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Archive for dezembro \29\-03:00 2010

Fonte: Agência Fides

28.12.2010

VATICANO – O anúncio do Natal “motivo de esperança para todos aqueles cuja dignidade foi ofendida e violada, porque Aquele que nasceu em Belém veio libertar o homem da raiz de toda escravidão”

Cidade do Vaticano (Agência Fides) – O anúncio do Natal é luz também para os povos, para o caminho coletivo da humanidade … Crer em Deus, que quis partilhar a nossa história é um incentivo constante para se ocupar dela, mesmo em meio às suas contradições. É motivo de esperança para todos aqueles cuja dignidade é ofendida e violada, porque Aquele que nasceu em Belém veio para libertar o homem da raiz de toda escravidão”. Estas são as palavras da mensagem de Natal do Papa Bento XVI, proferidas no dia de Natal, sábado, 25 de dezembro, da varanda central da Basílica de São Pedro antes dar a bênção Urbi et Orbi. Olhando para a situação do mundo, o Papa continuou: “A luz do Natal brilha novamente naquela terra onde Jesus nasceu e inspire israelenses e palestinos a buscarem uma convivência justa e pacífica. O anúncio consolador da vinda do Emmanuel alivie a dor e console nas provações as queridas comunidades cristãs no Iraque e em todo o Oriente Médio, dando-lhes conforto e esperança para o futuro e animando os líderes das nações a uma solidariedade concreta para com eles”. O Papa também fez um apelo à solidariedade internacional para as pessoas que no Haiti “sofrem as conseqüências do terremoto devastador e do recente surto de cólera”, e exortou a não esquecer as vítimas das recentes catástrofes naturais, na Colômbia, Venezuela, Guatemala e Costa Rica. O Papa “perspectivas de uma paz duradoura e de autêntico progresso” para o povo da Somália, Darfur e na Costa do Marfim”. O Natal do Senhor “promova a estabilidade política e social de Madagáscar; leve segurança e respeito pelos direitos humanos no Afeganistão e no Paquistão; incentive o diálogo entre Nicarágua e Costa Rica; favoreça a reconciliação na península coreana”. O Papa continuou: “A celebração do nascimento do Redentor promova o espírito de fé, paciência e coragem nos fiéis da Igreja na China continental, para que não se desanimem por causa das limitações de sua liberdade de religião e de consciência e, perseverando na fidelidade a Cristo e à sua Igreja, mantenham viva a chama da esperança. O amor do ‘Deus conosco’ doe perseverança a todas as comunidades cristãs que sofrem discriminações e perseguições, e inspire os líderes políticos e religiosos que se comprometerem em favor do pleno respeito pela liberdade religiosa de todos”. (SL) (Agência Fides 28/12/2010)

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Bento XVI, em seu discurso à Cúria Romana por ocasião das felicitações de Natal afirmou: “A fé não é coisa do passado, mas um encontro com o Deus que vive e age agora”

Imagem:Wikimedia Commons

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VATICANO – “A fé não é coisa do passado, mas um encontro com o Deus que vive e age agora”: Bento XVI à Cúria Romana

Cidade do Vaticano (Agência Fides) – Em seu discurso à Cúria Romana por ocasião das felicitações de Natal, em 20 de dezembro, o Santo Padre Bento XVI recordou, como de costume, nesta ocasião, os principais acontecimentos do ano passado. Em primeiro lugar, o Papa citou o Ano Sacerdotal que renovou nos sacerdotes e leigos “a consciência do dom que representa o sacerdócio da Igreja Católica, que nos foi confiado pelo Senhor”. No entanto, destacou o Santo Padre, “ficamos chocados quando este ano e numa dimensão para nós inimaginável, tivemos conhecimento de abusos contra menores cometidos por sacerdotes, que desvirtuam o Sacramento, sob o manto do sagrado ferem profundamente a pessoa humana na sua infância, prejudicando-a por toda a vida”. Citando uma visão de Santa Hildegarda de Bingen, o Papa disse: “Na visão de Santa Hildegarda, o rosto da Igreja está coberto de poeira, e é assim que nós, o temos visto. A sua roupa está rasgada – por causa da culpa dos sacerdotes. Assim como ela viu e expressou, o vimos este ano. Devemos aceitar essa humilhação como um chamado à verdade e um chamado à renovação”. Após reiterar que “estamos conscientes da especial gravidade deste pecado cometido por sacerdotes e de nossa co-responsabilidade”, o Santo Padre convidou a olhar para o contexto do nosso tempo: “existe um mercado da pornografia concernente às crianças, que de alguma forma parece ser considerado sempre mais pela sociedade como uma coisa normal. Dos bispos de países do Terceiro Mundo ouço sempre de novo como turismo sexual ameaça toda uma geração e a danifica em sua liberdade e em sua dignidade humana … Neste contexto, se coloca o problema da droga, que com força crescente estende seus tentáculos de polvo ao redor do globo terrestre”. “O segundo tema de reflexão em causa foi o da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio, que começou com a viagem a Chipre para a entrega do Instrumentum Laboris aos bispos dos países que se reuniram ali. “No Sínodo o olhar se deteve sobre todo o Oriente Médio – disse o Papa -, onde convivem fiéis pertencentes a diferentes religiões e também muitos ritos e tradições… Nos acontecimentos dos últimos anos foi abalada a história de partilha, as tensões e as divisões aumentaram de modo que sempre de novo com espanto somos testemunhas de atos de violência que já não respeita o que para o outro é sagrado, no qual aliás caem as elementares regras da humanidade. Na situação atual, os cristãos são a minoria mais oprimida e atormentada… Com base no espírito de fé e na racionalidade, o Sínodo desenvolveu um grande conceito do diálogo, perdão e aceitação mútua, um conceito que agora quero gritar ao mundo. O ser humano é um e a humanidade é uma só. O que em qualquer lugar é feito contra o homem, no final prejudica a todos. Assim, as palavras e os pensamentos do Sínodo devem ser um grito forte às pessoas com a responsabilidade política ou religiosa para que acabem com a cristãofobia; para que se levantem para defender os refugiados e os que sofrem e revitalizar o espírito de reconciliação. Em última análise, a cura pode vir somente de uma fé profunda no amor reconciliador de Deus. “Dar força a esta fé, nutri-la e deixá-la brilhar é a principal tarefa da Igreja nesta hora”. Enfim, Bento XVI falou de sua viagem no Reino Unido, recordando o encontro com o mundo da cultura na Westminster Hall, e a beatificação do Cardeal John Henry Newman. Além disso, mencionou a viagem a Malta, Portugal e Espanha, onde “se tornou visível novamente que a fé não é uma coisa do passado, mas um encontro com o Deus que vive e age agora. “Ele nos chama em questão e se opõe à nossa preguiça, e nos abre o caminho para a verdadeira alegria”. (SL) (Agência Fides 21/12/2010)

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Imagem: http://infanciacatolica.blogspot.com/2010/07/o-nascimento-de-jesus-partes-1-2-e-3.html

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O Natal se passou há dois dias, mas durante a semana, na forma “comercial”, ainda será comemorado. Há sempre espaço para mais um  presente, para retribuir, enfim, o Natal não é mais o mesmo… Perdeu-se seu espírito e, praticamente, não passa de troca de presentes, muita bebida (muita mesmo!) e o mais variado cardápio. E isto se passa no mundo inteiro. Infelizmente é assim. O “motivador”, o centro da festa – Jesus Cristo – nem é lembrado, e se o é, é de forma rápida por meio  uma oração. Nada mais que um fecho de horas, dias de preparação para a confraternização. As crianças vibram – o que é natural, mas os adultos entram em estado de catarse…

Por essa razão gostaria de partilhar este artigo, para repensarmos alguns costumes da atualidade:

Trazemos por viver ainda uma infância

Por José Tolentino Mendonça

“O entusiasmo com que os pequeninos vivem o Natal mostra bem como há uma perceção do Mistério da vida que lhes está próximo. Sem precisar de grandes recursos da racionalidade eles avizinham-se do essencial, conduzidos sobretudo pela linguagem insinuante dos símbolos. E não há dúvida que, nesta simplicidade tão singular, as crianças protagonizam formas de compreensão profunda daquilo que o Natal constitui.

Mas como acontece com as mais importantes narrativas da Infância, o Natal tem um endereço mais acima: pede para ser lido e decifrado por um coração adulto. Ainda que caiba às crianças a expressão mais vibrante do que nestes dias se celebra, os efetivos depositários da mensagem (isto é, aqueles que mais incondicionalmente a podem acolher) são os adultos. O dano mais pernicioso do dito “Natal comercial” é a manutenção de uma retórica infantilizada e equívoca, que oculta a mensagem aos seus verdadeiros destinatários. De repente, parece que o Natal é apenas uma história que existe para colocar um sorriso deslumbrado no rosto das crianças e esquecemos que é no fundo complexo da alma de um adulto, nesse oceano emaranhado e confuso, que o acontecimento do Natal vem despertar uma centelha.

Se olharmos para o enredo natalício, mesmo no modo sóbrio como os Evangelhos o relatam, percebemos que nada é cor-de-rosa. O que os seus atores vão viver é uma história de instabilidade, perturbação e desconcerto. “O que é que nos aconteceu?” – ter-se-ão perguntado repetidas vezes Maria e José, mas também os pastores acordados em sobressalto ou os magos vindos de longe. “O que é que nos aconteceu?”. E não tinham à mão (como nós não temos) tranquilizantes respostas, mas sim um caminho que lhes era proposto na surpresa, na maturação paciente e na confiança. O próprio local onde a cena se desenvolve, um modestíssimo piso térreo que servia de refúgio aos animais, mostra bem a implacável dureza das circunstâncias. Mas doutra maneira como é que esta divina história poderia servir de modelo para todas as histórias humanas?!

O Natal de Jesus, o mistério da sua encarnação, reconfigura radicalmente a condição humana, porque deposita nela inventivas possibilidades. Estamos habituados a ver no inelutável ciclo das estações, primavera, verão, outono, inverno, o modelo da própria vida. Julgamo-nos chegados, cada vez mais chegados, de uma primavera ou de um verão que julgávamos invencíveis ao irremediável obscurecer do outono ou à íngreme solidão da paisagem no inverno. O nascimento humano de Deus inaugura, porém, um esperançoso contraciclo: a nossa vida deixa de explicar-se como uma marcha do nascimento para a morte, para efetivar-se na imagem de um incessante renascer. Contemplando a manjedoura do Deus Menino, qualquer que seja a nossa idade e o peso dos nossos anos, sentimos como real aquele verso de Pedro Homem de Mello: «a minha [a nossa] infância ainda não morreu». De facto, a infância não é uma nostálgica trégua que o nosso passado encerrou, mas o futuro que um modo novo de entender a história nos entreabre. Trazemos por viver ainda uma infância – é o que o Natal nos segreda.”

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias da Madeira
24.12.10

Texto “Trazemos por viver ainda uma infância” publicado por Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura(SNPC).

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Imagem/texto: Infância e Adolescência Missionária – “Uma Historinha de Natal” – São João del Rei

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Fonte: SpeDeus

Comentário ao Evangelho do dia feito por:

Ludolfo de Saxe (c. 1300-1374), dominicano, mais tarde cartuxo em Estrasburgo

A Vida de Jesus Cristo (a partir da trad. Au Commencement, Parole et Silence 2004, pp. 81ss. rev.)

«Pôs os olhos na humildade da Sua serva» (Lc 1, 48)

A concepção de Nosso Senhor foi prefigurada pelo arbusto a arder que se queimava sem perder o viço (Ex 3, 2), tal como Maria concebeu o seu divino Filho sem perder a virgindade. O Senhor, que morava nesse arbusto a arder, habitou igualmente no seio de Maria. Do mesmo modo que desceu ao arbusto para libertar os hebreus e tirá-los do Egipto, Ele também desceu a Maria para resgatar os homens e arrancá-los ao inferno.

A escolha de Maria, feita por Deus entre todas as mulheres para Se revestir da nossa carne, foi também prefigurada pelo velo de Gedeão (Jz 6, 36 ss.). Com efeito, do mesmo modo que só aquele velo acolheu o orvalho celeste enquanto toda a terra à sua volta estava seca, assim apenas Maria ficou cheia desse orvalho divino do qual no mundo inteiro se mostrou digna mais nenhuma criatura. A Virgem Maria é este velo com o qual Jesus fez para Si uma túnica. O velo de Gedeão recebeu o orvalho do céu sem ficar adulterado; Maria concebeu o Homem-Deus sem alterar a sua virgindade.

Jesus, Filho de Deus vivo, que pela vontade do Pai celeste e a cooperação do Espírito Santo saíste do seio de Deus Pai assim como o rio manou do Paraíso de delícias (Gn 2, 10), e visitaste as profundidades dos nossos vales ao olhar para a humildade da Tua serva, descendo assim ao seio duma virgem no qual, por inefável concepção, foste revestido de carne mortal, suplico-Te, misericordioso Jesus, pelos méritos desta Virgem, Tua Mãe, que espalhes a Tua graça sobre mim, indigníssimo servo, a fim de que Te deseje com ardor, e pelo Teu amor Te conceba no meu coração para que, com o auxílio dessa graça, possa produzir o fruto salutar das boas obras. Amen.

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(Fonte: Evangelho Quotidiano)

Publicado em SpeDeus.

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Imagem: Mosteiro São João

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Fonte: Evangelho Quotidiano

Comentário ao Evangelho do dia feito por
Liturgia bizantina
Lucernário das Grandes Vésperas da festa da Natividade de João Baptista (a partir da trad. Chevetogne)

Começou a falar, bendizendo a Deus.

Pelo seu nascimento, São João
pôs fim ao silêncio de Zacarias:
a partir desse momento, não pôde mais calar-se
aquele que gerou a voz que brada no deserto (Mt 3, 3),
anunciando a vinda de Cristo.
Mas, como a incredulidade
começara por prender a língua do pai,
a manifestação devolveu-lhe a liberdade;
e foi assim anunciada, e depois trazida à luz
a voz do Verbo, o Precursor da Claridade,
que intercede pelas nossas almas.

Neste dia, a Voz do Verbo liberta
a voz paternal, prisioneira da sua falta de fé;
da Igreja manifesta a fecundidade,
fazendo cessar a maternal esterilidade.
À frente da luz avança o candelabro
do Sol da Justiça recebe o reflexo (Mal 3, 20)
o raio que anuncia a Sua vinda
para a restauração universal
e a salvação das nossas almas.

Eis que avança, vindo de um seio estéril,
o mensageiro do Verbo Divino,
que haveria de nascer de um seio virginal
o maior de todos os filhos dos homens (Mt 11, 11),
o profeta que não tem igual;
porque as coisas divinas precisam de um começo maravilhoso,
seja a fecundidade numa idade avançada (Lc 1, 7),
ou a concepção operada sem semente.
Glória a Ti, ó Deus, que fazes maravilhas pela nossa salvação. […]

Apóstolo universal,
objecto do anúncio de Gabriel (Lc 1, 36),
ramo nascido da estéril e mais bela flor do deserto,
amigo íntimo do Esposo (Jo 3, 29),
profeta digno de aclamação,
pede a Cristo que tenha piedade das nossas almas.

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Publicado em Evangelho Quotidiano.

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Imagem:  Canto da Paz – origem/http://www.servantsofthefather.org/fathers_rosary)n –

Fonte: Canto da Paz – Irmãs Clarissas

São José, varão justo

O motivo deste artigo se deve ao fato de que estamos bem próximos do Natal, onde a figura da Sagrada Família (Jesus, Nossa Senhora e São José) passam a ter mais destaque. Também porque algumas pessoas nos colocaram a seguinte questão: “se São José era justo, porque pensou em abandonar Maria? Ora, sendo justo não o podia fazer”.

Bem, em certa ocasião, ouvi um sacerdote dar a seguinte esclarecimento para esta questão: São José e Nossa Senhora já tinham firmado o pacto conjugal (o qual será melhor esclarecido ao longo deste artigo), mas ainda não moravam juntos, quando Maria apareceu grávida.

Isto pode ser constatado no capítulo 1 do Evangelho de São Mateus, versículos 8 ao 25 (Mateus, 1, 8-25):

“Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados. Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo profeta: Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel (Is 7, 14), que significa: Deus conosco. Despertando do sono, José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado e recebeu em sua casa sua esposa. E, sem que ele a tivesse conhecido, ela deu à luz o seu filho, que recebeu o nome de Jesus.”

Assim, por ser esposo de Nossa Senhora perante a lei, tinha o direito, segundo a lei de Moisés, de delatá-la às autoridades caso tivesse ficado grávida de outro homem, o que ocasionaria o apedrejamento de Maria Santíssima. No entanto, São José conhecia a santidade de sua esposa, também conhecida por todos da cidade desde a sua infância. Sabia que o filho não era seu e sabia que Maria não o tinha traído. Com o passar do tempo, o crescimento da barriga de Nossa Senhora não poderia mais esconder a gravidez. Como resolver este dilema? Fingir que o filho era seu, e “admitir” que se uniram antes do tempo previsto em lei para o “noivado”? Admitir que o filho não era seu e levar Maria para ser apedrejada? Poderemos imaginar os momentos de sofrimento passados por São José, em silêncio Por isso, resolveu deixá-la na calada da noite e respeitar o mistério sagrado que a envolvia. Foi por isso, também, que o anjo apareceu-lhe em sonhos, para lhe dizer o que fazer.

Agora, aprofundando o tema com mais calma, encontramos uma outra explicação bem fundamentada, para o fato de São José ter decidido abandonar Nossa Senhora. Leia com atenção o texto, a seguir, do Pe. Mário Beccar Varela:

“JOSÉ VARÃO JUSTO POR EXCELÊNCIA

A Teologia aprofundou de forma admirável, ao longo dos séculos, na divina missão de São José e descreveu com riqueza de detalhes as graças que Providência lhe concedera.

Os principais traços da vida do santo esposo da Virgem Maria chegaram até nós nos primeiros capítulos do primeiro (São Mateus) e terceiro evangelhos (São Lucas).

Segundo vários autores, entre os quais São Justino, São José era originário de Belém, a cidade de Davi, seu antepassado, situada dez quilômetros ao sul de Jerusalém. Mais tarde, passou a morar em Nazaré, cidade na qual, em obediência à voz do anjo, estabeleceu-se novamente ao voltar do Egito, cumprindo-se assim o que de Jesus diziam os profetas: “Será chamado Nazareno” (Mt 2, 23).

Mateus (13, 55) e Marcos (6, 3) o designam como téktón, o que significa tanto carpinteiro quanto artesão ou edificador de pequenas casas.

PERFIL MORAL DO SANTO PATRIARCA

Poucos são, em consequencia, os dados diretos que nos referem os Evangelhos sobre São José. No entanto, ao ter sido ele escolhido por Deus para esposo de Maria, a “cheia de graça”, e digno custódio do Verbo Encarnado, não podemos duvidar de ter sido ele provido de dons e virtudes extraordinários, que vão muito além do conciso relato de Marcos e Mateus.

José “é o esposo de Maria e pai legal de Jesus. Dessa fonte mana sua dignidade, sua santidade, sua glória. Certo é que a dignidade de Mãe de Deus chega tão alto que nada pode existir de mais sublime. Mas, uma vez que entre a Santíssima Virgem e José estreitou-se um laço conjugal, não há dúvida de que ele, mais do que qualquer outro, se aproximou daquela altíssima dignidade pela qual a Mãe de Deus supera de muito todas as criaturas. Já que o matrimônio é o máximo consórcio e amizade – ao qual está unida a comunhão de bens – segue-se que, se Deus deu José como esposo à Virgem, não o deu apenas como companheiro de vida, testemunho da virgindade e tutor da honestidade, mas também para que ele participasse, por meio do pacto conjugal, na excelsa grandeza dEla”.

Nesse sentido, Santo Alberto Magno o exalta dizendo: “Fez de seu coração e de seu corpo um templo ao Espírito Santo, no qual ofereceu a si mesmo a Deus e, em si mesmo, a mais perfeita castidade de corpo e alma, no mais aceitável e agradável sacrifício a Deus”.

E o Papa Leão XIII, numa encíclica dedicada a São José, mostra como seu matrimônio com a Santíssima Virgem o fazia partícipe da grandeza dEla.

O EVANGELHO DA SOLENIDADE

Jamais houve em São José dúvida quanto à santidade de Maria. A passagem mais significativa das Sagradas Escrituras a respeito do esposo de Maria foi escolhida pela Igreja como segunda leitura própria da solenidade de São José. Tomada do Evangelho de Mateus (1, 18-24), ao percorrê-la, sentimos o estilo claro, breve, exato, musical até, com que os autores sagrados narram as maravilhas da salvação. Analisemos um a um esses seis poéticos versículos:

“Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua Mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que Ela concebeu por virtude do Espírito Santo.”

O termo “desposada” merece uma explicação, que nos é dada pelo douto Pe. Ricciotti: “O matrimônio entre os judeus se realizava em duas etapas.

O compromisso (em hebraico kiddushin ou erusin) não era uma mera promessa, como hoje, mas um contrato legal perfeito, ou seja, verdadeiro matrimonium ratum. Portanto, a mulher prometida em casamento era esposa em sentido pleno e podia receber o libelo de repúdio. E em caso de morte era verdadeira viúva. Cumprido este compromisso matrimonial, os prometidos esposos ficavam nas respectivas famílias por certo tempo que era costumeiramente de um ano […] Este tempo era empregado nos preparativos da nova casa e do mobiliário familiar”.

JOSÉ, SEU MARIDO, QUE ERA UM HOMEM JUSTO

A palavra “justo” tem aqui um valor muito grande. Santo Alberto Magno assim comenta: “São José foi varão perfeito, no referente à justiça, pela constância da sua fé; quanto à temperança, pela virtude de sua castidade; quanto à prudência, pela excelência de sua discrição; quanto à fortaleza, pela energia de sua ação. Assim, pois, encontramos nele as quatro virtudes cardeais em grau excelente”. Consideremos mais adiante as virtudes de São José, dando continuação agora ao relato de Mateus.

JOSÉ JAMAIS DUVIDOU DA INTEGRIDADE DE MARIA

…”e, não querendo difamá-La, resolveu deixá-La secretamente.”

É importante salientar que dentro desta grande perplexidade jamais houve em São José dúvida alguma quanto à santidade de Maria. Esta santidade lhe era evidente, não só por ser notória para qualquer um, mas porque José fora dotado por Deus – uma vez que tinha sido escolhido para ser o pai adotivo de Jesus – com dons especiais para discernir todas as virtudes que adornavam a alma da Virgo Virginum.

O sensum fiedei nos leva, portanto, a concluir não ser possível que José tenha duvidado dEla. Ao encontro disso, vejamos também o que comentam a respeito desta passagem alguns grandes doutores.

Diz São Tomás que José conhecia a santidade de Maria, o que o fazia sentir-se demasiado pequeno: “José não quis abandonar Maria para tomar outra esposa, ou por alguma suspeita, mas porque temia, em sua humildade, viver unido a tanta santidade; por isso lhe foi dito: ‘Não temas’ (Mt 1, 20)”.

Por sua vez, o doctor melifluus, São Bernardo, exclama, em uníssono com São Tomás: “Mas por que quereria ele deixá-la? Considerai sobre este ponto, não meu próprio pensamento, mas o dos Padres da Igreja. Se José quis abandonar Maria, o fez movido pelo mesmo sentimento que levou São Pedro dizer, quando procurava afastar o Senhor para longe de si: ‘Retirai-Vos de mim, porque sou um homem pecador’ (Lc 5); e ao centurião, dissuadindo o Salvador de ir até sua morada, afirmar: ‘Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa’. Foi, pois, levado por esse pensamento que José também, julgando-se indigno e pecador, dizia a si mesmo que não devia viver por mais tempo na familiaridade de uma mulher tão perfeita e tão santa, cuja admirável grandeza de tal forma o ultrapassava e lhe inspirava pavor. Ele via com uma espécie de assombro que Ela estava grávida da presença de um Deus, e, não podendo penetrar esse mistério, tinha feito o propósito de deixá-La”.

O motivo do desejo de partir, portanto, não era uma dúvida sobre a integridade de Maria, mas, pelo contrário, o seu abismamento de veneração e de humildade perante a grandeza dEla!

Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, pois nEla o que é gerado é do Espírito Santo”.

Desvendado o mistério, tudo fica claro. É esta uma verdadeira “anunciação” a José, a qual se relaciona harmoniosamente com a Anunciação do anjo Gabriel a Maria.

(fonte do texto entre aspas: http://www.arautos.org  –  autor: Pe. Mário Beccar Varela, E.P.)

Publicado em Canto da Paz – Irmãs Clarissas.

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MENSAGEM (OCDS – Província São José):  “NATAL NO CARMELO”

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Fonte: Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares (OCDS) – Província São José

O Mistério do Natal – St. Edith Stein

Cap. I – ENCARNAÇÃO E HUMANIDADE

Quando os dias ficam cada vez mais curtos, quando caem os primeiros flocos de neve (normal, no inverno alemão), então surgem suavemente os primeiros pensamentos natalinos.

Destas simples palavras emana um encanto ao qual é difícil um coração ficar indiferente. Mesmo os que têm uma fé diferente, ou os infiéis, para os quais a antiga história da criança de Belém nada significa, preparam-se para a festa e pensam, em como acender um raio de alegria em toda parte. É como uma correnteza quente de amor perpassando toda a terra, meses e semanas antes. Uma festa de amor e de alegria. Esta é a estrela para a qual todos se dirigem nos primeiros meses de inverno. Para os cristãos e, principalmente, para os cristãos católicos, significa algo mais: a estrela os conduz para o presépio onde está a criança, que traz a paz para a terra. A arte cristã apresentanos isto através de inúmeros quadros formosos; cantos antigos nos falam sobre isso, fazendo ecoar todo o encanto da infância.

Para quem vive a liturgia da Igreja, os sinos do “Rorate Coeli” e os cânticos do advento, despertam no coração uma santa saudade; para quem está unido à fonte inesgotável da santa liturgia, o grande profeta da encarnação diariamente bate à porta com suas poderosas palavras de advertências e promessas: “Céus, gotejai lá de cima, e que as núvens chovam o justo! O Senhor já está perto! Vinde adoremo-Lo! Vem Senhor, não tardeis mais! – Jerusalém, regozijai com grande alegria, pois o teu Salvador vem a ti”. De 17 a 24 de dezembro, as grandes Antífonas do “Ó” conclamam para o Magnificat (Ó Sabedoria, Ó Adonai, Ó Raiz de Jessé, Ó Chave de Davi, Ó Sol Nascente, Ó Rei dos Reis, Ó Emanuel), de forma mais saudosa e enérgica: “Vinde, para nos libertar.” E, sempre mais promissora, ecoa: “Veja, tudo se completou”(no último domingo do Advento); e, finalmente: “Hoje sabereis que o Senhor virá e amanhã contemplareis a sua glória”. Sim, quando à noite, as luzes clareiam as árvores enfeitadas, e os presentes são trocados, o desejo incompleto aponta para um outro clarão de luz. Os sinos tocam para a missa do galo, e se renova nos altares, enfeitados de luzes e de flores, o milagre da noite santa: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Agora sim, chegou o momento da feliz redenção.

Cap. II – O SEGUIMENTO DO FILHO DE DEUS FEITO HOMEM

Cada um de nós talvez já tenha experimentado tal felicidade natalina. Mas, até aqui, o céu e a terra não se uniram. Também hoje a estrela de Belém é uma estrela na noite escura. Já, no segundo dia, a Igreja tira as vestes festivas e se reveste com a cor do sangue e, no quarto dia, de cores enlutadas. Estêvão, o protomártir, que primeiro seguiu o Senhor para a morte, e os santos inocentes, as criancinhas de Belém de Judá, mortas cruelmente por mãos de algozes, estão ao redor da criança no presépio. O que quer dizer isto? Onde está o júbilo das potências celestes? Onde está a tranquila bem-aventurança da noite santa? Onde está a paz na terra? “Paz na terra aos homens de boa vontade”. Mas, nem todos têm boa vontade.

Por isso, o Filho do Pai Eterno nasceu da glória celeste, pois o mistério do mal encobriu a terra com a escuridão.

Trevas cobriram a terra e Ele veio como a luz, que iluminou as trevas, mas as trevas não O conheceram. Àqueles que O acolheram, Ele trouxe a luz e a paz; a paz com o Pai do céu, a paz com todos que, com Ele, são filhos da luz e filhos do Pai do céu, e a profunda paz do coração; mas, não a paz com os filhos das trevas. Para eles, o Príncipe da paz não traz a paz e sim, a espada. Para eles o Senhor é a pedra de tropeço, contra quem atacam e na qual serão destruídos. Esta é uma grande e séria verdade, que não podemos encobrir por causa do encanto poético da criança no presépio. O mistério da encarnação e o mistério do mal vão juntos. Contra a luz que vem do alto, contrasta a noite do pecado e a torna escura e tenebrosa. A criança no presépio estende as mãos e o seu sorriso parece dizer, oque mais tarde pronunciaram os lábios do Filho do Homem: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo”. E aqueles que seguem o seu chamado, os pobres pastores, aos quais nos campos de Belém o resplendor do céu e a voz do anjo anunciaram a Boa Nova e que responderam confiantes: “Vamos a Belém”, e se puseram a caminho; os reis, vindos do oriente longínquo seguiram, na mesma fé simples, a estrela milagrosa para eles, através das mãos da criança, correu o orvalho da graça e “eles exultaram com grande alegria”. Estas mãos dão e, ao mesmo tempo, cobram: vós, sábios, despojai-vos de vossa sabedoria e tornai-vos simples como crianças; vós, reis, entregai vossas coroas e vossos tesouros e inclinai-vos, humildemente, diante do Rei dos reis; aceitai, sem hesitação, os fardos, dores e pesares, exigidos pelo vosso serviço; de vós crianças, que não podeis ainda oferecer nada gratuitamente, tiram a vossa tenra vida, antes dela ter propriamente começado: ela não pode servir melhor do que ser sacrificada ao Senhor da vida.

“Siga-me”, dessa maneira se expressaram as mãos do menino, como mais tarde repetirá com os lábios o Mestre. Assim foi dito ao discípulo, a quem o Senhor amava. E São João, o jovem com o coração puro de criança, seguia sem perguntas: Para onde? E para quê? Ele deixou a barca do pai e seguiu o Senhor em todos os caminhos até ao gólgota.

“Siga-me” – também entendeu o jovem Estêvão. Ele seguiu o Senhor na luta contra os poderes das trevas, a cegueira da descrença obstinada; ele deu testemunho do Senhor com sua palavra e com seu sangue; ele O seguiu também em seu Espírito, no Espírito do Amor, que combate contra o pecado, mas que ama o pecador, e ainda na morte intercede diante de Deus pelos assasssinos.

São personagens de luz, que rodeiam o presépio: os santos tenros inocentes, os simples e fiéis pastores, os reis humildes, Estêvão, o discípulo entusiasmado e João, o discípulo predileto. Todos eles seguiram o chamado do Senhor. Em oposição a eles se encontram na noite da dureza e cegueira incompreensíveis os doutores da lei, que podem dar informações sobre o tempo e o lugar onde devia nascer o Salvador do mundo, mas não deduzem daí: “Vamos a Belém”; o rei Herodes pretende matar o Senhor da vida.
Diante da criança no presépio, os espíritos se dividem. Ele é o rei dos reis e o Senhor da vida e da morte. Ele fala o seu: “Siga-me”, e quem não for a seu favor, é contra Ele. Ele o diz também para nós e nos coloca diante da decisão entre luz e trevas.

Cap. III – O CORPO MÍSTICO DE CRISTO

3.1 – SER UM COM DEUS

Para onde o Menino-Deus nos conduzirá nesta terra, isto não sabemos e não deveríamos erguntar antes do tempo. Só sabemos que para aqueles que amam o Senhor, todas as coisas servem para o bem. Os caminhos pelos quais o Senhor nos conduz, levam-nos para além desta terra.

Ó troca maravilhosa! O criador do gênero humano encarnando-se, concede-nos a sua divindade. Por causa desta obra maravilhosa o Redentor veio ao mundo. Deus se tornou Filho do homem, para que os homens se tornassem filhos de Deus. Um de nós rompeu o laço da filiação divina, e um de nós devia reatar o laço, pagando pelo pecado. Nenhum da antiga e enferma raça podia fazê-lo. Devia ser um rebento novo, sadio e nobre. Tornou-se um de nós e, mais do que isto: unido conosco. O maravilhoso no gênero humano é que todos somos um. Se fosse diferente, estaríamos lado a lado, como indivíduos autônomos e separados, e a queda de um não poderia ter se tornado a queda de todos. Podia ter sido pago e atribuído a nós o preço da expiação, mas não teria passado a sua justiça para os pecadores, e não teria sido possível nenhuma justificação. Mas Ele veio, para tornar-se conosco um corpo místico. Ele, nossa cabeça, nós, os seus membros. Ponhamos nossas mãos nas mãos do Menino-Deus, pronunciando o nosso “Sim” ao seu Siga-me”. Então, nos tornamos Seus, e o caminho está livre, para que a sua vida divina possa passar para a nossa.

Isto é o começo da vida eterna em nós. Não é ainda a visão beatífica de Deus na luz da glória, é ainda escuridão da fé, mas não é mais deste mundo, já é estar no Reino de Deus. Quando a bem-aventurada Virgem pronunciou o seu “Fiat”, aí começou o Reino de Deus na terra e ela se tornou a sua primeira serva. E todos, que antes e depois do nascimento da criança, por palavras e obras, se declararam a seu favor: São José, Santa Isabel com seu filho e todos os que estavam ao redor do presépio, entraram no Reino de Deus.

Tornou-se diferente do que se pensou, conforme os salmos e profetas o reinado do divino rei. Os romanos continuaram os dominadores da terra, os sumo sacerdotes e os doutores da lei continuaram a subjugar o povo pobre.

De forma invisível, cada um, que pertencia ao Senhor, trazia o Reino de Deus em si. O seu fardo terreno não lhe foi tirado, e sim outros fardos acrescentados; mas, o que ele trazia dentro de si, era uma força animadora, fazendo o fardo suave e a carga leve. Assim acontece ainda hoje com os filhos de Deus. A vida divina, acesa em sua alma, é a luz que veio nas trevas, o milagre da noite santa. Quem traz esta luz dentro de si, compreende quando se fala dela. Para os outros, porém, tudo o que se pode dizer a respeito, é um balbuciar incompreensível. Todo o evangelho de São João é um canto à luz eterna, que é amor e vida. Deus está em nós e nós nele, esta é a nossa parte no reino de Deus, para a qual a Encarnação colocou o alicerce.

3.2 – SER UM EM DEUS

Ser um com Deus: este é o primeiro passo. Mas, o segundo é a conseqüência do primeiro. Cristo sendo a cabeça e nós membros do corpo místico, estamos unidos elo a elo, todos somos um em Deus, uma única vida divina. Se Deus é Amor e está em nós, então não pode ser diferente o nosso amor para com os irmãos. Por isto o amor humano é a medida do nosso amor a Deus. Mas, é algo mais do que o simples amor humano. O amor natural se dirige a um outro, ligado pelos laços do sangue ou por afinidades de caráter ou por interesses comuns. Os outros são “estranhos”, que “não nos importam”, talvez até por seu jeito antipático, de forma que mantemos a devida distância. Para o cristão não existe “gente estranha”. Próximo é aquele que encontramos em nosso caminho e que mais necessita de nós; indiferentemente, se é parente ou não, se a gente gosta dele ou não, se ele é “moralmente digno” da nossa ajuda ou não. O amor de Cristo não tem limites, ele nunca termina, ele não recua diante da feiura ou sujeira. Ele veio por causa dos pecadores e não por causa dos justos. E se o amor de Cristo mora em nós, então, façamos como Ele, indo ao encontro das ovelhas perdidas.

O amor natural visa a ter a pessoa amada para si, possuindo-a de forma mais exclusiva. Cristo veio, para devolver ao Pai a humanidade perdida; e quem ama com seu amor, este quer os homens para Deus e não para si. Este é, ao mesmo tempo, o caminho mais seguro para possuí-las para sempre; pois, se amamos uma pessoa em Deus, então somos com ela um em Deus, en- quanto que o vício da conquista muitas vezes – mais cedo ou mais tarde – sempre resulta em perda.

Há um princípio válido para todas as almas e para os bens exteriores: quem, ambiciosamente, se ocupa em ganhar e apropriar, perde; porém, aquele que tudo oferece a Deus, ganha para sempre.

3.3 – SEJA FEITA A TUA VONTADE

Com isto estamos tocando no terceiro sinal da filiação divina: Ser um com Deus, foi o primeiro. Que todos sejam um em Deus, foi o segundo. O terceiro: “Nisto reconheço que vós me amais, se observardes os meus mandamentos”.

Ser filho de Deus significa: andar apoiado na mão de Deus, na vontade de Deus; não fazer a vontade própria, colocar todo cuidado e toda a esperança nas mãos de Deus, não se preocupar consigo e com seu futuro. Nisto consiste a liberdade e a alegria dos filhos de Deus. Tão poucos as possuem, mesmo entre os realmente piedosos, mesmo entre os heroicamente dispostos ao sacrifício. Sempre andam encurvados sob o peso dos cuidados e obrigações.

Todos conhecem a parábola dos pássaros do céu e dos lírios do campo. Mas quando encontram uma pessoa que não tem herança, nem pensão e nem seguro e, mesmo assim, vive tranqüilo quanto ao seu futuro, aí meneiam a cabeça como se fosse algo incomum.

Contudo, quem esperar do Pai do céu, que cuide a toda hora de seu dinheiro e da condição de vida que ele gostaria de ter, por certo, vai se enganar. A confiança em Deus vai se firmar inabalavelmente, quando incluir a disposição de aceitar tudo das mãos do Pai. Pois, somente Ele sabe o que é bom para nós. E, se a necessidade e a privação forem mais convenientes do que uma renda folgada e segura, ou insucesso e humilhação, melhor do que honra e reputação, então se deve estar preparado para isso. Se assim fizermos, podemos viver despreocupados com o futuro e com o presente.

O “seja feita a vossa vontade”, em toda a sua amplitude, deve ser o fio condutor da vida cristã. Ele deve nortear o correr do dia, da manhã até a noite, o correr do ano e de toda a vida. Será a única preocupação do cristão. Todos os outros cuidados, o Senhor assume. Mas, esta única preocupação pertence a nós, enquanto vivermos. Objetivamente, não somos definitivamente firmes para permanecermos sempre nos caminhos de Deus. Assim como os primeiros pais perderam a filiação divina pelo distanciamento de Deus, assim cada um de nós está sempre entre o nada e a plenitude da vida divina. Mais cedo ou mais tarde isto se torna também uma experiência subjetiva. No começo da vida espiritual, quando começamos a nos entregar à direção de Deus, é que sentimos bem forte e firme a mão que nos conduz; de forma clara aparece para nós, o que devemos fazer ou deixar de fazer. Mas isto não é sempre assim. Quem pertence a Cristo, deve viver a vida de Cristo. Deve-se amadurecer até à idade adulta de Cristo, ele deve iniciar a via-sacra para o Getsêmane e o Gólgota. E todos os sofrimentos que vêm de fora, são nada comparados com a noite escura da alma, quando a luz divina cessa de clarear e a voz do Senhor se cala. Deus está presente, porém, escondido e silencioso. Por que acontece isto? São os mistérios de Deus, dos quais falamos, ele não se deixa penetrar completamente. Só podemos vislumbrar algumas facetas desse mistério e, por isso, Deus se fez homem; para voltar e fazer-nos participar da sua vida. Esse é o começo e a meta final. Mas, no meio se encontra ainda outra coisa. Cristo é Deus e homem e, quem quer partilhar a sua vida, deve fazer parte de sua vida divina e humana. A natureza humana que Ele aceitou, deu-lhe a possibilidade de sofrer e morrer; a natureza divina, que Ele possui desde toda a eternidade, deu à sua paixão e morte um valor infinito e uma força redentora. A paixão e morte de Cristo continuam no seu corpo místico e em todos os seus membros. Todo homem tem que sofrer e morrer. Porém, se ele for membro vivo no corpo de Cristo, então, o seu sofrimento e sua morte adquirem pela divindade de seu corpo, força salvadora. Esta é a causa objetiva por que todos os santos desejam sofrer. Não se trata de um prazer doentio de sofrer. Aos olhos da razão natural, isto pode parecer perversidade. À luz do mistério da redenção, contudo, isto se revela de maneira sublime. E assim a pessoa -ligada- a Cristo, mesmo na noite escura do distanciamento subjetivo de Deus e abandono, persistirá; talvez a divina providência permita o tormento, para libertar a pessoa objetivamente aprisionada. Por isto: “Seja feita a Vossa vontade”, mesmo quando na noite mais escura.

Cap. IV – MEIOS SALVÍFICOS

Será que podemos falar alto “seja feita a Vossa vontade”, quando não temos mais a certeza daquilo que a vontade de Deus exige de nós? Temos meios para permanecer no Seu caminho, quando se apaga a luz interior? Existem tais meios, e tão fortes, que o erro, apesar das possibilidades, de fato se torna infinitamente improvável. Deus veio para nos salvar, se nos unirmos a Ele, se conformarmos a nossa vontade com a Sua. Ele conhece a nossa natureza. Ele conta com ela, e por isso nos deu tudo, que nos pode ajudar, para alcançar o fim.

O Deus-Menino se tornou nosso permanente mestre para nos dizer o que devemos fazer. Para que a vida humana seja inundada da vida divina, não basta uma vez por ano, ajoelhar-se diante do presépio e deixar-se cativar pelo encanto da Noite Santa. Para isto, devemos estar em comunicação diária com Deus, ouvir as palavras que Ele falou e que nos foram transmitidas, e segui-las. E, antes de tudo, rezar, como o Salvador mesmo ensinou e sempre de novo incutiu insistentemente. “Pedi e recebereis”. Esta é a promessa segura de atendimento. E quem fala diariamente, de coração, “ ó Senhor, seja feita a tua vontade”, pode confiar, que não desrespeita a vontade divina, onde subjetivamente não tem certeza.

Além disso, Cristo não nos deixou órfãos. Ele mandou o seu Espírito, que nos ensina toda a verdade; Ele fundou a sua Igreja, que é conduzida pelo seu Espírito, e estabeleceu nela os seus representantes, pela boca dos quais o seu Espírito fala para nós com palavras humanas. Nela uniu os fiéis em comunidade e deseja que um ajude o outro. Assim, não estamos sós, e onde fracassa a confiança em si mesmo e a própria oração, aí ajuda a força da obediência e a força da intercessão.

“E o Verbo se fez carne”. Isto se tornou realidade no estábulo de Belém. Mas cumpriu-se ainda de outra maneira. “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, este terá a vida eterna”. O Salvador que sabe que somos e permanecemos humanos, tendo que lutar dia após dia, com fraquezas, vem em auxílio da nossa humanidade de maneira verdadeiramente divina. Assim como o corpo terrestre precisa do pão cotidiano, assim também a vida divina em nós precisa ser alimentada constantemente. “Este é o pão vivo que desceu do céu”. Quem come deste pão todos os dias, neste se realizará, diariamente, o mistério do Natal, a Encarnação do Verbo. E este, certamente, é o caminho mais seguro, para se tornar “um com Deus” e de penetrar dia a dia de maneira mais firme e mais profunda no Corpo Místico de Cristo. Eu sei que para muitos pode parecer um desejo por demais radical. Para a maioria, isto significa, começar de novo, uma reorganização de toda a vida interna e externa. Mas deve ser assim! Na nossa vida deve se criar espaço para o Cristo eucarístico, para que Ele possa transformar a nossa vida na sua vida: será que é exigir demais? A gente tem tempo para tantas coisas fúteis, tantas coisas inúteis: ler livros, revistas, jornais, freqüentar restaurantes, conversar na rua 15 ou 30 minutos, tudo isto são “dispersões”, onde esbanjamos tempo e força. Não se poderá reservar uma hora pela manhã, para se concentrar, e ganhar força, para enfrentar o resto do dia? Mas, na verdade, é necessário mais que uma hora. Devemos viver de tal maneira, que uma hora se suceda à outra e estas, prepararem as que vierem. Assim, não será mais possível “deixar-se levar” mesmo temporariamente pelo afã do dia. Com quem se vive diariamente, não se pode desconsiderar o seu julgamento. Mesmo sem dizer palavras, percebemos como os outros nos consideram. Tentamos nos adaptar conforme o ambiente e, se não conseguimos, a convivência se torna um tormento. Assim também acontece na comunicação diária com o Senhor. Tornamo-nos cada vez mais sensíveis àquilo que Lhe agrada ou desagrada. Se antes, estávamos mais ou menos contentes com nós mesmos, agora isto se torna diferente. E descobriremos em nós muita coisa que precisa ser melhorada e outras que às vezes, são quase impossíveis de serem mudadas. Assim nos tornaremos pequenos, humildes, pacientes e condescendentes com o “cisco no olho de nosso próximo”, pois a “trave” no nosso olho nos incomoda. Finalmente, aprenderemos a aceitar-nos tal qual somos à luz da presença divina e a nos entregar à divina misericórdia, que poderá vencer tudo aquilo que está além de nossas forças.

Da auto-suficiência de um “bom católico”, que “cumpre com seus deveres”, que “lê um bom jornal” e “vota certo” etc. – mas que, no entanto, pratica o que ele bem quer – há um longo caminho até chegar a viver na mão de Deus e da mão de Deus, na simplicidade da criança e na humildade do cobrador de impostos. Mas quem uma vez andou, não voltará atrás. Assim, filiação divina quer dizer: tornar-se pequeno e, ao mesmo tempo, tornar-se grande. Viver da eucaristia quer dizer: sair, espontaneamente da estreiteza da própria vida e penetrar na amplitude da vida de Cristo. Quem visita o Senhor na sua casa, não quer se ocupar sempre e somente com seus problemas. Vai começar a interessar-se pelas coisas do Senhor. A participação no sacrifício diário nos leva livremente à totalidade litúrgica. As orações e os ritos do culto divino nos apresentam, no decorrer do ano litúrgico, a história da salvação diante da nossa alma, deixando penetrar-nos sempre mais profundamente no seu sentido.

E a ação sacrificial nos impregna sempre de novo o mistério central de nossa fé, o ponto angular da história universal: o mistério da Encarnação e Redenção. Quem poderia com coração aberto participar do santo sacrifício, sem ser envolvido por este espírito de sacrifício, sem ser tomado pelo desejo, dele mesmo e com sua pequena vida pessoal, se integrar na grande obra do Salvador? Os mistérios do cristianismo são um todo indiviso. Quando nos aprofundamos num deles, seremos conduzidos para todos os outros. Assim, o caminho de Belém conduz, seguramente, para o Gólgota; do presépio para a cruz. Quando a bem-aventurada Virgem levou a criança para o templo, foi-lhe profetizado que uma espada atravessaria a sua alma, e que esta criança seria a causa da queda e do reerguimento de muitos; um sinal de contradição. É o anúncio da paixão, da luta entre a luz e treva, que já se manifesta no presépio.

Em alguns anos a apresentação do Senhor coincide com a septuagésima, a celebração da encarnação e a preparação para a paixão. Na noite do pecado brilha a estrela de Belém. No esplendor da luz, que sai do presépio, cai a sombra da cruz. A luz se apaga nas trevas da sexta-feira santa, mas se levanta com mais fulgor, como sol da graça, na manhã da ressurreição. Através da cruz e da paixão para a glória da ressurreição, foi o caminho do Filho de Deus encarnado.

Chegar com o Filho do Homem, pela paixão e morte à glória da Ressurreição, é o caminho de cada um de nós, por toda a humanidade.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Mistério do Natal – Santa Edith Stein – Tradução de Hermano José Cürten – Edusc Editora
Postado por Luciano Dídimo.

Publicado em OCDS  – Província São José.

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