“Não é o poder que redime, mas o amor.” (Papa Bento XVI – Homilia)

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missa_papa_homiO Sumo Pontífice – papa Bento XVI, Joseph Ratzinger – nasceu em Marktl am Inn, diocese de Passau (Alemanha), no dia 16 de Abril de 1927. Portanto, na última quinta-feira completou 82 anos. Parece estranho mencionar com atraso a comemoração de seu aniversário, mas sigo o ditado popular: “antes tarde do que nunca”… Não sou dada a felicitações de aniversário, no entanto, este homem, tal como é comentado sobre todos os pontífices vive uma solidão, a meu ver, “singular”. Não pelo fato de ser celibatário e não ter parentes próximos vivos, e sim por ser o 265º Papa! Um papa é um homem especial, por excelência, porque deve ser forte, já que conviverá com todo o tipo de pressões. Muitas delas, tal como é sabido por toda a cristandade, contrariaram o “Espírito da Igreja”. Na atualidade, não é diferente, principalmente em termos de unicidade, entre  outros aspectos. Graças a Deus o papa Bento XVI tem esta virtude, aliás, essencial neste tempo, em que vem enfrentando críticas públicas, inclusive na Praça de São Pedro… No entanto, como “Pastor” do grande rebanho que é a Igreja Católica do século XXI, podemos permanecer confiantes porque, por suas palavras, não lhe faltam Fé nem humildade – portanto, nem o Sumo Pontífice nem a Igreja serão abalados.

Bento XVI sucede nada menos que São Pedro, o primeiro representante da Igreja de Jesus Cristo – até que Ele “volte na consumação dos tempos”.

Eu acho impressionante esta sucessão de homens maravilhosos – um bom número deles tornados santos. E, mesmo que muitos não tenham recebido este título, foram verdadeiros sucessores de Pedro e representantes de Cristo porque, com o auxílio do Espírito Santo, que paira sobre a Igreja, lutaram bravamente para que esta se mantivesse Una, Santa e Apostólica. Já foi muito temido na condição de cardeal e Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Particularmente, deixei de vê-lo como homem da hierarquia da Igreja que possuía “mão de ferro”. Bem antes de assumir seu pontificado, compreendi os equívocos da “Teologia da Libertação”. Para mim, boas intenções não podem admitir que “os fins justifiquem os meios”. Isto, porque a doutrina marxista é incompatível com a misericórdia… Jesus foi entregue aos seus algozes por Judas Escariotes que via n’Ele um revolucionário… Deixou-nos a seguinte instrução: “Dai a César o que é de César; a Deus o que é de Deus.” Entendo esta metáfora usada por Jesus, diante de Pilatos, da seguinte maneira: o Amor é a melhor política na luta por justiça social. Por certo há tratados sobre a temática… Em todo o caso, para mim, não importa o conteúdo destas publicações, já que este enfoque teológico, que em teoria se propõe como benéfico para a cristandade, a meu ver, nada mais é que outra “roupagem católica”. Melhor ficarmos com a que deriva da tradição apostólica… Ou seja, enquanto católicos não precisamos mudar a forma, e sim aprofundar o conteúdo. Vejo positivamente o caminho percorrido desde o abandono da cultura pagã: a civilização judaico-cristã deu concretude a muitas conquistas sociais. Adentrou o século XXI e, pacificamente tem auxiliado muitos povos, ainda pré-civilizados ou dominados pelo totalitarismo, a alcançarem uma visão que contempla, ainda que idealmente, a pessoa, o ser humano em si mesmo. A propósito desta análise, li recentemente que no Japão há conversões em massa ao catolicismo. Além disso, a adesão que mostram é entusiasmada, bem mais intensa que a média dos católicos não-orientais… Podemos constatar isto em dados que mostram a visitação ao Vaticano. Nossos irmãos japoneses católicos vão em número, proporcionalmente ao tamanho do Japão, significativamente elevado em relação aos demais países. A respeito disso, tenho uma “tese”: a cultura oriental desconsidera, de certo modo, o corpo humano, e por conseguinte a identidade, a pessoa – seus anseios individuais. Isto, porque é estratificada, na qual cada um ocupa um lugar e, não passa disso a existência humana… Observem este dado cultural em filmes que contam a história de samurais. Para mim, quando acessam o “manancial” que brota da interioridade vivenciada pelos cristãos, desde a Igreja Primitiva, sentem-se verdadeiramente humanos, vivos, plenos. É plausível, não? Diante de tal contentamento, chego a pensar que devíamos ser “recristianizados” por eles, já que perdemos o “pique” que o amor em Cristo oferece – somos tão desanimados… No entanto, não vale o entusiasmo da venda de CD’s e livros… Desculpem-me, se pareço exagerada. É que não consigo esquecer a convicção, a alegria dos primeiros cristãos, relatada nas Escrituras Sagradas, mesmo tendo que enterrar seus mortos em catacumbas, nos subterrâneos de Roma, para não serem identificados. E o perigo foi aumentando: encontravam a morte diante de leões nas arenas. Mais adiante, por quase cinco séculos, eram decapitados diante da recusa de adoração de ídolos, de deuses pagãos…

Ainda sobre a “Teologia da Libertação”, para concluir minha abordagem sobre este “evento” dentro do catolicismo, lembro da afirmação de que “somos animais políticos”. Concordo, mas vou um pouco além: até mesmo a fé é capaz de mostrar o quanto podemos administrar “politicamente” nossa parcela de irracionalidade, no caso, a negativa… Há muitos contributos individuais e de instituições ao longo da história do Cristianismo que mostram a libertação de realidades opressivas  a partir de condutas como a compaixão, a piedade diante do sofrimento humano. Em suma: o exercício da caridade diante da pessoa dos que sofrem por falta de recursos, principalmente materiais, que se estende por atuação nas estruturas já disponíveis  para melhoria da qualidade de vida dos povos. Ainda é assim, graças a Deus. Este tipo de “cuidado” com os desprotegidos de todo tipo, há de seguir, sem interrupção de espécie alguma. Depende de nós – os cristãos… A Igreja criou  no  passado, quando nada havia para proteger os desamparados de toda espécie – orfanatos, educandários, e além disso, em cada mosteiro, havia em geral, desde  os primeiros mosteiros uma “mesa” para os andarilhos ou famintos…. Por que isto não é mais mencionado como parte da história do mundo ocidental? As primeiras universidades foram confessionais, e de lá saíram homens que criaram estruturas que prepararam  a implantação da democracia no Ocidente. A este esforço, foi agregada a  contribuição de mulheres, as quais passaram a frequentar, no final do século XIX, lado a lado com os homens, as mesma universidades. Aqui há uma chave: a de  que toda mulher anseia por igualdade de direitos, aliás direitos universais. A partir desta constatação, é digno de reflexão o fato de que há o fortalecimento da democracia no mundo ocidental quando as mulheres, se aliam  aos homens na ênfase  sobre o conceito de equidade, de igualdade de direitos. Ou seja, não deve existir exceção de qualquer tipo. Sabemos que há muito ainda a avançar neste terreno. Desse  novíssimo caldo cultural surge a constituição do que conhecemos como “direitos  humanos”. O conceito mal completou 50 anos. As populações, principalmente antes do Cristianismo eram submetidas aos poderosos de cada momento histórico. No filme  “Coração Valente”, que se passa no século XIII é possível perceber que a razão e a piedade cristãs (quando existem entre os próprios cristãos…) arranca povos da opressão dos que detêm o poder político, em muitos casos no período medieval, embaralhado com o poder religioso. Mas isto foi mudando paulatinamente, e, é importante  frisar – para concluir, foi conquista do conjunto da cristandade. Ou seja, foi sendo firmado o conceito de que não há diferença entre  homens, mulheres, pobres ou ricos. Verdade é que foi uma conquista lenta, mas esta se mostrou contínua até o nosso tempo. Penso que quando não há compaixão, tanto no passado como na atualidade, ou ela vai se extinguindo, há somente indiferença, que vem sempre acompanhada de avidez pelo poder.

Portanto, acredito  que há liberdade somente no amor. O resto é poder. Assim, devemos aproveitar o simples exercício da democracia, que é uma boa forma de concretizar o amor, a solidariedade, a fraternidade. Simples assim. Para nós cristãos é suficiente o cumprimento dos Dez Mandamentos. Seria agir com má-fé confundir o que historica e politicamente foi denominado como “Cartilha” com o catecismo. O catecismo da Igreja nada mais é que uma releitura do Decálogo, adaptada a cada tempo. Há restrições, mas  estas visam  a integridade da criatura, em seu todo. A partir da Revolução Francesa o conceito de liberdade ficou restrito ao corpo. O problema é que corpos não são máquinas… É básica a nossa ânsia por Transcendência.

Assim, o papa Bento XVI tem demonstrado ao mundo que se enquadra entre aqueles que a defendem a Igreja com bravura, já que seus inimigos são inumeráveis… Talvez por esta razão, ao longo da sua história, existiram representantes máximos que nem sequer eram homens movidos pela fé… Ocuparam o maior cargo dentro da hierarquia, ainda que seja basicamente espiritual, tão somente por poder. Confiram, logo abaixo, o que o Papa Bento XVI fala sobre o tema  “poder” e “amor”, que, conforme nos ensina, podem andar juntos no Cristianismo. Penso que, essencialmente, está refletindo sobre sua responsabilidade enquanto condutor do vastíssimo “rebanho” de almas, composto pela Igreja Católica. Esta é a homilia* de sua posse como Sumo Pontífice, que se deu em 24 de abril de 2005. Este excerto chega ser poético:

“(…)Não é o poder que redime, mas o amor. Ele mesmo é o amor. Quantas vezes nós desejamos que Deus se demonstrasse mais forte, quantas vezes nós gostaríamos que Deus agisse duramente, derrotasse o mal e criasse um mundo melhor… Todas as ideologias do poder se justificam assim: justificam a destruição dos que se opõem aos progressos e libertação da humanidade.

Nós sofremos pela paciência de Deus. Por outro lado, precisamos de Sua paciência. Deus que se tornou Cordeiro nos diz que o mundo se salva com os crucificados e não com os que crucificam. O mundo é redimido pela paciência de Deus e destruído pela impaciência dos homens. Uma das principais características do Pastor deve ser a de amar os homens a Ele confiados, do mesmo modo como Cristo ama para quem trabalha. “Apascentai as minhas ovelhas”, diz Cristo a Pedro e a mim neste momento. Cuidar, apascentar quer dizer amar. E amar quer dizer estar pronto a sofrer; amar significa dar às ovelhas o verdadeiro bem, o alimento da verdade de Deus, da Palavra de Deus, o alimento de Sua presença que Ele nos oferece no Santíssimo Sacramento.

Queridos amigos, neste momento posso pedir somente isso: “Rezem por mim! Rezem por mim para que eu aprenda a amar sempre mais o Senhor. Rezem por mim para que eu aprenda a amar cada vez mais o Seu rebanho: vocês, a Santa Igreja, cada um de vocês individualmente e vocês todos juntos! Rezem por mim para que eu não fuja diante dos lobos. Rezemos uns pelos outros para que o Senhor nos conduza e aprendamos a conduzir-nos uns aos outros.”

(Papa Bento XVI)

*Texto integral: http://www.npdbrasil.com.br/religiao/Papa_Bento_16.htm

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Logo abaixo, destaquei partes de sua homilia, no domingo de Páscoa, dia 12 de abril. O texto na íntegra foi renovado como notícia neste sábado, dia 18. Na mensagem do papa Bento XVI, fica evidenciado seu chamado para que sejamos capazes de ser portadores de esperança, mesmo em um mundo cheio de contradições, isto é, onde altas tecnologias convivem ao lado de misérias absolutas. Suas palavras são entusiasmadas e animadoras, mesmo em sua idade avançada:

“Ninguém deserte nesta pacífica batalha iniciada com a Páscoa de Cristo,

o Qual repito-o procura homens e mulheres que O ajudem a consolidar a sua vitória com as suas próprias armas, ou seja,

as armas da justiça e da verdade, da misericórdia, do perdão e do amor.“

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FONTE: L’Osservatore Romano (18 de Abril de 2009)

Na mensagem Urbi et Orbi o Sumo Pontífice indica a necessidade de pessoas capazes de voltar a dar esperança
Homens e mulheres a favor da justiça e do amor

Amados irmãos e irmãs
de Roma e do mundo inteiro!
A todos vós formulo cordiais votos de Páscoa com as palavras de Santo Agostinho: “Resurrectio Domini, spes nostra a ressurreição do Senhor é a nossa esperança” (Sermão 261, 1). (…)

No contexto do Ano Paulino, várias vezes tivemos ocasião de meditar sobre a experiência do grande Apóstolo. Saulo de Tarso, o renhido perseguidor dos cristãos, a caminho de Damasco encontrou Cristo ressuscitado e foi por Ele “conquistado”. O resto já sabemos. Aconteceu em Paulo aquilo que ele há-de escrever mais tarde aos cristãos de Corinto: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. O que era antigo passou: tudo foi renovado!” (2 Cor 5, 17). Olhemos para este grande evangelizador que, com o audaz entusiasmo da sua acção apostólica, levou o Evangelho a muitos povos do mundo de então. A sua doutrina e o seu exemplo estimulam-nos a procurar o Senhor Jesus; encorajam-nos a confiar n’Ele, porque o sentido do nada, que tende a intoxicar a humanidade, já foi vencido pela luz e a esperança que dimanam da ressurreição. Já são verdadeiras e reais as palavras do Salmo: “Nem as trevas, para Vós, têm obscuridade / e a noite brilha como o dia” (139/138, 12). Já não é o nada que envolve tudo, mas a presença amorosa de Deus. Até o próprio reino da morte foi libertado, porque também aos “infernos” chegou o Verbo da vida, impelido pelo sopro do Espírito (Sl 139/138, 8).

Se é verdade que a morte já não tem poder sobre o homem e sobre o mundo, todavia restam ainda muitos, demasiados sinais do seu antigo domínio. Se, por meio da Páscoa, Cristo já extirpou a raiz do mal, todavia precisa de homens e mulheres que, em todo o tempo e lugar, O ajudem a consolidar a sua vitória com as mesmas armas d’Ele: as armas da justiça e da verdade, da misericórdia, do perdão e do amor. Tal foi a mensagem que, por ocasião da recente viagem apostólica aos Camarões e Angola, quis levar a todo o Continente Africano, que me acolheu com grande entusiasmo e disponibilidade de escuta. De facto, a África sofre desmedidamente com os cruéis e infindáveis conflitos frequentemente esquecidos que dilaceram e ensanguentam várias das suas Nações e com o número crescente dos seus filhos e filhas que acabam vítimas da fome, da pobreza, da doença. A mesma mensagem repetirei com vigor na Terra Santa, onde terei a alegria de me deslocar daqui a algumas semanas. A reconciliação difícil mas indispensável, que é premissa para um futuro de segurança comum e de pacífica convivência, não poderá tornar-se realidade senão graças aos esforços incessantes, perseverantes e sinceros em prol da composição do conflito israelo-palestiniano. Da Terra Santa, o olhar estende-se depois para os países limítrofes, o Médio Oriente, o mundo inteiro. Num tempo de global escassez de alimento, de desordem financeira, de antigas e novas pobrezas, de preocupantes alterações climáticas, de violências e miséria que constringem muitos a deixar a própria terra à procura duma sobrevivência menos incerta, de terrorismo sempre ameaçador, de temores crescentes perante a incerteza do amanhã, é urgente descobrir perspectivas capazes de devolverem a esperança. Ninguém deserte nesta pacífica batalha iniciada com a Páscoa de Cristo, o Qual repito-o procura homens e mulheres que O ajudem a consolidar a sua vitória com as suas próprias armas, ou seja, as armas da justiça e da verdade, da misericórdia, do perdão e do amor.

Resurrectio Domini, spes nostra – a Ressurreição de Cristo é a nossa esperança! É isto que a Igreja proclama hoje com alegria: anuncia a esperança, que Deus tornou inabalável e invencível ao ressuscitar Jesus Cristo dos mortos; comunica a esperança, que ela traz no coração e quer partilhar com todos, em todo o lugar, especialmente onde os cristãos sofrem perseguição por causa da sua fé e do seu compromisso em favor da justiça e da paz; invoca a esperança capaz de suscitar a coragem do bem, mesmo e sobretudo quando custa. Hoje a Igreja canta “o dia que o Senhor fez” e convida à alegria. Hoje a Igreja suplica, invoca Maria, Estrela da Esperança, para que guie a humanidade para o porto seguro da salvação que é o coração de Cristo, a Vítima pascal, o Cordeiro que “redimiu o mundo”, o Inocente que “nos reconciliou a nós, pecadores, com o Pai”. A Ele, Rei vitorioso, a Ele crucificado e ressuscitado, gritamos com alegria o nosso Aleluia! (Papa Bento XVI)

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Obs.: Os grifos em negrito e itálico são meus.

Créditos das imagens:

Papa Bento XVI – http://www.npdbrasil.com.br/religiao/Papa_Bento_16.htm .

Jesus Cristo e São Pedro: http://www.stpeterlinton.com/

Encontro do 90º Capítulo Geral dos Carmelitas Descalços é aberto em Fátima – Portugal.

FONTE: http://pastoralvocacionalcarmelitana.blogspot.com/2009/04/inaugurado-em-fatima-o-90-capitulo.html

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Inaugurado em Fátima o 90º Capítulo Geral dos Carmelitas Descalços

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O relatório do Prepósito Geral sobre o estado da Ordem foi o centro dos trabalhos da primeira sessão capitular

“Com esta alegria da Páscoa, começamos o Capítulo General, com alegria e otimismo para nos e aquele mundo e aquela Igreja que queremos servir” Com estas palavras, o Prepósito Geral P. Luis Aróstegui Gamboa, inaugurou, na manhã de hoje, 17 de abril, o 90º Capítulo Geral dos Carmelitas Descalços que se celebra na casa Domus Carmeli de Fátima com a participação de 106 capitulares de todo o mundo.

Uma solene celebração da eucaristia na Igreja das Carmelitas Descalças de Fátima, presidida pelo P. General da Ordem e concelebrado pelos Definidores e todos os assistentes do Capítulo, foi o ato que se deu começo este Capítulo Geral. A comunidade de Carmelitas Descalças de Fátima participou ativamente na celebração, durante a qual interpretarão os cantos da liturgia solene da Oitava de Páscoa em Latim e Português.

Durante sua homilia, o P. General recordou, de São Juan da Cruz, que “o amor é o guia para a grande experiência mística da fé. Um amor muito ardente pode dar vida para a presencia do Senhor”.

Abertura do Capítulo

Já na aula capitular, o P. Luis dirigiu uma palavra de acolhida e boas vindas a todos os participantes neste Capítulo. “Acolhem-nos na Domus Carmeli os religiosos da província de Portugal, as irmãs carmelitas e esta cidade de Fátima que é terra da Mãe de Deus e nossa”, destacou.

Depois de destacar a singularidade de Fátima para os Carmelitas Descalços, pela presença da Ordem e por ser um lugar de contemplação, o P. General com palavras de sincero agradecimento a P. Pedro Ferreira, Superior Provincial de Portugal, a sua equipe de colaboradores e a todos os que participaram da preparação deste evento.

O Capítulo servirá para “aprofundar em nossa vocação, no carisma e do serviço”, assinalou o P. Aróstegui uma vez que desejou que estes dias sejam propícios para um trabalho sereno.

Esta celebração é uma graça para a Província de Portugal

A celebração deste Capítulo Geral em Fátima “é um dom, uma graça preciosa para a província de Portugal e para a Ordem, que se apresenta nesta Terra de Maria”, afirmou o P. Pedro Ferreira.

Em sua intervenção Ferreira recordou o Capítulo celebrado em Lisboa em 1585 que contou com a presencia de São Juan da Cruz, nele a Ordem decidiu sua expansão e abertura ao México e, posteriormente, fora da cultura espanhola. “Para mim este é um dia histórico”, afirmou.

Trouxe uma breve apresentação histórica da criação desta casa “Domus Carmeli”, o provincial português relatou os desafios que esta casa enfrentará no futuro e rendeu seu agradecimento a todos os que se associaram a este projeto que supõe um grande esforço para a província lusa.

Telegrama da Secretaria de Estado Vaticano

O Prepósito General relatou aos capitulares sobre carta enviada ao Santo Padre, Bento XVI, pelo motivo da celebração deste Capítulo Geral. Em sua missiva, o P. Luis recordava o amor profundo à Igreja e a pessoa do Pontífice que a Ordem professa, assim como a consciência de trabalhar para a Igreja de acordo com o carisma de Santa Teresa de Jesus.

A esta carta do P. Geral respondeu, por meio de um telegrama, o Cardeal Secretario de Estado Tarcisio Bertone transmitindo a cordial saudação do papa Bento XVI e o desejo de que os trabalhos capitulares sirvam para o aprofundamento no carisma Teresiano, contemplativo e apostólico em profunda união com a Igreja. Assim mesmo, o Pontífice concede sua Benção Apostólica a todos os capitulares e a estende a todos os membros d Ordem.

Relatório do P. General sobre o estado da Ordem

O resto da manhã foi ocupado pela apresentação do relatório Geral do Estado da Ordem durante o sexênio que hora termina (2003-2009). Em seu relatório, o P. Aróstegui Gamboa, repassou as linhas de fundo desenvolvidas nestes anos e que se baseou “na Comunhão e na experiência de Deus como experiência da dignidade da pessoa humana”.

Observando as estatísticas gerais, o P. Luis se deu conta das ações de animação que foram levadas ao fim nas diversas regiões da Ordem, da situação das Carmelitas Descalças e do Carmelo Secular, assim como das diversas instituições da Ordem que dependem d Definitório Geral: a Faculdade de Teologia do Teresianum de Roma, o Centro Internacional Teresiano SanJuanista de Ávila (CITeS), a Casa Geral, o Monte Carmelo e a delegação de Israel-Egito.

Telegrama do Vaticano aos Carmelitas Descalços pela ocasião do 90º Capítulo Geral em Fátima

SECRETARIA DE ESTADO

Vaticano, 15 abril 2009

REVERENDO PADRE
P. LUIS AROSTEGUI GAMBOA
PREPOSITO GERAL DA ORDEM
DOS CARMELITAS DESCALÇOS
38 – 00198 ROMA, ITALIA

Pela ocasião da celebração em Fátima do 90º Capítulo Geral da dita Ordem, o Sumo Pontífice envia uma saudação com os melhores desejos aos participantes, expondo o seu desejo de que os trabalhos de tão importante assembléia favoreçam o aprofundamento do genuíno carisma carmelitano segundo a experiência mística de santa Teresa de Ávila para uma fecunda renovação da vida contemplativa e do apostolado em profunda comunhão eclesial; e também invoca a materna interseção da Bem aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, envia de coração aos Superiores e Capitulares sua especial Benção Apostólica estendendo-la generosamente aos frades, monjas, membros da Ordem Secular e família inteira do Carmelo Teresiano.

Card. Tarcisio Bertone
Secretario de Estado de Sua Santidade

Santa Edith Stein: judia alemã, filósofa e mártir na barbárie nazista

Santa Edith Stein ou Irmã Teresa Benedita da Cruz foi canonizada, em celebração na Praça de São Pedro, no dia 11 de outubro de 1998. Logo abaixo, podemos acompanhar a trajetória desta Santa, carmelita descalça, desde a infância até seu martírio, em 1942, quando foi levada pelos nazistas para um campo de concentração. Judia alemã, recebeu o Batismo em 1º de janeiro de 1922, com a a idade de 31 anos, tendo tomado o hábito das carmelitas descalças, na data de 15 de abril de 1934.

Como todos sabemos, o regime nazista era comandado por “gângsters”, ou seja, era a própria barbárie. Uma caçada foi “empreendida” por toda a Europa, em busca dos que apresentavam ascendência judaica. Dois oficiais da Gestapo a levaram de um convento na Holanda como prisioneira, juntamente com sua irmã Rosa, recém-admitida como noviça. Partiram em  02 de agosto de 1942. O destino foi irreversível: os campos de extermínio nazistas. Despojadas de toda dignidade humana, foram assassinadas naquele mesmo ano, juntamente com outras mulheres judias. Morte de câmara gás, no campo de Auschwitz… O valor espiritual de seus escritos a tornaram doutora da Igreja Católica universal.

A conversão de Santa Edith Stein ao Cristianismo praticamente a isolou da família. Tendo rapidamente superado o corte, e já adaptada e reconhecida como religiosa católica de alto preparo intelectual, inclusive por outras ordens, veio a conhecer o holocausto… Por exemplo, em 1933, há o relato de que, mesmo com a chegada do Partido Nacional Socialista, de Hitler ao poder, ela enfrentou com heroísmo sua condição de judia, nascida na Alemanha: “(…)apesar da insistência de um Instituto de Educação Católico, no sentido em que Edith Stein aceitasse uma vaga de docência na América do Sul, ela a recusou”. Do mesmo modo, poderemos compreender melhor sua conversão ao catolicismo, não aceita por sua mãe, e que se deu já em idade adulta, além de sua atuação como professora.

Vale a pena ler mais sobre a vida de Santa Edith Stein no seguinte site:http://www.lepanto.com.br/dados/HagEdith.html.  Assim, além das informações contidas no site do Vaticano, que publiquei mais abaixo, confiram no endereço acima, outros componentes históricos de sua vida. Há mais detalhes sobre sua condição de religiosa carmelita descalça, e antes deste período, como filósofa de renome, que, convertida ao catolicismo, se destacou como professora em instituto católico para moças. Reconhecida na Europa como Dra. Edith Stein, consta em sua biografia que  “junto de suas jovens alunas, Edith elaborou métodos de educação inovadores, que além de atrair e interessar as moças pelo estudo e conhecimento , contribuíam para sua formação moral e espiritual, na qualidade de pessoas e de mulheres católicas”. (LBN)

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FONTE: http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_19981011_edith_stein_po.html

santa-edith-stein_martirIrmã Teresa Benedita da Cruz – Edith Stein

(1891-1942)

Nascida em Vrastilávia a 12 de Outubro de 1891, os seus genitores eram de nacionalidade alemã e de religião hebraica. Foi educada na fé dos pais, mas no decurso dos anos tornou-se praticamente ateia, conservando muito elevados os valores éticos, mantendo uma conduta moralmente irrepreensível. De maneira brilhante obteve o doutoramento em filosofia e tornou-se assistente universitária do seu mestre, Edmund Husserl. Incansável e perspicaz investigadora da verdade, através do estudo e da frequência dos fermentos cristãos e, por fim, através da leitura da autobiografia de Santa Teresa de Ávila, encontrou Jesus Cristo que resplandecia no mistério da cruz e, com jubilosa resolução, aderiu ao Evangelho.

Em 1922, recebeu o baptismo na Igreja católica com o nome de Teresa: a sua vida mudou de modo radical. Os anos sucessivos foram despendidos no aprofundamento da doutrina cristã, no ensinamento, apostolado e publicação de estudos científicos, e numa intensa vida interior nutrida pela palavra de Deus e a oração.

Em 1933, coroou o desejo de se consagrar a Deus e entrou na Congregação das Carmelitas Descalças, tomando o nome de Teresa Benedita da Cruz, exprimindo assim, também com este nome, o ardente amor a Jesus crucificado e especial devoção a Santa Teresa de Ávila. Emitiu regularmente o voto de pobreza, obediência e castidade e, para realizar a sua consagração, caminhou com Deus na via da santidade.

Quando na Alemanha o nacional-socialismo exacerbou a louca perseguição contra os judeus, os superiores da Beata enviaram-na, por precaução, para o carmelo de Echt, na Holanda. Impelida pela compaixão para com os seus irmãos judeus, não hesitou em oferecer-se a Deus como vítima, para suplicar a paz e a salvação para o seu povo, para a Igreja e para o mundo. A ocupação nazista da Holanda comportou o início do extermínio também para os judeus daquela nação. Os Bispos holandeses protestaram energicamente com uma Carta pastoral, e as autoridades, por vingança, incluíram no programa de extermínio também os judeus de fé católica.

A 2 de Agosto de 1942, a Beata foi aprisionada e internada no campo de concentração de Auschwitz, e juntamente com a irmã foi morta na câmara de gaz no dia 9 de Agosto de 1942. Assim morreu como filha do seu povo martirizado e como filha da Igreja Católica. «Judia, filósofa, religiosa, mártir como foi afirmado por João Paulo II no dia da Beatificação, a 1 de Maio de 1987, em Colónia a Beata Edith Stein representa a síntese dramática das feridas do nosso século. E, ao mesmo tempo, proclama a esperança de que é a cruz de Jesus Salvador que ilumina a história».

Imagem: http://santiebeati.it/immagini/?mode=album&album=65800&dispsize=Original

“Oração: a arte de amar…”, in Teresa e Teresinha (Maria Clara Lucchetti Bingemer)

FONTE: wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape/vida_academica/artigos/amai/Teresa


Teresa e Teresinha

Por: Maria Clara Lucchetti Bingemer*

O mês de outubro festeja, entre muitas outras coisas importantes, duas grandes mulheres, com o mesmo nome de Batismo e o mesmo amor louco que deu sentido as suas vidas: Teresa de Ávila e Teresinha de Lisieux.

Teresa de Ahumada nasceu em Toledo ,às margens do rio Tajo, na Espanha.  Mas a situação judeu-conversa de sua família fez com que se transferisse para Ávila.  Desde muito cedo Teresa tem uma experiência de Deus pouco comum, sendo ao mesmo tempo mulher plenamente humana, que gostava das relações, da conversação, das pessoas.  Pouco a pouco Deus vai tomando posse do coração e da pessoa de Teresa com um amor arrebatador.  As graças místicas com que é dotada esta espanhola do século XVI não têm comparação dentro da história mística do Cristianismo.

Nos escritos da grande mestra espiritual do Cristianismo,  encontramos uma seiva sempre viva que não cessa de correr, perpassar e dinamizar as entranhas e todas as dimensões  da vida  desta mulher acostumada a viver  dentro das muralhas de  Ávila mas que sempre sonhou uma liberdade maior, desejando  voar longe,  em novos espaços e em novos céus. O percurso espiritual de Teresa é essencialmente um percurso amoroso, no qual Deus, o Amado, se faz seu particular pedagogo, conduzindo-a com mão firme e apaixonada através de diversas etapas místicas nas quais a santa vai conhecendo-O melhor e mais profundamente. É esse o percurso que Teresa descreve na sua obra do “Castelo Interior”, onde utiliza o símbolo do castelo interior para descrever os períodos e estados – as “moradas”-  pelas quais passa a pessoa habitada pelo Espírito Santo em direção ao amor pleno de Deus e à união transformante. Desde um primeiro momento, o   amor se faz  urgência em sua vida.

Na medida em que anda pelas moradas do Amado, Teresa descobre a pessoa de Jesus cuja “sacratíssima humanidade” a encanta. Sua cristologia, inseparável de sua mística, é altamente realista, envolvendo sua corporeidade dinamizada pelo espírito do mesmo Jesus, que a ama com amor apaixonado e a vai conduzir até o matrimonio místico. O  compromisso de Teresa se faz determinante na medida em que  avança na comunhão com o Cristo onde  vê não  só o Salvador, mas também Aquele que a faz feliz como mulher, a quem pode dar-se totalmente como esposa. É com S. Teresa que a mística esponsal se consolida no Ocidente cristão e o ideal do matrimônio espiritual, já lançado pelos Padres da Igreja, nela se confirma, não como teoria e doutrina mas como experiência pessoal  e vida.

Teresa  não  nasceu rezando mas aprendeu a rezar e fez da oração  a “arte de amar”. Vai repetindo para si mesma e para os outros que a oração “não consiste em muito pensar mas sim em muito amar”. Esta novidade por ela trazida para a prática e a orientação da vida espiritual influenciará toda a mística cristã daí em diante.  Nela, inteligência e afetos se unem profundamente e, aonde não  chegam  intuição e inteligência, sempre chega o amor. É  clássica a definição de Teresa sobre a oração: “Para mim a oração é um trato de amizade com Aquele que sabemos que nos ama”. Teresa vê na oração não um intimismo,  nem tampouco uma fuga do compromisso com o mundo, mas sim uma porta que se abre para entrar no “castelo interior  da nossa alma onde está o Rei, sua Majestade”. Quanto mais rezamos mais avançamos nas moradas que nos levam à íntima  comunhão e ao matrimônio espiritual e sentimos a necessidade de dedicar-nos a fazer algo: “obras quer o Senhor”.

A oração teresiana trasborda nas ânsias apostólicas, na missionalidade e na comunhão com os outros. “Devemos deixar de rezar se é para estarmos com alguém que necessita de nossa ajuda”.  A teologia oracional de Teresa é, portanto, comprometedora e libertadora; não  fechada em si mesma, num “narcisismo” ou na busca de visões e autocomplacências estéreis. Em Teresa o amor se faz gesto e caminho de plena liberdade interior. Será  seu mestre o próprio Cristo,  que a guia por caminhos novos.

Pioneira em tantas frentes, – vida espiritual, orientação espiritual, fundação e refundação do Carmelo, relações intra-eclesiais, etc. –  é ainda em Teresa que a característica inter-religiosa da mística – aspecto só mais recentemente estudado e aprofundado – vem aparecendo com clareza  iluminadora para os estudiosos das religiões comparadas.  Esta tem início em sua própria pessoa e nas origens que são as suas.  Tendo sido sempre considerada como típica representante das famílias fidalgas abulenses, provocou um enorme reboliço entre aqueles que estudavam sua obra e escritos a informação, vinda a público em 1946, por um artigo publicado no Boletín de la Real Academia Española, o qual instaurava uma ruptura com toda a tradição biográfica que até então se tinha sobre a santa.  No mencionado trabalho, se declarava claramente que seu avô, Juan Sánchez de Toledo, era era um mercador da cidade do Tajo e judeu de raça, reconciliado pela Inquisição em 1485.

Esta vem a ser inclusive a razão pela qual a família de Teresa deixa a cidade de Toledo e as margens do Tajo e vai se estabelecer em Ávila. Ainda que reconciliado pela Inquisição, Juan Sánchez , avô de Teresa, sabia que Toledo, sede do Tribunal da Inquisição desde 1485, não era o lugar ideal para uma família de cristãos novos, judaizantes, ainda que reconciliados.  É então que a família se transfere para Ávila no ano de 1493.

A obra teresiana das Moradas ou do  Castillo Interior, onde a grande mística utiliza o simbolismo do castelo interior para  descrever a vida espiritual é considerada cume da mística cristã, por sua perfeição e beleza, assim como por sua profundidade.

Teresinha nasceu na França no século XIX.  Sua família era muito católica e as filhas, todas mulheres, tinham grande afeto pelo pai, homem reto, muito religioso.  Perdendo cedo a mãe, a afeição das filhas pelo pai se intensifica ainda mais, fazendo deste o centro de suas vidas.

A fé e a piedade do Dr. Martin vai contagiar as filhas que vão entrando todas, uma a uma, na vida religiosa contemplativa, no Carmelo.  Teresinha é a última, entrando aos 15 anos, necessitando para isto uma licença especial do Papa.

No Carmelo, procurando sempre o caminho da humildade e da renúncia, Teresinha não se destaca muito, inclusive porque uma tuberculose lhe arrebata a vida aos 24 anos.   A superiora se perguntava, por ocasião de sua morte: “ O que haverá para escrever sobre esta freirinha tão insignificante e inexpressiva?”

Quando vieram à luz, os escritos de Teresinha surpreenderam o mundo, cheios de uma paixão e um ardor e ao mesmo tempo testemunhando todas as dúvidas, trevas espirituais e noites escuras em que se debatera durante os anos de clausura.

O diário de Teresinha revelava sua vocação missionária.  Queria ser tudo para melhor servir a seu amado, mas sua escolha pela vida de carmelita é justamente  o caminho que encontra para dar tudo a Deus.

Eis como Terezinha se expressa com suas próprias palavras:

Sinto em mim outras vocações. Sinto em mim a vocação de guerreiro, de Sacerdote, de Apóstolo, de Doutor, de Mártir. Enfim, sinto a necessidade, o desejo de realizar por ti, Jesus, todas as obras, as mais heróicas…” “Ah! Apesar de minha pequenez, quisera esclarecer as almas como os Profetas, os Doutores; tenho vocação de ser Apóstolo…Quisera percorrer a terra, pregar teu nome e implantar no solo infiel tua Cruz gloriosa. Mas, oh, meu Amado, uma só missão não me bastaria. Quisera anunciar ao mesmo tempo o Evangelho nas cinco partes do mundo e até nas ilhas mais distantes… Quisera ser missionária, não somente durante alguns anos, mas gostaria de tê-lo sido desde a criação do mundo e sê-lo até à consumação dos séculos…”  Mas Teresinha vê sua fragilidade e diz: “Jesus, Jesus, se quisesse escrever todos os meus desejos, seria preciso que tomasse o teu “ livro da vida” onde são relatadas as ações de todos os Santos, e essas ações quisera tê-las realizado por ti…” “Na hora da oração estes meus desejos fazendo-me sofrer um verdadeiro martírio, abri as epístolas de São Paulo, a fim de procurar uma resposta. Os capítulos 12 e 13 de I Coríntios caíram sob os meus olhos…e esta frase me consolou: “Procurai com ardor os dons mais perfeitos, mas vou mostrar-vos , ainda, uma via mais excelente”. E o Apóstolo explica como os dons mais perfeitos nada são sem o amor … E que a Caridade é a via excelente que conduz seguramente a Deus. Encontrei, enfim, o repouso… Considerando o corpo místico da Igreja, não me reconheci em nenhum dos membros descritos por São Paulo, ou antes, queria reconhecer-me em todos… A Caridade deu-me a chave de minha vocação. Compreendi que se a Igreja tinha um corpo, composto de diferentes membros, não lhe faltava o mais necessário, o mais nobre de todos. Compreendi que a Igreja tinha um Coração, e que este Coração era ardente de amor. Compreendi que só o Amor fazia agir os membros da Igreja e que se o Amor viesse a se extinguir, os Apóstolos não anunciariam mais o evangelho, os Mártires recusariam derramar seu sangue… Compreendi que o Amor encerra todas as vocações, que o Amor é tudo, que abraça todos os tempos e todos os lugares… Numa palavra, que ele é eterno!..

Então, no auge de minha alegria delirante, exclamei : Oh, Jesus, meu Amor… Encontrei, enfim, minha vocação; minha vocação é o Amor!…

Sim, encontrei meu lugar na Igreja, e este lugar, oh meu Deus, foste vós que mo destes… No Coração da Igreja, minha  Mãe, serei o amor… Assim serei tudo… Assim será realizado o meu sonho!!! “

Com estas ardentes palavras, a carmelitinha que nunca saiu de seu Carmelo, foi proclamada padroeira das missões.  Desde sua clausura foi o amor que embebe e dá vida a toda a Igreja.

Teresa e Teresinha foram ambas proclamadas doutoras da Igreja.  A primeira há mais tempo.  A segunda, porém, bem recentemente, em 1997.  Duas Teresas, as duas de Jesus.  Duas mulheres que amaram radicalmente seu Deus e a Ele entregaram inteiramente suas vidas.  Duas santas que são inspiração para homens e mulheres de todos os tempos.

*Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, coordenadora do setor intelectual da RAI-RJ, Outros artigos podem ser encontrados em http://raisp.org/artmcb.

Domingo de Páscoa: “Eis o dia que o Senhor fez. Exultemos nele, Aleluia” – Ordem Carmelita Descalça (OCD)

FONTE: Ordem Carmelita dos Descalços (OCD) – Frades Carmelitas Descalços

Domingo, 12 de Abril de 2009

DOMINGO DE PÁSCOA

“Eis o dia que o Senhor fez. Exultemos nele, Aleluia”. É o dia mais alegre do ano porque “o Senhor da vida estava morto; agora vive e triunfa”. Se não tivesse Jesus ressuscitado, vã teria sido sua Encarnação, e sua morte não teria dado vida aos homens. “Se não ressuscitou, é vã a nossa fé”, exclama São Paulo. Quem, de fato, pode crer e esperar em um morto? Mas Cristo não é um morto, é um vivo. “Procurais Jesus Nazareno, o crucificado – disse o Anjo às mulheres. Ressuscitou, não está aqui”. O anúncio, a princípio, gerou temor e espanto, tanto que as mulheres fugiram… E nada a ninguém disseram, porque estavam com medo. Mas com elas, talvez precedendo-as de pouco, estava Maria Madalena que apenas vê “a pedra removida do sepulcro” e corre logo a dar notícias a Pedro e João:”Tiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram”. Vão os dois a correr e, entrando no túmulo, vêem “os panos no chão e o sudário… dobrado, à parte”; vêem e crêem. É o primeiro ato de fé, em Cristo Ressuscitado, da Igreja nascente, provocado pela solicitude de Madalena e pelo sinal dos panos encontrados no sepulcro vazio. Se se tratasse de roubo, quem se teria preocupado de despir o cadáver e dobrar os linhos com tanto cuidado? Serve-se Deus de coisas simples para iluminar os discípulos que “não haviam ainda compreendido as Escrituras, segundo as quais devia Cristo ressuscitar dos mortos”; nem o que predissera Jesus da própria Ressurreição. Pedro, chefe da Igreja, e João “o discípulo que Jesus amava”, tiveram o mérito de receber os “sinais” do Ressuscitado: a notícia levada por Madalena, o sepulcro vazio, os linhos dobrados. Embora de outra forma, estão agora os “sinais” da Ressurreição presentes no mundo: a fé heróica, a vida evangélica de tanta gente humilde e escondida; a vitalidade da Igreja, que as perseguições externas e lutas internas não conseguem enfraquecer; a Eucaristia, presença viva de Cristo Ressuscitado, que contínua a atrair a si os homens. Cabe a cada um acolher estes sinais, crer como creram os Apóstolos e tornar sempre mais firme a própria fé.

Jesus Cristo vive!

Eu nunca gostei do clichê: “Uma imagem vale mais que mil palavras”. Não mudei de opinião porque, para mim, esta idéia simplifica demais as coisas, banaliza-as. Aliás, combina, em excesso, com a incensada “civilização da imagem”. A propósito, para aumentar a confusão nas almas humanas, temos atualmente, virtualmente, até “oferta” de uma segunda vida…Mas, aos devidamente avisados, tais vidas virtuais são propostas vãs no fluir de uma vida verdadeira, integral. Por outro lado, temos que reconhecer que o bom uso da tecnologia acrescenta qualidade às nossas vidas. Assim, imagens em  sequência , transmitem uma ou várias ideias, desde que concatenadas. Imagens paradoxais, mostradas em conjunto também “falam”, dialogam com quem as vê.

Apresento a vocês uma composição visual que, aliás, produzi “entre tentativa e erro” ao manipular algumas imagens e fazê-las representar uma cruz. Posso dizer que, pelo resultado final, senti muita satisfação interior. Parece ser óbvio o motivo: fala em essência da Cristandade.  Em seu conjunto, concluímos que estamos diante da obra maravilhosa de Jesus, após sua vinda em carne a este mundo, através do “sim” corajoso e total de nossa Mãe Santíssima – a Virgem Maria.

Assim, ao estarmos diante de qualquer Cruz, somos levados também a pensar que Jesus Cristo foi Crucificado por nossas faltas, e, é o primeiro Ressuscitado para toda a Eternidade, para nossa redenção. Ele é a nossa esperança! Em Seu divino, puro e profundo amor por cada um de nós, criaturas de Deus (preocupado com Sua partida), tranquilizou-nos, homens e mulheres de todos os tempos:  “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida“… (LBN)

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Crédito/imagens (autorização indireta, no site):

http://www.turnbacktogod.com/jesus

Reflexões sobre a Paixão de Jesus Cristo – Ordem Carmelita Descalça (OCD) – Brasil

Pintura: Salvador Dali (1951). Inspirado em desenho de São João da Cruz.
Pintura: Salvador Dali (1951). Inspirado em desenho de São João da Cruz.

FONTE: Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD) – Frades Carmelitas Descalços – Província São José (Sudeste-Brasil)

http://pastoralvocacionalcarmelitana.blogspot.com/2009/04/traspassado-pelos-nossos-pecados-sexta.html

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

TRASPASSADO PELOS NOSSOS PECADOS

Cruz (OCD)A Liturgia da sexta-feira santa é comovente contemplação do mistério da Cruz, que visa não só comemorar, mas levar todo fiel a reviver a dolorosa Paixão do Senhor. Apresentam-na dois grandes textos: o profético, atribuído a Isaías (Is 52, 13; 53, 12) e o histórico de João (18, 1-9, 42). A enorme distância de mais de sete séculos que os separa é anulada pela impressionante coincidência dos fatos referidos pelo profeta como descrição dos sofrimentos do Servo de Javé, e pelo Evangelista como narração última do dia terreno de Jesus, “Muitos se espantaram com ele – diz Isaías – tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana… desprezado e rejeitado pelos homens, homem das dores e experimentado nos sofrimentos” (52, 14; 53, 3). João com os outros Evangelistas, fala de Jesus traído, insultado, esbofeteado, coroado de espinhos, escarnecido, apresentado ao povo como rei de comédia, condenado, crucificado.

A causa de tanto sofrimento é indicado pelo profeta: “Foi castigado por nossos crimes, esmagado por nossas iniquidades”; é mostrado também o valor expiatório: “O castigo que nos salva caiu sobre ele; por suas chagas nos fomos curados” (Is 53, 5). Nem falta alusão ao angustioso sentimento de repulsa por parte de Deus – “e o julgávamos castigado, ferido por Deus e humilhado” (Ibidem, 4)- sentimento que exprimiu Jesus na Cruz com o grito: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 46). Mas, acima de tudo ressalta a clareza a espontaneidade do sacrifício: livremente “se oferece (o Servo de Javé) em expiação” (Is 53,7. 10); livremente se entrega o Cristo aos soldados, depois de tê-los feito cair por terra com uma só palavra (Jo 18, 6), e livremente se deixa conduzir à morte, ele que havia dito: “Ninguém tira a minha vida, mas eu a dou por mim mesmo” (Jo 10, 18). Até o glorioso desfecho desse voluntário padecimento fora entrevisto pelo profeta: “Após as aflições de seu coração, alegrar-se-á… Eis por que – diz o Senhor – dar-lhe- ei em prêmios multidões… porque se ofereceu a morte” (Is 53, 11. 120. E aludindo Jesus à Paixão, disse: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12, 32). Tudo isto demonstra estar a Cruz de Cristo no centro da história da salvação, já entrevista no Antigo Testamento, através dos sofrimentos do Servo de Javé, figura do Messias que iria salvar a humanidade não com o triunfo terreno, mas com o sacrifício de si. Eis o caminho que cada fiel deve percorrer para ser salvo e salvador.
Entre as leituras de Isaías e de João, insere a liturgia um trecho da carta aos hebreus (4, 14-16; 5, 7-9). Jesus, Filho de Deus, é apresentado na sua qualidade de único e sumo Sacerdote, todavia não tão distante dos homens que “não saiba compadecer-se de nossas enfermidades, uma vez que, à nossa semelhança, experimentou-as todas, com exceção do pecado”. É a provação de sua vida terrena e sobretudo de sua Paixão, pela qual experimentou em sua carne inocente todas as asperezas, sofrimentos, angústias e fraquezas da natureza humana.

Assim é, ao mesmo tempo, Sacerdote e Vítima que oferece em expiação dos pecados dos homens não sangue de touros ou de cordeiros, mas o próprio Sangue. “Nos dias de sua vida mortal, ofereceu orações e súplicas, com fortes gemidos e lágrimas a quem o podia libertar da morte.” É um eco da agonia do Getsêmani: “Abba, Pai! Tudo te é possível, afasta de mim este cálice! Porém, não o que eu quero, mas o que queres tu” (Mc 14, 36). Na obediência a vontade do Pai, entrega-se à morte, e depois de haver experimentado suas amarguras, e libertado pela ressurreição, tornando-se “causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5, 9). Obedecer a Cristo, Sacerdote e Vítima, significa aceitar com ele a Cruz, abandonar-se com ele à vontade do Pai: “Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23, 46; cf. salmo resp.).

Mas é a morte de Cristo imediatamente seguida pela glorificação. Exclama o centurião de guarda: “Verdadeiramente este homem era justo!”, e todos os presentes, “vendo o que se passava, voltaram, batendo no peito” (Lc 23, 47-48).

Segue a Igreja o mesmo itinerário: depois de ter chorado a morte do Salvador, explode em hinos de louvor e se prostra em adoração: “Adoramos vossa Cruz, Senhor, louvamos e glorificamos vossa santa ressurreição, pois só pela Cruz entrou a alegria em todo o mundo”. Com os mesmos sentimentos convida a Liturgia os fiéis a se alimentarem da Eucaristia que, jamais tanto como hoje, resplandece na sua realidade de memorial da morte do Senhor. Ressoam no coração as palavras de Jesus: “Isto é o meu corpo que é dado por vós; fazei isto em memória de mim” (Lc 22, 19) e as de Paulo: “Todas as vezes que comeis deste pão e bebeis deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1Cor 11, 26).

JESUS VEIO PARA CURAR O CORPO E A ALMA DAQUELES QUE O PROCURAM…

"Judgement of Christ"
"Judgement of Christ"

O texto abaixo é de meu “amigo virtual”, em Cristo, o confrade Aluizio da Mata, da Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP). Inscrevi-me há cinco anos em sua lista – “texto-meditação”: http://br.groups.yahoo.com/group/textoparameditacao/. Na época, suas reflexões e as de seus amigos e amigas colaboradoras católicos foram valiosas para mim. Nunca houve falha no envio. Ultimamente tenho tido dificuldades para ler as mensagens, que como ele mesmo diz são enviadas “aleatoriamente”. Vê a “mão do Espírito Santo” na escolha. Pouco racional, é verdade… Pergunto: a Ressurreição de Cristo é um acontecimento racional, lógico? Mesmo não sendo uma secular da Ordem Vicentina, valorizo-as, e guardo-as no” coração”. Afinal, por breves que sejam, são escritas por ele com disciplina e amor, e as adicionais acrescentam, consolam-nos em toda esta correria… Correria por correria, vou atrás do prejuízo, lendo-as com o carinho e cuidado que merecem.

Aluizio da Mata, vicentino secular, mineiro, é casado com uma vicentina secular. Eles têm um casal de filhos e dois netos. Ela, que é chamada de consócia na SSVP, escreve para o “Jornal do Vicentino” sobre a vida dos santos e santas da Igreja Católica. O jornal é rodado em Sete Lagoas-MG. Até há algum tempo recebia o jornal da SSVP – a assinatura tem valor quase simbólico – e pelas informações, já que não faço parte como secular, sei o quanto se empenham em cumprir o “singelo”, mas comprometedor, mandamento de Jesus: “amar o próximo”. Ou seja: piedade, caridade…

Esta Ordem Terceira remonta ao final do século XVII, na França. A Ordem dos consagrados foi fundada por São Vicente de Paulo, que nasceu em 1581, portanto um ano antes do falecimento de Santa Teresa de Ávila. Foi amigo pessoal de São Francisco de Sales. É “protetor” de meu ofício: os jornalistas o escolherem como santo patrono, por distribuir “panfletos” na tentativa de reconversão de duas cidades dominadas pelas idéias de Calvino. Em três anos, trouxe de volta para aIgreja Católica, após 90 anos, cerca de 33 mil protestantes calvinistas.As duas cidades eram Tonon e Chablais. Ele saudava Jesus assim: “Viva, Jesus!”.

JESUS VEIO PARA CURAR O CORPO E A ALMA DOS QUE SOFREM E EM ESPÍRITO DE HUMILDADE O PROCURAM…

Por falar em Jesus, podemos dizer que veio para tirá-los da indigência – curou leprosos; curou doenças da alma que adoeciam os corpos, e vice-versa; alimentou famintos – e de todo o tipo… A propósito, penso que na doença do corpo, quando não vem a cura para o orante-pedinte, estamos diante do mesmo “Mistério” que envolve a cura milagrosa, comprovada por especialistas consagrados e leigos da Igreja. Nossa mente racionalista “pensa” que Deus, que é Onisciente, Onipotente e Onipresente – “raciocina” como nós, pobres mortais… Aluizio escreve logo abaixo algo em torno disto. Escreve inspirado em Jesus Cristo e no propósito de São Vicente de Paulo, que via na situação dos famintos, nos pobres um grande problema: a pobreza é uma tentação para a alma… De espírito resoluto, foi um sacerdote determinado a combater a pobreza de seu tempo. Via escândalo na fome, que havia chegado às raias do inimaginável na França, pré-moderna, levando às indústrias nascentes levas de camponeses. Mendigavam crianças e adultos, e no desatino da fome, muitos, no delírio da loucura, segundo São Vicente de Paulo, alimentavam-se da carne das crianças que sucumbiam nos guetos… Desculpem-me, mas quando soube disso fiquei chocada também… A fome decorrente da injustiça estrutural, do egoísmo é como um vento maligno que assola ao longo da história humana,  cidades, países, continentes. Prestemos mais atenção no conceito de globalização, que já é uma realidade. A pobreza está ampliando suas fronteiras novamente. Li há pouco que 24% das crianças italianas são chamadas de “novos pobres”, no sul da Itália. Em Roma e Veneza, o arcebispo Marcelo Ricca não aceita a aplicação de multas de 50 a 100 euros aos que mendigam nas cidades de Roma e Veneza. Para o setor público isto causa “transtorno” aos turistas… Ele acredita que há o perigo de não querer “ver” a mendicância como resultado da desestruturação dos tecidos sociais. Percebe o perigo da indiferença e lembra o direito de qualquer pessoa pedir ajuda em situação de fome, frio. O arcebispo não quer falar, mas esta deterioração é provocada por “reengenharias” político-econômicas impostas pela, ao que parece, irreversível globalização.

Crédito da imagem: Wikicommons

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A CRUZ DE CADA UM: SOFRER PELOS OUTROS

Texto: Aluizio da Mata

Algumas igrejas criticam a Igreja Católica por pregar aos seus fiéis seguirem o exemplo de Jesus de sofrer com alegria por si próprios e pelos irmãos necessitados. Pregam uma vida isenta de sofrimento, cheia de alegria e felicidade. Falam que Jesus não é um ser morto, referindo-se aos crucifixos tão caros ao Católicos. A figura do Cristo crucificado é apenas a lembrança do que Ele sofreu por nós. A Sua vida não foi só de alegria, de bons momentos, de felicidade. Ele teve momentos de angústia, de decepções, sofreu traições, como qualquer um de nós tem durante nossa vida. A sua vida não foi só de alegrias. Por fim, se Ele teve que morrer em uma cruz, um motivo havia. Tudo isto não aconteceu apenas para fazer dele uma figura de “coitadinho”. Cada um de nós acha que a cruz que carregamos é pesada demais, mas não nos lembramos de compará-la à cruz espiritual de Jesus Maria e a cruz física do Filho de Deus. Deus não é incoerente. Como poderia Ele desejar que assim fosse e mandasse seu Filho para sofrer o que sofreu? Jesus não precisaria passar pelos sofrimentos que passou durante sua vida e muito menos os sofridos na Semana da Paixão. Se Deus quisesse que Jesus cumprisse sua missão de anunciar o Reino e realizar a Obra da Salvação, poderia fazê-lo de outra maneira. Poderia mandar o seu Filho isento de passar por qualquer sofrimento. Faria com que apenas os seus ensinamentos pela palavra valessem para o cumprimento da Missão. Mas, se não acreditamos nem da maneira que aconteceu, como iríamos acreditar se Ele apenas falasse? Nós é que somos incoerentes. A Cruz de Cristo não foi em vão. E nem a nossa também deve ser. Fiquemos com a Santíssima Trindade e com Maria Santíssima, Aquela que depois de Jesus teve que viver a maior de todas as cruzes.

……

Fonte: http://www.geocities.com/cmgvssvp/caract.htm#espiritualidade

ESPIRITUALIDADE VICENTINA

  1. Os vicentinos procuram, pela oração, mediante a Sagrada Escritura, e fidelidade aos ensinamentos da Igreja, dar testemunho do amor de Cristo, em suas relações com os menos favorecidos, bem como nos diversos aspectos de sua vida cotidiana. Essa espiritualidade fundamenta-se nos textos bíblicos. São quatro seus principais pilares de sustentação:
  2. O serviço do pobre é o serviço do próprio Cristo: O mandamento supremo da lei é amar a Deus, sobre todas as coisas e de todo coração, e ao próximo, como a si mesmo. “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (João 13,35). Cristo fez questão de participar deste mandamento de amor ao próximo, identificando-se pelo vínculo da caridade, como os irmãos humildes. “Todas as vezes que fizestes isto a um de meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mateus 25,40). O amor ao próximo está intimamente unido ao amor de Deus, pelo exercício da caridade. A recompensa da caridade está além das satisfações terrenas, pois está regiamente recompensada no plano divino. “Vinde, benditos de meu pai; possui o reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome, e deste-me de comer; tive sede…” (Mateus 25,34-36).
  3. A fé sem obras é inútil à salvação: “Que aproveitará, meus irmãos, se alguém diz que tem fé e não tem obras? (…) A fé, se não tiver obras, é morta em si mesma” (Tiago 2,14-17). A prática do evangelho é a caridade.
  4. As obras sem caridade nada adiantarão para a nossa salvação. “Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa, ou como um címbalo que tine… E ainda que eu distribua todos os meus bens no sustento dos pobres e entregasse meu corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, nada disto me aproveitaria” (I Coríntios 13,1-3). Nada adianta a obra feita por filantropia, onde não é motivada pela caridade.
  5. Dar testemunho do amor de Cristo: “Se me amais, observais os meus mandamentos…” (João 14,15) e “Assim brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas obras e glorifiquem o vosso pai, que está nos céus” (Mateus 5,16). Os vicentinos devem preocupar-se em transformar o evangelho em obras e imprimir fé aos atos que praticam, para que deles irradie amor que tem a Cristo.

A POBREZA E O VICENTINOComo pretendemos ditar leis aos pobres ou julgá-los, se nunca experimentamos os suplícios da miséria, provações que ela impõe e o desvirtuamento moral que ela, por vezes, provoca, até mesmo nos homens mais equilibrados? Cristo jamais condenou um só indivíduo sequer, pelo contrário, perdoava e coloca-se a serviço de todos. Imitemos, pois, o exemplo do Mestre.

A Paixão de Jesus Cristo na visão do Carmelo Descalço Secular (OCDS)

Fonte: ORDEM CARMELITA DOS DESCALÇOS SECULARES(OCDS)

A PAIXÃO DE JESUS CRISTO NA VISÃO DO CARMELO DESCALÇO SECULAR


JEJUM E ABSTINÊNCIA
Cor litúrgica: Vermelho
Ofício próprio
Liturgia das Horas:
359-417
Oração das Horas: 396-418

Leituras: Is 52,13-53,12 – Sl 30(31) – Hb 4,14-16;5,7-9 – Jo 18,1-19,42
Ação litúrgica solene: leitura da Paixão, segundo São João, Orações solenes,

Adoração da Cruz, Comunhão

“Inclinou a cabeça e rendeu o espírito.”
Jesus é apresentado como “o servo de Deus” que caminha para a paixão como o cordeiro ao matadouro, sem abrir a boca.

“O amor possui igualdade e semelhança.”
São João da Cruz – 1S 5,1

13ª Estacao

Extraído do Blog da OCDS  – Ordem Carmelita dos Descalços Seculares – Abril/2009

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Recebi com carinho o registro da presença da Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares (OCDS) – Província São José – Brasil, no Link de Entrada e dos  “Frades Carmelitas Descalços” – Carmelo Descalço, também da Província São José , que oferece aos interessados em ingressar ou conhecer a vida consagrada carmelita descalça –  o Blog “Pastoral Vocacional Carmelitana”.

A Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares é formada por leigos e leigas carmelitas. Em seu conjunto, contam com a orientação espiritual de um religioso integrante da Ordem dos Carmelitas Descalços. É importante lembrar que Santa Teresa de Ávila estabeleceu em estatutos o funcionamento, já em seu tempo, de Ordens Terceiras carmelitanas. Assim, eles têm muita história para contar. Confiram o rico conteúdo no “Blog da OCDS – Provícia São José” http://ocdsprovinciasaojose.blogspot.com/, repleto da história da Ordem Carmelita dos Descalços – Consagrada e Secular no mundo, além de vivências e orientações, principalmente sobre a Paixão e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Destaco também o blog dos Frades Carmelitas Descalços http://pastoralvocacionalcarmelitana.blogspot.com/2009/04/ceia-do-senhor-quinta-feira-santa.html , cujo site da “Ordem Carmelita DescalçaProvíncia São José” pode ser encontrado no endereço – http://www.carmelo.com.br/. Ambos contém conteúdos inspiradores nesta Paixão e Páscoa. Há também o boletim http://provsjose.zip.net/. Traz notícias de atividades juvenis das paróquias carmelitanas, além da história dos carmelitas descalços e temas da espiritualidade carmelitana. Vale a pena conferir também o site do “Centro Teresiano de Espiritualidade”http://www.carmeloteresiano.com.br/. Dele faz parte como assessor Frei Sciadini (OCD). Ele coordenou e fez o prefácio de “Obras Completas – Santa Teresa de Jesus” – Edições Carmelitanas, publicado por Edições Loyola, 2002 (edição esgotada).

A propósito, a equipe diretiva está organizando uma comitiva para a reunião geral da Ordem, que, de acordo com as informações do site, se dará pela primeira vez fora do Brasil. Com destino à cidade de Fátima, em Portugal, cerca de 140 membros farão parte da comitiva da OCDS. Lá permanecem de 17 de abril até pouco além de 13 de maio (dia da aparição de Nossa Senhora, em Fátima).

Boa viagem a todos. Rezem por nós, leigos seculares ou não, que amam o Reino de Deus. Nós brasileiros, que vivemos em um país abandonado pelos governantes, precisamos muito das orações das consagradas e consagrados carmelitas descalços – em sua clausura abençoada por Deus. Esta é uma afirmação de Santa Teresa de Jesus! Necessitamos também, neste mundo cheio de confusão, das orações dos leigos carmelitas seculares, em Fátima e em seus encontros no Brasil. Que a paz e o amor da Trindade Santa esteja com vocês da OCDS, nesta e em outras missões pelo mundo. Amém.

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Santa Teresa de Ávila – Itinerário para o coração de Jesus… (YouTube)

A autoria deste vídeo é do movimento “Jovens Leigos Carmelitas”, de Portugal. Sua publicação no YouTube se deu em 11de outubro de 2007. Em uma busca mais detalhada pelo “paradeiro” dos jovens na rede, encontrei, a partir do  do link  “veronicaparente”, referências a “Carmo Jovem”, que se apresenta também como Movimento Carmo Jovem e Jovens Leigos em Movimento. O grupo é formado por homens, mulheres, moças e rapazes, e anuncia uma caminhada a pé ao Santuário de Fátima, entre 01 e 03 de maio deste ano. Sua proposta está centrada “no projeto de vida proposto por João da Cruz e Teresa de Jesus”. O link é o seguinte: http://carmojovem.blogspot.com/2008/10/festa-de-santa-teresa-de-jesus.html .

Fé: sentido e impermanência

Sunset Over Victoria Falls - Photo by:Adam Annfield - Wikicommons
Sunset Over Victoria Falls - Photo by:Adam Annfield - Wikicommons

Em um mundo materialista e hedonista, não há lugar para uma “vida interior”. Este é o tempo em que vivemos. Se não nos esforçamos, com determinação, para alcançar os “andares superiores” de nossa existência, andaremos vazios pelos caminhos do mundo (e são vários, muitos deles, sem sombra de dúvida, sem volta, tenebrosos!). Ou seja, se não ficarmos atentos aos apelos de nossa alma por transcendência – pouco ou nada – restará em termos de paz ou contentamento em nosso íntimo. Santa Teresa de Jesus faz este alerta: a vida cristã está aí no sentido formal, material (a Igreja), mas nossa luta principal se dá em nosso interior. No reduto de nossa alma. Este é o castelo, com seus patamares. Cada andar (e são sete para Santa Teresa – um número metafórico, mas significativo) tem dificuldades, desafios e mistérios. O Espírito Santo nos guarda, nos protege em cada um deles e nos incentiva misteriosamente para que avancemos, mesmo em meio a cansaços, decepções, tristezas, enfim, nos protege do desânimo… Desde o Antigo Testamento, homens e mulheres vêm empenhando todos os seus esforços para não seguirem a rota vertiginosa da vida centrada somente na conquista de bens materiais. Com a vinda de Jesus em carne humana, nós cristãos fazemos parte do corpo de Cristo, que é a Igreja, e que primitivamente foi dirigida pelo Apóstolo São Pedro. Temos, na atualidade, o papa Bento XVI como sucessor daquele na condução do “rebanho”. Creio que a Igreja Católica é santa e imperfeita como nós que a integramos. Se nossa alma é o “castelo” de nossa existência “interior”, esta vida interior estará em conformidade, em essência, com o “castelo”, que é a Igreja, que representa a manifestação a um só tempo “exterior” e “interior” da espiritualidade humana.

A santidade, o último patamar do “castelo” deve ser buscada durante toda a nossa vida. O mesmo está acontecendo com a Igreja de Cristo, Una e Santa com Ele, ainda que imperfeita como cada um que, de um modo ou outro dela faz parte.

Amar a Igreja é amar a nós próprios e aos nossos semelhantes (ainda que seja, inúmeras vezes, quanto ao relacionamento humano, um desafio que traz contradições à nossa alma…). Penso que nestas mesmas contradições (em nossa alma, no convívio interpessoal e em relação a fatos ligados à Igreja Católica), vamos nos tornando melhores como seres humanos, como que, redimidos pela Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim, nossa cruz consiste, a meu ver, em carregarmos nossas próprias contradições e as de nossos semelhantes… Há também privações, limitações, sobrecargas. Tudo deve ser compreendido à luz da mensagem que Ele deixou aos Apóstolos. Não sendo assim, não somos cristãos – somos do mundo – o que é lamentável porque nos lança de um vazio para outro.

Desse modo, buscar a santidade transcende a “parecer” alguma coisa: é transformar o sofrimento em um Bem para a nossa alma. É um desafio constante, e será assim até o final de nossa existência. Foi assim com Jesus Cristo, os Profetas, os Apóstolos e Santos. O mesmo se dá conosco em “situações-limite” no decorrer de nosas vidas. Para tanto, temos que lutar para superarmos a condição de sermos ou nos tornarmos tão somente ‘compradores’ em um momento e ‘vendedores’ em outro. Continuamente estaremos comprando ou vendendo bens que são passageiros – e nada mais… No entanto, estes “bens” podem ser imateriais, tais como viver segundo as aparências, prestígio, sucesso, entre outras vaidades humanas.

O resultado de “andarmos contra a corrente”  é que andaremos mais sozinhos que a média. O que consola, a meu ver, é que esta é a nossa única saída para a conquista da paz interior, senão para a felicidade que é possível neste tempo. Ou seja, para uma vida plena, não há outro caminho. O certo é que haverá isolamento, ainda que estejamos cercados de pessoas, em qualquer lugar do mundo… É a marca de uma vida cristã, mesmo entre cristãos… Isto é positivo, ainda que não seja aparentemente normal… Entretanto, entendo que este é o custo (que não é dispêndio…) por “lutarmos” por uma vida espiritual, que vai muito além da “luta” aceita, aplaudida por uma próspera vida material. E, tudo acontece em meio ao caos relativamente “organizado” do mundo de hoje… Que Deus nos ajude. Amém.

Bom domingo e boa semana a todos, parceiros e parceiras nesta árdua jornada…

Perfil: também existem pessoas reais no mundo virtual…

Apesar de minha relutância, fui convencida de que acrescentaria, em termos de comunicabilidade, permitir que freqüentadores e visitantes tenham, pelos menos uma idéia de como sou no “mundo real”… É que sou do tipo reservada em minha vida pessoal. O jornalismo é que “aparou” as arestas, e nem poderia ser diferente. Além disso, há muita gente anônima dizendo e inventando bobagens atrás de um teclado, não? É desagradável na net quando alguém inventa uma persona e sai dizendo absurdos sobre assuntos polêmicos, sem refletir…

Mudei o excerto de uma poesia de Santa Teresa, e acrescentei que não “aufiro” qualquer benefício, ganho, lucro, agora e no futuro (com anúncios ou cliques, ok?). O Blog “Castelo Interior” é “non-profit”, com a graça da Providência Divina. Verdade. Existe gente assim, por incrível que pareça! A fé, o esforço e a determinação tornam qualquer gesto desinteressado possível. Creio profundamente nisto. Está um tanto ruim de viver porque o materialismo se tornou um modo de vida…

Confesso a vocês que o recorte (detalhe) de minha foto digitalizada de rosto me  deu “um baile”… A editoração é um capítulo à parte no jornalimo. Fica em segundo plano. Mas, gosto de desafios. Quando se trata de editorar fotos temos o Gimp. Meu marido “descolou” este software para me facilitar o caminho das pedras… É complicado, mas com um pouco de intuição…

Profecias e Visões Místicas dentro do Cristianismo (entrevista com o então cardeal Joseph Ratzinger – papa Bento XVI).

transfiguracao-jesusg

Transfiguração”

Autor: Bento Coelho da Silveira (1620 – 1708) Ano 1670-75 Local: Museu de Arte Sacra (Arouca)


Transverberação de Santa Teresa”

Autor: Josefa de Óbidos (1630 – 1684)
Ano: 1672
Local: Igreja Matriz de Cascais


“Visão de São João da Cruz”

Visão de São João da Cruz”

Autor: Josefa de Óbidos (1630 – 1684)Ano:1673.

Local: Santa Casa da Misericórdia – Figueiró dos Vinhos). Fonte:http://pinturaportuguesa.blogs.sapo.pt


O texto abaixo traz uma entrevista com o então cardeal Joseph Ratzinger, teólogo de reconhecido mérito no aprofundamento das Escrituras Sagradas. No decorrer da entrevista, há passagens que explicam o contexto das visões místicas de Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz, Santa Catarina de Siena, Santa Faustina Kowalska, entre outros. Estas, são para ele, análogas ao acontecimento das profecias do Antigo Testamento. Ou seja, as visões místicas dos santos e santas compõem o que denomina como uma experiência “face a face” com Jesus Cristo. Santa Teresa de Jesus as denomina “visões intelectuais”. Para ele, o mesmo teria acontecido aos profetas, ainda que com outras características. Ou seja, eles também estiveram “face a face” com Deus. No caso, enquanto profecias, vieram a compor o conjunto da Revelação contida no Antigo Testamento.

Temos então, o privilégio de aprender muitas coisas com o papa Bento XVI. Ele, por décadas foi professor na Universidade Gregoriana de Roma, tendo exercido, além disso, a difícil função de prefeito da Congregação para Doutrina da Fé. Assim, como teólogo faz distinções esclarecedoras sobre os profetas do Antigo Testamento, incluindo o caráter especial do último deles – São João Batista, que anunciou a chegada do Messias. Também analisa o fato de Jesus encarnar o ápice da Revelação. Segundo o então cardeal Ratzinger, em Jesus se dá o cumprimento das promessas contidas na Antiga Revelação. Na Nova Aliança, traz o conteúdo de esperança para os cristãos modernos, que aguardam sua segunda e definitiva vinda, dentro da anunciada completude dos tempos.

Observação: Os trechos na cor magenta ressaltam passagens que mencionam Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz, enquanto místicos importantes, entre vários, para o fortalecimento da fé cristã. Outras passagens foram ressaltados por mim devido ao caráter pontual com que o então cardeal Ratzinger aborda temas chaves do Antigo e Novo Testamentos. Tais explanações contribuem para que melhor compreendamos o legado dos profetas, apóstolos e místicos cristãos.

Boa aula a todos os visitantes!

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Fonte: http://www.sinaisdostempos.org/revelacoes/entrvratz.html

“O Problema da Profecia Cristã”

Nr. 1 – 1999

O Cristianismo traz sempre consigo uma estrutura de esperança

“Faz-se cada vez mais urgente apresentar de modo compreensível e visível a verdadeira estrutura de promessa e de cumprimento presente na fé cristã”

Entrevista com o Cardeal Joseph Ratzinger

por Niels Christian Hvidt

Quando se ouve pronunciar a palavra “profecia” , a maior parte dos teólogos pensa, de imediato, nos profetas do Antigo Testamento, em João Baptista, ou na dimensão profética do Magistério. E deste modo, na Igreja cristã, o tema dos profetas raramente é abordado e constitui um domínio particularmente pouco conhecido, em que muitas questões ficam ainda em aberto. E, no entanto, o decurso da história da Igreja está marcadamente sulcado de figuras proféticas, que ela própria tantas vezes não canonizará senão bem mais tarde e que, durante a sua vida, transmitiram mensagens que essas mesmas figuras proféticas compreenderam como Palavra de Deus, e não como simples palavras de homens ou como uma sua pessoal mensagem.
Uma vez que quase se não tem reflectido, deforma sistemática, na especificidade dos profetas, naquilo que os distingue da Igreja Institucional, nas relações entre a mensagem que lhes é revelada e aquela que é revelada em Cristo ou a Palavra transmitida pelos Apóstolos, acontece que, praticamente, jamais foi desenvolvida uma verdadeira e própria teologia da profecia cristã. De facto, existem poucos estudos sobre este problema
1 .

Na sua actividade teológica, o Cardeal Ratzinger, há tempos, ocupou-se já, de uma forma aprofundada, do conceito de Revelação. Nesse tempo, a sua tese de doutoramento 2 sobre a ‘Teologia da História de São Boaventura” tinha tido um tal impacto inovador, que o seu trabalho acabou por ser rejeitado de início 3 . Nesse tempo, a Revelação era ainda concebida como uma recolha ou conjunto de propostas diversas; era considerada, sobretudo e acima de tudo como uma questão de conhecimentos racionais. Mas Ratzinger, pelo contrário, nas suas investigações, viu em São Boaventura que o conceito de revelação se referia à acção de Deus na História, na qual a Verdade se revela pouco a pouco, se bem que é necessário compreender a Revelação como uma contínua crescente da Igreja, que se desenrola na plenitude do Verbo de Deus, o Logos 4 .
Quanto à sua tese, foi finalmente aceite, mas apenas depois de algumas passagens terem sido de novo elaboradas e outras mais desenvolvidas. A partir de então, o Cardeal Ratzinger defende uma compreensão dinâmica da Revelação, à luz da qual Cristo, como Palavra de Deus, é sempre maior que qualquer outra palavra de homem, que jamais poderá estar em condições de A exprimir plenamente. E assim se conclui que é a Palavra de Deus que confere um sentido, um significado às palavras humanas e não o inverso. Com efeito, estas últimas participam na natureza viva e inesgotável da Palavra divina que é Cristo, enquanto é à luz da Palavra de Deus que elas se compreendem, evoluem no decurso da História, passando de geração em geração, e assim se revestem de significados sempre novos
5 .
Dito isto, é apenas no quadro de um conceito dinâmico da Revelação que é possível saber exactamente o que é a profecia cristã. Já em 1993, o Cardeal Ratzinger emitia a seguinte averiguação: “A fim de compreender o que é ser profeta no sentido cristão do termo, assim como aquilo que o não é, impõe-se uma aprofundada discussão a este respeito” 6 E é isto mesmo que explica a razão pela qual uma entrevista sobre o tema da profecia cristã foi pedida ao Cardeal, que logo se declarou amavelmente disposto a dá-la, no dia 16 de Março de 1998 7 .

1 – Na história da Revelação do Antigo Testamento, os profetas, assim como a sua mensagem fazem essencialmente parte dele. E que, pela sua crítica, abrem o caminho a Israel e acompanham-no sempre ao longo de toda a sua história. A seu ver, que se passa com a profecia, na vida da Igreja?

– Detenhamo-nos, por instante, na profecia, no sentido veterotestamentário do termo. Convém esclarecer com precisão o que é no fundo um profeta, para dissipar, de vez, todo o mal entendido possível.
Um profeta não é um adivinho do futuro. A característica essencial do profeta não consiste em predizer os acontecimentos futuros. O profeta é aquele que diz a verdade, em virtude do seu contacto com Deus e, tratando-se da verdade válida para hoje, acaba por iluminar também, naturalmente, o futuro. Todavia, não se trata de predizer o futuro em todos os seus pormenores. Pelo contrário, trata-se de tornar presente, num determinado momento, a Verdade divina, o que permite indicar o bom caminho a seguir.
No que se refere ao Povo de Israel, a palavra do profeta possui uma função particular, no sentido em que a fé judaica é orientada essencialmente para o futuro, isto é, para aquilo que está para vir. Conclui-se que a palavra do profeta apresenta um duplo carácter: apoia-se na Fé do Povo de Israel, por um lado e, pelo outro, pede que se ouça e se cumpra. Por outras palavras, a palavra do profeta, que será sempre uma palavra humana, inscreve-se, antes de mais, na própria estrutura da esperança do Povo de Israel, notoriamente, naquilo que ele espera, naquilo para o qual está orientado.
Dito isto, o que faz o profeta, é guardar viva a esperança do Povo eleito, fazendo-a seguir sempre em frente. Depois, importa sublinhar que o profeta não é um apocalíptico, se bem que tantas vezes o pareça. A sua missão principal não é descrever realidades últimas do mundo, mas fazer compreender a fé em Deus, no momento em que fala, como uma esperança.
Do mesmo modo, embora o profeta deva intervir na história, proclamando a Palavra de Deus, comparada como esta é a uma espada cortante, ele não é alguém que procure essencialmente exercer críticas ao culto e à instituição. É verdade que o profeta deve sempre lembrar aos chefes de Israel, como instituição que não deixam de ser, a exigência vital posta por Deus; e isto, apesar do mal entendido e abuso que se faz da Palavra divina. Mas é falso conceber o Antigo Testamento como uma dialéctica puramente antagonista entre o profeta e a Lei. Pelo facto de ambos terem a sua origem em Deus, ambos possuem igualmente uma função profética. É um ponto que me parece muito importante, porque ele mesmo nos deve acompanhar na leitura do Novo Testamento. Sabemos como no fim do livro do Deuteronómio
(18,15) , Moisés nos é apresentado como profeta e é ele mesmo que se nos apresenta como tal. Moisés anuncia a Israel o seguinte: “O Senhor, teu Deus, suscitará em teu favor um profeta saído das tuas fileiras, um dos teus irmãos, como eu” (Dt 18,15) . Ora, põe-se-nos uma questão: que quer dizer “um profeta como eu”? O ponto decisivo aqui, creio eu, é que sempre, segundo o livro do Deuteronómio, a característica de Moisés consiste em que ele fala com Deus como a um amigo 8 . E é aí mesmo que eu vejo o núcleo, a quinta essência do ser profético, que é justamente esse “face a face” com Deus: conversar com Ele como um amigo. No Antigo Testamento, o profeta não pode falar na história de Israel senão em virtude deste encontro directo entre ele mesmo e Deus.

2- Como se deve então conceber este termo “profecia” em relação a Cristo? Poderemos chamar a Cristo um profeta?

– Na verdade, os Padres da Igreja compreenderam a profecia do Deuteronómio que acaba de ser mencionada como uma promessa feita relacionada com Cristo. E eu penso que eles têm razão. Moisés diz bem claramente: “um profeta como eu”. E ele mesmo transmitiu a Israel uma mensagem da parte de Deus, que faz de Israel um povo. E verdade é que, pelo seu próprio “face a face” com Deus, ele cumpriu a sua missão; ele próprio conduziu os Israelitas ao seu encontro com Deus. E ao serviço da profecia desse modelo que todos os demais profetas ulteriores são chamados, pois o seu dever é libertar constantemente a Lei mosaica do seu aspecto rígido e transformá-la numa via que se abra à vida.
Por conseguinte, o verdadeiro Moisés, que é também maior, é Cristo, que vive realmente num “face a face” com Deus, na medida em que é o Filho de Deus. Neste contexto, constituído por um lado pelo Deuteronómio e pelo outro, pela própria Vinda de Cristo, percebe-se um ponto muito importante para compreender a unidade dos dois Testamentos: Cristo é o novo Moisés, perfeito e insuperável porque, como Filho de Deus que é, vive face a face com Deus. Não só nos conduz a Deus pela palavra e pelas leis, mas também nos assume a todos n’Ele pela Sua vida e pela Sua paixão, Ele cuja Incarnação faz de nós o Seu Corpo Místico. Isto significa que o ser profético se enraiza igualmente no Novo Testamento, graças a Cristo, que nele é revelado como o profeta mais perfeito, porque Ele Mesmo é o Filho de Deus. De tudo isto resulta que, pelo que se refere ao Novo Testamento, é da comunhão com Cristo que provém a dimensão cristológica e profética da vocação de um cristão.


3-A seu ver, como se deve considerar tudo isto, concretamente, no Novo Testamento? A morte do último Apóstolo, São João, não porá um freio a toda a profecia ulterior? Acaso não será verdade que exclui mesmo a sua simples possibilidade?

– Sim, que a redacção final do livro do Apocalipse põe fim a toda a profecia, é uma tese que existe, mas que, a meu ver, procede de um duplo desprezo.
Primeiro, esta tese pode dar a impressão de que, do facto de Cristo ter vindo, a Sua própria vinda nos autorizaria a pensar que não há nada mais a esperar e que o profeta já não tem a sua razão de ser, precisamente porque a missão do profeta é essencialmente uma missão de esperança. Ora, é um erro porque Cristo veio em carne e, bem mais, Ele Próprio ressuscitou “no Espírito Santo”. Esta nova presença de Cristo na história da humanidade, a saber, nos Sacramentos, na Sua Palavra, assim como no coração de cada homem, é a expressão mas também o princípio do Advento definitivo de Cristo, que tomará posse de tudo e em tudo
(cf. Ef 1,23; 4,10) . Isto leva-nos a dizer que o Cristianismo é por natureza, em si mesmo, um movimento porque vai ao encontro do Senhor, que voltará a vir, uma vez mais. E o encontro com Cristo, pela segunda vez, não será já o mesmo que pela primeira, muito simplesmente porque já veio uma vez, mas subiu ao Céu. E esta é a razão pela qual a esperança continua a ser algo de inerente ao Cristianismo como estrutura, porque é orientada para o Senhor ressuscitado e subido ao Céu, e que prometeu regressar em glória. A este propósito, a Eucaristia foi sempre compreendida como um movimento da nossa parte para o Senhor, para O encontrar na fé. É um sacramento que incorpora a Igreja.
Por conseguinte, é um desprezo pensar que pelo facto de o maior profeta, Cristo, cuja presença pode cumular tudo, ter já vindo uma vez, essa dimensão de esperança que encontramos no tempo dos profetas do Antigo Testamento já não existe no Cristianismo, inaugurado pelo Novo Testamento. É um mal entendido que se deve evitar. Pelo contrário, é necessário dizer que mesmo o Novo Testamento contém necessariamente nele próprio uma dimensão de esperança, como espécie de estrutura que lhe é inerente. É sempre necessário, acreditar primeiro, e a seguir esperar. E ser servidor da esperança cristã faz parte essencial da fé do novo Povo de Deus que todos nós somos.
O segundo desprezo é uma compreensão reducionista e intelectualista da Revelação, que pretende considerá-la como um tesouro, verdades reveladas a conhecer que são tão completas, que nada mais se lhes pode já acrescentar. Ora, a verdadeira Revelação é um acontecimento em que todos nós somos convidados a encontrar Deus face a face. No fundo, a Revelação quer dizer que Deus Se dá a todos nós, participa na nossa história, associa-Se e une-Se a nós. Na medida em que a Revelação se define como o encontro entre dois seres, um humano e o outro divino, ela tem também um carácter comunicativo, cognitivo. E é neste sentido que ela implica e mesmo necessita do conhecimento das verdades reveladas.
Compreendendo a Revelação desta forma, pode agora dizer-se que, com Cristo, a Revelação atingiu o seu fim. De facto, segundo a bela expressão de São João da Cruz: “Se Deus falou pessoalmente, não há nada mais a completar”. Do mesmo modo, já ninguém pode deixar de dizer que o Verbo de Deus está presente, no meio de nós. Deus já não pode dar ou dizer algo maior que Ele Mesmo. Quanto a nós, não nos resta mais do que penetrar dia-a-dia neste mistério da Fé, justamente porque nós, os Cristãos, recebemos esse dom total de Si, que Deus nos fez pelo Seu Verbo feito carne. Isto, lembremo-nos, não é senão um ponto, nesta nossa compreensão da “profecia” isto é, como ligação com o acto de esperar do crente. Mas este ponto da nossa reflexão dá lugar a um outro ponto.
É que a primeira vinda de Cristo restabeleceu, entre Deus e o homem, uma ligação nova que é sempre de reforçar. Assim, graças à sua própria ligação com o Verbo feito carne, o homem descobre o que Este lhe ofereceu. É precisamente esta nova relação que irá introduzir o homem na verdade total, mas também de uma forma nova, como o próprio Jesus o diz no Evangelho de São João, em que fala da descida do Espírito Santo
9 . A cristologia pneumatológica que provém do último discurso, no Evangelho de São João, constitui, a meu ver, um ponto pertinente, nesta nossa reflexão, na medida em que o próprio Cristo explica que a Sua vida terrestre, em carne, não é senão um primeiro passo. A verdadeira vinda de Cristo realiza-se no momento em que Cristo já não está ligado a um lugar fixo ou a um corpo físico, mas em Espírito, depois da Sua Ressurreição, até aos nossos dias, capaz, pois, de vir a todos os homens de todas as gerações, para os introduzir na Verdade, de uma forma cada vez mais profunda. Importa lembrar este dado teológico, pois ele esclarece o tempo da Igreja em que nós estamos em vias de viver e que é também o tempo do Espírito Santo, pois é em Espírito que Cristo vem a nós e ao meio de nós, numa vinda espiritual. Compreende-se que, num tal contexto, o elemento profético que, por natureza, torna presente o que Deus deu aos homens, a saber, a Esperança que é o próprio Deus, não só não pode desaparecer, mas jamais poderá tão pouco diminuir.

4 – Se assim é, a questão não será antes saber como é necessário ver este elemento profético no tempo da Igreja, a começar por São Paulo?

– No que se refere a São Paulo, cuja missão se desempenha entre os pagãos, é claro que o seu apostolado universal tem também um alcance profético. Graças ao seu encontro com Cristo ressuscitado, São.Paulo pôde penetrar no mistério da Ressurreição, compreendendo em profundidade a Boa Nova de Jesus. Do mesmo modo, graças ao seu encontro com Cristo Ressuscitado, aprendeu a compreender a Sua Palavra de uma forma nova, e tão bem que lhe revela o carácter, o aspecto de esperança, fazendo valer de repente a sua capacidade de discernimento.
Ser um apóstolo como São Paulo é um fenômeno único. Podemos interrogar-nos sobre o que se passa na Igreja, depois do tempo dos Apóstolos. Para responder a esta pergunta, é necessário referirmo-nos a uma passagem do capítulo II da Epístola de São Paulo aos Efésios, em que ele escreveu:
“A Igreja é fundada nos Apóstolos e nos profetas” 10. Ao tempo, pensava-se que se tratava apenas dos doze Apóstolos e dos profetas do Antigo Testamento, enquanto os exegetas modernos nos dizem que o termo “apóstolo” tem uma acepção muito mais larga, tal como o termo “profeta”, que inclui também os profetas do tempo da Igreja.
Ora, segundo o capítulo 12 da primeira Epístola aos Coríntios, os profetas de outrora organizavam-se como membros de um colégio. O colégio dos profetas é também mencionado na Didakhé, o que quer dizer que existia ainda, quando a obra foi escrita.
Com o tempo, o colégio dos profetas foi dissolvido. A dissolução do colégio dos profetas não é certamente um acaso. De facto, como no-lo mostra o Antigo Testamento, a função de um profeta não é algo que se possa institucionalizar, na medida em que os profetas dirigiam a sua crítica, não apenas aos sacerdotes, mas também aos profetas institucionalizados. Isto parece bem claro no livro do Profeta Amós, em que este fala contra os profetas do Reino de Israel. Acontece mesmo muitas vezes que os profetas livres e independentes falam contra os que pertencem a um colégio. É que, entre os primeiros, Deus encontra, por assim dizer, mais margem de manobra, mais liberdade de agir por si mesmos, no momento em que é necessário que eles intervenham ou tomem iniciativas. Visto que os dois tipos de profetas que embelezam a história da Igreja têm a sua razão de ser, parece-me que se não pode falar de uma reforma do colégio dos profetas.
No que respeita aos profetas do tipo dito institucional, importa confessar que o colégio dos Apóstolos, a exemplo de São Paulo que também foi um profeta a seu jeito, se reconhece ter não menos o seu carácter profético. E é assim que a Igreja se vê perante desafios que lhe são próprios, na medida em que o Espírito Santo encontra, no momento crucial, uma porta de entrada para intervir. A história da Igreja fornece-nos bem muitas provas de que o apóstolo e o profeta podem ser uma só e mesma pessoa. Basta ver grandes figuras, tais como Gregório Magno e Santo Agostinho. Há muitos e bons apóstolos proféticos: foram proféticos na medida em que souberam abrir a porta ao Espírito Santo com a ajuda do seu poder. E foi como profetas desse modo que conseguiram exercer o seu poder, como muito bem no-lo descreve a Didákhé.
Quanto aos profetas ditos livres ou independentes, é bom lembrar que Deus Se reserva a liberdade de intervir directamente na Sua Igreja para a despertar, para a avisar, para a promover e santificar, justamente pelos carismas que lhe dá. Sempre na história da Igreja existiram personagens carismáticos e proféticos. E eles surgiram sobretudo numa reviravolta, num momento decisivo da história da Igreja. Pensemos, por exemplo, no nascimento do movimento dos monges, num Santo Antão, no impacto que teve este Padre do deserto. Foram os monges que protegeram a cristologia do arianismo e do nestorianismo. E o mesmo acontece com São Basílio, um grande bispo, mas também um verdadeiro profeta do seu tempo. Depois, não podemos deixar de constatar que o movimento das Ordens mendicantes foi igualmente um fenômeno novo, mas cuja origem era carismática. Nem São Domingos nem São Francisco fizeram profecia sobre o futuro, mas souberam ler os sinais dos tempos e reconhecer que, para a Igreja, chegara o momento de se libertar do sistema feudal; que chegara a hora de pôr em evidência a universalidade e a pobreza evangélica, assim como a “vida apostólica”. E fazendo-o, devolveram à Igreja o seu verdadeiro rosto, uma Igreja conduzida por Cristo e animada pelo Espírito Santo. E foi assim que eles contribuíram para a reforma da hierarquia da Igreja, criando no interior desta última um estilo de vida religiosa inteiramente novo. Ou ainda outros grandes personagens, semelhantes mas femininos, como por exemplo Catarina de Sena ou Brígida da Suécia.
Dito isto, creio que é importante sublinhar que cada vez que a Igreja atravessava um momento particularmente difícil, tal como a crise de Avinhão e o cisma que se lhe seguiu, houve mulheres que se ergueram para anunciar que Cristo vivo é também Cristo sofredor, na Sua Igreja.

5 – Quando se lê de perto a história da Igreja, apercebemo-nos de que a maior parte dos místicos proféticos são mulheres. É um facto muito interessante que, com toda a evidência, poderia contribuir para a discussão sobre o sacerdócio das mulheres. Que pensa disto?

– Há uma antiga tradição patrística que chama a Maria, não “sacerdotisa” mas “profetisa”, de sorte que o título de profetisa é na patrística o título de Maria por excelência: é em Maria que a “profecia”, no sentido cristão do termo, se define melhor, a saber, em razão da capacidade interior de escuta de Maria, da sua capacidade de percepção e da sua sensibilidade espirituais, que Lhe permitem captar o murmúrio inaudível do Espírito Santo, assimilando-o perfeitamente, fecundando-o, oferecendo-o ao mundo imediatamente depois de o ter fecundado. Por esta razão, pode dizer-se que, num certo sentido, mas sem se ser categórico: é o princípio mariano que incarna o carácter profético da Igreja. Ora, se os Padres da Igreja sempre viram Maria como o arquétipo dos profetas cristãos, é porque Ela colocou, por assim dizer, os marcos da tradição profética da Igreja, aponto de esta linha profética ser concomitante ao tempo da Igreja.
Dito isto, convém pensar agora nas irmãs dos Santos, tanto no sentido próprio como no sentido espiritual do termo. É sobretudo a sua irmã que Santo Ambrósio deve o caminho espiritual que havia podido percorrer. O mesmo acontece com São Basílio e São Gregório de Nissa, como também com São Bento. Mais tarde, na segunda metade da Idade Média, vemos outras grandes figuras místicas, entre as quais se deve também mencionar Francisca Romana. Seguidamente, no século XVI, vem Teresa d’Ávila, que exerceu um papel muito importante na evolução espiritual e doutrinária de São João da Cruz.

A linha profética ligada às mulheres tem, pois, uma enorme importância na história da Igreja. Catarina de Sena e Brigida da Suécia podem servir de paradigma, de grelha de leitura. Ambas falaram a uma Igreja em que existia ainda o colégio apostólico e onde os sacramentos eram administrados. Por conseguinte, o essencial existia ainda; todavia, devido a lutas internas, estava em risco de cair. Essa Igreja, reavivaram-na elas mesmas, restaurando nela o carisma da Unidade, reinstalando nela a humildade e a coragem evangélicas e pondo em evidência o seu dever de evangelização.

6 – Acaba de dizer que a revelação em Cristo se fez de uma forma ” definitiva” – que se não deve confundir com “última”, que quer dizer “aquilo depois do qual nada mais se seguirá – não se identifica com a última palavra das doutrinas reveladas, como um ponto de chegada”. Esta pertinente afirmação apresenta um grande interesse a esta nossa tese sobre a profecia cristã. De improviso, põe-se-nos uma delicada pergunta: em que medida os profetas, num dado momento da história da Igreja, terão algo de radicalmente novo a dizer em matéria de teologia? De facto, a história dos dogmas parece confirmar uma coisa: os últimos grandes dogmas remontam, na verdade, às revelações dos grandes santos de carácter profético, como por exemplo as de Catarina Labouré, no que se refere ao dogma da Imaculada Conceição. É ainda um tema pouco explorado nas obras teológicas.

– Absolutamente. Importa tratar esse problema como deve ser. Parece-me que nas suas investigações, Balthasar descobriu que por detrás de cada grande teólogo, há primeiro a influência de um profeta: não se pode conceber um Santo Agostinho que não tenha conhecido os monges do deserto, particularmente Santo Antão. E o mesmo acontece com Atanásio, Padre da Igreja. Paralelamente, sem um São Domingos e o carisma da evangelização que lhe era própria, não teria havido certamente um São Tomás de Aquino. Lendo os escritos de São Tomás, vê-se como ele tinha bem a peito a missão, mais claramente no conflito entre as Ordens mendicantes e o clero da época, único a ter, até então, a prerrogativa de ensinar, como professor, a teologia, na Universidade de Paris. A própria necessidade de evangelização é, pois, inerente à missão da Igreja, que levou São Tomás de Aquino a repensar o estatuto da Ordem dominicana e a justificar o apostolado de evangelização pela via do ensino, afirmando que, na origem da Regra da sua Ordem, estão as Sagradas Escrituras, e que ela é composta pelo quarto capítulo dos Actos dos Apóstolos (“num só coração e numa só alma”) por um lado e, pelo outro, do décimo capítulo do Evangelho de São Mateus (“anunciar o Evangelho sem possuir nada”). Isto, aos olhos de São Tomás, é a Regra de todas as regras religiosas. Toda a forma de vida monástica não é outra coisa senão a realização deste modelo do tempo da Igreja primitiva, de carácter apostólico, naturalmente, mas também em que foi São Domingos quem o fez redescobrir e o avaliou pela sua vida e pela sua pessoa. Quanto a São Tomás, transpôs, tanto a vida como o carisma de São Domingos para um plano intelectual e acadêmico, concebendo uma teologia da evangelização, a sua. Para o fazer, respeitava e seguia de bem perto o preceito bíblico de tudo abandonar por amor do Evangelho, mas também com amor, a fim de que uma comunidade cristã “de um só coração e de uma só alma” possa ver a luz do dia. Ainda outros casos mostram como uma figura profética pode ser importante para o teólogo, tais como São Francisco de Assis, para São Boaventura, ou Adriana von Speyr, para Hans Urs von Balthasar.
Os grandes teólogos confirmam de certo modo pelo seu trabalho, esta lógica na relação entre a profecia e a teologia: antes que a teologia possa evoluir ou dar um salto qualitativo, é necessária primeiro a entrada em cena de um personagem profético, a um dado momento da história da Igreja. Enquanto o teólogo trabalha de uma forma puramente racional, nada de novo acontecerá; conseguirá talvez sistematizar melhor as verdades conhecidas, revelar-lhes aspectos mais subtis. No entanto, verdadeiros progressos no plano doutrinário, descobertas teológicas tão novas que revolucionem a própria teologia, não é o teólogo que os pode fazer com o seu trabalho puramente racional, mas muito mais depressa o faz um personagem profético, pelo carisma que recebeu de Deus. E é nesse sentido que a profecia e a teologia caminham sempre a par. Como ciência, estritamente falando, a teologia não é profética; apesar disso, torna-se viva, quando alimentada e iluminada por uma inspiração profética.

7 – No Credo de Niceia, diz-se do Espírito Santo: ” falou pelos profetas”. Pode saber-se se os profetas em questão são apenas os do Antigo Testamento ou também os do Novo Testamento?

– Para responder a esta pergunta, seria necessário lembrar primeiro a história do Credo de Niceia. Segundo os termos e o tempo utilizado, os profetas de que aqui se fala são os profetas do Antigo Testamento (cf. o passado composto: Ele tem falado). De uma vez só, é sublinhada e posta em evidência a dimensão pneumatológica da Revelação. Na economia da salvação, o Espírito Santo precede Cristo, primeiro para Lhe preparar o caminho, depois para o fazer compreender, conduzindo assim todos os homens à Verdade. Há diferentes simbolismos que põem o acento sobre este aspecto. A Tradição da Igreja oriental considera a obra do Espírito Santo como uma obra de preparação, na economia da salvação. Aquele que fala pelos profetas, é o Espírito Santo, que fala, acima de tudo, de Cristo; eu estou persuadido de que, na temática desta nossa questão, se trata sobretudo de afirmar que é o Espírito Santo que aplaina o caminho para que Cristo possa ser concebido “ex Spiritu Sancto”. Por outras palavras, o que aconteceu em Maria “ex Spiritu Sancto “, é um evento cuidadosa e longamente preparado. Do mesmo modo que Maria traz consigo toda a profecia do Antigo Testamento, assim também assume em si toda a economia do Espírito Santo, concebendo Cristo “ex Spiritu Sancto”.
Eu creio que se pode mesmo ir ainda mais longe, nesta nossa perspectiva: até dizer que Cristo não cessa de ser concebido “ex Spiritu Sancto”. Parece manifesto que o Evangelista São Lucas pôs conscientemente em paralelo o relato da infância de Jesus no seu evangelho e o nascimento da Igreja, no segundo capítulo dos Actos dos Apóstolos, em que Maria se encontra rodeada pelos doze Apóstolos, todos cheios do Espírito Santo. Num caso como no outro, assiste-se a uma “conceptio ex Spiritu Sancto”, uma concepção sobrenatural, cujo autor é sempre o Espírito Santo e que se actualiza de novo, para oferecer ao mundo um outro Cristo que é a Igreja. Em resumo, mesmo que o artigo de Fé, no credo de Niceia, se refira apenas aos profetas do Antigo Testamento, isso não quer dizer que a economia ou acção do Espírito Santo se dê com isso por concluída.

8 – São João Baptista é muitas vezes designado como o último dos profetas. A seu ver, como deverá compreender-se esta afirmação?

– Há várias razões que fazem que São João Baptista seja chamado o último dos profetas. E uma delas é que o próprio Jesus disse:
“Porque todos os profetas e a Lei vaticinaram até João” (Mt 11, 13). Dizendo isto, Jesus declara que a Antiga Aliança terminou em João e que, depois dele, vem alguém que é mais pequenino na aparência, mas maior no Reino de Deus: o próprio Jesus 11 . O facto de ser João a preceder imediatamente Jesus significa que João põe termo a uma época, inaugurando ao mesmo tempo uma era nova, a da Nova Aliança. E é nesse mesmo sentido que João é o último profeta: contemporâneo de Jesus, João Baptista é o profeta em que se concentra todo o movimento profético do Antigo Testamento, como a chama de uma só tocha de que João é o portador e que ele mesmo devolve a Jesus. Deste modo, João Baptista completa a obra dos profetas no sentido veterotestamentário do termo, porque indica a esperança do Povo de Israel: o Messias, Jesus. Importa notar igualmente que João Baptista não anuncia nada que se relacione com o futuro, mas apenas a urgência de se converter, uma vez presente o Messias, actualizando e renovando ao mesmo tempo a promessa da Antiga Aliança. E é assim que ele fala de Jesus: “Ele está já no meio de vós, mas vós não O conheceis” 12 . Muito embora este apelo se pareça com uma predição, João Baptista acabou por ser fiel à linha profética: em lugar de predizer o futuro, João não faz senão anunciar que “é tempo de se converter”. A mensagem de João Baptista tem, pois, por fim convidar o Povo de Israel a examinar-se, interrogar-se e arrepender-se, a fim de poder acolher essa salvação que acreditou e aguardou desde sempre. E essa mesma salvação está já presente: é Jesus, de quem João Baptista é o precursor, que personifica neste sentido a expectativa de todo o Povo de lsrael. O acerto de chamá-lo o “último profeta” está, pois, em ser o último da era pré-messiânica. Em contra partida, a partir da Nova Aliança, da era comumente chamada messiânica, a profecia será completamente diferente, isto é, de um outro tipo, assim como o são também os profetas da era messiânica.
Por conseguinte, a razão de considerar João Baptista como o último profeta deve agora ser bem clara: outros profetas o precederam, ao serviço de uma esperança que se aguardava, a salvação prometida por Deus. Entretanto, isso não quer dizer que já não haverá profecia depois de João Baptista; ver-nos-íamos assim em contradição com o ensinamento de São Paulo, que diz na sua primeira Epístola aos Tessalonicenses:
“Não extingais o espírito. Não desprezeis os dons da profecia” (1 Ts 5, 19-20) 13 .

9 – Dado que Cristo entrou na história, deve por isso haver uma diferença entre a profecia do Antigo Testamento e a do Novo Testamento. Ora, compreendendo a profecia como uma mensagem recebida de Deus e dirigida à Igreja, a profecia do Antigo Testamento e a do Novo Testamento não parecem, no fundo, diferençar-se consideravelmente uma da outra.

– Há efectivamente uma diferença entre os dois tipos de profecias, que reside na sua estrutura interna. No que se refere à estrutura interna da profecia do Antigo Testamento, Cristo é a salvação prometida, que está para vir, enquanto na estrutura interna da profecia do Novo Testamento, Cristo é a salvação que já veio e que virá ainda uma vez mais. Esta questão teológica merece ser mais estudada e aprofundada. O cerne desta questão é saber, por um lado, a razão pela qual o tempo da Igreja, no seu plano estrutural, tem muito mais afinidade com o Antigo Testamento ou, pelo menos, se assemelha mais com ele e, por outro, que novidade nos foi trazida pela primeira vinda de Cristo, que novidade há no tempo da Igreja.

10 – Muitas vezes, vê-se em certas reflexões teológicas, a tendência para querer diferençar absolutamente a Nova Aliança da Antiga, levando as suas diferenças ao ponto de as duas Alianças com Deus se verem praticamente em ruptura uma com a outra. Ora, uma tal dedução de considerar as duas Alianças como diferentes parece muitíssimas vezes artificial, quando a verdade é que elas constituem antes um só facto, uma única realidade…

– É certamente falso não querer ver senão diferenças entre as duas Alianças, não querer senão confrontá-las uma com a outra, numa aposta de comparação – o que os Padres da Igreja aliás jamais fizeram – de tal modo que se perde de vista a continuidade, na história da salvação, isto é, esta fidelidade absoluta de Deus para com o homem. Pelo contrário, para melhor compreender a história da salvação, os Padres da Igreja propõem o tríplice esquema: “umbra, imago, veritas”. Segundo este esquema, o Novo Testamento é “imago”, isto é, a imagem, enquanto o Antigo Testamento é “umbra”, isto é, a sombra.
Uma vez que os dois Testamentos estão ambos orientados e condicionados pela “veritas”, a verdade, no sentido em que estas duas eras, uma pré-messiânica e a outra messiânica aguardam ambas
o seu comprimento definitivo, não há oposição entre si. A diferença entre as duas eras é, pois, uma questão de degrau ou decálogo: o Novo Testamento, enquanto é o tempo da Igreja, situa-se em relação ao Antigo Testamento, num nível por assim dizer mais avançado, na história da salvação, em razão daquilo que aguarda. É um ponto que, até ao presente, me parece pouquíssimo considerado. Os Padres da Igreja, pelo contrário, sublinham com muita insistência que mesmo o Novo Testamento contém certas promessas, na expectativa do seu cumprimento. É verdade que Cristo veio em carne; no entanto, a Igreja espera sempre o regresso de Cristo, que prometeu revelar a Sua glória em toda a plenitude.

11 – Será talvez esta, uma das razões que explicam o facto da espiritualidade de muitas figuras proféticas ser de carácter fortemente escatológico?

– Eu penso que o aspecto escatológico, que nada tem a ver com a exaltação apocalíptica, pertence essencialmente à natureza da profecia. Com efeito, a missão dos profetas é lembrar a dimensão de esperança da fé cristã, se bem que eles se assemelhem a instrumentos capazes de transcender o tempo, no sentido em que eles próprios tornam presente o cumprimento de uma promessa que ainda se não realizou, mas que um dia se realizará definitivamente. De onde essa tensão entre promessa e cumprimento, esse vaivém entre presente e futuro. Este carácter escatológico faz certamente parte da espiritualidade dos profetas.

12 – Colocando a profecia no seu justo contexto, um contexto de esperança escatológica, apercebemo-nos de que um quadro completamente diferente se desenha nesta nossa discussão. É que uma mensagem profética não é uma mensagem que mete medo, mas uma mensagem que alarga os horizontes daquele a quem Cristo prometeu cumprir a Sua promessa feita no momento da sua própria criação.

– O que é determinante na Fé cristã é que ela não inspira, antes vence o medo. É necessário que este princípio fundamental seja o leit-motiv do nosso testemunho, a quinta essência da nossa espiritualidade. Voltemos uma vez mais àquilo de que falámos agora: é extremamente importante precisar em que sentido o Cristianismo é o cumprimento da promessa feita por Deus e em que sentido o não é. Eu sou da opinião de que a crise de Fé que atravessamos actualmente está intimamente ligada a esta pergunta, cuja resposta continua a ser confusa para muitos. À falta de uma resposta clara e precisa, surgem três perigos. O primeiro é que se interprete de uma forma puramente imanente e horizontal a promessa feita por Deus no Antigo Testamento, assim como a expectativa da salvação, pelos homens, em termos de estruturas, de experiências e de contributos cada vez melhores. Confinando o Cristianismo a este mundo, a um mundo que um dia irá desaparecer, não se conhece senão um Cristianismo encalhado, falhado. Com efeito, houve tentativas neste sentido, que queriam substituir o Cristianismo por ideologias prometedoras, de que surgiu o marxismo e suas diferentes variantes, identificando-o pura e simplesmente com o progresso humano em que se depositou toda a confiança. O segundo perigo é projectar o Cristianismo inteiramente no além, compreendê-lo e vivê-lo de uma forma puramente espiritual e individualista, negando assim a totalidade da realidade humana. O terceiro perigo, que é particularmente agudo nos momentos de crise e nas reviravoltas históricas, é refugiar-se numa exaltação apocalíptica. Face a estes três perigos, que deformam o verdadeiro rosto do Cristianismo, é tão urgente como imperativo apresentar a Fé cristã na sua pureza, particularmente o que ela promete, o que ela vai cumprir e aquilo que no fundo ela exige.

13 – Entre o misticismo sem palavra, puramente contemplativo e o misticismo profético com palavras, vê-se que existe uma grande tensão. Karl Rahner fez também alusão a esta tensão entre as duas formas de misticismo 14Apoiando-se no ensinamento místico de São João da Cruz, alguns pretendem que o misticismo sem palavra ou contemplativo é mais elevado, mais puro e mais espiritual, enquanto outros pensam que esta forma de misticismo sem palavra é completamente estranho ao Cristianismo, porque a Fé cristã se liga a uma religião da palavra 15– A dizer a verdade, o misticismo cristão tem também uma dimensão missionária. Ele não tem por fim suprimir o indivíduo, mas sim confiar-lhe uma missão, pondo-o em contacto com o Verbo, Cristo, que fala através do Espírito Santo. É um ponto que São Tomás de Aquino sublinha com muita insistência. Antes de São Tomás, era o “ou monge e depois místico, ou clérigo e depois teólogo”. São Tomás não aceitava isto, pela simples razão de que todo o dom místico leva a uma missão; e ele mesmo se recusava a considerar a missão como algo inferior à contemplação, uma espécie de vida de segunda classe, a despeito de Aristóteles, para quem a contemplação pura e sem nenhum compromisso prático está no cimo da escala dos valores humanos. São Tomás diz que não e afirma que a mais perfeita forma de vida é uma vida “mista”, isto é, primeiro mística e contemplativa e, depois disso, apostólica e activa, ao serviço do Evangelho. Esta afirmação ouve-se também clarissimamente em Santa Teresa d’Ávila, que liga o misticismo à cristologia. É ela que confere a dimensão missionária à espiritualidade contemplativa carmelita. Com isto, não tenho de modo algum a intenção de excluir o facto de o Senhor poder suscitar místicos autenticamente cristãos que não tenham nem uma missão particular no seio da Igreja. Mas desejaria simplesmente precisar que, na medida em que ela constitui, no plano doutrinário, o critério de discernimento e o fundamento espirituais de todos os místicos cristãos, a cristologia mostra, nesta nossa discussão, uma outra relação entre misticismo e missão ou entre contemplação e acção: Cristo e o Espírito Santo serão verdadeiramente dissociáveis? O “face-a-face” com Deus inclui por natureza o ser-para-os-outros. Se é verdade que o misticismo, no sentido cristão do termo, é uma entrada na intimidade com Deus, na união com Ele, escusado será dizer que este será um Cristo que vem para os outros, que aliás se irá de imediato encontrar e descobrir, depois de se estar unido a Ele.

14 – Muitos profetas, na Igreja, tais como Catarina de Sena, Brígida da Suécia e Sor Faustina Kowalska, atribuíram as suas mensagens proféticas a Cristo, que lhas revelou. Contudo, em Teologia, estas mensagens proféticas são correntemente chamadas ” revelações privadas”, termo que se presta a mal entendidos, porque toda a profecia autêntica é dirigida ao Povo de Deus enquanto Igreja, e não pode ser privada, propriamente falando.

– Em matéria de teologia, o termo “privado” não quer dizer que uma só pessoa está implicada, e não as outras. É um termo que significa o grau e que determina o contexto. Encontramo-lo, por exemplo, na expressão “missa privada”. O que importa fixar aqui, é pura e simplesmente que as “revelações” dos místicos cristãos ou dos profetas do tempo da Igreja jamais terão o mesmo lugar que ocupa a revelação bíblica, e que elas se subordinam a esta, nos enviam para ela e por ela se explicam. Por conseguinte, não se pode dizer que tais revelações não têm importância para a Igreja. Basta citar as aparições de Lourdes ou de Fátima, para provar o contrário. Estas aparições são, afinal, uma memória da revelação bíblica. E é justamente porque elas o são que têm uma autêntica importância.

15 – A história da Igreja testemunha um facto particular a respeito da profecia: É que a profecia provoca sempre ofensas, tanto da parte do profeta como da parte do destinatário. Como explica este dilema?

– Que uma profecia se não possa fazer ouvir sem provocar sofrimentos tanto no profeta como no destinatário, não é nada de novo. O profeta é chamado a sofrer de uma forma específica: a pedra-de-toque que verifica a autenticidade de um profeta é saber se sim ou não ele está disposto a sofrer, a partilhar a Cruz de Cristo. O profeta não procura nunca impor-se, e será a Cruz de Cristo que irá verificar e confirmar a autenticidade da sua mensagem.

16 – A frustração é, pois, quase inevitável, sempre que se vê como a maior parte das figuras proféticas o foram, enquanto vivos, rejeitados pela Igreja, pelos seus críticos e pelas suas tomadas de posição negativas. Uma grande parte dos profetas cristãos, tanto homens como mulheres, confirmam-no .

– Justamente. Santo Inácio de Loiola foi preso, tal como São João da Cruz. Santa Brígida da Suécia esteve quase a ponto de ser condenada pelo Concílio de Bale. A este respeito, a prática tradicional da Congregação para a Doutrina da Fé é dizer-nos que nos mantenhamos, num primeiro tempo, muito reservados, face às afirmações dos místicos. Justifica-se esta atitude, no sentido em que também existe muito falso misticismo, de casos patológicos. E esta a razão pela qual levamos um certo tempo a “ver a temperatura”, a fim de reconhecer se, no determinado caso, se não trata de sensacionalismo, de invenção ou de superstição. Um místico prova a sua autenticidade pelo sofrimento, pela submissão, pela sua paciência e persistência. E é assim que ele se impõe à audiência. Quanto à Igreja, deve evitar emitir prematuramente um juizo definitivo, a fim de evitar esta acusação: “matastes os profetas”.

17 – A última pergunta é talvez, embaraçosa. Relaciona-se com uma figura profética contemporânea, a greco-ortodoxa Vassula Ryden. É considerada como mensageira de Cristo por muitos teólogos, sacerdotes e bispos da Igreja Católica. As suas mensagens que, desde 1991, estão traduzidas em 34 línguas, foram difundidas em todo o mundo. A Congregação para a Doutrina da Fé pronunciou-se negativamente a seu respeito. A Notificação de 1995, muito embora reconheça nos escritos de Vassula certos aspectos positivos, foi interpretada, por muitos comentadores, como uma condenação. É esse o caso?

– Abordou um tema muito delicado. Não; a Notificação é apenas um aviso; não é uma condenação. Sob ponto de vista jurídico, ninguém pode ser condenado sem ter sido ouvido e sem que primeiro se lhe tenha organizado um processo. O que diz o documento é que, nos escritos em questão, muitas coisas estão ainda por esclarecer. Encontram-se neles elementos apocalípticos e aspectos eclesiológicos aparentemente equívocos. Há muito de bom nestes escritos, mas a cizânia pode vir misturada com a boa semente. E é este o motivo pelo qual convidamos os cristãos Católicos a manter-se prudentes no caso destes escritos e a deixar-se orientar pela Fé, transmitida pela Igreja.

18 – Isso quererá então dizer que, para esclarecer o assunto, está em vias de se organizar um processo?

– Sim. E, enquanto esse processo estiver em curso, será necessário que os fiéis se mantenham prudentes e vigilantes, num espírito de discernimento. Sem dúvida que se pode também ver nesses escritos uma evolução, que parece não estar ainda concluída.
E é necessário não esquecer que, mesmo num místico oficialmente reconhecido e autenticado, as palavras e as imagens inspiradas por Deus, no momento da revelação, dependem sempre das possibilidades de uma alma e formam-se segundo as suas limitadas capacidades.
Nós não fazemos confiança, de um modo incondicional, senão na Palavra da Revelação, que encontramos na Fé transmitida pela Igreja.

Referências:

1 2 1 Cf. Karl Rabner, “Vision und Prophezeiung”, Friburg, 1958, p. 21 e segs.: “Nunca uma teologia ortodoxa estudou os profetas, se bem que nos interroguemos sobre se verdadeiramente existem profetas na Igreja depois do tempo dos apóstolos, como discernir e reconhecer o seu carisma, que função ocupam na Igreja, qual a sua relação com a Igreja institucional, que significa a sua missão na Igreja, tanto no interior como fora desta mesma Igreja”.
3 1 Cf. Karl Rabner, “Vision und Prophezeiung”, Friburg, 1958, p. 21 e segs.: “Nunca uma teologia ortodoxa estudou os profetas, se bem que nos interroguemos sobre se verdadeiramente existem profetas na Igreja depois do tempo dos apóstolos, como discernir e reconhecer o seu carisma, que função ocupam na Igreja, qual a sua relação com a Igreja institucional, que significa a sua missão na Igreja, tanto no interior como fora desta mesma Igreja”.
Cf. Joseph Ratzinger, “Die Geschichtstheologie des hl. Bonaventura (A teologia da história de São Boaventura), Munich, 1959.

( . . . )

15 1 Cf. Karl Rabner, “Vision und Prophezeiung”, Friburg, 1958, p. 21 e segs.: “Nunca uma teologia ortodoxa estudou os profetas, se bem que nos interroguemos sobre se verdadeiramente existem profetas na Igreja depois do tempo dos apóstolos, como discernir e reconhecer o seu carisma, que função ocupam na Igreja, qual a sua relação com a Igreja institucional, que significa a sua missão na Igreja, tanto no interior como fora desta mesma Igreja”.
Cf. Joseph Ratzinger, “Die Geschichtstheologie des hl. Bonaventura (A teologia da história de São Boaventura), Munich, 1959.
Cf. Joseph Ratzinger, “La mia vita-Ricordi” (1927-1977), “A Minha vida – Memórias” (1927-1977), Roma, 1997, págs. 70 e segs.
Cf. Joseph Ratzinger, “La mia vita-Ricordi” (1927-1977) “A minha Vida – Memórias” (1927-1977), Roma, págs. 68 e segs.; Joseph Cardinal Ratzinger, Auf Christus schauen -Voruberlegungen zum Sinn des Jubiaumsjahres 2000, (Erguer o olhar para Cristo – reflexões preliminares sobre o sentido do jubileu do ano 2000), em Deutsche Tagespot, n. 31, 11 de Março de 1997, 5.
Cf. Joseph Cardinal Ratzinger, op. cit. em Deutsche Tagespot, n. 31, 11 de Março de 1997, 5.
Cf. Joseph Cardinal Ratzinger, “Wesenunid Auftrag der Theologie (A Essência e tarefa da Teologia)”, Freiburg 1993, p. 106.
Desde 1994 que Niels Christian Hvidt realiza um trabalho de teologia sobre “a profecia cristã”. Foi este o tema do seu trabalho de licenciatura em teologia, intitulado “Prophecy and Revelation” (Profecia e Revelação) que ainda não está publicado, mas foi já apresentado à faculdade de teologia da Universidade de Copenhague, em Janeiro de 1997. A Universidade atribuiu uma medalha de ouro a este trabalho, cujo resumo apareceu em “Studia Theologiae – Journal of Scandinavion Theology”, n. 2, 1998, sob o título “Prophecy and Revelation – a Theological Survey on the Problem of Christian Prophecy” (Estudo teológico do problema da profecia cristã). A este propósito, um muito obrigado a Dr. Yvonne Maria Werner, do Instituto da História da Universidade Lund, que estava presente, nesta entrevista.
Cf. Dt 34,10
Cf. Jo 16,13
Cf. Ef 2,20: Ef 4,11
Vgl. Mt 11,11
Jo 1,26 e segs.
1 Ts 5,19 e segs.
Cf. Karl Rahner, op. cit., p. 21: “Sim, pode talvez dizer-se – um pouco exageradamente – que a história da teologia mística, do misticismo, é uma história da discriminação teórica da profecia, do ser profético, em detrimento da contemplação pura, inspirada e sem palavra”.

A Divina Providência e a proteção da Virgem Maria

Santa Teresa de Ávila fundou, após muitas perseguições e sofrimentos físicos, o Convento São José. A nova Ordem, composta inicialmente por 13 monjas – as “Carmelitas Descalças”, foi fruto de uma verdadeira batalha espiritual. Travou-a, entre orações, doença e “securas” da alma (termo contido em “Livro da Vida”). Desse modo, nesta luta, permeada de luz e trevas, não faltaram elementos que incluíram desde obstáculos externos, de nível pessoal, dentro do Convento da Encarnação, bem como internos – tanto físicos, quanto psicológicos e espirituais. Assim, nos momentos de oração profunda, em estado de ascese obteve de Jesus Cristo o que ela própria denominou como “visões intelectuais”. Nestas, Ele lhe indicava por exemplo, que o novo convento deveria ser construído em honra à Sua Mãe Maria e a Seu Pai, por adoção São José. Por decorrência, com a sua fundação nasceu uma nova ordem dentro do catolicismo: a “Ordem Carmelita Descalça”, que vem se propagando no mundo inteiro, em escala geométrica, desde o final do século XVI.

O excerto abaixo, de autoria do frei carmelita Rafael María López-Melús, compõe a página “Los Santos Carmelitas”- http://carmelnet.org/chas/santos/santos.

“LA MADRE

La MADRE AMABLE DEL CARMELO cubriendo con su Capa Blanca a todos los Religiosos, Religiosas y Seglares carmelitas, es decir, a todos los carmelitas que se hallan en cualquiera de los tres estadios: Militante, Purgante y Triunfante. ¡Qué bien se está “Sub Tutela Matris”, en el REGAZO DE LA MADRE! Está escrito al pie de esta hermosa pintura:

“Ordo Beatissimae Virginis Mariae de Monte Carmelo. Gregorio Forts eum fecit en Madrid. La Señora del Carmelo nos libra de eterno llanto y debajo de su Manto hallan las almas consuelo”.

Fonte: http://carmelnet.org/chas/santos/madre.htm

Fantasias de um povo que apenas sobrevive, ou vive de fantasias…

Espero que sejam definitivos os links de acesso às principais obras de Santa Teresa de Jesus. Um deles menciono no post anterior, e outro, igualmente encantador, se chama “Carmelo Online“. Estão no “Blogroll” do “Castelo Interior” as três obras principais, publicadas por este outro blog de Carmelitas Descalças – “Castelo Interior – Moradas“, “Caminho de Perfeição” e “Livro da Vida“. Foi “misterioso” o modo como os encontrei, principalmente em meio a esta Babel chamada Internet…

Retirei os endereços anteriores devido aos apelos comerciais que se revelaram incômodos. Desde as duas últimas publicações, um deles apresentou deficit de desempenho e o outro passou a mostrar apelos comerciais impróprios. O último trazia a ferramenta “ad sense” com links, por exemplo, para quatro vídeos “promocionais” com modelo transexual (este site não permite conteúdo sexual; não conferi, mas por certo foram publicados para atrair curiosos); em outro, violência entre um casal para ficar com um carro último tipo (patético e grotesco!), ou então, publicidade para perder a “barriguinha” – casualmente não tenho que pensar nisto, mas o foco na cintura de uma modelo, ainda que vista uma calça jeans, destoa totalmente do objetivo a que nos propomos no blogue “Castelo Interior”. A publicidade na internet, em sua maior parte, chega à beira do rídiculo… Que os colegas publicitários me desculpem, mas “apelar” no carnaval é desespero de causa…

A propósito, as exclusões de links não tem nada a ver com as festas do período carnavalesco. Eu e meu marido não acompanhamos a festa, nem na tevê. Pelo contrário, me sinto incomodada. Fui a dois bailes de carnaval, antes de casar, e não houve um terceiro… Como jornalista, fui obrigada a fazer a cobertura de seis bailes de carnaval durante uma única madrugada. Me senti tal qual a Cinderela (só que ao contrário…), já que fui apanhada pelo motorista em nosso apartamento à meia-noite – sim, isto mesmo! Ele, cumprindo a pauta já trazia o repórter-fotográfico (acompanhado de sua namorada). De lá seguimos para o trabalho, enquanto meu marido dormia profundamente. Na verdade, todos achamos aquilo insuportável. Fazer o quê?

Então, lá se foi mais um carnaval, graças a Deus… Escrevo minúscula assim para não dar destaque à data. Afinal, pouco ou nada traz de positivo para a vida de nosso País. Se durante o ano inteiro vivemos imersos na realidade da corrupção, a sensação de atraso aumenta quando, por todos os meios, a euforia carnavalesca é incentivada…

Corro o risco de ser considerada rançosa, mas o carnaval, para mim, é uma festa popular quase anacrônica e irrealista. Explico: o tempo da leveza já passou, infelizmente. Além disso, os gastos com todo o mega-aparato para composição do desfile das escolas de samba é, no mínimo, escandaloso. Tanto o luxo como a complexidade de carros e adereços exigem altíssimas somas de dinheiro. Enquanto isto, a realidade brasileira é mostra de que cada vez mais o peso do dinheiro acaba justificando tudo, inclusive o fato de que se tornou um negócio…

Assim, o que fica evidente, ano após ano, é o aumento crescente de crimes associados ao consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas no período de carnaval. Para piorar, é assustador o número de vítimas por acidentes de trânsito, já que quem não participa da”folia” está sujeito ao perigo representado por quem bebeu, noite após noite. Mesmo com todas as insistentes campanhas – dirigem, e durante o dia vão para as avenidas e rodovias. Portanto, que ninguém se sinta seguro, mesmo na quarta feira de cinzas…

Nosso País há muito não pensa mais em prioridades. Vivemos o dia. Vale a questão: o que resta às futuras gerações? Terão motivação para festejar o que quer que seja em carnavais futuros? Ou, para lamento geral, teremos apenas grupos de jovens totalmente consumidos pelo “espírito” de catarse? Andarão em bandos, alcoolizados, drogados, ou em menor número, assustados pela violência repentina?

Que os jovens ouçam a voz da consciência, isto é, não desfaçam dos “apelos” suaves do Espírito Santo. Afinal, Jesus, para nos confortar, disse que O enviaria para que nos guardasse de todos os perigos – tanto do corpo quanto da alma. Isto também vale para nós pais, tios e tias, avós, amigos e amigas destas crianças e jovens. Estão, infelizmente, mais expostos a todo tipo de perversidades, ou seja, a um mundo que já não conhece limites… Precisamos todos nos voltarmos para o Insondável – o Criador, que é Pai, e seu Filho, Jesus Cristo, o Ressuscitado, e não somente para o que é efêmero. A finitude já não é algo para ser pensado a partir dos primeiros sinais de envelhecimento. Ela chega em nosso tempo de modo repentino. Que Deus nos dê, a cada dia, maior discernimento… Amém.