A Obra Teresiana e a Espiritualidade Cristã

Aproximação à Obra Literária de

Santa Teresa de Jesus

María de la Concepción Piñero Valverde
(Livre-Docente FFLCHUSP)

As reflexões que se seguem procuraram servir de breve apresentação da obra literária de Santa Teresa de Jesus a um público de jovens estudantes universitários brasileiros. Não houve, portanto, a pretensão de desenvolver análise literária da obra teresiana e muito menos de apresentar toda a sua riqueza para a espiritualidade cristã. O que se buscou, somente, foi oferecer uma primeira visão da obra de uma extraordinária mulher que, apesar de universalmente conhecida como grande mística, é ainda pouco estudada como a grande escritora que também foi. Não que se oponham ambos os aspectos da experiência teresiana: pelo contrário, falar da escritora pressupõe fazer referências constantes à sua doutrina espiritual, como, por outro lado, falar da experiência mística de Teresa é entrar na linguagem literária que traduziu tal experiência. Podemos, pois, reconhecer desde já que o estudo de Teresa, a escritora, é inseparável do estudo de Teresa, a mística. Assim, ao concentrar a atenção na expressão literária teresiana, que é o que se pretende agora, espera-se oferecer elementos que permitam apreciar melhor também sua doutrina e espiritualidade.

Teresa de Jesus: mulher do século XVI que se expressou por meio de obra escrita. E obra escrita de grande valor literário. Por outras palavras, o que Teresa escreveu, além do valor religioso, tem valor estético. Teresa, como Agostinho e Pascal, está entre os autores espirituais que foram também grandes escritores, autores de textos lidos até mesmo por pessoas estranhas à prática religiosa.

Buscar as raízes da beleza que encontramos nas páginas teresianas é lembrar que Teresa de Cepeda e Ahumada nasce em Ávila, uma das mais belas cidades de Castela, rodeada de antigas e famosas muralhas. A paisagem da cidade natal lhe inspiraria, mais tarde, a nitidez das imagens de uma de suas maiores obras, as Moradas ou Castelo Interior. É precisamente como um castelo rodeado de muralhas que Teresa expressará o íntimo da vida humana, o lugar onde se dá o encontro com o divino.

Teresa desde o berço contemplou o belo à sua volta e também desde muito cedo começou a experimentar o fascínio da palavra poética. Palavra que conheceu, antes de mais nada, por meio de seus pais, cristãos fervorosos, que lhe fizeram familiar a dos salmos, dos cânticos, das parábolas evangélicas. As Escrituras Sagradas, as divinae litterae, foram, pois, a porta pela qual Teresa entrou no mundo da literatura.

Mas a Espanha renascentista do início do século XVI cultivava também com entusiasmo as humanae litterae. E o interesse de Teresa pela leitura foi despertado em sua própria família. O exemplo lhe vinha, em primeiro lugar, de seu pai, leitor apaixonado, que mantinha em casa uma rica biblioteca, onde ao lado das obras latinas não faltavam as obras em castelhano, em romance, para que todos pudessem lê-las. É Teresa mesma, em sua autobiografia, quem recorda a figura do pai entre os livros que guardava para os filhos: “Era mi padre aficionado a leer buenos libros y ansí los tenía de romance para que leyesen sus hijos” (Libro de la Vida, 1,1) [1] .

Não era só o pai de Santa Teresa que gostava de ler. Sua mãe tinha também o hábito da leitura. O que mais a entretinha eram obras que uniam história e fantasia, as novelas de cavalaria, tão populares nesse período e mais tarde imortalizadas por Cervantes. Foi assim que Teresa descobriu o mundo da literatura de ficção, e passou a se empolgar com as aventuras de guerreiros cristãos e mouros por suas terras e por terras estranhas. Mais uma vez, é ela própria quem nos conta isso, em sua autobiografia: “Era aficionada a libros de cavallerías […] Yo comencé a quedarme en costumbre de leerlos […] Era tan estremo lo que esto me embevía que, si no tenía libro nuevo, no me parece tenía contento” (Libro de la Vida, 2,1). Aliás, Teresa não se limitava a ler: teve a idéia de ser autora de uma novela de cavalaria. Chegou a começá-la, com a ajuda de seu irmão. Mas tudo não passou de uma brincadeira de criança, que não foi adiante.

Depois de adulta, Teresa percebeu os perigos da leitura desenfreada dessas novelas, que levariam à loucura o grande Quixote. Não se pode esquecer, porém, que a leitura dos livros de cavalaria ajudou a santa a formar o gosto pelas histórias bem escritas, cheias de lances surpreendentes e imprevistos, que prendem a atenção do leitor. Uma biógrafa contemporânea, Marcelle Auclair, a denomina “a dama errante de Deus”. E não é difícil reconhecer nas peripécias da reforma carmelita, contadas por Teresa no Libro de las Fundaciones, algo da vivacidade narrativa que ela aprendera a apreciar, na juventude, ao ler as histórias de cavaleiros andantes. Podemos também supor que algumas imagens nupciais da obra teresiana fossem recordações dos romances de cavalaria, dos famosos cavaleiros andantes apaixonados, como Dom Quixote por sua Dulcinéia.

Já se viu que a biblioteca do pai de Santa Teresa continha muitos “buenos libros”. Entre eles estariam, certamente, os livros de grandes escritores espirituais que foram também mestres da expressão literária, como Juan de Ávila e Luís de Granada. Nem faltariam outras obras espirituais de alta qualidade literária, como a Imitação de Cristo, atribuída a Tomás de Kempis. Certo é que, mais tarde, um tio de Teresa lhe fez conhecer o Tercer Abecedario, de Francisco de Osuna. Ela o diz no capítulo 4,6, do Libro de la Vida: “Me dio aquel tío mío […] un libro; llámase ‘Tercer Abecedario’, que trata de enseñar oración de recogimiento”. Todos esses escritores ascéticos, repita-se, foram, antes de mais nada, estilistas formados nos clássicos latinos.

Com estes livros da biblioteca de seu pai, Teresa começou formar o gosto e o estilo. Note-se que seu pai punha os livros da biblioteca ao alcance de Teresa e seus irmãos: os livros lá estavam em castelhano, em romance justamente “para que leyesen sus hijos”. Por aqui se observa que o pai de Teresa não distinguia, neste aspecto, a instrução das filhas e dos filhos. Queria que todos tivessem acesso às mesmas leituras. Uma atitude que faz pensar ainda hoje, sobretudo se lembrarmos que, no tocante à difusão dos textos escritos, os tempos de Santa Teresa eram “recios”, como diz ela. Lembremos que em 1559, o Índice de livros proibidos, publicado pelo inquisidor Valdés, excluía vários livros sobre a vida espiritual, escritos em língua romance. Entre as obras proibidas estavam clássicos da doutrina espiritual, como os já citados Juan de Ávila e Luís de Granada. É verdade que nessa época Santa Teresa já havia saído da casa paterna, mas, como veremos, alguns livros que ela escreveu sofreram também dificuldades com a censura.

De qualquer forma, com as leituras feitas na biblioteca de casa, e com outras feitas mais tarde, Teresa foi adquirindo noções da arte de escrever, da retórica de seu tempo. Por outro lado, a proibição oficial de certos tratados religiosos parece ter tido, paradoxalmente, um feliz efeito literário: o de obrigar mais tarde Teresa a não se prender a essas lições, a buscar em si mesma formas mais livres de expressão de sua vida espiritual. Enfim, graças ao exemplo do pai, Teresa foi aprendendo também que, na expressão literária, como em outros aspectos da vida, homens e mulheres devem as mesmas oportunidades fundamentais. Foi aprendendo ainda que se ela própria, suas irmãs e sua mãe podiam ser tão boas leitoras quanto seu pai e seus irmãos, nada impediria que fossem também tão boas escritoras quanto os homens. Mais ainda: ninguém melhor que a mulher para se fazer entender de um público de leitoras. Diz Teresa: “mijor se entienden el lenguaje unas mujeres de otras” (Moradas, prólogo, 5).

É, aliás, importante ressaltar desde já que os momentos cruciais da vida espiritual de Santa Teresa estão unidos aos livros. Ela mesma nos conta que foi por meio da leitura que deu os primeiros passos em sua caminhada espiritual: “Dióme la vida haver quedado ya amiga de buenos libros. Leía en las Epístolas de san Jerónimo […]” (Libro de la Vida, 3,7). O Tercer Abecedario, de Francisco de Osuna, a fez entrar no caminho da oração mental. Em 1554, Teresa é uma das primeiras pessoas que tem em mãos a tradução das Confissões de Santo Agostinho. A partir de então é que ela inicia o que chama de sua “conversão”. A grande reforma do Carmelo também está moldada na leitura de um livro, o Livro da Instituição dos Primeiros Monges, atribuído a João, Patriarca de Jerusalém.

Ao longo de toda a vida no convento, Teresa conservou o costume de procurar a solução de suas dúvidas tanto em conselhos dados de viva voz, quanto na leitura de escritores espirituais. Ela nos conta o seguinte, por exemplo: “Mirando libros para ver si sabría decir la oración que tenía, hallé en uno que llaman ‘Subida del Monte’, en lo que toca a unión del alma com Dios, todas las señales que yo tenía” (Libro de la Vida, 23,12). O livro a que ela se refere é a Subida del Monte Sión, do franciscano Bernardino de Laredo. Aliás, mesmo quando recebia conselhos de viva voz, Teresa não deixava de notar que seus conselheiros também escreviam livros. Assim, por exemplo, falando de um franciscano que mais tarde seria São Pedro de Alcântara, Teresa diz o seguinte: “Es autor de unos libros pequeños de oración, que ahora se tratan mucho, de romance […]” (Libro de la Vida, 30,2).

Ao primeiro aprendizado de leitura vieram somar-se outros: Teresa aprendeu a expressar-se também com os confessores, com os letrados e, em especial, com os pregadores. É sabido que na Europa daquela época a pregação era um dos principais espaços da arte retórica. A importância de todo esse aprendizado se revelou anos mais tarde, quando Santa Teresa precisou escrever. Digo que precisou escrever, porque, depois da tentativa infantil de criar uma novela de cavalaria, não voltou a pensar em ser escritora. A grande obra de sua vida foi, como se sabe, a reforma do Carmelo. Mas, como também se sabe, foram justamente as polêmicas provocadas por essa reforma que levaram os superiores eclesiásticos a mandar que Teresa escrevesse, a fim de conhecer-lhe melhor os propósitos. Assim, Teresa começou a redigir sua vida por obrigação.

A redação do Libro de la Vida ocorreu em um momento de dificuldades extremas para a reforma, e a obrigação de escrever não podia ser imposta em ocasião mais desfavorável. Apesar disso, à medida que o tempo passa, Teresa vai-se identificando mais e mais com a expressão escrita. Para ela, escrever é ato de obediência, mas é também ocasião de enxergar a si mesma com mais clareza e de comunicar a outros os dons que recebera. A necessidade de escrever vai-se tornando imperiosa, “apremiante”, tanto que ela chega a dizer: “¡Ojalá pudiera yo escrivir con muchas manos para que unas por otras no se olvidaran!” (Camino de Perfección, 34,4).

Isto não quer dizer que a redação de seus escritos fosse prioritária. Pelo contrário, Teresa muitas vezes tinha de deixar de lado a pena para cuidar de outras obrigações, ainda mais urgentes. Nenhum texto a impediria de dar atenção às pessoas com quem convivia. Assim, foi entrecortada de interrupções a redação do Camino de Perfección e das Moradas. Estas interrupções se refletiram em variações no modo de escrever e em certa diversidade de estilo. Pois seus escritos nasciam da efusão interior e por isso sofriam a influência de cada momento. Além disso, com o passar do tempo o número de seus leitores foi aumentando; seus interlocutores podiam mudar ao longo de um mesmo livro. Diz a Santa: “como la cabeza no está para tornarlo a leer, todo deve ir desbaratado, y por ventura dicho algunas cosas dos veces: Como es para mis hermanas, poco va en ello”(Moradas, V,4,1)

Apesar de obrigada a escrever em momentos difíceis, Teresa, como vimos, soube valorizar o ato de escrever. E isto, digamos de passagem, cria uma dificuldade para a apreciação literária de Santa Teresa. Pois quem busca somente sua doutrina espiritual ou dados de sua biografia poderá valer-se das muitas traduções de suas obras. Mas o interessado em conhecê-la como escritora terá de ler seus textos no original ou em tradução que tenha valor literário, o que nem sempre é fácil de achar. Mesmo ao leitor de língua portuguesa, que enfrenta em muito menor grau este problema, certo cuidado se impõe: uma coisa é apreciar o relato biográfico ou as lições espirituais do texto teresiano, e outra coisa é apreciar toda a sua beleza e finura de expressão. Com esta advertência, falemos então brevemente do conjunto de seus escritos literários.

Todas as obras mais conhecidas e citadas de Santa Teresa foram escritas em prosa. Mas é preciso lembrar que ela nos deixou também cerca de trinta poesias. Era costume do Carmelo celebrar com versos as festas religiosas ou a entrada de uma nova irmã, por exemplo. Por isso, nem sempre é possível saber se a autora de uma poesia foi Santa Teresa ou alguma de suas irmãs religiosas. Apesar disso, há um bom número de poesias que certamente foram escritas por ela.

O tema das poesias teresianas às vezes é a experiência mística da autora. É o que ocorre, por exemplo, na poesia intitulada Vivo sin vivir en mí. Outras vezes o tema é a alegria da convivência com as irmãs carmelitas, como na composição intitulada Ah, pastores que veláis. Quanto à estrutura das composições poéticas, Teresa adotou soluções já tradicionais na literatura castelhana. Ou seja, uniu estrofes de tipo popular (villancicos, romances) e estrofes de tipo erudito, empregadas pelos poetas dos cancioneiros. Nos versos de Santa Teresa é característica a chamada vuelta a lo divino, quer dizer, a “divinização” ou “sacralização” de alguns temas e imagens. Assim, muitas imagens correntes na linguagem dos cancioneiros amorosos, na poesia de Teresa se tornam símbolos da vida espiritual. Por exemplo, as imagens da caçada, da morte por amor, da oposição entre amor e morte. Algumas dessas imagens derivam também do livro bíblico Cântico dos Cânticos, atribuído a Salomão, onde o amor humano se torna expressão do amor divino. Esse livro bíblico foi muito valorizado desde o século XV pela devotio moderna, que ressaltava a relação pessoal entre a criatura e o Criador. A devotio moderna e sua leitura do Cântico salomônico estiveram presentes desde cedo na Península Ibérica e deixaram marcas não só na obra teresiana, mas na de São João da Cruz e na de outros místicos espanhóis. Aliás, Teresa dedicou toda uma obra ao comentário desse livro bíblico, obra intitulada Meditaciones sobre los Cantares.

Este comentário, porém, foi redigido em prosa, tal como todos os escritos mais conhecidos de Santa Teresa. Escritos que os críticos costumam classificar em duas grandes seções: textos autobiográficos (como a Vida) e textos ascético-místicos (como as Meditaciones, há pouco citadas). A classificação pode ser útil, mas não deve ser tomada com rigidez. De fato, nos escritos autobiográficos não faltam relatos de experiência mística, assim como nos escritos espirituais não faltam importantes informações sobre sua vida. De qualquer modo, a produção literária de Santa Teresa se desenvolve de 1560 a 1582, isto é, na segunda parte de sua vida, quando a Santa já havia alcançado a experiência mística. Entre seus primeiros escritos, as Relaciones, ou contas de consciência aos confessores, e sua obra-prima, as Moradas, o amadureci-mento literário se dá em tempo relativamente curto.

Ao longo deste amadurecimento da exercitação literária, a principal dificuldade com que se defrontava Teresa (e isto vale também para outros escritores místicos, e para seus críticos) era a de traduzir verbalmente um mistério que vai muito além das palavras. O escritor místico percebe que o vocabulário comum é inadequado para a experiência que quer transmitir. Por isso é que recorre a comparações, fala por analogia e emprega uma linguagem rica em símbolos, sempre muito próxima da poesia. Em Santa Teresa há uma consciência muito clara da dificuldade de traduzir em palavras a experiência mística. Para ela, isto já é uma graça de Deus. Vamos ouvir o que ela diz a esse respeito: “porque una merced es dar el Señor la merced, y otra es entender qué merced es y qué gracia; otra es saber decirla y dar a entender cómo es” (Libro de la Vida, 17,5). “Saber decir”, “saber dar a entender”, “después de haberlo entendido” são expressões que encontramos inúmeras vezes nos escritos teresianos. A consciência da dificuldade e o desejo de se comunicar com todos a levam a buscar elementos para se fazer entender: por isso é que ela recorre a tamanha variedade de comparações. Por isso também é que ela vai escolhendo os termos mais expressivos, para tentar explicar o que quer dizer. É o que se nota em seus grandes escritos.

Em nossos dias, os críticos que estudam Santa Teresa como escritora têm dado atenção particular aos seus escritos ditos autobiográficos. O núcleo desses escritos é formado pelo Libro de la Vida, pelo Libro de las Fundaciones e pelas Cartas. Nesse conjunto podemos ressaltar a já lembrada autobiografia, cuja redação definitiva remonta a 1565.

A Vida é uma obra fundamental para o conhecimento da formação pessoal da autora, de seu crescimento humano. Já foram aqui citadas páginas dessa autobiografia, em que Teresa faz referência a seu amor pela leitura. Não lhe faltaram, pois, modelos literários que a auxiliassem na redação do Libro de la Vida. A crítica tem lembrado sobretudo as Confissões de Santo Agostinho. Aliás, Teresa mesma declara que, nos primeiros tempos de sua vida no convento, leu com entusiasmo a autobiografia agostiniana. Diz ela: “En este tiempo me dieron las ‘Confesiones’ de san Agustín, que parece el Señor lo ordenó, porque yo no las procuré, ni nunca las havía visto. Yo soy muy aficionada a san Agustín” (Libro de la Vida, 9,7). Por isso, é natural que Teresa se tenha lembrado do texto agostiniano até mesmo como modelo literário para sua autobiografia. E, de fato, há coincidências nas duas autobiografias. Por exemplo, nas Confissões Agostinho se dirige a Deus, louvando-o e pedindo-lhe perdão pelos acontecimentos de sua vida. Também Teresa, desde as primeiras páginas de sua autobiografia se dirige ao Senhor, com inúmeras exclamações de louvor ou de pesar. Por exemplo, logo no início: “¡Oh Señor mío!: pues parece tenéis determinado que me salve, plega a Vuestra Majestad sea ansí […]” (Libro de la Vida, 1,8). E já no final: “¿Cómo se sufre, Dios mío, cómo se compadece tan gran favor y merced a quien tan mal os lo ha merecido?” (Libro de la Vida, 40,4). Por outro lado, como já se disse, as circunstâncias urgentes em que escrevia e a dificuldade de acesso imediato aos livros espirituais acabaram por levâ-la a procurar, para além do que assimilara de anteriores leituras, sua própria forma de expressão.

O tecido literário da autobiografia teresiana se constitui de metáforas, alegorias e símiles. Característico é o gosto das imagens tomadas da vida quotidiana. Escrevendo assim, Teresa transmite todo o encanto da experiência concreta, mesmo em páginas que tratam de temas espirituais. Entre as imagens que traduzem a vida espiritual, muito conhecida, é a seguinte: “Ha de hacer cuenta el que comienza [en la vida espiritual], que comienza a hacer un huerto en tierra muy infructuosa que lleva muy malas hiervas, para que se deleite el Señor. Su Majestad arranca las malas hiervas y ha de plantar las buenas. Pues […] con ayuda de Dios hemos de procurar, como buenos hortelanos, que crezcan estas plantas y tener cuidado de regarlas para que no se pierdan, sino que vengan a echar flores que den de sí gran olor, para dar recreación a este Señor nuestro, y ansí se venga a deleitar muchas veces a esta huerta y a holgarse entre estas virtudes” (Libro de la Vida, 9,6).

Na Vida a natureza é descrita como caminho para Deus. Este contacto e recurso à natureza dá à obra um enorme realismo. Porque não se trata da natureza idealizada, mas das coisas imediatas, objetivas. Não é uma escritura abstrata e desligada da realidade. Seus símbolos estão tomados do quotidiano, do compreensível para todo leitor. O horto, a nora, a água, as flores… são símbolos usuais para expressar altos estados de oração. Lembremos que para descrevê-los, Santa Teresa recorre aos diferentes modos de regar o horto: desde tirar a água do poço com um balde, procedimento penoso, até a chuva repousada que molha tudo por igual e sem trabalho, passando pelo rego de nora, rio ou fonte.

O realismo teresiano permanece mesmo quando se descreve algo tão difícil e, em certo modo, abstrato, como é a oração mental. Para explicar o que é esta oração, Teresa se vale da imagem de uma conversa entre amigos: “que no es otra cosa oración mental, a mi parecer, sino tratar de amistad, estando muchas veces tratando a solas con quien sabemos nos ama” (Libro de la Vida, 8,5). Reencontramos aqui, na prosa teresiana, o que já se havia visto na poesia, ou seja, que o amor humano é o caminho para falar da experiência do amor divino. A mesma analogia se acha, por exemplo, nos séculos XIII e XIV, com escritores espirituais do norte da Europa, como o mestre Eckart e seus sucessores, Suso e Tauler, todos alemães, além do flamengo Ruysbroeck. Imagens de amor esponsal, fogo, sangue se notam ainda, por exemplo, nos escritos místicos de Santa Catarina de Sena, na Itália do século XIV. Algumas dessas lições passaram à Península Ibérica, mas a crítica entende que foi na Espanha do século XVI que a literatura mística encontrou seus clássicos, principalmente com São João da Cruz e Santa Teresa.

São páginas assim que tornaram clássica a autobiografia teresiana. E não vamos esquecer outros episódios famosos, tirados do quotidiano. Entre eles, o da fuga de Teresa, ainda menina, em companhia de seu irmão. Os dois queriam ir à terra dos mouros, anunciar o Evangelho, mesmo à custa de se tornarem mártires. Mas pouco depois de saírem de casa, um tio dos fugitivos recolhe os dois e os leva de volta para casa. Santa Teresa usa sempre uma linguagem muito natural e simples. Ela não aparece preocupada, quando escreve, com a frase culta, bem acabada, de efeitos elegantes. A linguagem da Santa, como dizia antes, é a de cada dia, a coloquial: viva, colorida, rápida, espontânea.

Muitas das características literárias da Vida se acham também em outra obra autobiográfica em prosa, o Libro de las Fundaciones. Neste livro Teresa nos faz a narrativa de suas peripécias por toda a Espanha, como fundadora de numerosos conventos de carmelitas descalças. Se a Vida está mais voltada para o desenvolvimento interior de Teresa, este outro se volta de preferência para sua obra externa, apresentando, por isso mesmo, particular relevância para o estudo da sociedade espanhola de seu tempo.

É importante para o estudo de Teresa como escritora o exame das numerosas cartas que ela mesma escreveu. São muitas, apesar de numerosas perdas. Algumas se perderam, porque os destinatários as destruíram, por medo de se comprometerem, quando a reforma teresiana sofria hostilidades até mesmo em certos meios religiosos. Mas as cartas que se conservam contém páginas de grande espontaneidade. O epistolário teresiano é notável pela beleza e pela graça, que nascem do linguajar fluente e das imagens concretas, ligadas ao quotidiano, que bem revelam o sentido prático da Santa.

Se nos voltarmos, agora, para os outros textos da prosa teresiana, os chamados textos ascético-místicos, encontraremos, como primeiro deles, o Camino de Perfección, que, como anuncia o título, é um tratado sobre a vida espiritual, destinado às carmelitas descalças. Do Camino subsistem duas versões. Uma, composta por volta de 1564, e outra, posterior, mais extensa. A primeira versão foi lida pelo censor, Padre García de Toledo, que riscou páginas inteiras e mudou termos que podiam parecer suspeitos aos inquisidores. Daí a necessidade para a Santa de reescrever a obra. A segunda versão foi muito divulgada em cópias manuscritas, algumas das quais contêm correções autógrafas de Teresa. Evidentemente, o estilo destas duas versões muda: a primeira versão preserva melhor o tom vivo, espontâneo com a que a autora se dirigia às suas irmãs, as primeiras carmelitas descalças, do convento de São José de Ávila; a segunda versão já tem um tom mais grave, mais doutrinal e perde em espontaneidade.

Obra-prima das mais conhecidas é a que se intitula Las Moradas o Castillo Interior, tratado destinado a auxiliar os que desejam aprender a oração. Logo que foi redigido, em 1577, um carmelita descalço amigo de Teresa, Jerónimo Gracián, cuidou de esconder a obra em Sevilha, para salvá-la de ser apreendida pela Inquisição, que dois anos antes havia recolhido a autobiografia de Teresa. O texto salvo foi depois publicado pelo grande poeta do século XVI, frei Luis de León, em sua edição das obras teresianas. Característica das Moradas é a variedade de destinatários, o que condiciona de modo decisivo seu estilo. Este vai mudando, segundo a pessoa a quem a escritora se dirige (por exemplo, aos cristãos todos, às carmelitas e ao próprio Deus). É notável que ao falar com Deus, o estilo de Teresa não perde as características de quem se dirige aos interlocutores visíveis: pelo contrário, torna-se muito mais afetivo. “Rey mío”, “Dios mío”, “Señor de mi alma”, “Padre y Criador mío”, são algumas expressões de Teresa, que poderiam formar uma lista inesgotável.

Mas a organização do texto das Moradas tem como chave o simbolismo do “castelo interior” ou castelo da alma. A figura do castelo era imagem antiga na tradição literária cristã, mas havia também sido usada, em tempos próximos de Teresa, por alguns autores que ela provavelmente leu na biblioteca de seu pai, como Bernardino de Laredo. A crítica vem lembrando, ainda, que a imagem do castelo é um dos símbolos da mística muçulmana: e nós sabemos a importância da presença muçulmana na cultura espanhola medieval. Mas não podemos esquecer também a importância dos castelos nas novelas de cavalaria, tão apreciadas por Teresa. Nem podemos esquecer o que já se disse, isto é, que Teresa cresceu vendo as célebres muralhas de Ávila, sua cidade natal. Provavelmente todas essas lembranças confluíram na criação da imagem literária do castelo teresiano. Seja qual for a origem dessa imagem, certo é que ela se tornou um dos recursos literários de maior êxito para explicar o processo da vida espiritual de interiorização e união. O castelo teresiano é esférico, formado por sete moradas concêntricas e “en el centro y mitad de todas éstas tiene la más principal, que es adonde pasan las cosas de mucho secreto entre Dios y el alma” (Moradas, I,1,3). Isso simboliza a caminhada mística, que parte, nas primeiras moradas, de uma fase de purificação e chega aos desposórios místicos nas últimas moradas.

Em todos os escritos de Santa Teresa, como já se havia dito, vemos refletir-se toda a sua vida espiritual e toda a sua vida de fundadora do Carmelo reformado. Mas, como já se disse também, essa obra não tem valor somente como documento histórico, biográfico ou espiritual. É uma obra importantíssima pelo valor literário, como havia percebido seu primeiro editor, o poeta frei Luis de León, já citado. Ele é quem louva a dicção castiça da Santa, chamando a atenção para a beleza da linguagem teresiana, uma beleza quase “caseira”. Isso acontece justamente porque Santa Teresa escrevia com propriedade e sem afetação a língua que havia aprendido desde menina.

Apesar desse reconhecimento inicial, o valor literário da obra teresiana acabou ofuscado por seu valor espiritual e foi ficando relativamente esquecido. Chegou mesmo a pesar sobre os escritos teresianos uma opinião um tanto sumária, segundo a qual os textos da Santa estariam redigidos em “estilo ermitaño”, isto é, em estilo despojado e pobre, como o de um ermitão que apresentasse a mensagem espiritual em termos rudimentares. Este preconceito desmoronou há mais de um século, quando o grande crítico Menéndez Pidal chamou a atenção para um aspecto revolucionário da linguagem teresiana, ou seja: o desvio da norma, a ruptura com o vocabulário erudito geralmente empregado nos textos espirituais em sua época. A simplicidade do vocabulário, segundo o crítico, longe de mostrar pobreza da escritora indicava seu desejo de expressar com liberdade sua experiência pessoal, sem se vincular à terminologia abstrata. Teresa revaloriza, com um novo sentido, termos comuns que estavam desgastados no vocabulário convencional. Além disso, já vimos que o estilo teresiano é rico em alegorias, comparações e símbolos, é o caso do castelo interior, imagens cuja beleza traduz a experiência pessoal da escritora. É preciso notar ainda que os escritos de Santa Teresa estão muitas vezes marcados por emendas e correções que ela mesma fazia, o que revela seu cuidado em escrever de modo claro e apropriado.

Nestes últimos anos, percebeu-se afinal toda a importância da obra literária teresiana. Para a crítica recente, o que é autenticamente original na literatura de Santa Teresa é a liberdade de expressão. Na literatura espiritual anterior, partia-se de um sistema de princípios, que em um segundo momento era aplicado à situação individual. Teresa de Jesus inverte esse processo. Ela parte não de princípios abstratos, mas de um fato da sua experiência, que se esforça por entender e expressar. Assim ela se afasta das teorias dos letrados e inaugura, na espiritualidade européia, a modernidade renascentista.

Mas já é tempo de ir concluindo estas reflexões. Como eu disse de início, nosso assunto era Santa Teresa escritora. A grandeza mística de Santa Teresa e sua importância para a história da Igreja já vinham sendo reconhecidas há muito tempo. Mas em nossos dias, quando se valoriza a contribuição feminina para todas as artes e ciências, mais do que nunca os estudiosos se têm voltado para Teresa como escritora. Ou seja, como mulher que soube criar beleza através de seus escritos. Em conclusão, no momento em que se redescobre a presença feminina na literatura, pode-se, com boas razões, falar em redescoberta literária de Santa Teresa.


[1] Os textos teresianos aqui citados seguem esta edição: Santa Teresa de Jesús, Obras Completas, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), 1962.

FONTE: http://www.hottopos.com/seminario/sem2/concha.htm#_ftn1

Compaixão versus indiferença (Faixa de Gaza)

Entramos em 2009 em meio a muitos eventos que podem nos levar, no mínimo, à perplexidade. Então, depois deste afastamento alheio à minha vontade, desde o Natal, desejo a todos que vivam-no com coragem, perseverança e amor.

Atravessei um período especialmente difícil quanto à minha saúde, mas pedi em oração a Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador, para que me ajudasse a entender o que se passava com meu organismo. Acredito piamente que Ele nos ilumina – se Lhe rogamos, é claro – de modo especial, em relação às pequenas coisas que nos afligem. Talvez para que não nos sintamos tão abandonados em nosso dia-a-dia,  neste mundo frio e hostil… entendo que Sua Misericórdia vale para o mundo inteiro, mas também se dirige à peculiaridade de cada um de nós, suas criaturas. Para mim, este é um profundo mistério… Assim, tive a idéia, antes não considerada, de ler detalhadamente a bula: a cefaléia, e inclusive, a “vivência” de uma crise de ansiedade compunham com exatidão o que denominam “reações adversas”. Detalhe: não faltou nem mesmo o que chamarei de quadro “pré-anoréxico”, já que a medicação foi interrompida. Enfim, tudo foi causado por medicamento para alívio da tensão emocional… Não houve diagnóstico de ansiedade, mas para todos os efeitos o médico considerou que  a nova dosagem era adequada para minha situação. Ele não errou, já que, mesmo tendo dobrado o número de gotas, estas  não alcançavam a dosagem mínima. Simples: meu organismo não conseguiu assimilar os componentes da fórmula, mesmo em baixa quantidade. Ao parar de ingeri-lo, no dia seguinte voltou o apetite, a cefaléia desapareceu, etc. Fui voltando ao normal com rapidez, graças a Deus! Penso que há quem coloque a Medicina em um pedestal. No entanto, é necessário que fiquemos sempre atentos, ainda que ela salve vidas.

De um outro ângulo, parece-me que vivi o seguinte: tive que ficar “focada” em minha saúde, e, de certo modo, mesmo um tanto atordoada, acabei aceitando a realidade do que não depende de minha vontade. Ou seja, minha recuperação passou a ser o meu único objetivo. Por alguns dias tive a sensação que atravessava um campo de guerra, em primeiríssimo plano, em meu organismo, o que deixou em plano secundário o sofrimento interior…

Creio firmemente que a oração deve ter relevo sobre qualquer “certeza” que tenhamos em relação aos problemas que enfrentamos em nossa jornada de vida.

Lembrei-me de um trecho da oração de Santa Teresa de Jesus: “A paciência tudo alcança”. É uma meta difícil, mas imprescindível.

FAIXA DE GAZA: O AMOR VENCERÁ A INDIFERENÇA DO MUNDO…

Nosso tempo é de terrorismo, tanto o de Estado quanto o de indivíduos reunidos em torno de líderes extremistas. Bombas caem sobre mesquitas, escolas, etc. na Palestina porque estes grupos ávidos de poder (Hamas) operam no subsolo, sem conhecimento da população da Faixa de Gaza. Quartéis-generais (“bunker”) são instalados a partir de túneis, que vem sendo silenciosamente construídos ao longo dos anos. O Estado de Israel, belicamente superior, não hesita em continuar sua meta de aniquilamento dos terroristas, ainda que 901 civis tenham sido mortos até o dia de hoje, desde o fim do período de trégua, ocorrido há pouco mais de um mês.

Que Deus Pai e Seu Filho,Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador e o Espírito Santo, que intercede por toda a Humanidade nos guiem neste tempo de trevas. Como católica, peço que Maria Santíssima rogue por nós, e para que os que estão vivendo e morrendo sob intenso bombardeio na Palestina sejam confortados na dor e os civis que estão perecendo tenham suas almas acolhidas pelos Anjos, já que estão sendo apanhados de surpresa. O terror da guerra os apanha dentro dos templos…

Nossa inconformidade com a guerra, nossa oração pela paz é valiosa diante de Deus(Alá). Ele é misericordioso com os misericordiosos. Com Ele virá a Justiça. Amém.

Natal, o que é isto?

A todos visitantes gostaria de dizer o quanto me sinto bem por voltar a “conversar” virtualmente com vocês. Após este intervalo um tanto longo para mim, me recupero de duas manifestações de dor de cabeça intensa, do tipo “aparece, desaparece e volta”, por dias…. Atrapalhou bastante, mas graças a Deus, medicada, o quadro está passando. Por conta de alguns eventos estressantes, inevitáveis, somente tive condições de acessar o blog. A cefaléia se transformou em enxaqueca, que impediu-me de escrever. Vocês já devem ter vivido isto no ambiente de trabalho. Como jornalista, tive esta “traumática” experiência. A dor de cabeça é, em especial, um drama para quem escreve. O motivo é óbvio: exige elaboração mental. Para não perder o emprego a gente comprova, “a fórceps”, que podemos fazer quase o impossível…

Então, após este intervalo forçado convém lembrar que a proposta do blog “Castelo Interior” não é falar de qualquer assunto, e sim, de alguns que se interconectam, ainda que isto não seja evidente, na maior parte dos acontecimentos que se dão no mundo e em nossas vidas.

Posso lhes afirmar, e continuo depois: o melhor de nossas vidas se dá quando conseguimos sair do “rés do chão” da vida agitada atual, e vislumbramos aqui e ali a transcendência contida em eventos que, aparentemente são comuns, normais. Deus nos livre dessa prisão do mundo, profana porque humana. Não há juízo de valor aqui: é nossa natureza vivermos de acordo com os sentidos de nossos corpos como leigos, mas isto não exclui a busca por transcendência. Entendo que a sugestão de São Paulo (Carta aos Coríntios) para que os discípulos se dedicassem exclusivamente à vida consagrada, e por conseqüência se mantivessem celibatários, faz com que, homens e mulheres consagrados lembrem ao mundo profano que este é passageiro…

Sempre vivi como leiga o caráter transcendente de minha existência. Por esta razão, pela excelência da tarefa, acredito que as pessoas que se consagram ao serviço religioso devem ocupar com firmeza sua posição, ou seja, devem ter orgulho de sua opção. Ainda que não pareça, a vida espiritual de milhares e milhões de cristãos pode ficar à deriva, ou ao contrário, ganhar em aprofundamento. A propósito, conforme consta na biografia de São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja (chamavam-no “Doutor Angélico”), pouco antes de se dirigir aos alunos do seminário, entrava para o oratório e fechava porta. Lá dentro, segundo testemunhos, se ouvia o seu pranto convulso, em meio à oração. Pedia que Deus o guiasse no ensino de Teologia e Filosofia. Sentia-se esmagado pelo peso da responsabilidade, já que era formador das almas de futuros pregadores. Lembremos que estamos falando de um gênio, reconhecido como tal até nossos dias. É estudado nas universidades não-confessionais.

Tive o desafio e privilégio de ler sua obra “Tratado da Lei”, que no Brasil ainda não foi traduzido do espanhol para o português. É um dos autores requisitados nas universidades federais para os concorrentes que disputam uma vaga no mestrado em Filosofia Política. Fui reprovada na entrevista, quando da apresentação de meu projeto de pesquisa, já aprovado. Me faltou desenvoltura filosófica. Simples assim. Reconheci minha limitação (enfim, inadequação) para explanar temas filosóficos, em seus vários desdobramentos. Da experiência, ficou meu encanto pelos ensinamentos “hiper-lógicos” de São Tomás de Aquino sobre o amor de Deus pelas suas criaturas…

Visão superficial e Espiritualidade

Desse modo, a internet, e por excelência, nas redes de televisão voltadas à espiritualidade cristã, em especial, a católica, há praticamente toda uma visão de mundo a ser aprofundado – o da fé, no sentido das conexões. Midiaticamente falando, o mundo do lucro é ávido pela “exploração”, e de qualquer coisa… Nós, leigos, que fomos (no mínimo) batizados na Igreja Católica, precisamos de aprofundamento. Assim, nos meios de comunicação e fora deles, necessitamos da ousadia dos consagrados e consagradas; ou seja, que nos façam avançar nas questões da Fé. Por certo, deixaremos de lado o que denominam fé infantil… Entendo nesse sentido que, ao buscarmos compreender com o nosso coração e com a nossa mente o profundo significado das pregações, das palavras de Jesus Cristo, estaremos, de fato, cumprindo a vontade Dele. Queria que fôssemos como as crianças, ou seja, elas, naturalmente, são descomplicadas e confiantes. Creio que no Reino de Deus não há lugar para almas presunçosas, portanto, razão e piedade (o “coração” das coisas), de acordo com o legado das Escrituras Sagradas, devem conduzir nossa existência.

CRISTIANISMO…

Fonte: Imagem Wikimedia Commons

506px-the_visit_of_the_wise-menTenho visto decorações natalinas nas avenidas e ruas compostas unicamente de estrelas em neon, que formam pequenas “constelações”, além de “papais-noéis(?)” enormes, de plástico injetado, dourados e coloridos, bem como as caixas que lembram presentes. Em suma: Jesus Cristo não foi convidado para a Sua própria festa… Correção: no dia 25, como de regra, estão “programadas” várias Missas de Natal. Não adianta: a Missa é acessória, talvez, infelizmente, para a maioria.

Para mim, é um escândalo esta euforia no período de Natal: há décadas estão em duelo a visão religiosa e a comercial, mas o comércio da data está levando vantagem… É desconcertante ver por mais 10 dias ou mais, de pontos em pontos, o “bom velhinho”, etc. como o “salvador”… É quase uma profanação. Ou quem sabe estou equivocada: o paganismo já dominou o mundo, e não quero aceitar esta realidade, por ser, nesse sentido, ingênua, até mesmo pia? Que Deus nos perdoe por tanta superficialidade, materialismo e indiferença diante do que nunca deixará de ser Sagrado. Ele não voltará de helicóptero… Vai “estragar” a festa… Jesus Cristo veio a este mundo pérfido na forma de uma criança, ficou adulto, morreu e ressuscitou. “(…) Tudo passa”, tal como Santa Teresa de Jesus afirma em uma de suas poesias, uma oração confortadora. Rogai por nós. Amém.

“Põe as minhas lágrimas no Teu vaso” (Salmo de Davi)

Em 1562, Teresa deu início à reforma dos Carmelos tão numerosos na Espanha. Obra gigantesca que exigiu de sua vocação para a contemplação e doação total à ação e suas lutas e experiências místicas, produziram obras imortais, como o caminho da perfeição, as moradas, a autobiografia que são ainda hoje, fontes de perene vida e seta que aponta a finalidade da via carmelita: União absoluta com Deus até se formar uma espécie de matrimônio espiritual entre a alma e Deus.
O seu segredo é o amor. Santa Teresa conseguiu fundar mais de trinta e dois mosteiros, além de recuperar o fervor primitivo de muitas carmelitas, juntamente com São João da Cruz. Teve sofrimentos físicos e morais antes de morrer, até que em 1582 disse uma das últimas palavras: “Senhor, sou filha de vossa Igreja. Como filha da Igreja Católica quero morrer”.

Fonte/texto-imagem: http://www.paroquiadeaparecida.com.br/santoout.htm

……..

“Deixe suas lágrimas ao sair”

“Em algumas localidades da Pérsia, as pessoas dão grande valor às lágrimas. Acreditam que elas possuem virtudes curativas. Nos velórios são oferecidas esponjas aos presentes para que estes enxuguem suas lágrimas. À saída, as esponjas são recolhidas, e o seu conteúdo, cuidadosamente guardado. É comum haver nas câmaras ardentes, avisos como este:

Não esqueça de entregar suas lágrimas

(…) A Bíblia registra, nos Salmos, estas palavras do rei Davi:

Põe as minhas lágrimas no Teu vaso.

Deus deseja guardar suas lágrimas. Você é do tipo que esbanja alegria com os amigos, e depois isola-se para chorar? Sente uma angústia que parece não ter fim? Amargura-se pelas injustiças sofridas? E sofre sob o peso da própria consciência?

É hora de abandonar essa angústia em que mergulhou sua alma. E, ao sair, não se esqueça: entregue a Deus todas as suas lágrimas e pesares. Você pode fazê-lo através de Jesus, o Filho de Deus. Permita que Ele se torne não apenas o guardião de suas lágrimas, mas também o Senhor de sua vida. Ele lhe dará, independentemente das circunstâncias, uma vida de eterna paz.

E quando ingressar na eternidade, você deixará para sempre suas lágrimas. E Deus limpará de seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor, porque as primeiras coisas são passadas. (Apocalipse, 21.4)

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Encontrei este pequeno texto, à entrada de uma loja na cidade em que residimos. Antes o havia encontrado em um balcão de uma agência dos Correios há sete anos, em outra cidade. Omiti cinco linhas, pois possuíam o tom de pregação específico de determinada denominação cristã não-católica. A capa do “fôlder” estampa gotas em um vidro, sob um fundo azul, e letras brancas com a seguinte inscrição: “Deixe suas lágrimas ao sair”. Na contracapa, nas duas vezes que o apanhei para ler, pela beleza e simplicidade, havia somente a sigla “CPAD”, impressa com fonte pequena, em vermelho. Não há carimbo com o endereço da denominação, apesar de haver espaço reservado. Achei importante a seguinte inscrição, na vertical, com letras minúsculas: “Não jogue este impresso em via pública”. É um apelo que envolve  o  conceito de cidadania, mas é paradoxal pelo fato de que se não estivesse no chão da entrada da loja, eu não o divulgaria neste espaço. Encontrei o primeiro, idêntico a este há alguns anos, em um balcão, mas o repassei para outra pessoa, que também o considerou encantador. Portanto, ainda que a mensagem não seja  de fonte católica, em seu conjunto, para mim, é um texto singelo e consolador.

DESASTRE AMBIENTAL INDICA NECESSIDADE DE DOAÇÕES PELO PERÍODO ESTIMADO DE UM ANO

Assim, o texto do impresso “Deixe suas lágrimas ao sair” tem muita relação com o que lhes relatarei, devido ao cenário de desolação e de sofrimento de cada um dos atingidos pelo excesso de chuvas (em dias e quantidade), no estado de Santa Catarina (SC), no Brasil.

O importante, em meio a tudo, é que a solidariedade, felizmente, não está “em extinção”: cidades de outras regiões de SC se dividem entre água, alimentos, roupas em bom estado, colchões, cobertores, móveis e eletrodomésticos. Além disso, estados como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul enviaram caminhões com estes donativos, e, inclusive, para resgate das vítimas, helicópteros e aeronaves, que somados aos do Estado de SC, chegou ao número de 29, entre públicos e particulares, até ontem, dia 27.

Assim, o País todo acompanha a tragédia que Santa Catarina vive, devido às inundações de casas e até apartamentos, que chegaram até o 2º andar de alguns, nas zonas menos altas do município de Itajaí. Foram registradas hoje, oficialmente, 99 mortes. O município de Ilhota, com maior número de mortes – 29, possui uma área habitada entre dois morros. Por conta disso, foram soterrados de um momento para outro… O Exército foi obrigado a dar ordem expressa para os moradores dos arredores para que abandonem suas casas, segundo as últimas notícias de hoje. Portanto, há risco de deslizamentos em outras áreas, próximas à tragédia, em Ilhota. Enfim, vários municípios da região leste de de Santa Catarina estão em estado de calamidade pública, e outros em estado de alerta, por conta da instabilidade climática.

Por quase dois meses, as chuvas foram esparsas em SC, e, progressivamente, se tornaram mais intensas e contínuas na região leste do Estado. A previsão para a região é de que as chuvas cessem totalmente somente no domingo (dia 30). Esta região de SC inclui os municípios acima, além de Blumenau, Joinville, Pomerode, Nova Trento, entre outros menos populosos. Infelizmente, todos foram atingidos em maior ou menor escala por enchentes, deslizamentos e quedas de barreira nas rodovias principais. No litoral, à saída da capital, na ilha de Florianópolis, houve deslizamentos, mas felizmente há registro de somente uma vítima fatal. À saída da Ilha, em direção ao Rio Grande do Sul, ocorreu um deslizamento que cobriu certo trecho da BR101, situado ao final do município de Palhoça, conhecido por “Morro dos Cavalos”. Não há notícias de vítimas, mas a rodovia está interditada há cinco dias, havendo previsão de retirada total da terra, provavelmente até a próxima segunda-feira. Para carros pequenos (e somente estes) há uma estrada lateral na localidade chamada Enseada do Brito. No entanto, por precaução os órgãos responsáveis aconselham que seja evitado o tráfego na BR101-SC, na medida do possível, em toda a sua extensão devido à possibilidade de quedas de barreiras. Isto, pelo menos até que o tempo se torne estável. Afinal, não aconteceu de fato a estação de primavera em SC. Segundo um climatologista catarinense, é atípica, tendo acontecido algo semelhante há nove anos, portanto em 1999.

O mesmo quadro de chuvas intensas está assolando o estado do Espírito Santo. Na prática, começamos a pressentir o início de um certo descontrole no clima. No entanto, tais surpresas climáticas vêm ocorrendo em todos os cantos do mundo. Em geral, os especialistas dizem que esta realidade é devida aos desmatamentos indiscriminados (sem reflorestamento), desvios de rios, e poluições de todo tipo, principalmente do ar, que provocam o chamado “efeito estufa”.

Creio que, para o futuro, é imprescindível que haja reforço na formação, desde a escola, em vista da preservação do meio ambiente, além do incremento de estudos sobre tecnologias não poluentes, em todo o Brasil. Quanto à formação de crianças e jovens para o enfrentamento de desastres ecológicos ou riscos, já existe um projeto em andamento na Defesa Civil do estado de Santa Catarina .

Cuidar sempre mais…

“Religion, Innocence, Angel” – Autor: Baltar (Fotografia)

Fonte: http://www.sxc.hu/photo/479662

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No “Livro da Vida” (Obras Completas, Cap. 2, pgs. 30 a 33), acessível também em E-book , ao lado (mais abaixo, no Blogroll), Santa Teresa de Jesus dá pistas, a partir de sua própria vida, de como os pais podem melhor proteger seus filhos dos perigos que os espreitam fora de seus lares. Ela frisa muito o aspecto das más-companhias (e se trata principalmente de uma prima, um pouco mais velha), e, de modo algum, culpa sua mãe, pelas leituras que permitia aos filhos e filhas. Seu pai não aprovava, tanto que chega a confessar que lia às escondidas… Em sua maturidade, lamenta a “má influência”que os denominados ‘livros de cavalaria” exerceram sobre o desenvolvimento de sua personalidade, pelo menos até o fim de sua adolescência. Nestes romances, os narradores relatam a saga de personagens que atravessam reinos em seu cavalos e suas aventuras amorosas. O estilo é cavalheiresco, fantasioso. Ainda que fossem ingênuos em comparação com as publicações e com os materiais áudio-visuais de nossa época, na verdade poderiam ser considerados como sub-literatura, já que Cervantes os ridicularizava (conforme a nota 2 – “Livro da Vida” – Obras Completas). No entanto, eram muito lidos durante todo o século XVI, em toda a Europa. Santa Teresa de Jesus acreditava que havia perdido virtudes ao lê-los (talvez pelos devaneios, ou então, pelas supostas vaidades que tais leituras teriam incutido nela e em suas primas e amigas…).

De fato, o consumismo moderno tornou precoces os comportamentos de crianças e jovens, tanto em relação ao vestuário, calçados (a meu ver, os saltos altos podem afetar a estrutura óssea das meninas), cosméticos (desnecessários, já que terão a vida inteira para usá-los, não?), e sob outro aspecto, são comuns as cenas de novelas em que a libido dos adultos é partilhada “em família”. Inclusive, há observações sobre os “excessos” das novelas brasileiras na própria em vários artigos na net. Além de toda esta lista de “descuidos” com as mentes das crianças e jovens, o mesmo acontece com a programação das tevês a cabo e em relação a conteúdos adultos, espalhados, sem nenhum controle na internet. Apesar de não estarem em condições de avaliar adequadamente tais sites, as crianças e os jovens são curiosos, o que é natural nesta idade. Mas o custo para a formação de suas personalidade é altíssimo, para eles próprios e para os pais.

Limitação natural

Uma coisa é certa: é um problema mundial. Então, façam o “impossível” para cuidar de seus filhos e jovens. Eu e meu marido não somos pais porque sou portadora de uma doença auto-imune – “Endometriose”. Pode ter causa genética (falha DNA em relação a certo tipo de alergias/auto-imunidade), ou mesmo poluição (devido às dioxinas, que acabam afetando mulheres alérgicas). As dioxinas provém de emanações da queima de petróleo. Em mim, foi diagnosticada como “moderada”, já quase aos 34 anos. Foi sofrido até ali, e depois… idem, principalmente pela inexorabilidade. Pelos médicos, pelo conjunto do que ela afeta – em grau moderado – no organismo feminino, restaria para nós somente a fertilização in-vitro. Sou contra, e meu marido também. Primeiramente, por achar incoerente (alguns embriões ficam congelados, enquanto outros serão jogados fora, etc., após algum tempo…). Além disso, nosso ponto de vista religioso impede, sem qualquer margem de dúvida, tal “saída”.

Um alerta: a Endometriose não é uma doença com qualquer componente de malignidade, mas dificulta a gravidez (apresenta três níveis – leve, moderada ou grave).  Cientificamente é tida como um enigma, já que uma mulher com a doença em nível grave, pode ser assintomática, enquanto em outra, apresenta sintomas, e no entanto, a gravidez acontece normalmente… O que é absolutamente certo é que mulheres que puderam ou podem ter filhos necessitam de tratamento, em todos os casos. Lamentavelmente, esta “desordem” continua presente…

Proteção aos filhos na web  e  modificações recentes na Lei brasileira

Logo abaixo, estão disponíveis excertos (partes) de dois artigos do Estadão Online sobre como proteger a infância e a juventude de nosso País; elas ”valem ouro” em relação ao tema:

Estadão.com.br quarta-feira, 5 de novembro de 2008 – Online

Como denunciar a pedofilia e como proteger seus filhos na web

Há meios de controlar o conteúdo acessado pelas crianças na web e sites permitem denúncias anônimas

Da Redação

As denuncias de pedofilia podem ser feitas em locais como a Promotoria de Justiça da Vara da Infância e Juventude e o Conselho Tutelar de cada Estado. Com uma ligação anônima, é possível fazer uma denúncia pelo número “Disque 100”, da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH/PR).

Na internet alguns sites aceitam denúncias anônimas. A ONG SaferNet recebe dados de pornografia infantil na internet do País e aceita informações pelo site. Há também a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, onde as denúncias são anônimas.(…)

O que estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

Pornografia infantil – é a produção ou participação em pornografia envolvendo criança ou adolescente. Está no artigo 240 do ECA e prevê pena de 2 a 8 anos de reclusão;

Divulgação de pornografia infantil – é a publicação, inclusive pela internet, de pornografia envolvendo criança ou adolescente. Está previsto no artigo 241 do ECA, com 2 a 8 anos de reclusão;

Prostituição infantil – submeter criança ou adolescente à exploração sexual. O artigo 244-A do ECA prevê de 4 a 10 anos de prisão.

Também nestes casos, é preciso que haja a denúncia por parte dos pais ou responsáveis. Se eles estiverem envolvidos nos crimes, qualquer pessoa pode denunciar o crime.”

Fonte: http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid273111,0.htm

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Estadão.com.br Geral – terça-feira, 11 de novembro de 2008, 18:13 | Online

Congresso aprova aumento de pena para os crimes de pedofilia

Matéria segue para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pois já foi votada no plenário do Senado

Ana Paula Scinocca, de O Estado de S. Paulo

(…)

Orkut

Na semana passada, o Google Brasil entregou à CPI da Pedofilia informações de mais de 18 mil páginas diferentes do Orkut, entre comunidades e perfis, sob a suspeita de conterem material com pornografia infantil. A quebra do sigilo desses perfis foi aprovada pela comissão em julho após denunciadas pela ONG SaferNet.

Em abril deste ano, essas denúncias já haviam levado a CPI a quebrar o sigilo de 3.261 álbuns privados do Orkut, fazendo com que o Google, dono do site, tivesse de entregar logins de acesso e imagens às autoridades brasileiras. Após análise das fotos, a CPI chegou a 805 usuários acusados de manter imagens de pedofilia.

No primeiro semestre deste ano, a SaferNet recebeu 27,8 mil denúncias sobre pedofilia na internet no Brasil, uma alta de 92,8% em relação ao mesmo período do ano passado. Especificamente no Orkut foram 22,7 mil denúncias – 81,6% do total -, uma alta de 89,2% em relação a 2007.

Atualizado às 21h53 para acréscimo de informações.”

Fonte: http://www.estadao.com.br


As crianças pensam que sabem… (vídeo “Report Abuse” – Reino Unido)

“RESSURREIÇÃO DE CRISTO”

Rafael (Itália-Renascença) Wikipédia (MASP)
Pintura: Rafael (Itália-Renascença) Fonte: Wikipédia (MASP)

Cuidado! Daremos um salto, ou seja, do sagrado para o absolutamente profano. Estes mundos (do sagrado e do profano) convergem, se interconectam, felizmente, muitas vezes. Penso que nem mesmo esta interconexão era “prevista” pelo Criador. Viveríamos em um mundo totalmente sagrado. Aquele do Jardim do Éden, no Gênesis. Havia somente santidade. E sem essa de que seria chato… Afinal nem sabemos ao certo amar emocional e espiritualmente. Imaginem se poderíamos imaginar o que seria tido como sexo no Paraíso? O papa João Paulo II teria brincado certa vez dizendo que no Céu não haveria sexo, mas não seria chato! Sim, era um papa da comunicação e não da manutenção de tabus já quebrados há muitas décadas – um deles era “falar” a palavra sexo… Hoje estamos no extremo oposto. Tudo é explícito, e já antes da internet já havia o chamado “sexo explícito”. Depois, nos anos setenta se dá o início da produção de filmes pornográficos, com distribuição mundial. Jornalisticamente posso levantar uma tese a respeito deste “ovo de Colombo”, ou seja, a pornografia: várias produções de Hollywood, com sutileza mostraram em filmes tipo “A” a transição decidida pelos “chefões” quanto aos “negócios”. Assim, com a caça mundial ao crime organizado conhecido por – máfia (sempre detestei este tipo de filme, mas vi em família quase todos…) algo estava para mudar, como um camaleão…  A partir da prisão de Al Capone, oficialmente por crime de sonegação nos EUA, prejuízos pelo desinteresse cultural por cassinos já em meados dos anos 70, o que comprometia o lucro com drogas e prostituição em escala planetária, acabou por “quebrar a banca” destes grupos, quando no início dos anos 80 eclodiu a chamada “Operação Mãos Limpas”, na Itália.

PORNOGRAFIA E SEUS DERIVADOS NA INTERNET

Desmantelados, e, além disso, anacrônicos em suas estratégias de lucro fácil, já que acabara a fase do “romantismo” que Hollywood retratara desde os anos 40. Nos filmes, apareciam bandidos com famílias, em casamentos, batizados, todos muito bem-vestidos, o que retratava a incoerência daquele modo de vida. Afinal, tais cenas destoavam das seguintes: deslealdades entre os membros das “famílias”, vidas duplas, assassínios e crueldades, e por aí vai. Sem sombra de dúvida, a paróquia perderia tragicamente o padre se este não casasse ou batizasse mafiosos e filhos… Assim, centralizaram em Los Angeles seus “negócios”, e entre eles, há de tudo em relação à pornografia.  A máfia&associados hoje “limpam” a procedência do dinheiro do tráfico de drogas, prostituição, cassinos, vídeo-pocker (máquinas de caça-níquel de jogadores compulsivos, espalhados pelo mundo. Bilhões de dólares são arrecadados por ano nos EUA, tudo dentro lei. Seus associados, no mundo todo, tocam contentes seus hotéis, pousadas paradisíacas, cassinos, companhias de viagem (estas, têm rotas que favorecem o turismo sexual- nada de fazer um “tour” pelo Vaticano…). Além disso, obviamente há toda uma gama de mercados e mercadorias, legais e ilegais na cercania de seus empreendimentos.

Um deles, a produção pornográfica nada mais tem a ver com sonegação de impostos. Já é rentável em si, e para completar o lance perfeito que este tipo de negociantes engendrou modernamente, ela garante uma tranqüila “lavagem de dinheiro” do que não é declarado na contabilidade… A propósito, fiquei sabendo recentemente que no Brasil, este tipo de produção fílmica chega à casa dos bilhões também, já que ocupamos o 2º lugar no ranking de produção pornográfica. A conexão é grande com os EUA – “performers” de lá (com Aids, etc.., por uso de drogas) contracenam com os daqui. E ninguém, na maioria dos casos, pede exame médico. No caso, as mulheres brasileiras , principalmente, ganham mais dinheiro das produtoras se não usarem preservativos… Este tipo é muito procurado no mercado de compra de DVDs pornográficos; portanto, seu custo é alto, isto é, hiper-lucrativo. O Apocalipse está às portas…

É LEI, A PARTIR DE HOJE NO BRASIL: DENÚNCIAS DE “ABUSO ON LINE” SERÃO ABSORVIDAS POR ÓRGÃOS CONTROLADORES, COMO NOS EUA E NA EUROPA

Então, preparem seus espíritos para este alerta contra os pedófilos, produtores e consumidores de pornografia de todo tipo na net. Para me proteger dos que não lidam com pornografia infantil, em minha defesa, sou obrigada a dizer que, provavelmente, muitos entre os produtores de pornografia não sejam pedófilos. Creio que isto é suficiente perante a lei. Ainda assim, sou totalmente contra  a pornografia  e sua produção, de qualquer tipo. Sou contra inclusive a produção e divulgação de filmes que fazem apologia dela (a pornografia) em filmes do tipo “A”, em Hollywood.

O que me inspirou a trazer este assunto 100 por cento profano? A morte da menina Raquel Genofre, de 9 anos. Foi colocada por um pedófilo em uma mala, estrategicamente, debaixo da escada do metrô, em Curitiba, no Paraná. O criminoso conhecia sistemas de vigilância, já que nessa área havia um campo cego para as câmeras. Eles, possuem uma inteligência privilegiada, voltada para o Mal… Jesus disse: “Se alguém fizer algum mal a um destes meus pequenos, será melhor amarrar ao pescoço uma corda com uma pedra, e se jogar no mar”. Foi Jesus Cristo, o Salvador que proferiu, de antemão o veredito. Sugeria que este tipo de criminoso não teria clemência no Juízo Final. Eu não entendo muito bem a paradoxal indicação de Jesus ao suicídio, já que não sou teóloga, no entanto, ao que parece, quer nos dizer, por analogia, que é a mesma coisa que ir direto para o inferno após a morte. Assim, caso não acabe com seus crimes (se suicidando) terá a permanente presença de seres espirituais malignos, em vida, todo o tempo. Portanto, não terá possibilidade de redenção; seguirá sempre no caminho do mal. Uma auto-exclusão quanto à noção de culpa, de arrependimento pelo mal cometido contra crianças e jovens. Seres indefesos, que pelo pouco tempo de vida, quase nada conhecem sobre o mundo que os cerca. Observem: os pedófilos não se suicidam… Isto acontece em crimes passionais, ou nos casos de overdose ou mistura de álcool e drogas. Nos últimos dois casos, que Deus me perdoe a ignorância, mas circunstâncias específicas (pressão externa para cometer indignidades, por exemplo), penso que possam contar com a misericórdia de Deus. As drogas aniquilam a alma… Certos suicídios a ela ligados, e que são muito comuns atualmente entre jovens, para mim, fazem parte do âmbito dos mistérios espirituais.

RAQUEL, UMA CRIANÇA ANGÉLICA…

Enfim, infelizmente, todos ficamos sabendo que Raquel era comunicativa e inteligentíssima, e que, conforme o pai, acompanhavam (estavam separados) a filha quando entrava no Orkut. Continuaram fazendo o que faziam quando unidos. Entretanto, há internet na escola, nas “lans”, na casa de amiguinhas. São possibilidades, já que o pai não acredita em abordagem pela internet.

Esta criança de nove anos (agora, sua alma vive na segurança das mãos de Deus, Amém!) – seu próprio pai disse algo assim – havia recebido uma semana antes de seu desaparecimento e morte, um prêmio da escola que freqüentava, pela qualidade de sua redação…

PRECISAMOS PROTEGER NOSSAS CRIANÇAS E JOVENS. OS TEMPOS MUDARAM.

Estou chocada. Vivo em choque. Os crimes contras as crianças, ultimamente no Brasil não envolvem somente a internet. Um pouco antes, um “pai” e a madrasta mataram e esquartejaram dois meninos, um deles com 13 anos (João Vítor) e o outro com 11(Igor). A madrasta os “despachou” com dinheiro para a rodoviária, para que voltassem para a mãe biológica. A polícia os encontrou sozinhos e os levou de volta para casa. Uma briga entre o casal decidiu o destino dos dois inocentes, naquele momento foi fatal. Houve outros, já que a madrasta chegou a ser denunciada, por certo, anonimamente, ao Conselho Tutelar por maus-tratos. Um deles foi asfixiado pelo pai, e o outro foi esfaqueado na cozinha pela madrasta. Que João Vítor e Igor, finalmente descansem em paz nos Braços Amorosos de Deus Pai. Amém.

Lamento expor estes detalhes, mas eles reforçam minha idéia de que o “Amor já não é amado”, como dizia São Francisco. Aqui o Santo, a meu ver, quis desabafar sua amargura, devido à impiedade, à pobreza que imperava na Idade Média.  Deus criou tudo com Amor, portanto sem amor não há vida. Pensar nisto é uma pista, uma reflexão para ações em nível micro e macro no mundo religioso cristão. É hora de abandonar o proselitismo que faz perder o foco: “Amai-vos uns aos outros, como meu Pai vos ama”, disse Jesus Cristo.

Ao lado, no Blogroll, disponibilizo um vídeo governamental, produzido no Reino Unido sobre “abuso on line”. Não terá legendas em português, mas é muito bem produzido, e posso  garantir a vocês que será bem compreendido pelas imagens. A estória envolve a personagem “Clare”, e tem um final feliz!  No final, a garota assediada rompe o que vejo como um “círculo maligno de sedução”. No entanto, como a maioria, chega a pensar romanticamente no pedófilo, e aceita um encontro, mas, felizmente, não passa disso. Volta para casa, e, pelo teclado, o denuncia.A trilha musical apresenta uma canção sensível, tocante, certamente a banda e seu intérprete, além da letra foram muito bem escolhidos. Há uma cópia deste vídeo no orkut e está legendada. No entanto, o vídeo e a tradução terminam com a estória. No original, há comentários sobre esta produção do governo do Reino Unido, e caminhos para o enfrentamento desta realidade alarmante, e que cresce exponencialmente. Não perderemos esta batalha. Há várias lutas sendo travadas com sucesso. Que Deus nos ajude. Amém.

http://www.ceop.gov.uk/mediacentre/video.asp“Clare pensava que sabia…”

“FELIZ O QUE AMA A DEUS” (Santa Teresa de Jesus -Poesias – V)

Ditoso o coração enamorado

Que só em Deus coloca o pensamento;

Por Ele renuncia a todo o criado,

Nele acha glória, paz, contentamento.

Vive até de si mesmo descuidado,

Pois no seu Deus traz todo o seu intento.

E assim transpõe sereno e jubiloso

As ondas deste mar tempestuoso.

“Moradas” – as feras, os desafios…

Jesus e a tempestade
Jesus e a tempestade

Na medidas das circunstâncias, tudo corre bem. Estamos vivos e inteiros, como dizem por aí, e isto é muito importante. Creiam nisto, sim? Estamos seguindo nosso roteiro, e Deus cuida de nós, ainda que venham acidentes, doenças, incompreensões, discórdias, limitações materiais, sensações de vazio (que algumas vezes passam por nossa mente), dúvidas sobre o sentido de tudo que nos envolve e sobre o que, de fato, significamos como criaturas de Deus.

Penso que esta vida é ao mesmo tempo maravilhosa e, inexoravelmente, tenebrosa. Vivemos entre luz e trevas… Mesmo os Santos e Santas que viveram tão somente para Deus, dentro da vida monástica e fora dela, conheceram “A Noite Escura da Alma”, parafraseando São João da Cruz. O título de seu famoso escrito é revelador, já que em sua santidade visava o perfeiçoamento da Cristandade. Esta, a seu tempo também vivia em constante luta contra o egoísmo, em meio a uma  pretensa auto suficiência. É um mal que tem nos acompanhado ao longo dos tempos. Quanto a esta auto suficiência humana, já culturalmente aceita, é horrível pensar que, de algum modo, entre distraída e deslumbrada com pequenas conquistas, me deixei ficar, ainda que por um breve tempo neste patamar… Mas nossa alma sabe, se o deseja obviamente, ordenar para que as feras desistam de seu intento. Santa Teresa de Jesus nos dá a conhecer nossa superioridade, em Deus, para que avancemos com consciência e fortaleza sobre os inimigos de nossa alma. Eles têm muitos ardis, mas agem com sutileza… São invisíveis, e como São Pedro alertava:”(…) rugem à nossa volta, para nos devorar”. Temos que nos decidir a dizer muitas vezes “não”! A oração, o pensamento voltado para as coisas sagradas – que vem de Deus: o amor, a amizade, o perdão, no que depende de nós, nos salvam. Creio que fazem uma barreira contra esta verdadeira avalanche de “informações”, que contêm obscenidades, culto à violência, ofertas de consumo, enfim, contra a superficialidade de nossa sociedade.

Desse modo, nós que estamos mergulhados até o pescoço neste ritmo de coisas, temos como aliada o que os teólogos denominam Teologia da Revelação – o Antigo e o Novo Testamentos. Assim, sabemos, na profundidade de nossos corações que enfrentamos um combate espiritual que se dá no dia-a-dia. São Paulo nos lembra” O bem que quero não faço, e o mal que não quero, este, sim, faço (…)”. Esta batalha espiritual e física, se dá primeiramente contra nós próprios (nossas inclinações, as que não nos propendem à santidade – falar, agir, etc.). Em seguida, é contra o mundo que nos cerca que se dá o combate interior. A vida atual, muito mais que no passado, foi tornada cada vez mais profana. Lembremos da “queda da Graça do Criador”: o pecado original. Esta luta é contínua; há uma cultura que busca subverter as ações voltadas para o Bem. Lembram de Santa Teresa de Calcutá? Envolveram-na, sem sucesso em suspeitas de corrupção… Vi o filme sobre sua vida. Um grupo, formado por leigos voluntários foi criado por um sacerdote apoiador, para angariar fundos. Ela não gostava de lidar com dinheiro, mas discordava quanto a dar controle a um grupo, até que cedeu à idéia deste sacerdote, seu amigo, com aprovação do bispo. No ano 2000 já era uma “corporação”… Em 2003 retirou a autoridade do grupo, desfazendo-o, desta vez com o apoio do mesmo sacerdote e o reconhecimento de que ela sempre esteve certa. Para ela, a simplicidade traz paz, alegria a qualquer iniciativa voltada para o bem.

Vivemos atualmente oprimidos pelas exigências de um modo de vida desumano e desumanizador, que inúmeras vezes depõem contra nossos valores. Mas o discernimento se mostra pela nossa consciência (segundo os valores atemporais do Cristianismo). E, esta (a consciência) racionalmente nos apresenta a melhor escolha: a que não nos trará qualquer arrependimento. Sugiro que vejam o filme “O Maquinista”.

Por vezes, esta “harmonia interior” balança nosso edifício (ou castelo?) , já que as pressões tornaram o viver humano uma elegia à vida profana, tal como uma moeda que tem uma única face. Do outro lado… nada. É esquisito dizer isto, mas é o que ocorre na atualidade: o sagrado não inspira as ações, as decisões. No entanto, esta realidade é questionável, porque afinal somos livres, temos livre-arbítrio. Não somos “zumbis”, ou, igualmente ruim, “brinquedos robóticos” de lojas de departamento… Ele [o Sagrado] é vital para a paz interior de quem não admite abdicar de sua humanidade. Acredito piamente que sempre é tempo para reverter qualquer processo. A propósito procurem algo sobre Santa Maria do Egito, a eremita, que viveu por mais de 40 anos no deserto. Absolutamente só, soube se proteger de perigos – nos desertos há cavernas, todos sabemos, com leões, serpentes, escorpiões. Alimentava-se de gafanhotos e outros insetos. Teria sido uma linda mulher, que até os 17 anos vivia satisfeita com sua vida mundana. Certo dia abandonou tudo. Foi encontrada por um monge chamado Zósimo, era um padre do deserto que, casualmente por lá peregrinava. Vivia dignamente, mal coberta por trapos. Apresentava uma magreza que espantou o monge. Também, possuía grande sabedoria, e para admiração de todos conhecia a Bíblia. Isto se passou no ano 500 da era cristã. É venerada no Oriente, mas pouco conhecida no Ocidente.

Assim, é nosso direito sonhar com um mundo justo, com o amor de alguém em especial, com, pelo menos, a expectativa de confiança básica naqueles que depositamos nossos afetos (e que consideramos recíprocos), tanto na relação familial, quanto dentro da comunidade em que vivemos. Em todo caso, na pior das hipóteses, afirmemos com Santa Teresa de Jesus : “Somente Deus basta.”

Não é nem um pouco fácil, mas, já que vivemos quase que desumanizados, em defesa de minha integridade pessoal, tenho a tendência, desde muito jovem, a ter rejeição a qualquer gueto de idéias, estilos, modos de vida, etc., que deixem de lado a possibilidade da busca do amor, em tudo e em todos. Há somente, pelo menos para mim, uma condição: ser um ser humano de boa-vontade. A meu ver, este critério faz cair as frutas podres do pomar que há em nosso coração… Levei tempo para compreender isto interiormente e ficar em paz comigo mesma. Portanto, não faço concessões.

Voltemos nosso foco às “Moradas”. Santa Teresa de Jesus não desperdiça a alma de ninguém em seus escritos, mas suas admoestações demonstram a evidência de que podemos mais, mais, mais… A cada dia podemos, no que depende de nossa vontade, buscar nosso aperfeiçoamento como pessoas. Temos a vida toda para empreender este desafio. Este é o objetivo dela em “Castelo Interior – Moradas”, e ele não vale somente para quem decidiu entrar para um convento, ou para o monastério. São patamares que devemos ultrapassar, e que na elaboração de Santa Teresa de Jesus são sete. Na verdade, ela se refere a moradas espirituais. Ela vai nos incentivando a subir os degraus de nosso castelo interior… A meta é a perfeição. Não se trata de vaidade: eu acrescentaria (com certo constrangimento, pela ousadia), aquilo que me vem à mente neste momento: Jesus Cristo disse: “Sede perfeitos como meu Pai O é.”

No post anterior, prometi que publicaria neste blog o que Santa Teresa de Ávila deixou escrito sobre “Provas”. Este termo compõe o Índice Analítico de as Obras Completas, no qual qual ela se refere às provações que sofremos na vida (in Teresa de Jesus, “Obras Completas”, texto estabelecido por Frei Tomas Alvarez, Ordem Carmelita de Descalços(O.C.D.); em sua edição brasileira o texto foi revisado e anotado por Frei Tomas de La Cruz (O.C.D.), Editorial Monte Carmelo, Burgos, 1997. Edições Carmelitanas. Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1995; 2ª edição 2002).

Provas

“O Senhor quer provar aos que O amam antes de colocar neles seus grandes tesouros [V 11,11]; mesmo os mais elevados na oração, Deus os quer provar  algum tempo, parece que Sua Majestade os deixa [V15, 12]; algumas vezes permite o Senhor que caiamos… para provar se nos pesa muito tê-lo ofendido [M, 2, 1, 8]; provemo-nos a nós mesmos antes que nos prove o Senhor [M 3, 2, 3] Sabe Deus provar se não nos provamos a nós mesmos [M 3,1, 7];  Deus dá licença ao demônio para provar-nos [M 6, 1, 9]; Nosso Senhor a quer provar para ver o amor que Lhe tem [Cta 329, 2]; muitas vezes o Senhor prova para ver se as palavras se conformam com as obras [Cta 264, 3.”

A fragilidade dos nossos corpos e a Fé

Em outro post mencionei que oscilava entre a oração (precária, a meu ver) e a provação. Neste âmbito de minha espiritualidade – a oração – estou aprendendo a aprofundá-la com Santa Teresa de Jesus (de Ávila). Faço questão de revelar-lhes que não sou do tipo “murmurador”, ou seja, fico quieta diante de incômodos (não de injustiças; tenho que ser mais moderada…). Ou seja, se trata daquelas expressões que saem quando nos queixamos de algo, sem pensar muito: “que coisa…”, “não podia imaginar…”, entre outras que vão até o nível da baixaria, o que é, aliás, é um costume muito antigo ao longo da História da Humanidade… Acho que não devemos (eu tento me corrigir, sempre que me dou conta) dizer: “Meu Deus!”, ou “Jesus”, Nossa Senhora”. Este, não é um hábito corrente somente de nossa cultura. É impressionante ouvirmos nos filmes de Hollywood falas em que assassinos, ladrões, espertalhões, etc., se queixam, se espantam, enfim – murmuram tais expressões – com o diferencial, que são proferidas nos roteiros, com descarada naturalidade, só que em versão inglesa… Outros povos tem coleções dessas impropriedades. O Brasil não é diferente. A propósito, sem “murmurações” de nossa parte, nos envolvemos em um acidente com nosso automóvel. Eu e meu marido e os dois ocupantes do furgão saímos ilesos de tudo. Foi a primeira vez que passamos por isto em nossas vidas. Talvez o choque evite, em alguns, maiores arroubos, não sei…). Sei que andei rezando pela rua logo após estacionarmos nosso carro, que em nada no motor foi afetado. Não vínhamos em velocidade alta, mas a necessidade de passar, sem demora, para a pista paralela, que descia, em curva da rodovia,  foi fator decisivo para o que ocorreu. Sim, tudo aconteceu no dia de ontem, quinta-feira, e por esta razão, precisei caminhar (além da palidez natural e as pernas um tanto bambas, levei bem tudo que se seguiu). Havíamos escapado de um acidente que poderia ter sido fatal (pelos comentários) ou causar nos dois ferimentos… No entanto, Graças a Deus, como afirmei antes, estacionamos o carro na universidade, sem o vidro do motorista, a lataria com um traço sobre a pintura, que mostrou sua força ao arrancar o visor lateral dele, e o metal e borracha que envolve a janela. Deu para fechar a porta e ir até a reunião, ontem às 16h.

Estávamos adiantados, já que eram 14h e pouco. Eu desceria no centro da cidade, após viajarmos cerca de uma hora para a cidade vizinha, e meu esposo rumaria para a universidade que leciona. Danos materiais – foi somente isto que tivemos! Eu havia dito ao entrarmos na rodovia, em obras, com vários desvios: “que os Anjos de Deus nos protejam”, assim, literalmente… Em um primeiro momento, depois do acidente, meu marido queria voltar para a cidade que residimos e não ir à reunião, ainda que bastante importante, mas o convenci que o “pior” naquela situação já havia acontecido, afinal, sobrevivemos ilesos! Ele me ouviu. Estacionou no pátio da universidade, peguei minhas coisas (ele ainda perguntou se eu estava em condições de caminhar, e eu disse que sim). Nos abraçamos e beijamos, e seguimos adiante. Na rua, atravessei com o máximo cuidado, por me sentir com as pernas meio fracas. Sabia que era meu sistema nervoso abalado. Mas como nada sofremos, caminhei em frente, e fui recitando uma oração após outra, discretamente, já que pessoas cruzavam por mim, vez ou outra. Agradeci por todos nós, rezando, de início, o Creio, seguido do Pai-Nosso, da Ave-Maria, do Santo Anjo do Senhor, do Glória ao Pai; em alguns momentos observei a paisagem, meditei o acontecido, pensei em nossas famílias, em meu esposo, e repeti cada oração várias vezes até chegar ao destino que havia me proposto. Depois de tudo fui à Igreja Matriz e lá me ajoelhei (bastante cansada devido à escadaria), e agradeci novamente em oração e pedi que, afora o prejuízo e outras adversidades, nosso Criador, Seu Filho Jesus Cristo e Nossa Senhora nos fortalecessem nesta fase difícil. Saí de lá, após uma ligação de meu marido, pensando mentalmente no Salmo 23: “O Senhor é meu Pastor; nada me faltará. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, nenhum mal temerei porque Tu, Senhor, estás comigo (…)”. Amém.

Estamos bem, apesar do que aconteceu. Somos seres racionais, portanto tudo deve ser decidido no “nosso” tempo (sem atropelos) e segundo a vontade de Deus para nossas vidas, que acredito nos guiará a cada passo. É assim que penso. Perigos… Santa Teresa de Ávila quase foi “indicada” para os mentores da Inquisição. Um tempo de trevas, só que na atualidade a velocidade, a competição correm contra nós, contra o nosso espírito, quase o sufocam… De qualquer modo, imagino que Santa Teresa de Jesus rogou por nós naquele momento, pelo que me sinto honrada e agradecida. Acredito que os Santos e Santas que viveram antes de nós são nossos intercessores “privilegiados” junto à Corte Celestial, conforme meu avô materno certa vez fez referência. Ele falava somente o suficiente. Eu o admirava por isto, e o amava muito.

Não há tempo para acompanhar a seqüência; parece que tudo ocorre em um lapso, e nossa mente, nossa vida, nem sequer parecem estar em perigo. Foi assim que me senti, mesmo depois. Ele estava mais nervoso, mas aos poucos vai lembrando de por que tudo aconteceu. O que importou para nós dois e para a outra parte é ninguém saiu ferido. Disseram que tivemos sorte porque o furgão de tamanho médio portava uma carga pesada, e portanto estava bem abaixo de sua altura normal. Não vale a pena detalhar se não tivesse carga. Teve somente a ponta do pára-choque entortada e o farol traseiro quebrado. Por isto, sem murmurações (como é Sua vontade no Antigo Testamento), lhe damos Glória. De Deus Pai vem o sentido de nossas vidas e a fortaleza que devemos e queremos ter diante da vida. Amém.

Volto a lembrar: amanhã postarei o que Santa Teresa de Ávila (de Jesus) deixou-nos em seus escritos a respeito de “Provas”. Postarei um de seus poemas, que, por certo terá algo a ver com o que partilhei com vocês. Que Deus os proteja e cuide do que se passa em suas mentes e corações. Amém.

Santa Teresa de Jesus e a Paciência do Amor

Santa Teresa de Ávila - 15 de outubro de 1582
Santa Teresa de Ávila - 15 de outubro de 1582

Não esqueci da data que relembra a partida de Santa Teresa de Ávila para junto d’Aquele que tanto amou, e com amor apaixonado. No dia 15 de outubro, ela foi lembrada especialmente por todas as comunidades católicas, de todo o planeta. No entanto, de minha parte (devo confessar-lhes…) nada havia para postar sobre ela. No dia 16 tentei postar algo com sua imagem, mas sentia-me esgotada e não consegui realizar a tarefa. Esta, tem um pequeno grau de dificuldade mas, ao final, por cansaço, desisti.

Tenho andado entre dois mundos: o da fé (oração) e pelo que me sinto mais acossada ultimamente: a provação. Alguns eventos, atualmente reunidos em um mesmo “balaio”, têm início junho de 2006. Quando postei “De abismos ou quase…”, na verdade , este. foi posterior ao post “Castelo Interior… Pequena Biografia”, que principia com ” A Recusa do Mal”. Eu gravei o conteúdo, postado em torno de maio de 2006, e o excluí, para publicá-lo novamente há dois meses, em 15 de agosto. Isto tem uma razão um tanto dramática, mas que considero inadequado detalhar, por motivos óbvios. Envolvem como me espalho no mundo e que impacto causo sobre as pessoas que me rodeiam. Nem poderia esperar coisa diferente, afinal a vida da Cristandade vem se agitando entre mares revoltos. Dou Graças a Deus por ter evitado correntezas, corredeiras. Minha jornada tem muitos dificuldades vencidas, enquanto outras perduram, principalmente porque “admito sonhar somente meus sonhos”… Sempre preferi rios, e ainda prefiro, ainda que conte com o lado assustador da profundidade… Acredito que por analogia, se trata de nossa vida interior. O que me causou surpresa e mesmo susto foi que, nesta altura do “rio”, não esperava (nem divisava, ao menos) um trecho rochoso, e portanto revoltoso, cheio de perigos em seu curso…

Santa Teresa de Ávila viveu alguns dissabores familiares. Ela dizia que o mundo é para os que são do mundo. Já na idade madura é que viveu uma estreita amizade espiritual com uma de suas irmãs- Dona Maria de Cepeda, que dela se aproximou espiritualmente ao tempo do falecimento do marido. A ajudou com algum dinheiro durante a construção do Carmelo de São José. Esta proximidade se deu com o tempo porque, para ela, quem se dedica à vida consagrada deve deixar em segundo plano a família. Eram, afora seu pai e mãe, bastante ligados às conquistas materiais – as irmãs, e às aventuras, mundo afora – seus irmãos. Um deles foi morto em uma batalha no Peru, devido a lutas de defesa contra invasores. Este, pouco antes de falecer enviou boa quantidade de dinheiro para o Convento das Carmelitas Descalças, já em fase final de construção.

O que sei é que não caí no abismo da decepção, e da posterior tristeza. Penso que somente Cristo pode mudar o conjunto das decisões do arbítrio humano. E, aqui entramos no terreno da boa-vontade. Jesus deixou-nos um legado importante: “Paz na terra aos homens de boa-vontade”.  Prosseguirei e sei que Ele tem ouvido minhas preces…

Para mim, nossa época mergulhou profundamente no individualismo, e, este,  está devorando o “sagrado coração” do nosso viver. Sem Verdade não há Amor. Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Com o ritmo veloz de hoje, o tempo passa rapidamente. Mas a velocidade, ao final, nada diz respeito ao mundo do transcendente. Acredito que, no mundo ocidental, todos estejam cientes da importância da caridade, do amor, enfim, do cuidado que devemos ter uns com os outros, sejam conhecidos ou não… A cultura cristã não foi abolida pelo relógio que marca segundos em em Seul, ou, certamente em Taiwan… Assim, ficaria fora de nosso alcance quem se alimenta do orgulho, da auto-suficiência. Ou seja, o livre-arbítrio sem piedade, volto ao tema – individualismo exacerbado – nos mata um pouco a cada dia.

Eu admito que tenho medo de minha liberdade de escolha (em termos afetivos, emocionais) por viver rodeada de tanta impiedade, tanto pelo que me rodeia, quanto pela cultura que hoje domina todos os setores da vida humana: a do lucro a qualquer custo, a que prioriza a exterioridade. Deus! Me ajude para que a frieza que hoje impera, jamais me torne maquinal, impessoal; para que a indiferença do mundo passe por mim e por meu esposo, ao largo, e nunca tome assento… Que assim seja.

Nunca me senti assim, mas creio que vencerei, em Cristo Jesus estes temores. Tal como Santa Teresa de Jesus afirma em sua prece: “Nada de turbe (…) a paciência tudo alcança. (…) Somente Deus basta!”. Amada Santa Teresa de Jesus – “Ora pro nobis. Amen”.

É confortador o fato de que Jesus Cristo revelou por meio de “visões intelectuais” (termos que ela própria cunhou) que a Santa deveria dedicar o novo Carmelo à Maria, Sua mãe e a José seu pai adotivo, por representarem a Sagrada Família humana. Os dois aderiram ao projeto da Nova Aliança, conforme escreve Santa Teresa de Jesus, isto é, ao perfeito acolhimento da Providência Divina. Vidas voltadas para a vontade do Criador.

Humanos para sempre…

A era da técnica, tão enaltecida pelo mundo dos negócios, tem nos trazido muito desencanto. No meu caso, percebo isto desde que me senti parte do mundo da produção. Que sensação de infelicidade, de excesso, de confusão advém desta realidade que tem nos imposto o mundo que nos cerca, inocentemente chamado de “globalizado”. Minha mente está cansada de tantas informações: soltas, jogadas ao ar pelos meios de comunicação, ou espalhadas, aos milhares, em impressos… Apesar dos homens de negócios propalarem aos quatro ventos a chamada interatividade ou interconectividade, o que está ocorrendo se dá de modo totalmente o contrário. Os negócios vão muito bem; o nosso case é que não estamos interessados nos seus lucros. Eles matam, virtual e literalmente. Lembremos que há redes dando-lhes suporte em seus negócios nefastos.

O VAZIO DA SERVIDÃO CONSENTIDA

A informação, o conhecimento advindo da internet deveria produzir bem-estar aos povos do mundo, e não o seu contrário, uma Babel… Esta, se formos inteligentes, não será uma monstruosidade se cumprir seu dever público de ser útil à coletividade humana, isto é, nos servir. Sim, esta biblioteca mundial, que se alimenta da produção de saber humano (medicina, engenharia, biologia, filosofia, comunicação, etc.) produzida ao longo dos séculos da civilização, necessita ser “agarrada” por todos, para que beneficie, de fato, a Humanidade. Por que deixaríamos toda esta bagagem de cultura mundial nas mãos de negociantes? Por analogia, seria a mesma coisa que deixar uma turma de “fazedores” de filmes pornôs ocuparem o seu interior de uma igreja, por algumas horas, e lá, realizarem certas cenas, a portas fechadas… Espantoso, não? Mas, infelizmente este filme foi produzido. Como sou jornalista, acabo sabendo de um tudo um pouco, ainda que de maneira rápida, superficial. Foi na Itália há cerca de dois anos. Em uma pequena cidade da Itália, um indivíduo assistia a tal “película” e reconheceu que o “cenário” era real, e pela pior razão: se tratava do interior da sua igreja. Como católico, escandalizado, numa admirável demonstração de coragem (deixou a hipocrisia de lado…), chamou a imprensa, e, sobrou para a Cúria, que chamou o padre. Este, embaraçado afirmou ter sido enganado, já que ficaria ausente a maior parte do dia, mas não viu problema em liberar a chave da igreja porque viu o casal de noivos. Se o padre falou a verdade, faz sentido ele ter afirmado que se ausentaria por algumas horas. Não creio que tivesse interesse em ficar assistindo a pretensa gravação do casamento. A partir disso, a produção e a direção trataram de aproveitar bem o tempo. Uma entrada, desde a escadaria da igreja até o altar leva, no máximo, uns 15 minutos. Descontando que refizeram umas dez vezes a entrada, obviamente para não dar na vista, calculo um total que giraria em torno de três horas de “filmagem”. O que fizeram depois das portas fechadas pode ter sido bem mais rápido (sem repetições), o que não estranheza. Afinal, filmes com cenas de casamento se limitam à chegada da noiva, com corte para a sua chegada ao altar. Portanto, considerei plausível o argumento do padre italiano. O resultado desconcertante é que a igreja foi denominada como profanada (e, a meu ver, ela o foi, já que tudo que se passou lá dentro não é admissível de maneira alguma ). Houve um estranhíssimo desrespeito à crença, o que denota que a cultura judaico-cristã está sofrendo muitos ataques. Nem precisa ser beato para considerar este evento uma blasfêmia, não? Na notícia, seria esvaziada e novamente consagrada, e além disso, tudo dentro dela seria trocado, para ser certamente também consagrado. Este relato (real) revela que não certos limites estão sendo ultrapassados de um modo não usual. Temos aqui a técnica de filmagem e o set todo a serviço do lucro. Nem se trata mais de non sense (isto é do tempo do Fellini…), e sim de ganância, que a fórceps busca conspurcar valores universais, em vista da liberdade de ganhar dinheiro com qualquer coisa, de qualquer modo.

MENTES CONSPURCADAS OU PROFANADAS?

Voltemos ao abuso da técnica, do uso exacerbado de tecnologias que nos desumanizam. Entendo que até há 20 e poucos anos anos (sem ingenuidade, obviamente) comunicar algo era libertar as pessoas de certos entraves (por falta de informações) que limitavam o potencial de suas mentes, de suas vidas. Bons tempos.

Não sou contra o desenvolvimento de instrumentos, de recursos que possibilitem uma melhor qualidade de vida para nós próprios, e sem dúvida, para a humanidade. Mas, inexoravelmente, as coisas caminham há, pelo menos, três séculos para o caos. Não aquele caos dos pessimistas, e sim, o caos do excesso. A natureza humana  não poderia suportar este turbilhão de invenções, úteis e inúteis; e, tanto faz, já que não somos computadores ambulantes. Podemos cruzar dados, até o ponto de criá-los para que façam isto por nós. No entanto, nossa natureza não comporta mais esta profusão de conhecimentos, e que, na maior parte das vezes, não está produzindo saber, sabedoria de viver…

Temos que pensar (ou repensar) se queremos esta inteligência artificial nos espreitando, vampirizando nossas vidas. Quem, afinal, tem o direito de nos nos tornar como que zumbis (como no cinema e na literatura, que são ficção)? Nestes, seus corpos irrompem na madrugada, e agem como mortos-vivos. Afora, por exemplo, uma leitura noturna ou um saída com amigos à noite em um bar ou jantar em suas casas, vivemos para o dia- nele nos saudamos, sorrimos, rimos, nos estressamos, e portanto, sentimos dores. Tudo porque simplesmente estamos vivos! Faz parte de nossa humanidade sermos assim, até com perdas de controle emocional, de vez em quando, claro… Afinal é nossa sanidade que está em jogo e também a sanidade daqueles que estimamos, e por aí vai).

Assim, se perde no tempo a perda de um sem número de “sensibilidades”: poéticas, estéticas, literárias, do simples bem-viver, que inclui, inclusive, uma boa refeição e o prazer que nossos sentidos experimentam ao saboreá-la… Ou então, a audição de uma música – em que o som dos instrumentos falam conosco (como isto pode sr possível?), ou sua melodia e letra, criativamente interpretada pela voz humana. A música se vale de um princípio técnico para ser repetida com exatidão, que são as partituras, mas é a intenção do autor que a torna viva. A música, ainda que executada de maneira técnica, nos comunica sentimentos e sensações, visões de mundo. Saímos, em nosso cotidiano, da limitação de “fazer” algo, ou muitas coisas. Nesse sentido o uso de uma técnica, ou a fruição do seu resultado, como a música, a pintura, entre outras extensões de nossa humanidade, pode representar algo maravilhoso em nossas vidas, que jamais podemos dispensar, já que compartilha do mirandum que acompanha nossa caminhada pelo mundo. Até nos esquecemos da morte… Ou, pelo contrário nos faz mergulhar em abismos inauditos, mas necessários.

NÃO SÃO NOSSOS OS OLHOS QUE INVENTAM MUNDOS ALEATÓRIOS…

A título de sugestão, ouçam, já que há pouco tive acesso a uma gravação em MP3  de uma composição do grupo Supertramp (dos anos 80), que é, na minha avaliação, uma obra-prima de nosso tempo. Falo de “Fool’s Overture” (Supertramp). Me fascina essa peça musical, que tem um caráter épico; enfim, é uma ópera contemporânea. Por certo vocês sentirão ao ouvi-la uma dramaticidade que impressiona, que em seus altos e baixos, revela a intensidade que há em nossas vidas, queiramos ou não… Será quase uma uma experiência “religiosa”. Não há lugar para sentimentos neutros. Atentem para o momento em que uma gravação antiga, em que uma voz masculina menciona com gravidade “(…)Pandora’s witches”. Em um primeiro momento, acreditei ter ouvido “box” e, assim registrei no post. Isto, porque culturalmente conhecemos a expressão “Caixa de Pandora”. Então, como gosto demais desta música, ouvi-a novamente, desta vez com mais atenção, e ouvi(?) o locutor dizer, em um inglês britânico – “witches”. Na letra não consta esta fala, o que me inclina (pelo contexto desta “Overture”) a pensar que é plausível a referência a bruxas. Afinal, da “Caixa de Pandora”, quando aberta, saem para o mundo todas as loucuras, mesmo as inimagináveis…

Para aliviar um pouco, confiram na Wikipédia que “Overture” se trata de peça musical de grande expressão. Bach compôs neste estilo, no entanto há uma relação de outras produções que foram denominadas historicamente desse modo, que se estende ao final do século XX. A propósito, especificamente, no caso de “Fool’s Overture” (e outras peças musicais de sonoridade sofisticada) fica evidente que fomos esmagados por uma massificação, que nos toldou a criatividade, inclusive a musical. Quem atualmente joga com tais dados da cultura humana? Passou. Ficou para trás.. Vale a pena detalhar, até mesmo para valorizar esta magnífica obra da mente humana. A genialidade do grupo se mostra no fato de inserir a gravação antiga de uma fala de peça teatral. Como resultado, em seu conjunto, a composição chega a ser assustadora.

Estes recortes, que são dados culturais (alguns já  centenários) estão se perdendo pela tecnificação do nosso atual modo de vida. Antes que a “Caixa de Pandora” se abra totalmente, vale a pena mergulhar no sentido que esta produção musical  traz como desafio à compreensão de nossas vidas. Não somos robôs, mas a Ciência não descansará enquanto não nos conformarmos ao “modelito” científico de ver e viver a Vida.

Assim, fiquem atentos aos acontecimentos musicais contidos em “Fool’s Overture” (por exemplo, a percussão primorosa). É verdade: há muito estudo de notas, tons, portanto, muita técnica. Mas, em meio à melodia, no vácuo da interpretação do vocalista e de um coro eventual, nossas emoções serão envolvidas por corais religiosos, ventos avassaladores, sinos que badalam ao fundo, e, entre outros arranjos, o Big Ben anunciará a hora…

“Castelo Interior – Moradas”: Santa Teresa de Ávila. Breve Biografia.

A RECUSA DO MAL

Santa Teresa de Ávila foi leitora de as Confissões de Santo Agostinho, tendo privado com São Pedro de Alcântara vez por outra. Este monge reformador, já em idade avançada, teve sobre monja Teresa forte influência, dada a reconhecida sabedoria que o velho monge apresentava à sua época. Eram tempos de devassidão e pobreza dentro e fora da vida religiosa. Ensinava e exigia a necessidade da austeridade que, em sua visão, era essencial à vida monástica. Além desta grande influência sobre as obras de Teresa de Ávila, a história registra a forte impressão que causou a personalidade de São João da Cruz e de seus escritos.

Ela nos apresenta um itinerário de conquista, passo-a-passo, da libertação de nossa própria alma das garras do mundo. No mundo de hoje, fora da clausura daqueles tempos, este esforço é vital para a saúde de nossa psique. Isto se faz necessário porque em meio ao caos de tantas informações desconexas, tal busca, a da paz interior vai se dar até o último momento de nossa existência. A rigor, temos tudo, menos vida interior…

Dentro de outro ângulo de análise da obra de Santa Teresa de Ávila, é admissível pensar à luz das Escrituras Sagradas que nosso espírito anseia livrar-se do pecado original. Ele é uma marca, isto é, algo como que um “vírus espiritual”. A partir da leitura, principalmente do Antigo Testamento sabemos que tal pecado de origem foi herdado e transmitido de geração em geração, em decorrência da rebeldia da criatura humana contra o seu Criador. Um pecado de origem, mas não sem conseqüências. Adentramos em relatos ainda cheios de mistério, de enigmas, tal como a vida o é em si mesma. O que temos é a decisão livre de afastamento da criatura racional do convívio íntimo com seu Criador. Ainda que confundidos, tanto homens quanto mulheres pelas sugestões de um ser espiritual, externo à criatura, a aniquilação interior (a morte seria a conseqüência física) foi irreversível. Desde lá, isto é, desde aquele remoto passado da humanidade, tal influência auto-destrutiva perdura no presente. Há em cada um de nós uma auto-suficiência absurda. Somos rebeldes até mesmo na decadência física natural…  Cristo, os santos e santas da Antiga Lei e da Nova Aliança, sempre sugeriram humildade diante d’Ele, de escuta interior, e portanto, de busca da santidade, já a partir daqui, de nossas vidas. Afinal, vivemos todos uma aventura individual e coletiva sob a face da Terra. Esta jornada tem consistido em uma constante batalha espiritual.

Para tanto, o que está em jogo é o exercício de nosso livre-arbítrio (direito que a cada um de nós foi concedido). Podemos dar ouvidos ou não ao apelo, à voz de Deus em nosso interior. É esta a intenção de Santa Teresa de Ávila – Teresa de Jesus, ou seja, de maneira racional e carinhosa vai traçando este itinerário de paz interior possível já aqui neste mundo. Conquistado o interior, o castelo já faz parte do Reino de Deus, o Reino de Jesus Cristo.

A partir do que lhe era comunicado pela pessoa de Jesus Cristo (Santa Teresa de Ávila afirmava se tratarem de visões intelectuais, e estas foram reconhecidas pela Igreja Católica já à sua época), sem rodeios, assumiu a dificílima missão de reforma do Carmelo. Em fazendo isto, mesmo aos leigos, oferece objetivamente instruções sobre o caminho a ser trilhado para a conquista de nossas próprias almas. Se assim o quisermos, com carinho nos anima, já que afirma que sempre teremos a ajuda do Espírito Santo de Deus, que mora neste castelo… Converso (minha razão, meu espírito)  com quem quem via um pouco mais além da terra e do céu terrenos…

UMA BREVE BIOGRAFIA

Castelo Interior – Moradas – nos foi presenteado por Teresa de Ahumada, nascida em Ávila, no século XVI, na Espanha. Monja carmelita, do convento de Nossa Senhora do Carmo, que, ao ali entrar tomou o nome de Teresa de Jesus, e empreendeu uma verdadeira aventura espiritual, porque recheada de perigos externos (Inquisição) e sofrimentos. Mundialmente, no entanto, é conhecida como Santa Teresa de Ávila (1515-1582). Suas experiências místicas ao serem relatadas a alguns superiores causaram espanto, expondo-a até mesmo ao risco de ser levada à fogueira. À parte disso (e até alheia ao fato), na verdade, esta santa católica viveu muitas contradições interiores, dado o seu fervor místico e ao mesmo tempo, sua extrema humildade. Ao mesmo tempo que tinha visões mentais em que via e conversava com Cristo, no início destes encontros espirituais, pela pressão da época, sua alma vivia em uma quase constante perturbação. No início de tudo, pensava que as visões eram frutos de sua vaidade, pela qual se condenava. Com o tempo compreendeu, bem como seus confessores, que o Maligno (tal como Jesus denomina em sua pregação) não teria capacidade de, continuada e coerentemente, falar como Cristo. Ensina-nos que os Padres da Igreja sempre enfatizaram: sua capacidade se limita a influenciar as almas, na tentativa de afastá-las do encontro face-a-face com Deus Pai, o Criador do Universo.

Este foi o convite gentil de Santa de Ávila (carmelita, Doutora da Igreja): todos devemos viver constantemente na busca de uma proximidade com Deus e Seu Filho, Jesus Cristo. Este, que resgatou e continua resgatando as criaturas humanas da perdição se suas almas no mundo. Castelo Interior – “Moradas” é sua obra-prima, de acordo com os estudiosos da Igreja. Uma obra que é fruto de sua maturidade espiritual e que foi composta no final de sua jornada de vida(1582), dando-a por concluída em 29 de novembro de 1577.

“EM BUSCA DO INFINITO E DO DESEJO DE DEUS”

Assim define o conjunto da obra de Santa Teresa de Ávila, o coordenador da publicação das Obras Completas, Frei Patrício Sciadini, OCD. No prefácio da edição brasileira ele comenta:

“(…)Com seus escritos, Teresa rompe os limites do mundo dos carmelitas descalços e das monjas carmelitas descalças. Seu nome, sua mensagem ultrapassam a Igreja e conquistam pessoas de todas as raças e religiões, em busca do Infinito e do desejo de Deus.

A melhor forma de compreender a figura dessa mulher é aproximar-se de seus escritos em atitude de simplicidade, sem esquecer que Madre Teresa (Teresa de Jesus) fala mais ao coração que à inteligência. A sua afetividade encontra pleno transbordamento no íntimo diálogo com Deus. O método de oração teresiano é o caminho que devemos seguir para obter a água da fonte para regar o jardim de nossa alma.”

Frei Patrício (OCD) nos oferece ainda esta pequena oração de Santa Teresa de Ávila, já bastante conhecida, mas que sempre nos encanta e alenta:

Nada te turbe,

nada te espante.

Tudo se pasa.

Dios no se muda.

La paciencia

todo lo alcanza.

Quien a Dios tiene

nada le falta.

Sólo Dios basta!

O Amor não é um software…

As ruas estão cheias de robôs. Eles já não sentem o coração bater mais forte. Nem sempre foi assim… Amavam e muitas vezes até eram tomados pelo sentimento contrário, o ódio. Eram bons tempos aqueles, e em minha memória ainda lembro destas manifestações humanas. Podiam ocorrer quase ao mesmo tempo em uma mesma pessoa, conforme sua disposição de espírito. Contraditórias, tais emoções apareciam, ou seja, ficavam transparentes à vista de todos (em geral, sem qualquer espanto, talvez, no máximo, curiosidade) quando alguma lembrança  agradável ou infeliz de sua vida lhe acorresse à mente. Hoje, há tão somente uma cultura de cálculo. A racionalidade foi transformada em racionalização de sentimentos, das trocas afetivas, desde a amizade pura e simples até o âmbito do amor humano. Há muito a perder… Corpos-máquinas, corpos-zumbis não podem se permitir sensações – um raio de luz  em meio  à penumbra, o crepitar das águas na areia de uma praia, o sorriso e a mão de uma criança desconhecida que nos acena na calçada, um gesto amigável, mas anônimo em meio à agitação de uma grande cidade…

Havia, para qualquer lado que olhássemos a alegria, enfim, a esperança. Os mais velhos, para não dizer octogenários ou mesmo nonagenários, em sua maior parte gostavam de transmitir o encantamento que havia na vida, além de seus mistérios e perigos. Estou atravessando os quarenta anos e posso dar testemunho disso em minha juventude. Meus sobrinhos, já em sua infância foram abordados agressivamente por pessoas desconhecidas, que estavam em fase de envelhecimento. Sem chance. Sem ternura, sem senso de proteção à jovem condição do grupo, e nem mesmo em relação às crianças que poderiam estar no entorno. Ouvi deles (meus sobrinhos, que ainda eram pré-adolescentes no final dos anos 90) relatos assustadores de tentativa de agressão. Um exemplo inesquecível para mim: alguém que poderia ser avô em idade, arremete a cavalo contra o grupo de amigos (um dos sobrinhos estava com dez anos e o outro com 12, ou seja, pouco mais que crianças) por pura intolerância. Nada de drogas. Estavam reunidos em uma praça, de um bairro de  região metropolitana, já que ali moravam, depois da aula e do almoço. Ao investigar “verbalmente” com os sobrinhos sobre o evento, pude notar que o grupinho “invadira” por curiosidade uma área “ainda” verde do bairro, passando a cerca com arames farpados. Tratava-se de uma pequena chácara. Resumo: qual o menino que, em tempos passados não enveredou mato adentro (se teve, obviamente, a oportunidade) para ver o que havia mais adiante, um pouco mais… Meu irmão fez isso à exaustão nos anos 70, acompanhado de nosso cachorro de estimação – o “Tobe”. Estamos, infelizmente, perdendo nossa capacidade de nos envolver pela vida. Todos perdemos um pouco de nossa humanidade, e isto começa a valer, neste primeiros dez anos do ano dois mil, tanto para crianças, jovens, maduros e velhos.

Nesta tentativa de resgate, que é também a tentativa de um mapeamento da realidade que vivemos, eu poderia afirmar que o enlevo dos espíritos era visível nos olhos, nos gestos. Quase podíamos “ver” o que nos relatavam:no entusiasmo de uma grande amiga que viajou para longe, nas lembranças cheias de ensinamento de nossos avós, a ternura uma pessoa especialmente amada, ou, então, a alegria da chegada de alguém muito aguardado. Na outra via, pude sentir vivamente a raiva e extravasá-la, sem constrangimentos, bem como ser testemunha ocular de eventos emocionais deste tipo. Era reconhecida como emoção, desde que extravasada sem excessos, ou seja, sem violência física ou verbal, era vista como um sentimento saudável.

UM TEMPO EM QUE CRIANÇAS, JOVENS E MULHERES SÃO OBJETOS DESCARTÁVEIS…

Isto mudou radicalmente desde meados dos anos 90. Obviamente, antes desta década também havia, em qualquer parte do planeta, o descontrole emocional, ou seja, explosões de ódio. Estas se manifestavam eventualmente de maneira individual, ou em grupos extremistas. Em geral, no entanto, não era sequer cogitada a possibilidade de alguém atirar uma frágil criança pela janela do sexto andar, ou então, a própria mãe atirar seu bebê nas águas de um rio, escondido dentro de uma sacola plástica. Estes registros aconteceram no Brasil recentemente, como se fizessem parte de uma onda atípica de violência contra as crianças. Para espanto e lamento geral, pouquíssimas destas pequenas vítimas foram resgatadas com vida. No mundo inteiro, nas diversas formas de agressões à infância, os casos de sobrevivência são mínimos. Queimaduras, inclusive com requinte de crueldade, isto, com pontas de cigarro, ou surras com pedaços de madeira, além do assédio, violação e morte dos seres humanos mais indefesos que existem sob a face da terra: CRIANÇAS! Há eventos coletivos na atualidade, que nos fazem lembrar a Idade Média: é o caso de Verona, na Itália, por exemplo. Foi instituído o atendimento de pronto socorro para recolhimento de bebês abandonados: é acionado quando um bebê recém-nascido é “depositado” em uma berço térmico na igreja matriz. Há um botão que faz sair este berço da parede lateral (nos fundos, por certo!), onde a mãe ou casal que não abortaram a criança dão uma “chance” de vida ao indesejado ser que geraram. A medida decorreu em razão do alarmante número de bebês recém-nascidos deixados ao longo das margens do rio, entre os arbustos!

A falta de amor (que em seu grau máximo se transforma em ódio) está gerando o atual quadro, que é mundial. Sabemos que até mesmo um filhotinho de cão, depois de um mínimo de aleitamento tem alguma chance de sobreviver. No entanto, as crianças espalhadas pela Terra têm sido arrancadas do ventre de suas jovens e não tão jovens futuras mães. Entre os motivos, diferentemente de outras épocas, a decisão parte delas próprias, talvez em sua maioria. Isto, vem revelando as várias faces da crescente desumanização  em curso – entre elas, a pura e simples indiferença pela vida (pelo menos momentânea), a supervalorização de suas carreiras, o progresso material da família, uso de drogas pelas adolescentes, ou, simplesmente o sexo exercido não mais com o requisito do afeto, tanto por jovem como homens e mulheres adultos.

Além disso, há o fato, de caráter hediondo do rapto de meninas meninos para prostituição nas ruas, ou para filmagens e venda deste material pela internet. As meninas têm sido o principal alvo das redes de prostituição infantil. Entretanto, sabemos que adolescentes aliciam meninos para filmagens, que são vendidas para sites de pedofilia. Portanto, parece que a degradação de nossa humanidade atingiu um estágio quase irreversível. A História registra que, diante de uma grande desgraça, os israelitas jogavam terra sobre seus corpos, em sinal de lamento, luto, desespero. Esta imagem, diante de tais fatos, considero muito adequada para o nosso tempo. Mas, ao que parece a capacidade de perceber o trágico está ficando cada vez mais rara…

O DINHEIRO “ENGOLIU” A ESPERANÇA QUE HAVIA NAS CRIANÇAS E NOS JOVENS?

Assim,  o tempo em que crianças e adultos eram tão somente crianças e adultos já passou, infelizmente. No entanto, sempre houve reviravoltas… Hoje, ambos  são programados por todo tipo de abordagem mercadológica para o consumo desenfreado, maquinal. E, na pior das hipóteses, podem ser transformadas, do dia para a noite, em vítimas, as quais, em sua inocência, sem o menor traço de compaixão são jogadas em antros, ambientes subterrâneos abjetos, e lá são subalimentadas. Isto acontece principalmente na Ásia, onde estas redes demoníacas, por comida as submetem a terem contato com pedófilos. Entre eles, estão principalmente os grandes industriais. Entretanto, é importante frisar que este horror perpassa a sociedade humana, que sem sombra de dúvida está doente, não como alguém que adquire uma enfermidade, e sim, como quem decide viver em estado permanentemente doentio. Um viciado em drogas, devido a transtornos psíquicos, ou outros fatores, padece de um certo tipo de doença. Entretanto, acredito que está em “desgraça”, que significa ausência da Graça, ainda que esta possa ser uma condição circunstancial, sendo passível de recuperação. No entanto, em geral, drogados não exploram sua condição para tirar proveito de alguém, afora os furtos realizados pelo desespero do vício. Em geral, os que aliciam crianças e jovens para manterem o tráfico são indivíduos muito calculistas para se deixarem consumir pelas drogas… Estes, por sua vez, têm contatos em altos círculos, bem longe das fontes fornecedoras. Vivem em arranha-céus espalhados pelos quatro quantos do mundo.

Dentro das redes que exploram sexualmente crianças e jovens há uma estratégia perversa: de maneira fria são tornadas dependentes de drogas por seus raptores. Não esqueçamos que isto se tornou endêmico devido às amplas possibilidades de comunicação, do celular à internet, que possibilitam a ação sofisticada do crime organizado, na forma de redes espalhadas pelo mundo. O círculo vicioso termina quando as vítimas, jovens ou adultas morrem de Aids, doenças venéreas ou mesmo de overdose. Como mencionei anteriormente, na Ásia há o predomínio deste quadro, que ultraja a infância, e entre os “adeptos” (seres humanos abjetos) não há distinção de nacionalidade. Nos países europeus, e nas Américas, os ambientes de prostituição infantil são “maquiados”. O rapto, o aliciamento por pobreza, e a drogradição das crianças e jovens são condutas adotadas com o mesmo padrão da Europa Oriental e Ásia.

Atualmente, o crime organizado ampliou seus tentáculos e acabou por se “especializar” na exploração sexual de corpos que,  há apenas um século nasciam para serem sagradamente felizes. Não havia redes de narcotráfico, prostituição, etc. Podiam sonhar com dias melhores ou até satisfatórios, porque dignos.  No horizonte de nossos dias, são tornados objetos de consumo de uma sociedade planetariamente doentia e degradada.

Ainda quanto a estas redes de prostituição, a existência deste revela que estamos diante de uma tragédia social globalizada, e que se amplia. Por extensão, também incluem em sua “agenda” de lucro fácil o rapto e aprisionamento de mulheres para prostituição para produção de vídeos independentes, às vezes anunciados como “caseiros”. As vítimas são ludibriadas com promessas de trabalho doméstico, sendo trazidas principalmente da Europa Oriental. Portanto, estes grupos de criminosos operam in loco ou no mundo virtual, estendendo sua ação desde o tráfico de drogas, de órgãos humanos, tanto de crianças como de adultos, de armas. Assim, dominam a produção de pornografia infanto-juvenil, aprisionando mulheres com o mesmo objetivo. Neste caso, tais redes raptam prostitutas ou mulheres prostituídas, que são levadas para estúdios de filmagem no meio do nada, sendo praticamente torturadas por homens drogados (obviamente, com certo tipo de droga). A dor é real neste tipo de produção pornográfica. Há consumidores “seletos”, principalmente na camada social de maior poder poder aquisitivo.

Não é facilmente identificável esta realidade, no entanto, o conjunto da sociedade humana está sob ameaça constante, porque velada, disfarçada em mil faces…

“DES-PROGRAMAÇÃO”…

Talvez, se deixarmos de ser “programáveis”, possamos reverter este perverso e lamentável quadro, e através da própria internet. Sites que oferecem “serviços” não muito bem definidos, e que escondem atividades ilícitas devem ser denunciados a organismos que investigam e processam seus administradores, owners. Ambientes reservados na rede, com conteúdos (fotos, textos) que envolvem crianças e jovens, devem ser da mesma forma denunciados. No Brasil, a Polícia Federal tem um setor específico, que voltou a atuar com mais precisão e determinação, já que houve um incremento de verbas públicas para sua atuação em relação aos crimes dentro da internet.

Sob outro aspecto, os jovens em geral, ainda que não conheçam (graças a Deus, nem tudo está perdido!) a realidade da prostituição infantil e juvenil, têm sido reduzidos à perspectiva de, unicamente, obterem um diploma de curso superior. Têm que ascender ao topo, isto é, devem lutar (muito e a qualquer preço!) por prestígio e riqueza. Nessa ordem… É evidente que isto se aplica a uma parcela pequena da população mundial. De qualquer modo, são jovens “formatados” exclusivamente para um objetivo: a profissionalização. Nada além… Em suma, já não há uma cultura que incentive, favoreça qualquer responsabilidade pelo que acontece à sociedade em que estão inseridos. São educados pelos pais para a competição (que é real) e para o sucesso pessoal a qualquer custo. As universidades, por sua vez, em geral têm sido gerenciadas para oferecer este “pacote de vida” aos jovens… Nos departamentos de marketing de tais universidades (e o número delas vem aumentando) seus integrantes se referem aos alunos como “público alvo”. Na verdade, em suas cabeças os imaginam circulando em um shopping… Uma realidade patética e triste.

Robôs podem fazer micro-cirurgias, desarmar bombas, minas, mas seres humanos devem nutrir sentimentos uns pelos outros, viver suas emoções. Voltar a viver, portanto, voltar a amar.

A omissão nos tira a paz.

De abismos, ou quase…

Depois de alguns reparos no post de apresentação, após oito meses de muitos desertos e alguns oásis, sinto-me melhor, como pessoa, porque não desisti, e assim seguirei, na Graça d’Ele, que é Eterno.

Aprendi muitas coisas neste período e gostaria de compartilhar com vocês minha visão do rumo que as coisas têm tomado. Sei que me revelo um tanto pia, e às vezes, inquieta…

Paz interior

Uma existência sem sentido… Por qual ou quais razões, exatamente, passou a ser natural a aceitação deste vazio? O quê está em jogo nesta questão é tudo que importa na vida, para qualquer um: a paz, e se possível, a felicidade, ainda que esporádica e descontínua. Nietzsche postulava uma felicidade contínua e permanente. Para tanto, propunha o abandono total da razão que escolhe o bem. Para ele, em contraposição à civilização judaico-cristã, somente seria possível a um ser humano  atingir sua completude, ou seja, ser feliz,  se este se entregasse ao domínio total dos sentidos. Simples: um animal a mais no mundo, movido de igual maneira pelos instintos de sobrevivência e de prazer.

Aqui, a meu ver, entra o tema do livre-arbítrio. Na esteira do que considero um legado nefasto à Humanidade, o discurso nietzschiano é inegavelmente panfletário, ainda que diante de sua reconhecida genialidade. Penso que escreveu sua obra delirante tal como um jornalista, já há seu tempo, da chamada imprensa marrom… É tido entretanto como filósofo, o que se afigura algo contrário ao esforço da Filosofia, que pesa, pondera, sem apologias. Filósofos podem falar a partir de sua crença, e a partir daí, de sua visão de mundo. Jornalistas fazem de modo semelhante seu trabalho. Ambos não admitem a destruição dos ideais da mente e do coração humanos. Já, Nietzsche busca solapar tais anseios, a tal ponto que escreve “O Anticristo”, em 1888. Seu intento não é modesto, nem de modo algum inócuo. Seus livros são ainda bastante estudados na atualidade, já que são republicados há mais de um século e meio. Para ele, somos tão somente máquinas estruturadas por ossos e revestidas de carne… A Ciência segue seus passos, com a mesma obsessiva decisão de difundir o potencial máximo de nossa “não-humanidade”. Vale perguntar: a força brutal da natureza (incluindo aqui a humana) tem algo a ver com a arte, a poesia, ou então, ideais universalmente humanos tais como os do bem, da justiça, do belo, enfim, aqueles que “tocam” o inefável?

Este é um tempo que nos fornece a experiência desagradável de ter um cubo de gelo sob a pele: a um só tempo frieza e liquidez. Algo que não demora o bastante para ser plenamente sentido, ainda que cause mal-estar. No entanto, há cerca de mais um milênio e meio de anos já nos alertava (ou alentava?) Santo Agostinho: “(…) É no interior; é lá que a Verdade mora”.