORA DAS DORES

SOLENIDADE

A Igreja Católica celebra neste dia 15 de setembro a festa de Nossa Senhora das Dores, que ensina a ser forte diante dos sofrimentos da vida e ter Maria e seu Filho como companheiros de caminho.

Entre as sete dores de Nossa Senhora se encontram: a profecia de Simeão no templo, a fuga para o Egito, os três dias que Jesus esteve perdido, o encontro com Jesus levando a Cruz, sua Morte no Calvário, a lança que atravessa o coração de Jesus e quando é colocado no sepulcro.

Apesar de tudo, Ela se manteve firme na oração e na confiança na vontade de Deus. Agora a Virgem quer nos ajudar a levar as nossas cruzes diárias porque foi no calvário onde Jesus Cristo nos deixou Maria como nossa mãe.

Por duas vezes no ano, a Igreja comemora as dores da Santíssima Virgem: na Semana da Paixão e também hoje, 15 de setembro.

A primeira destas comemorações é a mais antiga, posto que se instituiu em Colônia, na Alemanha, e em outras partes da Europa no século XV. Quando a festividade se estendeu por toda a Igreja, em 1727, com o nome das Sete Dores, manteve-se a referência original da Missa e do ofício da Crucificação do Senhor.

Na Idade Média, havia uma devoção popular pelos cinco gozos da Virgem Mãe, e pela mesma época se complementou essa devoção com outra festa em honra a suas cinco dores durante a Paixão. Mais adiante, as penas da Virgem Maria aumentaram para sete e não só compreenderam sua marcha para o Calvário, mas também sua vida inteira.

Aos frades Servitas – religiosos da Companhia de Maria Dolorosa –, que desde sua fundação tiveram particular devoção pelos sofrimentos de Maria, foi autorizado que celebrassem uma festividade em memória das Sete Dores, no terceiro domingo de setembro de todos os anos.

Santa Brígida da Suécia diz em suas revelações, aprovadas pela Igreja, que Nossa Senhora prometeu conceder sete graças a quem rezar, cada dia, sete Ave-Marias em honra de suas dores e lágrimas, meditando sobre elas.

As promessas são:

1- Porei a paz em suas famílias.

2- Serão iluminados sobre os divinos mistérios.

3- Consolá-los-ei em suas penas e acompanhá-los-ei em suas aflições.

4- Conceder-lhes-ei tudo o que me pedirem, contanto que não se oponha a adorável vontade de meu divino Filho e a santificação de suas almas.

5- Defendê-los-ei nos combates espirituais contra o inimigo infernal e protegê-los-ei em todos os instantes da vida.

6- Assistir-lhes-ei visivelmente no momento da morte e verão o rosto de Sua Mãe Santíssima.

7- Obtive de meu Filho, para os que propagarem esta devoção às minhas lágrimas e dores, sejam transladados desta vida terrena à felicidade eterna, diretamente, pois ser-lhes-ão apagados todos seus pecados e meu Filho e eu seremos sua eterna consolação e alegria.

Publicado em ACI Digital.

Imagem: ACI DIGITAL (Matéria de 15.09.2021).