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O livro “Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”, que resulta de uma entrevista entre Bento XVI e o jornalista alemão Peter Seewald, é apresentado esta terça-feira no Vaticano (SNPC – Portugal – 23.11.2010)

Fonte/imagem: Flos Carmeli – “Ascensão do Senhor”

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Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura -SNPC – Portugal

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“Luz do Mundo”: Bento XVI fala de si, da Igreja e dos sinais dos tempos

O livro “Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”, que resulta de uma entrevista entre Bento XVI e o jornalista alemão Peter Seewald, é apresentado esta terça-feira no Vaticano.

A conferência de imprensa de lançamento conta com a participação do presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, D. Rino Fisichella, do porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, e do jornalista germânico que conversou com o Papa este verão.

Após a conferência de imprensa, Bento XVI concede uma audiência privada aos editores internacionais da obra, na qual participa Henrique Mota, editor da Lucerna, marca da Principia, responsável pela versão portuguesa.

O livro, que começa a ser vendido esta quarta-feira, estará disponível em Portugal no início de dezembro.

Apresentamos seguidamente alguns excertos da obra.

Anúncio do Evangelho e consenso

«[…] era óbvio que não seria possível manter sempre um consenso sereno, atendendo à conjuntura mundial, com todas as grandes forças destrutivas existentes, às contradições que a habitam, às ameaças e aos descaminhos. Se o consenso fosse total, teria de me interrogar seriamente sobre se estaria a anunciar realmente o Evangelho todo».

Verdade

«[…] o homem tem de procurar a verdade; ele é capaz da verdade. É evidente que a verdade necessita de critérios de verificação e de falsificação. E deve andar sempre de mãos dadas com a tolerância. Mas a verdade mostra-nos também valores constantes que fizeram grande a humanidade. Por isso devemos reaprender e voltar a praticar a humildade de reconhecer a verdade e deixar que ela nos sirva de bitola.»

«[…] a verdade não pode chegar através da violência, mas sim através da força que lhe é própria: Jesus apresenta-Se a Pilatos como a verdade e como testemunha da verdade. Ele não defende a verdade com legiões, mas torna-a visível através da sua paixão e assim a põe também em prática».

Nova intolerância

«Está-se a difundir uma nova intolerância […]. Existem regras ensaiadas de pensamento que são impostas a todos e que são depois anunciadas como uma espécie de tolerância negativa. […] Por exemplo, quando se quer, em nome da não discriminação, obrigar a Igreja Católica a mudar a sua opinião relativamente à homossexualidade ou à ordenação de mulheres, isso quer dizer que ela já não poderá viver a sua própria identidade, e que, em vez disso, há uma religião negativa abstrata que se transforma em critério tirânico e que todos devemos seguir.»

«Que em nome da tolerância seja abolida a própria tolerância é uma verdadeira ameaça perante a qual nos encontramos. O perigo é que a razão – a chamada razão ocidental – afirma que reconheceu agora o que é verdadeiro e apresenta uma pretensão de totalidade que é hostil à liberdade. […] Ninguém é obrigado a ser cristão. Mas ninguém deve ser tão pouco obrigado a viver a «nova religião» determinada como única e obrigatória para toda a humanidade.»

«Os cristãos são tolerantes e, nesse sentido, deixam que os outros tenham a sua própria identidade. Estamos agradecidos pelo facto de, nos países do Golfo Pérsico […] haver igrejas nas quais os cristãos podem celebrar missa, e esperamos que seja assim em todo o lado. Por isso, é evidente que os muçulmanos também devem poder reunir-se para rezar em mesquitas nos países cristãos.»

«No que toca à burca, não vejo nenhuma razão para uma proibição geral. Diz-se que algumas mulheres nem a vestiriam voluntariamente e que ela seria uma forma de violação da mulher. Com isso não posso, naturalmente, estar de acordo. Mas, se desejarem voluntariamente vesti-la, então não sei porque se deva proibi-lo.»

«O que importa é que procuremos viver e pensar o cristianismo de tal modo que ele absorva o moderno que é bom e está certo e, ao mesmo tempo, se separe e diferencie do que é uma contrarreligião.»

Fé e negação da fé

«Recorrentemente, o Homem renega a fé, quer ser só ele, torna-se laico no sentido mais profundo da palavra.

Porém, a presença divina revela-se sempre no Homem. Este é o combate que atravessa toda a História. Como dizia Santo Agostinho, a História mundial é uma luta entre dois tipos de amor: o amor por si próprio – até à destruição do mundo – e o amor pelo Outro – até à renúncia de si próprio. Esta luta, que sempre pudemos presenciar, também está a acontecer agora.»

«Temos sobretudo de procurar que as pessoas não percam Deus de vista. Temos de procurar que elas reconheçam o tesouro que possuem. Temos de procurar que, depois, elas próprias, a partir da força da sua própria fé, entrem no confronto com o secularismo e consigam concretizar a separação dos espíritos. Este enorme processo é a verdadeira, a grande missão deste tempo.»

«Olhando apenas para a Europa, poderá parecer que a Igreja está em declínio. Mas essa é só uma parte do todo. Noutras partes do mundo ela cresce e vive, está cheia de dinamismo. Nos últimos anos, o número de padres novos aumentou em todo o mundo, bem como o número de seminaristas. No continente europeu estamos simplesmente a atravessar uma fase, e não experimentamos o grande dinamismo de crescimento que se encontra verdadeiramente noutros lugares e com que me deparo sempre nas minhas viagens e nas visitas dos bispos.»

Casos de abusos na Igreja

«Ver subitamente o sacerdócio tão conspurcado, e com ele também a própria Igreja Católica no seu íntimo, foi algo realmente duro de suportar. Mas foi necessário não perder de vista que existe o Bem na Igreja e não apenas estas coisas terríveis.»

Uso do preservativo

«[…] Em África, Vossa Santidade afirmou que a doutrina tradicional da Igreja tinha revelado ser o caminho mais seguro para conter a propagação da sida. Os críticos, provenientes também da Igreja, dizem, pelo contrário, que é uma loucura proibir a utilização de preservativos a uma população ameaçada pela sida.

Em termos jornalísticos, a viagem a África foi totalmente ofuscada por uma única frase. Perguntaram-me porque é que, no domínio da sida, a Igreja Católica assume uma posição irrealista e sem efeito – uma pergunta que considerei realmente provocatória, porque ela faz mais do que todos os outros. E mantenho o que disse. Faz mais porque é a única instituição que está muito próxima e muito concretamente junto das pessoas, agindo preventivamente, educando, ajudando, aconselhando, acompanhando. Faz mais porque trata como mais ninguém tantos doentes com sida e, em especial, crianças doentes com sida. Pude visitar uma dessas unidades hospitalares e falar com os doentes.

Essa foi a verdadeira resposta: a Igreja faz mais do que os outros porque não se limita a falar da tribuna que é o jornal, mas ajuda as irmãs e os irmãos no terreno. Não tinha, nesse contexto, dado a minha opinião em geral quanto à questão dos preservativos, mas apenas dito – e foi isso que provocou um grande escândalo – que não se pode resolver o problema com a distribuição de preservativos. É preciso fazer muito mais. Temos de estar próximos das pessoas, orientá-las, ajudá-las; e isso quer antes, quer depois de uma doença. (1)

Efectivamente, acontece que, onde quer que alguém queira obter preservativos, eles existem. Só que isso, por si só, não resolve o assunto. Tem de se fazer mais. Desenvolveu-se entretanto, precisamente no domínio secular, a chamada teoria ABC, que defende “Abstinence – Be faithful – Condom” (“Abstinência – Fidelidade – Preservativo”), sendo que o preservativo só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois não resultam. Ou seja, a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade, e é precisamente esse o motivo perigoso pelo qual tantas pessoas já não encontram na sexualidade a expressão do seu amor, mas antes e apenas uma espécie de droga que administram a si próprias. É por isso que o combate contra a banalização da sexualidade também faz parte da luta para que ela seja valorizada positivamente e o seu efeito positivo se possa desenvolver no todo do ser pessoa.

Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.»

Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?

«É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana.»

(1) O texto completo é apresentado no «Apêndice» deste livro.

Bento XVI
In Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos, ed. Lucerna

Atualizado em 23.11.10

Publicado em Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC).

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