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Posts Tagged ‘“O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza (…)” – Relflexão sobre a oração por um monge cartuxo anônimo (SNPC-Portugal-07.10.2010)’

Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC) – Portugal

Espiritualidade

Seja feita a vossa vontade

O objeto último da nossa oração, como do nosso desejo, deve ser sempre a vida eterna, a união com Deus. Tudo o resto não tem valor se não for subordinado a este fim, quer para nós quer para os outros. É assim que a nossa vontade se conforma radicalmente à de Deus, que quer a nossa salvação.

Mas a salvação, o Reino de Deus, é misterioso, e muitas vezes temos dele uma ideia bem mesquinha.

Frequentemente, na nossa oração concreta, pedimos a aquisição de certa virtude, a obtenção de determinado dom, o apaziguamento de tal sofrimento ou qualquer outra coisa. Acreditamos que esse pedido é para o nosso bem espiritual ou para o bem do nosso próximo. Mas a resposta de Deus pode ser: «Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza» (2 Coríntios 12, 9). A dor que experimentamos é, segundo o plano de Deus, para nosso bem. E pode muito bem ser possível que, para nós, a via do Amor seja a via da pobreza e da cruz.

Se eu peço o que é necessário à salvação, serei sempre acolhido. Mas se eu peço o que me parece necessário à salvação, serei ouvido segundo a substância do meu pedido, e não necessariamente segundo o seu teor explícito. Daí a condição “se é verdadeiramente de acordo com a tua vontade, com o teu amor” deve estar sempre subentendida numa prece dirigida a Deus.

Se nem sempre sabemos pedir o que Deus quer para nós, o Espírito Santo sabe-o. O Espírito, que está em nós, retifica as nossas súplicas, inspirando-nos o que é preciso pedir.

«O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir, para rezarmos como deve ser; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que examina os corações conhece as intenções do Espírito, porque é de acordo com Deus que o Espírito intercede pelos santos» (Romanos 8, 26-27).

Oração de Jesus no horto
Sebastiano Ricci

Orar com piedade

Para ser acolhida, a nossa oração deve ser a expressão de uma atitude justa diante de Deus. Cristo revela-nos essa atitude, ele que «nos dias da sua vida terrena, apresentou orações e súplicas àquele que o podia salvar da morte, com grande clamor e lágrimas, e foi atendido por causa da sua piedade» (Hebreus 5, 7).

Numa nota de rodapé, a Bíblia de Jerusalém diz: «O termo “piedade” implica respeito e submissão (…) A oração de Jesus em agonia foi sempre inspirada pela obediência total à vontade do seu Pai. Foi por isso que ele foi ouvido e acolhido.».

A nossa oração deve revestir-se das mesmas disposições das de Jesus Cristo:
O amor de um filho para o seu Pai.
– Uma confiança absoluta: Creio em Ti.
– Uma esperança concreta na benevolente omnipotência da sua Providência, que vela sobre todas as coisas: «Mesmo os cabelos da tua cabeça estão contados».
– Uma humildade que reconhece a sua indigência: «A oração do humilde penetrará as nuvens» (Ben Sira 35, 17).
– A obediência à vontade do Pai, mesmo nos sacrifícios que Ele nos pede para fazer chegar o seu Reino.
– Em síntese, a pureza de um coração que só procura a glória de Deus.

É isto que significa «rezar em nome de Jesus». «Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá» (João 15, 16).

Desta maneira compreendemos melhor o esforço obstinado dos Padres do Deserto para obter a pureza do coração. Compreendemos também que ela não se pode obter unicamente através dos nossos esforços.

Ela não pode ser senão dom de Deus, graça, amor de Deus «derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo» (Romanos 5, 5). Todo o nosso esforço consistirá em superar os obstáculos para que sobressaia do fundo do nosso coração a oração-amor do próprio Cristo, em toda a sua pureza e em toda a sua extensão, para abraçar todos os homens.

Aqui encontram lugar as práticas penitenciais, os jejuns, as mortificações para sustentar a oração, reparar, restabelecer uma ordem perturbada pelo pecado (o nosso próprio pecado ou o daquele por quem se reza). Desta forma, a oração torna-se mais abrangente, comprometendo todo o ser e tomando um peso existencial maior.

Orar com perseverança

Jesus insiste repetidamente: é preciso rezar com perseverança e não desencorajar se Deus não responde logo a seguir. Ele certamente ouve-nos. É preciso que tenhamos fôlego, saber persistir na oração.

Já sublinhámos que aquilo que pedimos na oração nem sempre está de acordo com o nosso interesse espiritual. Mais eis a sabedoria infinita de Deus: pela nossa oração perseverante, se o Senhor não nos concede o que a nossa vontade deseja, é a nossa vontade que se ajustará pouco a pouco ao que o Senhor deseja. Foi o que aconteceu com as preces de Jesus no Getsemani. A oração faz-nos compreender melhor e aceitar a situação, permitindo-nos ver com o olhar de Deus. Um pedido de cura pode transformar-se, pacientemente, numa oferta reparadora de uma vida.

Por um monge Cartuxo
Trad: rm

Publicado por SNPC (trad.) – 07.10.10.

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