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Discurso do Papa Bento XVI na Basílica de São João de Latrão na abertura do Congresso Eclesial da Diocese de Roma sobre «Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé» (ACI Digital)

O 7° Encontro Mundial de Famílias, que teve início ontem, dia 30 de maio e se estende até 3 de junho, em Milão, acontece em meio ao impacto do lançamento do livro “Sua Santidade”, há quatro dias – 27 de maio, publicado por jornalista italiano, supostamente com base em correspondências particulares de Bento XVI, ainda que não sejam de caráter estritamente pessoal. Foram roubadas de sua residência pelo empregado que era seu assistente pessoal desde 2006. Apesar de se dizer triste, o Papa segue com sua agenda, enquanto seu mordomo está preso. Provavelmente há informações não comprovadas, tal como aconteceu com o romance de ficção “O Código Da Vinci”, escrito por Dan Brown. Este autor apresentou como referências, após o término do romance, vários documentos, no entanto, algum tempo depois muitos deles, senão a maioria, foram declarados como não existentes pelos estudiosos que se dedicaram a encontrar suas fontes bibliográficas. Assim, apesar da gravidade que o quadro representa para aIgreja Católica, ou seja, o roubo das comunicações mantidas principalmente entre o Papa e alguns cardeais de suas relações mais próximas, evidencia um ataque premeditado, ainda que disfarçado de “boas intenções”. Tudo indica que a personalidade decidida do papa Bento XVI, mas ponderada, aliada à inteligência e à perspicácia em assuntos polêmicos, a seu tempo, permitirá que as notícias estampadas como escândalos na imprensa mundial sejam devidamente contextualizadas. Afinal, há uma realidade complexa quanto aos fatos que constituem os aspectos mundanos inerentes ao Estado do Vaticano, e principalmente, quanto ao esforço pela manutenção da unidade da Santa Sé. Esta, mantém a solidez da espiritualidade cristã católica ao longo de 20 séculos, contemplando cerca de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo. Sobre o assunto acesse o link da Agência Ecclesia – Portugal:

Vaticano: Divulgação pública de correspondência dirigida ao Papa foi ataque «muito violento» a Bento XVI : “(…)O arcebispo frisou que o Papa “não perde a serenidade que lhe permite governar a Igreja com determinação e clarividência” e disse esperar que o Encontro Mundial das Famílias, a decorrer até domingo na cidade italiana de Milão, com a presença de Bento XVI a partir de sexta-feira, seja uma ocasião “de festa” e “alegria. (…)” – Agência Ecclesia – Portugal – 31.05.2012.

Leia também: Vaticano: Bento XVI pede aos fiéis para «rezarem pelo sucesso» do 7º Encontro Mundial de Famílias – “Evento começa esta quarta-feira em Milão e o Papa espera que seja uma ocasião para todos descobrirem a sua vocação na Igreja e no mundo” (Agência Eccleia – Portugal – 27.05.2012).

Fonte/imagem: Agência Ecclesia (D.R.).

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Fonte: ACI Digital (Extraído de A Santa Sé – Site Oficial  Vaticano – “Documentos” – Libreria Editrice Vaticana)

Discurso do Papa Bento XVI na Basílica de São João de Latrão na abertura do Congresso Eclesial da Diocese de Roma sobre «Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé»

06 de junho de 2005

Tópicos:O fundamento antropológico da família“, “Matrimônio e família na história da salvação“, “Os filhos“, “A ameaça do relativismo“, “Sacerdócio e vida consagrada.

“Queridos irmãos e irmãs:

Acolhi com muito prazer o convite de introduzir com uma reflexão este congresso diocesano antes de tudo porque me dá a possibilidade de encontrar-me convosco, de ter um contato direto, e depois porque me permite ajudar-vos a aprofundar no sentido e objetivo do caminho pastoral que a Igreja de Roma está percorrendo.

Saúdo com afeto a cada um de vós, bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, e em particular a vós, leigos e famílias, que assumis conscientemente essas tarefas de compromisso e testemunho cristão que tem sua raiz no sacramento do batismo e para aqueles que estão casados, no do matrimônio. Agradeço de coração ao cardeal vigário e aos esposos Luca e Adriana Pasquale pelas palavras que me dirigiram em vosso nome.

Este congresso, e o ano pastoral ao que oferecerá as linhas guia, constituem uma nova etapa no percurso que a Igreja começou, baseando-se no Sínodo diocesano com a missão cidadã querida por nosso querido Papa João Paulo II em preparação do grande Jubileu do ano 2000. Naquela missão, todas as realidades de nossa diocese –paróquias, comunidades religiosas, associações e movimentos– se mobilizaram não só com motivo de uma missão ao povo de Roma, mas também para ser elas mesmas «povo de Deus em missão», pondo em prática a acertada expressão de João Paulo II, «paróquia, busca-te e encontra-te fora de ti mesma»: ou seja, nos lugares nos quais vive o povo. Deste modo, no transcurso da missão cidadã, muitos milhares de cristãos de Roma, em grande parte leigos, converteram-se em missionários e levaram a palavra da fé em primeiro lugar às famílias dos diferentes bairros da cidade e depois nos diferentes lugares de trabalho, nos hospitais, na escola e nas universidades, nos espaços da cultura e do tempo livre.

Depois do Ano Santo, meu amado predecessor vos pediu para não interromper este caminho e não dispensar as energias apostólicas suscitadas e os frutos de graça recolhidos. Por isso, a partir do ano 2001, a orientação pastoral fundamental da diocese foi a de conformar permanentemente a missão, caracterizando em sentido mais decididamente missionário a vida e as atividades das paróquias e de cada uma das demais realidades eclesiais. Quero dizer-vos antes de tudo que quero confirmar plenamente esta opção: faz-se necessária cada vez mais e sem alternativas, em um contexto social e cultural no qual atuam forças múltiplas que tendem a afastar-nos da fé e da vida cristã.

Há já dois anos, o compromisso missionário da Igreja de Roma se concentrou sobretudo na família, não só porque esta realidade fundamental é submetida hoje a múltiplas dificuldades e ameaças, e portanto tem particular necessidade de ser evangelizada e apoiada concretamente, mas também porque as famílias cristãs constituem um recurso decisivo para a educação na fé, a educação da Igreja como comunhão e sua capacidade de presença missionária nas situações mais variadas da vida, assim como para fermentar em sentido cristão a cultura e as estruturas sociais. Continuaremos com estas orientações também no próximo ano pastoral e por este motivo o tema de nosso congresso é «Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé». O pressuposto pelo qual há que começar para compreender a missão da família na comunidade cristã e suas tarefas de formação da pessoa e de transmissão da fé segue sendo sempre o significado que o matrimônio e a família têm no desígnio de Deus, criador e salvador. Este será portanto o miolo de minha reflexão desta tarde, remontando-me ao ensinamento da exortação apostólica «Familiaris consortio» (segunda parte, números 12-16).

O fundamento antropológico da família

Matrimônio e família não são uma construção sociológica casual, fruto de situações particulares históricas e econômicas. Pelo contrário, a questão da justa relação entre o homem e a mulher funde suas raízes na essência mais profunda do ser humano e só pode encontrar sua resposta a partir desta. Não pode separar-se da pergunta sempre antiga e sempre nova do homem sobre si mesmo: quem sou? E esta pergunta, por sua vez, não pode separar-se do interrogante sobre Deus: existe Deus? E, quem é Deus? Como é verdadeiramente seu rosto? A resposta da Bíblia a estas duas perguntas é unitária e consequencial: o homem é criado à imagem de Deus, e Deus mesmo é amor. Por este motivo, a vocação ao amor é o que faz do homem autêntica imagem de Deus: faz-se semelhante a Deus na medida em que se converte em alguém que ama.

Deste laço fundamental entre Deus e o homem se deriva outro: o laço indissolúvel entre espírito e corpo: o homem é, de fato, alma que se expressa no corpo e corpo que é vivificado por um espírito imortal. Também o corpo do homem e da mulher tem, portanto, por assim dizer, um caráter teológico, não é simplesmente corpo, e o que é biológico no homem não é só biológico, mas expressão e cumprimento de nossa humanidade. Do mesmo modo, a sexualidade humana não está ao lado de nosso ser pessoa, mas que lhe pertence. Só quando a sexualidade se integra na pessoa consegue dar-se um sentido a si mesma.

Deste modo, dos dois laços, o do homem com Deus e –no homem– o do corpo com o espírito, surge um terceiro laço: o que se dá entre pessoa e instituição. A totalidade do homem inclui a dimensão do tempo, e o «sim» do homem é um ir mais além do momento presente: em sua totalidade, o «sim» significa «sempre», constitui o espaço de fidelidade. Só em seu interior pode crescer essa fé que dá um futuro e permite que os filhos, fruto do amor, creiam no homem e em seu futuro em tempo difíceis. A liberdade do «sim» se apresenta portanto como liberdade capaz de assumir o que é definitivo: a expressão mais elevada da liberdade não é então a busca do prazer, sem chegar nunca a uma autêntica decisão. Aparentemente, esta abertura permanente parece ser a realização da liberdade, mas não é verdade: a verdadeira expressão da liberdade é pelo contrário a capacidade de decidir-se por um dom definitivo, no qual a liberdade, entregando-se, volta a encontrar-se plenamente a si mesma.

Em concreto, o «sim» pessoal e recíproco do homem e da mulher abre o espaço para o futuro, para a autêntica humanidade de cada um, e ao mesmo tempo está destinado ao dom de uma nova vida. Por este motivo, este «sim» pessoal tem de ser necessariamente um «sim» que é também publicamente responsável, com o qual os cônjuges assumem a responsabilidade pública da fidelidade, que garante também o futuro para a comunidade. Nenhum de nós pertence exclusivamente a si mesmo: portanto, cada um está chamado a assumir no mais íntimo de si sua própria responsabilidade pública. O matrimônio, como instituição, não é portanto uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, uma imposição desde o exterior na realidade mais privada da vida; é pelo contrário uma exigência intrínseca do pacto de amor conjugal e da profundidade da pessoa humana.

As diferentes formas atuais de dissolução do matrimônio, como as uniões livres e o «matrimônio à prova», até o pseudomatrimônio entre pessoas do mesmo sexo, são pelo contrário expressões de uma liberdade anárquica que se apresenta erroneamente como autêntica libertação do homem. Uma pseudoliberdade se baseia em uma banalização do corpo, que inevitavelmente inclui a banalização do homem. Seu pressuposto é que o homem pode fazer de si o que quer: seu corpo se converte deste modo em algo secundário, manipulável desde o ponto de vista humano, que se pode utilizar como se quer. A libertinagem, que se apresenta como descobrimento do corpo e de seu valor, é a realidade um dualismo que faz depreciável o corpo, deixando-o por assim dizer fora do autêntico ser e dignidade da pessoa.

Matrimônio e família na história da salvação

A verdade do matrimônio e da família, que funde suas raízes na verdade do homem, encontrou aplicação na história da salvação, em cujo centro está a palavra: “Deus ama o seu povo!”. A revelação bíblica, na verdade, é antes de tudo expressão de uma história de amor, a história da aliança de Deus com os homens: por este motivo, a história do amor e da união de um homem e uma mulher na aliança do matrimônio pôde ser assumida por Deus como símbolo da história da salvação. O fato inefável, no mistério do amor de Deus pelos homens, toma sua forma lingüística do vocabulário do matrimônio e da família em positivo e em negativo: A aproximação de Deus ao seu povo é apresentada com a linguagem do amor esponsal, enquanto a infidelidade de Israel, a sua idolatria, é designada como adultério e prostituição.

No Novo Testamento, Deus radicaliza seu amor até tornar-se Ele mesmo, no seu Filho, carne da nossa carne, verdadeiro homem. Neste modo, a união de Deus com o homem assumiu a sua forma suprema, irreversível e definitiva. E deste modo se traça também pelo amor humano a sua forma definitiva, esse “sim” recíproco que não se pode revogar: não aliena o homem, mas o liberta da alienações da história por reportá-lo à verdade da criação. A sacramentalidade que o matrimônio assume em Cristo significa, portanto que o dom da criação foi elevado à graça da redenção. A graça de Cristo não se sobrepõe desde fora à natureza do homem, não a violenta, mas a liberta e a restaura, ao elevá-la mais além de suas próprias fronteiras. E como a encarnação do filho de Deus revela o seu verdadeiro significado na cruz, assim o amor humano autêntico é doação de si, não pode existir se evita a cruz.

Queridos irmãos e irmãs, este laço profundo entre Deus e o homem, entre o amor de Deus e o amor humano, é confirmado por algumas tendências e desenvolvimentos negativos, cujo peso experimentamos todos. O envelhecimento do amor humano, a supressão da autêntica capacidade de amar se apresenta em nosso tempo como a arma mais eficaz para que o homem afaste de Deus, para afastar Deus do olhar e do coração do homem. Agora, a vontade de «libertar» a natureza de Deus leva a perder de vista a realidade mesma da natureza, inclusive a natureza do homem, reduzindo-a a um conjunto de funções, das quais se pode dispor segundo seus próprios gostos para construir um suposto mundo melhor e uma suposta humanidade mais feliz, pelo contrário, destrói-se o desígnio do Criador e ao mesmo tempo a verdade de nossa natureza.

Os filhos

Também na procriação dos filhos o matrimônio reflete seu modelo divino, o amor de Deus pelo homem. No homem e na mulher, a paternidade e a maternidade, como sucede com o corpo e com o amor, não se circunscrevem ao aspecto biológico: a vida só se dá totalmente quando com o nascimento se oferecem também o amor e o sentido que fazem possível dizer sim a esta vida. Precisamente por isto, fica claro até que ponto é contrário ao amor humano, à vocação profunda do homem e da mulher, o fechar sistematicamente a própria união ao dom da vida e, ainda mais, suprimir ou manipular a vida que nasce.

Agora, nenhum homem e nenhuma mulher, por si só e só com suas próprias forças, pode dar adequadamente aos filhos o amor e o sentido da vida. Para poder dizer a alguém: «tua vida é boa, ainda que não conheça teu futuro», são necessárias uma autoridade e uma credibilidade superiores, que o indivíduo não pode dar-se por si só. O cristão sabe que esta autoridade é conferida a essa família mais ampla que Deus, através de seu Filho, Jesus Cristo, e do dom do Espírito Santo, criou na história dos homens, ou seja, a Igreja. Reconhece a ação desse amor eterno e indestrutível que assegura à vida de cada um de nós um sentido permanente, ainda que não conheçamos o futuro. Por este motivo, a edificação de cada uma das famílias cristãs se marca no contexto da grande família da Igreja, que a apóia e a acompanha, e garante que há um sentido e que em seu futuro se dará o «sim» do Criador. E reciprocamente a Igreja é edificada pelas famílias, «pequenas Igrejas domésticas», como as chamou o Concílio Vaticano II («Lumen gentium», 11; «Apostollicam actuositatem», 11), redescobrindo uma antiga expressão patrística (São João Crisóstomo, «In Genesim serm.» VI,2; VII,1). Neste sentido, a «Familiaris consortio» afirma que «o matrimônio cristão… constitui o lugar natural dentro do qual se leva a cabo a inserção da pessoa humana na grande família da Igreja» (n. 15).

A família e a Igreja

De tudo isto se deriva uma conseqüência evidente: a família e a Igreja, em concreto as paróquias e as demais formas de comunidade eclesial, estão chamadas à mais íntima colaboração nessa tarefa fundamental que está constituída, inseparavelmente, pela formação da pessoa e a transmissão da fé. Sabemos bem que para que aconteça uma autêntica obra educativa não basta uma teoria justa ou uma doutrina que comunicar. Necessita-se algo muito maior e humano, essa proximidade, vivida diariamente, que é própria do amor e que encontra seu espaço mais propício antes de tudo na comunidade familiar, e depois em uma paróquia ou movimento ou associação eclesial, nos que se encontram pessoas que prestam atenção aos irmãos, em particular às crianças e jovens, assim como aos adultos, anciãos, enfermos, às próprias famílias, porque, em Cristo, amam-nos. O grande patrono dos educadores, São João Bosco, recordava a seus filhos espirituais que «a educação é coisa de coração e que só Deus é seu dono» («Epistolário», 4,209).

A figura do testemunho é central na obra educativa, e especialmente na educação na fé, que é o cume da formação da pessoa e seu horizonte mais adequado: converte-se em ponto de referência precisamente na medida em que sabe dar razão da esperança que fundamenta sua vida. (Cf. 1 Ped 3, 15), na medida em que está envolvido pessoalmente com a verdade que propõe. O testemunho, por outro lado, não se assinala a si mesmo, mas assinala a algo, ou melhor, a Alguém maior que ele, com o qual se encontrou e de quem experimentou uma bondade confiável. Deste modo, todo educador e testemunho encontra seu modelo insuperável em Jesus Cristo, o grande testemunho do Pai, que não dizia nada por si mesmo, mas que falava tal e como o Pai o havia ensinado (Cf. João 8, 28).

Este é o motivo pelo qual no fundamento da formação da pessoa cristã e da transmissão da fé está necessariamente a oração, a amizade pessoal com Cristo e a contemplação nele do rosto do Pai. E o mesmo se pode dizer de todo nosso compromisso missionário, em particular, de nossa pastoral familiar: que a Família de Nazaré seja, portanto, para nossas famílias e comunidades, objeto de constante e confiada oração, assim como modelo de vida.

Queridos irmãos e irmãs, e especialmente vós, queridos sacerdotes: sou consciente da generosidade e a entrega com a qual servis ao Senhor e à Igreja. Vosso trabalho cotidiano pela formação na fé das novas gerações, em íntima união com os sacramentos da iniciação cristã, assim como também pela preparação ao matrimônio e pelo acompanhamento das famílias em seu caminho, que com freqüência, em particular na grande tarefa da educação dos filhos, é o caminho fundamental para regenerar sempre de novo a Igreja e também para vivificar o tecido social de nossa amada cidade de Roma.

A ameaça do relativismo

Segui, portanto, sem deixar-vos desalentar pelas dificuldades que encontrais. A relação educativa é, por sua mesma natureza, algo delicado: implica a liberdade do outro que, ainda que seja com doçura, de todos os modos é provocado a tomar uma decisão. Nem os pais, nem os sacerdotes, nem os catequistas, nem os demais educadores podem substituir a liberdade da criança, do adolescente ou do jovem a quem se dirigem. E a proposta cristã interpela especialmente a fundo a liberdade, chamando-a à fé e à conversão. Um obstáculo particular insidioso na obra educativa é hoje a massiva presença em nossa sociedade e cultura desse tipo de relativismo que, ao não reconhecer nada como definitivo, só tem como medida última o próprio eu com seus gostos e que, com a aparência da liberdade, converte-se para cada um em uma prisão, pois separa dos demais, fazendo que cada um se encontre fechado no próprio «eu». Em um horizonte relativista assim não é possível, portanto, uma autêntica educação: sem a luz da verdade antes ou depois toda pessoa fica condenada a duvidar da bondade de sua mesma vida e das relações que a constituem, da validez de seu compromisso para construir com os demais algo em comum.

Está claro, portanto, que não só temos de tentar superar o relativismo em nosso trabalho de formação de pessoas, mas que estamos também chamados a enfrentarmos seu predomínio destrutivo na sociedade e na cultura. Por isso, é muito importante que, junto à palavra da Igreja, dê-se o testemunho e o compromisso público das famílias cristãs, em particular para reafirmar a inviolabilidade da vida humana desde sua concepção até seu ocaso natural, o valor único e insubstituível da família fundada sobre o matrimônio e a necessidade de medidas legislativas e administrativas que apóiem as famílias na tarefa de engendrar e educar os filhos, tarefa essencial para nosso futuro comum. Por este compromisso vosso também vos agradeço de coração.

Sacerdócio e vida consagrada

A última mensagem que gostaria de deixar-vos afeta a atenção pelas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada: todos sabemos a necessidade que tem a Igreja! Para que nasçam e amadureçam estas vocações, para que as pessoas chamadas se mantenham sempre dignas de sua vocação, é decisiva antes de tudo a oração, que não deve faltar nunca em cada uma das famílias e na comunidade cristã. Mas também é fundamental o testemunho de vida dos sacerdotes, dos religiosos e das religiosas, a alegria que expressam por haver sido chamados pelo Senhor. E é assim mesmo essencial o exemplo que recebem os filhos dentro de sua própria família e a convicção nas famílias de que a vocação dos filhos é também para elas um grande dom do Senhor. A opção pela virgindade por amor de Deus e dos irmãos, que é exigida para o sacerdócio e a vida consagrada, está acompanhada pela valorização do matrimônio cristão: a uma e a outra, com duas formas diferentes e complementares, fazem em certo sentido visível o mistério da aliança entre Deus e seu povo.

Queridos irmãos e irmãs, confio-vos estas reflexões como contribuição a vosso trabalho nas noites do Congresso e depois durante o próximo ano pastoral. Peço ao Senhor que vos dê valentia e entusiasmo para que nossa Igreja de Roma, cada paróquia, cada comunidade religiosa, associação ou movimento participe intensamente na alegria e no esforço da missão e deste modo cada família e toda a comunidade cristã redescubra no amor do Senhor a chave que abre a porta dos corações e que faz possível uma autêntica educação na fé e na formação das pessoas. Meu afeto e minha benção vos acompanham hoje e no futuro.” (Bento XVI – 06 de junho de 2005).

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Publicado em ACI Digital. Extraído de A Santa Sé – “Documentos” – Site Oficial do Vaticano – Discurso do Papa Bento XVI na Basílica de São João de Latrão na abertura do Congresso Eclesial da Diocese de Roma sobre «Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé» – 06 de junho de 2005.

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