CASTELO INTERIOR ou AS MORADAS de SANTA TERESA – Guia doutrinal – Ordem Carmelita Descalça (OCD – Portugal)

Apresento-lhes um precioso e oportuno guia doutrinal sobre o livro “Castelo Interior ou Moradas”, elaborado pela Comissão Preparatória da Ordem Carmelita Descalça (OCD), de Portugal, em vista das comemorações do V Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus, que teve início em março deste ano, com encerramento previsto para outubro, na cidade de Ávila, na Espanha, terra natal da Santa.
Considero importante ressaltar que após o detalhamento do contexto da escritura do Castelo Interior por Santa Teresa, nos é oferecida uma rica e sintética apresentação de cada uma das sete moradas do Castelo Interior. Este resumo traz a essência das características próprias da alma que empreende o itinerário da busca de uma união perfeita com Deus. Não podemos esquecer que, para Santa Teresa de Ávila, é através da oração – por excelência, a de quietude –  que é propiciada uma relação mais profunda  com Deus, que habita o centro do castelo.
Bom estudo a todos (as)!
A Paz de Cristo, Nosso Senhor!
Lúcia Barden Nunes.
…………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………..
AS MORADAS ou CASTELO INTERIOR
Guião doutrinal
Eis aqui o terceiro “guião de leitura” para nos acompanhar na leitura anual de Santa Teresa que, de acordo com o programado, este ano vai centrar-se no Livro d’As Moradas ou Castelo Interior.
Diferentemente de outros anos, desta vez, desta vez só enviamos um guião, o doutrinal. Tomámos esta decisão tendo em vista que muitas comunidades usam para a leitura comum e para a pastoral, as fichas que se publicam na página Web do Centenário, e pareceu-nos melhor concentrar o trabalho nelas e não oferecer outro guião que possa ser de menor utilidade.

As comunidades que não disponham de internet ou que não possam aceder a ela frequentemente, podem solicitar aos Superiores Maiores que lhes enviem ditas fichas, ou então pôr-se em contacto com a Comissão do Centenário através da página Web, para que lhas enviemos a uma direcção de correio electrónico (não nos é possível fazê-lo por correio postal).
Empreendamos, pois, juntos, esta viagem apaixonante rumo ao castelo de diamante ou mui claro cristal…

Comissão preparatória OCD do Vº Centenário do Nascimento de Santa Teresa
O CASTELO INTERIOR ou AS MORADAS de SANTA TERESA.

Mandato de escrever

O livro d’As Moradas ou Castelo Interior de Santa Teresa é habitualmente considerado como a sua melhor obra. Mais do que história, este livro contém biografia, ou melhor, autobiografia. Em diálogo com Graciano, falando do livro da Vida, disse-lhe ele: “Faça memória do que se lembrar e de outras coisas, e escreva outro livro, e diga a doutrina em geral, sem nomear a quem aconteceu tudo aquilo que nele disser”.

Este “outro livro” foi o Castelo Interior. A própria autora, contente com a sua obra, dá a preferência a este – as Moradas, sobre o outro – a Vida. E, usando termos de ourivesaria, embora para ela o livro da Vida seja uma jóia, o Castelo Interior é mais precioso e com mais delicados esmaltes e lavores, ou dito de outra maneira por ela própria: “ A meu parecer, avantaja-se-lhe o que escrevi depois, embora frei Domingos Báñez diz que não está bom; pelo menos tinha mais experiência do que quando o escrevi”.

O mandato de escrever As Moradas veio-lhe de três lados: do padre Graciano, do doutor Velázquez e do “vidreiro” Maior: Cristo Jesus que, por outra parte, era o seu “livro vivo”.

As condições de saúde que a Madre atravessava eram muito penosas, “com ruído e fraqueza tão grande de (cabeça) que mesmo os negócios forçosos escrevo com pena”. A situação da Ordem era de grande risco e a própria Teresa encontrava-se confinada em Toledo, a modo de cárcere. Mas a fortaleza desta mulher dá-lhe o equilíbrio necessário para poder escrever amplamente. E a que levou acabo tantas fundações sem saúde e no meio de tantas contradições, vai agora construir este seu castelo com a mesma força de vontade.

Tempo de escritura, autógrafo, destinatárias

A hora da primeira pedra e da última é ela própria quem no-la revela: “E assim começo a cumpri-la hoje, dia da Santíssima Trindade, ano de 1577, neste mosteiro de S. José do Carmo em Toledo, onde estou presentemente” Isto no prólogo. E, na conclusão do livro: “Acabou-se isto de escrever no mosteiro de São José de Ávila, no ano de 1577, véspera de Santo André, para glória de Deus, que vive e reina para sempre sem fim, amen” (7M, conclusão 5).

Um total de seis meses menos dois dias, desde que começou a escrever até que lhe pôs ponto final. Fala-nos, pelo menos duas vezes, da interrupção da escrita, “porque os negócios e a saúde me fazem deixá-lo na melhor altura” (4M 2,1). E noutro lugar dirá: “já passaram quase cinco meses desde que comecei até agora; e, como a cabeça não está para o tornar a ler, tudo deve ir desconcertado, e talvez diga algumas coisas duas vezes” (5M 4,1). Volta ao mesmo manuscrito e termina a obra a 29 de Novembro.

E, concluído o livro, dá “por bem empregado o trabalho, embora confesso que foi bem pouco”. O autógrafo das moradas encontra-se no mosteiro das carmelitas descalças de Sevilha desde Outubro de 1618. Em 1622, foi levado em procissão pelas ruas de Sevilha por ocasião dos festejos pela canonização da autora. E a última e mais prolongada saída do manuscrito até Roma teve lugar em 1961, onde foi devidamente restaurado pelo “Istituto Ristauro Scientifico del libro” do Vaticano e o “Istituto di Patologia del libro” de Itália. Voltou a Sevilha em 1962 e ali se conserva no convento das Descalças, num indescritível estojo relicário: as muralhas de Ávila convertidas em castelo para abrigar e custodiar o autógrafo do Castelo Interior. Esta obra deve-se à ideia e solicitude do então Geral da Ordem, Padre Anastácio Ballestrero.

As primeiras destinatárias são as suas monjas, como diz nesta espécie de dedicatória: “JHS. Este tratado, chamado Castelo Interior, escreveu Teresa de Jesus, monja de nossa Senhora do Carmo, para as suas irmãs e filhas, as monjas carmelitas descalças”.
Destinatário da obra é também todo o fiel cristão, candidato à santidade desde o seu baptismo e por ele.

Visita ao Castelo.

É a própria autora a que nos vai guiando a partir de uma das suas primeiras confissões. Está com a pena na mão pensando como poderá começar a escrever, e “ofereceu-se-me o que agora direi para começar com algum fundamento. É considerar a nossa alma como um castelo todo ele de um diamante ou mui claro cristal, onde há muitos aposentos, assim como no Céu há muitas moradas (Jo 14,2). Que, se bem o considerarmos, irmãs, não é outra coisa a alma do justo, senão um paraíso onde Ele disse ter Suas delícias” (Prov 8, 31) ” (1M 1,1).

Já, desde aqui, sem nenhuma complicação, compreendemos qual, ou melhor, quem é para ela o castelo interior: a pessoa humana, e vemos como se vai deixando iluminar, por esse par de textos bíblicos, de João e Provérbios.

Para organizar a leitura ou estudo de obra tão importante como esta, para assaltar este Castelo (passe a expressão), publicaram-se já há alguns anos, “um grande trabalho em que se analisam com lupa os núcleos básicos do simbolismo teresiano, os eixos temáticos de cada uma das moradas, o itinerário léxico da interiorização, o caminho para a construção simbólica da própria interiorização” (Monserrat Izquierdo Sorli).

Este tipo de estudo e de leitura não resulta fácil à maioria dos leitores em cujas mãos cai o livro d’ As Moradas. Mais ao alcance da mão estão uns esquemas muito simples, mas muito compreensíveis. Nesta elaboração entram elementos doutrinais básicos, em que se interrelacionam necessariamente os dois protagonistas: Deus e o homem. Deus que vive e actua e Se comunica dentro. O homem (a alma) como cenário e protagonista da aventura espiritual. E a oração, que é a ponte de comunicação entre Deus e a alma. Daqui brota a ideia, o conceito de “moradas”.

Teresa divide a obra do Castelo em sete moradas, mas adverte: “não considerem poucos aposentos, senão um milhão deles” (2M 2,12), e mais claramente: “Embora não se trate senão de sete moradas, em cada uma destas há muitas: por baixo, por cima. Dos lados” (7M conclusão 3).

Prescindindo da compreensão do Castelo em que se encontram e se veem e se podem visitar e percorrer os diferentes aposentos, estâncias, salas, moradas, devemos ter sempre presente que a alma é a que tem em si mesma as diversas ou diferentes moradas, as leva consigo e é considerada como repartida em sete moradas, sem prejuízo de que essas sete se convertam em setenta vezes sete, quer dizer, em inumeráveis.

Em Fundações 14, 5, encontra-se uma frase que ilumina bem este facto: “Quanto menos tivermos na terra, mais gozaremos naquela eternidade onde as moradas são conforme ao amor com que imitámos a vida do nosso bom Jesus”. Esse mais além tem-no ela bem presente no momento em que começa a escrever: “Onde há muitos aposentos, assim como no Céu há muitas moradas” (1M 1,1). Ouve-se, aqui, o eco da passagem evangélica, embora sem mencioná-la: “Na Casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2)

O percurso do Castelo torna-se mais fácil e prazenteiro da mão da autora. Lido devagar o prólogo, o leitor deixe-se levar pelos títulos dos 27 capítulos que compõem o livro. A Santa tem uma habilidade especial para sintetizar nesses epígrafes o que quer dizer. Além disso, como parece certo que os títulos estão escritos depois de redigido o texto, resulta dupla a habilidade sintetizadora e esclarecedora da autora.

Terminada a leitura dos 27 títulos, leia-se com atenção a Conclusão, particularmente os nn. 2 e 3, onde a Madre lança, uma vez mais, critérios de vida e de leitura, que foi semeando ao longo do livro.

Outro método bastante simples para ir fixando na mente a doutrina do Castelo interior consiste em atender à substância bíblica incluída em textos, tipos, personagens, motivos bíblicos.

Como exemplo, pode ver-se, nas Segundas Moradas, onde se encontram: 1. Textos: “Quem anda no perigo, nele perece” (Si 3,26); “ não sabemos o que pedimos” (Mt 20,22); “sem a sua ajuda nada podemos fazer” (Jo 15,5); “a paz esteja convosco” (Jo 2,19.21). 2. Tipos bíblicos: O filho pródigo, perdido e comendo manjar de porcos (Lc 15,16); e os soldados de Gedeão quando iam para a batalha (Jz 7, 5-7. 16,22). 3. Textos e também motivos: “Ninguém subirá ao Pai senão por Mm” (Jo 14, 6); “quem Me vê a Mim, vê Meu Pai” (Jo 14,19).

O fio condutor é bem fácil de seguir e muito útil ao longo de todas as moradas. Não podemos esquecer tampouco uma coisa tão frequente na Santa escritora: o mundo dos símiles, exemplos ou comparações, que, na sua pedagogia, a assemelham tanto ao divino Mestre. Um dos exemplos generalizados é a comparação do castelo: 1M 1,3. Este símile não é exclusivo (nem no seu espírito nem na sua pena) d’As Moradas: também o usou no Caminho (CV 28,9-12; CE 48, 1-4); no Caminho, não usa a palavra ”castelo”, mas “palácio”; no entanto, a substância é a mesma. Outro exemplo de comparação- e acaso a melhor – é a do bicho-da-seda: 5M 2, 1-10.

O tema, ou melhor, a realidade da oração, está presente em todo o Castelo como fio condutor. A presença da oração já a deixa bem claramente proposta em 1M 1,7: “Tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar neste castelo é a oração e reflexão, não digo mais mental que vocal; logo que seja oração, há-de ser com consideração; porque naquela em que não se adverte com Quem se fala e o que se pede e quem é pede e a Quem, não lhe chamo eu oração, embora muito meneie os lábios”.

Não podemos perder de vista esta afirmação, contando com a evolução que se vai seguindo: oração rudimentar, como primeiros ensaios; meditação, um simples olhar, estar na presença de Deus; recolhimento infuso, quietude, gostos; oração de união. Deus no fundo da alma; formas extáticas, visões, locuções, êxtases, ferida de amor; ânsias de eternidade; contemplação perfeita. Da conjunção de todos estes elementos que vamos assinalando, bem saboreados, irá surgindo no leitor, além do gosto mental, a compreensão da doutrina teresiana.

Alguém, desde a França, escreveu há tempos, embora não a propósito da doutrina teresiana: “A oração é o primeiro de tudo. Não é o essencial: o essencial é a caridade, que resume em si mesma a perfeição, Deus mesmo. Mas a oração é o primeiro”. Por isso, escreveu José Vicente Rodríguez com toda a razão: “Partindo da realidade da graça e do amor, que fazem que a alma seja agradável a Deus, que seja o paraíso onde Ele Se deleita (1M 1,1), as moradas vão-se convertendo na base do amor, virão a ser os diferentes graus de amor da alma, visto que ”o aproveitamento da alma não está em pensar muito, mas em amar muito” (F 5,2), e também “para subir às moradas que desejamos, não está a coisa em pensar muito, mas em amar muito” (4M 1,7). Este amor não é exclusivo mas inclusivo de outras actividades, outros exercícios, e assim resulta que a alma estabelecida em amor empregar-se-á, por exemplo, no conhecimento próprio e no exercício da humildade: as primeiras moradas (1M 2, 8-9). Dar-se-á também diversificação segundo as diferentes mercês recebidas de Deus (1M 1,3). Isto vê-se bem claro na leitura seguida da obra teresiana, sendo a oração de quietude algo típico e fundante, por exemplo, das Moradas Quartas; das Moradas Quintas a oração de união; das Sextas o desposório espiritual e das Sétimas o matrimónio espiritual”.

Para compreendermos plenamente como leva a Santa toda a sua carga doutrinal, aconselhamos a ler com toda a atenção o último capítulo de todo o livro: (7M c. 4). Aqui, dá a impressão de que a Madre quer aterrar nos fundamentos mais sólidos da vida cristã: o amor fraterno e a configuração com Cristo. O Castelo interior é, sem dúvida, um esplêndido manual de santidade.

Como ajudas e pontos de referência no percurso do Castelo, também resulta útil imprimir na memória alguns pontos nos quais a Madre condensa a doutrina que vai estendendo os seus tentáculos ao longo de todo o livro. Bastarão alguns exemplos: Grandeza, dignidade, capacidade, formosura da alma humana: 1M 1, Presença total, natural e sobrenatural de Deus na alma: 5M 1,10. Consciência teresiana da diversidade de almas:1M 1,3; 5M 3,4. Fabricar cada um a sua morada em Deus: 5M 2, título e corpo do capítulo. Ser deveras espirituais: 7M 4,8. Não ficarem anões: 7M 4,9. Ser plenamente realistas: 7M 4, 14. Não pôr medida às obras de Deus: 6M 4,12.

E, como capítulo imprescindível sobre Cristo Jesus, deve ler-se 6M 7, cujo título reza assim: “Diz quão grande erro é não se exercitar, por espiritual que seja, em trazer presente a humanidade de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, e sua sacratíssima Paixão e vida, e a Sua gloriosa Mãe e os santos. É de muito proveito”. Trata-se de um capítulo paralelo a Vida 22.

Concluindo

Em 6M 10,3, a Santa surpreende-nos com a identidade e, ao mesmo tempo, com a diversidade que assinala nesta passagem: “Façamos agora de conta que Deus é como uma morada ou palácio muito grande e formoso, e que este palácio, como digo, é o mesmo Deus”. Partindo destas palavras, chega-se imediatamente àquilo de “sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito” (Mt 5,48). Aqui, diríamos: sede castelos formosos como o vosso Pai Celestial o é.

O famoso Catecismo holandês apresenta assim aos crentes de hoje esta obra teresiana: “Santa Teresa escreveu um livro em que a alma está representada por um Castelo com sete moradas. Morada após morada, chega-se à sétima onde habita Deus, quer dizer, Cristo. A sua presença percebe-se em todo o Castelo, mas ao chegar a alma ao centro, imersa na própria realidade, sente-se toda invadida pelo sereno sentimento de que Deus está nela. A alma vive dentro da realidade terrena, que se apresenta magnífica aos seus olhos, pois compreende que Deus é o coração inefável de toda a realidade”.

Na Positio para o Doutoramento da Santa, encontra-se, como peça principal, o Relatório do advogado da causa. Para defender a altura da eminente doutrina da santa doutoranda, oferece da seguinte maneira uma espécie de resumo d’As Moradas. Esta “é a principal obra teresiana e mesmo – segundo alguns – de toda a mística cristã […]. O livro divide-se em sete partes ou moradas, das quais cada uma tem vários capítulos, exceto as segundas moradas, que tem um único capítulo.

As Primeiras Moradas (2 capítulos) são as almas que têm desejos de perfeição, mas ainda estão metidas nas preocupações do mundo, das quais devem fugir e procurar a solidão.

As Segundas Moradas (1 capítulo) são as almas com grande determinação de viver em graça e que se entregam, portanto, à oração e a alguma mortificação, embora com muitas tentações por não deixarem de todo o mundo.

As Terceiras Moradas (2 capítulos) são para as almas que exercitam a virtude e a oração, mas pondo nisso um amor dissimulado a si mesmas. Precisam de humildade e obediência.
As Quartas Moradas (3 capítulos) são já o começo das coisas “sobrenaturais”: a oração de quietude e um início da união. Os frutos não são ainda estáveis: por isso, as almas devem fugir do mundo e das ocasiões.
As Quintas Moradas (4 capítulos) são já de plena vida mística, com a oração de união que é sobrenatural e dá-a Deus quando quer e como quer, embora a alma se possa preparar. Os sinais verdadeiros desta união é que seja total, que não falte a certeza da presença de Deus e que sucedam tribulações e dores em que provar o amor a Deus. Necessita-se grande fidelidade.
As Sextas Moradas (11 capítulos). Consegue-se uma grande purificação interior da alma, e, entre as graças que nela se dão, totalmente sobrenaturais, estão as locuções, êxtases, etc., grande zelo pela salvação das almas, que leva a deixar a sua solidão. É necessária a contemplação da humanidade de Cristo para chegar aos últimos graus da vida mística.
As Sétimas Moradas (4 capítulos) são o cume da vida espiritual, em que se recebe a graça do matrimônio espiritual e uma íntima comunicação com a Trindade, do que brota espontaneamente uma grande paz em que vive a alma, sendo ao mesmo temo ativa e contemplativa. Uma contemplação que não é subjetiva, mas que transcende o homem levando-o a esquecer-se de si e a entregar-se a Cristo e à Igreja”.

Esta espécie de resumo autorizado é como uma apresentação do Castelo no seu conjunto; e vem a ser, ao mesmo tempo, como um convite a ir verificando toda essa estrutura, não de maneira mental ou intelectual, mas vivencialmente, isto é, desde a práxis e experiência cristã, e tudo isso pela mão de Teresa de Jesus, a Doutora da Igreja Universal.

Publicado originalmente em teresadejesus.carmelitas.pt (Arquivo em PDF)

Sexta Feira Santa: “Jesus derrotou a violência sem opor a ela uma violência maior ainda – ‘Victor quia victima’ – ‘vencedor porque vítima’.” – Homilia do Frei Cantalamessa (Rádio do Vaticano)

Sexta-feira Santa: homilia do Frei Cantalamessa

Cidade do Vaticano (RV) – Segue, na íntegra, a homilia do Pregador da Casa Pontifícia, Frei Raniero Cantalamessa, proferida nesta Sexta-feira Santa, na Basílica de São Pedro.”Eis o homem!”Acabamos de ouvir o relato do julgamento de Jesus perante Pilatos. Há nele um momento que nos pede uma atenção especial.

“Pilatos mandou então flagelar Jesus. Os soldados teceram de espinhos uma coroa, puseram-na sobre a sua cabeça e o cobriram com um manto de púrpura. Aproximavam-se dele e diziam: Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas. Pilatos saiu outra vez e disse-lhes: Eis que vo-lo trago fora, para que saibais que não acho nele nenhum motivo de acusação. Apareceu então Jesus, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse: Ecce homo! Eis o homem!” (Jo 19,1-5).

Entre as muitas pinturas que retratam o Ecce Homo, há uma que sempre me impressionou. É de Jan Mostaert, pintor flamengo do século XVI, e está na National Gallery de Londres. Tentarei descrevê-la. Ela nos ajudará a imprimir melhor na mente o episódio, já que o pintor transcreve fielmente, em cores, os dados do relato evangélico, especialmente do relato de Marcos (Mc 15,16-20).

Jesus tem na cabeça uma coroa de espinhos. Um feixe de arbustos espinhosos que estava no pátio, talvez para fazer fogo, deu aos soldados a ideia dessa cruel zombaria da sua realeza. Da cabeça de Jesus descem gotas de sangue. Sua boca está semiaberta, como que lutando para respirar. Sobre os ombros, sulcados pelos golpes recentes da flagelação, um manto pesado e desgastado, mais próximo da lata que da estopa. Ele tem os pulsos amarrados por uma corda grosseira; em uma das mãos, eles colocaram um pedaço de pau a fazer as vezes de cetro e, na outra, um feixe de varetas, símbolos que ridicularizavam a sua majestade. Jesus não pode mover sequer um dedo; é o homem reduzido à total impotência, o protótipo de todos os algemados da história.

Meditando sobre a Paixão, o filósofo Blaise Pascal escreveu certa vez estas palavras: “Cristo está em agonia até o fim do mundo: não podemos dormir durante este tempo”. Há um sentido em que estas palavras se aplicam à pessoa de Jesus mesmo, ou seja, à cabeça do corpo místico e não apenas aos membros. Não apesar de Ele ter ressuscitado e estar vivo, mas justamente porque Ele ressuscitou e está vivo. Deixemos de lado, no entanto, este significado misterioso demais para nós e falemos do sentido mais claro daquelas palavras. Jesus está em agonia até o fim do mundo em cada homem ou mulher submetidos aos mesmos tormentos. “Vós o fizestes a mim” (Mt 25, 40): Ele não disse esta frase apenas sobre quem acredita nele; ele a disse sobre cada homem e cada mulher famintos, nus, maltratados, presos.

Ao menos por uma vez, não pensemos nos males sociais, coletivos: a fome, a pobreza, a injustiça, a exploração dos fracos. Desses males já se fala muitas vezes, embora nunca o suficiente, e há o risco de se tornarem abstrações. Categorias, não pessoas. Pensemos agora no sofrimento dos indivíduos, das pessoas com nome e identidade concreta; nas torturas decididas a sangue frio e infligidas voluntariamente, neste exato momento, por seres humanos contra outros seres humanos, inclusive crianças.

Quantos “Ecce homo” no mundo! Meu Deus, quantos “Ecce homo”! Quantos prisioneiros na mesma condição de Jesus no pretório de Pilatos: sozinhos, algemados, torturados, à mercê de soldados ásperos e cheios de ódio, que se entregam a todo tipo de crueldade física e psicológica, divertindo-se em ver sofrer. “Não podemos dormir, não podemos deixá-los sós!”.

A exclamação “Ecce homo!” não se aplica somente às vítimas, mas também aos carnífices. Ela quer dizer: eis aqui do que o homem é capaz! Com temor e tremor, digamos ainda: eis do que somos capazes nós, homens! Muito distante da marcha inexorável do Homo sapiens sapiens, o homem que, segundo alguns, nasceria da morte de Deus e tomaria o seu lugar.

Os cristãos não são, certamente, as únicas vítimas da violência homicida que há no mundo, mas não se pode ignorar que, em muitos países, eles são as vítimas marcadas e mais frequentes. Jesus disse um dia aos seus discípulos: “Chegará uma hora em que aqueles que vos matarem julgarão estar honrando a Deus” (Jo 16, 2). Talvez estas palavras nunca tenham achado na história um cumprimento tão pontual quanto hoje.

Um bispo do século III, Dionísio de Alexandria, nos deixou o testemunho de uma Páscoa celebrada pelos cristãos durante a feroz perseguição do imperador romano Décio: “Eles nos exilaram e, sozinhos entre todos, fomos perseguidos e lançados à morte. Mas, ainda assim, celebramos a Páscoa. Todo lugar em que se sofria tornou-se para nós um lugar de celebração da festa: fosse um acampamento, um deserto, um navio, uma pousada, uma prisão. Os mártires perfeitos celebraram a mais esplêndida das festas pascais ao ser admitidos no banquete celeste”. Será assim para muitos cristãos também na Páscoa deste ano, 2015 depois de Cristo.

Houve alguém que teve a coragem de denunciar, como leigo, a indiferença perturbadora das instituições mundiais e da opinião pública em face de tudo isto, lembrando a quais consequências essa indiferença já levou no passado. Corremos todos o risco, tanto instituições quanto pessoas do mundo ocidental, de ser Pilatos que lavam as mãos.

A nós, no entanto, não é permitido fazer qualquer denúncia neste dia. Trairíamos o mistério que estamos celebrando. Jesus morreu gritando: “Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Esta oração não é simplesmente murmurada; é gritada para ser bem ouvida. Na verdade, não é sequer uma oração, mas uma exigência imperativa, feita com a autoridade de quem é Filho: “Pai, perdoa-os!”. E como Ele mesmo disse que o Pai escuta todas as suas orações (Jo 11,42), devemos acreditar que Ele ouviu também esta última feita na cruz, e que, portanto, aqueles que crucificaram o Cristo foram perdoados por Deus (é claro que não sem antes se arrependerem de alguma forma) e estão com Ele no paraíso, testemunhando para toda a eternidade o ponto até o qual pode chegar o amor de Deus.

Essa ignorância, como tal, estava só nos soldados. Mas a oração de Jesus não se limita a eles. A grandeza divina do seu perdão consiste no fato de que o perdão também é oferecido aos seus inimigos mais ferozes. É para eles que Jesus alega a desculpa da ignorância. Mesmo que eles tenham agido com astúcia e malícia, eles realmente não sabiam o que faziam, não pensavam que estavam crucificando um homem que era de fato o Messias e Filho de Deus! Em vez de acusar os seus adversários, ou de os perdoar confiando ao Pai Celestial o cuidado de vingá-lo, Ele os defende.

Seu exemplo sugere aos discípulos uma generosidade infinita. Perdoar com a sua mesma grandeza de alma não pode envolver simplesmente uma atitude negativa, de renunciar a querer o mal para quem faz o mal; deve traduzir-se, em vez disso, em uma vontade positiva de lhes fazer o bem, mesmo que apenas com uma oração dirigida a Deus em seu favor. “Orai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5, 44). Esse perdão não deve procurar compensação nem sequer na esperança de um castigo divino. Deve ser inspirado por uma caridade que desculpa o próximo, mesmo sem fechar os olhos para a verdade, e que tenta parar os maus para que eles não façam mais mal aos outros nem a si mesmos.

Quereríamos dizer: “Senhor, o que nos pedes é impossível!”, mas Ele nos responderia: “Eu sei. E morri para vos dar o que vos peço. Não vos dei apenas o mandado de perdoar, nem apenas um exemplo heroico de perdão; com a minha morte, eu vos dei a graça que vos torna capazes de perdoar. Eu não deixei ao mundo apenas um ensinamento sobre a misericórdia, como tantos outros também deixaram. Eu sou Deus e, para vós, fiz brotarem da minha morte rios de misericórdia. Deles podeis beber a mãos cheias no Ano Jubilar da Misericórdia que tendes pela frente”.

Então, indagará alguém, seguir a Cristo é sempre um resignar-se passivamente à derrota e à morte? Pelo contrário! “Tende coragem”, disse Ele aos apóstolos antes da Paixão: “Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Cristo venceu o mundo vencendo o mal do mundo. A vitória definitiva do bem sobre o mal, que se manifestará no fim dos tempos, já aconteceu, de fato e de direito, na cruz de Cristo. “Esta é hora do juízo deste mundo” (Jo 12, 31). Desde aquele dia, o mal é o perdedor: tanto mais perdedor quanto mais parece triunfar. O mundo já foi julgado e condenado em última instância, com sentença inapelável.

Jesus derrotou a violência sem opor a ela uma violência maior ainda, e sim sofrendo-a e revelando toda a sua injustiça e inutilidade. Ele inaugurou um novo tipo de vitória, que Santo Agostinho resumiu em três palavras: “Victor quia victima” – “vencedor porque vítima”. Foi ao “vê-lo morrer assim” que o centurião romano exclamou: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!” (Mc 15, 39). Os outros se perguntavam o que significava o alto brado que Jesus tinha dado ao morrer (Mc 15, 37). O centurião, que era experiente em lutas e lutadores, reconheceu de imediato que aquele era um grito de vitória.

O problema da violência nos persegue, nos choca, inventando formas novas e espantosas de crueldade e de barbárie. Nós, cristãos, reagimos horrorizados à ideia de que se possa matar em nome de Deus. Alguém poderia objetar: mas a Bíblia também não está cheia de histórias de violência? Deus mesmo não é chamado de “Senhor dos Exércitos”? Não é atribuída a Ele a ordem de exterminar cidades inteiras? Não é Ele quem decreta, na Lei mosaica, numerosos casos de pena de morte?

Se tivessem dirigido a Jesus, durante a sua vida, esta mesma objeção, Ele certamente teria respondido o que respondeu sobre o divórcio: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim” (Mt 19,8). Também sobre a violência, “no princípio não foi assim”. O primeiro capítulo do Gênesis mostra um mundo onde a violência não é sequer pensável, nem dos seres humanos entre si, nem entre homens e animais. Nem sequer para vingar a morte de Abel, e assim punir um assassino, é lícito matar (cf. Gn 4, 15).

Publicado em  Vatican Radio.

Às voltas com Deus: 5.º Centenário do Nascimento de S. Teresa de Jesus (PARA VÓS NASCI – Carmelitas – Portugal)

Às voltas com Deus: 5.º Centenário do Nascimento de S. Teresa de Jesus

santa_teresa_02

 O centenário do nascimento de S. Teresa de Jesus deveria reconduzir-nos a nós próprios, ao nosso interior, onde reside a nossa verdade e a verdade das relações com os outros. Quanto mais densa vida interior na oração, mais real será a entrega às causas humanas. A experiência do Espírito remete sempre para o amor concreto. E a espiritualização autêntica redunda sempre em humanização.

A Ordem dos Padres e Madres Carmelitas Descalços, do Carmelo Secular e da vasta família teresiana está, desde o dia 15 de outubro de 2014 até ao 15 de outubro de 2015, a celebrar o 5.º centenário do nascimento da sua fundadora, S. Teresa de Jesus, nascida em Ávila a 28 de março de 1515.

É uma oportunidade única para ela falar aos nossos contemporâneos com o poder da sua experiência de Deus e com a paixão do seu amor à Igreja. Teresa não tinha elevada formação intelectual. A sua especialidade é o vivido. O que será a narrativa fundadora de um novo estilo de vida espiritual e religiosa está constituído pela «história da sua alma» no autobiográfico “Livro da Vida”, pelas lições de vida fraterna no “Caminho de Perfeição” e pela comunicação da sua experiência de Deus no livro “Moradas” ou “Castelo Interior”. É esta a grande trilogia da sua obra escrita. Dessa narrativa emergem, depois de resistências, a rendição ao amor de Deus, a descoberta n’Ele da própria verdade de mulher e de filha da Igreja.

A sua não é uma espiritualidade de virtudes heroicas, de integridade moral, de empolgantes ações sociais. Ela é mestra na experiência de Deus, partilhada com os leitores, convidados a darem sentido à vida. Foi providencial que os confessores e teólogos a quem ela se abria a tivessem mandado escrever sob obediência. De não ter sido assim, teríamos perdido uma das mais estimulantes propostas de relações humanas e de relação com a transcendência.

Num mundo cada vez mais focado em ambições de poder e em omnipotências de ter e de prazer – que, ao fim e ao cabo, nos deixam talvez de coração vazio mas certamente reduzidos às imprevisíveis irrupções e aos inevitáveis embates da radical fragilidade humana –, o alerta de Teresa soa assim: não estamos ocos; somos habitados por Aquele que quer dar sentido último à nossa existência.

O ser humano de hoje tem dificuldade em encontrar Deus, talvez porque tem dificuldade em encontrar-se a si mesmo. Anda perdido ou distraído com o barulho mediático e informático à sua volta. Um pouco por isso, Deus tornou-se «um estranho em nossa casa» – como diz o monge beneditino Lluís Duch. Ora, S. Teresa propõe que entremos na zona mais nobre da nossa intimidade para aí reconhecermos o Deus que está à nossa espera. Enquanto Ele for «um estranho na nossa morada» ou nela for considerado uma presença irrelevante, estamos a ignorar algo determinante na vida: desperdiçamos a intimidade da morada de Deus em nós. Para S. Teresa, o ser humano é no seu interior “outro céu, onde só Sua Majestade mora” (“7Moradas” 1,3). É um ser «capaz de Deus», capaz de amar como Deus o ama: quando orienta a sua vida para Deus, seguindo o Jesus do evangelho, é mais fiel à sua verdade de humano, precisamente porque Teresa vê Jesus como o rosto de Deus e «a Verdade» dos humanos.

Na sua mensagem a toda a Ordem, o Padre Geral dos Carmelitas Descalços proclama que a atualidade deste 5º centenário é recordar à Igreja e à sociedade que o centro do ser humano é Deus e que o centro de Deus é o ser humano. Costuma-se ver S. Teresa como a grande «mística». E é, se entendermos a “mística” em sentido forte. Ela abriu-se totalmente a Deus, deixando que Deus fosse tudo nela e vivendo em contínua comunhão com o mistério. Mas a sua mística não era para poucos eleitos. Simplesmente repropõe aos leitores a alegria, a frescura e o poder humanizante do evangelho.

Como o P. Geral da Ordem continua a meditar, Teresa partilhou com os perdidos num mundo distraído o que ela, tão atenta, encontrou: um caminho e uma morada, precisamente os títulos de seus dois grandes livros. São as duas perspetivas fundamentais que qualquer vida precisa de ter para singrar orientada e com um objetivo que lhe dê felicidade autêntica. Ela percebeu que o que orienta e ilumina o “caminho” é o ardente desejo de habitar a rica e esplêndida “morada” definitiva. Percebeu o evangelho. Viu-se a si própria como morada do amor de Deus: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o “amará” e viremos a ele e estabeleceremos “morada” nele». Mas também viu Deus como morada para ela: Na casa de meu Pai há muitas moradas» (João 14,2.23).

O facto de a Faculdade de Teologia da Universidade Católica promover várias atividades, entre as quais um curso “e-learning” sobre S. Teresa de Ávila, está a indicar que a mais preciosa herança e o melhor presente do seu 500.º aniversário são os seus escritos, para encontrarmos na “Vida” de hoje o nosso “Caminho de Perfeição” e a “Morada” do nosso “Castelo Interior”, que é o reino do amor: amor de Deus para connosco, fonte de amor para com os outros.

O centenário do nascimento de S. Teresa de Jesus deveria reconduzir-nos a nós próprios, ao nosso interior, onde reside a nossa verdade e a verdade das relações com os outros. Quanto mais densa vida interior na oração, mais real será a entrega às causas humanas. A experiência do Espírito remete sempre para o amor concreto. E a espiritualização autêntica redunda sempre em humanização. “E quando as obras ativas saem desta raiz que é o interior, são admiráveis e muito cheirosas flores. Procedem desta árvore do amor de Deus; e só por ele, sem nenhum interesse próprio, espalha-se o odor destas flores para proveito de muitos; e é perfume que dura” (Teresa de Jesus, “Conceitos do amor de Deus”, 7,3).

Armindo dos Santos Vaz

Sacerdote carmelita teresiano (Ordem dos Padres Descalços) e doutor em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, é professor associado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa).

Publicado em PARA VÓS NASCIV Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus (Ordem dos Padres Carmelitas Descalços em Portugal). Extraído originalmente de SNPC – Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, Portugal.

“Vivamos o grande retiro da Quaresma, tempo do deserto e do combate espiritual, com abertura para estes valores que nos aproximam de Deus pelo próximo.” – Artigo – Cardeal Orani João Tempesta Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ) – (CNBB)

Quaresma: Tempo de Luta Espiritual

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Exorto-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e agradável a Deus: este é o vosso culto espiritual. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12, 1s).

 A Quaresma tem um sentido eminentemente pascal: é um tempo de caminho de conversão a Cristo, período de cristificação. “Morremos com o Cristo; trazemos em nosso corpo a morte de Cristo, para que também a vida de Cristo se manifeste em nós”. “Já não vivemos, portanto, nossa própria vida, mas a vida de Cristo, vida de inocência, vida de castidade, vida de sinceridade e de todas as virtudes”. “Ressuscitamos com o Cristo; vivamos, pois, com ele, subamos com ele, a fim de que a serpente não possa encontrar na terra nosso calcanhar”. (Santo Ambrósio, Tratado sobre a Fuga do Mundo).

Esta cristificação é ação do Espírito Santo: o homem não pode atingir tal escopo sem a graça do Santo Espírito, único que pode testemunhar Jesus em nós e conformar-nos a Cristo. Por isso mesmo, a busca da cristificação é um combate espiritual: combate porque é luta contra as tendências desencontradas do homem velho, que ainda persistem em nós; espiritual porque é combate na força do Espírito do Cristo: “Por ele, os corações são elevados ao alto, os fracos são conduzidos pela mão, os que progridem na virtude chegam à perfeição. Ele ilumina os que foram purificados de toda a mancha e torna-os espirituais pela comunhão consigo. Dele nos vem a alegria sem fim, a união constante e a semelhança com Deus; dele procede, enfim, o bem mais sublime que se pode desejar: o homem é divinizado” (São Basílio Magno, Tratado sobre o Espírito Santo).

A Quaresma é, pois, tempo do combate espiritual, tempo de uma ascese mais cuidadosa, ascese de caráter cristo-pneumatológico, tendo como fim a divinização (a vida de filhos do Pai). Sendo assim, esse tempo nada mais é que uma intensificação daquilo que é e deve ser toda a vida do cristão. São Bento, por exemplo, dizia a seus monges que a vida deles deveria ser uma contínua quaresma (ou seja, uma contínua preparação para a Páscoa).

Aproveitemos para viver esse combate espiritual com algumas atitudes de ascese.

Temos várias atitudes e comportamentos que podem nos ajudar, como por exemplo, o jejum: meio de tomar consciência da dependência de Deus; meio de domar nossas paixões, meio de atingir a educação de nossos instintos, modo de nos sensibilizarmos para a fome alheia.

Faz parte também a vida de oração: como modo de nos abrir para Deus e sua Presença; como meio de nos fazer sensíveis à sua Palavra; como modo de nos ajudar a compreender sua santa vontade; como meio de tudo avaliar com o coração de Deus; como modo privilegiado de fazer-se dócil à ação do Espírito Santo.

Uma atitude de desprendimento importante para hoje é a esmola, pois nos abre para os outros; é sinal da própria comunhão trinitária; é remédio contra nossas concupiscências; descentra-nos.

Outra prática não muito comum entre nós são as vigílias, que nos ajudam a vigiar pela vinda do Reino; no combate à preguiça espiritual; faz-nos intercessores pelo mundo que dorme e nos ajudam no autodomínio.

Vivamos o grande retiro da Quaresma, tempo do deserto e do combate espiritual, com abertura para estes valores que nos aproximam de Deus pelo próximo.

No Ano Arquidiocesano da Esperança sejamos portadores da boa notícia do Reino de Deus e aproveitemos do tempo favorável para vivermos a caminhada de conversão, sendo ajudados pela penitência física e silenciosa do jejum. Jejum não só de carne e de alimentos às sextas-feiras, mas jejum da maldade, jejum da perversidade, jejum dos maus atos e pensamentos, jejum da desagregação e jejum da intolerância religiosa.

Sejamos generosos com as obras de caridade da Igreja, doando o que deixamos de comer, como gesto concreto em favor dos mais pobres e das necessidades das obras caritativas da Igreja (de maneira especial no Domingo de Ramos, dia da Coleta da Solidariedade). A oração que é ouvida por Deus é aquela que é acompanhada destes gestos concretos.

Boa Quaresma e profunda conversão rumo à Páscoa!

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

Segunda, 09 de Março de 2015.

Publicado em CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

_________________________________________________________________________________

4ª-feira da 3ª Semana da Quaresma
Cor: Roxo 1ª Leitura – Dt 4,1.5-9 Cumpri e praticai as leis e decretos. Leitura do Livro do Deuteronômio (4,1.5-9):

Moisés falou ao povo, dizendo:
1 ‘Agora, Israel, ouve as leis e os decretos
que eu vos ensino a cumprir,
para que, fazendo-o, vivais
e entreis na posse da terra prometida
que o Senhor Deus de vossos pais vos vai dar.
5 Eis que vos ensinei leis e decretos
conforme o Senhor meu Deus me ordenou,
para que os pratiqueis na terra em que ides entrar
e da qual tomareis posse.
6 Vós os guardareis, pois, e os poreis em prática,
porque neles está vossa sabedoria
e inteligência perante os povos,
para que, ouvindo todas estas leis, digam:
‘Na verdade, é sábia e inteligente esta grande nação!
7 Pois, qual é a grande nação
cujos deuses lhe são tão próximos
como o Senhor nosso Deus,
sempre que o invocamos?
8 E que nação haverá tão grande
que tenha leis e decretos tão justos,
como esta lei que hoje vos ponho diante dos olhos?
9 Mas toma cuidado!
Procura com grande zelo não te esqueceres
de tudo o que viste com os próprios olhos,
e nada deixes escapar do teu coração
por todos os dias de tua vida;
antes, ensina-o a teus filhos e netos.

Palavra do Senhor.

Salmo – Sl 147, 12-13. 15-16. 19-20 (R. 12a)

R. Glorifica o Senhor, Jerusalém!
12 Glorifica o Senhor, Jerusalém!*
Ó Sião, canta louvores ao teu Deus!
13 Pois reforçou com segurança as tuas portas,*
e os teus filhos em teu seio abençoou. R.15 Ele envia suas ordens para a terra,*
e a palavra que ele diz corre veloz.
16 ele faz cair a neve como a lã *
e espalha a geada como cinza. R.19 Anuncia a Jacó sua palavra,*
seus preceitos suas leis a Israel.
20 Nenhum povo recebeu tanto carinho,*
a nenhum outro revelou os seus preceitos.

Evangelho – Mt 5,17-19

Jesus fala aos discipulos.Aquele que praticar e ensinar os mandamentos,
este será considerado grande.+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus (5,17-19)Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
17 Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas.
Não vim para abolir,
mas para dar-lhes pleno cumprimento.
18 Em verdade, eu vos digo:
antes que o céu e a terra deixem de existir,
nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei,
sem que tudo se cumpra.
l9 Portanto, quem desobedecer
a um só destes mandamentos, por menor que seja,
e ensinar os outros a fazerem o mesmo,
será considerado o menor no Reino dos Céus.
Porém, quem os praticar e ensinar
será considerado grande no Reino dos Céus.Palavra da Salvação.

Reflexão – Mt 5, 17-29

Todos nós estamos de acordo que devemos obedecer a Deus, mas não estamos muito de acordo se perguntarmos por que devemos obedecer a Deus. Isto porque existem duas formas de obediência. A primeira é a obediência de quem reconhece o poder de quem manda e se submete a este poder por causa das vantagens da obediência ou das conseqüências da desobediência. É aquele que diz que manda quem pode e obedece quem tem juízo. A segunda é de quem reconhece os valores que motivam a autoridade e assume esses valores como próprios, vendo na obediência a grande forma de concretização desses valores. Jesus não veio mudar a lei, mas mostrar as suas motivações, os seus valores, a fim de que a sua observância não seja um jugo, mas uma forma de realização pessoal.
Fonte: Paróquia Nossa Senhora do Resgate (extraído de CNBB).

Jesus é tentado em três momentos no deserto… – Quaresma (Caritatis – Portal Católico)

Quaresma_Tentação-no-deserto
Mt 4,1-11: “E os anjos se aproximaram para servir Jesus”.

Artigo e imagem publicados em Caritatis – Portal Católico

Jesus posto à prova (Mateus 4, 1-11)

1Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio.  2Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome. 3O tentador aproximou-se dele e lhe disse: Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães. 4Jesus respondeu: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8,3). 5O demônio transportou-o à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: 6Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra (Sl 90,11s). 7Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16). 8O demônio transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe: 9Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares. 10Respondeu-lhe Jesus: Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás (Dt 6,13).   11Em seguida, o demônio o deixou, e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo.

____

Comentando:

A pedagogia de Jesus quer nos mostrar que antes de qualquer iniciativa, devemos nos recolher, e no silêncio, orar, experimentar Deus em nossa vida, conversar e escutar o que Ele nos fala. Assim, será este tempo da Quaresma, propício a este recolhimento. O caminho é longo e precisamos, neste momento, fazer um balanço de nossa vida. É tempo de conversão.

Jesus se deixa conduzir pelo Espírito do Pai, mesmo sabendo que será tentado pelo demônio em três momentos. Ele vai, exorta confiança, se defronta com dificuldades, mas confia para onde está sendo levado. Jesus quer nos ensinar como devemos lutar e vencer as nossas tentações: com confiança em Deus, com a oração, com a graça divina e com a fortaleza. Rezamos, diariamente, na oração do Pai Nosso, pedindo a Deus que nos ajude com a Sua graça. “Não nos deixeis cair em tentação”.

Jesus manifesta a sua natureza humana, fazendo jejum, tendo fome, para mostrar que somos capazes de uma parada em nossa vida para a reflexão, contemplação. Jesus quer mostrar que antes de começar a sua obra messiânica, será necessário uma preparação, com oração e jejum no deserto. Da mesma forma, Moisés, o fez antes de promulgar, em nome de Deus, a Antiga lei do Sinai (cf. Ex 34,28), e também Elias, que caminhou quarenta dias no deserto para levar avante a sua missão: fazer renovar o cumprimento da Lei (1Rs 19,5-8).

A Igreja estabelece anualmente o tempo de jejum quaresmal (neste domingo contemplamos o retiro de Jesus no deserto), tempo este, que devemos nos preparar, com a oração e penitência, que será fundamental a nossa vida. Inclusive uma boa reflexão, no silêncio, sempre deverá acontecer antes de empreendermos alguma atividade ou tomarmos alguma decisão importante.

Recordo que no ano de 2010, tive a graça de participar da Quaresma, de forma diferenciada, pois estava sendo acompanhado pelo Pe. Paulo Pedreira, sj, nos Exercícios Espirituais. Então, foi uma Quaresma e Semana Santa intensas, onde pude perceber o amor que Jesus tem por cada um de nós. A nossa vida dá um salto de qualidade. Sentimos o ardor do coração de Cristo sofredor e crucificado e pedimos a graça de estar com Ele. Foi a melhor Quaresma, por isto estou aqui, continuando, convidando outros a esta experiência dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio.

Ser cristão hoje é ser um “super herói”, onde necessitamos nos livrar das armadilhas do inimigo a cada instante, principalmente pessoas como nós, que vivem em uma grande cidade, como o Rio de Janeiro. Este Primeiro Domingo da Quaresma se faz necessário, para contemplarmos Jesus, em sua fome, por ter ficado um tempo, sem alimento e observarmos o diálogo entre Jesus e o acusador.

Num primeiro momento, a fome de Jesus é intensa, o diabo aproveita para tentá-Lo, mas o Senhor o rejeita com uma frase do Dt 8,3. Jesus, não se assusta, apenas responde com Palavras da Sagrada Escritura, para mostrar, que como Ele podemos ser fortes, se tivermos a vivência da Palavra de Deus, que nos conforta e poderá ser nosso verdadeiro alimento, o Pão da Palavra da mesma forma como Yahweh alimentou os filhos de Israel com o maná no deserto e hoje, somos alimentados com o maná como imagem da Eucaristia. Com efeito, “o homem não vive só de pão, mas também de toda a palavra que sai da boca de Deus”.

Num segundo momento, Jesus é levado ao pináculo do Templo, e o acusador pede que Ele se jogue, pois os anjos o protegerão. Nesta passagem, Jesus quer mostrar aos cristãos que se deve estar alerta, quanto as falsas interpretações da Sagrada Escritura, como a citação proposta pelo diabo. Jesus chama a atenção para o erro da heresia, que consiste em fixar o olhar em um determinado trecho da Escritura, com exclusão de outros, com interpretação ao bel prazer, o que nos faz perder de vista a unidade da Escritura e a totalidade da fé.

Num terceiro momento, Jesus é levado para um monte muito alto e o demônio oferece a Jesus, todos os reinos, se o adorar. Jesus, responde de forma enérgica “para trás satanás”. Tiramos deste momento o ensinamento de Jesus, que devemos estar firme na missão salvífica em nossos ambientes e não podemos se deixar seduzir por ofertas, que muitas vezes, nos encantam. Vemos o grave problema da corrupção em nosso país, onde cada vez mais se agrava. As pessoas dormindo pelas ruas, pedindo esmolas nos sinais, se prostituindo. Tudo é lamentável, tudo é fruto da corrupção. Mas, aprendemos de Jesus: a sua atitude, a sua oposição as coisas do mundo.

O demônio deixa Jesus, é a vitória, consequência da constância na luta. Os anjos vêm e servem a Jesus. Este trecho do Evangelho mostra a alegria interior que teremos, quando, pela nossa confiança em Deus, nos opormos às tentações às coisas do mundo. Contra as tentações, Deus nos dá poderosos defensores, que quando precisarmos devemos invocar: os anjos da guarda.

Publicado em Caritatis – Portal Católico.

Quaresma: “Tempo do combate – na Quaresma se deve combater – um tempo de combate espiritual contra o espírito do mal.” – Papa Francisco – Ângelus – 1º Domingo da Quaresma ( Rádio Vaticano)

Fonte: Rádio Vaticano.

No Angelus Papa convida a entrar sem medo no deserto, local de combate espiritual

“O significado deste primeiro Domingo da Quaresma, disse o Papa, é nos colocarmos decididamente no caminho de Jesus, o caminho que conduz à vida”. – AFP
22/02/2015 12:40

Cidade do Vaticano (RV) – Neste I Domingo da Quaresma o Papa Francisco assomou à janela do apartamento Pontíficio para rezar, com os milhares de fiéis presentes na Praça São Pedro, a oração mariana do Angelus.(…)

Eis o Angelus na íntegra:

Queridos irmãs e irmãs
Quarta-feira passada, com o rito das Cinzas, teve início a Quaresma e hoje é o primeiro Domingo deste tempo litúrgico que faz referência aos quarenta dias que Jesus passou no deserto, após o Batismo no Rio Jordão. São Marcos escreve no Evangelho de hoje: “O Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos o serviam”.Com estas breves palavras o evangelista descreve a prova enfrentada voluntariamente por Jesus, antes de iniciar sua missão messiânica. É uma prova da qual o Senhor sai vitorioso e que o prepara a anunciar o Evangelho do Reino de Deus. Ele, naqueles quarenta dias de solidão, enfrentou Satanás “corpo a corpo”, desmascarou as suas tentações e o venceu. E nele todos vencemos, mas nós devemos proteger esta vitória no nosso dia-a-dia.A Igreja nos faz recordar tal mistério no início da Quaresma, porque isto nos dá a perspectiva e o sentido deste tempo, que é o tempo do combate – na Quaresma se deve combater – um tempo de combate espiritual contra o espírito do mal. E enquanto atravessamos o deserto quaresmal, nós temos o olhar dirigido à Páscoa, que é a vitória definitiva de Jesus contra o Maligno, contra o pecado e contra a morte. Eis então o significado deste primeiro Domingo da Quaresma: colocar-nos decididamente no caminho de Jesus, o caminho que conduz à vida. Olhar Jesus, o que fez Jesus e seguir com Ele.Este caminho de Jesus passa pelo deserto. O deserto é o lugar onde se pode escutar a voz de Deus e a voz do tentador. No barulho, na confusão, isto não pode ser feito; ouve-se somente vozes superficiais. Pelo contrário, no deserto, podemos descer em profundidade onde se joga verdadeiramente o nossos destino, a vida ou a morte. E, como ouvimos a voz de Deus? A ouvimos na sua Palavra. Por isto é importante conhecer as Escrituras, pois, de outra maneira, não sabemos responder às insídias do maligno. E aqui gostaria de retornar ao meu conselho para ler a cada dia o Evangelho: cada dia ler o Evangelho, meditá-lo, um pouquinho, dez minutos, e levá-los empre conosco, no bolso, na bolsa..Mas ter sempre o Evangelho à mão; O deserto quaresmal nos ajuda a dizer não à mundanidade, aos ídolos, nos ajuda a fazer escolhas corajosas conforme o Evangelho e a reforçar a solidariedade com os irmãos.Então entremos no deserto sem medo, porque não estamos sozinhos: estamos com Jesus, com o Pai e com o Espírito Santo. Assim como foi para Jesus, é justamente o Espírito Santo que nos guia no caminho quaresmal, o mesmo Espírito descido sobre Jesus e que nos é dado no batismo. A Quaresma, por isto, é um tempo propício que deve nos levar a tomar sempre mais consciência do quanto o Espírito Santo, recebido no Batismo, operou e pode operar em nós. E ao final do itinerário quaresmal, na Vigília Pascal, poderemos renovar com maior consciência a aliança batismal e os compromissos que dela derivam.

Que a Virgem Santa, modelo de docilidade ao Espírito, nos ajude a deixar-nos conduzir por Ele, que quer fazer de cada um de nós “uma nova criatura”.

Publicado por Rádio do Vaticano.

_______________________________________________________________________________

Quaresma, tempo de voltar para Deus

quaresma23O momento favorável é agora! Será que amanhã estaremos aqui? Sabemos que a morte encerra o nosso tempo de se arrepender dos pecados e encontrar Deus, para viver com ele. Não deixemos para depois.

A quaresma é um tempo em que Jesus nos convida a ir para o “deserto” com Ele, não o deserto de areia, mas o deserto do nosso coração, onde Deus habita desde o nosso batismo, mas que tantas vezes esquecemos. Esses quarenta dias tem um significado grande na Bíblia; significa “um tempo de prova” antes de uma grande “vitória”.

Assim, vemos Noé que passa 40 dias na barca com toda a criação para depois sair dali para uma vida nova, salvando a humanidade (Gn 8,6). Moisés permaneceu quarenta dias no monte Sinai (Ex 24,18) antes de dar ao povo as Tábuas da Lei e a Aliança com Deus. O povo de Deus caminhou quarenta anos no deserto antes de chegar com Josué `a Terra Prometida (Js 5,6); por quarenta anos Golias desafiou Israel até que Davi o vencesse (1Sm 17,16); Elias, fugindo da morte, caminhou durante quarenta dias ate´ chegar ao Horeb, na montanha onde Deus se mostrou a ele numa brisa suave (1Rs 19,8-12); quarenta dias foi o prazo que Jonas marcou para Nínive ser destruída, mas se converteu (Jn 3,4); etc. Jesus passa quarenta dias no deserto antes de vencer Satanás e começar a Sua missão de evangelização.

Depois de quarenta dias de luta vem uma grande vitória. Assim deve ser hoje a nossa Quaresma, quarenta dias de luta para conquistar a grande vitória de “voltar para Deus”. Não há felicidade maior do que estar com Deus, amar a Deus e servir a Deus. Santo Agostinho disse que: “Um homem sem Deus, é um peregrino sem meta, um questionado sem resposta, um lutador sem vitória, um moribundo sem nova vida”. “Quem ama a Deus nunca envelhece. Leva em si Aquele que é mais jovem que todos os outros”. “Eu não seria nada, meu Deus, absolutamente nada, se não estivesses em mim”. “O maior castigo do homem é não amar a Deus.”

Deus é tudo para nós: quando temos fome, é pão; quando temos sede, é água; quando estamos no escuro, é luz. Deus não nos abandona a não ser que nós O abandonemos primeiro. Quem não tem Deus na sua vida não se contenta com nada, está sempre insatisfeito. Deus colocou uma sede infinita de felicidade em nosso coração que só pode ser saciada por Ele mesmo, e por nada mais.

São Tomás de Aquino disse que “quanto mais o homem se afasta de Deus, mas se aproxima do nada”. Tanto mais é infeliz e sofredor, ainda que tenha todas as riquezas, prazeres e glórias terrenas. Santo Agostinho nos faz um alerta: “Declaraste guerra a Deus? Tem cuidado. Quantas mais e maiores pedras lances ao céu, mais e maiores serão as feridas que te causarão ao cair”.

Mas, o que nos afasta de Deus? Só uma coisa, o pecado. Por isso Jesus nos convida à conversão: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

“Aos olhos da fé, nenhum mal é mais grave que o pecado, e nada tem consequências piores para os próprios pecadores, para a Igreja e para o mundo inteiro”, diz o Catecismo (n. 1489). “Quem peca fere a honra de Deus e seu amor, sua própria dignidade de homem chamado a ser filho de Deus e a saúde espiritual da Igreja, da qual cada cristão é uma pedra viva (n. 1488).

É por isso que Jesus veio ao mundo e morreu numa cruz, ensanguentado, flagelado, coroado de espinhos e zombado. Só podemos entender o horror que é o pecado olhando o quanto custou para Jesus, o Filho único de Deus, arrancá-lo de nossas almas. Ele não veio ao mundo para outra coisa, a não ser para ser o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). São Pedro disse que “não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo, o Cordeiro imaculado….” (1 Pe 1,18).

A Quaresma é o tempo de voltar para Deus, é o tempo da graça do arrependimento. São Paulo pediu insistentemente: “Em nome de Jesus Cristo, nós vos suplicamos: deixar-vos reconciliar com Deus… Como colaboradores de Cristo, nós vos exortamos a não receberdes a graça de Deus em vão, pois Ele diz: “No momento favorável eu te ouvi, e no dia da salvação eu te socorri. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2 Cor 6,1-2).

O momento favorável é agora, a Quaresma, o tempo de procurar um padre e fazer uma Confissão bem feita, deixando que o Sangue de Cristo lave as nossas almas. O profeta disse: “Buscai o Senhor, já que ele se deixa encontrar; invocai-o, já que está perto” (Isaías 55, 6). Até quando poderemos ter essa oportunidade de encontrar Deus. Será que amanhã estaremos aqui? Sabemos que a morte encerra o nosso tempo de se arrepender dos pecados e encontrar Deus, para viver com ele. Não deixe para depois. Quem deixa as coisas para depois é porque não quer fazer nunca. Deus não pode ser deixado para depois.

Prof. Felipe Aquino

Publicado em Editora Cléofas.

A Oração – Teresa de Ávila (“La Oración” – Orden de los Carmelitas)

A Oração

Teresa de Ávila

“A oração vocal deve ser acompanhada de reflexão. Uma oração em que a pessoa não é consciente de com quem está falando, do que está pedindo, ou de quem pede e a quem, não pode ser considerada uma oração – por muito que mova os lábios.” (1, 7) – Santa Teresa de Ávila, “Castelo Interior”

A frase mais conhecida de Santa Teresa na oração provém de seu livro “O Caminho de Perfeição”. Nele, ela explica que “A oração é um intercâmbio pessoal entre amigos.” Mas, o que ela quer dizer com “intercâmbio pessoal”? Uma ampla resposta se pode encontrar em outra frase sua sobre a oração: “A oração vocal deve ser acompanhada pela reflexão”, a partir de seu livro: Castelo Interior”. Neste, ela explica em detalhes o que ela entende com “intercâmbio pessoal.”

Em um nível básico, ela explica como a oração está ligada à reflexão e vice-versa. Apesar de sabermos que a amizade é passar algum “tempo de qualidade” com os amigos ou a família, também sabemos que a amizade vai além disso. Nesse sentido, ter um “tempo de qualidade” implica ouvir e entender o que está acontecendo ao nosso redor. Quando partilhamos algum “tempo de qualidade” com nossos amigos ou familiares, por vezes, se faz necessário parar para pensar a respeito do que estão dizendo e sobre como estão falando, ou seja, precisamos nos deter para refletir, pois é neste momento que saberemos mais deles e eles podem vir a saber de nós. A nossa amizade com Deus funciona da mesma maneira. Sem a reflexão, não há amizade. É a isto que Santa Teresa se referia quando afirmava “não pode ser considerado oração – por muito que mova os lábios.”

Em um nível mais profundo, isso nos leva a reconhecer a importância do autoconhecimento na oração. Na verdade, esta grande ênfase no autoconhecimento é o selo distintivo da espiritualidade Carmelita. Naturalmente, o autoconhecimento é um elemento que está presente em qualquer tipo de espiritualidade, mas na espiritualidade Carmelita esta ênfase é particularmente forte. Santa Teresa foi mais longe, ao afirmar que “O caminho do autoconhecimento nunca deve ser abandonado.” A pessoa que não é capaz de refletir é quase como um manequim, que somente é capaz de mostrar o seu exterior, porque seu interior é vazio. Quanto mais nos conhecemos, menos nos parecemos manequins (que vivem para o desfile), e seremos mais autênticos (vivendo os valores mais profundos da honestidade, fidelidade, bondade e da verdade).

Por último, e talvez mais importante, a frase de Santa Teresa a respeito da oração coloca ênfase especial no fato de que esta deve ser dirigida a um destinatário. Se amizade significa partilha e reflexão, uma profunda amizade implica uma partilha e reflexão mais profundas, e assim por diante. Muitas vezes temos escutado de casais de esposos há muito tempo casados ​dizer: “hoje nos amamos muito mais do que quando nos casamos há 50 anos” (e isto vale para 60 ou mesmo 75). Assim, parece não haver limite para expressar nosso amor, tal como não há para o amor de Deus. O único obstáculo que podemos enfrentar é o medo, mas quanto mais conhecemos a nós mesmos, menor será o impacto que este terá sobre as nossas vidas. Então, até onde nos conduz tudo isto a respeito da oração? Se fizermos a oração como Santa Teresa nos recomenda, receberemos o amor infinito de Deus e, o mais surpreendente é que poderemos obter a capacidade de amar a nós mesmos. Sim, a oração é surpreendente.

“La Oración – Teresa de Ávila”, tradução e adaptação de Lúcia Barden Nunes,  extraído de http://www.carmelitas.org/la-oracion/carmelite-saints-on-prayer/teresa-of-avila/

“O Espírito do Advento consiste em boa parte em vivermos unidos à Virgem Maria neste tempo em que Ela traz Jesus em seu seio.” – Homilia do Mons. José Maria – IV Domingo do Advento (Site Presbíteros)

Virgem Maria_O-caminho-com-Jesus-Maria-e-José
Jesus, Maria e José em Belém

Fonte: PRESBÍTEROS

Homilia do Mons. José Maria – IV Domingo do Advento

A Virgem e o Emanuel

No Quarto Domingo do Advento entra em cena Maria. Seu Filho é o Deus conosco e já se faz presente, ainda de modo velado, mas real, no seio da Virgem, que concebeu por obra do Espírito Santo (cf. Mt 1, 18 – 24).

Ao descrever a genealogia de Jesus, Mateus demonstra que é verdadeiro homem, filho de Davi, filho de Abraão; ao narrar o Seu nascimento de Maria Virgem, que foi mãe por virtude do Espírito Santo, afirma que é verdadeiro Deus; e, finalmente, ao citar o profeta Isaias, declara que Ele é o Salvador prometido pelos profetas, o Emanuel, o Deus conosco.
Nossa Senhora fomenta na alma a alegria, porque, quando procuramos a sua intimidade, leva-nos a Cristo. Ela é Mestra de esperança. Maria proclama que a chamarão bem-aventurada todas as gerações (Lc. 1, 18).
Dentro de poucos dias veremos Jesus reclinado numa manjedoura, o que é uma prova de misericórdia e do amor de Deus. Poderemos dizer: “Nesta noite de Natal, tudo pára dentro de mim. Estar diante dEle; não há nada mais do que Ele na branca imensidão. Não diz nada, mas está aí… Ele é o Deus amando-me. E se Deus se faz homem e me ama, como não procurá-Lo? Como perder a esperança de encontrá-Lo, se é Ele que me procura? Afastemos todo o possível desalento; as dificuldades exteriores e a nossa miséria pessoal não podem nada diante da alegria do Natal que se aproxima.
Faltam poucos dias para que vejamos no presépio Aquele que os profetas predisseram, que a Virgem esperou com amor de mãe, que João anunciou estar próximo e depois mostrou presente entre os homens.
Desde o presépio de Belém até o momento da sua Ascensão aos céus, Jesus Cristo proclama uma mensagem de esperança. Ele é a garantia plena de que alcançaremos os bens prometidos. Olhamos para a gruta de Belém, em vigilante espera, e compreendemos que somente com Ele poderemos aproximar-nos confiadamente de Deus Pai.
Nas festas que celebramos por ocasião do Natal, lutemos com todas as nossas forças, agora e sempre, contra o desânimo na vida espiritual, o consumismo exagerado, e a preocupação quase exclusiva pelos bens materiais. Na medida em que o mundo se cansar da sua esperança cristã, a alternativa que lhe há de restar será o materialismo, do tipo que já conhecemos; isso e nada mais. Por isso, nenhuma nova palavra terá atrativo para nós se não nos devolver à gruta de Belém, para que ali possamos humilhar o nosso orgulho, aumentar a nossa caridade e dilatar o nosso sentimento de reverência com a visão de uma pureza deslumbrante.
O Espírito do Advento consiste em boa parte em vivermos unidos à Virgem Maria neste tempo em que Ela traz Jesus em seu seio.
A devoção a Nossa Senhora é a maior garantia de que não nos faltarão os meios necessários para alcançarmos a felicidade eterna a que fomos destinados. Maria é verdadeiramente “porto dos que naufragam, consolo do mundo, resgate dos cativos, alegria dos enfermos” (Santo Afonso M. de Ligório). Nestes dias que precedem o Natal e sempre, peçamos-Lhe a graça de saber permanecer, cheios de fé, à espera do seu Filho Jesus Cristo, o Messias anunciado pelos Profetas.

Mons. José Maria Pereira

Publicado em PRESBÍTEROS.

Imagem: Canção Nova (Artigo: O caminho com Jesus, Maria e José, com link para a homilia do Padre Paulo Ricardo sobre a “Visitação de Nossa Senhora – 4º Domingo do Advento“)

Santa Teresa de Ávila – Solenidade – 15 de outubro: “Vocês pensam que Deus não fala porque não se ouve a Sua voz? Quando é o coração que reza, Ele responde”””

Os preparativos para a comemoração dos 500 anos de nascimento de Santa Teresa de Ávila (1515-1582)  transcorrem com entusiasmo na cidade de Ávila, na Espanha. Seu legado ainda hoje repercute nas almas que vivem em um mundo conturbado, pouco afeito a escutar o próprio coração, de tão bombardeado que está por informações, em geral, desconexas, desencontradas. Mas, àqueles que resistem e se empenham nesta jornada interior rumo à plena comunhão com Deus, tal como propunha Santa Teresa, é fornecido através de seus escritos, um itinerário de caminhada na oração, de modo que nenhuma perturbação tenha o poder de nos dominar, nenhum obstáculo possa nos afastar deste caminho, que uma vez empreendido se torna presença constante em nossos corações. Santa Teresa de Jesus guiai-nos nesta trajetória  de amor à perfeição, que somente as almas dos filhos de Deus podem querer e almejar! Amém!

Lúcia Barden Nunes

 

Fonte: Portal Paulinas.

15 de Outubro – Santa Teresa de Ávila

Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus Carmelita e doutora da Igreja (1515-1582)
Teresa de Ávila ou Teresa de Jesus
Carmelita e doutora da Igreja (1515-1582)

Teresa de Cepeda y Ahumada, nascida em Ávila, na Castela Velha, de nobre família, começou cedo a dar prova de temperamento vivaz, fugindo de casa aos sete anos para buscar o martírio entre os mouros da África, por amor de Cristo. Mas aos 16 anos começou a se embelezar por amor de um simples mortal. E o pai, por um compreensível ciúme, para protegê-la, confiou-a a um convento de freiras.

Aos 20 anos, contrariando os programas paternos, decidiu ser freira. Houve poucos anos de vida regular, pois ela também cedeu a certa moda. As vozes interiores não lhe deram tréguas e ela sentiu um desejo sempre mais insistente de retornar ao primitivo rigor dos carmelitas, sendo objeto de extraordinárias experiências místicas, traduzidas depois, por obediência, em vários tratados de oração mental, citados entre os clássicos da literatura espanhola.

Aos 40 anos ocorre a primeira grande virada na vida desta imprevisível santa de idéias generosas. Depois das aflições interiores, dos escrúpulos e daquilo que na mística é chamado de “noite dos sentidos” — quer dizer, trevas interiores, a prova mais dura de uma alma superar —, dá-se o encontro iluminador com dois santos, Francisco de Borja e Pedro de Alcântara. Estes a repõem no bom caminho, na via da total confiança em Deus.

Em 1562, ela funda em Ávila o convento reformado sob o patrocínio de São José. Cinco anos depois, um outro decisivo encontro: João da Cruz, o príncipe da teologia mística. Os dois foram feitos para se entenderem. Inicia assim aquele singular conúbio, em meio a ardentíssimos arrebatamentos místicos e ocupações práticas do dia-a-dia, que dela fazem a santa do bom senso, uma contemplativa imersa na realidade.

Ela possui a chave para entrar no Castelo interior da alma, “cuja porta de ingresso é a oração”, mas ao mesmo tempo sabe tratar egregiamente de matérias econômicas. “Teresa”, diz ela argutamente, “sem a graça de Deus é uma pobre mulher; com a graça de Deus, uma força; com a graça de Deus e muito dinheiro, uma potência”. Viaja pela Espanha de alto a baixo (era chamada a “freira viajante”) para erigir novos conventos reformados e revela-se uma hábil organizadora.

Escreve a história da própria vida, um livro de confissões extraordinariamente sinceras: “Como me mandaram escrever o meu modo de fazer oração e as graças que o Senhor me fez, eu queria que me tivessem concedido o poder de contar minuciosamente e com clareza os meus grandes pecados”. Morre pronunciando as palavras: “Sou filha da Igreja”. Em 1970, Paulo VI proclamou-a doutora da Igreja.

Publicado em Portal Paulinas.

Leia também: Canção Nova Formação – Frases de Santa Teresa de Ávila.

Mensagem da aparição de Nossa Senhora em La Salette (na França, em 19 de setembro de 1846) diz muito da realidade que vivemos em nosso tempo (Blog Canção Nova)

19 de setembro – Dia de Nossa Senhora de La Salette

Uma mensagem que veio em forma de profecias, confirmada pelos santos Papas Pio IX (que a aprovou em 1852), Leão XIII e São João Paulo II. Fala do materialismo e das infidelidades no seguimento de Jesus Cristo pelos sacerdotes, prelados, consagrados e consagradas (em grande número se tornariam apóstatas), bem como uma série de advertências aos governantes, que deixariam de lado o senso de justiça, dominados que estariam  pelo espírito materialista, por abandonarem o espírito religioso.

Nossa Senhora em La Salette (França) chora pelos males que recairiam sobre o mundo se não houvesse arrependimento de toda a Humanidade e volta à piedade e devoção.Fala sempre em tom de advertência!

Nossa Senhora de La Salette, fortalecei-nos no combate da Fé!

Lúcia Barden Nunes

………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

Fonte: Blog Canção Nova

Em sua aparição em La Salette, Nossa Senhora deixou uma mensagem que diz muito da realidade que vivemos em nosso tempo.

Nossa Senhora confiou uma mensagem aos videntes Maximino Giraud e Mélanie Calvat, em sua aparição em La Salette, na França, em 19 de Setembro de 1846. No início da aparição, ambos viram a Santíssima Virgem sentada sobre uma enorme pedra. Ela tinha o rosto entre as mãos e chorava amargamente. As duas crianças foram até a Bela Senhora, que não parava de chorar. A Virgem Maria explicou a Maximino e a Mélanie que chorava pelos pecados da humanidade e que deveríamos rezar para que o braço de seu Filho Jesus não pesasse sobre a Terra. Além, da mensagem, confiada aos dois videntes, pedindo oração e penitência pela humanidade, a Mãe de Deus confiou a Mélanie um segredo, que deveria ser revelado somente em 1858. Em 1852, o Papa Pio IX aprovou a aparição e reconheceu a origem celeste da mensagem. O Papa Leão XIII também reconheceu e apoiou a mensagem de La Salette e o Papa João Paulo II considerou-a como “o coração das profecias de Maria”.

Num primeiro momento, Nossa Senhora fala da infidelidade de muitas almas consagradas a Deus: “Os sacerdotes, ministros de meu Filho, pela sua má vida, sua irreverência e impiedade na celebração dos santos mistérios, pelo amor do dinheiro, das honrarias e dos prazeres, tornaram-se cloacas de impureza. Sim, os sacerdotes atraem a vingança e a vingança paira sobre suas cabeças. Ai dos sacerdotes e das pessoas consagradas a Deus, que pela sua infidelidade e má vida crucificam de novo meu Filho! Os pecados das pessoas consagradas a Deus bradam ao Céu e clamam por vingança. E eis que a vingança está às suas portas, pois não se encontra mais uma pessoa a implorar misericórdia e perdão para o povo. Não há mais almas generosas, não há mais ninguém digno de oferecer a vítima imaculada ao [Pai] Eterno em favor do mundo”1.

Depois, a Virgem Maria profetiza sobre a família e a sociedade e quais os males que se seguirão. Destas profecias, apresentamos aquelas que são mais significativas e que dizem respeito também ao nosso tempo: “Os chefes, os condutores do povo de Deus negligenciaram a oração e a penitência. E o demônio obscureceu suas inteligências. Transformaram-se nessas estrelas errantes, que o velho diabo arrastará com sua cauda para fazê-las perecer. […] Os maus livros abundarão sobre a Terra, e os espíritos das trevas espalharão por toda parte um relaxamento universal em tudo o que se refere ao serviço de Deus. […] Deus vai golpear de modo inaudito. Ai dos habitantes da Terra. Deus vai esgotar sua cólera, e ninguém poderá fugir a tantos males acumulados. […] Toda ordem e toda justiça serão calcados aos pés. Não se verá outra coisa senão homicídios, ódio, inveja, mentira e discórdia, sem amor pela pátria e sem amor pela família. […] Os governantes civis terão todos um mesmo objetivo, que consistirá em abolir e fazer desaparecer todo princípio religioso para dar lugar ao materialismo, ao ateísmo, ao espiritismo e a toda espécie de vícios. […] Os maus estenderão toda sua malícia. Até nas casas as pessoas matar-se-ão e massacrar-se-ão mutuamente. […] Os justos sofrerão muito. Suas orações, sua penitência e suas lágrimas subirão até o céu e todo o povo de Deus pedirá perdão e misericórdia. E pedirá minha ajuda e intercessão”2.

Assista programa do Padre Paulo Ricardo sobre “O alerta de Maria para o Brasil(também em áudio):

O apelo àqueles que a Mãe de Deus chama de “Apóstolos dos Últimos Tempos” pode ser o que São João Paulo II chama de “o coração das profecias de Maria”. Este apelo é dirigido aos verdadeiros devotos da Virgem Maria: “Eu dirijo um premente apelo à Terra. Apelo aos verdadeiros discípulos do Deus vivo que reina nos Céus. Apelo aos verdadeiros imitadores de Jesus Cristo feito homem, o único e verdadeiro Salvador dos homens. Apelo aos meus filhos, meus verdadeiros devotos, aqueles que se deram a mim para que eu os conduza a meu divino Filho, aqueles que levo por assim dizer nos meus braços, que vivem de meu espírito. Enfim, apelo aos Apóstolos dos Últimos Tempos, aos fiéis discípulos de Jesus Cristo que viveram no desprezo do mundo e de si próprios, na pobreza e na humildade, no desprezo e no silêncio, na oração e na mortificação, na castidade e na união com Deus, no sofrimento e desconhecidos do mundo. É chegado o tempo para que eles saiam e venham iluminar a Terra. Ide e mostrai-vos como meus filhos amados. Estou convosco e em vós, contanto que vossa fé seja a luz que vos ilumina nestes dias de desgraças. Que vosso zelo vos faça como que famintos da glória e honra de Jesus Cristo. Combatei, filhos da luz, pequeno número que isto vedes, pois aí está o tempo dos tempos, o fim dos fins”3.

A mensagem de Nossa Senhora de La Salette certamente não se dirigia somente às pessoas daquele tempo, pois muitas das suas profecias estão acontecendo em nossos dias. Por isso, sejamos obedientes a Santíssima Virgem, façamos orações, jejuns e penitências na intenção dos sacerdotes, religiosos e religiosas, de todas as almas consagradas a Deus. Façamos o mesmo também pelos nossos governantes, pela nossa sociedade e pelas famílias. O apelo da Virgem Maria é especialmente para aqueles que São Luís Maria Grignion de Montfort chamou de “verdadeiros Apóstolos dos Últimos Tempos, a quem o Senhor das virtudes dará a palavra e a força para operar maravilhas e arrebatar gloriosos despojos ao inimigo”4. É impossível negar que o Segredo de La Salette tem uma particular ligação com o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria. Segundo o Autor, estes Apóstolos “serão os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, que seguirão as pegadas da sua pobreza, humildade, desprezo do mundo e caridade. Ensinarão o estreito caminho de Deus na pura verdade, segundo o Santo Evangelho e não segundo as máximas do mundo. […] Terão nos lábios a espada de dois gumes, que é a Palavra de Deus; trarão aos ombros o estandarte sangrento da Cruz, o crucifixo na mão direita, o Rosário na esquerda, os sagrados nomes de Jesus e Maria no coração, e a modéstia e a mortificação de Jesus Cristo em toda a sua conduta”5. Quando e como surgirão estes Apóstolos dos Últimos Tempos? São Luís Maria responde: “Só Deus o sabe. Quanto a nós, apenas nos compete calar, rezar, suspirar e esperar”6: “Esperei ansiosamente o Senhor”7. Nossa Senhora de La Salette, rogai por nós!

Referências:

2 Idem, ibidem.

3 Idem, ibidem.

5 Idem, 59.

6 Idem, ibidem.

7 Sl 39, 2.

Natalino Ueda é brasileiro, católico, missionário da Comunidade Canção Nova, formado em Filosofia e Teologia.

Atualmente é produtor de conteúdo do portal cancaonova.com. Na consagração a Virgem Maria, segundo o Tratado

de São Luís Maria, descobriu um caminho fácil, rápido, perfeito e seguro para chegar a Jesus Cristo. Desde então,

ensina esta devoção, o caminho “a Jesus por Maria”, que é o seu maior apostolado.

 

Publicado em Blog Canção Nova.

A tentação da religião fácil – Cardeal Odilo Pedro Scherer – Arcebispo de São Paulo (SP) – Notícias Católicas

Grave engano

A tentação da religião fácil

leiss-das-religioes-sobre-dinheiro-catolicismo.-1pngPor Cardeal Odilo Pedro Scherer – Arcebispo de São Paulo (SP) Não está fácil ser cristão, em várias partes do mundo! Muitos estão sendo cerceados em sua liberdade de consciência, perseguidos e martirizados, apenas por serem discípulos de Jesus Cristo. São muito atuais as palavras de advertência de Jesus, ao encorajar os discípulos, falando-lhes do que os esperava: “sereis perseguidos e odiados por minha causa” (cf Lc 21, 12-19). Jesus não prometeu vida fácil a seus seguidores! A cena de Jesus com seus discípulos no caminho para Jerusalém, retratada no Evangelho de São Mateus (cf Mt 16,21-27), é muito ilustrativa. Jesus lhes fala da própria rejeição pelas autoridades do templo de Salomão, em Jerusalém, de seus sofrimentos, morte na cruz e ressurreição ao terceiro dia. Pedro, cheio de vontade de “defender” o Mestre, quer convencê-lo a desistir do caminho para Jerusalém: “Deus te livre, isso não te acontecerá!” As palavras de Jesus a Pedro são duras: “vá para longe de mim, satanás! És para mim, ocasião de tropeço!” São as mesmas palavras usadas por Jesus para superar a terceira tentação no deserto, antes de iniciar sua missão pública (cf Mt 4,10). Pedro fazia o papel de “tentador” e Jesus o afastou decididamente, continuando seu caminho para Jerusalém: “tu não pensas conforme Deus, mas conforme os homens!” (cf Mt 16,23). De qual tentação tão grave se tratava? Se Jesus desse razão a Pedro, evitaria os sofrimentos anunciados. Qual seria o mal? É que essa tentação implicava em desistir do Evangelho e da missão de Jesus. Pedro, ingenuamente, querendo impedir que algo de mal acontecesse a Jesus, acabaria desviando Jesus do seu caminho, impedindo-o de ser a testemunha fiel da verdade de Deus, de ser coerente e fiel à missão de manifestar o amor de Deus até às últimas consequências. Era uma grande tentação!

Jesus não atrai os discípulos para facilidades, vantagens, prosperidade e glórias terrenas: “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga!” (Mt 16,24).

Jesus não atrai os discípulos para facilidades, vantagens, prosperidade e glórias terrenas: “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga!” (Mt 16,24). Várias outras passagens do Evangelho retratam o convite a seguir Jesus, não por interesses pessoais, mas a abraçar de coração inteiro o Evangelho do reino de Deus por ele anunciado e tornado presente no mundo. É antiga e sempre atual a tentação de oferecer Jesus como um “produto” para a solução mágica para todos os males, sem a exigência de verdadeira fé e conversão ao reino de Deus. Um cristianismo sem mudança de vida, sem cruz nem renúncia aos próprios projetos, sem sintonia com o projeto de Deus, sem os 10 mandamentos da lei de Deus, seria falsificar Jesus e o Evangelho!

Lembrou o papa Francisco: uma Igreja sem Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, acabaria sendo uma espécie de “ONG do bem”, mas não seria mais a Igreja de Cristo!

Essa tentação insidiosa, mais do que nunca, pode ser atual em nossos dias: pretende-se apresentar um Jesus simpático e atraente, produto falsificado nas vitrines de um mercado religioso sempre mais florescente, para atrair adeptos com toda sorte de facilidades e vantagens. Lembrou o papa Francisco: uma Igreja sem Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, acabaria sendo uma espécie de “ONG do bem”, mas não seria mais a Igreja de Cristo! Tentação perigosa, pois mexe com coisas muito sérias e induz a engano fatal: “de que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?” – pergunta Jesus. (cf Mt 16,26). Quem busca Jesus apenas para ter vantagens pessoais, facilidades, vaidades e riquezas, não “arrisca” nada por ele; não é a Jesus e o reino de Deus que busca, mas apenas a si próprio e a seus projetos pessoais. A “renúncia a si mesmo” equivale, de fato, à primazia absoluta dada a Deus e a seus caminhos. A “religião fácil” é uma tentação perigosa, um grave engano! No final de tudo, se não houve sincera conversão e “renúncia a si mesmo”, mesmo tendo conseguido todas as vantagens do mundo, a frustração poderá ser total.

Por Cardeal Odilo Pedro Scherer – Arcebispo de São Paulo (SP)
Publicado em NOTÍCIAS CATÓLICAS.

Coro virtual com o poema “Nada Te Turbe” – Coro virtual oficial para a celebração dos 500 anos de nascimento (1515) de Santa Teresa de Ávila.

Coro virtual  com o poema “Nada Te Turbe“, escrito por Santa Teresa de Ávila.  É um dos dois coros virtuais oficiais, produzidos para a celebração dos 500 anos de nascimento (1515) de Santa Teresa de Jesus. O coro é constituído por carmelitas de todo o mundo e é acompanhado pela Orquestra Teresiana de St. James Cathedral, em Seattle, Washington, EUA. Música composta por Claire Sokol, OCD.

Papa Francisco concede entrevista a Il Messagero e fala da realidade de Roma, dos comunistas, do papel da mulher na Igreja, da corrupção e a política (Il Messagero – ACI Digital)

Papa Francisco concedeu duas longas entrevistas neste semestre. Nesta, é entrevistado pela jornalista italiana Franca Giansoldati,  do Il Messaggero (Roma – Itália). A entrevista foi publicada no dia 29-06-2014  com o título “O comunismo nos roubou a bandeira”. Ao longo da entrevista, traduzida por ACI Digital, e reproduzida pela “Fraternidade O Caminho”, podemos ver que este título pode ser lido tal como o Santo Padre declarou na entrevista: “A bandeira dos pobres é cristã”.

Boa leitura! Que Deus nos abençoe com discernimento e fortaleza nestes tempos de crise moral, econômica, social e política, aliás, uma crise que vem  afetando o mundo inteiro  há pelo menos duas décadas. (LBN)

………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………

Fonte: Fraternidade O Caminho (traduzido por ACI Digital)

Publicado em 1 de julho de 2014

Papa_Francisco_audiencia29ACI Digital oferece a seus leitores e ao público em geral a íntegra em português da entrevista que o Papa Francisco concedeu recentemente ao jornal italiano Il Messagero, publicada no domingo 29 de junho, festa dos Apóstolos Pedro e Paulo. Nesta oportunidade o Santo Padre fala da realidade de Roma, do comunismo, do papel da mulher na Igreja, da corrupção e a política.

O texto original da entrevista encontra-se aqui.

E então, na partida a Itália x Uruguai. Santo Padre, para quem torcia?

Eu, para nenhum, na verdade. Prometi à presidenta do Brasil (Dilma Rousseff), que seria neutro.

Começamos por Roma?

Você sabia que eu não conheço Roma? Veja só, eu vi a Capela Sistina pela primeira vez quando participei do Conclave que elegeu Bento XVI (2005). Nem sequer estive nos Museus. O fato é que quando era Cardeal não vinha muito frequentemente. Conheço Santa Maria Maior porque ia sempre. E depois São Lorenzo Extra Muros, onde ia para as confirmações quando estava Dom Giacomo Tantardini. Obviamente conheço Piazza Navona porque sempre me alojei na Via della Scrofa, ali ao lado”.

Há um pouco de romano no Bergoglio argentino?

Pouco e nada. Eu sou mais do Piamonte, essas são as raízes de minha família de origem. Ainda estou começando a me sentir romano. Tenho a intenção de ir visitar o território, as paróquias. Estou descobrindo pouco a pouco esta cidade. É uma metrópole muito formosa, única, com os problemas das grandes metrópoles. Uma pequena cidade possui a estrutura quase inequívoca, uma metrópole, por outro lado, compreende sete ou oito cidades imaginárias, superpostas juntas, em vários níveis. Também em níveis culturais.

Penso, por exemplo, nas tribos urbanas juvenis. Ocorre o mesmo em todas as cidades. Em novembro faremos em Barcelona um congresso dedicado precisamente à pastoral das metrópoles. Na Argentina promoveu-se intercâmbios com o México. Descobriram muitas culturas cruzadas, mas nem tanto devido às migrações, mas porque se tratavam de territórios culturais transversais, feitos de pertences próprios. Cidades dentre de uma cidade. A Igreja deve saber responder a este fenômeno.

Por que S.S. desde o começo quis sublinhar tanto as funções de Bispo de Roma?

O primeiro serviço de Francisco foi este: ser o Bispo de Roma. Todos os títulos do Papa, Pastor universal, Vigário de Cristo, etecetera, são dados ao Papa precisamente porque é Bispo de Roma. É a eleição primitiva. As consequências do Primado do Pedro. Se amanhã o Papa quisesse ser o Bispo de Tivoli, certamente me removeriam.

Há 40 anos, com o Papa Paulo VI, o Vicariato (da diocese de Roma) promoveu o congresso sobre os males de Roma. Dali saiu um quadro da cidade onde os que tinham muito tinham o melhor, e quem tinha pouco, tinha o pior. Hoje, no seu parecer, Quais são os males desta cidade?

São os das metrópoles como Buenos Aires. Estão os mais beneficiados, e aqueles que estão cada vez mais pobres. Não sabia do congresso sobre os males de Roma. Estas são perguntas muito romanas, e eu então tinha 38 anos. Sou o primeiro Papa que não participou do Concílio e, naquela época, para nós a grande luz era Paulo VI. Para mim, a Evangelii Nuntiandi, sempre será um documento pastoral insuperável.

Existe uma hierarquia de valores a ser respeitada na gestão dos assuntos públicos?

É evidente. Tutelar sempre o bem comum. A vocação para qualquer político é esta. Um conceito amplo que inclui, por exemplo, a custódia da vida humana, de sua dignidade. Paulo VI costumava dizer que a missão da política permanece como uma das mais altas da caridade. Hoje o problema da política –não falo só da Itália, mas de todos os países, pois o problema é mundial-, é que se desenvolveu, arruinado pela corrupção, pelo fenômeno dos subornos.

Lembro-me de um documento que publicaram os bispos franceses há 15 anos. Era uma carta pastoral titulada: Reabilitar a política. Confrontava precisamente este argumento. Se não houver um serviço de base, não se pode sequer entender a identidade da política.

Sua Santidade disse que a corrupção cheira a putrefação. Disse também que a corrupção social é o fruto do coração doente e não só de condições externas. Não haveria corrupção sem corações corruptos. O corrupto não tem amigos, apenas idiotas que lhe são úteis. Poderia explicar-nos melhor isso?

Falei durante dois dias seguidos sobre este tema porque comentava a leitura da Vinha de Nabor. Eu gosto de falar sobre as leituras do dia. No primeiro dia confrontei a fenomenologia da corrupção, no segundo dia sobre como acabam os corruptos. O corrupto, portanto, não tem amigos, só tem cúmplices.

Você acredita que se fala tanto de corrupção porque os meios de comunicação insistem neste tema ou porque efetivamente se trata de um mal endêmico e grave?

Não, infelizmente o fenômeno é mundial. Há chefes de estado na prisão precisamente por isso. Perguntei-me muito sobre isto, e cheguei à conclusão que muitos males crescem sobre tudo durante as mudanças de época. Estamos vivendo mais que uma época de mudanças, mas uma mudança de época. E portanto, trata-se de uma mudança de cultura, precisamente desta fase emergem coisas assim. A mudança de época alimenta a decadência moral, não só na política, mas também na vida financeira ou social.

Também os cristãos parecem não brilhar por seu testemunho…

O ambiente é o que facilita a corrupção. Não digo que todos sejam corruptos, mas acredito que é difícil permanecer honestos nesta política. Falo de todo o mundo, não só da Itália. Penso também em outros casos. Às vezes há pessoas que queriam fazer as coisas mais claras, mas depois se encontram com dificuldades, e é como se fossem fagocitados por um fenômeno endêmico, a altos níveis, transversais. Não porque seja esta a natureza da política, mas sim porque em uma mudança de época, as tensões para uma certa deriva moral se tornam fortes.

O que mais o assusta: a pobreza moral ou material de uma cidade?

As duas me assustam. Um faminto, por exemplo, posso ajudá-lo para que não tenha mais fome, mas se tiver perdido o trabalho e não encontra outra ocupação, isso já é outra pobreza. Ele já não tem dignidade. Possivelmente possa ir à Cáritas e levar para casa um pouco de mantimentos, mas experimenta uma pobreza muito grave que arruína o seu coração. Um Bispo auxiliar de Roma me contou que muitas pessoas vão aos refeitórios populares em segredo, cheios de vergonha, e levam para casa a comida. Sua dignidade se empobreceu e vivem em um estado de prostração.

Pelas grandes ruas de Roma vê-se mulheres de apenas 14 anos, frequentemente obrigadas a prostituir-se no meio do descuido geral, enquanto que no metrô vê-se crianças mendigando. A Igreja é ainda fermento para a massa? Sente-se impotente como Bispo ante esta degradação cultural?

Sinto dor. Sinto uma enorme dor. A exploração de crianças me faz sofrer. Também na Argentina ocorre o mesmo. Para alguns trabalhos manuais se utiliza crianças porque têm as mãos menores pequenas. Mas elas também são exploradas sexualmente em hotéis. Uma vez me advertiram sobre uma rua de Buenos Aires onde havia garotinhas, prostitutas de 12 anos. Informei-me e efetivamente era sim. Isto me feriu. Mais ainda ao ver que eram abordadas por automóveis de grande cilindrada conduzidos por idosos. Podiam ser seus avós. Subiam a menina ao carro, davam-lhe 15 pesos que depois eram usados para comprar drogas, uma dose. Para mim as pessoas que fazem isto com meninas são pedófilos. Acontece também em Roma. A cidade eterna que deveria ser um farol no mundo é um espelho da degradação moral da sociedade. Penso que são problemas que se resolve com uma boa política social.

O que pode fazer a política?

Responder limpamente. Por exemplo, com os serviços sociais que permitam que as famílias entendam e tenham acompanhamento para sair de situações difíceis. O fenômeno indica uma deficiência do serviço social na sociedade.

A Igreja está trabalhando muitíssimo…

E deve continuar fazendo-o. Precisamos ajudar as famílias em dificuldade, uma tarefa árdua que requer esforço comum.

Em Roma cada vez menos jovens vão à igreja, não batizam seus filhos, não sabem nem sequer fazer o sinal da cruz. Que estratégia serviria para mudar esta tendência?

A Igreja deve sair às ruas, procurar às pessoas, ir às casas, visitar as famílias, ir às periferias. Não ser uma Igreja que só recebe, mas que oferece.

E os párocos devem então colocar chifres nas ovelhas (ndt: referindo-se a que os cristãos devem ser encorajados pelos párocos a serem mais agressivos no anúncio da Boa Nova)…

(Risadas) Obviamente. Estamos em uma época de missão há dez anos. Devemos insistir nisso.

Preocupa-lhe a cultura da não-natalidade na Itália?

Acredito que é preciso trabalhar mais pelo bem comum da infância. Pôr sobre a família um compromisso, às vezes não é suficiente com um salário, não se chega ao fim do mês. Existe o medo de perder o trabalho ou de não poder pagar mais o aluguel. A política social não ajuda. A Itália tem uma taxa de natalidade muito baixa, a Espanha também. A França vai um pouco melhor, mas também é baixa. É como se a Europa, cansou-se do papel de mãe e preferisse o de avó. Muito depende da crise econômica e não só de uma deriva cultural sobrecarregada no egoísmo e no hedonismo. O outro dia eu lia uma estatística sobre os critérios do gasto da população em nível mundial. Depois da alimentação, vestidos e remédios, três vozes necessárias, seguem a estética e os gastos com os animais domésticos.

As crianças importam menos que os animais?

Trata-se de outro fenômeno de degradação cultural. Isto é porque a relação afetiva com os animais é mais fácil, mais previsível. Um animal não é livre, enquanto que ter um filho é uma coisa complexa.

O Evangelho fala mais aos pobres ou aos ricos para convertê-los?

A pobreza está no centro do Evangelho. Não se pode entender o Evangelho sem entender a pobreza real, tendo em conta que existe também uma pobreza belíssima do espírito: ser pobre perante Deus porque Deus te preenche. O Evangelho se dirige indistintamente a pobres e ricos. E fala tanto de pobreza como de riqueza. Não condena para nada aos ricos, mas sim as riquezas quando se tornam objetos de idolatria. O deus dinheiro, o bezerro de ouro.

Sua Santidade tem fama de ser um Papa comunista, populista. A revista The Economist, que lhe dedicou uma capa, afirma que fala como Lenin. Identifica-se com isto?

Eu digo apenas que os comunistas nos roubaram a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro do Evangelho. Os pobres estão no centro do Evangelho. Se olharmos Mateus 25, o protocolo sobre o qual seremos julgados: tive fome, tive sede, estive no cárcere, estive doente, nu. Ou olhemos as Bem-aventuranças, que é outra bandeira. Os comunistas dizem que tudo isto é comunista. Sim, como não, vinte séculos depois. Então quando falamos de comunistas, nós poderíamos virar e dizer: então vocês são cristãos! (risadas)

Se me permitir uma crítica…

Claro.

Você possivelmente fala pouco das mulheres e quando fala confronta o argumento só do ponto de vista maternal, a mulher esposa, a mulher mãe, etecetera. E as mulheres já dirigem estados, multinacionais, exércitos. Na Igreja, segundo você, que lugar ocupa as mulheres?

As mulheres são o mais formoso que Deus criou. A Igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem esta feminidade. Disto você tem razão, não se fala o suficiente. Estou de acordo que se deve trabalhar mais sobre a teologia da mulher. Eu já disse e se está trabalhando neste sentido.

Não entrevê uma certa misoginia de fundo?

O fato é que a mulher foi tirada de uma costela… (risadas). Brinco, eu só estava brincando. Estou de acordo que é necessário aprofundar mais na questão feminina, do contrário não se pode entender a Igreja em si mesma.

Podemos esperar de você decisões históricas, tipo uma mulher chefe de dicastério, não falo do clero…

(Risadas). Bom, muitas vezes os sacerdotes acabam sob a autoridade das beatas de igreja…

Em agosto S.S. irá a Coréia. É a porta para a China? Está apontando para a Ásia?

Irei à Ásia duas vezes em seis meses. À Coréia em agosto para encontrar aos jovens asiáticos. Em janeiro ao Sri Lanka e Filipinas. A Igreja na Ásia é uma promessa. A Coréia representa muito, tem uma história muito bonita, durante dois séculos não teve sacerdotes e o catolicismo avançou graças aos leigos. Houve também mártires. Quanto à China, trata-se de um desafio cultural grande. Maior. E depois está o exemplo de Matteo Ricci, que fez tanto bem…

Para onde está indo a Igreja de Bergoglio?

Graças a Deus não tenho nenhuma Igreja, sigo a Cristo. Não fundei nada. Do ponto de vista do estilo não mudei comparado a como eu era em Buenos Aires. Sim, possivelmente alguma coisa pequena, porque é devido, mas mudar na minha idade teria sido ridículo. Em meu programa, por outro lado, sigo o que os cardeais pediram durante as congregações gerais antes do Conclave. Vou nessa direção. O Conselho dos oito cardeais, um organismo externo, nasce daí. Haviam pedido para ajudar a reformar a Cúria. Algo por outro lado nada fácil, porque damos um passo, mas logo ocorre algo que mostra que falta isso ou aquilo, e se primeiro era um dicastério depois se converte em quatro… Minhas decisões são o fruto das reuniões Pré-Conclave. Eu não tenho feito nada sozinho.

Isto é uma aproximação democrática…

Foram as escolhas dos cardeais. Não sei se se trata de uma aproximação democrática, diria que foi mais sinodal, ainda que esta palavra para os cardeais não seja a apropriada.

Que deseja aos romanos pela festa dos padroeiros São Pedro e Paulo?

Que continuem sendo bons. São muito simpáticos. Vejo-os nas audiências e quando vou às paróquias. Espero deles que não percam a alegria, a esperança, a fé não obstante as dificuldades. Também o ‘romanaccio’ –dialeto romano-, é bonito.

Wojtyla tinha aprendido a dizer em dialeto romano. ‘nos amemos os uns aos outros, nos ofereçamos a outros’. Você aprendeu alguma frase em romano?

Por enquanto poucas, ´Campa e fa’ campa´ -viva e deixe viver- (termina o Papa com risadas).

Por ACI Digital.

Corpus Christi – O que significa celebrar a Festa ou celebrar a Eucaristia? Quais são as suas consequências? (Catolicismo Online)

Fonte: Catolicismo Online (conteúdo extraído do site Grupo de oração Filhos de Maria)

corpus-christi-2

Reflexão

O que significa celebrar a Festa de Corpus Christi?

 Quais são as suas consequências?

Postado por Natanael Melo

1. A festa de Corpus Christi é a festa de caridade, porque a Eucaristia significa também o maior amor, a maior generosidade e a maior entrega de Cristo. Honrar o Corpo de Cristo significa também aproximar-se do irmão com o maior respeito e disponibilidade, porque ele também é o Corpo de Cristo (Igreja é o Corpo de Cristo e o Cristo sua cabeça). O Corpo de Cristo é partido em nossos altares para saciar nossas fomes de sentido, mas também para termos mais consciência de sermos mais generosos a exemplo de Cristo.

2. A Eucaristia é uma ceia fraterna na qual todos são tratados como irmãos e irmãs. A ceia fraterna não pode ser entendida sem comunhão fraterna, sem convivência com o Senhor e com os demais comensais ou com as demais pessoas. É certo que a Eucaristia constrói ou edifica a Igreja, mas a constrói ou edifica como comunidade que compartilha. Compartilhar é mais do que repartir o que temos, é mudar nossa forma de pensar e de viver para fazer possível uma convivência fraterna e solidária. Como dizia João Paulo II: “Nossa união com Cristo na Eucaristia deve manifestar-se, no dia de hoje, em nossa existência: em nossas atividades, em nossa conduta, em nosso estilo de vida e na relação com os demais”. Não é possível celebrar ou participar da Eucaristia sem a vivencia do amor fraterno, da caridade mútua e da solidariedade. Um escritor francês disse: “Não se pode crer impunemente”, isto é, não se pode crer sem que tenha consequências em nossa vida. Não se pode comungar o Corpo de Cristo sem que tenha consequências em nossa vida. Compartir o pão com os irmãos, especialmente com os necessitados é comungar com Cristo. Não tomaremos a sério a comunhão se não tomarmos a sério a vida, a justiça, a fraternidade e a honestidade.

3. O Corpo de Cristo significa o Pão que partimos, o pão da vida (Jo 6,52). Mas quando a comunhão é entendida como “minha comunhão”, assunto privado entre Jesus Cristo e minha vida, o Corpo de Cisto que é a Igreja se desintegra: cada um come seu próprio pão e este já não é “pão que partimos”. Não podemos pertencer à Igreja de Cristo como se pertencesse a um clube somente para utilidade própria. A comunhão somente é autêntica quando não se privatiza e se apropria. Comungar Cristo significa comungar com os demais como irmãos porque Jesus Cristo entregou sua vida para a salvação de todos. São Paulo destaca a exigência de unidade que brota da Eucaristia. Todos os que comungam o Corpo e o Sangue de Cristo se fazem com ele um só corpo. A unidade de alimento produz também unidade entre os membros da comunidade que o assimila. As diferenças que humilham uns irmãos contradizem o amor a Cristo e a unidade entre os membros da comunidade. Por isso, hoje é o dia oportuno para uma revisão de nossa vida comunitária vivida na comunhão e na fraternidade que dimana da Eucaristia.

4. Comer o Corpo e beber o Sangue do Senhor significa comer e beber o amor à vida e todo o que se refere à vida: liberdade, justiça, participação, fraternidade, igualdade. Uma Eucaristia que fica reduzida a um mero ato litúrgico é uma traição à última Ceia de Jesus da qual nasceu a Igreja. Trata-se de uma Igreja de irmãos, de apóstolos (enviados), de testemunhas, de mártires. Comer e beber a carne e o sangue de Jesus significa alimentar-se e alimentar uma humanidade necessitada de Jesus, Pão da Vida. É uma humanidade que para poder ser chamada de cristã precisa fazer desaparecer a injustiça, o ódio, a vingança, a discriminação, o racismo e assim por diante. Comungar com Cristo é comungar com sua causa. Todos somos chamados a seguir a Jesus Cristo, a ter fé nele, a caminhar pelo seu caminho. Todos nós sabemos que em Cristo temos o Caminho, a Verdade e a Vida. Na última Ceia Jesus nos recomendou: “Fazei isto em minha memória”. Toda Eucaristia é memorial que faz presente a entrega à morte do Mestre. Na Eucaristia, é o amor no Filho que se entregou para que possamos ter a vida eterna. Quem descobre o amor de um Deus que amou tanto os homens (cf. Jo 3,16), experimenta a chamada para difundir entre os homens este mesmo amor. Não se pode comungar com o gesto supremo de amor e ao mesmo tempo continuar odiando, desprezando os outros.

5. A Eucaristia é o alimento do povo de Deus que peregrina neste mundo. É o Pão do céu que gera a vida além da morte. Precisamente como peregrinos a Eucaristia se torna para nós o viático com o qual o cristão ganha sua força para poder passar deste mundo para a casa do Pai. O viático dá ao cristão a garantia de que sua morte não será o término e sim trânsito para a vida eterna, vida gloriosa.

A partir destes pensamentos e de outros tantos referentes a esta festa, vem a pergunta para cada um de nós: “Comungo o Corpo do Senhor apenas para cumprir o preceito ou tenho consciência de que ao comungar o Corpo do Senhor devo ser outro Cristo para os demais?”.

Fonte: http://www.filhosdemaria.com.br

Publicado em Catolicismo Online.

“[…]Haverá alguma coisa, no ambiente digital, que nos ajuda a crescer em humanidade e na compreensão recíproca?[…]” – Papa Francisco – 01 de junho – Conferência – XLVIII DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS (Vaticano)

Aldeia_Global_Wikipedia

Fonte: VATICAN.VA

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO
PARA O XLVIII DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

«Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro»

[Domingo, 1 de Junho de 2014]

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje vivemos num mundo que está a tornar-se cada vez menor, parecendo, por isso mesmo, que deveria ser mais fácil fazer-se próximo uns dos outros. Os progressos dos transportes e das tecnologias de comunicação deixam-nos mais próximo, interligando-nos sempre mais, e a globalização faz-nos mais interdependentes. Todavia, dentro da humanidade, permanecem divisões, e às vezes muito acentuadas. A nível global, vemos a distância escandalosa que existe entre o luxo dos mais ricos e a miséria dos mais pobres. Frequentemente, basta passar pelas estradas duma cidade para ver o contraste entre os que vivem nos passeios e as luzes brilhantes das lojas. Estamos já tão habituados a tudo isso que nem nos impressiona. O mundo sofre de múltiplas formas de exclusão, marginalização e pobreza, como também de conflitos para os quais convergem causas econômicas, políticas, ideológicas e até mesmo, infelizmente, religiosas.

Neste mundo, os mass-media podem ajudar a sentir-nos mais próximo uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna. Uma boa comunicação ajuda-nos a estar mais perto e a conhecer-nos melhor entre nós, a ser mais unidos. Os muros que nos dividem só podem ser superados, se estivermos prontos a ouvir e a aprender uns dos outros. Precisamos de harmonizar as diferenças por meio de formas de diálogo, que nos permitam crescer na compreensão e no respeito. A cultura do encontro requer que estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros. Os mass-media podem ajudar-nos nisso, especialmente nos nossos dias em que as redes da comunicação humana atingiram progressos sem precedentes. Particularmente a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é uma coisa boa, é um dom de Deus.

No entanto, existem aspectos problemáticos: a velocidade da informação supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite uma expressão equilibrada e correta de si mesmo. A variedade das opiniões expressas pode ser sentida como riqueza, mas é possível também fechar-se numa esfera de informações que correspondem apenas às nossas expectativas e às nossas ideias, ou mesmo a determinados interesses políticos e econômicos. O ambiente de comunicação pode ajudar-nos a crescer ou, pelo contrário, desorientar-nos. O desejo de conexão digital pode acabar por nos isolar do nosso próximo, de quem está mais perto de nós. Sem esquecer que a pessoa que, pelas mais diversas razões, não tem acesso aos meios de comunicação social corre o risco de ser excluído.

Estes limites são reais, mas não justificam uma rejeição dos mass-media; antes, recordam-nos que, em última análise, a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica. Portanto haverá alguma coisa, no ambiente digital, que nos ajuda a crescer em humanidade e na compreensão recíproca? Devemos, por exemplo, recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar. Temos necessidade também de ser pacientes, se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: uma pessoa expressa-se plenamente a si mesma, não quando é simplesmente tolerada, mas quando sabe que é verdadeiramente acolhida. Se estamos verdadeiramente desejosos de escutar os outros, então aprenderemos a ver o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas várias culturas e tradições. Entretanto saberemos apreciar melhor também os grandes valores inspirados pelo Cristianismo, como, por exemplo, a visão do ser humano como pessoa, o matrimônio e a família, a distinção entre esfera religiosa e esfera política, os princípios de solidariedade e subsidiariedade, entre outros.

Então, como pode a comunicação estar ao serviço de uma autêntica cultura do encontro? E – para nós, discípulos do Senhor – que significa, segundo o Evangelho, encontrar uma pessoa? Como é possível, apesar de todas as nossas limitações e pecados, ser verdadeiramente próximo aos outros? Estas perguntas resumem-se naquela que, um dia, um escriba – isto é, um comunicador – pôs a Jesus: «E quem é o meu próximo?» (Lc 10, 29 ). Esta pergunta ajuda-nos a compreender a comunicação em termos de proximidade. Poderíamos traduzi-la assim: Como se manifesta a «proximidade» no uso dos meios de comunicação e no novo ambiente criado pelas tecnologias digitais? Encontro resposta na parábola do bom samaritano, que é também uma parábola do comunicador. Na realidade, quem comunica faz-se próximo. E o bom samaritano não só se faz próximo, mas cuida do homem que encontra quase morto ao lado da estrada. Jesus inverte a perspectiva: não se trata de reconhecer o outro como um meu semelhante, mas da minha capacidade para me fazer semelhante ao outro. Por isso, comunicar significa tomar consciência de que somos humanos, filhos de Deus. Apraz-me definir este poder da comunicação como «proximidade».

Quando a comunicação tem como fim predominante induzir ao consumo ou à manipulação das pessoas, encontramo-nos perante uma agressão violenta como a que sofreu o homem espancado pelos assaltantes e abandonado na estrada, como lemos na parábola. Naquele homem, o levita e o sacerdote não veem um seu próximo, mas um estranho de quem era melhor manter a distância. Naquele tempo, eram condicionados pelas regras da pureza ritual. Hoje, corremos o risco de que alguns mass-media nos condicionem até ao ponto de fazer-nos ignorar o nosso próximo real.

Não basta circular pelas «estradas» digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos de amar e ser amados. Precisamos de ternura. Não são as estratégias comunicativas que garantem a beleza, a bondade e a verdade da comunicação. O próprio mundo dos mass-media não pode alhear-se da solicitude pela humanidade, chamado como é a exprimir ternura. A rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas. A neutralidade dos mass-media é só aparente: só pode constituir um ponto de referimento quem comunica colocando-se a si mesmo em jogo. O envolvimento pessoal é a própria raiz da fiabilidade dum comunicador. É por isso mesmo que o testemunho cristão pode, graças à rede, alcançar as periferias existenciais.

Tenho-o repetido já diversas vezes: entre uma Igreja acidentada que sai pela estrada e uma Igreja doente de autorreferencialidade, não hesito em preferir a primeira. E quando falo de estrada penso nas estradas do mundo onde as pessoas vivem: é lá que as podemos, efetiva e afectivamente, alcançar. Entre estas estradas estão também as digitais, congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança. Também graças à rede, pode a mensagem cristã viajar «até aos confins do mundo» (Act 1, 8). Abrir as portas das igrejas significa também abri-las no ambiente digital, seja para que as pessoas entrem, independentemente da condição de vida em que se encontrem, seja para que o Evangelho possa cruzar o limiar do templo e sair ao encontro de todos. Somos chamados a testemunhar uma Igreja que seja casa de todos. Seremos nós capazes de comunicar o rosto duma Igreja assim? A comunicação concorre para dar forma à vocação missionária de toda a Igreja, e as redes sociais são, hoje, um dos lugares onde viver esta vocação de redescobrir a beleza da fé, a beleza do encontro com Cristo. Inclusive no contexto da comunicação, é precisa uma Igreja que consiga levar calor, inflamar o coração.

O testemunho cristão não se faz com o bombardeio de mensagens religiosas, mas com a vontade de se doar aos outros «através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana (Bento XVI, Mensagem para o XLVII Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013). Pensemos no episódio dos discípulos de Emaús. É preciso saber-se inserir no diálogo com os homens e mulheres de hoje, para compreender os seus anseios, dúvidas, esperanças, e oferecer-lhes o Evangelho, isto é, Jesus Cristo, Deus feito homem, que morreu e ressuscitou para nos libertar do pecado e da morte. O desafio requer profundidade, atenção à vida, sensibilidade espiritual. Dialogar significa estar convencido de que o outro tem algo de bom para dizer, dar espaço ao seu ponto de vista, às suas propostas. Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas.

Possa servir-nos de guia o ícone do bom samaritano, que liga as feridas do homem espancado, deitando nelas azeite e vinho. A nossa comunicação seja azeite perfumado pela dor e vinho bom pela alegria. A nossa luminosidade não derive de truques ou efeitos especiais, mas de nos fazermos próximo, com amor, com ternura, de quem encontramos ferido pelo caminho. Não tenhais medo de vos fazerdes cidadãos do ambiente digital. É importante a atenção e a presença da Igreja no mundo da comunicação, para dialogar com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo: uma Igreja companheira de estrada sabe pôr-se a caminho com todos. Neste contexto, a revolução nos meios de comunicação e de informação são um grande e apaixonante desafio que requer energias frescas e uma imaginação nova para transmitir aos outros a beleza de Deus.

Vaticano, 24 de Janeiro – Memória de São Francisco de Sales – do ano 2014.

Franciscus

 

Publicado em VATICAN.VA.

Imagem: Wikipedia.org.