O sagrado na vida profana: lições de Santa Teresa de Jesus

S.TeresadeJesus_santiebeati.it

Imagem: “Santi, Beati e Testimoni”

Nada te perturbe
(Santa Teresa D’Ávila)

Nada te perturbe, Nada te espante,
Tudo passa, Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem, Nada lhe falta:
Só Deus basta.

Eleva o pensamento, Ao céu sobe,
Por nada te angusties, Nada te perturbe.
A Jesus Cristo segue, Com grande entrega,
E, venha o que vier, Nada te espante.
Vês a glória do mundo? É glória vã;
Nada tem de estável, Tudo passa.

Deseje às coisas celestes, Que sempre duram;
Fiel e rico em promessas, Deus não muda.

Ama-o como merece, Bondade Imensa;
Confiança e fé viva, Mantenha a alma,
Que quem crê espera, Tudo alcança.

A maldade, a injustiça,
O abandono, não ameaçará,
Quem a Deus tem,
Mesmo que passe por momentos difíceis;
Sendo Deus o seu tesouro, Nada lhe falta.

Ainda que tudo perca, Só Deus basta.

(Santa Teresa de Jesus)

Solenidade 15 de outubro – Memória: 04 de outubro (1515-1582)

Fonte: Oração: “Só Deus Basta”

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A Paixão de Jesus, Santa Teresa de Ávila e as provações

Santa Teresa de Jesus dizia que a intensidade dos obstáculos, das provações, das incompreensões (desde que, sobre as últimas, alerta ela, não sejamos a causa…) é a medida dos bálsamos que Ele irá derramar, no tempo devido sobre os nossos dramas mais íntimos, sobre dificuldades que são praticamente intransponíveis para as nossas forças e para as de quem amamos. Acredito que se isto acontece, por mais que tenhamos tentado evitar situações como as apontadas acima, é porque Deus é Onisciente, Onipresente e Onipotente. Ele, envolto em Seu Mistério, está nos preparando para algo que vai nos exigir um desafio extraordinário. A  vida vai correndo, e nos surpreende sempre mais…Para mim, necessariamente não enfrentaremos coisas negativas; enfrentaremos, sim,  situações complexas. Vivi situações que me deram esta noção. A  parte boa é que, pelas mãos de Deus, saberemos, dentro das circunstâncias, o que fazer , ou seja, seremos guiados pelo Espírito Santo.

Acredito que suportar o sofrimento que advém do que escapa de nossas mãos, somente é possível se nos determinamos a permanentemente caminhar com Jesus Cristo, tal como Ele desejava. Afinal, fizemos esta opção, e não outra… Ainda que certas situações pareçam aos nossos olhos um verdadeiro labirinto (sou do tipo “pesa e pondera”) – há a loucura do  mundo, e só de olhar, penso que quero e posso resistir. Confio N’Ele.

De memória, lembro das tribulações sofridas por ela quando recebeu ordem eclesiástica para levar o Convento de São José para a cidade de Toledo, na Espanha. Contava com o apoio de uma viúva, mãe de três filhas, sendo uma delas noviça sob a condução de Santa Teresa. Na viagem, cinco jovens freiras e esta senhora a acompanhavam. Santa Teresa vê nesta mulher nobreza de caráter, porque era discreta e determinada ao levar a cabo a compra da casa para o novo Convento São José naquela cidade. Tudo o que se passou foi, a meu ver, simplesmente horrível. A viagem se mostrou perigosa ao longo dos caminhos íngremes e acidentados que o grupo percorreu. Chovia muito; o tempo todo, e para piorar Santa Teresa padecia de uma forte dor de garganta… Conta inclusive que se não fosse a ajuda de dois sacerdotes que acompanhavam os dois cavalariços, teriam ficado pelo caminho, já que estes nenhum esforço queriam fazer para solucionar os problemas que apareciam. Todos já vivemos isto, não? Pessoas com má-vontade, que se não querem nosso mal, são indiferentes ao que veem acontecer, ainda que bem pagos… Não parou aí o rol de dificuldades. Após a chegada à cidade, outra sucessão de obstáculos, que contou inclusive com a exasperação do bispo local. Este, não a recebeu bem, em razão de não saber onde “instalar” as irmãs que acompanhavam Santa Teresa de Ávila. Mostrou-se, de fato, agressivo e impaciente com a Santa. No caso, movidas pela fé, suas “filhas”  – como ela em geral as chamava – rezavam para que conseguissem entrar e descansar em sua própria casa no dia de São José – 19 de março. Há o registro histórico deste acontecimento miraculoso após um mês e tanto. Ficaram em dois lugares na cidade, por ordem do bispo, já que os dois locais eram propriedades da diocese. Em um destes, o grupo que cedeu um quarto as tratava com desconfiança, temerosos, segundo Santa Teresa, de que acabassem ficando por ali. Ao final, a “fidalga” (como Santa Teresa a chamava) compra a preço muito baixo uma casa, que havia sido recusada por duas outras ordens religiosas, e outros interessados. Para espanto geral, intentaram junto ao bispo para a compra fosse desfeita, porque acarretaria prejuízo ao dono… Provavelmente havia alguém que esteve interessado na compra da propriedade. Por não suportar a contrariedade de perder a compra pelo valor que fora vendida à Ordem de Santa Teresa, tentou boicotar a venda…. O bispo, abrandado, não cedeu às pressões e manteve a compra. Santa Teresa deixou-as seguras na nova casa e partiu para resolver outras pendências. A dor de garganta, depois de tudo, tornou-se uma pequena contrariedade. Ela deixa de lado o assunto. Deve ter curado na volta, quando o “stress” acabou…

Penso que é desse modo que tudo acontece à nossa volta.  Enfim, lemos os escritos dela como se estivéssemos diante de um épico (algumas situações lembram, pela trama dos fatos, a vida hoje). Ou seja, há uma sucessão de tribulações que ela, suas subordinadas, os sacerdotes e a benfeitora enfrentam com destemor. Movidos todos pela confiança em Deus, nada os demove, e ainda que Santa Teresa padeça de dor na garganta, em meio a orações, todos seguem em frente como quem caminha sob as águas…

Para nós que somos católicos, e não nos pautamos por algum tipo de “doutrina da retribuição”, ou seja, “sou fiel a Deus, portanto venho lutando para ter o direito de não ficar tempo demasiado no fim da fila”… Por “fila” entenda-se: graças, bênçãos – saúde, prosperidade, amor, etc. Não é assim que se deu na vida dos santos e santas. Eles não calculavam os riscos ao enveredarem por certo caminho. Bastava que o caminho fosse agradável a Deus. Invocavam-no, lembrando o sacrifício de Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.

Quanto a nós… Penso que estamos indo muito mal; quase que tropeçando pelo caminho que nosso coração se inclinou. E pior, tanta coisa mudou nos últimos tempos que podemos até esquecer do principal: Ele, Cristo – Salvador e Mestre – há muito tempo, sussurrou-nos o caminho que devíamos seguir…

Assim, há, em meio à desumanização crescente, muitos que deixaram de acreditar que Deus nos ajude a levantar quando caímos (entre estes, os próprios cristãos). Segundo o pensamento vigente hoje, dizem ceticamente que quem cai, levanta e nada mais. A “força” do dinheiro passa a lhes mover, dia após dia. Será que o dinheiro dá conta de tudo? A meu ver, a força da gravidade já é um elemento contra o ser humano… Há perdas, infortúnios, álcool, e outras drogas para manter qualquer um no chão… Vemos todos os dias isto acontecendo nas ruas desta vida, e não creio que uma “mão aleatória” ajude qualquer um de nós a levantar, a sair do “fundo poço”, seja raso ou profundo… Se a mão veio, veio por inspiração divina…

Ainda assim,mesmo que contemos com a Providência Divina, somos fracos e por mais ponderados, centrados que sejamos, certo dia sai um grito de revolta. Parece que a injustiça, o desamor, o egocentrismo, o egoísmo, entre outras maldades humanas vão sufocar o bem, a esperança. O grito sai e vem junto o pranto, de arrependimento… Queríamos ajudar Jesus a subir o tenebroso monte Gólgota, destinado pelos romanos e juízes judeus, aos assassinos, ladrões e rebeldes. Lembramos então que fizemos, para nós próprios, uma profissão de fé: oferecer nosso ombro a Jesus Cristo, na subida do Calvário. Podemos vê-lo em cada um que está esgotado, sem saída, doente, faminto, etc. Jesus foi obrigado a carregar a própria cruz (o que não era comum na época). Castigo dos castigos… A Verdade do Messias tem que ser subjugada. Deve servir de exemplo: sob o peso da cruz, Jesus deve subir o monte Gólgota com uma coroa de espinhos na cabeça, em meio a chibatadas, cusparadas, cravos nas mãos e nos pés, e, ao pedir água Lhe dão vinagre…  Carrega portanto os pecados pesadíssimos de uma humanidade perdida em frivolidades, por inumeráveis  desatinos, que se debate entre a maldade, a perfídia e o egoísmo. Mas quisemos seguir-lhe no Caminho, para aliviá-lo do sofrimento das dores corporais e espirituais que carrega. O madeiro corta nossa carne e gememos – até soltamos um grito sufocado porque Sua Cruz é pesada demais… Ele percebe e nos abençoa, olhando-nos nos olhos com piedade, e em meio à dor atroz, sem volta, nos ordena – sem palavras – que sigamos com a nossa… Nossa fraqueza, nesse momento, é oposta à sua bondade, e por ser o “Perfeito Amor” nem leva nossa covardia em conta. Afinal, para nosso consolo, naquele gesto, nos mostra que sua Paixão não será inútil… Queremos acompanhá-lo…

Senhor Jesus, Cristo crucificado por nossas faltas e fraquezas, perdoai-me e ajudai-me a ser melhor, muito melhor do que sou. O mundo disputa minha alma como um abutre… Mas somente a ti quero agradar. O mundo é uma contingência. Cinge-me com a armadura da Fé para que eu (e aqueles que Te amam) resistam nos dias maus. Assim seja.

As Escrituras Sagradas nos alertam sobre os perigos que corremos. São Pedro, teu sucessor, já dizia que “os inimigos de nossa alma, rugem como leões à nossa volta, para nos devorarem”. Teu outro Apóstolo – São Paulo – ensinou-nos que a “Fé é a certeza das coisas que não se pode ver…”. Amado Jesus, que foste à “mansão dos mortos” e ao inferno, e de lá, voltou para glória da Ressurreição, conforme havia prometido aos Apóstolos, guia-nos até o fim. Assim seja.

As perfídias, o sangue derramado, os cravos, os espinhos cravados na face, o escárnio, a traição, o abandono, , enfim, tudo que sofreste até ser levantado na Cruz e sofrer o horror das muitas dores, creia que nada disso foi em vão. Continua trazendo, Cristo Jesus, a sabedoria do Espírito Santo que prometeste para nos guiar neste mundo de enganos e trevas. És a nossa esperança porque és o amor, a misericórdia. Nos perdoe e abençoe. Assim seja.

(LBN)

09 de abril de 2009.

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4 comentários em “O sagrado na vida profana: lições de Santa Teresa de Jesus”

  1. Cara Josefa, e muito adequada a sua reflexão sobre a diferença entre as condições materiais do Carmelo antigo e o Carmelo, no caso, Descalço, que Santa Teresa havia imaginado, inspirada em suas conversas com Cristo, em momentos de ascese. A partir de sua primeira fundação – a do Carmelo São José, em Ávila, inaugura-se um novo modo de viver a vida monástica da clausura carmelitana: as ordens passaram a viver de modo profundamente espiritual, inclusive, no plano material. Passaram a contar somente com a Providência Divina. Um grande desafio para ela, que, com bem ressaltaste, vivera na condição de segurança material plena na casa paterna e no mosteiro do Carmo de Ávila, por duas décadas. Foi tão feliz no empreendimento, que mosteiros descalços foram fundados por ela, em grande número já em seu tempo, nas duas décadas seguintes (até 1582). É interessante notar que, de acordo com registros, após sua partida, até nossos dias, é sempre crescente o número de fundações de conventos carmelitas descalços. Desde lá, eles vêm se espalhando por todos os cantos do mundo.
    Grata pela participação, e volte sempre!

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  2. Lúcia terminei de ler suas duas reminiscências colocadas aqui. Soube fazer um grande paralelo entre as dificuldades de Santa Teresa em sua primeira fundação, em condições materiais paupérrimas e de insegurança imensa. Porque coloco a pobreza material? Teresa nunca tinha passado necessidades materiais, enquanto nos conventos da época, havia a continuação dos castelos feudais. Por que a insegurança? Ela estava se lançando ao desafio de reavivar a essência do voto de pobreza do Carmelo primitivo. Mas ela tinha a certeza do que o “Amado” lhe pedia isto. Nós, do séc. XXI, [quanto às] dificuldades, [podemos perceber que] não são totalmente [referentes ao] problema da pobreza material (exceto os que não têm nada, e por isto têm Deus no coração), e sim, o de [pobreza] intelectual. Nossa pobreza atual é emocional, afetiva, o vazio intrínseco – não preenchido pelos bens que o mundo oferece e que só em Deus se encontram. “Só Deus basta” – dizia Teresa, enquanto continuamos a dizer – “Só eu me basto”, mesmo quando percebemos que entramos em um abismo profundo, onde, pelo egoismo humano, como o meu, ninguém me ajudará a sair.

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