Papa Bento XVI sobre São Gregório Magno:”(…)A esperança do cumprimento em Cristo de todas as coisas é um pensamento constante do grande pontífice e acaba por converter-se em motivo inspirador de todo seu pensamento e atividade. Daqui brotam seus incessantes chamados à vigilância e ao empenho nas boas obras.(…)” – Veritatis Splendor (03 de setembro-Memória)

Fonte: Apostolado Veritatis Splendor

Tradução: Élison Santos (Fonte: Zenit)

SÃO GREGÓRIO I DE ROMA

São Gregório Magno (São Gregório I de Roma)
São Gregório Magno

Por Papa Bento XVI

Queridos irmãos e irmãs!

Na quarta-feira passada, falei de um Padre da Igreja pouco conhecido no Ocidente, Romano o Meloda; hoje desejo apresentar a figura de um dos maiores Padres da história da Igreja, um dos quatro doutores do Ocidente, o Papa São Gregório, que foi bispo de Roma entre o ano 590 e 604, e que mereceu da parte da tradição o título Magnus/Grande. Gregório foi verdadeiramente um grande Papa e um grande Doutor da Igreja! Nasceu em Roma, em torno de 540, de uma rica família patrícia da gens Anicia, que se distinguia não só pela nobreza de sangue, mas também pelo apego à fé cristã e pelos serviços prestados à Sé Apostólica. Desta família procediam dois Papas: Félix III (483-492), tataravô de Gregório, e Agapito (535-536). A casa na qual Gregório cresceu se levantava na Clivus Scauri, rodeada de solenes edifícios que testemunhavam a grandeza da antiga Roma e a força espiritual do cristianismo. Para inspirar-lhe elevados sentimentos cristãos estiveram também os exemplos de seus pais Giordiano e Silvia, ambos venerados como santos, e os de suas tias paternas Emiliana e Tarsília, que viviam na própria casa como virgens consagradas em um caminho compartilhado de oração e ascese.

Gregório ingressou logo na carreira administrativa, que havia seguido também seu pai, e em 572 alcançou o cume, convertendo-se em prefeito da cidade. Este cargo, complicado pela tristeza daqueles tempos, permitiu-lhe aplicar-se em um amplo raio a todo tipo de problemas administrativos, obtendo deles luz para suas futuras tarefas. Em particular ficou nele um profundo sentido da ordem e da disciplina: já como Papa, sugerirá aos bispos que tomem como modelo na gestão dos assuntos eclesiásticos a diligência e o respeito das leis próprias dos funcionários civis. Aquela vida não lhe devia satisfazer, visto que, não muito depois, decidiu deixar todo cargo civil para retirar-se em sua casa e começar a vida de monge, transformando a casa de família no mosteiro de Santo André. Desse período de vida monástica, vida de diálogo permanente com o Senhor na escuta de sua palavra, ficou nele uma perene nostalgia que sempre de novo e cada vez mais aparece em suas homilias: em meio às preocupações pastorais, ele recordará várias vezes em seus escritos como um tempo feliz de recolhimento em Deus, de dedicação à oração, de serena imersão no estudo. Pôde assim adquirir esse profundo conhecimento da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, do qual se serviu depois em suas obras.

Mas o retiro claustral de Gregório não durou muito. A preciosa experiência amadurecida na administração civil em um período carregado de graves problemas, as relações que teve nesta tarefa com os bizantinos, a estima universal que havia ganhado, induziram o Papa Pelágio a nomeá-lo diácono e a enviá-lo a Constantinopla como seu «apocrisiario» – hoje se diria «Núncio Apostólico» – para favorecer a superação dos últimos restos de controversa monofisista e sobretudo para obter o apoio do imperador no esforço de conter a pressão longobarda. A permanência em Constantinopla, onde havia reiniciado a vida monástica com um grupo de monges, foi importantíssima para Gregório, pois lhe permitiu ganhar experiência direta no mundo bizantino, assim como se aproximar do problema dos Longobardos, que depois colocaria à prova sua habilidade e sua energia nos anos do Pontificado. Passados alguns anos, foi chamado de novo a Roma pelo Papa, que o nomeou seu secretário. Eram anos difíceis: as contínuas chuvas, o transbordamento dos rios e a carestia atingiam muitas áreas da Itália e da própria Roma. No final se desatou a peste, que causou numerosas vítimas, entre elas também o Papa Pelágio II. O clero, o povo e o senado foram unânimes em eleger como seu sucessor na Sede de Pedro precisamente ele, Gregório. Tentou resistir, inclusive buscando a fuga, mas tudo foi inútil: ao final teve de ceder. Era o ano de 590.

Reconhecendo que havia sucedido a vontade de Deus, o novo pontífice se pôs imediatamente ao trabalho com empenho. Desde o princípio revelou uma visão singularmente lúcida da realidade com a qual devia medir-se, uma extraordinária capacidade de trabalho ao enfrentar os assuntos tanto eclesiais como civis, um constante equilíbrio nas decisões, também valentes, que sua missão lhe impunha. Conserva-se de seu governo uma ampla documentação graças ao Registro de suas cartas (aproximadamente 800), nas quais se reflete o enfrentamento diário dos complexos interrogantes que chegavam à sua mesa. Eram questões que procediam dos bispos, dos abades, dos clérigos, e também das autoridades civis de toda ordem e grau. Entre os problemas que afligiam naquele tempo a Itália e Roma, havia um de particular relevância no âmbito tanto civil como eclesial: a questão longobarda. A ela o Papa dedicou toda a energia possível com vistas a uma solução verdadeiramente pacificadora. Ao contrário do Imperador bizantino, que partia do pressuposto de que os Longobardos eram só indivíduos depredadores a quem era preciso derrotar ou exterminar, São Gregório via estas pessoas com os olhos do bom pastor, preocupado por anunciar-lhes a palavra de salvação, estabelecendo com eles relações de fraternidade orientadas a uma futura paz fundada no respeito recíproco e na serena convivência entre italianos, imperiais e longobardos. Preocupou-se pela conversão dos jovens povos e da nova organização civil da Europa: os Visigodos da Espanha, os Francos, os Saxões, os imigrantes na Bretanha e os Lonbogardos foram os destinatários privilegiados de sua missão evangelizadora. Ontem celebramos a memória litúrgica de Santo Agostinho de Canterbury, guia de um grupo de monges aos que Gregório encomendou ir a Bretanha para evangelizar a Inglaterra.

Para obter uma paz efetiva em Roma e na Itália, o Papa se empenhou a fundo – era um verdadeiro pacificador – empreendendo uma estreita negociação com o rei longobardo Agilulfo. Tal conversa levou a um período de trégua que durou cerca de três anos (598-601), após os quais foi possível estipular em 603 um armistício mais estável. Este resultado positivo se conseguiu graças também aos contatos paralelos que, entretanto, o Papa mantinha com a rainha Teodolinda, que era uma princesa bávara e, ao contrário dos chefes dos outros povos germanos, era católica, profundamente católica. Conserva-se uma série de cartas do Papa Gregório a esta rainha, nas quais ele mostra sua estima e sua amizade para com ela. Teodolinda conseguiu, pouco a pouco, orientar o rei para o catolicismo, preparando assim o caminho para a paz. O Papa se preocupou também de enviar-lhe as relíquias para a basílica de São João Batista que ela levantou em Monza, e não deixou de felicitar e oferecer preciosos presentes para a mesma catedral de Monza por ocasião do nascimento e do batismo de seu filho Adoaloaldo. A vicissitude desta rainha constitui um belo testemunho sobre a importância das mulheres na história da Igreja. No fundo, os objetivos sobre os que Gregório apontou constantemente foram três: conter a expansão dos Longobardos na Itália, subtrair a rainha Teodolinda da influência dos cismáticos e reforçar a fé católica, assim como mediar entre Longobardos e Bizantinos com vistas a um acordo que garantisse a paz na península e consentisse desenvolver uma ação evangelizadora entre os próprios Longobardos. Portanto, foi dupla sua constante orientação na complexa situação: promover acordos no plano diplomático-político e difundir o anúncio da verdadeira fé entre as populações.

Junto à ação meramente espiritual e pastoral, o Papa Gregório foi ativo protagonista também de uma multiforme atividade social. Com as rendas do conspícuo patrimônio que a Sede romana possuía na Itália, especialmente na Sicília, comprou e distribuiu trigo, socorreu quem se encontrava em necessidade, ajudou sacerdotes, monges e monjas que viviam na indigência, pagou resgates de cidadãos que eram prisioneiros dos Longobardos, adquiriu armistícios e tréguas. Também desenvolveu tanto em Roma como em outras partes da Itália uma atenta obra de reordenação administrativa, ministrando instruções precisas para que os bens da Igreja, úteis à sua subsistência e à sua obra evangelizadora no mundo, se dirigissem com absoluta retidão e segundo as regras da justiça e da misericórdia. Exigia que os colonos fossem protegidos dos abusos dos concessionários das terras de propriedade da Igreja e, em caso de fraude, que foram ressarcidos com prontidão, para que o rosto da Esposa de Cristo não se contaminasse com benefícios desonestos.

Gregório levou a cabo esta intensa atividade apesar de sua incerta saúde, que o obrigava com freqüência a ficar de cama durante longos dias. Os jejuns que havia praticado nos anos da vida monástica lhe haviam ocasionado sérios transtornos digestivos. Também sua voz era muito frágil, de forma que com freqüência tinha de confiar ao diácono a leitura de suas homilias para que os fiéis das basílicas romanas pudessem ouvi-lo. Ele fazia o possível por celebrar nos dias de festa Missarum sollmnia, isto é, a Missa Solene, e então se encontrava pessoalmente com o povo de Deus, que o estimava muito porque via nele a referência autorizada para obter segurança: não por acaso lhe atribuíram logo o título de consul Dei. Apesar das dificílimas condições nas quais teve de atuar, conseguiu conquistar, graças à santidade de vida e à rica humanidade, a confiança dos fiéis, conseguindo para seu tempo e para o futuro resultados verdadeiramente grandiosos. Era um homem imerso em Deus: o desejo de Deus estava sempre vivo no fundo de sua alma e precisamente por isso estava sempre muito perto do próximo, das necessidades das pessoas de sua época. Em um tempo desastroso, mais ainda, desesperado, soube criar paz e esperança. Este homem de Deus nos mostra as verdadeiras fontes da paz, de onde vem a esperança, e se converte assim em uma guia também para nós hoje.

SERVO DOS SERVOS DE DEUS
Volto hoje, em nosso encontro das quartas-feiras, à extraordinária figura do Papa Gregório Magno, para recolher mais luzes de seu rico ensinamento. Apesar dos múltiplos compromissos vinculados à sua missão como bispo de Roma, ele nos deixou numerosas obras das quais a Igreja, nos séculos seguintes, nutriu-se abundantemente. Além de seu conspícuo epistolário – o Registro ao qual aludia na catequese passada contém mais de 800 cartas –, ele nos deixou sobretudo escritos de caráter exegeta, entre os quais se distinguem o Comentário moral a Jó –conhecido sob o título latino de Morallia in Iob –, as Homilias sobre Ezequiel, as Homilias sobre os Evangelhos. Desta forma, existe uma importante obra de caráter hagiográfico, os Diálogos, escrita por Gregório para a edificação de rainha longobarda Teodolinda. A principal e mais conhecida obra é sem dúvida a Regra pastoral, que o Papa redigiu no começo de seu pontificado com finalidade claramente programática.

Fazendo um rápido repasso por estas obras, observamos, antes de tudo, que em seus escritos Gregório jamais se mostra preocupado em traçar uma doutrina «sua», uma originalidade própria. Mas tenta fazer eco do ensinamento tradicional da Igreja, quer simplesmente ser a boca de Cristo e de sua Igreja no caminho que se deve percorrer para chegar a Deus. A respeito disso, são exemplares seus comentários exegéticos. Foi um apaixonado leitor da Bíblia, à qual se aproximou com pretensões não meramente especulativas: da Sagrada Escritura, pensava ele, o cristão deve tirar não tanto um conhecimento teórico, mas o alimento cotidiano para sua alma, para sua vida de homem neste mundo. Nas Homilias sobre Ezequiel, por exemplo, ele insiste fortemente nesta função do texto sagrado; aproximar-se da Escritura simplesmente para satisfazer o próprio desejo de conhecimento significa ceder à tentação do orgulho e expor-se assim ao risco de cair na heresia. A humildade intelectual é a regra primária para quem tenta penetrar nas realidades sobrenaturais partindo do Livro Sagrado. A humildade, obviamente, não exclui o estudo sério; mas para conseguir que este seja verdadeiramente proveitoso, consistindo entrar realmente na profundidade do texto, a humildade é indispensável. Só com esta atitude interior se escuta realmente e se percebe por fim a voz de Deus. Por outro lado, quando se trata da Palavra de Deus, compreender não é nada se a compreensão não conduz à ação. Nestas homilias sobre Ezequiel se encontra também essa bela expressão segundo a qual «o pregador deve molhar sua caneta no sangue de seu coração; poderá assim chegar também ao ouvido do próximo». Ao ler estas homilias suas se vê que realmente Gregório escreveu com o sangue de seu coração e por isso continua falando a nós.

Gregório desenvolve também este tema no Comentário moral a Jó. Seguindo a tradição patrística, examina o texto sacro nas três dimensões de seu sentido: a dimensão literal, a dimensão alegórica e a moral, que são dimensões do único sentido da Sagrada Escritura. Contudo, Gregório atribui uma clara preponderância ao sentido moral. Nesta perspectiva propõe seu pensamento através de alguns binômios significativos – saber-fazer, saber-viver, conhecer-atuar. Isso nos evoca os dois aspectos da vida humana que deverão ser complementares, mas que com freqüência acabam por ser antitéticos. O ideal moral – comenta – consiste sempre em levar a cabo uma harmoniosa integração entre palavra e ação, pensamento e compromisso, oração e dedicação aos deveres entre palavra e ação, pensamento e compromisso, oração e dedicação aos deveres do próprio estado: este é o caminho para realizar a síntese graças à qual o divino desce no homem e o homem se eleva até a identificação com Deus. O grande papa traça assim para o autêntico crente um projeto de vida completo; por isso, o Comentário moral a Jó constituirá no curso da Idade Média uma espécie de Summa da moral cristã.

São de notável relevância e beleza também as suas Homilias sobre os Evangelhos. A primeira delas foi pronunciada na basílica de São Pedro durante o tempo de Advento do ano 590, portanto, poucos meses depois de sua eleição ao pontificado; a última foi pronunciada na basílica de São Lourenço no segundo domingo depois do Pentecostes de 593. O Papa pregava ao povo nas igrejas onde se celebravam as «estações» – especiais cerimônias de oração nos tempos fortes do ano litúrgico – ou as festas dos mártires titulares. O princípio inspirador que une as diversas intervenções se sintetiza na palavra “praedicator”: não só o ministro de Deus, mas também todo cristão tem a tarefa de tornar-se «pregador» de tudo que experimentou em seu interior, a exemplo de Cristo, que se fez homem para levar a todos o anúncio da salvação. O horizonte deste compromisso é o escatológico: a esperança do cumprimento em Cristo de todas as coisas é um pensamento constante do grande pontífice e acaba por converter-se em motivo inspirador de todo seu pensamento e atividade. Daqui brotam seus incessantes chamados à vigilância e ao empenho nas boas obras.

Talvez o texto mais orgânico de Gregório Magno seja a Regra pastoral, escrita nos primeiros anos de pontificado. Nela, Gregório se propõe traçar a figura do bispo ideal, mestre e guia de seu rebanho. A tal fim ilustra a gravidade do ofício de pastor da Igreja e os deveres que isso comporta: portanto, aqueles que não foram chamados a tal tarefa, que não a busquem com superficialidade; aqueles, ao contrário, que a tenham assumido sem a devida reflexão, que sintam nascer na alma uma necessária turbação. Retomando um tema predileto, afirma que o bispo é antes de tudo o «pregador» por excelência; como tal, deve ser sobretudo exemplo para os demais, de forma que seu comportamento possa constituir um ponto de referência para todos. Uma ação pastoral eficaz requer também que ele conheça os destinatários e adapte suas intervenções à situação de cada um: Gregório se detém em ilustrar a valorização de quem viu nesta obra também um tratado de psicologia. Daqui se entende que ele conhecia realmente seu rebanho e falava de tudo com as pessoas de seu tempo e de sua cidade.

O grande pontífice, contudo, insiste no dever de que o pastor deve reconhecer cada dia a própria miséria, de maneira que o orgulho não torne vão, aos olhos do Juiz Supremo, o bem realizado. Por isso, o capítulo final da Regra está dedicado à humildade: «Quando se tem complacência em ter alcançado muitas virtudes, é bom refletir sobre as próprias insuficiências e humilhar-se; ao invés de considerar o bem realizado, é preciso considerar o que se descuidou». Todas estas indicações preciosas demonstram o altíssimo conceito que São Gregório tem do cuidado das almas, por ele definido «ars artium», a arte das artes. A Regra teve um êxito tão grande que, coisa mais bem rara, logo se traduziu em grego e em anglo-saxônico.

Significativa é igualmente outra obra, os Diálogos, nos quais o amigo e diácono Pedro, convencido de que os costumes estavam tão corrompidos que não permitiam que tivesse santos como em tempos passados, Gregório demonstra o contrário: a santidade sempre é possível, ainda em tempos difíceis. O prova narrando a vida de pessoas contemporâneas ou desaparecidas recentemente às que bem se poderia qualificar de santas, ainda que não estivessem canonizadas. A narração está acompanhada de reflexões teológicas e místicas que fazem do livro um texto hagiográfico singular, capaz de fascinar gerações inteiras de leitores. O material toca as tradições vivas do povo e tem o objetivo de edificar e formar, atraindo a atenção de quem lê sobre uma série de questões como o sentido do milagre, a interpretação da Escritura, a imortalidade da alma, a existência do inferno, a representação do mais além, temas todos que requeriam oportunos esclarecimentos. O livro II se dedica por inteiro à figura de Bento de Nursia e é o único testemunho antigo da vida do santo monge, cuja beleza espiritual aparece no texto com toda evidência.

Na linha teológica que Gregório desenvolve através de suas obras, passado, presente e futuro se relativizam. O que conta para ele, mais que nada, é todo o arco da história salvífica, que continua desenvolvendo-se entre os obscuros meandros do tempo. Nesta perspectiva, é significativo que ele introduza o anúncio da conversão dos Anglos no meio do Comentário moral a Jó: a seus olhos, o evento constituía um alento do Reino de Deus do qual trata a Escritura; portanto, podia mencionar-se no comentário um livro sacro. Em sua opinião, os guias das comunidades cristãs devem empenhar-se em reler os acontecimentos à luz da Palavra de Deus: neste sentido, o grande pontífice sente o dever de orientar pastores e fiéis no itinerário espiritual de uma lectio divina iluminada e concreta, situada no contexto da própria vida. (*)

Antes de concluir, é necessário falar das relações que o Papa Gregório cultivou com os patriarcas de Antioquia, de Alexandria e da própria Constantinopla. Preocupou-se sempre por reconhecer e respeitar os direitos, guardando-se de toda interferência que limitasse a legítima autonomia daqueles. Ainda que São Gregório, no contexto da situação histórica, se opôs ao título de «ecumênico» por parte do Patriarca de Constantinopla, não o fez por limitar ou negar esta legítima autoridade, mas porque estava preocupado pela unidade fraterna da Igreja universal. Ele o fez sobretudo por sua profunda convicção de que a humildade devia ser a virtude fundamental de todo bispo, mais ainda de um Patriarca. Gregório havia continuado sendo um simples monge em seu coração e por isso era decididamente contrário aos grandes títulos. Queria ser – é expressão sua – servus servorum Dei. Esta palavra que acunhou não era em seus lábios uma piedosa fórmula, mas a verdadeira manifestação de seu modo de viver e de atuar. Estava intimamente impressionado pela humildade de Deus, que em Cristo se fez nosso servo, nos lavou e nos lava os pés. Portanto, estava convencido de que, sobretudo um bispo, deveria imitar esta humildade de Deus e assim seguir Cristo. Seu desejo verdadeiramente foi o de viver como monge em permanente colóquio com a Palavra de Deus, mas por amor a Deus soube fazer-se servidor de todos em um tempo repleto de tribulações e de sofrimentos, soube fazer-se «servo dos servos». Precisamente porque o foi, é grande e mostra também a nós a medida de sua verdadeira grandeza.

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(*) Grifo meu.

Todos os artigos disponíveis neste sítio são de livre cópia e difusão deste que sempre sejam citados a fonte e o(s) autor(es).
Para citar este artigo:
PAPA, Bento XVI. Apostolado Veritatis Splendor: SÃO GREGÓRIO I DE ROMA. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5250. Desde 30/07/2008.

“Se alguém pedir uma palavra de ordem, sempre daremos esta e não outra: restaurar todas as coisas em Cristo.”: São Pio X (Memória 21 de Agosto)

Fonte: Flos Carmeli


O glorioso, árduo e fecundo pontificado desse Vigário de Cristo durou 11 anos. Nesse período, foram lançados mais de 3.000 documentos oficiais, com o objetivo de Instaurare omnia in Christo — conforme seu lema.

E tem estreita analogia com esta sua afirmação: “Se alguém pedir uma palavra de ordem, sempre daremos esta e não outra: Restaurar todas as coisas em Cristo”. Nesse sentido de restaurar todas as coisas em Cristo, foram numerosas e admiráveis as obras empreendidas pelo Santo Pontífice para defender a Civilização Cristã gravemente ameaçada.

Em seu esplêndido livro de memórias, o Cardeal Merry del Val, Secretário de Estado de São Pio X, enumera de passagem algumas dessas obras: “A reforma da Cúria Romana; a fundação do Instituto Bíblico; a construção de seminários centrais e a promulgação de leis para a melhor disciplina do clero; a nova disciplina referente à primeira comunhão e àcomunhão freqüente; o restabelecimento da música sacra; a vigorosa resistência movida contra os fatais erros do chamado modernismo e a corajosa defesa da liberdade da Igreja na França, Alemanha, Portugal, Rússia e outros países, sem aludir a outros atos de governo, justificam certamente que S. Pio X tenha sido destacado como um grande Pontífice e um diretor humano excepcional.”

Fonte : Piox.net

Sua vida

Nascido Giuseppe Melchiorre Sarto, (Riese, 2 de Junho de 1835) era o segundo de dez filhos de uma família rural da província de Treviso (Itália). Ordenado em 1858, estudou direito canônico e a obra de São Tomás de Aquino. Em 10 de Novembro de 1884 foi elevado a Bispo de Mântua, e em 1896 a Patriarca de Veneza sendo eleito Papa em 4 de Agosto de 1903 com 55 dos 60 votos possíveis no conclave. Em sua primeira encíclica, Pio X anunciava que sua meta primordial era a de “Renovar tudo em Cristo”. Governou a Igreja com mão firme numa época em que esta enfrentava um laicismo muito forte e diversas tendências do modernismo, encarado como a síntese de todas as heresias nos campos dos estudos bíblicos e teologia.

São Pio X introduziu grandes reformas na liturgia, sempre num sentido tradicional, fomentou a prática da comunhão freqüente e o acesso das crianças à Santíssima Eucaristia quando da chegada à chamada idade da razão, por essas medidas ficou conhecido como o “Papa da Eucaristia”.

Publicou 16 encíclicas, promoveu ainda o estudo do catecismo e o canto gregoriano. Criou a Pontifícia Comissão Bíblica e colocou as bases do Código de Direito Canônico, promulgado em 1917 após a sua morte em Roma, 20 de Agosto de 1914.

Na lápide do seu túmulo na Basílica de São Pedro no Vaticano, lê-se: A sua tiara era formada por três coroas: pobreza, humildade e bondade. Foi beatificado em 1951 e canonizado em 3 de Setembro de 1954 por Pio XII, tendo sua memória litúrgica celebrada no dia 21 de Agosto.

Fonte : Ecclesiasancta

São Pio X, rogai por nós!

Postado por Flos Carmeli às 16:26

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Fonte: Flos Carmeli

Nossa Senhora do Carmo entrega o escapulário a São Simão Stock 16 de Julho de 1251.

Carmelitas (Gravura: Blog Flos Carmeli)HISTÓRIA DA ORDEM CARMELITA  (…)

O escapulário: nosso penhor de salvação !Destacam-se entre os papas devotos do escapulário:São Pio X, Inocêncio IV, João XXII, Alexandre V, Bento XIV, Pio VI, Clemente VII, Urbano VII, Nicolau V, Sixto IV, Paulo III, São Pio V, Leão XI, Alexandre VII, Pio IX, Leão XII, Bento XV, Pio XI, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, que com bulas apostólicas, aprovaram os seus privilégios, e cumularam de favores as confrarias do Carmo .É vontade de Nossa Senhora – Rainha do Carmelo que ponhamos o selo do seu escapulário sobre nosso peito para demonstrar que o nosso coração lhe pertence, para guardar os tesouros que no coração se encerra.

Como é bom estarmos debaixo da proteção de uma mãe tão boa! Que força ousaria arrancar-nos de seu regaço? Privilégios do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo:

-Quem morrer com o santo escapulário não padecera no fogo do inferno. A Virgem Maria os livrará do purgatório o quanto antes, ou seja, no primeiro sábado após a morte.-
-O escapulário é proteção em todos os perigos.

-O escapulário é sinal de paz e do pacto sempre eterno de concórdia, garantido por Maria.

-O escapulário é sinal de salvação.

– É um meio simples e prático de honrar a SantíssimaVirgem Maria.

– O escapulário do Carmo é garantia da preservação da fé, e da firmeza na devoção à Virgem Maria, devoção que, por sua vez, é sinal de predestinação.“Maria é tesouro de Deus. Onde está Maria,  aí está o coração de Deus”. (São Bernardo)Jesus é o grande dom e sinal do amor ao Pai Eterno. Ele estabeleceu a Igreja como sinal e instrumento do seu amor. Na vida cristã também existem sinais. Jesus os utilizou: o pão, o vinho, a água, para nos fazer compreender as realidades que não vemos e não tocamos.Na Santíssima Eucaristia e demais sacramentos (batismo, crisma, confissão, matrimonio, ordem, extrema unção), os símbolos (água, óleo, imposição das mãos, alianças) exprimem o seu significado e introduzem-nos numa comunicação com Deus, presente através deles. Além dos sinais litúrgicos, existem na Igreja outros ligados a um acontecimento, a uma tradição, a uma pessoa. Um desses é o escapulário do Carmo.

O escapulário é sacramental:

– Aprovação pela Igreja há sete séculos;

-Representa a nossa filiação à Santa Vírgem Maria;

-O escapulário não é um sinal de proteção mágica, ou amuleto;

-Também não é uma garantia automática de salvação, sem viver as exigências de uma vida cristã.O escapulário é imposto somente uma vez por um sacerdote, através de um rito próprio. E benze e o impõe, dizendo: “Recebe este santo escapulário com sinal da santíssima Virgem Maria, Rainha do Carmelo, para que com seus méritos, o uses sempre com dignidade, seja tua defesa em todas as adversidades e te conduza a vida eterna”.O escapulário do Carmo compõe-se de duas peças de pano de lã, de cor marrom, unidas entre si por dois cordões. Não façamos do santo escapulário, objeto de decoração ou adereço de moda, ele é sinal de predestinação.

O escapulário é sinal de esperança: “Oh, quantas coisas boas não nos diz este titulo: Nossa Senhora do Carmo! Quantos pensamentos bons nos sugere! Na dor, na amargura, na angústia, na agonia a Virgem do Carmo é a nossa esperança. Nas privações, nos trabalhos, nos trabalhos, na pobreza, nas doenças, a virgem do Carmo é a nossa esperança. Nos desprezos, nas humilhações, nas calúnias, nas perseguições, ela é nossa esperança. Nas dúvidas, nos temores, nas tentações, nos perigos do corpo e da alma, enfim, em todas as necessidades, a Virgem do Carmo é a nossa esperança. Maria é também nossa esperança nas necessidades alheias, aquelas que principalmente padecem pessoas queridas, parentes ou amigos. Mas, sobretudo ela é nossa esperança nos bens celestiais; nós pedimos a Deus pela intersessão da Virgem do Carmo, o perdão de nossos pecados, a graça de nunca mais pecar, um firme e constante propósito de fazer o bem; confiando que seremos atendidos, porque ela, a Virgem do Carmo é a nossa esperança”. (Santo Afonso)

Confiemos nossas vidas nas mãos de Nossa Senhora, e assim, teremos a certeza que ela não nos abandonara, embora sejamos pecadores e indignos.

Postado por Flos Carmeli – 09.05.2006

“Como é de lamentar um padre quando diz missa como coisa banal… Oh!, como é infeliz um padre a quem falte interioridade!” – São João Maria Vianney (Cura d’Ars), in Flos Carmeli – Ano Sacerdotal

Vale a pena conferir no Blog Flos Carmeli, as informações acerca do Ano Sacerdotal, instituído pelo papa Bento XVI, e cujo patrono é São João Maria Vianney – o Cura D’ Ars. A meu ver, ele foi um sacerdote – e santo – extraordinário! A propósito, foi criado um selo especial no “Flos Carmeli” – “Celebrando o Ano Sacerdotal”.

Ao lado, no Blogroll, está disponível o link de acesso para o site criado pelo Vaticano, intitulado “Annus Sacerdotalis”.

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Fonte: FLOS CARMELI  (ANO SACERDOTAL)

18.7.09

São João Maria Vianey

O jovem pároco João Maria Batista Vianney não prometia sucessos retumbantes, mas ao ser nomeado para o vilarejo perdido de Ars, o seu imenso amor a Deus transformou a fundo não apenas os seus paroquianos, mas milhões de peregrinos da França inteira.

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Era ao entardecer de 9 de fevereiro de 1818, uma terça-feira. Um pastorinho de dezesseis anos, Antoine Givre, que guardava as ovelhas na lande das Dombes, teve um encontro estranho, que havia de recordar durante toda a vida. Ia cair a noite. Já as luzes se acendiam nas janelas das casas, agrupadas a algumas centenas de metros, para além de um valado. Do lado da estrada de Lyon, o rapaz ouviu um barulho e olhou: era um padre que avançava a grandes passadas de camponês; a seu lado, uma velha de touca na cabeça; atrás deles, uma carriola vacilante, carregada de fardos e de uma misturada de coisas, no meio das quais se via uma cama de madeira. O padre saudou o pequeno e perguntou-lhe se ainda estava longe de uma aldeia chamada Ars. Antoine indicou com a mão o humílimo povoado que já se ocultava no crepúsculo. “Como é pequeno!”, murmurou o padre. E ajoelhou-se. Em silêncio, durante muito tempo, rezou, de olhos postos nas casas. Rezou com um fervor e uma atenção extraordinários. Dir-se-ia que via coisas de que os outros não faziam a menor idéia. Ao levantar-se, olhou para o rapaz e, com voz muito simples, disse: “Tu mostraste-me o caminho de Ars… Um dia hei de mostrar-te o caminho do Céu”. Em seguida, retomou a marcha. A capelania de Ars-en-Dombes – que não tinha mais de duzentas almas e estava subordinada à paróquia de Misérieux, da diocese de Lyon – recebia o seu novo encarregado.

Chamava-se Jean-Marie Vianney. Nascera trinta e dois anos antes (1786), numa aldeia situada a umas dez léguas, Dardilly, onde os pais eram gente dedicada ao campo; e gente piedosa, como ainda havia tantos na França. Por curiosa coincidência, um dia sentara-se à mesa deles São Bento Labre, “o anjo andrajoso”, no decurso da sua grande peregrinação. Já aos sete anos, o pequeno Jean-Marie mostrara uma inclinação tão evidente para a oração que se falara de fazer dele frade ou padre. Levava para os campos onde guardava algumas vacas uma imagenzinha de Nossa Senhora, que colocava no buraco de um salgueiro para se ajoelhar diante dela. Com a Revolução, viera a grande caça aos padres. O pequeno tivera de aprender o catecismo às escondidas e de fazer a primeira comunhão clandestinamente, numa casa com a porta e as janelas fechadas. E o espetáculo da resistência do clero francês à perseguição acabara de enraizar nele a vocação religiosa. Mais ainda: uma vocação para o heroísmo, o sacrifício, a grandeza espiritual.

Infelizmente, para ser padre e ter o direito e os meios de “ganhar almas para Deus”, não basta a boa vontade, não basta o impulso do coração: é preciso estudar, aprender latim, liturgia, teologia e tantas coisas mais! Nesse campo, Jean-Marie Vianney mostrara-se muito decepcionante. O seu cérebro, maravilhosamente capaz de fixar os fatos da vida prática e de penetrar nos seres, era radicalmente incapaz de armazenar as declinações latinas e as mais elementares noções de dogmática! Se não tivesse encontrado no seu caminho um homem para o compreender, não há dúvida de que nunca teria chegado a vencer os sucessivos obstáculos que o separavam do sacerdócio. Nos seminários de Verrières e, depois, no de Santo Ireneu, perto de Lyon, que fraca figura tinha feito o pobre pequeno! Mas M. Belley velara por ele, M. Belley, pároco de Ecully, abelha operária de uma dessas equipes de missionários que, em pleno Terror, o pe. Linsolas, vigário geral de Lyon, tivera a audácia de fundar. Graças a Belley, Jean-Marie conseguira receber o diaconado, em 1814, e, no ano seguinte (a 13 de agosto), a ordenação sacerdotal, na capela do Seminário Menor de Grenoble, algumas semanas depois da queda do Império. Coadjutor em Ecully, acabara de se preparar junto do seu mestre para uma existência sacerdotal inteiramente devotada às almas e também cheia de práticas de piedade e ascese: flagelações, jejuns, cilício. Era de Ecully que chegava, nesse entardecer brumoso de 9 de fevereiro de 1818, à minúscula aldeia de Ars. E lá iria ficar durante quarenta e um anos…

Fisicamente, era um corpanzil rústico, de andar pesado, rosto alongado e magro, cujas “maçãs” se iam adelgaçando até ao queixo esguio, e em que o nariz ossudo despontava sobre uns lábios finos. O único dado apreciável dos seus traços sem graça eram os olhos, olhos de um azul-cinzento, de uma limpidez e uma capacidade de concentração igualmente extraordinárias. Mais tarde, quando estiver no auge da sua celebridade, uma toleirona burguesa, vinda expressamente de Paris para admirar o grande homem, vendo-o assim, exclamará: “É só isto, o Cura d´Ars?!” Pois só isso, esse camponês bronco, mal vestido, com uma batina remendada e esverdeada à força de uso, esse homenzinho facilmente brincalhão e que se chamava a si próprio o burrinho ou o idiota da aldeia?! Como não deixar desconcertada uma parisiense! E essa reputação de ignorante, de caranguejo com orelhas de burro, que o seguia desde o seminário e que ele mesmo parecia cultivar com prazer…

Mas a verdade desse homem não estava aí. É óbvio que era exatamente o contrário desse minus habens, desse “primário intelectual” de que falariam os redatores da Idée libre. A inteligência não se mede só pela dose de conhecimentos livrescos que pode assimilar, e, quanto a tudo o que pertencia à vida e não ao impresso, Jean-Marie Vianney era uma inteligência fora de série. E, sobretudo, havia nele alguma coisa superior à inteligência: uma forma de “ver as coisas do alto”, como disse o cardeal de Bonald, um dom de intuição que escapava a toda a lógica, mas que se revelava quase infalível, uma grandeza que se impunha ao interlocutor mais obtuso ou mais hostil: numa palavra, uma força soberana, a par da simplicidade mais natural e da mais autêntica humildade. “Para crer na presença do Sobrenatural – pôde alguém dizer dele -, basta olhá-lo”. Todos os que o viram deram o mesmo testemunho da sua irradiação espiritual, da misteriosa “aura” que rodeava o seu corpo sem prestígio. Uma palavra resume tudo sobre a realidade profunda que o sustentava. Foi dita pelo bispo de Belley, num dia em que alguns padres deploravam diante dele, cheios de compaixão, a ignorância do seu confrade, a nulidade que era em matéria de teologia e de casuística: “Não sei se ele é instruído; sei que é iluminado”.

Assim era, pois, aquele que Ars-en-Dombes ia guardar durante quarenta e um anos seguidos, aquele que viria a identificar-se tão totalmente, tão plenamente, com essa ínfima aldeia, que iria como que ser absorvido por ela, perder até o nome de família a favor do seu pobre título, não ficando a ser, “tanto no futuro como no Céu”, nada mais que o Cura d´Ars. Quarenta e um anos, “e sempre contra vontade” – diz a excelente Catherine Lassagne, que o acompanhou no seu presbitério. Porque, torturado pela angústia de não ser digno da pesada missão de padre, esse humilde diante de Deus há de fugir da paróquia pelo menos três vezes, decidido a deixar o lugar “a alguém menos ignorante”, e serão os próprios paroquianos que o reterão, à custa de mil e uma astúcias. Quarenta e um anos de uma vida que, aparentemente, parecerá a mais banal, a mais monótona que se possa imaginar, mas na qual se desenrolará, num plano que já não pertence à terra, a aventura mística mais espantosa da sua época.

Quando Jean-Marie chegou, Ars não passava da mais morna das comunidades cristãs. “Lá, não gostavam muito de Deus”. Mas, logo que viram como vivia o novo cura, os paroquianos compreenderam que alguma coisa tinha mudado. Começou por mandar restituir ao castelo os móveis confortáveis que a piedosa Mme. des Garets tinha emprestado ao presbitério. Depois, pôs-se a restaurar a igreja, que estava caindo aos pedaços, fazendo por suas próprias mãos “o trabalho doméstico de Deus”. A seguir, só se falava na aldeia de que o novo encarregado da capelania de Ars tinha um modo singularíssimo de alimentar-se: umas tantas côdeas de pão seco, uma panela de batatas, que mandava coser cada três semanas e que ia comendo frias. Por último, as boas mulheres que, de tempos a tempos, conseguiam penetrar na casa paroquial para cuidar dos trabalhos domésticos, contavam que encontravam roupa ensangüentada, manchas vermelhas nas paredes… E compreendeu-se então para que serviam as correntes que o padre mandara forjar na oficina do ferreiro. Esses jejuns, essas penitências – que o Cura d´Ars conservará durante toda a vida – fizeram tanto maior impressão quanto a verdade é que essa terrível ascese não impedia M. Vianney de ser de uma delicadeza, de uma mansidão perfeitas, sem querer impor a ninguém os golpes de disciplina que a si mesmo infligia – e que nem uma só vez deixou transparecer. Quando, porém, este ou aquele se permitia aludir aos rigores que ele aplicava ao seu corpo, respondia com o melhor dos sorrisos que era coisa muito apropriada para “o velho Adão” ou “o cadáver”…

Poder do exemplo: foi, indubitavelmente, por aí que Jean-Marie Vianney se impôs: primeiro, às suas ovelhas; depois, a outras. Pouco a pouco, a paróquia transformou-se. Homens, mulheres, crianças foram agrupados em confrarias ou obras. Abriu-se uma escola gratuita, a “Casa da Providência”, aonde afluíram as meninas, incluindo as órfãs, as abandonadas, as desafortunadas. Os maus hábitos, como o do baile e da taberna, contra os quais o padre era severo, foram desaparecendo da paróquia. Para não o desgostarem, os moços e as moças menos recatados refreavam o seu comportamento. “O respeito humano voltou-se do avesso”, e passou a ser tão vergonhoso apanhar uma bebedeira como o era, na véspera, não beber com os outros. A igreja, ainda ontem meio vazia, encheu-se e, como a gente dos arredores ganhou o costume de a freqüentar, passou a ser pequena. Quem havia de prever semelhante mudança, quando, meia dúzia de anos antes, o arcebispo encarara seriamente a hipótese de suprimir a paróquia?

E, no entanto, Jean-Marie Vianney não era grande orador; o que servia aos seus ouvintes não eram grandes trechos de eloqüência. Tinha a voz gutural; tendia a gritar; muitas vezes perdia o fio do discurso, parava e depois retomava a palavra fosse lá como fosse; por fim, como não sabia como acabar, cortava o sermão e descia do púlpito subitamente. Quanto à matéria dos sermões, nada tinha de original. O mesmo se diga da catequese, que dava a crianças e adultos várias vezes por semana. Não tinha escrúpulo em ir buscar material às coletâneas de Bonnardel, de Joly, de Billot, do pe. Lejeune, sermonários de largo uso na época, assim como ao catecismo do campo. Copiava um parágrafo aqui, outro acolá, harmonizava-os conforme podia; mas, sobre todo esse mosaico, punha a sua marca, transformando as frases excessivamente bem construídas em fórmulas simples, populares, com comparações e imagens que impressionavam o ouvinte. Por exemplo: para mostrar a ação do pecado na alma, comparava-o a uma mancha de azeite num pano de lã: mesmo que a lavemos dez vezes, não sai! E, ao passarem pelos seus lábios – todos os que o ouviram concordam nisto –, esses pobres sermões ganhavam um poder de sugestão extraordinário. Podia anunciar os castigos do Juízo Final, ou falar interminavelmente do amor de Deus pelos homens, da sua infinita misericórdia, que encontrava sempre, como por instinto, as palavras que iam até ao fundo das almas. E que dom de descobrir fórmulas! Pelo menos uma delas ficou a pertencer ao mais raro florilégio do pensamento cristão. Ouvindo certo dia uma viúva que estava angustiada porque o marido se tinha lançado ao rio e se afogara, e que tremia convencida de que ele se condenara, que lhe respondeu o Cura de Ars? Simplesmente isto: “Entre a ponte e a água, houve tempo para o arrependimento e o perdão”. Entre a ponte e a água…

Era assim o padre que a aldeia de Ars conservou por quarenta e um anos. O padre. E esta única palavra diz tudo. Porque Jean-Marie Vianney não foi senão um padre, um simples padre, todo ele entregue às almas, devorado pela sua missão, integralmente fiel à sua vocação. Nada mais que isso; nada menos que isso. Mas esse sacerdócio, que estivera a ponto de lhe ser recusado, fê-lo ele subir a um nível tão alto que se revelou inigualável. Nunca ninguém falou melhor que ele acerca do padre, da grandeza da sua função, do seu papel sobrenatural. “Ah! Como o padre é qualquer coisa de grande! O padre só poderá ser compreendido no Céu. Se o compreendêssemos neste mundo, morreríamos – não de terror, mas de amor… Depois de Deus, o padre é tudo! Deixai uma paróquia vinte anos sem padre: hão de adorar os animais!

Mas também ninguém disse melhor que ele o que há de terrível para um homem em ser depositário do poder de Deus, em ter o direito de absolver e o de fazer o próprio Deus descer à hóstia. “Como é terrível ser padre!” – repetia muitas vezes –, e o seu rosto inundava-se de lágrimas. “Como é de lamentar um padre quando diz missa como coisa banal… Oh!, como é infeliz um padre a quem falte interioridade!” Um padre. Apenas padre. Aí reside o caráter extraordinário da sua aventura. Foi só por não ter sido nada mais que padre que Jean-Marie Vianney se tornou uma glória da terra, antes de ser um santo.

Sim. Pouco a pouco, ou melhor, bem depressa, o renome do Cura d´Ars transbordou do quadro estreito da sua minúscula paróquia. Chamavam-no aqui, ali, acolá, para falar, para confessar. E, sobretudo, espontaneamente, havia homens e mulheres que se lançavam à estrada, por terem ouvido dizer que, algures nos Dombes, numa aldeia perdida, havia um padre que falava de Deus, confessava, confortava. Menos de dez anos depois de ter chegado, a corrente de peregrinos que afluía a Ars tomara a força de um acontecimento, não somente regional, mas nacional e internacional. Calcula-se em 80.000, em média, os peregrinos que, ano após ano, e durante trinta anos, se sucederam em Ars. No último ano, que foi o da morte do santo, foram para cima de 100.000. A aldeia mais que duplicou. À volta da igreja, conforme se vê nas gravuras da época, multiplicaram-se as “pensões burguesas” e as lojas onde se vendiam objetos de devoção.

Quem eram esses que acorriam a Ars? Vinham de todos os países, pertenciam a todas as classes sociais. Aquele a quem os companheiros de seminário chamavam pobre de espírito, aquele de quem alguns colegas de sacerdócio troçavam por ser intelectualmente nulo, era procurado por homens notáveis que o vinham consultar: intelectuais de alto nível, almas comprovadamente espirituais, como, por exemplo, o pe. Lacordaire, preocupado com o futuro da sua Ordem, ou o pe. Chevrier, fundador, em Lyon, do Prado, ou o pe. Muard, que iria fundar os beneditinos da Pierre-qui-Vire, ou mons. Ségur, o bispo cego, ou mons. Ullathorne, inglês convertido, discípulo de Wiseman, por este enviado a Roma para resolver a questão do restabelecimento da Hierarquia na Inglaterra e que parou em Ars e chegou a pensar em nunca mais sair de lá… Não havia ninguém que não se retirasse consolado, encorajado, guiado. Ninguém que não pudesse dizer, como certo humilde vinhateiro do Mâcon: “Vi Deus num homem”.

Esse prodigioso afluxo teve, para o Cura d´Ars, uma conseqüência penosa. A sua vida tornou-se a vida de um forçado de Cristo, noite e dia preso a uma tarefa cuja amplitude ia além das forças humanas. É certo que lhe tinham dado um auxiliar, que, de resto, pelo seu temperamento, foi para ele, muita vez, ocasião de penitências suplementares… E até se constituiu um grupo de missionários destinado a ajudá-lo. Mas era ele, só ele, quem os inúmeros fiéis queriam ver; só a ele queriam confiar as suas misérias; só dele esperavam esperança e paz.

Então, devorado pelo zelo das almas, Jean-Marie Vianney fez-se escravo do confessionário. Nessa pequena caixa de madeira em que no inverno gelava e no verão abafava, passava horas, dias, meses, anos inteiros… Chegou a ficar lá dezoito horas seguidas! Também chegou a desmaiar, sufocado com a falta de ar e o mau cheiro. Os dias eram para ele “regulados como uma pauta de música”. Pouco depois da meia noite, ia para a igreja, de lanterna na mão. Já a multidão o esperava à porta e logo começava o desfile. Foi preciso organizar um serviço de ordem! As mulheres eram atendidas no confessionário, que ficava numa capela lateral. Os homens que não gostavam de ser vistos iam à sacristia. Os padres – o próprio bispo de Belley – ajoelhavam-se por trás do altar-mor. Quer a confissão fosse longa ou curta, a exortação do padre era sempre breve, mas bastava para que o penitente ficasse transtornado e, muitas vezes, se retirasse de rosto banhado em lágrimas. Nesse desenrolar atrozmente monótono de feios pecados, de impurezas grandes ou pequenas, só duas interrupções: uma, para a missa, pelas quatro da manhã; outra, para o catecismo, às onze. E isso durou mais de trinta anos…

Semelhante heroísmo seria ainda deste mundo? À volta desse homem de Deus, o sobrenatural surgia em tudo. Uma coisa era certa: ele tinha o dom de ler nos corações. Bem o descobriam à sua custa aqueles que tentavam trapacear com Deus, calar pesadas faltas, diminuir um pouco a conta dos anos em que não se tinham confessado: com um olhar, o padre trespassava-os como um raio de luz, e, em duas palavras, situava-os diante da triste verdade da sua miséria.

Veria ele ainda mais alguma coisa, outras realidades? Ferozmente mudo sobre este ponto, fugindo a todas as perguntas, recusava-se a dizer se era verdade que tivera visões de Nossa Senhora, de São João Batista, de alguns outros santos talvez, como insistentemente se dizia. “Uma impressão que tive muitas vezes – diz um dos seus íntimos, que freqüentemente o ajudava à missa – é que ele via aquilo que adorava”. Mas havia outro capítulo sobre o qual o santo era um pouco mais loquaz: o da luta terrível, que, por mais de trinta anos, sustentou com o adversário, o próprio Satanás, a quem chamava, com um termo saboroso, “le grappin” [“a fisga”], e que reconhecia ter encontrado tanta vez que eram “como dois velhos camaradas”. Quanto aos seus milagres, dos quais o processo de canonização consideraria uns trinta, todos eles tinham um ar de simplicidade que devemos dizer evangélica: multiplicação do pão para o orfanato da paróquia, cura de enfermos, leituras do futuro. Em todos eles se encontrava, como diziam os cristãos da primitiva Igreja, “o bom odor de Cristo”.

A glória humana acompanhou essa glória celeste, singularmente manifestada na terra. Os peregrinos de Ars difundiam-na ao longe e ao largo, de modo que vinham pelas estradas das Dombes curiosos, até descrentes, que, na maior parte dos casos, de lá voltavam adivinhados, confusos, demudados. A imprensa falava. Nas lojas próximas da igreja, vendiam-se estampas com a figura do santo cura, o que bastava para o fazer zangar-se: “É o meu carnaval”, dizia ele, mostrando-as. Pôs no olho da rua o escultor que teve a imprudente audácia de lhe pedir licença para fazer a sua estátua. Quando o bispo lhe enviou a murça de cônego honorário, o santo agradeceu-lhe muito amavelmente, mas logo vendeu o inútil ornamento e pôs o dinheiro ao serviço dos pobres. Quanto à Legião de Honra que o sub-prefeito de Trévoux conseguiu para ele, recusou-se evidentemente a colocá-la ao peito e imediatamente a deu de presente, visto que era um objeto sem valor comercial e inútil para as suas obras de caridade. Nada lhe iria faltar para entrar na lenda em vida. Nada: nem sequer a ácida inveja de alguns dos seus confrades, ou a gritaria daqueles a quem incomodava, ou até as cartas anônimas e as injúrias. A todos os ataques respondia afirmando que os piores tratamentos eram ainda suaves demais para um asno e um pecador da sua laia, o que deixava envergonhados os cínicos.

Nos últimos dias de julho de 1859, a morte, cuja chegada anunciara, veio arrancá-lo por fim à sua tarefa sem medida. Morreu na noite de 3 de agosto, de olhos voltados para o Céu, “com uma expressão extraordinária de fé e de felicidade”, no dizer de uma testemunha. E logo acorreram multidões, massas imensas de gente, em que se misturavam os ricos e os pobres, entre eles o novo bispo de Belley, que se deslocou a pé desde Meximieux, a quarenta quilômetros, “sem fôlego, comovido, rezando em voz alta”. Ars bem sabia que tinha acabado de perder um santo.

Fonte : Eclesia Una

Postado por Flos Carmeli às Sábado, Julho 18, 2009

«A Santa Missa atrai por si mesma, pela sua sacralidade e seu mistério» (Dom Fernando Arêas Rifan – Administração Apostólica São João Maria Vianney) – Zenit

Chapel  of Servants of the Holy Family
Chapel of Servants of the Holy Family
Traditional Catholic Carmelite Convent
Carmelite Monastery of the Sacred Hearts (Traditional Catholic Carmelite Convent)

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Entrevista realizada pela Agência de Notícias  ZENIT – Roma, e publicada em PIME.Net – Pontifício Instituto de Missões no Exterior

BRASIL: 24/03/2008

Liturgia

Falta de espiritualidade séria leva a abusos

Entrevista com o bispo brasileiro responsável por comunidade que celebra missa antiga

Por Alexandre Ribeiro

O bispo de uma comunidade brasileira que celebra a missa antiga (forma litúrgica extraordinária do Rito Romano, liturgia chamada Tridentina ou de São Pio V) considera que os abusos na liturgia são ocasionados pela «falta de uma espiritualidade séria». «A Santa Missa atrai por si mesma, pela sua sacralidade e seu mistério», afirma Dom Fernando Arêas Rifan, Administrador Apostólico da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney. Nesta entrevista a Zenit, o bispo fala, entre outros temas, sobre a beleza e riqueza da missa antiga, cuja faculdade de celebrar Bento XVI estende a toda a Igreja pelo Motu Próprio “Summorum Pontificum”, de 7 de julho de 2007.

Gostaríamos primeiramente que o senhor explicasse, para aqueles que não conhecem, o que é a Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney?

Dom Fernando Rifan: A Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, situada no Norte do Estado do Rio de Janeiro, com os mesmos limites da Diocese de Campos, é uma circunscrição eclesiástica equiparada pelo Direito às Dioceses imediatamente sujeitas à Santa Sé (cânon 368 e Decreto “Animarum Bonum”), uma porção do povo de Deus, portanto, cujo cuidado pastoral é confiado a um Bispo Administrador Apostólico, que a governa em nome do Sumo Pontífice (cânon 371§2). A Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney foi criada pelo Decreto “Animarum bonum”, da Sagrada Congregação para os Bispos, de 18 de janeiro de 2002, oficializando juridicamente a vontade de Sua Santidade, o Papa João Paulo II, expressa na carta autógrafa “Ecclesiae unitas”, de 25 de dezembro de 2001. Funciona como uma diocese normal, mas de caráter pessoal não territorial, como as Prelazias Pessoais, as Eparquias e Exarcados Orientais e os Ordinariatos Militares, tendo seu Bispo próprio, o Administrador Apostólico, Cúria, Seminário, Sacerdotes, Paróquias, Igrejas e Institutos de Vida Consagrada, como qualquer outra diocese. Essa “Diocese pessoal” foi criada com a finalidade de conservar na unidade eclesial os sacerdotes e fiéis ligados à forma litúrgica extraordinária do Rito Romano (Liturgia chamada Tridentina ou de São Pio V), que eram e são numerosos nessa região.

Na Administração Apostólica se celebra a missa antiga do Rito Romano (anterior à reforma de 1970). Qual é a riqueza e a beleza desse tipo de missa?

Dom Fernando Rifan: O decreto de criação da Administração Apostólica (“Animarum Bonum”, “O Bem das Almas”) assim diz: “É atribuída à Administração Apostólica a faculdade de celebrar a Sagrada Eucaristia, os demais sacramentos, a Liturgia das Horas e outras ações litúrgicas segundo o rito e a disciplina litúrgica, conforme as prescrições de São Pio V, juntamente com as adaptações introduzidas por seus sucessores até o Bem-aventurado João XXIII” (item III). E esse privilégio o Santo Padre Bento XVI agora o estendeu a toda a Igreja pelo Motu Próprio “Summorum Pontificum”, de 7 de julho de 2007.

São várias as razões desse amor, preferência e conservação da forma extraordinária da Liturgia Romana. O então cardeal Joseph Ratzinger, nosso atual Papa, em conferência aos Bispos chilenos, em Santiago, em 13/7/1988, assim as sintetizou: “Se bem que haja numerosos motivos que possam ter levado um grande número de fiéis a encontrar refúgio na liturgia tradicional, o mais importante dentre eles é que eles aí encontram preservada a dignidade do sagrado”. De fato, pela sua riqueza, beleza, elevação, nobreza e solenidade das cerimônias, pelo seu senso de sacralidade e reverência, pelo seu sentido de mistério, por sua maior precisão e rigor nas rubricas, apresentando assim mais segurança e proteção contra abusos, não dando espaço a “ambigüidades, liberdades, criatividades, adaptações, reduções e instrumentalizações” (como lamentava o Papa João Paulo II na encíclica “Ecclesia de Eucaristia”) e por ser, para nós, melhor expressão litúrgica dos dogmas eucarísticos e sólido alimento espiritual, ela vem a ser uma das riquezas da Liturgia católica, pela qual exprimimos o nosso amor e nossa comunhão para com a Santa Igreja. E a Santa Sé reconhece essa nossa adesão como perfeitamente legítima.

Como são os cantos é qual é o cuidado que se tem com eles na missa antiga?

Dom Fernando Rifan: Na Missa antiga, procura-se pôr em prática as normas dadas pelo Papa João Paulo II no “Quirógrafo pelo centenário do Motu Próprio “Tra Le Sollecitudini”, de São Pio X, onde ele recorda as regras desse santo Papa, de seus sucessores e do Concílio Vaticano II sobre a música sacra. O Papa ensina a necessidade de “purificar o culto de dispersões de estilos, das formas descuidadas de expressão, de músicas e textos descurados e pouco conformes com a grandeza do ato que se celebra”. O Papa recorda a diferença, infelizmente hoje pouco percebida, entre o profano e o sagrado, especialmente na música das Igrejas, e ele lamenta que a música na Igreja hoje chegue “a ponto de incluir repertórios que não podem entrar na celebração sem violar o espírito e as normas da mesma liturgia”, afirmando ele que “nem todas as formas musicais podem ser consideradas aptas para as celebrações litúrgicas.”

E como paradigma da verdadeira música sacra, o Papa ensina que “entre as expressões musicais que mais correspondem à qualidade requerida pela noção de música sacra, particularmente a litúrgica, o canto gregoriano ocupa um lugar particular”.

É claro que em nossas missas, segundo as mesmas normas da Santa Sé, usamos também a polifonia clássica e moderna e o canto popular em português, tão amado do nosso povo simples, sempre os sintonizando com o espírito e o momento litúrgico.

A missa antiga poderia ser mais promovida na vida da Igreja, mesmo que de forma extraordinária, como assinala e permite o Motu Proprio “Summorum Pontificum”? Que benefícios isso traria?

Dom Fernando Rifan: Esse já era o desejo do Santo Padre João Paulo II, quando afirmou no seu Motu Próprio “Ecclesia Dei adflicta” de 2/7/1988: “É preciso que todos os Pastores e os demais fiéis tomem nova consciência, não só da legitimidade mas também da riqueza que representa para a Igreja a diversidade de carismas e de tradições de espiritualidade e de apostolado, o que constitui a beleza da unidade na variedade… A todos estes fiéis católicos, que se sentem vinculados a algumas formas litúrgicas e disciplinares precedentes da tradição latina, desejo manifestar também a minha vontade – à qual peço que se associem a dos Bispos e a de todos aqueles que desempenham na Igreja o ministério pastoral – de lhes facilitar a comunhão eclesial, mediante as medidas necessárias para garantir o respeito das suas justas aspirações… além disso, em toda a parte deverá ser respeitado o espírito de todos aqueles que se sentem ligados à tradição litúrgica latina, mediante uma ampla e generosa aplicação das diretrizes, já há tempos emanadas pela Sé Apostólica, para o uso do Missal Romano segundo a edição típica de 1962.”

Esse desejo foi agora reforçado e ampliado ao mundo inteiro pelo Papa Bento XVI pelo Motu Próprio “Summorum Pontificum”.

E os benefícios da reintrodução e propagação na vida da Igreja dessa forma extraordinária do Rito Romano foram já mencionados pelo Papa atual no seu Motu Próprio: “Na celebração da Missa segundo Missal de Paulo VI, poder-se-á manifestar, de maneira mais intensa do que freqüentemente tem acontecido até agora, aquela sacralidade que atrai muitos para o uso antigo.” Foi exatamente o que ressaltou o Cardeal George, de Chicago: “…O Santo Padre mesmo, há algum tempo, chamou nossa atenção para a beleza e a profundidade do missal de São Pio V… a liturgia de 1962 é um rito autorizado da Igreja Católica e uma fonte preciosa de compreensão litúrgica para todos os outros ritos… Esta liturgia pertence à Igreja inteira como um veículo do espírito que deve se irradiar também na celebração da terceira edição típica do missal romano atual…” (Cardeal Francis George, Arcebispo de Chicago, Estados Unidos, no prefácio às Atas do Colóquio 2002, intituladas A Liturgia e o Sagrado, do CIEL, Centro Internacional de Estudos Litúrgicos”).

Quando participei, em agosto de 2007, do Congresso de Oxford reunido para ensinar a celebração da Missa na forma extraordinária aos mais de 60 padres diocesanos do Reino Unido ali presentes, o Arcebispo de Birminghan, Dom Vincent Nichols, na Missa Solene de abertura ressaltou aos padres participantes que eles, após aprenderem a Missa na forma antiga, mesmo quando nas suas paróquias celebrassem a Missa no rito atual de Paulo VI, a celebrariam muito melhor.

Creio ser o benefício querido pelo Papa no Motu Próprio “Summorum Pontificum”.

Na Agência Zenit nós recebemos muitos e-mails de leitores comentando do descuidado com a liturgia em suas comunidades. Que indicações o senhor dá para frear a banalização e o descuidado com a liturgia?

Dom Fernando Rifan: Falando dos abusos conseqüentes à Reforma Litúrgica, o então Cardeal Joseph Ratzinger lamentava: a “Liturgia se degenera em ‘show’, onde se tenta tornar a religião interessante com a ajuda de asneiras em moda… com sucessos momentâneos no grupo dos fabricantes litúrgicos” (Introdução ao livro La Réforme Liturgique, de Mgr. Klaus Gamber, pag. 6 e 8).

E o Cardeal Eduardo Gagnon era da mesma opinião: “Não se pode entretanto ignorar que a reforma (litúrgica) deu origem a muitos abusos e conduziu em certa medida ao desaparecimento do respeito devido ao sagrado. Esse fato deve ser infelizmente admitido e desculpa bom número dessas pessoas que se afastaram de nossa Igreja ou de sua antiga comunidade paroquial” (…) (“Integrismo e conservatismo” – Entrevista com o Cardeal Gagnon, “Offerten Zitung – Römisches”, nov.dez. 1993, p.35).

Creio que o ponto central dos abusos foi detectado pelo próprio Cardeal Raztinger: a porta aberta que foi deixada a uma falsa criatividade dos celebrantes (entrevista ao L’homme Nouveau, nº 7, outubro de 2001).

Por trás disso, está a falta de uma espiritualidade séria, que pensa que para atrair o povo se deve inventar novidades. A Santa Missa atrai por si mesma, pela sua sacralidade e seu mistério. No fundo, trata-se de diminuição da Fé nos mistérios eucarísticos, procurando supri-la por novidades e criatividades. Quando o Celebrante quer se tornar o protagonista da ação litúrgica, começam os abusos. Ele se esquece de que o centro da Missa é Jesus Cristo.

O atual secretário da Congregação para o Culto Divino, Dom Albert Malcolm Ranjith, lamenta: “A Santa Missa é sacrifício, dom, mistério, independentemente do sacerdote que a celebra. É importante, mesmo fundamental, que o sacerdote se coloque de lado: o protagonista da Missa é Cristo. Não compreendo, portanto, as celebrações eucarísticas transformadas em espetáculo com danças, cantos ou aplausos, como infelizmente muitas vezes ocorre com o Novus Ordo”.

A solução para os abusos está nas normas dadas pelo Magistério, especialmente no documento “Redemptionis Sacramentum”, de 25 de março de 2004, que preceitua que “todos procurem, segundo seus meios, que o Santíssimo Sacramento da Eucaristia seja defendido de toda irreverência e deformação, e todos os abusos sejam completamente corrigidos. Isto, portanto, é uma tarefa gravíssima para todos e cada um, e, excluída toda acepção de pessoas, todos estão obrigados a este trabalho” (183).

Mas, como diz Dom Ranjith, “existem tantos documentos (contra esses abusos) que lamentavelmente ficaram letra morta, deixados em estantes cheias de poeira ou, pior ainda, no cesto de lixo”.  (Zenit)

BRASIL: 24/03/2008

“Com sua singeleza, pureza e entrega, N. Senhora trouxe ao mundo o Filho – o modelo acabado de perfeição e bondade.” Nossa Senhora do Carmo – 16 de julho (OCDS)

Fonte: Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares (OCDS)

A Mãe apresentada pelas Filhas – Nossa Senhora do Carmo

Diversos e diferentes títulos são ofertados Àquela que, em frações de segundos não hesitou em dizer o “Sim” mais importante da história da salvação e da humanidade. Com sua singeleza, pureza e entrega, Nossa Senhora trouxe ao mundo o Filho – o modelo acabado de perfeição e bondade. Após este momento fulgural toda uma teologia desenvolveu-se culminando com a morte e ressurreição de Jesus.

No Carmelo, a flor mimosa e bela, desde os remotos tempos do Profeta e Santo Elias, passando pela presença junto à São Simão Stock, tem sido sempre notada pela presença discreta e decisiva em importantes momentos da vida de diversos Santos e Santas.

Com a reforma Teresiana do Carmelo sempre ficou evidente o amor e carinho não somente da Madre como de São João da Cruz, mas também de suas filhas carmelitas à Virgem Maria. Então, como estas filhas se dirigiram a sua Mãe e Virgem do Carmo? Apenas para ilustrar esta relação de amor filial, de veneração e de carinho, podemos pelos frutos admirar ainda mais a frondosa árvore.

Durante seus poucos anos de vida no mundo, Teresa de Jesus dos Andes, nos apresenta uma Mãe generosa e uma guia espiritual. Nos diz: “Mãe minha, mostra que és minha Mãe. Ouve o grito de minha alma pecadora arrependida, que sofre e leva até o fim o cálice da dor. Mãe, consola-me, alenta-me, aconselha-me, acompanha-me e abençoa-me”. Ainda em outro momento de seus textos nos mostra algumas das virtudes da Virgem. Oh Mãe, celestial Madonna que nos guia. Tu deixaste cair de tuas mãos maternais raios de céu. Minha alma, extasiada a teus pés virginais, te escutava. Tua linguagem era terna, era de céu, quase divino”.

E como a Santa de Lisieux se dirigia a sua Mãezinha? Na poesia número 7, Canto de gratidão à Virgem do Carmo, ela nos ensina:

Desde o primeiro instante de minha vida
me tomaste em teus braços,
e desde aquele momento,
minha amada Mãe,
me proteges aqui na terra.
Para guardar intata minha inocência,
me escondeste em um suave e doce ninho,
guardaste minha infância
à bendita sombra
de um claustro retirado.

E mais tarde, ao chegar
minha juventude em seus primeiros dias,
escutei o chamado de Jesus.
Me mostraste o Carmelo
com inefável ternura.
“Venha imolar-te por teu Salvador
– me dizias, então com doçura –
perto de mim te sentiras feliz,
Venha imolar-te por teu Salvador”

Perto de ti, oh minha terna Mãe,
encontrei a paz do coração,
nesta terra nada mais desejo,
Só Jesus é toda minha ventura.
Se alguma vez me assaltam
a tristeza ou o medo,
em minha debilidade, tu me sustenta
e sempre, minha Mãe, me abençoa.

Alcançai-me a graça de manter-me fiel
a meu divino Esposo, Jesus
Para que um dia
eu escute sua voz doce
quando eu voar me convide a sentar-me
entre seus eleitos.
Então já não haverá
nem desterro, nem mais sofrimento.
Já no céu,
eu voltarei a cantar-te
meu amor e gratidão,
doce e amável Rainha do Carmelo.

Também podemos admirar e constatar a beleza da Mãe pelos dizeres da Beata Elisabete da SS. Trindade que tão bem expressou os seus sentimentos de amor a Virgem do Carmo, quando nos fala: “Quem mais terna, mais misericordiosa que Maria? Ela sofreu tanto por nós! Podia demonstrar-nos de modo melhor o seu amor? Vejo-a contemplando o seu Jesus morto que repousa em seus braços. Quanto sofre esse coração de Mãe! Seria eu capaz de recusar-lhe o meu consolo?”.

Assim, neste dia 16 pedimos a mimosa e admirável flor do Carmelo, Maria, que continue a abençoar com seu manto sagrado e com o Santo escapulário, a todas as suas filhas e filhos carmelitas e a todos que peregrinam rumo a morada celestial.

Professor Hercílio Martelli Júnior e Irmã Maria Teresa Margarida do Sagrado Coração de Jesus, OCD.

Publicado por Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares (OCDS).

Santa Isabel da Hungria: “Ela sabia unir, com rara felicidade, a vida ativa à contemplativa.” – Terceira franciscana – Roberto Alves Leite (in “O Catolicismo)

Fonte: O Catolicismo

Santa Isabel da Hungria: nobreza e resignação heróica no infortúnio

Nos faustos da corte, piedade. Sob a calúnia e a perseguição, magnanimidade. Na opulência, caridade extremada. E, com a morte, a glória dos altares e da felicidade eterna.

Por Roberto Alves Leite

A vida de um santo é uma cruzada épica, em que ele põe todas as suas forças físicas e espirituais em ação. Quer se tenha convertido na maturidade, quer tenha sido aquinhoado desde pequeno com grandes dons, a partir do momento em que decidiu aprimorar-se nas virtudes e combater seus defeitos para alcançar a santidade o aspecto heróico passará a ser uma característica predominante em sua vida. Tal aspecto pode manifestar-se, às vezes, de forma surpreendente.
Quando Santa Isabel da Hungria nasceu, em 1207, cessaram todas as guerras em seu país natal. Seu pai, o Rei André II, da dinastia dos Arpades, e sua mãe, Gertrudes de Meran, descendente direta de Carlos Magno, tinham motivos para se alegrar por esta feliz coincidência.

Quatro anos depois, o Duque Herman, da Turíngia, enviou magnífica embaixada à Hungria para solicitar ao Rei a mão de Isabel para seu filho Luís, de onze anos.

Isabel passou a viver então na corte da Turíngia, onde, à medida que crescia, ia manifestando sua profunda piedade, que caracterizava todos os seus atos. Quando atingiu a adolescência, foi alvo de críticas da parte de nobres da corte, que a acusaram de ser muito religiosa, reservada, sem os traços mundanos que eles julgavam necessários para uma duquesa. Também diziam que ela iria arruinar o reino com as esmolas que dava.

Aos 13 anos, casou-se com Luís. Este tinha todas as qualidades de um autêntico cruzado, um verdadeiro defensor da Igreja. Em 1227 partiu para a Terra Santa como cruzado, com a elite de sua cavalaria, viagem da qual não haveria de voltar, pois morreu na mesma.

Hospedada no lugar dos porcos…

Viúva aos 20 anos, Isabel viu então a perseguição abater-se sobre ela e seus quatro filhos, um dos quais recém-nascido. O Duque Henrique, seu cunhado, que jurara protegê-la, expulsou-a do palácio com seus filhos e duas damas de honra, que lhe permaneceram fiéis. E proibiu à população recebê-la em suas casas.

Assim, em pleno inverno, Isabel viu-se obrigada a andar pelas ruas e bater de porta em porta, na esperança de que alguma alma caridosa se dispusesse a recebê-la. Só conseguiu entrar numa estalagem, onde o dono lhe destinou o lugar onde estavam os porcos, que foram removidos para ali ficar com seus filhos uma duquesa e princesa real.

No dia seguinte vagueou desamparada pela mesma cidade onde tantas pessoas se tinham beneficiado das esmolas que distribuíra com a prodigalidade que lhe era peculiar. Finalmente um padre, pobre também, resolve acolhê-la e dar-lhe certa proteção. Para que os filhos não morressem de fome, é obrigada a aceitar o conselho de deixá-los em mãos de outras pessoas.

Aparições do Redentor, de Nossa senhora e de São João Batista

Em sua vida de miséria e desamparo, Isabel sofreu muitas humilhações, tantas vezes vindas daquelas mesmas pessoas a quem muito tinha ajudado quando estavam necessitadas. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo, que a ninguém esquece, aparecia para consolá-la em suas aflições. São João Batista vinha confessá-la, e Nossa Senhora muitas vezes a visitava para a instruir, esclarecer e fortificar. Foi nessa ocasião que decidiu viver apenas para Deus.

Tendo chegado aos ouvidos de seus parentes, na Hungria, as provações por que passava, recebeu ela de seu tio, o Bispo-Príncipe de Bamberg, um castelo à altura de sua posição.

Além disso, os vassalos de seu finado marido, o Príncipe Luís, ao voltarem da Cruzada, dirigiram palavras duras ao usurpador, acusando-o de ter ofendido a Deus e desonrado o Ducado da Turíngia.

Isabel foi então reconduzida aos seus domínios, onde passou a exercer a caridade como desejava; e para melhor fazê-lo, decidiu recolher-se como terceira franciscana.

Virtude heróica: exagero para alguns…

Nesta situação, entretinha-se fiando a lã para dá-la aos pobres. Sua paciência e caridade não tinham limites. Nada a irritava ou descontentava. No atendimento aos doentes, nunca se viu tão maravilhoso triunfo sobre as repugnâncias dos sentidos. Era de espantar ver como a filha de um rei e viúva de um duque tratava os indigentes mais miseráveis. Até pessoas piedosas julgavam que ela exagerava em seus cuidados.

Seu pai, ao saber como vivia, enviou-lhe mensageiros para tentar retirá-la desse “estado miserável”. Ela lhes respondeu que, vivendo assim, era mais feliz que seu pai em sua pompa real. E retomou serenamente seu trabalho de tecer a lã.

Ela sabia unir, com rara felicidade, a vida ativa à contemplativa. Apesar das fatigantes obras de misericórdia a que se dedicava, sempre encontrava tempo para passar longas horas na oração e na meditação.

Era incansável na distribuição de benefícios materiais e espirituais. A um surdo-mudo ordenou, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que dissesse de onde vinha; ao que ele imediatamente obedeceu, contando sua história. Do mesmo modo, cegos, possessos e estropiados eram curados.

Milagres atestam santidade antes e depois da morte

Tinha apenas 24 anos quando Nosso Senhor chamou-a a Si para premiá-la com a glória celestial. Na véspera da morte, sua fisionomia transformou-se. Seu olhar tornou-se resplandecente, manifestando uma alegria e felicidade que cresciam a cada instante. Quando exalou seu último suspiro, um delicioso perfume se espalhou pelo ar, ao mesmo tempo que um coro de vozes do Céu se fez ouvir em cânticos de júbilo. Era o dia 19 de Novembro de 1231.

A notícia de sua morte atraiu verdadeira multidão que desejava contemplá-la pela última vez antes de seu sepultamento. Eram pessoas de todas as condições sociais, que não se constrangiam em arrancar-lhe pedaços das vestes, mechas de cabelo, fragmentos de unhas, etc, guardando-os piedosamente como relíquias.

Para atender a todos foi necessário prolongar a exposição do corpo por quatro dias, durante os quais seu rosto se conservava como o de uma pessoa viva. Na noite que precedeu o enterro, o teto da Igreja se encheu de pássaros desconhecidos, que cantavam melodias inefáveis.

Após sua morte verificaram-se muitos milagres atribuídos à sua intercessão, como a cura de cegos, surdos, leprosos, coxos, paralíticos, etc. Isto suscitou um grande movimento popular pela sua canonização, o que muito contribuiu para que o Papa Gregório IX a elevasse sem demora à honra dos altares, fato ocorrido em tocante cerimônia no dia de Pentecostes, 26 de maio de 1235, decorridos apenas três anos e meio de seu falecimento.

Poucos dias depois, em 1º de junho do mesmo ano, o Papa publicou a bula de canonização, que foi logo enviada aos Príncipes e aos Bispos de toda a Igreja.
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Fonte de referência:
Conde de Montalembert, Histoire de Sainte Élisabeth de Hongrie, Duchesse de Thuringe, Pierre Téqui, Paris, 1930.

Fonte: O Catolicismo.

Postado em Dezembro 10, 2007 by Feri.

“O amor será o grande tema norteador da espiritualidade da carmelita descalça de Lisieux.” – Santa Teresinha do Menino Jesus – Frei Patrício Sciadini (OCD)

Santa Teresinha de Lisieux

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Fonte: Frades Carmelitas Descalços (Ordem dos Carmelitas Descalços-OCD)

SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS

Nasceu em 1873, em Alençon, França. Entrou adolescente para o Mosteiro das Carmelitas de Lisieux, com apenas 15 anos, onde se distinguiu particularmente pela humildade, simplicidade evangélica e confiança em Deus e, estas virtudes ensinou-as às noviças, com seu exemplo e palavras. Morreu no dia 30 de setembro de 1897, oferecendo sua vida pela salvação das almas, a santificação dos sacerdotes e a expansão da Igreja. Foi beatificada pelo Papa Pio XI, em 29 de abril de 1923, que fez dela a “estrela de seu pontificado”. Canonizada por Pio XI, em 17 de maio de 1925. E pelo mesmo Papa proclamada Padroeira das Missões em 14 de dezembro de 1927. O Papa João Paulo II proclamou-a Doutora da Igreja no dia 19 de outubro de 1997. Santa Teresinha, aparentemente pequena aos olhos das criaturas, mas que trazia em si uma alma de gigante. Podemos defini-la como a “Pequena Gigante”.

Postado por Pastoral Vocacional Carmelitana.

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Fonte: Paróquia Santa Teresinha – Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD)

SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS

Frei Patrício Sciadini, ocd.

Desde o início, para não confundi-la com Teresa de Ávila, fundadora do Carmelo Descalço, acostumou-se a chamar a carmelita francesa, nascida em Alençon, França, em 1783, pelo nome de Santa Teresinha do Menino Jesus. Esta menina, que, desde pequena, sentiu-se fortemente atraída por Jesus Cristo e pelo Carmelo, “quis porque quis” ser carmelita aos quinze anos. Conseguiu entrar no Carmelo de Lisieux, onde, no silêncio, na oração, na austeridade de vida, chegou a ser santa.

A palavra que mais usa em seus escritos e que manifesta uma qualidade muito importante para todas as situações da vida é “QUERO”. Sua vontade educada na escola do Carmelo sabe ser firme nos propósitos assumidos. Já antes de entrar para a vida carmelitana, ela afirma que quer “ser santa e uma grande santa”. Conseguiu. É, sem dúvida, uma das santas mais conhecidas e famosas de toda a Igreja. Exerce sobre teólogos, bispos, papas e pessoas simples uma influência toda especial. Há em Teresinha um carisma singular: o da simpatia. Não é possível ler seus escritos sem sentir uma grande comoção interior por sua delicadeza, por sua linguagem terna e perfumada como as flores simples do campo que são cuidadas por Deus.

“Observai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Mas eu vos digo que nem Salomão com toda a sua glória se vestiu como um deles”(Mt 6, 28s).

Teresinha do Menino Jesus, por trás de sua simplicidade, esconde um caráter firme e decidido. No claustro do Carmelo vai encontrando o sentido escondido de sua vocação, do seu ser Igreja, do porquê da oração e da vida. É no silêncio que ela se faz palavra para o mundo, e é depois de sua morte que, como “missionária”, percorrerá todos os lugares do mundo, ensinando a amar a Cristo e educando-nos para um novo estilo de anunciar o evangelho: “a oração e o sacrifício”. Ousada em suas intuições, ela procura um caminho de santidade que todas as pessoas possam trilhar sem necessidade de penitências que são possíveis para poucas. É o caminho do “abandono e da confiança”, e, para que isto seja compreensível, em sua criatividade escolhe o símbolo do “elevador”, que, sem esforço, leva até os andares mais altos. Os braços de Jesus, sublime elevador, nos levam até o coração de Deus.

A espiritualidade da carmelita de Lisieux não está encerrada numa obra teológica orgânica; ela se encontra na narrativa de sua vida espiritual, com que ela sabe entrar em nosso coração. Não se trata de uma cronologia da vida, mas de momentos importantes do encontro com Deus, que vão acontecendo e que, mais tarde, ela sabe reler como mimos de Deus e, por isso, poderá cantar as misericórdias do Senhor.

Teresinha do Menino Jesus é o divisor entre uma espiritualidade “punitiva”, de um Deus que deve ser aplacado através de sacrifícios e de vítimas para que não envie sofrimentos e dores sobre a terra, e nosso Bom Deus, ávido por nossa salvação. Aquela primeira imagem de Deus não condiz com sua confiança e sua experiência do pai humano que teve. Ela será assim capaz de descobrir que Deus necessita, sim, de vítimas, não para ser aplacado mas para satisfazer sua sede de misericórdia e de amor. O amor será o grande tema norteador da espiritualidade da carmelita descalça de Lisieux.

A História de uma Alma, autêntico best seller traduzido em 120 línguas, faz inveja a qualquer escritor. Quantas pessoas encontram nos escritos da pequena Teresa força para continuar o caminho. Em sua doutrina bebem os santos e os pecadores em cuja mesa ela gosta de se sentar. Os ateus buscam em seu livro consolo para suas noites escuras, nas quais não enxergam nada de Deus, embora sejam contemplados pelo mesmo Deus.

Além desta obra-prima da literatura espiritual, considerada uma das “sete maravilhas” da espiritualidade, Teresinha nos oferece poesias, cartas, peças teatrais, de onde transborda seu amor a Deus e ao próximo. Necessitamos hoje, mais do que nunca, nos colocar na escola dos santos simples que sabem falar ao coração mais do que à inteligência entupida de idéias e de auto-suficiência.

A Igreja, considerando sua importância na teologia e na espiritualidade, não encontrou dificuldades em proclamá-la “Doutora da Igreja” e doutora da ciência mais difícil, “Doutora da ciência do amor”, aquela ciência que não se aprende nos livros mas no discipulado de Jesus. Teresinha morre aos 24 anos, aos 30 de setembro de 1897, dizendo: “- Meu Deus, eu vos amo!” Foi proclamada Padroeira das missões pelo Papa Pio XI, que a chamava de estrela de seu pontificado, e Doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II, aos 19 de outubro de 1997.

Quer conhecer mais sobre Santa Teresinha? Leia História de uma Alma e outras obras que você encontra em todas as editoras católicas.

“Sou de tal natureza que o temor me faz recuar; com o amor não somente avanço, mas vôo…” Santa Teresinha

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Extraído integralmente do site Paróquia Santa Teresinha (OCD) – Higienópolis (São Paulo).

19 de junho – Devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Me ausentei um pouco. Estou chocada com este abalo em nossa democracia e em minha vida profissional, em  minha vocação. Com a ajuda de Deus reagi e manifestei na web, no Observatório da Imprensa minha tristeza com os rumos que estamos tomando, minha contrariedade e inconformismo. Se trata de uma decisão infelizmente histórica para o exercício do bom Jornalismo no Brasil: nesta quarta-feira, dia 17, após muitos anos de idas e vindas entre instâncias jurídicas, polêmicas, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por 8 votos favoráveis e um contrário ao fim da exigência legal do diploma para atuação como Jornalista. Votaram pela inconstitucionalidade, por concordarem com a tese patronal e de outros grupos de profissionais de que a exigência de diploma “cerceia” a liberdade de expressão. Na verdade querem aviltar salários e manipular os que “escrevem bem”… Jornalismo é mais que isso: são quatro anos de estudos de Humanidades e técnicas de reportagem e redação (além dos gastos com mensalidades, alimentação e transporte). Obtive minha formação em 1990 em universidade do RS. Foi sacrificado, mas me orgulho muito da conquista do diploma porque, no meu caso, havia um objetivo principal: dar voz àqueles que ficam à margem de tudo…

A Lei que instituiu o diploma para atuar como Jornalista é de 1969, portanto em plena ditadura militar no Brasil. No entanto, este argumento é tendencioso, já que jornais tinham censores civis e militares dentro das redações, e muitos jornalistas foram perseguidos, banidos do país, alguns torturados, dados como desaparecidos. Wladimir Herzog amanheceu morto, enforcado com sua própria gravata, pendurado na grade com as pernas esticadas há cerca de dez ou vinte centímetros do chão… O silêncio impera porque os registros sobre este período ainda não foram liberados ao livre acesso dos pesquisadores, familiares e pesquisadores.

Meu registro profissional ńo Ministério do Trabalho – MTb/RS é 7142. Há milhares na minha condição, e ao que parece é irreversível a decisão do STF. Não perdemos nosso registro, mas perdemos em termos de credibilidade, valorização de nossa profissão. O ministro Gilmar Mendes, do STF, fez inclusive alusões a profissões que não precisam de regulamentação como por exemplo – cozinheiro… Outro alegou que Medicina e Engenharia, etc. são profissões compostas de “saber científico”,  e além colocariam a vida humana em risco. Quanto ao Jornalismo não haveria qualquer implicação, já que tem base no intelecto… O ministro gilmar Mendes ontem ameaçava com a possibilidade de eliminação da necessidade de diploma para outras habilitações.

Me conforta a mensagem transmitida à Santa Margarida Maria Alacoque por Jesus. Na devoção ao Sagrado Coração de Jesus há tudo que se pode imaginar de mais sutil, poético e consolador, mesmo em meio aos sofrimentos da vida.

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Fonte/imagem:Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares (OCDS) – Província S.José

(…)

Leituras: Os 11,1.3-4.8c-9 – Sl (Is 12,2-6) – Ef 3,8-12.14-19 – Jo 19,31-37

“Do coração de Jesus aberto pela lança, na cruz, saiu sangue e água.”

Tanto o sangue como a água são pensados simbolicamente. Fazem referência a dois grandes sacramentos da Igreja: o Batismo e a Eucaristia.

“Tal é o amor que Deus pediu a Davi ao dizer: Cria em mim, ó Deus, um coração puro (Sl 50,12), porque a pureza de coração não é outra coisa senão o amor e graça de Deus. Nosso Salvador chama bem-aventurados aos puros de coração, o que é tanto como chamá-los enamorados, pois a bem-aventurança não se dá por menos que por amor.”
São João da Cruz – 2N 12,1

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Fonte: Wikipédia

Santa_Margherita_Maria_Alacoque

Santa Margarida Maria Alacoque (Verosvres, 22 de Agosto de 1647 – Paray-le-Monial, 17 de Outubro de 1690) é uma santa católica.

Margarida Maria Alacoque, nasceu no dia 22 de Agosto de 1647 em Verosvres, na Borgonha. Seu pai, juiz e tabelião, morreu quando Margarida ainda era muito jovem.a Após a morte de seu pai Claudio de Alacoque foi morar com na casa de seu tio Toussant(tussã). Sofreram ela e sua mae dona Felizberta de Alacoque. Assim ela conheceu a humilhação da necessidade, vivendo ao capricho de parentes pouco generosos e nada propensos a consentir que ela realizasse o seu desejo de fechar-se no convento. Recebeu a comunhão aos nove anos e aos 22, a confirmação, para a qual quis preparar-se com confissão geral: ficando quinze dias preparando-se, escrevendo num caderninho a grande lista de seus pecados e faltas, para ler depois ao confessor. Na festividade de São João Evangelista de 1673, uma moça de vinte e cinco anos, irmã Margarida Maria, recolhida em oração diante do Santíssimo Sacramento, teve o singular privilégio da primeira manifestação visível de Jesus, que se repetiria por outros dois anos, toda primeira sexta-feira do mês. Em 1675, durante a oitava do Corpo de Deus, Jesus manifestou-se-lhe com o peito aberto e apontando com o dedo seu Coração, exclamou:

Eis o Coração que tem amado tanto aos homens a ponto de nada poupar até exaurir-se e consumir-se para demonstrar-lhes o seu amor. E em reconhecimento não recebo senão ingratidão da maior parte deles“.

Margarida Maria Alacoque, escolhida por Jesus para ser a mensageira do Sagrado Coração, já fazia um ano que vestira o hábito das monjas da Visitação em Paray-le-Monial. No último período de sua vida, nomeada mestra das noviças, ela teve a consolação de ver propagar-se a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, e os próprios opositores de outrora mudarem-se em fervorosos propagadores. Morreu em 17 de Outubro de 1690, aos 43 anos de idade. Foi canonizada em 1920, mas a data da sua festa foi antecipada por um dia para não coincidir com a de Santo Inácio de Antioquia.

“Por isso cada pessoa deverá interrogar-se não tanto sobre o que é que pode fazer com a liberdade, mas o que é que deixa que a liberdade faça da sua vida. Se este exercício for reduzido a uma pedagogia, corre-se o risco de amplificar o relativismo pós-moderno.” D.Manuel Clemente – 5ª Jornada da Pastoral da Cultura (SNPC) – Fátima

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC) – Fátima

08.06.2009

Autor: Fra Angelico

Evangelho segundo S. Mateus, 5, 1-12a

E vendo [Jesus] as companhias, subiu a um monte; e assentando-se, chegaram-se a ele seus Discípulos.
E abrindo sua boca, ensinava-os, dizendo:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os tristes, porque eles serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.
Bem-aventurados os que hão fome e sede [da] Justiça, porque eles serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.
Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vosoutros, quando vos injuriarem, e perseguirem, e contra vós todo mal falarem, por minha causa, mentindo.
Gozai[-vos] e alegrai[-vos] que grande [é] vosso galardão em os céus.

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Apresento abaixo o relato da Agência Ecclesia sobre o que os palestrantes “pensaram” quanto ao uso da liberdade, após 34 anos do fim da ditadura militar em Portugal. A 5ª Jornada da Pastoral da Cultura aconteceu em Fátima, no dia 05 de junho de 2009, sob a coordenação do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC)-Portugal. Antes, procurei dar o contexto da 5ª Jornada da Pastoral da Cultura, que teve como foco “Elogio à Liberdade”, ou seja, se trata de um país – Portugal – que comemora mas reflete sobre a condição de “liberdade”, ou seja, como usufruem dela, após 48 anos de ditadura sob o regime de Salazar. Daí porque faço menção, logo abaixo, à Revolução dos Cravos.

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Fonte: Wikipédia – Revolução dos Cravos

Revolução dos Cravos é o nome dado ao golpe de estado militar que derrubou, num só dia, sem grande resistência das forças leais ao governo – que cederam perante a revolta das forças armadas – o regime político que vigorava em Portugal desde 1926.

ANTECEDENTES

Na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, foi implementado em Portugal um regime autoritário de inspiração fascista. Com a Constituição de 1933 o regime é remodelado, auto-denominando-se Estado Novo e Oliveira Salazar passou a controlar o país, não mais abandonando o poder até 1968, quando este lhe foi retirado por incapacidade, na sequência de uma queda em que sofreu lesões cerebrais. Foi substituído por Marcelo Caetano que dirigiu o país até ser deposto no 25 de Abril de 1974.

O levantamento, também conhecido pelos portugueses como 25 de Abril, foi conduzido em 1974 pelos oficiais intermédios da hierarquia militar (o MFA), na sua maior parte capitães que tinham participado na Guerra Colonial. Considera-se, em termos gerais, que esta revolução trouxe a liberdade ao povo português (denominando-se “Dia da Liberdade” o feriado instituído em Portugal para comemorar a revolução). Fonte: Wikipédia – Revolução dos Cravos.

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Quanto aos cravos, há o registro histórico de que um soldado recebera de uma florista, bem cedo, naquela manhã de 25 de abril um cravo vermelho, e este o colocara na ponta do fuzil. O gesto foi repetido por todo o pelotão. As fotos revelam a face inusitada e poética da libertação de um regime tirânico. Certamente deu o “tom” para a reação à esta ditadura quase cinquentenária, que foi deposta sem manifestações de violência. No entanto, o povo português foi mais longe naquele dia. A participação popular foi paradoxalmente ousada e pacífica neste levante. Após viverem 48 anos sob a égide ditatorial, colonialista e fascista de Salazar, na ânsia de respirar o ar da liberdade, a população tomou as ruas, e se juntou pacificamente aos pelotões. Não deram ouvidos às ordens militares para que ficassem  em casa. Pelo registro das fotos da época, o povo português acompanhou os soldados em suas atividades mais corriqueiras naquele dia…

Assim, não importa, a meu ver, o que inspira uma ditadura – seja de direita ou de esquerda, religiosa ou liberal, e menos ainda, se for imperialista. Se muitos vão viver de modo diferente do que viviam, mas em troca outros serão oprimidos – não há legitimidade, em absoluto.

Tudo que importa afinal, é que nascemos livres, ou seja, nossa vocação é para a liberdade – de expressão, de ação, de ir e vir, dentro ou fora de nosso território. Desse modo, há somente uma única condição a ser considerada: o respeito à pessoa. Não há qualquer superioridade pré-adquirida de um povo sobre outro, e nem de grupos militares, operários, religiosos ou intelectuais sobre grupos de indivíduos, sobre cada pessoa dentro de uma Nação.

No Brasil vivemos uma ditadura militar, que incluiu a tortura, tal como se deu no período salazarista. Tivemos 20 anos de perda paulatina de nossa identidade cultural, e que em 20 anos e pouco mais de liberdade parecem não dar nem mesmo o vislumbre de que nos recomporemos das lacunas geradas em nossa personalidade enquanto povo, enquanto Nação. Sim, tivemos uma “Nova República”, mas ao que parece, e apesar dela, o caldo posterior, fruto do desmantelamento cultural (que influenciou nossa ação política) me traz a imagem de um barco à deriva…

Cada Nação deve se pensar (ao cansaço) para que as gerações futuras não naveguem docilmente sob qualquer vento. Muitos ventos levam milhares, milhões de criaturas ao abismo, tanto material quanto espiritual.

Eu, enquanto brasileira, jornalista, gostaria de dizer o quanto admiro esta iniciativa de nossos irmãos portugueses. O Brasil é um povo peculiar, mas, talvez por ser um “jovem” de 509 anos, ainda não se deu conta que outros povos, principalmente os antigos, acertam bastante porque não tem somente “saberes”, e sim porque, entre os  inúmeros erros de avaliação, tentaram e continuam tentando exercitar a “sabedoria”. Não é uma época propícia, mas é inegável que os Evangelhos fornecem relatos maravilhosos para todos os povos da terra a respeito disso. No entanto, as nações ocidentais parecem acreditar que a negação até mesmo de valores universais vai lhes trazer paz e prosperidade…

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Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura – Fátima – Portugal

5.ª Jornada da Pastoral da Cultura

Liberdade: um anseio a conquistar

Trinta e cinco anos depois do 25 de Abril de 1974, o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura reuniu-se em Fátima para o «Elogio à Liberdade», tema da 5.ª Jornada daquele Organismo que ocorreu, em Fátima, no dia 5 de Junho.

Durante a primeira parte do encontro, em que participaram cerca de cem pessoas, José Manuel Fernandes, director do «Público», enquadrou o estado da liberdade em diversas áreas da sociedade portuguesa.

Para o segundo momento da Jornada, a maestrina Joana Carneiro propôs uma nova abordagem ao conceito de liberdade: uma partitura, duas interpretações, ou a criatividade de Herbert von Karajan e de Leonard Bernstein diante da mesma obra de Beethoven.

«Que havemos de fazer com a liberdade?» foi a pergunta a que D. Manuel Clemente e Marcelo Rebelo de Sousa procuraram responder durante a tarde.

Uma das dificuldades no entendimento do conceito de liberdade consiste em a considerar apenas como um fenómeno externo, que é concedido em maior ou menor grau ao ser humano. Mas para D. Manuel Clemente, ela é um processo sempre inacabado, pelo qual o Espírito actua para atenuar e remover tudo o que obsta ao desenvolvimento pleno da personalidade. Por isso cada pessoa deverá interrogar-se não tanto sobre o que é que pode fazer com a liberdade, mas o que é que deixa que a liberdade faça da sua vida. Se este exercício for reduzido a uma pedagogia, corre-se o risco de amplificar o relativismo pós-moderno.

Para o Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, a vida de Jesus é o melhor exemplo do cumprimento da vontade do Pai, num ambiente marcado por condicionalismos externos como a violência, o isolamento e a incompreensão. Viver na tensão entre a realização dos desejos individuais e na concretização da vontade de Deus, visível por exemplo nas necessidades das pessoas, é, nas palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, “um equilíbrio difícil, em que todos tropeçamos“.

Olhando para o Portugal contemporâneo, o professor universitário considera que há diversos obstáculos ao exercício da liberdade. Desde logo porque muitas pessoas vivem em condições de exclusão, pobreza, dependência, ignorância e ausência de um percurso educativo adequado. Para esta parte da população, a liberdade garantida pela Constituição não pode ser aplicada.

Ser livre é, para D. Manuel Clemente, muito mais do que agir sem prejudicar ninguém; é sobretudo uma capacidade de acolher e estar disponível. Não estamos sós no mundo, pelo que esta pedagogia da exigência, que deve começar com as crianças, é essencial para conjugar a liberdade individual com a das pessoas que vivem em sociedade.

Pensa-se por vezes que a liberdade justifica todos os comportamentos; segundo Marcelo Rebelo de Sousa, este ponto de vista reflecte-se na disseminação da violência familiar e laboral, na dificuldade em viver no espaço público e na intolerância face às opiniões discordantes.

No que diz respeito à manifestação pública da opção crente, o comentador defende que se está a assistir ao “ressurgir de posições iluministas, não apenas anti-clericais”, que revelam dificuldades em entender o que é a liberdade religiosa.

D. Manuel Clemente defende a necessidade da Igreja, especialmente através do protagonismo laical, se envolver nos debates seculares em que a liberdade se analisa e perspectiva. Para Marcelo Rebelo de Sousa, os leigos precisam de converter em acção a sua convicção.

A Jornada foi também marcada pela entrega do «Prémio de Cultura Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes» ao Professor Adriano Moreira, que evocou as qualidades do presbítero jesuíta enquanto pastor e cidadão, numa época atravessada por mudanças aceleradas: “É com muita humildade que se deve receber uma distinção que é referida ao exemplo que ele deu”. Quando D. Manuel Clemente “me deu essa notícia [da atribuição do Prémio] eu disse uma coisa muito simples: ‘obrigado pela bênção'”.

Depois da leitura da Acta do Júri, o Presidente da Comissão Episcopal fez uma breve alocução, a que se seguiu a entrega da escultura e do cheque, no valor de € 2.500, oferecido pela Rádio Renascença. A cerimónia, que contou com a actuação do agrupamento «Sol Ensemble», concluiu-se com a intervenção de Adriano Moreira. (RM)

In Agência Ecclesia
09.06.09

Agência Ecclesia traz tema sobre esquecimentos das crianças (01 de junho – Dia Mundial da Criança)

Fonte: Agência Ecclesia – Portugal

Não ao esquecimento das crianças

A Associação Famílias acusa a justiça de “olhar mais às leis do que ao amor” pelas crianças. No âmbito do Dia Mundial da Criança, que se celebra no próximo dia 1 de Junho, a associação lamenta que este dia sirva apenas para lembrar “o esquecimento dos direitos das crianças”. Numa mensagem enviada à Agência ECCLESIA, a Associação Famílias afirma que os governos esquecem o direito à vida. “Esquecem as diferenças fisiológicas (das crianças, ndr), económicas e sociais pela não promulgação de medidas que facilitem o seu acesso à educação formal e à cultura”.

Também as famílias “esquecem a responsabilidade de educar pelo exemplo”, exprime o comunicado. “A criança tem uma personalidade própria, mas que essa personalidade se constrói e não se impõe”.

As crianças aparecem como “estatísticas” mas depois “a sociedade esquece-se de lhes proporcionar uma integração normativamente orientada”, em “conformidade com os valores de uma colectividade”.

A Associação Famílias critica ainda os media que se “esquecem de formar” deixando isso ao cuidado “das famílias e da escola”. Também a publicidade “esquece que as oportunidades não estão disponíveis de igual forma acarretando conflitos interiores”.

A resposta para esta ausência sobre as crianças deve ser revertida através da “educação dos governos e das famílias”, de forma a que as crianças “sejam educadas e formadas em consciência desenvolvendo a autonomia do pensamento e a consciência moral”.

Nacional | Agência Ecclesia | 2009-05-28 | 11:01:05 | Criança

Nossa Senhora lembrou ao mundo a necessidade da oração, em resposta a apelo do papa Bento XV aos católicos, em 1917… (OCDS)

Nossa Senhora do Carmo
Nossa Senhora do Carmo

Observem, tal como eu, que o mundo do século XX e início deste, ao que parece, está dando as costas  para seu Criador… Vivemos dentro de uma ótica tão materialista que estaremos caindo no abismo e não nos daremos conta enquanto não encontrarmos o chão… O papa Bento XVI está em Israel, e “peregrina” em meio ao conflito do Oriente Médio, e, com originalidade vai respondendo aos seus contendores. Ele também está clamando por paz entre os povos, exatamente como o papa Bento XV o fez, em 1917.

Entretanto, acredito que a tarefa do nosso atual papa é hercúlea, ou seja, é mais complexa que ao tempo da aparição de Nossa Senhora em Fátima. Seu clamor tem caído no vazio, dada ao que considero uma verdadeira “indiferença mundial pela paz”. Ele próprio indica a fonte do problema: o relativismo; o conceito está dentro do ideário “pós-moderno”. Estudiosos de Sociologia e Antropologia afirmam que estamos passando por uma fase de transição – do período “moderno” para o “pós-moderno”. Pessoalmente, ainda não consegui compreender em que se baseia este “determinismo”. É um fato histórico que passamos dos estudos “astrológicos” para os astronômicos – ou seja, da Idade Média para a Moderna. No entanto, o que sempre foi aceito como um valor universal, desde os gregos chegou incólume até a década de 80. Desde o final daquela década  há algo em curso (isto me lembra a “mão invisível” do Adam Smith…), que vem se mostrando inexorável. Algo que quer se firmar como a “Terceira Onda”, de Alvin Tofler, ou “1984”, de George Orwell. Enfim, há uma atmosfera, a meu ver, à lá Kafka. A pós-industrialização, que gerou a globalização, que gerará a virtualização da vida humana… O papa Bento XVI traduz tudo quando critica a relativização de todos os valores até então válidos…

Verifico que o papa Ratzinger tem a seu favor, em termos de defesa do Cristianismo, do catolicismo – a inteligência brilhante e o domínio das Escrituras Sagradas, e quanto a este aspecto, é pós-doutor em Teologia. Além disso, isto é, é um homem de 82 anos, que acumulou uma vasta cultura e, para melhorar seu perfil de Sumo Pontífice, é conhecido como um homem muito simples – o que vem surpreendendo a todos. Sendo assim, é um homem que possui sabedoria, a mesma que é valorizada no Antigo Testamento. No entanto, pede que rezemos continuamente por ele… certamente para que não esmoreça. Ou seja, Bento XVI vem enfrentando “intelectualmente” o combate sistemático da imprensa mundial, que, diga-se de passagem, é a favor de tudo que não lhe contrarie interesses… Obviamente que há outros grupos que lhe fazem oposição.

A propósito, desde o final do dia de ontem e no dia de hoje, 13 de maio, teve de enfrentar a rejeição de alguns líderes religiosos israelitas quanto ao projeto de estabelecimento de uma sede na Terra Santa – algo em torno de um organismo estatal, o qual representaria o pensamento do Vaticano. A idéia é viabilizar meios que permitam a proteção dos cristãos de todas as nacionalidades, que residem nas áreas de conflito, bem como palestinos, cristãos ou muçulmanos. Esta notícia contrariou o mundo político de Israel, provavelmente porque agradou, por exemplo, reinados muçulmanos, como o da Jordânia. Esta tem como característica o acolhimento “democrático” de cristãos e muçulmanos, tanto no aspecto da prática religioso quanto da educação e cultura que os caracteriza.

Quanto a manifestações de alguns rabinos ultra-conservadores em Israel, não lhes foi permitido entrar com faixas e cartazes no ambiente em que o papa Bento XVI se dirigiria a uma ampla gama de autoridades religiosas e políticas, que compõem o estado de Israel. Pelas notícias, o papa falou de improviso e seu apelo à paz teve argumentação bíblica, que foi acolhida com surpresa pelos presentes…

Voltemos à aparição de Nossa Senhora em Fátima. Em 1917, o papa referido abaixo – Bento XV – clamava ao mundo católico que pedisse a intercessão de Nossa Senhora pela paz, em meio à primeira Guerra Mundial. O mundo não ouviu, tanto que veio uma segunda Grande Guerra, e com uso de uma bomba atômica… Constato que o papa Bento XVI nem ao menos pode apelar a sentimentos como – piedade, compaixão, amor, perdão. Pelo menos com a certeza de que, se não for atendido, será compreendido ou aceito… Podemos ter a certeza de que o papa Bento XV foi compreendido, ainda que não lhe tenham dado ouvidos…

Estamos negando nossa humanidade, cedendo-a, sim, aos apelos do mundo da Ciência e da Tecnologia. Estas, na minha ótica, duas “deusas” que, há cerca de três décadas foram “entronizadas” na vida que adotamos, sem crítica de espécie alguma…

Tenho que admitir a luta – que vai se mostrando inglória, ainda que perseverante, graças a Deus – em todas as áreas da vida humana. Está sendo travada por muitos de nós – ao tentarmos preservar uma “vida interior”. Ou seja, é empreendida, em nosso dia-a-dia, uma verdadeira “batalha” para vivermos com liberdade e autenticidade, em meio a este estado de coisas, nossos ideais de transcendência. O absurdo é que nada é mais humano que esta realidade, já que o instinto de sobrevivência é básico. Por que chegamos a este nível de negação de nós próprios? Acumulação? Prestígio? Nesse sentido, sinto-me “vítima”. O que me consola é que estou bem acompanhada, e por muitos… Assim, chega a parecer piada, dentro do que eu chamo “tirania desumanizante” – afirmarmos nossa religiosidade, nossos anseios espirituais… A “Matéria” em nosso tempo, sufoca, ao cansaço, o “Espírito”; este, no sentido filosófico. Será que a Humanidade ainda pensa que existe alma, e que esta deve aspirar à salvação? Nossa Senhora… ora pro nobis. Amém.

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Fonte: Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares (OCDS) – Província de São José http://ocdsprovinciasaojose.blogspot.com/

Nossa Senhora de Fátima

No dia 5 de maio de 1917, durante a primeira guerra mundial, o papa Bento XV convidou os católicos do mundo inteiro a se unirem em orações para a paz com a intercessão de Nossa Senhora. Oito dias depois a Santíssima Virgem dava a sua resposta, aparecendo a três pastorinhos portugueses. A 13 de Maio de 1917, três crianças apascentavam um pequeno rebanho na Cova da Iria, freguesia de Fátima, conselho de Vila Nova de Ourém, hoje diocese de Leiria-Fátima. Chamavam-se Lúcia de Jesus, de 10 anos, e Francisco e Jacinta Marto, seus primos, de 9 e 7 anos.

Por volta do meio dia, depois de rezarem o terço, como habitualmente faziam, entretinham-se a construir uma pequena casa de pedras soltas, no local onde hoje se encontra a Basílica. De repente, viram uma luz brilhante; julgando ser um relâmpago, decidiram ir-se embora, mas, logo abaixo, outro clarão iluminou o espaço, e viram em cima de uma pequena azinheira, onde agora se encontra a Capelinha das Aparições, uma “Senhora mais brilhante que o sol”, de cujas mãos pendia um terço branco.

A Senhora disse aos três pastorinhos que era necessário rezar muito e convidou-os a voltarem à Cova da Iria durante mais cinco meses consecutivos, no dia 13 e àquela hora. (…) Leia mais em http://ocdsprovinciasaojose.blogspot.com/.

Humanos para sempre…

A era da técnica, tão enaltecida pelo mundo dos negócios, tem nos trazido muito desencanto. No meu caso, percebo isto desde que me senti parte do mundo da produção. Que sensação de infelicidade, de excesso, de confusão advém desta realidade que tem nos imposto o mundo que nos cerca, inocentemente chamado de “globalizado”. Minha mente está cansada de tantas informações: soltas, jogadas ao ar pelos meios de comunicação, ou espalhadas, aos milhares, em impressos… Apesar dos homens de negócios propalarem aos quatro ventos a chamada interatividade ou interconectividade, o que está ocorrendo se dá de modo totalmente o contrário. Os negócios vão muito bem; o nosso case é que não estamos interessados nos seus lucros. Eles matam, virtual e literalmente. Lembremos que há redes dando-lhes suporte em seus negócios nefastos.

O VAZIO DA SERVIDÃO CONSENTIDA

A informação, o conhecimento advindo da internet deveria produzir bem-estar aos povos do mundo, e não o seu contrário, uma Babel… Esta, se formos inteligentes, não será uma monstruosidade se cumprir seu dever público de ser útil à coletividade humana, isto é, nos servir. Sim, esta biblioteca mundial, que se alimenta da produção de saber humano (medicina, engenharia, biologia, filosofia, comunicação, etc.) produzida ao longo dos séculos da civilização, necessita ser “agarrada” por todos, para que beneficie, de fato, a Humanidade. Por que deixaríamos toda esta bagagem de cultura mundial nas mãos de negociantes? Por analogia, seria a mesma coisa que deixar uma turma de “fazedores” de filmes pornôs ocuparem o seu interior de uma igreja, por algumas horas, e lá, realizarem certas cenas, a portas fechadas… Espantoso, não? Mas, infelizmente este filme foi produzido. Como sou jornalista, acabo sabendo de um tudo um pouco, ainda que de maneira rápida, superficial. Foi na Itália há cerca de dois anos. Em uma pequena cidade da Itália, um indivíduo assistia a tal “película” e reconheceu que o “cenário” era real, e pela pior razão: se tratava do interior da sua igreja. Como católico, escandalizado, numa admirável demonstração de coragem (deixou a hipocrisia de lado…), chamou a imprensa, e, sobrou para a Cúria, que chamou o padre. Este, embaraçado afirmou ter sido enganado, já que ficaria ausente a maior parte do dia, mas não viu problema em liberar a chave da igreja porque viu o casal de noivos. Se o padre falou a verdade, faz sentido ele ter afirmado que se ausentaria por algumas horas. Não creio que tivesse interesse em ficar assistindo a pretensa gravação do casamento. A partir disso, a produção e a direção trataram de aproveitar bem o tempo. Uma entrada, desde a escadaria da igreja até o altar leva, no máximo, uns 15 minutos. Descontando que refizeram umas dez vezes a entrada, obviamente para não dar na vista, calculo um total que giraria em torno de três horas de “filmagem”. O que fizeram depois das portas fechadas pode ter sido bem mais rápido (sem repetições), o que não estranheza. Afinal, filmes com cenas de casamento se limitam à chegada da noiva, com corte para a sua chegada ao altar. Portanto, considerei plausível o argumento do padre italiano. O resultado desconcertante é que a igreja foi denominada como profanada (e, a meu ver, ela o foi, já que tudo que se passou lá dentro não é admissível de maneira alguma ). Houve um estranhíssimo desrespeito à crença, o que denota que a cultura judaico-cristã está sofrendo muitos ataques. Nem precisa ser beato para considerar este evento uma blasfêmia, não? Na notícia, seria esvaziada e novamente consagrada, e além disso, tudo dentro dela seria trocado, para ser certamente também consagrado. Este relato (real) revela que não certos limites estão sendo ultrapassados de um modo não usual. Temos aqui a técnica de filmagem e o set todo a serviço do lucro. Nem se trata mais de non sense (isto é do tempo do Fellini…), e sim de ganância, que a fórceps busca conspurcar valores universais, em vista da liberdade de ganhar dinheiro com qualquer coisa, de qualquer modo.

MENTES CONSPURCADAS OU PROFANADAS?

Voltemos ao abuso da técnica, do uso exacerbado de tecnologias que nos desumanizam. Entendo que até há 20 e poucos anos anos (sem ingenuidade, obviamente) comunicar algo era libertar as pessoas de certos entraves (por falta de informações) que limitavam o potencial de suas mentes, de suas vidas. Bons tempos.

Não sou contra o desenvolvimento de instrumentos, de recursos que possibilitem uma melhor qualidade de vida para nós próprios, e sem dúvida, para a humanidade. Mas, inexoravelmente, as coisas caminham há, pelo menos, três séculos para o caos. Não aquele caos dos pessimistas, e sim, o caos do excesso. A natureza humana  não poderia suportar este turbilhão de invenções, úteis e inúteis; e, tanto faz, já que não somos computadores ambulantes. Podemos cruzar dados, até o ponto de criá-los para que façam isto por nós. No entanto, nossa natureza não comporta mais esta profusão de conhecimentos, e que, na maior parte das vezes, não está produzindo saber, sabedoria de viver…

Temos que pensar (ou repensar) se queremos esta inteligência artificial nos espreitando, vampirizando nossas vidas. Quem, afinal, tem o direito de nos nos tornar como que zumbis (como no cinema e na literatura, que são ficção)? Nestes, seus corpos irrompem na madrugada, e agem como mortos-vivos. Afora, por exemplo, uma leitura noturna ou um saída com amigos à noite em um bar ou jantar em suas casas, vivemos para o dia- nele nos saudamos, sorrimos, rimos, nos estressamos, e portanto, sentimos dores. Tudo porque simplesmente estamos vivos! Faz parte de nossa humanidade sermos assim, até com perdas de controle emocional, de vez em quando, claro… Afinal é nossa sanidade que está em jogo e também a sanidade daqueles que estimamos, e por aí vai).

Assim, se perde no tempo a perda de um sem número de “sensibilidades”: poéticas, estéticas, literárias, do simples bem-viver, que inclui, inclusive, uma boa refeição e o prazer que nossos sentidos experimentam ao saboreá-la… Ou então, a audição de uma música – em que o som dos instrumentos falam conosco (como isto pode sr possível?), ou sua melodia e letra, criativamente interpretada pela voz humana. A música se vale de um princípio técnico para ser repetida com exatidão, que são as partituras, mas é a intenção do autor que a torna viva. A música, ainda que executada de maneira técnica, nos comunica sentimentos e sensações, visões de mundo. Saímos, em nosso cotidiano, da limitação de “fazer” algo, ou muitas coisas. Nesse sentido o uso de uma técnica, ou a fruição do seu resultado, como a música, a pintura, entre outras extensões de nossa humanidade, pode representar algo maravilhoso em nossas vidas, que jamais podemos dispensar, já que compartilha do mirandum que acompanha nossa caminhada pelo mundo. Até nos esquecemos da morte… Ou, pelo contrário nos faz mergulhar em abismos inauditos, mas necessários.

NÃO SÃO NOSSOS OS OLHOS QUE INVENTAM MUNDOS ALEATÓRIOS…

A título de sugestão, ouçam, já que há pouco tive acesso a uma gravação em MP3  de uma composição do grupo Supertramp (dos anos 80), que é, na minha avaliação, uma obra-prima de nosso tempo. Falo de “Fool’s Overture” (Supertramp). Me fascina essa peça musical, que tem um caráter épico; enfim, é uma ópera contemporânea. Por certo vocês sentirão ao ouvi-la uma dramaticidade que impressiona, que em seus altos e baixos, revela a intensidade que há em nossas vidas, queiramos ou não… Será quase uma uma experiência “religiosa”. Não há lugar para sentimentos neutros. Atentem para o momento em que uma gravação antiga, em que uma voz masculina menciona com gravidade “(…)Pandora’s witches”. Em um primeiro momento, acreditei ter ouvido “box” e, assim registrei no post. Isto, porque culturalmente conhecemos a expressão “Caixa de Pandora”. Então, como gosto demais desta música, ouvi-a novamente, desta vez com mais atenção, e ouvi(?) o locutor dizer, em um inglês britânico – “witches”. Na letra não consta esta fala, o que me inclina (pelo contexto desta “Overture”) a pensar que é plausível a referência a bruxas. Afinal, da “Caixa de Pandora”, quando aberta, saem para o mundo todas as loucuras, mesmo as inimagináveis…

Para aliviar um pouco, confiram na Wikipédia que “Overture” se trata de peça musical de grande expressão. Bach compôs neste estilo, no entanto há uma relação de outras produções que foram denominadas historicamente desse modo, que se estende ao final do século XX. A propósito, especificamente, no caso de “Fool’s Overture” (e outras peças musicais de sonoridade sofisticada) fica evidente que fomos esmagados por uma massificação, que nos toldou a criatividade, inclusive a musical. Quem atualmente joga com tais dados da cultura humana? Passou. Ficou para trás.. Vale a pena detalhar, até mesmo para valorizar esta magnífica obra da mente humana. A genialidade do grupo se mostra no fato de inserir a gravação antiga de uma fala de peça teatral. Como resultado, em seu conjunto, a composição chega a ser assustadora.

Estes recortes, que são dados culturais (alguns já  centenários) estão se perdendo pela tecnificação do nosso atual modo de vida. Antes que a “Caixa de Pandora” se abra totalmente, vale a pena mergulhar no sentido que esta produção musical  traz como desafio à compreensão de nossas vidas. Não somos robôs, mas a Ciência não descansará enquanto não nos conformarmos ao “modelito” científico de ver e viver a Vida.

Assim, fiquem atentos aos acontecimentos musicais contidos em “Fool’s Overture” (por exemplo, a percussão primorosa). É verdade: há muito estudo de notas, tons, portanto, muita técnica. Mas, em meio à melodia, no vácuo da interpretação do vocalista e de um coro eventual, nossas emoções serão envolvidas por corais religiosos, ventos avassaladores, sinos que badalam ao fundo, e, entre outros arranjos, o Big Ben anunciará a hora…