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Posts Tagged ‘Santa Teresa enveredada no Grande Sertão – Artigo – Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD) – Sudeste-Brasil’

Pesquisadora analisa influência de Santa Teresa de Jesus em “Grande Sertão: veredas”, de Guimarães Rosa – Artigo (Ordem dos Carmelitas Descalços – OCD) – Província Sudeste – Brasil

Fonte/imagem: Carmo Jovem

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Fonte: Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD) – Província Sudeste – Brasil

Santa Teresa e Guimarães Rosa
Santa Teresa enveredada no Grande Sertão

O escritor Guimarães Rosa

Um estudo apresentado na Universidade de Campinas revela a influência de Santa Teresa na obra de Guimarães Rosa, de quem comemorou-se o centenário de nascimento em junho do ano passado. O estudo é de autoria de Suzi Frankl Sperber, professora do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Liguagem (IEL) da Unicamp e trabalha a simbólica do “Grande sertão: veredas” e intitula-se “Mandala, mandorla: figuração da positividade e esperança”. A seguir trechos do seu artigo publicado no site da Unicamp.

“Desde pelo menos 1970 venho trabalhando com o tema do centro, em Grande sertão: veredas. Apareceu no que foi minha tese de doutorado, depois em livro (Guimarães Rosa – signo e sentimento, 1982), e ainda em artigo: “O narrador, o espelho e o centro em Grande sertão: veredas” (Sperber, 1996). Nesse centro, mantido exatamente no meio do livro desde sua primeira versão datiloscrita, repercute a cantiga de Siruiz, em certa medida espalhada na narrativa. Em Guimarães Rosa – signo e sentimento, mostro como os versos da canção reverberam no centro do romance, repetidos, ainda que espalhados nas quatro páginas que o constituem.

Guimarães Rosa usou também outro recurso para chamar a atenção do leitor para o centro da narrativa: “Eu atravesso as coisas e no meio da travessia não vejo! Só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada […] Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. A palavra meio está praticamente em cada página de Grande sertão, mesmo em uma sentença-provérbio, tão forte quanto o leitmotiv “viver é muito perigoso”: “o diabo, na rua, no meio do redemunho”.

Entendi o centro como lugar sagrado. Para reforçar a idéia da busca do divino, já tratada desde meu livro Caos e cosmos (Sperber, 1976), tema desenvolvido em diversos estudos – mas volta e meia tratado com desconfiança por outros estudiosos, trago algo novo – pelo menos para mim mesma. Em várias obras de Santa Teresa de Jesús (1956), e especialmente no livro presente na biblioteca de João Guimarães Rosa, ela emprega a palavra “nonada” diversas vezes. Foi palavra usada no mundo hispânico por alguns autores, nos séculos XVI e XVII, talvez a começar por um romance de cavalaria catalão, de Joanot Martorell – Tirant lo Blanc4 – depois em Cervantes; no Lazarillo de Tormes.

Rosa abre com essa palavra o grande romance: “Nonada”. Como Guimarães Rosa leu Santa Teresa de Jesús e como o aspecto espiritual e propriamente religioso contava muito para ele, podemos apreender o sentido de “Nonada” a partir do contexto da obra de Santa Teresa. Nonada quer dizer, para Santa Teresa, menos que nada. “¡Oh, válgame Dios, y qué nonada son nuestros deseos para llegar a vuestras grandezas, Señor! ¡Qué bajos quedaríamos, si conforme a nuestro pedir fuese vuestro dar!”. A palavra serve para criar um contraponto mais radical entre o ser humano e Deus. Corresponde ao enaltecimento de Deus e ao reconhecimento da miséria humana. Saber que o homem é nonada serve para encarecer a sua busca de tudo. Portanto, Guimarães Rosa já indicia no início do romance a sua busca – e a da personagem principal e narrador – do sagrado, de Deus. Poderia parecer uma ilação abusiva, se logo depois, nesse começo da narrativa, não aparecesse o forte tema rosiano: Deus e o diabo, e ele espera que Deus esteja: “Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não. Deus esteja”. A palavra também indicia a abertura para o virtual. Relacionando “nonada” a Santa Teresa de Jesús, a partir do trecho citado, essa virtualidade se descerra para a noção de devir.

Em uma das obras de Santa Teresa, Las moradas. El castillo, lemos: “Pues consideremos que este castillo tiene – como he dicho – muchas moradas, unas en lo alto, otras embajo, otras a los lados; y en el centro y mitad de todas éstas tiene la más principal, que es adonde pasan las cosas de mucho secreto entre Dios y el alma”. Santa Teresa encarece o centro e a metade – ou o meio – de todas as moradas. Assumindo-se Grande sertão como o grande castelo, as cenas podem ser entendidas como moradas. Com um centro – em que “acontecem as coisas de muito segredo entre Deus e a alma”.

O centro de Grande sertão difere daquele encontrável no romance São Bernardo, de Graciliano Ramos. Aí, o centro corresponde à gruta, à caverna e ao sentimento de culpa sem remissão e sem devir (que associei ao mito de Trofônio). Paulo Honório se reconhece mau e assim foi desmascarado por Madalena. A narrativa termina com uma imagem animalesca, brutal, que faz de si Paulo Honório (cf. Sperber, s.d.). Em Grande sertão, o centro mistura lembranças do passado, avalia cada personagem importante (Compadre meu Quelemém, Diadorim, A Bigri, o padrinho Selorico Mendes, Joca Ramiro, Medeiro Vaz, Zé Bebelo, Sô Candelário, Nhorinhá, Miosótis, Rosa’uarda, Reinaldo, Otacília, Hermógenes e até mesmo o Jazevedão e o menino Valtêi). Nenhuma dessas personagens sente culpa, a não ser Riobaldo. Ele não tem de si uma imagem de bruto. Cada uma das personagens evocadas nessas páginas que abrem uma fenda na narrativa contém um universo que também ele corresponde a uma morada. A principal morada é a do próprio Riobaldo, em que estão inseridos aspectos daquelas outras moradas, daqueles outros eus – personagens que o habitam. A morada é o espaço da memória e da retomada do eu: “Os dias que são passados vão indo em fila para o sertão. Voltam, como os cavalos: os cavaleiros na madrugada – como os cavalos se arraçôam”. Como os cavalos que se arraçoam, as lembranças espalhadas procuram sua ração, isto é, seu alimento. Como os cavalos, a direção é uma – voltar para o sertão: “Sertão é o sozinho. Compadre meu Quelemém diz: que eu sou muito do sertão? Sertão: é dentro da gente”. Dentro da gente está especialmente o centro de nossa morada. Diz Santa Teresa de Jesús: “en el centro y mitad de todas éstas (moradas) tiene la más principal, que es adonde pasan las cosas de mucho secreto entre Dios y el alma”. As coisas de muito segredo entre Deus e a alma são expressas por palavras e imagens fracamente relacionadas, relativamente caóticas. No centro do romance as frases estão mais frouxas nas suas relações do que no resto da narrativa. Criam frestas onde se instala o segredo.

Como se configura o segredo nesse centro da narrativa?

Ao falar de Zé Bebelo, Riobaldo diz: “Zé Rebelo me alumiou. Zé Rebelo ia e voltava, como um vivo demais de fogo e vento, zás de raio veloz como o pensamento da idéia – mas a água e o chão não queriam saber dêle”. “Zé Rebelo me alumiou”: o relato evoca luz. Zé Bebelo representa a velocidade do pensamento. “Zé Rebelo ia e voltava”: ao falar de Zé Bebelo, o narrador retoma o tema da ida e da volta. A natureza irrequieta de Zé Bebelo representa mercúrio, visto que é “como um vivo demais de fogo e vento, zás de raio veloz como o pensamento da idéia – mas a água e o chão…”. Os elementos evocados são fogo, ar (vento), água e terra (chão). Zé Bebelo é representado pelos elementos aéreos (fogo e ar, além de luz, que simboliza a razão, o raciocínio); mas é rejeitado pela água e pela terra. Cada um dos demais chefes é caracterizado como não pertencendo ao todo, isto é, ao conjunto dos elementos. Medeiro Vaz morre em pedra; Quelemém é homem sem parentes; Joca Ramiro era diverso e reinante: consta de falecido porque é rei, porque não participa do mesmo estatuto dos jagunços, do sertão. O chão salgado no qual é enterrado lembra o versículo 13 do capítulo 5 de Mateus: “Vós sois o sal da terra”. Oração semelhante está em Marcos, capítulo 9, versículo 50, e em Lucas, capítulo 14, versículo 34. Joca Ramiro seria o sal da terra? Ou sua morte é o início da ação necessária para que seus seguidores se tornem o sal da terra? Há muitas interpretações possíveis. Uma delas diz que Jesus considera seus reais seguidores como o sal, porque devem dar sabor à vida e conservá-la, cuidando da pureza do seu pensamento. Outro intérprete considera que dar sabor à vida significa construir vida digna para todos. As duas interpretações funcionam para Riobaldo. Na minha leitura, Joca Ramiro representava, para Riobaldo, conhecimento e sabedoria. Sua morte infundiu tristeza. A carnaúba é árvore do sertão, considerada a árvore da vida pelo estudioso Humboldt, e representa a total integração do homem regional ao ambiente em que vive. Assim, relacionar Joca Ramiro ao sal da terra, àquele que deu sabor à vida, é pertinente. Como parece pertinente vislumbrar o desejo de Riobaldo de uma totalidade, de um Uno abrangente.

… Riobaldo decide ir para uma encruzilhada próxima e fazer o pacto com o demônio, segundo informa, a fim de obter um sobrevalor, necessário para acabar com o Mal (o Hermógenes) no meio dos jagunços. Fica só, afastado de todos, recolhido. Invoca Satanás. O que lemos são algumas frases fortes e claras: “Eu estava bêbado de meu”. Ao conjurar Satanás, só lhe responde o silêncio: “O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais” (p.398). Chama de novo: “– Ei, Lúcifer! Satanás, dos meus Infernos!” (ibidem). Lúcifer não responde. Mas “Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia” (ibidem). O espaço que medeia é o virtual, o silêncio e a fissura, representados também pelo centro da narrativa. O self fraturado pelas diferentes temporalidades, espaços, memórias ressignificadoras se junta para expandir-se. Esse eu reconquistado, fortalecido, é tal que é “Como que adquirisse minhas palavras tôdas; fechou o arrôcho do assunto” (ibidem). Aparentemente encerra o assunto, cujo fecho figura um vórtice que absorve todas as palavras de Riobaldo. A pergunta que segue “Aí podia ser mais?” pode querer dizer muita coisa. Uma delas é que este momento corresponde ao ser máximo, ao ser-tão. Sobre a relação entre o ser-tão, o eu mais profundo e o sagrado lemos: “A pêta, eu querer saldar: que isso não é falável. As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!” (ibidem). Depois do redemoinho engulidor de palavras – ao mesmo tempo que elas são proferidas, se expande o silêncio até o cosmos, até o sagrado. A cena e sua continuação apresentam Riobaldo só, mergulhado em si. Riobaldo fora convocar Satã, mas encontra o sagrado. É como diz Santa Teresa de Jesús: “No hay menester alas para ir a buscar a Dios, sino ponerse en soledad y mirarle dentro de sí”.

Dentro de si; no centro da narrativa, com suas moradas e segredos; na referência a Santa Teresa de Jesús; na busca de Riobaldo de redenção e de um princípio que desse sentido aos acontecimentos vividos; na memória encontra-se a busca do divino, apresentada por uma especial estratégia discursiva macro e microestrutural de Guimarães Rosa. Do ponto de vista microestrutural, o centro da narrativa, ponto de convergência e dispersão, configuração, em certa medida, de nonada, podemos entrever um conjunto de linhas formando arabescos.

O centro, mandala, mandorla, Si-Ur-iz caótico e cheio de devir, pode ser visto como espelho microestrutural da macroestrutura da narrativa justamente porque figura o devir. Contendo a idéia do lugar “de muito segredo entre Deus e a alma”, conforme Santa Teresa, o centro (lugar de concentração e de dispersão) tem valência afirmativa. A afirmação de Deus e da alma e os recursos da narrativa revelam que a noção de devir da obra contém a cifra da esperança – apesar de tudo – de movimento e continuidade presentes no começo da narrativa, no nada (que não está vazio, já que nele existe algo), e no seu fim, na palavra “travessia”. Afinal, a marca diferencial de Grande sertão: veredas – com o seu centro e mandala – é a positividade do olhar sobre o humano e o mundo.”

Publicado por Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD) – Província Sudeste-Brasil – “Santa Teresa e Guimarães Rosa”.

*Grifos em verde são meus. (LBN)

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