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“Traz a tua cruz e segue-me, reúne as tuas memórias dolorosas e o que sufoca a vida, o que te prostra e não compreendes. Junta-te ao mal que atola o mundo, junta o teu grão de dor à dor do mundo e segue-me(…)” – SNPC (Portugal) – Poemas – Quaresma

Bellini - "Transfiguração"

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC-Portugal) – imagem/artigo

Meditação

Oração e transfiguração

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Fonte: SNPC-Portugal

VIAGEM NO DESERTO

(…)

Venha o teu tempo

Deus, dá à nossa vida
a pobreza do Espírito e da miséria
pois só assim se conhece a esperança
dá-nos o dom da doçura
que acalma a tristeza e reduz o ódio
dá-nos a presença discreta e silenciosa
junto dos que sofrem

Que a justiça que não demos
nos pese como a fome ou a sede
e não apenas como uma palavra vazia;
que se abra à miséria o nosso coração
e saibamos perdoar;
dá-nos o conhecimento e o gosto das lágrimas
para melhor acolhermos a vida
e os recomeços

Que venha o teu tempo, Deus,
o teu dia,
não amanhã,
mas o hoje
e para um tempo
que não acabará nunca

O Passante

Àqueles que vigiam
desde o despontar do dia
concede a tua luz laranja

Que os nossos lábios te louvem
e as portas dos nossos corações
de par em par se abram
e permaneçam assim abertas
aos que passam,

Tu o passante
da noite terrível da solidão
e do abandono,
Deus do que sabe o dia
e teme a noite,
e a cada um conhece pelo nome

Momento Penitencial

Cura-nos, Senhor, das feridas da malícia
que a vontade abriu, desgovernada

Cura-nos, Senhor, das feridas da ignorância que a inteligência consentiu,
tão cega de destino e de prudência

Cura-nos, Senhor, das feridas da lassidão
a que o apetite sensível nos expõe,
perdidas as rédeas da razão e da vontade

Cura-nos, Senhor, das feridas das concupiscências várias
pois mal sabemos já  distinguir entre as cobiças
as que ao bem conformes, ou combatendo-o

Que a hora de Jesus Cristo,
nosso irmão em nossa natureza
enxote a sombra que vestiu Adão
e nos escureceu

Que a tua obra nos integre
no arco-íris da graça e da justiça,
abertas as portas ao Espírito,
o nosso corpo alagado, renascido,
para a faina dos dias
e o louvor das horas

Deus Absconditus

Onde estás, Deus libertador
que nos perguntam por ti e não te vemos?
Deus escondido, onde estás?
Devemos procurar-te entre os destroços,
a cinza e as mãos cortadas como canas verdes,
ou à frente das batalhas,
entre os que caminham como o vento
e as folhas das plantas, sensíveis à luz,
entre os que vão de cabeça alta e regressam
da servidão do saco e do tijolo
os que acordados vêm,
os pés recentemente desatados,
a língua solta?
Deus escondido, onde moras?
devemos procurar-te entre as que fizeram o êxodo
e começaram a amar,
os que morrendo a si já ressuscitam
os que rompem as muralhas da pele e pedem água?
devemos procurar-te naqueles que sobem à montanha
para molhar as mãos de luz e transfigurar-se?
na solidão dos montes apalparei a tua face?
na limpidez dos rios e as palavras
com que fizeste o mundo verei a tua mão correndo?

Onde devemos esperar-te, Deus da surpresa
e como nós trânsfuga?
Deus dos que não têm voz nem barcos
para na albufeira olhar a alma
a crescer como a sombra dos pinheiros
anoitece a alma e o rio,
Deus gratuito, onde estás?

Devemos procurar-te na poesia e no canto,
no amor e na beleza,
na barraca e no lixo?
onde apareces, Deus amigo dos pobres,
onde te acharemos, Deus libertador?

Intróito
I
Nós pedimos o pão
como o elementar da vida
e pedimos o perdão
como a leveza que transporta o mundo

Quando voltamos os olhos para Deus
que não está no céu,
mas no mistério da vida infinita,
inimaginável,
donde Ele vem e se faz próximo,
que dizemos?

Que o Misericordioso
alivie a nossa vida do peso do ressentimento
e da angústia do abandono
e nos faça entrar na barca que leva ao paraíso
da vida abençoada

II
Alguém saudou a escuridão da nossa casa;
alguém acordou e atiçou um sonho
onde ressoam passos de profetas

Viemos para reconhecer
e atirar a nossa alma para a eira dessa batida

Viemos para trocar os sonhos
que são o lugar de anamnese,
de unidade e de transcendência

Antes de nós, Isaías, Acaz, Sofonias,
sonharam com o dia que se aproxima.
a hora é de adivinhar a presença amante
nos sinais do amor,
no perdão,
no devir de nós mesmos,
à luz que vem ungir os olhos
da doçura da misericórdia

III
Traz a tua cruz e segue-me,
reúne as tuas memórias dolorosas
e o que sufoca a vida, o que te prostra e não compreendes
junta-te ao mal que atola o mundo,
junta o teu grão de dor à dor do mundo e segue-me
neste acto em que me dou a vós, baptizados no meu nome,
junta-te ao meu caminho, que foi de morte e foi de Páscoa

Estamos reunidos na memória da Páscoa
a fim de aprender a renascer das lágrimas
cada vez em que o tecido da nossa vida comum
irremediavelmente se rasgou,
tornando-se encontro com o Todo-desconhecido

Deus não é estranho a esta festa
em que dizemos, cada um no seu coração os nomes daqueles
que nos precederam na vida e nos afectos
e passaram a morte para se inscreverem
numa nova ordem de comunicação

Porque dizer, aqui, é ligar:
a nossa vida está escondida em Deus:
Ele sabe a caminhada secreta para o repouso da sua Face.
só o Deus fiel  pode fazer com que a nossa vida
não se perca na noite:
abandonemo-nos nas suas redes invisíveis

IV
Infelizes vós os saciados
que viveis na ilusão de serdes a fonte e o mar
de todos os poderes e sentimentos e prazeres

Infelizes vós que esqueceis a vossa condição de filhos
e vos julgais criadores de gado quando tratais com os outros

Infelizes vós a quem nada vos falta
e vos atribuís o mérito do hiper-poder que é uma embriaguez

Infelizes vós que não tendes fome da vida absoluta
e vos bastais com o alimento conhecido da vossa cobiça

Infelizes vós que nada dilacera, nada esvazia
e enxutais do sofrimento a vida absoluta que o vela

Embolismo

Livra-nos, Senhor, da violência das palavras
quando não vêem rostos
e semeiam lágrimas

Livra-nos da violência surda,
do silêncio mútico, perverso,
das tradições do corpo que inundou a era

Livra-nos da violência das coisas
que nos afogam, de excessivas

E liga-nos à diferença harmoniosa,
Deus que nos prometes a paz
e que esperamos na fronteira do fogo e da alegria

Viagem no Deserto

Abre-nos, Deus, a porta
através das águas
para a grande viagem no deserto:
o combate com a morte no campo da vida,
a travessia dos limites, a nebulosa dos olhos

Não se ensurdeça o nosso coração
porque a luta nocturna com o teu Nome
nos deixou no corpo marcas

Dá-nos a graça de atravessar o riacho da vida
mesmo coxeando;
que caminhemos com a ligeireza
e a elegância do animal
que busca o esplendor do verdadeiro
nas coisas provisórias

E que desse combate com as imagens
nos aproximemos do horizonte da tua casa
donde vejamos as sementes do amor cobrindo a eira,

Deus que ligas o céu e a terra no teu Filho Jesus
e no Espírito

….

Os poemas de “O Nome e a Forma” acompanham a nossa Quaresma.

José Augusto Mourão
In O Nome e a Forma, ed. Pedra Angular
Fotografia: Patrizio del Duca/Grand Tour/Corbis
28.02.10

Publicado em SNPC-Portugal.

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